BREVE COMENTÁRIO SOBRE A REJEIÇÃO DOS JOGADORES AOS SELECIONADOS NACIONAIS

O colunista Sócrates, de Carta Capital, em uma coluna recente, pergunta como é possível a um jogador estar enfastiado de vestir a camisa de seu país. Instigados com o tema, embora este apareça raramente por estes blog, resolvemos fazer um lançamento a curtíssima distância.

Caro Doutor,

As seleções apenas acompanharam o processo de enfraquecimento do sentido de nação, trazido pela onda chamada neoliberal, que só agora começa a se esfacelar.

Além disso, parece-nos que, ao menos na América do Sul (desconfiamos, na Europa também), os selecionados transformaram-se numa espécie de Cirque du Soleil, para apreciação de poucos e ‘bons’. Quem é que ganha com um Brasil e Argentina lá em Abu Dabi, além dos Sheiks, acostumados a pagar em petróleo seu entretenimento, e os cartolas de cá e de lá? Ninguém mais. E os jogadores, ainda que aparentemente alheios à politicagem fifática, se não o conseguem verbalizar, ao menos sentem isso. A consciência do trabalhador sabe-se explorada, ainda que ele próprio não compreenda bem como. Se em 1982 e 1986 já era assim, agora é que a coisa ficou escancarada mesmo. E não é que o mesmo não aconteça nos clubes: é que estes tem a vantagem da proximidade com o atleta-operário, e oferecer paliativos mais atrativos e consistentes: pagam-lhe o salário, oferecem moradia, assistência, etc, enquanto que as federações oferecem apenas prêmios. E o tempo do “bicho” acabou-se.

O futebol acaba entrando na ordem atual do trabalho no capital: uti et non frui, use e não desfrute. Na sociedade onde o capital não se reduz à venda de bens de consumo, mas de ideias e de estados de espírito, arranca-se do trabalhador aquilo que ele tem de mais valioso: o prazer de realizar o seu trabalho.

Não por acaso, depois de um ano estafante, de dezenas de milhares de minutos em campo, o que nossos jogadores fazem para se divertir? Vão jogar bola. O sentido é o mesmo que aponta o filósofo Baudrillard no sexo: há sexualidade em tudo, menos no sexo. Há alegria, ludicidade e prazer no brincar com a bola em qualquer lugar do mundo, menos nos campos da Fifa, da CBF, da AFA, etc. O simulacro do futebol explica porque os jogadores não ligam mais para seus selecionados.

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LULA ENVIA AO CONGRESSO PROJETO PARA APOSENTADORIA DE JOGADORES DE FUTEBOL

Daniel Mello
Repórter da Agência Brasil

São Paulo – O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, pretende apresentar ainda este ano, antes de deixar o cargo, uma proposta para criação de um plano de previdência para jogadores de futebol. Segundo ele, apesar dos altos salários pagos para os atletas de grande destaque, a maioria tem remunerações baixas. “Mesmo nos clubes grandes são poucos aqueles que ganham muito dinheiro e a maioria dos jogadores brasileiros ganha muito pouco”, disse, ao ser homenageado pelo Corinthians e pelo Clube dos Treze, entidade que reúne os maiores clubes de futebol brasileiros.

De acordo com Lula, um plano de previdência é importante até mesmo para os jogadores que recebem grandes salários, pois esses, muitas vezes, acabam em dificuldades por não saberem administrar suas finanças.

Lula também propôs que a Caixa Econômica Federal passe a vender os ingressos dos jogos de futebol, como forma de inibir a ação dos cambistas. “No dia em que os clubes de futebol quiserem acabar com os cambistas no estádios e quiserem que o sistema de loteria venda ingressos para o público, estejam certos que a Caixa Econômica já está pronta para vender os ingressos em toda a rede lotérica”.

Em relação à sustentabilidade financeira dos clubes, o presidente defendeu que os times incentivem a associação dos torcedores, a exemplo do que ocorre em países europeus. Para ele, essa forma de financiamento, direto, é mais segura do que a feita por meio de patrocínios, que podem se reduzir dependendo do desempenho das equipes. “Nós precisamos fazer com que a nossa torcida seja parte da sustentabilidade que nossos clubes precisam”, ressaltou.

Para ele, essa seria uma forma, inclusive, de incentivar as famílias a comparecer aos jogos e de diminuir a violência das torcidas. “É ter torcedor que sai com a sua família para assistir um clássico e volta para casa como se tivesse assistido um cinema ou um teatro”.

No evento, o presidente ressaltou sua paixão pelo Corinthians e declarou torcer pelo time desde 1954. “Continuo mais corintiano do que nunca. Sofrendo mais do que nunca. A Marisa [Letícia, primeira-dama] é que, às vezes, me tira da sala porque acha que eu sou pé-frio”, brincou. Em discurso feito horas antes, na favela de Paraisópolis, Lula disse que espera que seu neto Pedro, nascido no início da tarde, também seja corintiano. Pedro é filho de Fábio Luiz da Silva.

ANDREW JENNINGS DIZ QUE BRASIL PODE SER MAIS VIGILANTE CONTRA CORRUPÇÃO DA FIFA

Jennings diz que os brasileiros estão sendo mais críticos do que os sul-africanos

Por Maurício Savarese, via Carta Capital

“Senhor Joseph Blatter, um pagamento secreto de uma empresa de marketing chegou por acidente à conta bancária da Fifa. Para quem era?” Essa pergunta, feita ao presidente da entidade em 2004 durante uma entrevista coletiva na Tunísia, mudou a vida do jornalista Andrew Jennings, hoje aos 67 anos de idade. Desde então, ele se tornou persona non grata pela entidade. Jennings diz que o pagamento secreto se destinava a dirigentes da entidade.

Desde sua profissionalização sob João Havelange, na década de 1970, a Fifa é cercada por empresas esportivas, empreiteiras, vendedoras de ingressos e outros ramos que estariam ligados à cúpula do futebol mundial, várias das quais foram alvo de investigações do escocês – que fez carreira no diário inglês Daily Mail e ganhou liberdade para suas reportagens investigativas em documentários da BBC. Jennings, que visitou o Brasil pela primeira vez para um congresso de jornalismo investigativo, fala sobre as razões que o motivam a continuar com seu trabalho e fala das formas de corrupção que costumam se associar a Copas do Mundo e Jogos Olímpicos. O Brasil receberá os dois: o primeiro em 2014 e o segundo em 2016.

Por que o senhor decidiu focar suas investigações na Fifa?

Posso dizer que os escolhi como alvo porque todo jornalista deve ter um alvo, um grupo que queira investigar. Eu sou incapaz de dizer qual é o resultado de um jogo, mas sei quando tem corrupção lá. E é apenas a porcaria do futebol! Como é que não pode ser transparente algo que não é questão de vida ou morte? A verdade é esta: eu sou um jornalista combativo e todo jornalista combativo precisa de um objetivo. O meu é mostrar o que fazem na Fifa, no COI.

É uma questão de nicho de mercado? Se é isso, por que vai a aeroportos do mundo inteiro para pressionar esses dirigentes?

Não é nicho de mercado, isso é só uma provocação. Acho que o futebol é importante para muita gente. E essas pessoas são roubadas. Investimento público é feito em estádios, em infraestrutura e em muitas áreas que têm a ver com o interesse público. Meu interesse não é saber se o Manchester United será campeão europeu, mas sim se o Brasil vai ser a parte dois de toda a corrupção que se viu na África do Sul nos últimos anos.

Onde que a corrupção surge em uma Copa do Mundo e nas Olimpíadas? E como se faz para investigar isso?

As empreiteiras, as vendas de ingresso e as empresas que fazem propaganda nesses eventos são grandes fontes de corrupção. E a fórmula para descobrir isso exige um pouco de sagacidade. Quando fiz a pergunta a Blatter, sabia que na Fifa há muitos funcionários honestos. Passei semanas vendo aquelas pessoas em Zurique, que ficavam encostadas na parede com cara de tédio enquanto o chefe delas falava. Havia um desconforto. Optei por, na primeira boa chance que tivesse, me sentar na primeira fileira e perguntar a Blatter da forma mais agressiva que podia sobre subornos da ISL [empresa falida de marketing esportivo]. Não o chamei de presidente Blatter. Foi tudo calculado para notarem que eu não tinha respeito por ele e que fazia um trabalho sério. A partir dali, os documentos internos começaram a chegar. E eles chegam até hoje. Sobre a África do Sul eu tenho material e sobre o Brasil eu também vou ter.

O que o senhor tem?

Muita coisa, mas não tenho pressa. Sou um jornalista à moda antiga, não preciso publicar nada amanhã. Acho que a informação pode se refinar conforme o tempo passa. Mas as dicas estão por aí. No caso da vitória do Brasil para receber os Jogos de 2016, faço apenas uma pergunta. O homem da ISL que se chama Jean-Marie Weber. Foi condenado à prisão na Suíça, é investigado até hoje. E no dia da votação em Copenhague ele estava com credencial, lá dentro, na área de imprensa. Cumprimentou o ex-presidente da Fifa João Havelange. O que será que Weber fazia ali? Agora, vocês brasileiros precisam de jornalismo para não serem a nova África do Sul. O que está feito, está feito. Deixem-me com esse trabalho [risos].

Jennings confronta Jean-Marie Weber em Copenhage, em 2009:

O senhor planeja vir ao Brasil para a Copa do Mundo ou para Rio-2016?

Não acredito nisso, mas eu também não pensei que um dia escreveria uma reportagem com o título “Eu sou o pior repórter do mundo”, listando no Daily Mail todos os dirigentes da Fifa que não aceitam conversar comigo. Fiquei empolgado ao ver que vocês são mais críticos do que os sul-africanos, que demoraram muito até descobrir todas as sujeiras que fizeram. Se eu vier vai ser divertido, porque vocês têm senso de humor e isso é excelente para você pegar esses corruptos que estão no esporte. Sabem se divertir.

Quais são os riscos que o Brasil corre na próxima Copa do Mundo?

Como a África do Sul foi lesada em seu Mundial? A África do Sul teve de se render à Fifa para organizar a Copa. Além da corrupção dentro da própria entidade, a Fifa corrompe os países que recebem o evento. O principal escoadouro de recursos é a construção de estádios. Quando se sabe que haverá investimento público em estádios, acionam o secretário-geral, Jerome Valcke. O sistema é simples: se o estádio vira uma questão de injetar recursos públicos, eles atrasam a obra. Quando isso acontece, surgem os chamados recursos emergenciais. Está feito o estrago: um estádio que custaria 200 milhões de dólares, como o de Port Elizabeth, na África do Sul, se transforma em um elefante branco de 350 milhões. Já notei que os estádios de vocês ainda não saíram do papel. Dá para imaginar o que pode acontecer, não? A Copa do Brasil pode ser a Copa da África do Sul 2 se houver dinheiro público para estádios.

O risco se limita aos estádios ou há mais?

Claro que há mais. O Brasil não terá um retorno financeiro como o projetado – assim como em todas as últimas Copas do Mundo – porque algumas receitas, superestimadas por sinal, são simplesmente engolidas pela corrupção. Um exemplo é a venda de bilhetes. Saiba que vocês não vão ficar com as receitas de nenhuma entrada vendida aqui. O Brasil é só o hospedeiro, mas os bilhetes, os estádios e muito do que vier de recurso ficará nos bolsos de estrangeiros. A África do Sul prometeu ao seu povo uma Copa do Mundo sem exageros. Mas enriqueceu dirigentes com milhões de dólares vindos de corrupção, de superfaturamento de obras. O Brasil corre o mesmo risco. Na África a imprensa levou anos para denunciar isso. Aqui vocês parecem estar mais atentos, mas os riscos são claramente os mesmos.

Qual é a sensação de ser o único repórter do mundo banido pela Fifa? Como lida com as críticas de ser um “pavão da reportagem”, como já disseram membros da Fifa e do COI?

Eu sou mais pobre hoje do que era há 20 anos, quando não investigava a Fifa. Viajar custa caro e nem sempre pagam as minhas passagens. Mas vou aonde for necessário para ouvir uma boa fonte. Não sei se sou um pavão, acho que sou apenas um velho que se veste mal e que acha que o Google não resolve todos os problemas do jornalismo. Acho que gastar os sapatos, ter senso crítico e exercer o senso de humor são o centro da minha profissão.

A COPA AUTÔMATA DA NEURÓTICA FIFA

“Para tornar uma máquina automática é preciso sacrificar muitas possibilidades de funcionamento. Para tornar um objeto prático automático, é preciso estereotipá-lo em sua função e torná-lo frágil” (Jean Baudrillard)

Quando o então presidente da FIFA, o franco-brasileiro João Havelange, assumiu a entidade, no final dos anos 60, cunhou uma frase que serviu de epígrafe para as décadas em que ficou à frente da entidade: “eu vim para vender um produto chamado futebol”. De lá pra cá, a ordem do mercado inundou aquilo que era esporte e jogo, e introduziu a gestão do futebol no regime semiótico da produção do capital, que passa por uma sistematização ideológica que é a do automatismo.

Se hoje a Copa do Mundo é um evento que se organiza sobre um sistema de gestão fechado, onde o dinheiro circula sempre no sentido da acumulação de capital pela Fifa e patrocinadores, a despeito dos países, não se pode reduzir essa influência apenas à sistematização estratégica organizacional do evento em si, mas é preciso compreender que esta automatização, enquanto relação ideológica do homem com os objetos relacionados ao sistema-futebol, também entra em campo. E, uma vez no gramado, transforma essas relações.

ALGUNS RASTROS DA AUTOMAÇÃO NO FUTEBOL

O “Volantismo”

Quando Dunga divulgou os seus selecionados, a grita geral foi a de que o meio-campo canarinho seria excessivamente defensivo, com a predominância de volantes, e que a técnica e o refino foram elementos secundários ou mesmo ausentes dos critérios do técnico. O que a imprensa parece ignorar é que o volantismo é acontecimento internacional. A tendência do futebol dito moderno é a predominância nos elencos de jogadores que saibam ao mesmo tempo exercer funções defensivas e de criação ofensivas. Isso não é de hoje. Mas é, atualmente, no futebol da Inglaterra – não por acaso a Meca do globalitarismo futebolista – pode-se visualizar de forma mais clara a tendência.

Foi o caso, por exemplo, do jogador brasileiro Anderson. Quando surgiu no Grêmio de Futebol Portoalegrense, Anderson era o que se chamava de meia-armador: técnico, driblador, dotado de uma visão de jogo provilegiada, logo foi apontado como um novo Ronaldinho Gaúcho. Porém, ao chegar ao Manchester United, teve de se adaptar ao esquema tático do time inglês, onde todos defendem e atacam da mesma forma, não havendo espaço para jogadores que saibam apenas atuar como defensores ou atacantes. Anderson virou símbolo do futebol adotado por Dunga na seleção, e não fosse uma contusão, certamente estaria entre os convocados para a copa.

O mesmo ocorre com o jogador espanhol Cesc Fabregas, que atua no Arsenal. Fabregas, um meia-armador de raro talento, se ocupa de “preencher os espaços do meio-campo”, tendo de se haver com funções defensivas. O próprio Ronaldinho Gaúcho, e mesmo Messi, encontraram no Barcelona FC uma exceção à regra, onde puderam exibir mais ou menos livremente o seu talento. O que não aconteceu em outros clubes e nas seleções nacionais, onde a necessidade de adaptação a um esquema padronizado limitava as capacidades criativas dos dois.

Mas engana-se quem crê que o problema se reduz a transformar jogadores ofensivos em defensivos ou, na linguagem técnica do futebol autômato, “polivalentes”. Trata-se de transformar o jogador em uma espécie de função-equivalência. O protótipo do time eletrônico ideal é aquele que não altera o seu modo de atuar, quando se modifica um jogador. Em busca do time perfeito (aquele que se aproxima do ideal automatista: a máquina infalível e independente), os jogadores cada vez mais devem se adaptar à funções pré-definidas, e isto cada vez mais cedo. O treinador dos times das categorias inferiores, antes responsáveis por auxiliar o atleta a desenvolver suas habilidades singulares, agora se atêm à atividade de “sanar as deficiências”, o que equivale a dizer transformar o jogador singular em uma peça de reposição.

O Gerencismo

O jogador deixou de ser o elemento predominante na relação objetual futebolística. O gestual aqui pode ser definido como a forma como se joga, interage e se constrói a relação com o objeto; como se “vivencia” tal ou qual objeto.

No futebol, o gestual, que sempre foi predominantemente mecânico-muscular, tem cada vez mais passado a ser neuro-sensorial. O jogador passa a ser um objeto com maior grau de abstração, enquanto o técnico (o DT) vai se tornando o centro magnético das relações.

Se antes os torcedores e fanáticos pelo futebol elegiam jogadores como ídolos, estrelas constituintes de um panteão mítico, e as crianças copiavam os chutes, os trejeitos, as jogadas, hoje as estrelas são os técnicos. Se antes as trocas de treinadores entre os clubes europeus e brasileiros ocupavam notas de rodapé dos noticiários, hoje eles estão nas manchetes, e as cifras para que eles troquem os bancos de um clube por outro são cada vez maiores, ainda que, numa observação mais arguta, a intervenção deles mais atrapalhe que auxilie o desempenho dos times. Se antes o prazer consistia em jogar futebol, sonhando em ser o artilheiro da copa, na rua, hoje o que faz sucesso são os jogos eletrônicos onde o player assume o lugar do técnico, escolhe o time, o esquema tático, e espera pacientemente pela vitória, anotada através de cálculos estatísticos da máquina computacional. As discussões de bar sobre qual jogador é mais talentoso deram lugar a “especialistas” em estatística futebolística, que citam de cor quantos desarmes, quantos passes precisos, quantos quilômetros por jogo faz cada uma das peças da engrenagem maior.

Cada vez mais a atividade produtiva cede espaço a um controle das variáveis e encadeamento optimal do tempo. Assim como nas relações cotidianas o predomínio tem sido de objetos automáticos, que realizam tudo apenas com a pressão de um botão, eliminando a força e a necessidade de elaboração intelectiva, também no futebol essa substituição gestual tem transformado o técnico no elemento principal da relação.

O FIM DO INTEMPESTIVO E DO INATUAL

A que se interessa esse tipo de relação com um objeto, o da posse, na qual a utilidade/funcionalidade do objeto é secundária em relação à capacidade que este objeto tem de refletir não a imagem de quem o manipula, mas aquilo que ele deseja secretamente ver? Onde tempo e espaço não se diluem na relação funcional do objeto, não se derrama sobre o outro como o segundo, mas que o transforma também num objeto, que nada mais faz do que estabelecer coordenadas existenciais a fim de oferecer um frágil substitutivo para o real?

Se se busca a eliminação do singular, do intempestivo e do inatual nas relações objetuais, é porque não se pode suportar a incerteza que advém da realidade. Freud já dizia que o ser humano não suporta um segundo sequer no real, e que precisa estabelecer próteses, suportes espaço-temporais, que lhes garantam coordenadas seguras, a certeza ilusória do que virá: o modelo e a série. O absoluto, a deidade, o alfa e o ômega, nada que escape e possa produzir outros possíveis.

Assim, também no futebol. Garrincha, para o técnico russo, seria fácil de controlar, porque “sempre dribla para o mesmo lado”. Ledo engano. Garrincha no campo eliminava a possibilidade do controle. Era intempestivo e inatual. Nunca driblava para o mesmo lado, porque sabia que o mesmo lado só é o mesmo para quem não suporta vislumbrar um pouco de real. Daí, ao gingar na frente do marcador, fazer vazar a angústia. E agora, José? Para onde? Com Garrincha, a única certeza era não ter certeza, e mesmo essa não era plena certeza. O mesmo ocorre com Maradona. Por isso ele é odiado pela mídia decadente e o seu olhar escotomizado. Não se enganem. Ela também odiava Garrincha. E amava, como ainda ama, Pelé. Porque Pelé foi o ápice do playstation (antes do videojogo, é claro). Não é por acaso que o Rei do Futebol surgiu junto com Havelange, e o ajudou na criação da Fifa tal como é. Pelé, por mais genial que fosse, não fazia vazar a angústia, não fazia esvair o reflexo no espelho. Era espaço-temporalmente bem definido, e por isso deu certo como produto.

Este é o futebol padronizado da globalitária Fifa e sua Copa Playstation. Neste, a relação com o real é falseada, o futebol deixa de ser um jogo para ser um álibi, uma simulação. O outro é sempre o mesmo, a bola é um objeto sob minha posse, o segundo é eliminado, e o terceiro é apenas um reflexo do primeiro. Aí, não há relação, apenas simulação.

Uma ilustração é a frase de Dunga – que não é dele, pois já foi dita por muitos outros – é a de que o gol é resultado de uma falha defensiva. A partida ideal, sem erros, o ápice do automatismo, da eficiência, será sempre um zero a zero. O técnico vence quando tudo é previsível; quando o prazer do jogo é substituído pela satisfação do controle.

DO RESSENTIMENTO E DA FRAGILIDADE DA COPA AUTÔMATA

Ante à frase não tem mais bobo no futebol, sobrepõe-se uma outra, que diz: não há mais grandes times no futebol. Não que eles não existam. Mas é que não há lugar para eles na Copa Autômata, onde as coordenadas espaço-temporais servem a uma ordem relacional neurótica, a da posse, e estabelece a morte do futebol enquanto produção social.

Daí ser apenas peça ficcional falar em zebra numa copa muito bem controlada. A Suiça venceu a Espanha? Nada de novidade, nada de zebra, ou inesperado. Venceu o automatismo, a padronização. A mesma Espanha de sempre foi derrotada pela mesma Suíça de sempre. Só cabem essas duas na Copa. É um sistema fechado e autômato.

Mas não somos pessimista, e nem poderíamos: este estado de coisas, neurótico, de relações de posse e simulação, não resiste a um microssegundo de realidade. Não resiste a um sorriso de Mané, ou la mano de diós, de Dom Dieguito, ou mesmo à alegria das crianças uruguaias que cantam, em algum campinho de bairro, sob o olhar de cumplicidade de Eduardo Galeano: “Vencimos/Perdimos/Igual nos Divertimos!”

A verdadeira zebra, se passeasse pela Copa Fifa, provocaria o seu desmoronamento, o fim do automatismo, através de um drible, de um orgasmo que não fosse confundido com a ejaculação do gol a qualquer preço, com uma explosão de prazer que obnubilaria a mera satisfação de uma vitória, ou a busca inútil de um futebol ao mesmo tempo efetivo e belo. Neste caso, são mesmo incompatíveis. Não cabem no futebol fifático.

Mas essa molecagem, nem Messi é capaz de fazer em campo. Se fosse ainda o Maradona…

FRASE DO DIA (DE ONTEM)

“Corri até a linha de fundo, não tinha mais nem pernas e resolvi chutar e pensei seja o que Deus quiser.”

Maicon, lateral-direito da seleção brasileira, sobre o gol contra a poderosa Coréia do Norte, mostrando que Dunga, ao realizar treinos fechados para a imprensa (menos para a Globo), não tem mesmo o que esconder.

VIVA O FUTEBOL! VIVA A ALEGRIA!!!

Si yo fuera Maradona
Viviria como el
Si yo fuera Maradona
Frente a cualquier porteria
Si yo fuera Maradona
Nunca m’equivocaria
Si yo fuera Maradona
Perdido en cualquier lugar

La vida es uns tómbola
De noche y de dia
La vida es una tombola
Y arriba y arriba!

Si yo fuera Maradona
Viviria como el
Mil cohetes, mil amigos
Y lo que venga a mil por cien
Si yo fuera Maradona
Saldria en mondovision
Para gritarle a la FIFA
Que ellos son el gran ladron!

La vida es uns tómbola
De noche y de dia
La vida es una tómbola
Y arriba y arriba!

Si yo fuera Maradona
Viviria como el
Porque el mundo es una bola
Que se vive a flor de piel

Si yo fuera Maradona
Frente a cualquier porqueria
Nunca me equivocaria…

Si yo fuera Maradona
Y un partido que ganar
Si yo fuera Maradona
Perdido en cualquier lugar

La vida es uns tómbola
De noche y de dia
La vida es una tómbola
Y arriba y arriba!

(La Vida Tombola, Manu Chao)

EDUARDO GALEANO MOVIMENTA A COPA DO MUNDO

Traduzido por nós, amadoristicamente, do Página 12:

 

“MESSI É O MELHOR DO MUNDO PORQUE CONTINUA JOGANDO COMO UMA CRIANÇA EM SEU BAIRRO”.

Tanto o argentino Diego Maradona como a seleção do Uruguai ou seus candidatos ao título fizeram parte desta extensa entrevista com o escritor uruguaio, confesso amante do futebol, que reconheceu, durante a Copa do Mundo mudar-se para o "Planeta Bola, que é igualmente redondo , mas um pouco menor. "

A partir do sábado que vem e até a finalização do Mundial da África do Sul 2010, como vem ocorrendo desde há muito tempo e a cada exatos quatro anos, Eduardo Galeano exibirá um cartaz na porta de sua casa: “Fechado. Apenas Futebol*”. O gesto, mais divertido e diplomático que o “não perturbe” dos hotéis (e o qual poderia acompanhar com um “estou trabalhando para vocês”, como se verá), de qualquer jeito não parece necessário: “Durante todos os Mundiais saio do Planeta Terra diretamente. Mudo-me para o Planeta Bola, que é igualmente redondo, mas um pouco menor. Dedico-me a ver todas as partidas, ou pelo menos tentar, porque sempre me acontece de perder alguma. Mas o que quero dizer é que me sento com uma cervejinha bem gelada diante da TV e me escondo em uma bola. E dali não saio até que o Mundial tenha terminado. Assim, simples”.

Contudo, o Mundial não começou. E o escritor uruguaio, antes de se perder no labirinto das tabelas e horários, essas coordenadas particulares do Planeta Bola onde a cena se passa além, falou de tudo**. Falou de Lionel Messi: “É o melhor do mundo porque continua jogando como uma criança num bairro”. Falou de Diego Maradona: “Tem sido injustamente atacado, e ainda que uma coisa é ser jogador e outra técnico, tem-se que lhe dar tempo e espaço”. Em suma, falou de tudo.

Segue tendo com o futebol a mesma relação de sempre?

Absolutamente sim. Não poderia estar afastado do futebol. Sou futebol-dependente. E isto vem da minha infância mais remota, porque meu pai me levava ao estádio quando eu ainda era um bebê. E depois, claro, joguei futebol toda a minha vida.

Jogava bem?

Não. Mal, muito mal. Era entreala direito, o que hoje seria um volante ofensivo, mas sempre fui atrapalhado, um perna de pau. Até que ao final, me resignei, aceitei meu destino e terminei tentando escrever para ver se podia fazer com as mãos o que com os pés não pude fazer nunca.

Mas essas tentativas foram apenas eventuais, até a aparição de Futebol ao Sol e à Sombra.

É verdade. Até esse livro eu havia escrito muito pouco de futebol, porém depois levei o tema mais a sério. Por fim, fiz o que queria: jogar futebol com as palavras e à minha maneira. A este livro vou atualizando depois de cada Mundial, e isso também tem a ver com aquele “Fechado. Apenas futebol”.

O exercício de unir literatura e futebol, por certo, parece cada vez mais aceito, ou pelo menos mais praticado.

Celebro que haja gente que escreve muito bem e que não oculte sua paixão futebolística. Quando tinha 20 anos, dirigi no Uruguai um diário independente de esquerda. Chamava-se Epoca e tinha boa ressonância, com 35 mil exemplares. Éramos todos muito jovens e capazes dessa loucura, uma experiência maravilhosa que nada cobrava e da qual todos os militantes, uns 5 mil, eram acionistas. Assim recordo muito bem o que eram as assembléias, com 200 ou 300 pessoas até às sete da manhã, nas quais eu tinha que dar a cara a tapa para defender as páginas dedicadas ao futebol. Era a luta mais feroz de todas, porque para os militantes de esquerda aquilo era dilapidar  cinco ou seis páginas de um porta-voz da classe trabalhadora, de um diário antioligárquico, para consagrar ao futebol, o “ópio do povo”. Somente agora a esquerda está se curando desta enfermidade em que acusa o futebol de fazer das pessoas não-pensantes. Agora os intelectuais não têm vergonha.

E o que espera deste Mundial, como torcedor e como intelectual?

Que me ofereçam uma festa para os olhos. Este prodígio de formosura que o futebol é. Obviamente que quero que ganhe Uruguai, e se não for o Uruguai que seja a Argentina ou Brasil, os países que sinto mais próximos. Mas antes de mais nada, sou fanático do bom futebol.

E além destas cores…

Além destas cores. Quando criança, era torcedor raivoso do Nacional. Ia ao talud (a popular), atrás do gol, é decerto a tribuna mais pobre e mais violenta, porque naquele tempo eu também me envolvia como qualquer filho de vizinho. Era bastante brigão. Tinha 11, 12, 13 anos. Porém com o passar do tempo fui descobrindo que a minha é o futebol, sobretudo quando alguém me oferece essa festa, a do futebol bem jogado. Quando este milagre ocorre, agradeço sem me importar com a equipe ou seleção. E mais além: inclusive em partidas do Nacional, confesso que muitas vezes quero, secretamente, que ganhe o menos poderoso, o menor. Como me disse uma vez um amigo espanhol: “estás condenado, porque vai ser sempre do lado do touro”. Nunca do toureiro. Por isso me fez feliz o título do Argentinos Juniors, a possibilidade de que se rompa o monopólio, além de ter amigos que são seus torcedores.

Continua indo aos estádios?

Sim, continuo indo. É curioso, até masoquista, eu diria, porque o futebol raras vezes me devolve no estádio algo que se pareça com a expectativa que eu levo. Espero ver um espetáculo belo, e muito raramente isso ocorre.

E a que atribui a insistência?

Primeiro, à diferença que existe, por exemplo, entre o cinema e o teatro. Uma coisa é ver a partida no estádio, onde se escuta a respiração dos protagonistas, e outra é vê-la pela televisão. Mas também creio que tenha algo a ver com algum resíduo de minha formação católica.

Como é isso?

Tive uma infância muito católica. Acreditava em Deus e acreditava que ele cria em mim. Agora não creio mais no céu, nem na dor, nem nesse elogio da dor que a Igreja católica colocou-me dentro, mas ainda deve haver ficado algum efeito residual daquela aprendizagem: que todo o que sofras na terra será recompensado no céu. Deve ser isso que me leva ao campo! Mas também me leva o espetáculo do público, o fervor, essas ondas de entusiasmo que se sente quando as pessoas estão ao seu lado e que não o sente quando vê pela televisão ou te contam. E as atitudes das pessoas! Recordo que havia um jogador do Nacional, Escalada, que de 90 vezes que chutava à meta, apenas uma era gol. Nas outras, gritavam: “Com a ferradura não! Com a ferradura não!”. Isso também é parte da festa do futebol e é algo que eu, que sempre fui um ouvinte, desfruto de maneira especial.

Daquela infância católica e futebolística, o que recorda com carinho particular?

A parede do meu quarto, onde havia um crucifixo rodeado de figurinhas. Ali estavam Rinaldo Martino, aquele do San Lorenzo, e tantos outros que jogaram no Nacional. Toda a parede era pregada de figurinhas ao redor do crucifixo. E abaixo, como se para que não os visse muito porque eram “inimigos” do Peñarol, também havia pregado a (Juan) Schiafinno ou a (Julio) Abbadie. Gostei tanto de vê-los jogar! Abbadie era capaz de fazer com que a bola fosse girando pela linha lateral e com puro fingimento, sem tocá-la, ia iludindo seus rivais. Gostaria de escrever como Abbadie jogava. Gosto deste futebol, das pontas, o do wing, que em inglês significa asa. Abbadie era um homem com asas.

Como Garrincha.

Exato. Tive a sorte de vê-lo jogar duas vezes no Rio. Era como ver Chaplin no gramado. Garrincha desfrutava tanto que terminava uma jogada e se sentava em cima da bola, depois de deixar todos os rivais pelo caminho, provocando, como se dissesse “ vejam se me tomam-na”. Depois alguns queriam degolá-los porque às vezes sequer fazia o gol.

Messi tem esse perfil de jogador “ponteiro”

Eu creio que Messi é o melhor do mundo porque não perdei a alegria de jogar pelo simples jeito de jogar. Nesse sentido, não se profissionalizou. Estão os que escrevem por prazer e estão os que escrevem para cumprir o contrato ou ganhar dinheiro. Messi joga como uma criança no seu bairro, não pelo dinheiro. Como avança, como dribla, essa picardia que é tão linda de ver nos jogadores. Quando o futebol profissional me desengana muito, vou pelas ruelas de Montevidéu para ver as crianças jogando nos campinhos.

E a Diego? Como o vê em sua função de diretor técnico?

Creio que tem sido injustamente atacado. Uma coisa é ser jogador e outra diretor técnico, ‘mas se tem que dar espaço e tempo a ele, ver o que acontece. O que ocorre é que Maradona tem que carregar uma cruz muito pesada nas costas: chamar-se Maradona. É muito difícil ser deus neste mundo, e muito difícil comprovar que aos deuses não se permite aposentar-se, que devem seguir sendo deuses a todo custo. E Maradona é um caso único, o desportista mais famoso do mundo, apesar de há anos ter parado de jogar, essa necessidade de protagonismo derivada da popularidade mundial que tem.

Em seu último livro, Espelhos, fala de Diego como um “deus sujo”.

Mas não no sentido do insulto. Quero dizer que ele é o mais humano dos deuses, porque é como qualquer um de nós. Arrogante, mulherengo, débil… Todos somos assim! Somos feito de barro humano, assim tem gente que se reconhece nele exatamente por isso. Não é um deus que desde o céu nos mostra sua pureza e nos castiga. Então, o que menos se parece com um deus é a entidade pagão que é Maradona. Isso explica o seu prestígio. Nos reconhecemos nele por suas virtudes, mas também por seus defeitos.

Você o considera capaz de levar a Argentina até o título da Copa do Mundo da África?

A Argentina é uma das minhas favoritas a ganhar a copa pela riqueza de seu plantel, e com isto não estou descobrindo a pólvora. Mas falar de Maradona nesses termos me parece uma desproporção, porque hoje se dão aos técnicos uma importância que para mim não têm e termina prejudicando-os: à sério, fazem deles quase únicos responsáveis por uma derrota. É outra das deformações do futebol: se dá ao técnico uma aura científica, como se fossem colegas de Einstein. Antes não se sabia nem quem eram os treinadores. O melhor que conheci foi um senhor que se chamava Cóppola, que dirigia a equipe de um povoado muito pequeno no Uruguai, Nico Pérez. Era cabeleireiro, um dia teve uma ideia e colocou um cartaz no seu trabalho: “Fechado por excesso de capital”. O fato é que toda a tática e a estratégia de Cóppola se reduzia ao seguinte: acompanhava os seus jogadores ao gramado, lhes batiam nas costas à medida que iam saindo e dizia, simples: “Meninos, boa sorte!”

Para além do estritamente desportivo, poderia prejudicar o caminho da Argentina no Mundial essa presença tão midiatizada de alguns barras na África do Sul?

Seria uma pena, tendo a Argentina tantos jogadores de qualidade, que se atrapalhasse em campo por uma situação assim. Em princípio, o fato de que viajaram junto com o plantel me gerou preocupação. Mas espero que não ocorra nenhum desastre, que não manchem o que eu creio que será brilhante, que não haja episódios de violência por estes fanáticos que não amam o futebol do mesmo modo que os bêbados não amam o vinho. Entre muitas outras coisas, Da Vinci escreveu um livro no qual recolheu fábulas da região da Toscana, na Itália, e ali falava disso: da ofensa a uma garrafa de vinho pela má maneira com que a bebia o bêbado. Sempre pensei ser uma fábula muito justa e é a mesma relação entre o futebol e os fanáticos da violência, esse despertar que fazem do que de pior há na alma humana.

E o Uruguai? Como o vê?

Creio que melhorou muito em relação a tempos tão passados. O que ocorre é que Uruguai segue sendo um país exportador de “pé-de-obra”. Vendemos mão-de-obra e, no caso dos futebolistas, pé-de-obra. Existem mais de duzentos jogadores uruguaios no exterior. Ter essa quantidade fora, em um país cuja população entraria em Avellaneda, mostra que estamos muito desfalcados. O período de esplendor de nossos futebolistas nós vemos pela TV. De todas as maneiras, em função dessa qualidade de jogadores, porque por alguma coisa são convocados das ligas mais importantes do mundo, eu tenho a impressão de que o Uruguai vai jogar lindo, jogue bem. Ainda que já não sejamos o que éramos.

Em que sentido?

Há uma parte da história que parece inexplicável: como um país de poucos habitantes e pequenino pôde ganhar a medalha de ouro no futebol dos Jogos Olímpicos de 1924 e 1928, o Mundial do Uruguai de 1939 e pôde vencer no Maracanã, no Mundial do Brasil de 1950, contra todos os prognósticos.Porém isso tem explicação: o papel fecundo que teve o Estado Uruguaio na aurora do século XX. Uruguai esteve na vanguarda do mundo na educação livre, laica, gratuita e obrigatória, com um papel criativo, e ali estava integrada a educação física. Surgiam campos de esportes em  todo o país. Sem falar em outras coisas: as oito horas de trabalho antes que nos EUA, o voto feminino antes que na França, a lei do divórcio 60 anos antes que na Espanha… Coisas assim. Isso explica como um país minúsculo pôde chegar tão alto. Mas o Estado perdeu essa energia de mudança, foi desinflando, e essa falta de continuidade na vocação criadora do poder público se refletiu no futebol. Por isso digo que já não somos o que éramos.

O futebolista tampouco é o que era.

Isso é verdade. As pessoas depositam sobre eles uma carga enorme. Isso engorda o ego dos que recebem o elogio multitudinário, mas às vezes representa uma carga muito pesada. Há uma coisa muito perversa aí.

Qual, exatamente?

Fabricar ídolos para depois descartá-los. É uma faca de dois gumes, definitivamente. As pessoas se reconhecem na alegria de um jogador, quando ganha ou joga bem. Mas também os fazem responsáveis do infortúnio coletivo quando perde. Porque aí a alma de muita gente se desinfla.