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DOENÇAS NEURODEGENERATIVAS PODEM SER DIAGNOSTICADAS POR EXAME DE SANGUE DIZ PESQUISA

De acordo com estudos realizados na Universidade de São Paulo (USP), o diagnóstico de doenças neurodegenerativas pode ser facilitado por meio de exames de sangue. Um estudo analisou o nível de três substâncias encontradas no sangue que podem ajudar a entender o processo de envelhecimento do cérebro.

Para identificar estes tipos de doenças através de exames de sangue, a pesquisa investigou os compostos envolvidos no chamado estresse oxidativo, que desequilibra a presença de radicais livres no organismo, os pesquisadores perceberam que essa desregulação ocorre de forma mais intensa em pacientes com Alzheimer.

“Fomos atrás de marcadores [da doença] no sangue, porque trabalhos científicos recentes já consideram o Alzheimer como uma doença sistêmica e não exclusiva do cérebro. Então a gente acreditava que, se esse mecanismo de estresse oxidativo estivesse presente na doença, talvez a gente pudesse verificar ela perifericamente [no exame de sangue]”, explicou a professora Tania Marcourakis, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP.

Segundo a Agência Brasil, “Atualmente, o diagnóstico definitivo do Alzheimer é feito somente após a morte do paciente com a análise de partes do cérebro”. A reportagem também explicou como se deu o processo das pesquisas: “Em uma primeira etapa, foram estudados três compostos presentes no sangue, cujos níveis variam de acordo com o envelhecimento: monofosfato cíclico de guanosina (GMP cíclico), óxido nítrico sintase (NOS) e substâncias reativas ao ácido tiobarbitúrico (Tbars). Os pesquisadores compararam as plaquetas de três grupos de pacientes: 37 adultos jovens (18 a 49 anos), 40 idosos saudáveis sem nenhum tipo de demência (62 a 80 anos) e 53 idosos com Alzheimer (55 a 89 anos)”.

Verificou-se que o avanço da idade aumenta a presença da NOS e da Tbars e ocorre uma diminuição do GMP cíclico. “Com a doença, a gente viu que a Tbars aumenta mais ainda. Vimos uma escadinha: no envelhecimento ela sobe e com a doença de Alzheimer, sobe mais ainda. E a mesma coisa ocorre com o NOS, mostrando que são processos contínuos. Já o GMP cíclico, uma vez que ele diminui no envelhecimento, continuava diminuindo na doença”, expôs Marcourakis.

Em uma segunda fase da pesquisa, houve experiências com ratos com o objetivo de identificar se o que foi percebido no sangue também ocorre no cérebro. A pesquisadora explicou: “Percebemos duas coisas importantes: no envelhecimento do rato acontecia a mesma coisa que no humano e a mesma coisa que a gente achava no sangue, também encontrava no cérebro. Isso foi muito importante para validar o nosso modelo: o que você analisa no sangue, está refletido no cérebro”.

Poderíamos considerar uma aproximação das pesquisas realizadas com o considerado paralelismo spinozista, onde não há separação entre corpo e alma (mente/cérebro), a pesquisadora disse explicando que os resultados ainda não podem ser utilizados como diagnóstico de doenças neurodegenerativas, mas avançam na compreensão fisiopatológicas delas: “A gente entende melhor a doença. Veja o Alzheimer, por exemplo, ele não está só no cérebro, está no corpo inteiro, a análise do sangue mostrou isso”.

Há várias pesquisas no Brasil para que diagnósticos precoces possam contribuir no tratamento de doenças deste tipo. Ainda com a Agência Brasil: “Apesar de não ter cura, o diagnóstico precoce do Alzheimer possibilita que os pacientes melhorem a qualidade de vida. “Hoje, quando você faz o diagnóstico, já tem um índice de morte de neurônio muito grande e não tem como reverter”, explicou a pesquisadora. As medicações existentes são compensatórias. “Elas aumentam o neurotransmissor que está faltando, mas eles continuam morrendo e chega a um ponto que o remédio não faz mais efeito”, disse. Quanto mais cedo a doença é identificada, a medicação pode funcionar por mais tempo. “Abre-se uma janela para que se possa atuar mais”, explicou a pesquisadora”.

Nietzsche nos fala sobre a necessidade do esquecimento para o enfraquecimento da moral. Este esquecimento não é somente uma falta de memória, mas um modo de existência que participa do mundo como vontade de potência, isto é, como a potencialização do que já possuímos para a superação de nós mesmos, por exemplo, procurando problematizar “o valor dos valores”. Com isso, queremos dizer que tanto o cérebro como o corpo está no mundo e participam da produção deste como são afetados e transformados pelo mundo, como diz Antonio Damásio, a consciência é uma mente dotada de subjetividade. Portanto, pesquisa cientifica alguma pode descartar a possibilidade do corpo humano como um sistema aberto.

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PROGRAMA CIÊNCIA SEM FRONTEIRAS E PROJETO ESCOLA SEM FRONTEIRAS

O conhecido e respeitado neurocientista, Miguel Nicolelis, participou hoje de encontro com a presidenta Dilma Rousseff e o ministro de Ciência e Tecnologia, Aluízio Mercadante. Na ocasião a presidenta declarou que ainda para este mês será lançado o programa Ciência sem Fronteiras, que irá destinar 75 mil bolsas a estudantes de graduação e pós-graduação em áreas estratégicas para especialização em outros países. “Em julho a presidenta vai lançar 75 mil estudantes brasileiros no estudo de ciência, principalmente na área de engenharia, tecnologia e ciências básicas”.

Entre vários projetos apresentados pelo neurocientista Miguel Nicolelis, o Escola sem Fronteiras que tem por objetivo levar a educação científica a 12 localidades do país terá seus detalhas relatados ao governo para captar recursos públicos, em agosto.

O ministro Mercadante ainda disse que será lançado ainda este ano concurso público para atrair cientistas estrangeiros. A intenção, segundo Mercadante, é que parte das vagas do concurso seja destinada aos profissionais de outros países. “O Brasil hoje investe, cresce, tem estabilidade. Tivemos uma diáspora de cérebros no passado e agora queremos atrair”, disse.

FRASES E FRASES ESPECIAL

“A impressão deixada é que ao aceitar esse convite do MCT eu deixarei de falar o que penso. Ninguém vai me usar para criticar nem o presidente Lula, nem seu governo, nem a presidenta Dilma. Estou aceitando esse convite para contribuir com o Brasil”

(Miguel Nicolelis, considerado um dos maiores pesquisadores na área de neorociência, esclarecendo que não irá ocupar um cargo como funcionário do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), como foi publicado no jornal O Estado de S. Paulo. Jornal este que ainda frisou o fato de Nicolelis está aceitando o cargo mesmo tendo criticado o andamento da ciência no país. O que Nicolelis aceitou foi um convite para participar como voluntário na chamada Comissão do Futuro “para poder aprofundar toda a análise do que está errado na ciência brasileira”, como ele próprio afirmou em seu twitter).

CAROS AMIGOS ENTREVISTA MIGUEL NICOLELIS – PT8/8

Epílogo:

VIVA A IGNORÂNCIA!

César Cardoso

Minha amiga, vamos deixar de hipocrisia, vamos louvar a ignorância. É só por uns dois minutinhos, o tempo de ler este texto. Porque é a ignorância que nos sustenta e não a inteligência, a delicadeza e toda a nossa lista de bons sentimentos. Quando foi que você atravessou a rua e deu de cara com uma passeata pedindo mais escolas? Não, a gente vai pra rua pedir segurança e bota grade e cerca elétrica na porta de casa. E qual é o lugar mais superlotado do país? Os motéis? Não, as cadeias! Amor? Amor é muito bom pra vender cerveja, roupa e automóvel. Mas no dia-a-dia, meu amor, a gente vai mesmo é de ódio.

No trabalho, por exemplo: o chefão pisa no chefe que esmurra o chefinho que morde o assessor que soca o assistente que cospe na secretária que belisca o office-boy que vai pra casa e dá um bico no cachorro. Ou, se ele for um sujeito de sorte, pisa na mulher que esmurra o filho que morde.

Sinto muito, minha amiga, mas é a ignorância que move o mundo. O que mais se vende neste planeta? Flores? Poemas? Bombons Rêve d’Amour? Não, é arma mesmo. E você já viu fábrica de arma fazendo liquidação de verão? Não precisa, porque desde que o mundo é mundo eu faço o arco e flecha, tu constróis a catapulta, ele cria o revólver, nós inventamos o tanque, vós idealizais o bombardeio aéreo, eles concebem a bomba atômica.

Por isso, minha amiga, vamos levantar um brinde à violência, pedir duas salvas de palmas ao preconceito e dar três hip-hurras à escravidão que continua espalhada pelos quatro cantos da Terra. São os frutos da nossa ignorância, que seguimos plantando com o suor do rosto alheio.

Pronto! Agora podemos esquecer isso tudo e voltar a ser gente boa e cristã, que tem fé no ser humano e nunca vai ensinar pro filho que ele tem que ser melhor do que todo o mundo e que não basta descobrir a pólvora, tem que atirar primeiro.

Nós? Nunca!

Cesar Cardoso é um escritor pacífico (mas às vezes se sente meio atlântico)

CAROS AMIGOS ENTREVISTA MIGUEL NICOLELIS – PT 7/8

CAROS AMIGOS ENTREVISTA MIGUEL NICOLELIS

parte 7 de 8

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João de Barros Que cientistas brasileiros você admira?

Tive o privilegio de ver o Mário Schenberg falar. Era brilhante, aquele raciocínio abstrato, tentar explicar o que é o universo, a matéria. O doutor César, você chegava na aula de neurociência e estava tocando a abertura de uma ópera qualquer – ele considerava compor uma ópera o exercício mais profundo, uma tempestade elétrica.

Marcos Zibordi O gol de bicicleta também.

Depende de quem faça. Se fosse o Leivinha… A Nature me pediu um dia para escrever. É aquilo que você espera a tua vida inteira, o editor da Nature telefonar: “dá para você escrever uma revisão pra nós?”. O mundo pára, o filho pode cair da escada, cachorro pode ficar sem comida.

Mylton Severiano O que é uma revisão?

É um artigo que não é só baseado em dados que você coletou, mas a sua opinião. Você tem uma chance ou duas na vida de uma revista dessas pedir sua impressão. Ele queria que eu explicasse como as teorias do cérebro se inseriam nessa questão que eu sempre falava em meus trabalhos, de libertar o cérebro do corpo para ele controlar à distância um membro artificial. Ele disse: “Você precisa de um parágrafo que resuma toda a dimensão do que o cérebro é capaz de fazer. Daqui uma semana, mande só o primeiro parágrafo, para eu saber se você consegue escrever o troço.” Olha o que fiz: descrevi sob o ponto de vista de uma criança, que era eu, assistindo televisão, o primeiro gol do Pelé contra a Itália na Copa do México em 1970. O Tostão cobrando o lateral, o Rivelino levantando a bola, a torcida já levantando atrás do gol, porque eles já tinham visto mil vezes quando a bola sobe para a área e “o cara” levanta, não tem jeito! A expressão de dor que tem no filme, de frente para o gol italiano: o Albertozzi torcendo toda a face, porque sabe que não tem jeito. E o Facchetti, um cara grandão, levanta só para cumprir com o dever, porque “o homem” já vinha correndo. Descrevi isso do ponto de vista do cérebro. A coordenação da visão vendo a bola no ar rarefeito da Cidade do México, a torcida já celebrando, a bola entrando e o mundo explodindo. Eu tinha nove anos e ouvi um troço explodindo lá fora. E para o resto da minha vida gol era uma explosão, porque meu cérebro associou a imagem do gol com o som dos fogos de artifício por toda a cidade. Liguei para o editor: “olha, modifique o que quiser, mas o primeiro parágrafo é inegociável”. Esse editor me manda um emeio assim: “eu lembro desse gol”. O trabalho estava aceito!

Mylton Severiano O senhor vai repatriar outros cientistas, não?

Sim, parte do projeto Natal é repatriar os cérebros. O Brasil tem 11 mil cientistas no exterior. São trinta anos de gente indo embora. Mas eu não acredito que o voltar ou existir seja necessariamente só físico. Fui fisicamente porque me disseram que não tinha futuro aqui, entendeu? Fui embora, mas o Brasil nunca foi embora de mim. Acho que muita gente que está fora que foi e aprendeu algo, algo genial, que poderia voltar e ajudar o país, o que a gente precisava é falar “volta, vem pra cá! Está na hora de construir o Brasil”.

(Amanhã o epílogo)

CAROS AMIGOS ENTREVISTA MIGUEL NICOLELIS – PT 6/8

CAROS AMIGOS ENTREVISTA MIGUEL NICOLELIS

parte 6 de 8

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Mylton Severiano Mas voltando ao Brizola, que falou que se até seis anos não formar o “computador” queima, essa criança tem chance mesmo “queimada”?

Tem. Existe uma coisa que chama plasticidade cerebral. O exemplo que uso é o Garrincha. Tinha um joelho olhando pro outro, passou fome, teve deformidades ósseas e distúrbios neurológicos, certamente faltou proteína pro cérebro. O controle motor do Garrincha ninguém discute haja vista o beque da União Soviética na Copa de 1958. O ditado “cachorro velho não aprende truque novo” não é verdade. O cérebro consegue, principalmente na primeira infância, se adaptar a condições adversas, os circuitos se rearranjam. Agora, esse primeiro período dos seis anos, ou três, é vital, é o momento onde você tem que ter o aporte nutricional e o educacional.

Marcos Zibordi Imagino que o Instituto é mais um mundo mágico.

Uma menina, quando o presidente foi visitar, ele perguntou: “O que você acha dessa escola?”, a menina “Que escola?”, “Essa aqui”, e a menina “não, isso aqui não é escola não, é parque de diversões”.

João de Barros Esses pesquisadores já estão estudando?

Estão estudando modelos de doença de Parkinson, coisas relacionadas à neurofisiologia do sono, o que o cérebro faz quando a gente vai dormir. A codificação neural, como o sistema nervoso codifica informação. Estudamos o que está na agenda da neurociência mundial. Natal está ligada a vários institutos do mundo. Em julho vamos ter a primeira escola de altos estudos de neurociência do Brasil, 28 neurocientistas do mundo inteiro vão passar de quatro a oito semanas dando aula por teleconferência para todos os alunos de neurociência do Brasil, de pós-graduação, a partir de Natal.

Marcos Zibordi A comunidade científica criticou sua proposta, como se você estivesse descredibilizando a neurociência brasileira.

Nunca me preocupei com isso. Sou cria do pai da neurociência brasileira. Seria impossível, a não ser que eu perdesse o lóbulo préfrontal, esquecer de onde vim. Prova maior é que voltei, não precisava voltar. Esse negócio que não tem dinheiro, dinheiro tem, é só ir atrás e fazer algo que justifique o dinheiro. A única pessoa que levantou questões, quando interpelada para provar, fugiu da rinha. E tudo o que veio a público aqui foi feito de maneira aberta. O governo federal foi simpático à nossa causa? Claro. Por que não poderia ser?

Marcos Zibordi Uma das ações do instituto foi patrocinada pela Agência de Projeto de Defesa dos Estados Unidos. Por que achei estranho?

Porque não existe isso no Brasil. As próteses que comecei a criar podem ser uma terapia para pessoas quadriplégicas ou paraplégicas. Com o crescimento do número de veteranos de guerra com lesões na medula espinal por causa da guerra, então o Departamento de Defesa criou uma verba de pesquisa para gerar novas terapias. E estamos conseguindo. Vai ser anunciado um braço robótico para pacientes que perderam membros superiores que vai ser implantado no ombro deles, comandado pelo sistema nervoso com técnicas que a gente fez. E quando assino esse barato está claro e explícito que jamais trabalharia em qualquer linha que não fosse de reabilitação médica.

Marcos Zibordi Se nós temos tanta dificuldade para patrocinar pesquisa, o que o senhor acha do fato de não se conferir o resultado final? Como funciona fora daqui?

Se você terminar um projeto de cinco anos e não produzir trabalhos, publicados em grandes revistas e com um selo de aprovação, sua carreira acabou. A seleção natural lá é grande. Que é um dos problemas aqui: se financia tudo. Se falta dinheiro, teria que ter uma visão um pouco mais crítica. O que vamos financiar? Qual é nossa visão estratégica de ciência? O que o Brasil precisa? O que queremos desenvolver da inteligência nacional? Ciência é hoje uma questão de soberania nacional, uma questão estratégica da humanidade e uma contribuinte vital para a preservação da democracia do mundo. Porque se não ajudar a produzir comida, novas formas de energia, de curar doenças, a espécie acaba. A ciência está no vértice das decisões. O Brasil precisa de uma nova cultura universitária. Tem que abrir as portas das universidades para o Brasil. Precisa de uma nova visão acadêmica. Tudo isso tem que passar por uma discussão, e a sociedade precisa fazer essa discussão munida do conhecimento da informação. A ciência é uma questão estratégica, só que não recebe do ponto de vista político a devida relevância. A questão das células embrionárias não é religiosa, uma questão técnica, também estratégica.

Moriti Neto O governo George Bush é ultraconservador. A comunidade científica enfrentou dificuldades?

Estou há vinte anos nos Estados Unidos: é o período mais difícil e opressor que já passei na América. Você sente que não tem liberdade de manifestar sua opinião. E sinto que o Brasil caminha seriamente para impor restrições na nossa vida cotidiana que vêm de uma posição religiosa dogmática. Nos Estados Unidos é pior, ao ponto de certos professores serem repreendidos por falar em Darwin no departamento de biologia.

Thiago Domenici Como você encara ser considerado o cientista brasileiro vivo mais importante e um dos vinte mais importantes do mundo, que pode ganhar o Nobel?

É difícil comentar isso. O Brasil merecia vários Nobéis, o Carlos Chagas, Santos Dumont podia ter ganhado o de física. Isso não quer dizer que não ficaria feliz se um brasileiro ganhasse o Nobel.

Vinícius Souto Como você enxerga essas crianças que estudam no instituto daqui alguns anos?

Sempre falo para eles que são embriões de um exército de sonhadores. A noção de que você pode sonhar alto, como Santos Dumont sonhou. Minha esperança é essa.

CAROS AMIGOS ENTREVISTA MIGUEL NICOLELIS – PT 5/8

CAROS AMIGOS ENTREVISTA MIGUEL NICOLELIS

parte 5 de 8

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Mylton Severiano Quem? O Lula?

É. Não saiu em lugar nenhum. Estava na capa da maior revista de ciência do mundo, o presidente, o ministro da Educação, se comprometendo a levar o currículo de educação científica infanto-juvenil desenvolvido em Natal para 1 milhão de crianças brasileiras. Mostrei as crianças montando robô, usando telescópio, medindo lua de Júpiter.

Mylton Severiano Lá em Natal?

Em Macaíba, na periferia de Natal. Foi um choque. Mas só fora daqui saiu nos jornais, saiu na Scientific American, na Science, na Nature, nas grandes revistas do mundo.

Roberto Manera Qual é a parte da grande imprensa nisso?

Ah, omissão. Cheguei à conclusão que hoje no Brasil é difícil falar bem do Brasil. Existe uma cultura de se confundir o país com quem está no governo. E a gente não pode contar boas notícias. É uma coisa meio assustadora, não consigo entender.

Mylton Severiano Porque o presidente não é doutor?

Pode ser. Mas acho que o buraco é mais embaixo: não podia dar certo. O governo dele tinha de ser o pior da história do Brasil. E se você analisar os fatos friamente e objetivamente, não é. Se você passar duas semanas no interior do Rio Grande do Norte, da Paraíba, é outro Brasil. A gente respira aquele país que, quando eu era criança, me diziam que nunca seria possível se fazer. [Nesse momento Nicolelis chora] E é chocante, você só consegue falar sobre isso fora daqui. O Brasil, de certa maneira, carrega hoje a responsabilidade de ser uma das poucas boas esperanças no mundo. De preservar seu ambiente, construir um país honesto, que cresça não à custa de outro, mas à custa do seu próprio trabalho, um país que tem uma democracia
explodindo, não? Eu coloquei na minha porta na Universidade de Duke: 95 milhões de votos contados em quatro horas. Qualquer semelhança é pura coincidência. Eu me tornei mais brasileiro vivendo fora daqui. E acho inconcebível que nossas crianças cresçam sem apreciar a diferença entre patriotismo barato e verdadeiro amor pelo Brasil. Têm direito ao acesso à informação legítima, honesta e limpa. Para saber que país é, quais são os problemas, mas quais são as maravilhas do Brasil… [chora novamente]. Tem duas piadas que me deixam possesso. Uma é quando alguém fala, aqui, que “isto é coisa de primeiro mundo”. Que primeiro mundo? E a segunda é que “Deus criou esse maravilhoso país, mas deixa ver o povinho que vou pôr lá”. É o ranço do coronelismo. É inserir no genoma nacional o complexo de inferioridade. O Santos Dumont não pensou que não era do primeiro mundo quando voou, não pensou no “povinho”, ele foi e fez. E acho que o que nós não sabemos é que existem milhões de outros Brasis que estão se fazendo está lá em Resende, em Lages, no Seridó, no sertão da Paraíba, em Soares, em lugares que a gente nem considera como parte da gente. E aqui nós não apreciamos isso.

Thiago Domenici Quando você mostrou o projeto ao Lula?

Foi genial. Estávamos no meu escritório, na minha casa, assistindo televisão, na Carolina do Norte. Vejo o discurso de vitória de um cara que conheci rapidamente, que veio da miséria e virou presidente do Brasil, e está anunciando que quer construir outro país. Virei pro Sidarta, cientista meu amigo: “É agora.” Escrevemos, fizemos contato. Em 2002. Vim em março de 2003 e fui me encontrar com ele em 2004. Declarei a intenção de criar o projeto no lugar em que cientista nenhum iria, e se funcionasse em Macaíba iria funcionar em qualquer lugar. Trouxe quarenta neurocientistas do mundo inteiro para Natal, para o simpósio que inaugurou a idéia, em fevereiro de 2004. Recebi um convite para ir ver o presidente. Foi emocionante, tinha dado carona para ele uma vez, no sindicato dos médicos, quer dizer, um cara que contei piada do Palmeiras e do Corinthians era presidente da República. E ele mandou todo o mundo sair da sala, me deu um abraço e disse: “Vai em
frente que eu estou aqui.” [Chora novamente.] E nós fomos em frente.

Mylton Severiano Governo federal, estadual e municipal, você tem apoio?

O maior apoio foi do governo federal, mas o mais relevante é que a gente não só conseguiu construir isso, como conseguimos pegar mil crianças da rede pública, de escolas que as pessoas não davam esperança alguma, colocar em um ambiente de laboratório, de liberdade, de criatividade e mostrar para elas que o céu era o limite. E quando vim falar com certas pessoas aqui em São Paulo, falaram: “Não vai sair nada.”

Thiago Domenici Pessoas do governo?

Não, cientistas: “Você está louco, não tem massa crítica, não vai sair do lugar”, e hoje você vê criança que antes queria ser jogador de futebol dizer que quer ser químico. Estão montando robô, outro programando chip aos 12 anos.

Vinícius Souto Quais as principais características?

O projeto tem um centro de pesquisa onde começamos a trazer brasileiros que estavam fora, neurocientistas, como o Sidarta. Jovens que estavam fora ou pelo Brasil sem conseguir penetrar no sistema acadêmico público, levamos pra lá e o núcleo Coração, um centro de pesquisa ligado com centros de ponta do mundo inteiro. Em volta criamos o projeto educacional, e criamos um centro de saúde de atendimento à mulher e à criança, para gestação de alto risco; câncer da mulher; e problemas de neuropediatria. Agora estamos construindo um Campus do Cérebro, para 5 mil crianças, tempo integral, é essa que vai começar desde a gravidez, o Instituto propriamente dito, e vamos começar ações de integração com a comunidade. Queremos criar um pólo de desenvolvimento industrial, tecnológico, biotecnologia, porque o semi-árido é o único bioma naturalmente brasileiro, ninguém tem algo como a caatinga, e nós não devotamos nem em prosa, nem em verso, nem em orçamento o suficiente para estudar isso. Precisa ir lá, tirar foto, conversar com o povo, isso ninguém quer fazer porque dá trabalho.

Marcos Zibordi Quanto custa uma coisa dessa?

Esse projeto custa muito dinheiro. Até agora, com tudo que arrecadamos fora, setenta por cento é privado: doações, contratos de pesquisa, a Duke University me deu um contrato, doou equipamento, dinheiro. Está mudando o perfil do lugar. O Campus do Cérebro vai custar 42 milhões de reais. Só que os dinheiros não estão todos aqui, mas estão empenhados.

Léo Arcoverde E os educadores?

Recrutamos professores formados pelas universidades do Nordeste, e fizemos um retreinamento, agora estamos trazendo professores da rede pública a participar dos laboratórios. O primeiro sinal que o projeto estava funcionado é que os professores da rede pública começaram a comentar que estava até criando problema na escola, “seus alunos fazem muita pergunta”… Essas crianças têm perguntas que desafiam gente experimentada. Ensinar é isso, essa troca.