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AS VEIAS ABERTAS DO RIO DE JANEIRO

AS VEIAS ABERTAS DO RIO DE JANEIRO

Algumas capitais do mundo contemporâneo foram deslocadas de suas geografias e passaram a integrar uma comunidade internacional, sem língua oficial, nem cultura própria. São locais onde o número de turistas e o de habitantes se aproxima e esses conceitos se confundem. A exemplo disso, temos o Rio de Janeiro que recebeu 1,61 milhão de visitantes estrangeiros no ano passado, contra 1,49 milhão em 2009, um acréscimo de 120 mil pessoas.

Segundo Oskar Metsavaht, um empresário do setor têxtil, o que faz do Rio um polo turístico com média de ocupação hoteleira de 73% durante todo o ano não são suas atrações turísticas ou sua oferta de produtos e serviços, mas a imaterialidade do lifestyle. A descontração do povo, as belas mulheres que já saem de casa com roupa de banho a caminho da praia, aliás, praias públicas, a quantidade de pubs ingleses e cafés parisienses, misturados com shopping centers novaiorquinos e casas noturnas em estilo alemão… Ah, e os fast food de comida japonesa! Sem falar dos nossos hotéis boutique, nossos museus, galerias de arte e as bibliotecas. O mundo todo num só lugar (cinco bairros da zona sul).

REDUZINDO A VELOCIDADE

No entanto, a circulação de pessoas em todo o mundo é facilitada ou reprimida de acordo com interesses político-econômicos como no caso da barreira entre Estados Unidos e México ou socioculturais como os muros construídos em todo o continente europeu. Seguindo essa tendência global, foram erguidas barreiras acústicas ladeando as principais vias expressas que atravessam a cidade para que os moradores das favelas não fossem incomodados pelo ronco dos motores e buzinas. Acompanhe no vídeo abaixo a reação dos moradores.

Nem só de muros são feitas as nossas estradas, há pontes também. E delas pendem paralelepípedos na altura dos para-brisas dos carros. O motorista nessas ocasiões podem parar e esperar pelo assalto ou avançar e estilhaçar o vidro. Quando essas pedras se soltam ou são soltas, os acidentes vão parar nos jornais e só em caso de vítimas fatais é que ganham a primeira página. Afinal, a notícia já não é tão fresca como o asfalto que cobre a pista pedagiada.

AS EMISSÕES DE CARBONO

Essa cidade que sediou o Pan Americano, os Jogos Mundiais Militares e se prepara para a chegada de um maior fluxo de pessoas atraídas pelo festival de música Rock in Rio (o maior do mundo), a Copa das Confederações e a Copa do Mundo além das Olimpíadas está congestionada. O transporte inclusive foi uma das preocupações dos organizadores do evento de música que irão disponibilizar ônibus especiais em locais estratégicos para evitar segundo eles a emissão de monóxido de carbono. Outro motivo é que não haveria local para estacionar um carro por pessoa, como é o costume e seria impossível coibir a ação dos flanelinhas. Para quem não conhece, são pessoas que saem dos bolsões de pobreza e loteiam os espaços públicos para cobrar dos motoristas uma taxa de estacionamento. Quem se recusar a pagar pode ter sua pintura arranhada.

Ainda sobre os veículos particulares automotivos, receberam registro 1.861.198 carros em fevereiro de 2011, contra 1.436.740 no mesmo mês de 2002. São 424 mil automóveis a mais, numa estrutura viária sem melhorias significativas nos transportes coletivos. No período, segundo o IBGE, a população da capital cresceu 7%. Hoje com 6.320.446 habitantes.

MOTORISTAS DE ALUGUEL

Com quase a mesma quantidade de táxis que São Paulo (32 mil motoristas licenciados), e com a metade de seu tamanho, o Rio de Janeiro tem 1 taxista para cada 198 habitantes. Com tantos veículos nas ruas, especialistas dizem que o número deveria ser 30% menor.

Mesmo que a Lei Orgânica do município determine que a capital fluminense deve ter uma frota de 23 mil táxis, ou seja, quase dez mil carros a menos do que existe atualmente, os taxistas continuam tendo suas licenças renovadas e outros ainda circulam sem licença causando protestos entre os legalizados e insegurança entre os clientes.

Decisão da 13ª Vara de Fazenda Pública, de 8 de maio, determina que o município está impedido de conceder novas permissões para taxistas ou auxiliares antes que seja estabelecido o processo administrativo, com critérios rígidos que comprovem a habilidade de dirigir. A Secretaria Municipal de Transportes disse que cumpre a determinação legal.

Porém, manifestantes do movimento “Diárias Nunca Mais” apresentaram documento que comprova a inscrição de novo motorista. A licença foi emitida em 29 de junho — portanto, após a decisão — autorizando Alex Sales Franca a dirigir táxi como auxiliar.

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ESPAÇO OCUPADO X ESPAÇO PERCORRIDO

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As fotos abaixo, feitas na cidade de Munster na Alemanha, mostra um grupo de 54 pessoas e o espaço que elas ocupariam se cada uma estivesse utilizando um carro. Mostra também o espaço que ocuparia um ônibus com todas estas 54 pessoas dentro, e o espaço ocupado por 54 bicicletas.

O ESTADO DE CONSERVAÇÃO DOS ÔNIBUS

Conforme nos informa o Jornal do Brasil “O relatório de Junho de 2011 sobre a verificação de ônibus municipais feito pela Subsecretaria de Fiscalização (SubF) de Transportes apontou que 31,37% dos coletivos fiscalizados no mês foram reprovados. Dos 204 ônibus avaliados, em diferentes pontos da cidade, 64 foram retirados de circulação por não estarem de acordo com as exigências da Prefeitura para a prestação adequada deste serviço de transporte urbano à população.”

O PREÇO DAS VIAGENS NOS ÔNIBUS

Em Janeiro desse ano, a tarifa para o transporte público intermunicipal passou de R$ 2,35 para R$ 2,50, um aumento de 5,63%. Apesar do valor alto, os cariocas possuem o Bilhete Único, um projeto semelhante ao da capital paulista em que o usuário no espaço de duas horas paga apenas a primeira passagem caso precise pegar outra condução até o seu destino.

O sistema implantado pelo governo do estado, aumenta o número de pessoas nas ruas sem aumentar o número de coletivos, haja visto que estes estão em péssimas condições (de acordo com a pesquisa por amostragem).

O COMBUSTÍVEL PARA MOVER OS ÔNIBUS

Com o objetivo de tornar o ar da cidade mais limpo, cerca de 20 ônibus que operam na Zona Sul da cidade circularão com 30% de biodiesel misturado no combustível. Uma parceria feita entre o O governador Sérgio Cabral, a Petrobrás, a Amyris Brasil Ltda., uma subsidiária da Amyris, Inc. Com incentivo do BNDES garante o fornecimento desse material. Os resultados do teste na frota serão apresentados na Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável (Rio+20) que acontece no Rio em Junho de 2012.

Em uma cidade como o Rio de Janeiro que tem mais de 8.000 ônibus que consomem aproximadamente 280 milhões de litros de diesel por ano, parece tímida a iniciativa que é bradada como pioneira no país e a mais ousada já que não há fabricas e menos ainda demanda para isso.

OUTRA SOLUÇÃO SERIA A RBS

A Prefeitura do Rio implantou em Fevereiro deste ano o BRS (Bus Rapid System), um corredor expresso que inicialmente foi testado em Copacabana, mas que até o fim do ano chegarão a Ipanema e Leblon. As linhas de ônibus que passam pelo bairro estão divididas em três grupos com 17 pontos de parada distribuídos pela avenida, priorizando o acesso ao metrô e a pontos de interesse. Segundo a Secretaria Municipal de Transportes, a redução da frota circulante no bairro aumentará a velocidade operacional dos ônibus, que passará dos atuais 13km/h nos horários de pico para 24km/h, ou seja, quase o dobro. A expectativa é que o passageiro possa cruzar o bairro em um tempo até 40% menor.

Esse mesmo local onde os pontos de ônibus estão mais espaçados, concentra a maior concentração de moradores com mais de 60 anos do país. Em 2004 segundo o IBGE, eles são 13,8% da população da região metropolitana. Copacabana é o bairro carioca que mais abriga idosos. Com base nisso é preciso pensar a quem interessa diminuir a quantidade de coletivos circulando no bairro.

A multa para carros comuns que forem flagrados transitando nas faixas seletivas é de R$ 53. O corredor exclusivo para os ônibus funciona de segunda a sexta-feira, de 6h às 21h, e sábado, de 6h até as 14h.

Já na Zona Norte, as ruas Conde de Bonfim e Haddock Lobo, na Tijuca, e Rua Vinte e Quatro de Maio e Avenida Marechal Hermes, no Méier, também serão contempladas. Outro bairro que faz parte do projeto é o Centro, com as avenidas Presidente Vargas e Rio Branco, e Rua Primeiro de Março. No entanto, o sistema deve ser implantado até 2012.

Foram distribuídos folhetos explicativos apenas nos pontos de ônibus. A população de outros bairros acaba ficando confusa na hora de voltar pra casa. Ao tentar se localizar pela publicidade afixada nos terminais de embarque, percebe-se que ela é pouco intuitiva e o material utilizado não resiste ao vandalismo.

BRS

BICICLETA DÁ SAMBA

Bicicletas são veículos para transporte individual que não geram poluentes durante a sua utilização. Há quem diga que o alumínio usado na fabricação desse tipo de transporte é extraído e processado de maneira pouco sustentável e que ele contamina o ar, a terra e o lençol freático. Contudo os ecologistas preferem a bicicleta ao carro e tem boas razões para isso. Considerando o barulho, o custo de manutenção, a quantidade de combustível consumido, o número de vagas para estacionar… e principalmente os materiais alternativos como fibra de carbono e bambu.

A prefeitura do Rio se inspirou no projeto francês e criou o SAMBA, Solução Alternativa para a Mobilidade por Bicicletas de Aluguel. Veja no vídeo abaixo, como funciona:

O sistema de Bicicletas Públicas foi lançado em Janeiro de 2009, após licitação realizada pela prefeitura, com previsão de implantação de até 50 estações e 500 a 1000 bicicletas, nos bairros de: Copacabana, Leblon, Ipanema, Lagoa, Botafogo, Flamengo, Centro e Tijuca. Até o momento foram implantadas 19 estações nos bairros de Copacabana, Leblon, Ipanema e Lagoa.

Na capital francesa, foram instaladas mais de 1,4 mil estações com cerca de 20 mil bicicletas. Paris possui 400km de ciclovias contra 150km no Rio, mesmo assim, é a segunda maior malha cicloviária da América Latina . Só perde para a cidade de Bogotá, na Colômbia (com 240km) .

OS DEVERES E DIREITOS DOS CICLISTAS

O Art. 59 do novo código de trânsito estabelece que: nas vias urbanas e rurais de pista dupla, a circulação de deverá ocorrer, quando não houver ciclovia, ciclofaixa ou acostamento, ou quando não for possível a utilização destes, nos bordos das pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação regulamentado pela via, com preferência sobre os veículos automotores.

Em seguida, no artigo 60, “Desde que autorizado e devidamente sinalizado pelo órgão ou entidade com circunscrição sobre a via, será permitida a circulação de bicicletas em passeios”.

O próprio código de trânsito afirma que a construção de novas ciclofaixas tem pouco valor. Necessária e urgente é a criação de uma campanha campanha permanente que incentive o uso da bicicleta assim como existe aquela que alerta para os acidentes automobilísticos e principalmente um alerta para o respeito aos ciclistas que muito sofrem com a imprudência dos motoristas.

A AMPLIAÇÃO DA CICLOFAIXA

Pelos dados do Instituto Pereira Passos, 2,7% da população carioca usam a bicicleta como meio de transporte, sendo que 18% desse total residem em Santa Cruz, na Zona Oeste da cidade. Lá 75% dos moradores pedalam para se locomover. Visando a melhoria das condições de tráfego dos ciclistas, a Prefeitura anunciou ainda em 2010 que construiria a segunda maior ciclofaixa da cidade. Após a inauguração do traçado, uma reportagem do jornal O Globo chama a atenção para algumas falhas do projeto.

“A Secretaria municipal de Meio Ambiente (Smac) disse na segunda-feira que a prefeitura deu um prazo até o dia 12 de junho de 2011 para que a construtora Andrade Gutierrez corrija todas as falhas identificadas na ciclovia da Zona Oeste . Apesar de a ciclovia ter sido inaugurada no domingo, dia 22, na semana passada o engenheiro do Crea Abílio Borges encontrou rachaduras, obstáculos (orelhões e postes) e pilares de passarelas com problemas estruturais, entre outras falhas. A Andrade Gutierrez confirmou que as correções serão feitas até o dia 12 de junho, sem custos adicionais para a prefeitura, que pagou quase R$ 20 milhões pela obra de implantação de 22 quilômetros de ciclovia e serviços de urbanização. “ – Jornal O Globo 31/05/2011

Apesar dos números, dos protestos e da clara falta de atenção aos interesses da população, a prefeitura e o governo do estado continuam fazendo obras que visam melhorar o caótico trânsito da cidade. As intenções são as melhores, as justificativas são pouco convincentes e os problemas se acumulam.

Em uma próxima oportunidade, voltarei a este assunto, de forma menos fragmentada e abordarei outros aspectos da circulação de pessoas como as motos, as vãns, os trêns, o metrô e as barcas. Todas com seus respetivos defeitos apontados e soluções incompletas visando interesses que não são os nossos.

MUITO ALÉM DO CARTÃO POSTAL

 

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NÃO USE A POBREZA, USE A GENTILEZA

O circo pega fogo

Era uma tarde de Dezembro no Rio de Janeiro, Niterói era então a capital e havia um circo recém-chegado na cidade. O Gran Circus Norte-Americano fez sua estréia no dia 15. Ficaria ali montado até o Natal com exibição de espetáculos diários. Estamos em 1961 no estado da Guanabara, como foi chamada única a cidade-estado que o país já teve. Dois anos depois, foi realizado um plebiscito em que a população escolheu torná-la apenas um município, um desejo que só foi concretizado durante o governo do general Ernesto Geisel, em 1974.

Danilo Stevanovich, dono do circo, fazia uma grande publicidade em torno do empreendimento que era anunciado como o maior e mais completo circo da América Latina. Contava com 150 animais, sessenta artistas e vinte empregados e uma nova lona de seis toneladas toda de nailon.

Uma semana antes da inauguração, foram contratados mais 50 trabalhadores avulsos para a montagem do circo na Praça Expedicionário, no centro da cidade. Um deles, Adílson Marcelino Alves, o Dequinha, tinha antecedentes por furto e apresentava problemas mentais, trabalhou dois dias e foi demitido. Inconformado, pssou a rondar as imediações do circo.

A procura por ingressos no dia da inauguração acabou deixando muitas pessoas do lado de fora pois já havia esgoado a capacidade. Dequinha tentou entrar sem pagar mas Edmílson Juvêncio, tratador dos elefantes o reconheceu e o expulsou dali. No dia seguinte o ex-funcionário continuava perambulando pelo circo e começou a provocar Maciel Felizardo, outro funcionário, que era constantemente acusado de ser o culpado da demissão de Dequinha. Seguiu-se uma discussão e Felizardo agrediu Dequinha, que reagiu e jurou vingança.

Na tarde de 17 de dezembro de 1961, um domingo de muito sol, aconteceu a primeira matinê da temporada, haviam 3000 pessoas reunidas para ver o espetáculo. Dequinha convidou José do Santos, o “Pardal”, ladrão que cumpria 10 anos de cadeia e que estava nas ruas sob licença especial do diretor do presídio; e Walter Rosa dos Santos, o “Bigode”, um sem-teto e alcóolico para ir até local, segundo ele, saldar uma dívida que tinha com o dono do circo. Além dos três, estavam a companheira de Bigode, Regina Maria da Conceição, e a companheira de Pardal, Dirce Siqueira de Assis.

O grupo se encontrou em um local denominado Ponto de Cem Réis, no bairro Fonseca para decidir o que fazer. No meio do caminho, Bigode comprou um litro de gasolina num posto, por 20 cruzeiros. Bigode e Dequinha entraram sem pagar, removendo uma folha de zinco e passando por baixo da lona. Minutos antes do fim das apresentações, quando os trapesistas executavam seus malabarismos, Maciel Felizardo notou a presença de Dequinha e foi aí que veio a ordem de botar fogo no circo.

Um jogou a gasolina, o outro ateou fogo. A lona não era de nailon, e acabou cedendo. O público era formado 70% por crianças. Em 50 minutos, só haviam cnzas para o rescaldo dos bombeiros. O saldo final foi de 500 mortos, o bando todo preso, as mulheres absolvidas e o restante condenado ao regime fechado. Dequinha foi assassinado um ano depois quando já havia fugido da prisão.

Os feridos foram socorridos no Hospital Universitário Antônio Pedro, que recebeu inúmeros voluntários para doação de sangue, alimentos e medicamentos, arrecadados também em postos de coleta espalhados por vários pontos da cidade.

O profeta que nasceu das cinzas

Entre as pessoas comovidas com a trajédia estava um paulista da cidade de Cafelândia, agricultor e pecuarista que aos 12 anos recebeu uma missão: abandonar tudo e se dedicar ao próximo. Mas receberia um sinal quando esse momento chegasse, dizeiam as “vozes astrais”. Seus pais, muito preocupados, procuraram curandeiros e rezadeiras para tratar do filho que parecia estar sofrendo de alucinações.

Para José Datrino o incêndio do circo que para era uma metáfora do incêndio do mundo. Porque o mundo era redondo e o circo arredondado, como ele mesmo dizia. Era o sinal que ele esperava. Abandonou tudo, mudou de nome, agora se chamava “José Agradecido” e seguiu para Niterói onde ficou conhecido como “Profeta Gentileza”.

Chegou ao local com um de seus caminhões, era já um empresário e tinha 44 anos. No terreno do incêndio ele plantou um jardim e uma horta entre as cinzas e ali morou por quatro anos. Foi um consolador voluntário, que confortou os familiares das vítimas da tragédia com suas palavras de bondade. Quis mostrar para todos o real sentido das palavras Agradecido e Gentileza.

Depois disso, passou a circular por toda a cidade. Era visto em ruas, praças, nas barcas da travessia entre as cidades do Rio de Janeiro e Niterói, em trens e ônibus, fazendo sua pregação e levando palavras de amor, bondade e respeito pelo próximo e pela natureza a todos que cruzassem seu caminho. Aos que o chamavam de louco, ele respondia: – “Sou maluco para te amar e louco para te salvar“.

Alguns se recordam dele com um certo temor, segundo um artigo publicado no Jornal do Brasil, ele atacava mulheres de minissaia, saltos ou maquiagem muito carregada. Versão essa na época muito criticada e desmentida em diversos artigos. Para a maioria ele sempre o autor de um livro urbano, de 56 páginas pintado nos pilares do Elevado da Perimetral, na entrada da cidade. Próximo da rodoviária Novo Rio.

A distância total percorrida é de 1,5 km de inscrições propondo sua crítica do mundo e sua alternativa ao mal-estar de nossa civilização escritas a partir de 1980 e colocados na altura das janelas dos ônibus para que pudessem ser lidos. Foi nesse período também que ganhou uma homenagem feita por Gonzaguinha, a música “Gentileza”.

Gentileza denunciava o mundo, regido “pelo capeta capital que vende tudo e destrói tudo”. Mas anunciava a “gentileza que é o remédio para todos os males”. Não pedia esmola nem aceitava se oferecessem, pelo contrário, dizia que mais vale a alma do que o dinheiro.

A memória é uma ilha de edição

Em 28 de maio de 1996, aos 79 anos, faleceu na cidade de seus familiares, onde se encontra enterrado, no “Cemitério da paz”. Seguiu-se então um processo de degradação da sua memória. Os murais foram vandalizados por meses até que em 1996, no último ano do mandato, o então prefeito César Maia (PMDB) mandou que a Companhia de Limpeza Urbana (COMLURB) apagasse os murais.

A partir deste eposódio surgiu um movimento chamdo http://www.riocomgentileza.com.br que buscava resgatar a história, o universo deste persoagem da crônica urbana e sua obra. Entre as ações de protesto destaca-se a música de Marisa Monte.

Três anos depois, Luiz Paulo Conde, ex-secretário municipal de urbanismo do governo anterior, e eleito prefeito da cidade, começa a restauração dos murais que só foi concluída em 2000.

Sua memória hoje conta com livro, documentario, personagem de novela e até samba-enredo feito pela Acadêmicos do Grande Rio em 2001. Leonardo Caravana Guelman, arquiteto e professor da Universidade Federal Fluminence (UFF) esteve à frente de duas obras de restauro, a segunda iniciada em abril de 2010 diz: “Esta ação é uma forma de humanizar a cidade, as obras do Gentileza precisam ganhar vida,” disse Leonardo.

 

Dois documentários podem ser vistos sem necessidade de baixar ou pagar por ele, como desejava o profeta. O primeiro é de 1994 e foi dirigido por Dado Amaral e Vinícius Reis. Tem 9 minutos e está disponível no site http://www.portacurtas.com

Esse mesmo diretor criou outro documentário em 2009 chamado “Porrr Gentileza” mas ele não foi localizado durante a pesquisa. Quem souber onde ele esá disponível deixe o endereço na área de comentários.

Outro vídeo que chama a atenção foi feito pela Escola de educação audiovisual Nós do cinema 2004 e pode ser visto aqui.

MUITO ALÉM DO CARTÃO POSTAL APRESENTA “ONDE A CORUJA DORME”

ONDE A CORUJA DORME

“Malandro que é malandro não teme a morte. Malandro que é malandro vai pro norte. Enquanto os patos vão pro sul” (Zeca Baleiro).

Foi em Copacabana, nos anos 60, que, junto com a Bossa Nova, nasceu uma loja de discos única na cidade. Ela ficava na Rua Barata Ribeiro e exibia em seu letreiro a pomposa frase “Modern Sound – a música do mundo”. Sinal dos tempos, a loja que contava com shows de música ao vivo e um bistrô acabou fechando no último dia do ano de 2010, acumulando R$ 350.000,00 em dívidas. Os donos resistiram, durante os últimos anos, aos avanços da tecnologia e a distribuição de cedês em bancas de revista e supermercado pelos próprios fabricantes, que alegavam se defender da pirataria de rua e dos mecanismos de compartilhamento na web.

Como já dizia Darwin, o mundo pertence aos mais adaptados, e não aos mais fortes. E com base nesse movimento pendular do capitalismo (ou você achou que ele falava de natureza?) que ora sopra a favor, ora contra, que Marcelo D2 abriu mão de liderar a banda Planet Hemp e passou a misturar hip hop com samba, mantendo sua brasilidade e ampliando seu público ouvinte. Com isso ele passou a ter a simpatia das rádios, que tocam suas músicas com mais frequência. Recentemente, fez um disco onde canta as músicas do repertório de Bezerra da Silva. Por um lado resgatando a memória do sambista e por outro, recontextualizando as letras e mandando um recado para os próprios rappers. O disco está no mercado desde Novembro de 2010.

É o momento adequado para apresentar aos leitores do Polivocidade um documentário inovador, na forma e no conteúdo, chamado “Bezerra da Silva – Onde a Coruja Dorme”. Lançado em forma de curta em 2001, ganhou formato de longa e foi relançado no mercado em 2006. Confira abaixo a opinião da crítica e a seguir, assista o filme.

Luís Alberto Rocha Melo assina o texto publicado no site http://www.contracampo.com.br

Mais do que nas versões em curta e em média-metragem, é no longa Onde a Coruja Dorme que a idéia de um painel toma corpo. Não um painel dos compositores da periferia do Rio de Janeiro ou do samba de morro – universo com o qual lida o documentário –, mas algo talvez mais ambicioso: os diretores Márcia Derraik e Simplício Neto procuram traçar o painel de um país, ou melhor, de um determinado entendimento de país. A palavra é dada a compositores da Baixada Fluminense como Popular P, 1000tinho, Paulinho Alicate, entre outros, em grande parte desconhecidos do grande público, mas autores de alguns dos maiores sucessos gravados por Bezerra da Silva.

Onde a Coruja Dorme não é um retrato de Bezerra da Silva (no estilo “vida e obra”), muito embora o sambista ocupe um lugar privilegiado no conjunto do documentário. Também não procura ser o registro do cotidiano dos compositores em suas diversas outras profissões (bombeiro, carteiro, técnico de refrigeração etc.). O principal personagem de Onde a Coruja Dorme é a palavra, o discurso – e o seu ritmo. Letra e música, prosa e poética: o país é dito e lido pela ótica dos sambistas da Baixada Fluminense. Márcia Derraik e Simplício Neto registram essa leitura e a reelaboram num documentário de extrema fluidez e agilidade.

É Bezerra da Silva quem de certa forma dá corpo e unidade a esse discurso. Em um dado momento, um dos compositores afirma ter em casa uma enorme quantidade de músicas de amor. Nenhuma delas gravadas, pois Bezerra da Silva não canta o amor: “seria hipocrisia”. A conversa é necessariamente outra.

“Você com o revólver na mão é um bicho feroz/ Sem ele anda rebolando e até muda de voz”. Via Bezerra da Silva, é a ética da malandragem a base do discurso que interessa a Márcia Derraik e a Simplício Neto. Bem entendido: malandragem significa inteligência, nas palavras do próprio Bezerra. Longas seqüências do documentário dedicam-se a refletir sobre essa guerra entre malandros e otários, quase uma metáfora política do país. Através das rodas de samba, dos depoimentos e das imagens de arquivo (algumas delas fabulosas), discute-se o tráfico de drogas e de armas, os políticos picaretas e ladrões, os falsos pais-de-santo, os marginais otários e os marginais malandros, a violência generalizada da tortura policial, do racismo, da “deduragem” e de outras manifestações de falta de ética inadmissíveis para quem não vive a realidade da classe média e dos dóceis valores de solidariedade domingueira em torno da Lagoa ou da orla-Zona Sul.

A própria indústria fonográfica é acusada de explorar os anônimos compositores. Bezerra da Silva é o elo que une os dois pólos. Não por acaso, surge caminhando por uma favela e dando um depoimento com o morro em segundo plano, ou em seu escritório, cercado de discos de platina pendurados na parede. Bezerra da Silva tem livre trânsito entre os “homens de negócio” e a “malandragem” e provoca a mistura de uns com os outros, procurando reverter a situação para o lado mais fraco: acusado de fazer apologia à bandidagem, capitaliza sabiamente – malandramente – essa imagem que lhe impingem, como atestam as geniais e cinematográficas capas dos discos em que Bezerra surge como um criminoso, acuado num beco ou sendo levado para o xadrez.

De forma mais sutil, o próprio documentário, em sua inclinação antropológica, coloca-se em xeque, mais uma vez por intermédio do discurso. A gíria, forma de resistência e de afirmação, torna evidente a distância entre as classes sociais, entre os dois mundos contrapostos pelos personagens de Onde a Coruja Dorme. Os intelectuais e universitários falam uma língua ininteligível para a maior parte da população, e é dessa forma que a classe dominante exerce o seu poder; da mesma forma, o povo responde com a gíria, e se ela não consegue transformar o quadro de dominação, ao menos desequilibra a força do opositor. No filme, alguns personagens exemplificam para os entrevistadores determinadas expressões e códigos, e os explicam em seguida. O documentário assume seu “lugar”.

Tendo a honestidade de se colocar distante do universo retratado e, ao mesmo tempo, não cedendo à piedade típica dos documentários que insistem em ver no “povo” um inesgotável armazém de bondade humana, a tônica de Onde a Coruja Dorme é, enfim, a simpatia. Os documentaristas são bastante simpáticos aos compositores e estes, por sua vez, estão muito à vontade diante da câmera, o que evidencia um cuidado exemplar na condução das conversas, editadas com mestria. O que chama a atenção, porém, é que aqui não percebemos a intenção de transformar o documentário numa janela a revelar, por meio dos depoimentos, uma pretensa “realidade” até então não “notada”. O documentário é bastante explícito ao se assumir como recorte: o que interessa é dar voz, substância ao pensamento dos que estão sendo ali entrevistados.

Dar voz ao morro, como naquela clássica canção de Zé Kéti, é exatamente o que faz Bezerra da Silva. Com um gravador, o intérprete instrui os compositores desconhecidos a deixarem gravados os seus sambas; com o acesso que tem nas gravadoras, imortaliza essas criações que, sem essa intermediação, restariam provavelmente perdidas. São extremamente felizes as imagens em que os compositores, às vezes pouco à vontade, estão diante do gravador cantando suas composições acompanhados pelo ritmo das palmas da mão. A atitude que Márcia Derraik e Simplício Neto têm para com Bezerra da Silva parece ser conduzida pela admiração provocada por uma comunhão de propósitos: o grande sambista é antes de mais nada um grande documentarista.

Do nacional-popular ao musical-popular, Márcia Derraik e Simplício Neto sintonizam-se com uma particular sensibilidade contemporânea, isto é, ritmo e letra. Onde a Coruja Dorme pode ser visto como uma homenagem ao “cinema brasileiro possível”, aquele que se encontra não propriamente nas imagens, mas sobretudo na música.

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MUITO ALÉM DO CARTÃO POSTAL

Alice atravéz do espelho

Aconteceu em 2003 uma inusitada mostra de fotografia na cidade. Era Ernesto Baldan, fotógrafo de moda olhando para a periferia e tentando entender o que era aquele reboliço que viria a ser chamado de “a nova classe média” anos mais tarde. Incompreendida até hoje, essa nova emergência de modos, costumes e códigos propõe uma cultura que nunca foi exibida na TV. Pelo menos até a chegada das UPPs. Depois disso, a relação entre a mídia e a população se tornou menos hierarqueizada, consequência direta da internet 2.0 acessada a partir de lan houses. Estou falando de internet via cabo, não aquele wireless de pub inglês ou do café frances. Falo de um rapaz que pode escolher entre soltar pipa na laje ou pagar para acessar a rede mundial por uma hora, gastando em média R$ 3,00.

O outro aspecto da exposição que é preciso destacar além do objeto retratado foi o local de exposição e o público-alvo. Ao contrário de Sebastião Salgado que lança seus ensaios em edições de luxo, com capa dura e faz tiragens ampliações em número limitado, Ernesto Baldan preferiu expor nos shopping centers da periferia carioca. E vendeu o catálogo com 60 fotos por R$ 5,00 quase o mesmo valor de uma hora de lan house. E sabe qual era o nome da exposição? “Sem Vergonha”.


Texto de abertura do livro

Na bela exposição de fotografias de Thomaz Farkas, organizada recentemente pelo Instituto Moreira Salles, o espectador tinha a oportunidade de observar imagens de brasília em dois períodos históricos bem distintos: na época de sua construção e quase nos dias de hoje. Fiquei me perguntando se quem via as fotos dos anos 50 na época em que foram reveladas, tinha a mesma sensação ao me deparar com as imagens atuais. Thomaz Farkas me mostrava a beleza de objetos prosaicos de nosso cotidiano, aqueles que nunca consideramos belos.

Ficou na minha memória uma foto onde essas mesas de metal, comum nos bares mais populares, pintadas com as marcas de cerveja ou refrigerante, ocupava local de destaque. As mesas dos bares dos anos 50, olhadas com o distanciamento histórico das décadas que se passaram não envergonhasm mais ninguém. Pelo contrário, ganham a nobreza que o tempo dá para qual não existe mais. Mas a mesa de hoje, a que nossas “classes populares” usam todos os dias, parece agredir toda nossa noção de bom gosto, mesmo quando compõe fotos de enquadramento impecável.


Somos ensinados a ter vergonha diante de tudo que aparece e se torna popular, demasiadamente popular, agora, em “nossa” época. Depois tudo muda de figura: a música que é considerada brega, quando vira objeto de nostalgia, passa a ter uma aura de coisa “fina” ou “chique”. Foi isso, por exemplo, que aconteceu com a produção da Motown, que nos anos 60 era tratada como lixo por críticos e policiais do bom gosto, e hoje é item obrigatório em qualquer coleção de discos sofisticada. A passagem do tempo, incluindo o afastamento entre o gosto popular e aquela manifestação cultural, faz com que um trabalho de “descontaminação” nos símbolos, facilitando sua acessibilidade.

Outro exemplo de outra área: a nova arquitetura do Centro do Rio, no início do século XX, dava calafrios em críticos que defendiam o bom gosto contra as cópias cafonas de edifícios franceses, na mesma medida que hoje vemos tanta gente ter vertigens de horror, piedade e vergonha ao passar pela Avenida das Américas, na Barra da Tijuca. Mas hoje o Centro ganhou a pátina da credibilidade daquilo que já passou e todo mundo acha que a Cinelãndia vai ser sempre muito mais bela que ou interessante arquitetônicamente, que aquele encontro entre a Av. Das Américas com a Av. Airton Senna. Daqui a cem anos, quando uma outra Barra cair nas graças do gosto popular e “arrivista”, provavelmente as pessoas passaraão pelas ruínas di GameWorks e suspirarão com saudades de um tempo onde tudo era mais “digno”.
Esses suspiros são fáceis. O difícil é olhar para que é popular agora e afirmá-lo na sua complexidade e – porque não? – beleza, sem nenhuma vergonha. Não estou falando de um olhar irônico, que aceita tudo com um pé atrás, em território defendido por uma postura de quem na verdade acha que a vida toda é uma lástima. Estou falando de outra coisa: de uma aceitação trágica da vida, como ela acontece já não existe mais, ou num mundo perfeitinho (e tão chique e chato como um restaurante de decorador wallpaper), que nunca vai ser nosso mundo ( ainda bem, pois viver nesse mundo do bom gosto oficial seria morrer de tédio). Foi isso que eu aprendi vendo as fotos de Thomaz Farkas: tenho que gostar dessa mesa de ferro agora, antes que ela vire artigo hype e perca todo o seu encanto.

Nada mais fácil do que gostar da Jovem Guarda hoje. É um estilo tão “divertido”, não é? Mas mesmo Caetano Veloso precisou da bronca da Maria Bethânia – que lhe dizia: “vocês ficam com esse papo furado aí e o que interessa mesmo é o Roberto Carlos. Vocês já viram o programa da Jovem Guarda na televisão? É genial, Roberto Carlos é quem tá com tudo. Tem força, não é essa coisa furada aí.” – para prestar atenção naquilo que estava acontecendo, e que o bom-gosto de então classificava como lastimável. Essa atenção para a Jovem Guarda foi um elemento importantíssimo para a explosão do Tropicalismo.

Tente fazer a mesma coisa com as jovens-guardas de hoje. Tente dizer para os amigos que você gosta sinceramente de pagode com sintetizador, de axé music ou do Bonde do Tigrão. Tente colocar essas músicas na trilha sonora de um desfile da Sã Paulo Fashion Week. Pode colocar Abba, pode colocar até Korn, mas tocar o que é realmente popular e o que está perto da gente, sem truques distanciadores (seria fácil pinçar esses elementos e colocá-los numa moldura de editorial de moda, estilo revista “Dutch” – isso é ir no certo para agradar gringo que quer consumir nosso “exotismo”, isso é fazer macumba para turistas pós-modernos), para tocar isso é preciso ter muita coragem, é preciso ser muito sem-vergonha.


Por isso gostei tanto de ver o livro “Meninas do Brasil, de mari Stoker. Dá para perceber que ela gosta das roupas que as meninas do funk inventaram. Gosta, não como um artigo assim… “antropologicamente interessante”. Gosta mesmo! E vê naquele estilo algo tão criativo como uma desconstrução belga ou austríaca assinada por estilistas que a garotada favelada e suburbana brasileira desconhece e nunca vai ter dinheiro para vestir ( o que é uma pena – acho sim, que deveriam conhecer e poder usar roupas dessas grifes –imagine o pessoal dançando no baile funk com toda a coleção da Ann Demeulemeester – tudo bem, sei que ela não frequenta mais a lista das 100 pessoas mais poderosas da moda da “Face”, mas quem se importa com a “Face”?- ou com Dior Homme de Hedi Slimane!). O bom é que mesmo assim essas meninas dão aula de modernidade e independência para as grifes brasileiras que não fazem nada sem folhear as páginas de todas as revistas importadas que chagaram no mês passado na Letras & Expressões.

Por isso também gosto das experiências fotográficas de Ernesto Baldan, que andam sempre na contramão o bom-gostismo clean e correm todos os riscos, sem nenhuma vergonha de olhar de frente para o que acontece agora nas ruas brasileiras, para o que o povo gosta de ter inventado, povo que encara tudo como uma grande brincadeira (uso brincadeira pois ete é o termo que foliões de boi-bumbá, reisado, congada e outros “folclores” usam para se referir às suas festas – festas que eu e Ernesto documentamos no livro “Música do Brasil”), diante da qual só quem tem a cabeça envergonhada pode não achar graça (falo de graça não apenas no sentido de bom humor, mas graça como dádiva elegante, salvação quase divina).

Voltando ao baile funk, meu exmplo-para-tudo preferido desde os anos 80 e território amado pelo Ernesto: o desgoverno da apropriação das marcas de surf, junto com a calça da gang, oc centímetros de lycra deixando a barriga de fora, as microsaias, o descaso para com os mandamentos da indrumentária hip-hop, o físico malhado em academias da favela, a reinterpretação de tudo que é usado na novela ou no show da Sandy, ou de tudo que aparece na capa da “Caras”: essa é uma brincadeira da pesada, feita com ar de quem não quer nada, mas que acaba criando muito daquilo que mais interessante aparece na moda urbana.

Do lado positivo, mas muito próximo: preste atenção numa patricinha emergente da Barra. A ousadia e o descompromisso com as “referências” são completos e geram um barroquismo-fashion-pop de calibre poderoso ( o mesmo calibre que pode ser encontrado numa tarde de compras da Daslu, com aquela exuberante mistura de grifes caras, compradas – felizmente sem nenhum critério – por mulheres também graciosamente desgovernadas).


O mais bacana é que Ernesto não se contenta em registrar o que encontra nas ruas, nem tem a menor intenção de ser fiel à “realidade”. A rua é uma deixa, um impulso, e passa a “funcionar” no regime da imaginação e das obssessões do fotógrafo. Ernesto sabe que a brincadeira das ruas pede mais brincadeira, brincadeira ao quadrado, que possa voltar para a rua e cair na brincadeira novamente, criando outras maneiras de brincar – para quem entra na roda, só brinca bem, com pressão, quem não tem vergonha mesmo de mudar a brincadeira, até mesmo de introduzir elementos novos na brincadeira, gerando novos estilos brincantes para o mundo.


Ernesto sabe também que, no final das contas, não é preciso ter vergonha nenhuma da nova cultura de rua brasileira, e sobretudo não é preciso esperar o tempo ou um gringo qualquer vir nos dizer que essa cutura é cool. Ou – pra dizer logo tudo, de supetão, e no desabafo: não é preciso ter nenhuma vergonha do Brasil; nem da maneira espalhafatosa como usamos – sem nenhuma cerimônia – as informações que nos chegam do resto do mundo; nem de ter um presidente que não sabe falar inglês; nem de não ter a roupa que os ditadores da moda dizem que está na moda; nem de viver num país que tem uma economia popular que nunca se comporta como os “grandes investidores” gostariam que ela se comportasse; nem de inventar novas boas maneiras (que sempre inventamos) para o resto do mundo – mesmo quando o mundo raramente toma consciência de nossas invenções.


E ter asco,  de uma elite que macaqueia as cansadas novas tendências de “láfora” (inclusive as bobagens inventadas em MBAs de segunda, ou em congressos multiculturalistas de terceira, ou na Prada e nas cópias da Pradam ou no clube da ex-última-moda-pop de Williamsburg, ou um seminário anti-moda da aristocracia intelectual européia que sonha com um mundo pré-pop…), imitando tudo, timtim por tim tim, sem nenhum senso crítico, sempre querendo não ter nascido aqui (e querendo transformar isso aqui num simulacro ridículo de um primeiro mundo “fino”) e perpetuando assim a miséria – nunca cultural – da maioria da nossa população, que deveria – na vontade da elite – ter sempre vergonha de ser quem ela é, de se divertir da maneira que se diverte, de usar as roupas que usa, de gostar de comida a quilo (quando tem dinheiro pra tal) – a verdadeira fusion cuisine!, e tantas outras “manias” que irritam tanta gente “bem nascida”. Ainda bem que as palavras pseudo-civilizatórias dessa elite triste não são levada a sério pelo povo brasileiro, que continua não sentindo nada dessa vergonha que tentam lhe impor como condição humana. Pelo contrário: o povo brasileiro produz o tempo todo uma cultura sem vergonha de ser o que é, e de dizer o que quer ser, aqui e agora – inventando assim, cotidianamente, os atalhos para sua libertação.

Hermano Vianna – Antropólogo

MUITO ALÉM DO CARTÃO POSTAL

TODO PONTO DE LUZ

CRIA UMA ZONA DE SOMBRA 

A Constituição Federal de 1988 enumera cinco princípios pelos quais administração pública deve ser orientada, alicerçando o os três poderes e preservando o cidadão comum dos abusos cometidos outrora pela ditadura militar e seus atos institucionais. Os parâmetros desde então seriam os da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência.

O trauma causado por vinte anos sob o regime militar deixou sequelas: o uso abusivo dos meios de comunicação, numa simulada liberdade de imprensa que, apoiado no princípio da publicidade (sob o ponto de vista deles), filma e veicula qualquer fato ocorrido na esfera pública do poder ou na esfera particular de quem exerce esse poder.

Por outro lado, a justiça, tentando equilibrar os excessos, dá o direito de resposta na mesma proporção da ofensa. Ou nos casos de vazamento de informações confidenciais, abre-se uma sindicância, uma investigação interna, que pune os responsáveis, mas não evita o uso excessivo do princípio da publicidade.

Podemos resumir esse exemplo com três verbos, da primeira, segunda e terceira conjugação: aliciar, corromper e punir.

Quando é o administrador público que comete o excesso ou fere um princípio, dependendo da gravidade, pode figurar na capa do jornal ou no rodapé da página. Então, vamos aos destaques do noticiário local:

Seconserva – O patrimônio público e a emissora de televisão

Em Fevereiro deste ano, o Rio de Janeiro ganhou uma nova secretaria, a Seconserva (Secretaria Municipal de Conservação e Serviços Públicos) que segundo o decreto publicado no Diário Oficial, se dedicará exclusivamente a cuidar da manutenção da cidade. Essa nova célula irá englobar a Companhia de Limpeza Urbana (Comlurb), a Companhia Municipal de Energia e Iluminação (Rio Luz), a Coordenadoria Geral de Conservação (CGC) além da Comissão Coordenadora de Obras e Reparos em Vias Públicas e a Coordenadoria de Controle de Cemitérios e Serviços Funerários, que eram ligadas anteriormente à Secretaria de Municipal de Obras.

O trabalho de fiscalização na capital fluminense, passou a ser feito por 91 zeladores nas ruas das Zonas Norte e Sul a partir do dia 8 de março, comandados por de Carlos Roberto Osório, que deixou o cargo de secretário-geral do Comitê Organizador dos Jogos Rio 2016 para assumir a nova função.

Cada zelador vai percorrer, em média, sete quilômetros por dia para anotar os problemas cotidianos como iluminação, buracos, falta de sinalização adequada e outros. Inicialmente, eles vão trabalhar usando fichas de anotação, mas em pouco tempo vão receber palmtops (computadores portáteis) para fotografar, por exemplo, postes acesos durante o dia, e imediatamente enviar o flagra para o setor competente resolver.

O programa está nos bairros da Tijuca, Maracanã, Copacabana, Leblon, Irajá, Vista Alegre, Vila da Penha, Centro, Ilha do Governador, Campo Grande, Méier, São Cristóvão, Madureira, Santa Cruz, Bangu, Botafogo, Flamengo e Laranjeiras.

Desde o começo do trabalho, em Março, abrangendo inicialmente sete bairros da cidade, 78.341 não conformidades foram identificadas. Das ações em andamento ou que já foram solucionadas pelos órgãos, 68,38% são referentes à Zona Norte, 76,21% à Zona Sul e 75,46% à Zona Oeste.

Vemos então o princípio da eficiência, o da publicidade e da moralidade sendo cumpridos, já que a proporção percentual é a mesma para as três regiões da cidade. Porém, o papel da imprensa foi fundamental para a criação da nova pasta. Emissoras pequenas como a Bandeirantes, o SBT e a CNT há anos denunciavam a falta de conservação do patrimônio público, as obras inacabadas, a falta de sinalização e os buracos em via pública.

Ao contrário do que se poderia pensar, conforme indica pesquisa divulgada pelo instituto Datafolha, apenas 35% dos cariocas aprovam com ótimo ou bom a atuação de Paes. Enquanto 41% dizem ser regular e 21% disseram ser ruim ou péssimo.

Neste caso, cabe a pergunta: porque o prefeito decidiu criar essa sinergia ao contrário das antigas lideranças? Porque a Globo passou a usar o horário do jornal do meio-dia para fazer as mesmas denuncias que as outras emissoras e com isso, tentar recuperar a audiência perdida para a Record que vinha ganhando destaque por abrir espaço por explorar esse nicho de forma exaustiva. Isso nos leva a crer que o conforto e a segurança da população é uma mera consequência e não o objetivo dessa administração. Diriam alguns que o prefeito empossado em janeiro de 2009 teve pouco tempo para organizar uma equipe e dela extrair resultados, mas atentos aos noticiários, podemos citar outro caso onde a administração pública foi bastante eficaz embora dessa vez o conforto proporcionado só tenha beneficiado a própria prefeitura.

Cosip – Todo teatro tem uma coxia

No mesmo mês de Fevereiro, entre as comemorações do carnaval e a lista de material escolar, outro decreto foi publicado e dessa vez para regulamentar a nova taxa de iluminação pública com a finalidade de financiar a manutenção e ampliação da iluminação pública. A prefeitura do Rio espera arrecadar com a cobrança mais de R$ 150 milhões por ano.

O decreto só foi publicado no dia 26 de fevereiro, uma sexta-feira. Em 1º de março, segunda-feira, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, por meio do Promotor de Justiça Rodrigo Terra, titular da 2ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva do Direito do Consumidor e do Contribuinte da Capital, ajuizou na 3ª Vara Empresarial, ação civil pública com pedido de liminar conta a Light Serviços de Eletricidade S.A. O objetivo era impedir que a Contribuição Social de Iluminação Pública (COSIP) fosse cobrada na conta de luz dos moradores do Município do Rio.

Orla de Copacabana as escuras

Em dois parágrafos, rasgamos a Constituição Federal, vejam porque: o princípio da publicidade dias depois do carnaval não é razoável, a moralidade de se cobrar tanto pela iluminação pública que sempre esteve prevista no orçamento sem contar a eficiência que como veremos abaixo, é nula. Por último, a impessoalidade que é um princípio que diz que o benefício dos atos dos governantes deve ser partilhado por todos e não por ele e pelo grupo que ele determinar. Dito isso, segue-se em leitura.

A cobrança da COSIP, argumenta o MP, fere o direito dos consumidores de poderem contestar o valor da medição. “Caso o cidadão questione o valor de sua conta de luz, não poderá deixar de pagá-la sem que incorra no crime de sonegação fiscal, (com pena de 2 a cinco anos de prisão acrescido de multa) uma vez que, concomitantemente, deixará de pagar o tributo cobrado”, explicou Rodrigo Terra. Além disso, ele afirmou, a cobrança é inconstitucional porque condiciona o pagamento de um tributo ao fornecimento de um serviço.

O Promotor também questiona a Emenda Constitucional nº 39, de 19 de dezembro de 2002, que autorizou os Municípios e o Distrito Federal a cobrarem a Contribuição na fatura, mediante acordo com as concessionárias de energia elétrica. “A Emenda vai de encontro ao direito constitucional de exercício de ação e ainda precisa de uma manifestação do Supremo Tribunal Federal sobre sua aplicabilidade”, comentou.

Apesar de em Dezembro ter sido dado aos Municípios o direito de cobrar a Cossip, e muitos deles o fizeram, o Rio de Janeiro esqueceu-se da moralidade, apoiando-se apenas no princípio da legalidade, e segundo reportagem transcrita do jornal carioca O Dia, do dia 03 de Março de 2010, passou a cobrar a segunda maior taxa de iluminação do país.

Rio – A taxa de iluminação pública que o carioca começará a pagar em maio é uma das mais altas do País. Entre as 10 maiores capitais do Brasil, apenas Salvador pratica tarifas maiores do que as do Rio. Enquanto aqui a prefeitura estipulou em R$ 90 o valor mais alto para quem consome acima de 10 mil kw/h por mês, em cidades como São Paulo e Porto Alegre a taxa mais cara não chega a R$ 12, para comerciantes.

Ainda segundo a reportagem, a ação irritou o prefeito Eduardo Paes: “Se o promotor tivesse entrado com ação contra todos os municípios que cobram a taxa no estado, eu acreditaria na seriedade do promotor. Como ele entrou só contra o Rio, eu duvido da seriedade dele”. Terra rebateu: “O promotor da capital não tem poder de questionar a taxa de outros municípios. Mas meus colegas em outras cidades estão questionando-a”.

O prefeito perdeu a chance de ficar calado. Além de não respeitar a Constituição, ainda demonstra publicamente desconhecer as leis que regem o município e a atuação dele próprio e da justiça na defesa do interesse coletivo. E ainda vai ficar pior, acompanhe o raciocínio.

Mesmo com a intervenção do MP, a manchete que apareceu nos jornais cariocas em Julho era desoladora “Justiça derruba Cosip, mas taxa ainda vale”- Jornal Destak. Isso aconteceu porque a justiça entendeu que o princípio da publicidade não havia sido respeitado pela Câmara Municipal ao criar a taxa de luz em duas sessões nulas, no entanto o presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Luiz Zveiter, entrou com um recurso. E a Cosip permanecerá valendo até que receba sentença definitiva do STJ (Superior Tribunal de Justiça) o que deve levar pelo menos 3 anos.

O que permitirá que o prefeito atual cobre, receba e gaste todo o dinheiro arrecadado com a taxa de iluminação pública e deixe a sentença para ser cumprida pelo próximo a ocupar o cargo. Segundo as previsões, todo dinheiro arrecadado, no caso de uma condenação, terá que ser devolvido corrigido monetariamente e acrescido de juros, ou seja, até lá a dívida terá dobrado. Essa bomba irá estourar em 2013, um ano antes da Copa do Mundo.

O Assunto chegou no Twitter, que por meio da conta @cosip_ não nos mantém informados das notícias que comentam o assunto e amplifica a opinião dos descontentes, repassando para toda lista de seguidores qualquer manifestação contrária a essa taxa. Continuem por lá essa leitura crítica do noticiário local.

Mas antes, veja quem foram os vereadores que ajudaram a aprovar a Cossip.

MUITO ALÉM DO CARTÃO POSTAL: “Favela 2.0”

FAVELA 2.0

Quem não vive dentro de uma favela, só pode imaginar as coisas que acontecem ali dentro. De fora, quem olha consegue ver a casa com tijolo exposto, em lugares mais pobres, o barraco de madeira, e o grito das armas de foto que urram feito leões na floresta, causando espanto nos passarinhos.

Quem se atreve a olhar uma favela por dentro, se surpreende com as milhares de vozes que ali ecoam. A internet é uma ferramenta fundamental para mudar a cara que a favela tem no imaginário popular. Nessa floresta urbana, não existe Saci Pererê e nem Mula Sem Cabeça. São pessoas como eu e você.

Essas pessoas encontraram no funk uma maneira de se comunicar com o asfalto. Já que o contato físico não passa de um “bom dia”, as vezes nem isso, a música passou a mediar esse contato. Ela conta para os de fora o que acontece lá dentro.

Muito além de Cachorras e Tigrões que tocam por aí, existe uma organização sintática, que ainda precisa ter eco, mas que nunca foi tão bem aceita por que não é tão cínica como as bundas cantoras.

Jesus disse “se alguém bater em um lado de tua face, ofereça o outro”; pois bem, essa é a outra face do Funk.

DPQ entrevista MCs Junior e Leonardo – APAFunk 2008

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MUITO ALÉM DO CARTÃO POSTAL: “Faixa de Gaza Carioca”.

FAIXA DE GAZA CARIOCA

Há, no Rio de Janeiro, um conjunto de 12 favelas chamado Complexo do Alemão, onde vivem 97 mil famílias, segundo o último levantamento do IBGE. O bairro, que fica na Zona Norte da cidade e hoje é conhecido como “Faixa de Gaza”, foi construído sobre a serra da Misericórdia. Uma região rica em nascentes no começo do século XX, teve quase toda área verde desmatada para a construção de mais de 18.000 moradias e exploração do solo por mineradoras. O que tornou a maior parte dos cursos d’água em córregos de esgoto.

Foi neste local que, em 1952, que nasceu o cantor Elymar Santos, famoso nas churrascarias do Rio, onde começou sua carreira. Aos 33 anos, decidido a virar o jogo, vendeu tudo que possuía e com o dinheiro arrecadado, alugou a maior casa de shows do Rio de Janeiro.

A casa de Shows Canecão, localizada na Rua Venceslau Brás, em Botafogo, na Zona Sul da cidade, foi inaugurada em Junho de 1967. Projetada pelo arquiteto José Vasquez Ponte para abrigar uma grande cervejaria com um palco auxiliar, acabou se tornando o maior palco de espetáculos do Rio com um bar auxiliar.

Entre as atrações nacionais que por ali passaram, destacam-se Maysa, Elis Regina, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Clara Nunes e Elizeth Cardoso e entre os estrangeiros, podemos citar Stratovarius e Nightwish apenas para não alongar muito a lista.

Diz o site do Canecão:

“Com a vinda do Moulin Rouge para o Rio em 1972, por nossa iniciativa, outra grande modificação. Para receber um elenco numeroso, que contava, além de bailarinos, cantores e atrações circenses, até mesmo com um leão e 10 galgos, foram construídos camarins apropriados, coxias, novos recursos mecanizados para os cenários e ainda uma piscina de acrílico transparente com capacidade para 72 metros cúbicos de água!”

Foi em 1992 que o imóvel teria sido cedido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ, à empresa Canecão – Promoções e Espetáculos Teatrais S/A, por um prazo de cinco anos, mediante pagamento de aluguel com reajuste semestral.

O contrato de cessão expirou em janeiro de 1997 e a empresa foi notificada para desocupar o imóvel até 28 de outubro de 1999, o que não ocorreu. Segundo a decisão judicial de maio do ano passado pela reintegração de posse, o valor da indenização é de R$ 4 milhões.

Em Fevereiro de 2007, o Ministério Público Federal ofereceu denúncia contra os sócios Mario Hamilton Priolli e Manoel Ronald Priolli do Rego Valença, responsáveis pela administração do Canecão por fraude previdenciária, falsidade ideológica e estelionato.

A primeira acusação é de que a casa de espetáculos deixou de entregar à União contribuições previdenciárias recolhidas dos funcionários por 22 vezes, totalizando R$ 226 mil. Essa denúncia foi apresentada pelo procurador da República José Maria Panoeiro à 5ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro.

“Os denunciados deixaram de recolher valores que eram descontados dos contribuintes. Parcelaram o débito e, com isso, não foram processados antes. Agora, eles pararam de pagar o parcelamento e, por isso, estão denunciados”, afirma o procurador da República José Maria Panoeiro.

Para garantir o patrocínio da Petrobras, o empresário utilizou-se da empresa Canecão Promoção de Eventos Ltda, criada em 1997, em lugar da Canecão Promoções e Espetáculos Teatrais S/A, verdadeira razão social da casa de espetáculos com cerca de 40 anos.

Segundo a denúncia, ao usar outra pessoa jurídica, o empresário teve aprovado o projeto Canecão Petrobras junto ao Ministério da Cultura, valendo-se dos incentivos fiscais da Lei Rouanet e ocultando os débitos da Canecão Promoções e Espetáculos Teatrais S/A com o INSS, o que impediria que a casa de espetáculos celebrasse o contrato.

25/02/2008 – Procurada pelo O GLOBO ONLINE, a Petrobras afirmou que vai acatar a decisão do Ministério Público. A empresa recebeu uma notificação que a proíbe de repassar recursos do patrocínio para a casa de shows. O contrato fechado em 2007 prevê R$ 7,5 milhões ao ano até 2009. No ano passado, a estatal repassou 70% do total previsto. Em 2008 ainda não houve repasse. A assessoria de imprensa da Petrobras não informou o valor dessas parcelas, nem a periodicidade delas. A empresa reitera que o repasse está suspenso até que o litígio seja totalmente solucionado, seguindo a orientação do Ministério Público.

Outro processo em curso na Justiça é movido pelo Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), sociedade civil privada que centraliza toda arrecadação e distribuição dos direitos autorais de execução pública de música no Brasil. Segundo a entidade, o Canecão acumula uma dívida de 5,8 milhões de reais em direitos não pagos. Matéria completa no site da revista Carta Capital.

Parece então que o Rio de Janeiro está preocupado com a Faixa de Gaza errada. Enquanto a primeira é feita de muito barulho e fumaça, a segunda é silenciosa, porém muito mais perigosa que àquela dos conflitos ente israelenses e palestinos. Se bem que guardam semelhanças, as duas áreas de conflito.

O Canecão foi lacrado no dia 10 de maio por um oficial de justiça acompanhado por agentes da Polícia Federal, devolvendo à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) a posse do terreno de 36 mil metros quadrados por decisão do juiz Fábio César Oliveira, da 3ª Vara Federal do Rio. Mas os advogados do Canecão já informaram que vão recorrer da decisão.

“O Canecão não será desativado, apenas mudará de gestão, segundo afirmou o prefeito da Cidade Universitária, Hélio de Matos.” Jornal O Globo

O reitor da UFRJ, Aloísio Teixeira, informou que será feita uma reunião com artistas para a elaboração de um projeto para o local e afirmou que todos os shows marcados estão cancelados.