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UM CASO ECOPOLÍTICO EM PARINTINS

Fonte da imagem: http://parintinsemfoco.blogspot.com/2011/01/igreja-de-sao-benetido.html Segundo moradores do São Benedito, em Parintins, Amazonas, foi por ordem expressa do pároco local, Egídio, que duas árvores antigas da praça do bairro, foram arrancadas na tarde desta quinta-feira, dia 30.

As árvores, um buritizeiro e um cajueiro, compunham um agradável espaço de convivência para os moradores das proximidades, que dia sim e outro também, colocavam cadeiras de embalo debaixo, para aproveitar o frescor da praça, à beira do rio Amazonas.

Não se sabe a razão pela qual o padre extrapolou sua autoridade metafísica, cuja jurisdição não ultrapassa o pós-existência, para alterar o espaço vivencial do povo, a praça. Como somos partidários da filosofia nietzscheana, de que se deve lavar muito bem o corpo depois de estar com um sacerdote, e em nossa cidade, é comum a falta d’água nas manhãs de sábado, ficamos impossibilitados de perguntar a ele sobre as (des)razões do ato.

Imaginamos, talvez, que o padre tenha ficado incomodado com a feira hippie que se juntou à sombra das falecidas, na quadra do festival dos bois Coca-Cola. Ou quem sabe vozes do além sussurraram em seus ouvidos que o povo se embalava enquanto cometia pecados, ou pior, que o povo ali conversava e expiava suas faltas, dialogando uns com os outros, sem necessitar da preciosa mediação da igreja, estabelecendo relação direta com Deus. Vade retro!

Porém, são imaginações. O real, não sabemos, e não queremos cometer injustiças com o padre, afinal de contas, injustiça é território da miséria humana, coisa que a igreja conhece melhor que nós.

De qualquer forma, o povo não gostou. Cartazes acusando o padre de ser antiecológico amanheceram junto aos galhos arrancados e amontoados na calçada. Gente que passava tirava fotos (nós não tiramos, por incompetência mesmo) da manifestação, que pedia a cabeça do padre. Ele, por certo, não esperava a revolta do seu rebanho, afinal de contas, quem faz parte de uma instituição que tenta, há dois mil anos, controlar as produções biopolíticas do corpo, não espera que se incomodem com duas árvores.

Mas o fato é que o padre se arvorou, ao desarvorar a praça, que afinal de contas, é do povo, como o céu é dos pássaros, e não de Deus. Interferência política da igreja nas coisas do mundo. De novo e quase sempre, aliás.

(Em tempo: àqueles que crêem na igreja ou na representação ocidental de Deus, saiba que não cometemos pecado algum ao dizer que o céu é dos pássaros, e não de Deus. É que Deus É os pássaros, o céu, as árvores, a própria vida, todos nós. Até o padre, ainda que sua existência o negue).

Quem nos dera a revolta do povo ultrapassasse a rebeldia e a compaixão pelo cajueiro e buritizeiro, e se materializasse numa negação do controle sobre o corpo e sobre o espaço público. Que libertasse o negro Benedito do jugo do Papa, e o permitisse ser quem ele é, o arauto da alegria democrática. Que, em lugar de pedir outro padre, o povo reinvidicasse a autonomia da praça, e a transformasse em espaço de vida. O Reino de Deus na Terra.

Aí sim, a ecopolítica iria surgir novamente na terra dos Parintintins.

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DO BLOG BRASILIA EU VI: A balada de José e Maria

Maria

José

José Roque dos Santos, 59 anos, e Maria do Socorro Diniz, 58 anos, o casal das fotos ao lado, não têm escolaridade, nem terra, nem futuro algum. São dois lavradores de Doverlândia, um município perdido de Goiás, de pouco mais de 7 mil habitantes. À meia noite de segunda-feira, 23 de maio, o casal foi colocado dentro de um ônibus com outras 30 pessoas e, em troca de lanche e uma camiseta, foram enviados pelo sindicato rural local para Brasília, a seis horas de viagem de lá. José e Maria se juntaram, então, a outras centenas de infelizes enviados à capital federal pela Confederação Nacional de Agricultura (CNA) para, exatamente como gado tocado no pasto, pressionar os deputados federais a votar a favor do projeto de Código Florestal do deputado Aldo Rebelo, do Partido Comunista do Brasil.

Conversei com o casal enquanto ambos, José e Maria, eram obrigados a segurar cartazes pela votação do texto de Rebelo, defendido por figuras humanasdo calibre da senadora Kátia Abreu, do DEM de Tocantins, presidente da CNA, e do deputado Ronaldo Caiado, do DEM de Goiás, ex-presidente da União Democrática Ruralista (UDR), velha agremiação de latifundiários de inspiração fascista.

José e Maria não sabem ler e nem têm a menor idéia do que é o Código Florestal. Quando lhes perguntei a razão do apoio ao projeto, assim me falaram:

José – Acho que vai ser bom pra nós e pros nossos netos, foi o que disseram.

Maria – É pra cuidar das terras, do futuro do Brasil.

Afora isso, não sabem nada. Nem uma pálida idéia do que é o projeto de Aldo Rebelo, muito menos o que é reserva ambiental e mata ciliar. Nada.

Os cartazes, me contaram, foram entregues por um certo “Luís, do sindicato dos fazendeiros” de Doverlândia, também responsável pela distribuição das camisetas da CNA. Eles foram embarcados em direção a Brasília sem chance de contestação. Os dois não têm um único centímetro de terra, mas trabalham na terra de quem manda, no caso, um fazendeiro da região. Enfrentaram um frio de 9 graus na viagem até Brasília, tomaram café com leite e pão em barraquinhas armadas em frente ao Congresso e, quando os encontrei, tomavam conta da fila de doces, frutas e confeitos que a CNA havia preparado na entrada da Câmara dos Deputados para impressionar a mídia. Tinham esperança de conseguir um almoço de graça e se mandar de volta para Doverlândia, às 17 horas de terça-feira, dia 24, a tempo de dormir em casa. Triste ilusão.

As gentes usadas como gado pela CNA para garantir a aprovação do projeto de um comunista ficaram enfurnadas no Congresso até tarde da noite, famintas e exaustas, obrigadas a se espremer nas galerias e a servir de claque contra os opositores do Código Florestal. E, é claro, a aplaudir Ronaldo Caiado.

Que essa perversão social ainda exista no Brasil, não me surpreende. Há anos tenho denunciado, como repórter, esse estado de coisas.

O que me surpreendeu mesmo é que os deputados do PCdoB não tenham se retirado do plenário, senão por respeito a José e Maria e à história do partido, mas ao menos por vergonha de serem cúmplices da miserável escravidão a que o casal de Doverlândia e seus companheiros da terra foram submetidos em troca de lanches e camiseta.

Blog Brasilia eu Vi

 

 

 

… E o trator passou sem freio

Do Portal Brasil de Fato

Vinícius Mansur,

de Brasília

A bancada ruralista confirmou seus interesses e aprovou o que quis em longa sessão na Câmara dos Deputados desta terça-feira (24). Após rejeitarem um requirimento de retirada de pauta do PSOL, os deputados aprovaram primeiro a Emenda Substitutiva Global de Plenário n.º 186 com larga vantagem: 410 votos a favor, 63 contra e uma abstenção.

Esta emenda, de autoria do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), apesar de conter pontos aos quais se opunha o Palácio do Planalto, foi votada com a anuência do governo federal, ainda que a orientação não tenha sido seguida a risca. Na própria bancada petista, 35 deputados votaram contra.

O discurso do líder de governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), orientou a base aliada a aprovar o texto, ressaltando que a estratégia do governo seria mudar os pontos de desagrado no Senado ou através de veto da presidência da República. O acordo proposto pelo governo à base aliada consistia em aprovar o texto de Rebelo e a não apresentação da emenda 164, de autoria do PMDB. Esta emenda consolida a manutenção de atividades agrícolas nas áreas de preservação permanente (APPs), autoriza os Estados a participarem da regularização ambiental e deixa claro a anistia para os desmates ocorridos até junho de 2008.

Pela Câmara circularam boatos de que a presidenta Dilma Roussef retaliaria o PMDB com a perda de cargos caso o partido apresentasse tal emenda. Entretanto, o partido levou o texto à votação e destacou o recordista de mandatos da casa, eleito por 11 vezes consecutivas, deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), para defender a emenda. Em seu discurso, Alves disse que os deputados de seu partido estavam recebendo ligações para pressioná-los e pediu aos ministros do PMDB que não constrangessem a bancada. O deputado, de maneira paradoxal, arvorou-se fiel ao governo:

“Sou o governo Dilma, não aceito que se diga aqui que está se derrotando o governo. Como se a proposta é nossa?”

Em seguida, Vacarezza subiu a tribuna para ratificar a posição contrária do governo à emenda 164: “A presidente Dilma considera que essa emenda é uma vergonha para o Brasil”.

Sua fala gerou indignação dos ruralistas, capitaneados por Aldo Rebelo, que considerou uma afronta do Planalto caracterizar como vergonha uma matéria de interesse da Câmara dos Deputados. Levada a votação, a emenda foi aprovada com 273 votos a favor, 182 contra e três abstenções, o que significou a primeira derrota do governo na Casa. A matéria segue agora para o Senado.

Veja aqui como cada deputado se posicionou

Resultado da votação

Sim:     410

Não:    63

Abstenção:       1

Total da Votação:        474

Art. 17:            1

Total Quorum: 475

Obstrução:       1

Presidente da Casa: Marco Maia – PT /RS

Presidiram a Sessão:

Marco Maia – 20:01

Orientação

PT:       Sim

PMDB:            Sim

Psb,Ptb,Pcdob:            Sim

Pr,Prb,Ptdob,Prtb,Prp,Phs,Ptc,Psl:      Sim

PSDB:             Sim

DEM:   Sim

PP:       Sim

PDT:    Sim

Pv,Pps:            Não

PSC:    Sim

Repr.PMN:      Sim

PSOL:             Não

Minoria:           Sim

GOVERNO:    Sim

DEM

Abelardo Lupion PR Sim

Alexandre Leite SP Sim

Antonio Carlos Magalhães Neto BA Sim

Arolde de Oliveira RJ Sim

Augusto Coutinho  PE Sim

Claudio Cajado BA Sim

Davi Alcolumbre  AP Sim

Eduardo Sciarra  PR Sim

Efraim Filho  PB Sim

Eleuses Paiva  SP Sim

Eli Correa Filho  SP Sim

Fábio Souto  BA Sim

Felipe Maia  RN Sim

Fernando Torres  BA Sim

Guilherme Campos  SP Sim

Heuler Cruvinel  GO Sim

Hugo Napoleão  PI Sim

Irajá Abreu  TO Sim

Jairo Ataide  MG Sim

Jorge Tadeu Mudalen  SP Sim

José Nunes  BA Sim

Júlio Campos  MT Sim

Júlio Cesar  PI Sim

Junji Abe  SP Sim

Lira Maia  PA Sim

Luiz Carlos Setim  PR Sim

Mandetta  MS Sim

Marcos Montes  MG Sim

Mendonça Prado  SE Sim

Onofre Santo Agostini  SC Sim

Pauderney Avelino  AM Sim

Paulo Cesar Quartiero  RR Sim

Paulo Magalhães  BA Sim

Professora Dorinha Seabra Rezende  TO Sim

Rodrigo Maia  RJ Sim

Ronaldo Caiado  GO Sim

Vitor Penido  MG Sim

Walter Ihoshi  SP Sim

Total DEM: 38

PCdoB

Aldo Rebelo  SP Sim

Alice Portugal  BA Sim

Assis Melo  RS Sim

Chico Lopes  CE Sim

Daniel Almeida  BA Sim

Delegado Protógenes  SP Sim

Edson Pimenta  BA Sim

Evandro Milhomen  AP Sim

Jandira Feghali  RJ Sim

Jô Moraes  MG Sim

Luciana Santos  PE Sim

Manuela D`Ávila  RS Sim

Osmar Júnior  PI Sim

Perpétua Almeida  AC Sim

Total PCdoB: 14

PDT

Ademir Camilo  MG Sim

André Figueiredo  CE Sim

Ângelo Agnolin  TO Sim

Brizola Neto  RJ Não

Damião Feliciano  PB Sim

Dr. Jorge Silva  ES Sim

Enio Bacci  RS Sim

Felix Mendonça Júnior  BA Sim

Flávia Morais  GO Sim

Giovani Cherini  RS Sim

Giovanni Queiroz  PA Sim

João Dado  SP Sim

José Carlos Araújo  BA Sim

Manato  ES Sim

Marcelo Matos  RJ Sim

Marcos Medrado  BA Sim

Miro Teixeira  RJ Não

Oziel Oliveira  BA Sim

Paulo Pereira da Silva  SP Sim

Paulo Rubem Santiago  PE Não

Reguffe  DF Não

Salvador Zimbaldi  SP Sim

Sebastião Bala Rocha  AP Obstrução

Sueli Vidigal  ES Sim

Vieira da Cunha  RS Não

Wolney Queiroz  PE Sim

Zé Silva  MG Sim

Total PDT: 27

PHS

Felipe Bornier  RJ Sim

José Humberto  MG Sim

Total PHS: 2

PMDB

Adrian  RJ Sim

Alberto Filho  MA Sim

Alceu Moreira  RS Sim

Alexandre Santos  RJ Sim

Almeida Lima  SE Sim

André Zacharow  PR Sim

Aníbal Gomes  CE Sim

Antônio Andrade  MG Sim

Arthur Oliveira Maia  BA Sim

Átila Lins  AM Sim

Benjamin Maranhão  PB Sim

Camilo Cola  ES Sim

Carlos Bezerra  MT Sim

Celso Maldaner  SC Sim

Danilo Forte  CE Sim

Darcísio Perondi  RS Sim

Edinho Araújo  SP Sim

Edinho Bez  SC Sim

Edio Lopes  RR Sim

Edson Ezequiel  RJ Sim

Eduardo Cunha  RJ Sim

Elcione Barbalho  PA Sim

Fabio Trad  MS Sim

Fátima Pelaes  AP Sim

Fernando Jordão  RJ Sim

Flaviano Melo  AC Sim

Francisco Escórcio  MA Sim

Gastão Vieira  MA Sim

Gean Loureiro  SC Sim

Genecias Noronha  CE Sim

Geraldo Resende  MS Sim

Henrique Eduardo Alves  RN Sim

Hermes Parcianello  PR Sim

Hugo Motta  PB Sim

Íris de Araújo  GO Sim

João Arruda  PR Sim

João Magalhães  MG Sim

Joaquim Beltrão  AL Sim

José Priante  PA Sim

Júnior Coimbra  TO Sim

Leandro Vilela  GO Sim

Lelo Coimbra  ES Sim

Luciano Moreira  MA Sim

Lucio Vieira Lima  BA Sim

Luiz Otávio  PA Sim

Manoel Junior  PB Sim

Marcelo Castro  PI Sim

Marinha Raupp  RO Sim

Marllos Sampaio  PI Sim

Mauro Benevides  CE Sim

Mauro Mariani  SC Sim

Mendes Ribeiro Filho  RS Sim

Moacir Micheletto  PR Sim

Natan Donadon  RO Sim

Nelson Bornier  RJ Sim

Newton Cardoso  MG Sim

Nilda Gondim  PB Sim

Osmar Serraglio  PR Sim

Osmar Terra  RS Sim

Paulo Piau  MG Sim

Pedro Chaves  GO Sim

Professor Setimo  MA Sim

Raimundão  CE Sim

Raul Henry  PE Sim

Reinhold Stephanes  PR Sim

Renan Filho  AL Sim

Rogério Peninha Mendonça  SC Sim

Ronaldo Benedet  SC Sim

Rose de Freitas  ES Sim

Saraiva Felipe  MG Sim

Solange Almeida  RJ Sim

Valdir Colatto  SC Sim

Washington Reis  RJ Sim

Wladimir Costa  PA Sim

Total PMDB: 74

PMN

Dr. Carlos Alberto  RJ Sim

Fábio Faria  RN Sim

Jaqueline Roriz  DF Sim

Walter Tosta  MG Sim

Total PMN: 4

PP

Afonso Hamm  RS Sim

Aguinaldo Ribeiro  PB Sim

Arthur Lira  AL Sim

Beto Mansur  SP Sim

Carlos Magno  RO Sim

Carlos Souza  AM Sim

Cida Borghetti  PR Sim

Dilceu Sperafico  PR Sim

Dimas Fabiano  MG Sim

Eduardo da Fonte  PE Sim

Esperidião Amin  SC Sim

Gladson Cameli  AC Sim

Iracema Portella  PI Sim

Jair Bolsonaro  RJ Sim

Jeronimo Goergen  RS Sim

José Linhares  CE Sim

José Otávio Germano  RS Sim

Lázaro Botelho  TO Sim

Luis Carlos Heinze  RS Sim

Luiz Argôlo  BA Sim

Luiz Fernando Faria  MG Sim

Márcio Reinaldo Moreira  MG Sim

Missionário José Olimpio  SP Sim

Nelson Meurer  PR Sim

Neri Geller  MT Sim

Paulo Maluf  SP Sim

Raul Lima  RR Sim

Rebecca Garcia  AM Sim

Renato Molling  RS Sim

Roberto Balestra  GO Sim

Roberto Britto  BA Sim

Roberto Dorner  MT Sim

Roberto Teixeira  PE Sim

Sandes Júnior  GO Sim

Simão Sessim  RJ Sim

Toninho Pinheiro  MG Sim

Vilson Covatti  RS Sim

Waldir Maranhão  MA Sim

Zonta  SC Sim

Total PP: 39

PPS

Arnaldo Jardim  SP Sim

Arnaldo Jordy  PA Não

Augusto Carvalho  DF Sim

Carmen Zanotto  SC Sim

César Halum  TO Sim

Dimas Ramalho  SP Sim

Geraldo Thadeu  MG Sim

Moreira Mendes  RO Sim

Roberto Freire  SP Não

Rubens Bueno  PR Sim

Sandro Alex  PR Sim

Stepan Nercessian  RJ Sim

Total PPS: 12

PR

Aelton Freitas  MG Sim

Anthony Garotinho  RJ Sim

Aracely de Paula  MG Sim

Bernardo Santana de Vasconcellos  MG Sim

Diego Andrade  MG Sim

Dr. Adilson Soares  RJ Sim

Dr. Paulo César  RJ Não

Francisco Floriano  RJ Sim

Giacobo  PR Sim

Giroto  MS Sim

Gorete Pereira  CE Sim

Henrique Oliveira  AM Sim

Homero Pereira  MT Sim

Inocêncio Oliveira  PE Sim

Izalci  DF Sim

João Carlos Bacelar  BA Sim

João Maia  RN Sim

José Rocha  BA Sim

Laercio Oliveira  SE Sim

Liliam Sá  RJ Não

Lincoln Portela  MG Sim

Lúcio Vale  PA Sim

Maurício Quintella Lessa  AL Sim

Maurício Trindade  BA Sim

Neilton Mulim  RJ Sim

Paulo Freire  SP Sim

Ronaldo Fonseca  DF Sim

Sandro Mabel  GO Sim

Tiririca  SP Sim

Vicente Arruda  CE Sim

Wellington Fagundes  MT Sim

Wellington Roberto  PB Sim

Zoinho  RJ Sim

Total PR: 33

PRB

Acelino Popó  BA Sim

Antonio Bulhões  SP Sim

George Hilton  MG Sim

Heleno Silva  SE Sim

Jhonatan de Jesus  RR Sim

Jorge Pinheiro  GO Sim

Márcio Marinho  BA Sim

Otoniel Lima  SP Sim

Ricardo Quirino  DF Sim

Vilalba  PE Sim

Vitor Paulo  RJ Sim

Total PRB: 11

PRP

Jânio Natal  BA Sim

Total PRP: 1

PRTB

Aureo  RJ Sim

Vinicius Gurgel  AP Sim

Total PRTB: 2

PSB

Abelardo Camarinha  SP Sim

Ana Arraes  PE Sim

Antonio Balhmann  CE Sim

Ariosto Holanda  CE Sim

Audifax  ES Não

Domingos Neto  CE Sim

Dr. Ubiali  SP Sim

Edson Silva  CE Sim

Fernando Coelho Filho  PE Sim

Gabriel Chalita  SP Sim

Givaldo Carimbão  AL Sim

Glauber Braga  RJ Não

Gonzaga Patriota  PE Sim

Jefferson Campos  SP Sim

Jonas Donizette  SP Sim

José Stédile  RS Sim

Júlio Delgado  MG Sim

Keiko Ota  SP Sim

Laurez Moreira  TO Sim

Leopoldo Meyer  PR Sim

Luiz Noé  RS Sim

Luiza Erundina  SP Não

Mauro Nazif  RO Sim

Pastor Eurico  PE Sim

Paulo Foletto  ES Sim

Ribamar Alves  MA Sim

Romário  RJ Sim

Sandra Rosado  RN Sim

Valadares Filho  SE Sim

Valtenir Pereira  MT Sim

Total PSB: 30

PSC

Andre Moura  SE Sim

Antônia Lúcia  AC Sim

Carlos Eduardo Cadoca  PE Sim

Deley  RJ Não

Edmar Arruda  PR Sim

Erivelton Santana  BA Sim

Filipe Pereira  RJ Sim

Hugo Leal  RJ Sim

Lauriete  ES Sim

Marcelo Aguiar  SP Sim

Nelson Padovani  PR Sim

Pastor Marco Feliciano  SP Sim

Ratinho Junior  PR Sim

Sérgio Brito  BA Sim

Silas Câmara  AM Sim

Stefano Aguiar  MG Sim

Takayama  PR Sim

Zequinha Marinho  PA Sim

Total PSC: 18

PSDB

Alfredo Kaefer  PR Sim

André Dias  PA Sim

Andreia Zito  RJ Sim

Antonio Carlos Mendes Thame  SP Sim

Antonio Imbassahy  BA Sim

Berinho Bantim  RR Sim

Bonifácio de Andrada  MG Sim

Bruna Furlan  SP Sim

Bruno Araújo  PE Sim

Carlaile Pedrosa  MG Sim

Carlos Alberto Leréia  GO Sim

Carlos Brandão  MA Sim

Carlos Roberto  SP Sim

Carlos Sampaio  SP Sim

Cesar Colnago  ES Sim

Delegado Waldir  GO Sim

Domingos Sávio  MG Sim

Duarte Nogueira  SP Sim

Dudimar Paxiúba  PA Sim

Eduardo Azeredo  MG Sim

Eduardo Barbosa  MG Sim

Hélio Santos  MA Sim

João Campos  GO Sim

Jorginho Mello  SC Sim

Jutahy Junior  BA Sim

Luiz Carlos  AP Sim

Luiz Fernando Machado  SP Sim

Luiz Nishimori  PR Sim

Manoel Salviano  CE Sim

Mara Gabrilli  SP Sim

Marcio Bittar  AC Sim

Marcus Pestana  MG Sim

Nelson Marchezan Junior  RS Sim

Otavio Leite  RJ Sim

Paulo Abi-Ackel  MG Sim

Pinto Itamaraty  MA Sim

Raimundo Gomes de Matos  CE Sim

Reinaldo Azambuja  MS Sim

Ricardo Tripoli  SP Não

Rodrigo de Castro  MG Abstenção

Rogério Marinho  RN Sim

Romero Rodrigues  PB Sim

Rui Palmeira  AL Sim

Ruy Carneiro  PB Sim

Valdivino de Oliveira  GO Sim

Vanderlei Macris  SP Sim

Vaz de Lima  SP Sim

Wandenkolk Gonçalves  PA Sim

William Dib  SP Sim

Total PSDB: 49

PSL

Dr. Francisco Araújo  RR Sim

Dr. Grilo  MG Sim

Total PSL: 2

Psol

Chico Alencar  RJ Não

Ivan Valente  SP Não

Total Psol: 2

PT

Alessandro Molon  RJ Não

Amauri Teixeira  BA Não

André Vargas  PR Sim

Angelo Vanhoni  PR Sim

Antônio Carlos Biffi  MS Não

Arlindo Chinaglia  SP Sim

Artur Bruno  CE Não

Assis do Couto  PR Sim

Benedita da Silva  RJ Sim

Beto Faro  PA Sim

Bohn Gass  RS Sim

Cândido Vaccarezza  SP Sim

Carlinhos Almeida  SP Sim

Carlos Zarattini  SP Sim

Chico D`Angelo  RJ Não

Cláudio Puty  PA Não

Décio Lima  SC Sim

Devanir Ribeiro  SP Sim

Domingos Dutra  MA Não

Dr. Rosinha  PR Não

Edson Santos  RJ Sim

Eliane Rolim  RJ Sim

Emiliano José  BA Sim

Erika Kokay  DF Não

Eudes Xavier  CE Não

Fátima Bezerra  RN Não

Fernando Ferro  PE Não

Fernando Marroni  RS Não

Francisco Praciano  AM Não

Gabriel Guimarães  MG Sim

Geraldo Simões  BA Sim

Gilmar Machado  MG Sim

Henrique Fontana  RS Não

Janete Rocha Pietá  SP Não

Jesus Rodrigues  PI Não

Jilmar Tatto  SP Não

João Paulo Lima  PE Não

João Paulo Cunha  SP Sim

Jorge Boeira  SC Sim

José De Filippi  SP Sim

José Guimarães  CE Sim

José Mentor  SP Sim

Joseph Bandeira  BA Sim

Josias Gomes  BA Sim

Leonardo Monteiro  MG Não

Luci Choinacki  SC Sim

Luiz Alberto  BA Não

Luiz Couto  PB Sim

Márcio Macêdo  SE Não

Marco Maia  RS Art. 17

Marcon  RS Não

Marina Santanna  GO Não

Miriquinho Batista  PA Sim

Nazareno Fonteles  PI Não

Nelson Pellegrino  BA Sim

Newton Lima  SP Não

Odair Cunha  MG Sim

Padre João  MG Não

Padre Ton  RO Não

Paulo Pimenta  RS Não

Paulo Teixeira  SP Sim

Pedro Eugênio  PE Sim

Pedro Uczai  SC Não

Policarpo  DF Sim

Professora Marcivania  AP Não

Reginaldo Lopes  MG Sim

Ricardo Berzoini  SP Sim

Rogério Carvalho  SE Não

Ronaldo Zulke  RS Sim

Rui Costa  BA Sim

Ságuas Moraes  MT Sim

Sérgio Barradas Carneiro  BA Sim

Sibá Machado  AC Não

Taumaturgo Lima  AC Sim

Valmir Assunção  BA Não

Vicente Candido  SP Sim

Vicentinho  SP Sim

Waldenor Pereira  BA Não

Weliton Prado  MG Sim

Zé Geraldo  PA Sim

Zeca Dirceu  PR Sim

Total PT: 81

PTB

Alex Canziani  PR Sim

Antonio Brito  BA Sim

Arnaldo Faria de Sá  SP Sim

Arnon Bezerra  CE Sim

Celia Rocha  AL Sim

Danrlei De Deus Hinterholz  RS Sim

Eros Biondini  MG Sim

João Lyra  AL Sim

Jorge Corte Real  PE Sim

José Augusto Maia  PE Sim

José Chaves  PE Sim

Josué Bengtson  PA Sim

Jovair Arantes  GO Sim

Nelson Marquezelli  SP Sim

Nilton Capixaba  RO Sim

Paes Landim  PI Sim

Ronaldo Nogueira  RS Sim

Sabino Castelo Branco  AM Sim

Sérgio Moraes  RS Sim

Silvio Costa  PE Sim

Walney Rocha  RJ Sim

Total PTB: 21

PTC

Edivaldo Holanda Junior  MA Sim

Total PTC: 1

PTdoB

Cristiano  RJ Sim

Lourival Mendes  MA Sim

Luis Tibé  MG Sim

Total PTdoB: 3

PV

Alfredo Sirkis  RJ Não

Antônio Roberto  MG Não

Dr. Aluizio  RJ Não

Fábio Ramalho  MG Não

Guilherme Mussi  SP Não

Lindomar Garçon  RO Não

Paulo Wagner  RN Não

Ricardo Izar  SP Não

Roberto de Lucena  SP Não

Roberto Santiago  SP Não

Rosane Ferreira  PR Não

Sarney Filho  MA Não

Total PV: 12

BRASIL DE FATO ENTREVISTA LEONARDO BOFF

Do sitio eletrônico Brasil de Fato

“Tudo é sistêmico”


O teólogo e filósofo Leonardo Boff tem dedicado-se nos últimos tempos à luta por um novo paradigma ecológico. Autor de mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Ecologia, Espiritualidade, Filosofia, Antropologia e Mística, nesta entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, ele fala sobre os desafios e também oportunidades de ação e reinvenção diante dos dilemas do sistema político-econômico que acabou por gerar a degradação ambiental. Cooperação, corresponsabilidade e atitudes individuais de amor e respeito, em sua análise, têm poder de transformação da realidade. Leonardo Boff fala também sobre a biodiversidade, espiritualidade e futuro dos países emergentes.

Brasil de Fato – Como escutar o grito da Terra em um sistema político-econômico surdo para o que não é veloz, lucrativo e produtivo?

Leonardo Boff – Há uma confrontação total entre o sistema econômico vigente e o sistema-vida e o sistema-Terra. Aquele busca a produção cada vez maior em vista do consumo que exige a depredação da Terra e como consequência a produção de perversas desigualdades sociais. Estes visam o equilíbrio de todos os fatores para que a Terra possa manter sua capacidade de reposição dos recursos usados por nós e de integridade de sua natureza. O primeiro tem essa preocupação: quanto posso ganhar? O segundo: como posso produzir em equilíbrio com a natureza e preservando sua vitalidade? Enquanto essa equação não se resolver o grito da Terra nunca será ouvido. E a degradação continuará até um limite não mais suportável que se revela pelo aquecimento global. Aí a humanidade deve resolver: ou mudar ou ir desaparecendo.

A sustentabilidade tem sido usada por vários setores da sociedade para indicar falsas preocupações ambientais, produtos que se autodenominam verdes, empresas que se dizem responsáveis socialmente, mas não o são para com empregados, clientes etc. Frente ao consumo em escala gigantesca, o termo sustentabilidade ou a causa ambiental não estariam sendo absorvidos por um modo de produção que se mostrou fracassado e agressor da vida?

A sustentabilidade e o crescimento econômico obedecem a lógicas diferentes. A sustentabilidade pressupõe a interdependência de todos com todos, a cooperação e a coevolução de todos, respeitando cada ser por possuir valor intrínseco. O crescimento econômico é linear, pressupõe a dominação da natureza e o uso utilitarista dos seres que apenas tem sentido na medida em que se ordenam ao ser humano. A sustentabilidade representa um novo paradigma que se opõe ao paradigma de violência contra a natureza. Exige um novo acordo de sinergia, de respeito e de sentimento de pertença à natureza sendo a parte consciente e responsável dela. A utilização que se faz da sustentabilidade pode melhorar alguns aspectos da redução de gases de efeito estufa, mas não muda a lógica de pilhagem da natureza em vista da acumulação. A Terra será sempre vista como um baú de recursos, nunca como Gaia, como Grande Mãe, um superorganismo vivo que se autorregula de tal forma que sempre se faz apto a produzir e reproduzir vida.

Como cada um pode colaborar para a reversão da falência da forma de vida e produção que temos até hoje? Em entrevista por ocasião dos 70 anos do senhor, o senhor teria dito: “Nunca aceitei o mundo assim como está”.

A crise é global e por isso atinge a cada um. E cada um é convocado a dar a sua colaboração Uma gota de água caída do céu não significa nada. Mas milhões e milhões de gotas produzem um grande chuva e até uma tempestade. Devemos pensar em termos quânticos: tudo tem a ver com tudo em todos os momentos e circunstâncias. Tudo se encontra inter-retro-conectado. Então, o bem que pessoalmente faço não fica reduzido ao meu mundo. Entra no circuito das interdependências e pode deslanchar grandes mudanças. Se não posso mudar o mundo, sempre posso mudar esse pedaço de mundo que sou eu mesmo. E aí pode se encontrar a semente de uma grande mudança.

Me lembro ainda de um artigo do senhor em que propunha refundar a ética diante da crise mundial de valores. Que caminhos temos hoje neste sentido?

Todos os códigos éticos atuais provêm de culturas regionais. Cada cultura produz seus parâmetros éticos para poder criar a convivência mínima entre todos. Ocorre que hoje vivemos uma fase nova da Terra e da Humanidade, a fase planetária. Todos estamos juntos na mesma Casa Comum. Ninguém tem direito de impor seus valores particulares ao todo. Por isso deve-se refundar a ética a partir de algo básico, comum a todos, de forma que todos possam se identificar com aqueles valores e princípios. Eu vejo que o eixo se estrutura ao redor dos valores ligados à vida, à Humanidade e à Mãe Terra. Para mim cinco são os valores de base: o cuidado para com todo o ser; a compaixão para com todos os que sofrem na espécie humana e na natureza; a cooperação de todos com todos porque foi a cooperação que nos permitiu o salto da animalidade à humanidade; a corresponsabilidade por tudo o que existe e vive; devemos ter consciência das conseqüências de nossos atos, alguns dos quais podem ser letais para toda a espécie humana; um senso mínimo espiritual segundo o qual a vida tem sentido, o universo não é absurdo, a verdade sempre representa um valor e o amor é o laço que une todos os seres e traz felicidade à vida.

Um fórum chamado Geopolítica da Cultura, realizado em novembro de 2010 na Cinemateca, em São Paulo, partiu do pressuposto que as novas economias reunidas no Bric já emergiram e a elas caberá definir o novo papel no mundo que se conforma pós-crise. O senhor acredita nessa possibilidade de gestão autônoma e criativa dos ex-emergentes? O Fórum propôs ainda uma transformação da singularidade cultural brasileira em valor estratégico que beneficie o povo. Pouco depois do final do Fórum, vimos explodir o conflito do tráfico e milícias e polícia no Rio de Janeiro. Ou seja, no outro extremo, outra singularidade brasileira, a violência, tomou a cena. Gostaria que o senhor comentasse.

Os Brics são importantes porque, formando o Grande Sul, quebram a hegemonia do Norte e obrigam as potências econômicas e militaristas a ouvi-los. Na medida em seu peso se fizer sentir, podem definir certos rumos do curso da história atual. Mas em termos de paradigma eles são miméticos: imitam as lógicas de potências ocidentais, lógicas essas que levaram a Terra à atual crise. Elas não são alternativas. Antes, podem acelerar a gravidade da crise. Se a China e a Índia quiseram consumir como o Ocidente (e cada um desses países possui uma classe média de pelo menos de 300 milhões de pessoas) seguramente irão desestabilizar o processo produtivo da Terra, com reflexos imediatos na política mundial. Esta não terá suficientes recursos para atender às demandas desses novos consumidores. Já dizia Gandhi em 1950: “Se a Índia quiser ser como a Inglaterra, ela precisa de duas Terras. A Terra é suficiente para todos mas não o é para os consumistas”.

Quanto mais informadas as pessoas e desenvolvidas as cidades, vemos uma preocupação maior com a sustentabilidade, reciclagem, reuso, alimentação orgânica, preservação dos biomas, plantio de árvores. Entretanto, valores como a solidariedade e ações coletivas ainda encontram obstáculos em sociedades/cidades cada vez mais egoístas, inseguras (literalmente) e materialistas. O senhor concorda? Que caminhos enxerga para as grandes cidades e seus habitantes?

Eu acho que o problema todo se resume numa relação nova para com a natureza e a Terra. Devemos partir da constatação de que pertencemos à natureza, somos a parte consciente e amante da Terra e simultaneamente a parte desequilibradora e destruidora dela. Temos a mesma origem e teremos o mesmo destino. Então se impõe uma relação de sinergia, de respeito, de veneração, de produção do suficiente e do decente para nós e para toda a comunidade de vida que também precisa da biosfera. Se não refizermos a aliança natural para com a Terra e a natureza, poderemos ir ao encontro do pior. Possivelmente só iremos aprender e tomaremos decisões fundamentais quando grandes ameaças atingirem nosso destino e percebermos que não temos outra alternativa senão mudar: o modo de relacionamento para com todos os seres, as formas de produção e de consumo e os espaços de convivência pacífica e tolerante entre os mais diversos povos. Talvez dando espaço ao capital espiritual que não tem limites à diferença do capital material que é limitado, quer dizer, cultivando os valores da solidariedade, da convivência pacífica, do cuidado para com todas as coisas, da espiritualidade explícita como a meditação, a expressão artística e estética, o autoconhecimento e outras dimensões que formam o caráter exaurível e profundamente realizador do mundo espiritual, construiremos um outro caminho que nos leva a uma Terra da Boa Esperança (Ignacy Sachs) e a uma biocivilização.

O quão fundamental é a espiritualidade em tempos bicudos como o atual? Como manter a fé sem ilusões sobre a realidade humana?

Os tempos atuais são dramáticos. Isso não representa ainda uma tragédia anunciada. Mas significa seguramente uma grande crise de civilização. Dizem-nos os antropólogos que em tempos assim fervilham as religiões e se aprofundam os caminhos espirituais. Eles formam aquele campo da experiência humana onde se elaboram os grandes sonhos e utopias, conferindo sentido à vida e rasgando horizontes de esperança. Bem dizia Ernst Bloch: “onde há religião, há esperança”; “o verdadeiro gênese não está no começo, mas no fim”. Isso podemos verificar atualmente. A despeito do caráter fundamentalista de muitas expressões religiosas, há uma efervescência do religioso, do sagrado e do místico irrompendo em todas as partes e em todos os estratos sociais. Quer dizer, os seres humanos estão cansados de materialidade, de eficiência, de consumo e de racionalidade. O segredo da felicidade e a quietude do coração não se encontra nas ciências, nem na acumulação de poder, mas no cultivo da razão sensível e cordial, aquela dimensão do profundo humano onde medram os valores e vige o mundo das excelências. Daí nascem os sonhos e os valores que podem inspirar um novo ensaio civilizatório.

O que o senhor espera (ou tem visto) das rodadas de palestras propostas na sua parceria com a Fundação Avina sobre biodiversidade?

A biodiversidade é o ponto mais vulnerável do sistema-Terra. São as espécies, as mais diversas, e por minúsculas que sejam como insetos, a variedade de plantas e os microorganismos que respondem pelo equilíbrio e a vitalidade da Terra. Tudo é sistêmico. Um pouco mais de calor em uma região faz com que as flores do café murchem, o trigo não se abra e o milho não cresça, obrigando os produtores a mudarem de região. O sistema-Terra é complexo, mas frágil. Mínimas mudanças podem acarretar, devido ao caráter sistêmico, grandes mudanças no todo. Daí é importante valorizar cada ser, cada ecossistema, cada gota de água, pois tudo pode ajudar ou impedir a vida florescer e brilhar. Isso pressupõe um novo olhar diante da natureza, do universo e da Mãe Terra. Essa nova ótica produz uma nova ética, de encantamento, de respeito, de convivência jovial com todos os seres da criação.

Samir Amim: uma avaliação do FSM Dakar 2011

Reprodução da Agência Carta Maior

Parece difícil concluir que no transcurso dos dez anos desde seu nascimento, os fóruns sociais tenham conseguido progressos em sua capacidade de mobilizar os principais movimentos em luta no ritmo exigido pela urgência dos desafios. Apesar dos avanços, os fóruns sociais me parecem ter ficado no fim da fila do trem, sempre em atraso com respeito aos avanços registrados no campo das lutas. Esta constatação, mesmo que possa parecer dura, não significa que a existência do Fórum Social Mundial seja um fato irrelevante. O artigo é de Samir Amim.

Samir Amim – Rebelión

As redes do Fórum do Terceiro Mundo e do Fórum Mundial das Alternativas, em associação com CODESRIA e ENDA Terceiro Mundo, apoiados por Transform-Europe, Action Aid e South South People’s Solidarity Network, estiveram visivelmente mais presentes e ativas na edição Dakar 2011 do que em edições anteriores do FSM.

A participação da Ásia e da África, presentes nas mesas redondas e conferências organizadas pelas instituições e redes anteriormente citados, tornou possível sem dúvida a reunião de grande maioria de africanos e asiáticos que participaram do FSM Dakar 2011. Um bom número de participantes assistiu a estas mesas redondas e conferências (mais de 200 de forma contínua), durante quatro jornadas consecutivas, das 9 da manhã às 7 da tarde. Os participantes da América Latina e Europa também estiveram presentes e ativos no transcurso destas quatro jornadas. A qualidade e o nível das intervenções foram formidáveis.

É unânime a opinião de que a avaliação do FSM deveria, em primeiro lugar, apontar para a questão dos avanços políticos do Fórum, sem que isso diminua de maneira alguma a importância de questões relacionadas com a organização e a logística.

A principal questão política é a seguinte: o avanço em termos políticos entre uma edição do FSM e outra se detecta em função da capacidade política de mobilizar as principais forças em luta e que participam ativamente na transformação do mundo, construindo “outro mundo” melhor.

Em minha apreciação pessoal, todos deveríamos fazer um exercício de modéstia. As principais forças envolvidas nas grandes lutas de nosso tempo estão presentes nos fóruns sociais. A título de exemplo ilustrativo, podemos citar os casos da Tunísia e do Egito, onde gigantescos movimentos populares têm estado na vanguarda da cena política nestes países, enquanto em Dakar se desenvolvia o FSM. Poucas das organizações e redes que desempenharam um papel decisivo no Egito e na Tunísia tinham ouvido falar dos fóruns sociais. Com certeza poderíamos multiplicar este exemplo em cada um dos continentes do planeta. Sem deixar lugar para dúvidas, estes movimentos em luta encontraram um eco entusiasta em muitos participantes do Fórum Social, como assim testemunham as ovações dadas durante o encontro para os povos egípcio e tunisiano.

Parece difícil concluir que no transcurso dos dez anos desde seu nascimento, os fóruns sociais tenham conseguido progressos em sua capacidade de mobilizar os principais movimentos em luta no ritmo exigido pela urgência dos desafios. Apesar dos avanços, os fóruns sociais me parecem ter ficado no fim da fila do trem, sempre em atraso com respeito aos avanços registrados no campo das lutas.

Esta constatação, mesmo que possa parecer dura, não significa que a existência do Fórum Social Mundial seja um fato irrelevante. Somente o fato de concentrar em escala mundial uma série de movimentos (apesar de não serem os movimentos mais ativos no terreno) é positivo, já que não há muitas outras ocasiões similares. Considero que os movimentos que participam nos FSM são perfeitamente legítimos por sua luta em defesa dos direitos democráticos dos trabalhadores, das mulheres dos povos, assim como de outro modelo de desenvolvimento que respeite à natureza; e isto apesar de que os movimentos estão cada vez mais fragmentados. No entanto, creio que se progrediu na tomada de consciência de que devem ser construídas convergências, na perspectiva de dar ao movimento em seu conjunto uma estratégia de ação eficaz. O FSM de Dakar me parece, desde esta perspectiva, ter se somado a este avanço.

Provavelmente, uma das principais razões que explicam a fraca presença dos grandes movimentos em luta é financeira. A participação no Fórum Social Mundial é cara. As ONGs, que frequentemente dispõe de importantes recursos postos à sua disposição pelas agências internacionais e organismos de cooperação dos países ricos, estão, consequentemente, sobre representadas em comparação com outras organizações.

As questões organizativas e logísticas são importantes e as deficiências registradas neste plano não devem ser excluídas da avaliação. Neste plano, me parece que o FSM Dakar 2011 não foi “pior” organizado que os anteriores, levando em conta que o orçamento recolhido para sua realização (e bravo por Taoufik tê-lo conseguido, pelos esforços incríveis que tornaram isso possível) foi muito inferior a qualquer dos gastos dos fóruns anteriores.

Detenho-me aqui para felicitar os comitês organizadores, o senegalês e o africano. De fato, me parece que este fórum foi menos deficiente no plano organizativo que outros, realizados em países com melhores condições. Também agradeço à Universidade Cheick Anta Diop, de Dakar, e ao governo do Senegal, que contribuíram amplamente para facilitar nossa tarefa.

A marcha inaugural em Dakar contou com cerca de 70 mil participantes (estimativa da polícia, raramente generosa neste ponto), muito mais do que o previsto.

Apesar desta afluência de gente, tenho que dizer que ao menos no que concerne às atividades organizadas por nossas redes “aglutinadas”, como se denomina na linguagem do Fórum Social Mundial, a organização foi perfeita. Tivemos 36 horas ininterruptas de debate (com assistência majoritária de participantes da África e da Ásia) sem contratempos, todos os debates nos mesmos espaços bem equipados e assistidos por um serviço de tradução que não falhou (muito graças a Babels). A realização do Fórum em um mesmo lugar, a Universidade, permitiu evitar os problemas verificados em outros FSMs, dispersos na periferia e que impunham grandes deslocamentos. Obrigado a Dakar, cidade menos opulenta que as outras onde o FSM ocorreu.

(*) Economista egípcio, marxista, diretor do Forum do Terceiro Mundo, uma associação internacional formada por intelectuais da África, Ásia e América Latina, destinada a fortalecer os esforços intelectuais e os laços entre os países do Terceiro Mundo, com sede em Dakar.

Catadores de lixo reciclável terão apoio de comitê formado por 16 ministérios

Lourenço Melo
Repórter da Agência Brasil

Brasília – Foi instalado hoje (14) o Comitê Interministerial de Inclusão Social e Econômica dos Catadores de Materiais Reciclaveis, sob coordenação dos ministérios do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, com a participação de representantes de 16 ministérios e nove instituições federais. A coleta de lixo reciclável resulta na movimentação anual de R$ 8,5 bilhões, segundo informou a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira.

O comitê visa a fortalecer o trabalho dos catadores que, além de desempenhar uma atividade econômica com forte impacto social e ambiental, também ajudam a reduzir custos dos serviços de  limpeza urbana das prefeituras.

Para a ministra, os catadores “já podem se orgulhar da sua atividade, que começa a ser mais respeitada no país, porque eles são os verdadeiros ambientalistas”. A sanção pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em dezembro do ano passado, da Lei Nacional dos Resíduos Sólidos, “delineou a responsabilidade de empresários e do povo sobre a importância da reciclagem de materiais já utilizados”, lembrou Izabella Teixeira. “É um trabalho que envolve uma prioridade que diz respeito ao povo brasileiro e não à elite”.

A ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Tereza Campello, afirmou que todos os municípios do país “precisam se engajar na preocupação social e econômica de reciclar materiais”. Segundo ela, o fortalecimento do trabalho dos catadores “pode ajudar muito na erradicação da pobreza até 2014, meta da presidenta Dilma Rousseff”.

O coordenador do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, Alexandre Cardoso, que representará os trabalhadores no comitê, disse que a categoria “integra a luta dos pobres por um lugar ao sol. [Os catadores] trabalham até 16 horas por dia e os mais organizados somam 800 mil em todo o país”, informou. Ele reclamou da exploração das indústrias de reciclagem, com a alegação de que a maioria dos catadores não consegue ganhar nem um salário mínimo no fim do mês. De acordo com Cardoso, apenas 10% dos recursos movimentados pelo setor de reciclagem ficam com os catadores.

“Os catadores precisam ter mais espaço para trabalhar e contar com apoio tecnológico, pois 60% da categoria ainda trabalha em cima dos lixões, que são dominados pelas empresas de ferro-velho e ainda por cima contam com a presença do tráfico de drogas”.

Edição: Vinicius Doria

POLIDIZERES

O QUE OS OLHOS NÃO VÊEM – Dizem que a tevê não mostra porque não pode. Outros não vêem porque não querem. Mas está lá. Em cada morro que deslizou, em cada enxurrada que passou, em cada corpo que ficou, dá para ver, gravadas, as imagens dos rostos dos governantes que, nas últimas décadas, nada fizeram para impedir que a cidade pudesse existir em comunidade com a natureza.

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INTELIGÊNCIA – O que também se pode ver em toda esta situação política é que, embora a natureza tenha sido pródiga com todos, há alguns que se recusam a usar aquilo que ela deu de mais rico: a inteligência. Uns não usam para governar; outros, para escolher.

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CULTURA POPULAR – Boi de Parintins faz apresentação EX-CLU-SI-VA em festa de arromba em condomínio de luxo, em Manaus, neste final de semana, por ocasião do aniversário de um juiz. O levantador de toadas, as cunhãs-porangas e o próprio boi de pano dançaram para deleite de poucos até o sol raiar. É o que nos diz um prestigiado colunista social.

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PERDEU-SE A ORIGEM – Acreditar que o boi de Parintins seja, hoje, cultura popular, por conta do talento inegável e inesgotável de seus artistas plásticos é o mesmo que achar que a FIAT pertence aos operários apenas porque são eles que constróem os carros da empresa. Subitamente, apaga-se a exploração. Mas um dia, o boi foi (expressão) do povo.

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AD ETERNUM? – Perguntamo-nos, inutilmente, se haveria comoção semelhante à da época do terremoto, se hoje fizéssemos campanha pelo Haiti. Atualmente, uma outra hecatombe toma conta daquele país, e muito pior que a trazida pelo movimento das placas tectônicas, pois que esta tem por objetivo a perpetuação da miséria e da dominação político-econômica naquele país. E feita pelo homem.

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AD ETERNUM BRASILIS? – Igualmente, no auge da comoção da classe média (leia-se compaixão) do auxílio aos desabrigados na Serra do Rio de Janeiro e de São Paulo, ignorar-se-á, daqui a alguns meses, que evitar a repetição farsesca destes eventos, no verão de 2012 está a um passo. Basta continuar movimentando a energia, desta vez não pela via da compaixão, mas pela da razão. Infelizmente, Razão e Compaixão são interexcludentes.

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NADA DE NOVO NO FRONT – Amazonino não tem nada a dizer. Tudo está na cara, ao alcance de um passeio por Manaus. O que ele diz é o que ele faz. Daí, nada de novo na entrevista concedida à jornalista Ivânia Vieira e exibida na edição dominical de A Crítica. O que a classe média twítica viu nela de tão revelador? O louvável é, talvez, apenas o fato da jornalista ter suportado estar no mesmo ambiente que o atual prefake (prefeito fake) de Manaus por tanto tempo.

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FRASE DO DIA – Não ha nada mais ficcional do que a realidade.