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Funcionários da Rudary fecham acesso ao campus da Ufam devido atraso de salário

Funcionários da empresa terceirizada Rudary, responsável pela limpeza e conservação do Campus Universitário da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), bloquearam na manhã desta quinta-feira (10) o acesso à instituição. Segundo a agente de limpeza e líder da equipe, Berenice dos Santos, 42, os trabalhadores estão com os salários atrasados há 40 dias, sem justificativa.

“Falamos com o encarregado várias vezes e a promessa era sempre que o dinheiro estaria na conta no dia seguinte. Somos pais de família, estamos com o aluguel atrasado, porque ainda não recebemos”, afirmou ela, ressaltando que os salários variam de R$ 428 a R$ 700.

A estimativa dos manifestantes é de que mais de 70 funcionários da prestadora de serviço, cujo contrato acaba na próxima segunda-feira (14), não tenham recebido o pagamento referente ao mês de setembro.

Nesta quarta-feira (9) a Ufam publicou uma nota na página eletrônica da instituição informando que os contratos ainda em vigor com a Rudary, assim como os repasses financeiros à referida empresa, estavam bloqueados, devido decisão judicial da Justiça do Trabalho envolvendo a prestadora.

Funcionário da empresa há seis meses, o agente de limpeza, Valcir de Souza, 27, afirma que os atrasos salarias injustificados são prática recorrente da Rudary e o bloqueio da entrada do Campus foi a única forma encontrada pela categoria para reivindicar uma solução.

“No meu segundo mês de trabalho pela empresa, fui surpreendido com o primeiro atraso salarial. Infelizmente a Rudary só funciona sob pressão”, disse.

Além do atraso salarial, outras reivindicações feitas pelos trabalhadores estão ligadas ao não pagamento de férias e dos direitos trabalhistas dos funcionários, que foram dispensados devido à aproximação do término do contrato da empresa com a Ufam, mas não tiveram a demissão registrada na carteira de trabalho.

“Não temos ideia se vamos receber indenização e se poderemos sacar o FGTS, porque ao invés de sermos demitidos e recebermos todos os direitos, eles querem que a gente peça demissão”, afirma Santos.

Atuando como agente de limpeza, há dois anos e cinco meses, Elivane dos Santos, 28, conta que nunca recebeu direito a férias e vale transporte. Entre as desculpas apresentadas pela empresa, segundo Elivane esteve a falta de dinheiro para arcar com o benefício obrigatório e supostas faltas ao serviço por parte dela, inviabilizando o gozo das férias.

“Só não passo necessidade com meus quatro filhos porque o pai deles me ajuda. Meu aluguel está atrasado há quase um mês e a empresa não tem a coragem de nos dar uma satisfação”, reclamou.

O impedimento da entrada e saída de veículos no campus, por meia hora, gerou filas de carros e ônibus nos dois sentidos da pista de acesso ao Mini Campus, Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL) e na Avenida General Rodrigo Otávio.

De acordo com a líder dos funcionários, para evitar a ocorrência de tumultos, policiais da 11ª Companhia Interativa Comunitária (Cicom) foram acionados para acompanhar a manifestação que ocorreu de forma pacífica.

Fonte: Adua

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Greve dos bancários e a calçada anti-mendigo do Bradesco em Manaus

Segundo informações da Agência Brasil, a federação Nacional dos Bancos (Fenabah) apresentou ao Comando Nacional dos Bancários, coordenado pela Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), na madrugada de hoje (11), nova proposta para o índice de reajuste salarial para a categoria. Pela nova proposta haveria aumento real de 1,82%, elevando para 8% o índice de reajuste dos salários.

Esta nova proposta será levada às assembléias para votação. O comando de greve orienta todos os sindicatos a fazerem assembléias até a segunda-feira (14) e “que aprovem a proposta que inclui ainda reajuste de 8,5% do piso salarial (ganho real de 2,29%) e de 10% sobre o valor fixo da regra básica e sobre o teto da parcela individual da Participação nos Lucros e Resultados (PLR). A proposta também eleva de 2% para 2,2% o lucro líquido a ser distribuído linearmente na parcela adicional da PLR.”

Ainda segundo a Agência Brasil: “As negociações feitas ontem com a Fenaban duraram 16 horas. A compensação dos dias parados será feita de segunda a sexta-feira, até 15 de dezembro, com uma hora extra diária”.

 Calçada anti-mendigo do Bradesco em Manaus

Em Manaus, enquanto os grevistas permanecem paralisados em seus serviços bancários, um dos bancos privados com maior faturamento do mundo e responsável pelo repasse do pagamento dos funcionários públicos do estado do Amazonas – Banco Bradesco – realiza reforma em uma de suas agências, situada no bairro Parque 10 de novembro – considerado um bairro nobre de Manaus. Esta ação explicita a histórica indiferença dos banqueiros para com as pessoas em geral: bancários e clientes, por exemplo. Os banqueiros constituem o mais alto grau de representação da classe burguesa na história do capitalismo, inspirando frases de humor crítico letal, como esta de Bertold Brechet: “O que é pior: roubar um banco ou fundar um banco?”

A reforma na agência do Parque 10 culminou com a construção de uma calçada anti-mendigos, obrigando os clientes a tomarem um só caminho pré-determinado para ter acesso à agência. A configuração da calçada, construída com pedras pontiagudas que distam poucos centímetros entre si, é uma agressão direcionada e repressora para os mendigos, demonstrando o desprezo pela população e, até mesmo, pela humanidade.

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A medida tomada pelo Bradesco já foi realizada por outras instituições em outros locais do Brasil, inclusive em instituições públicas, como prefeitura do Rio de Janeiro (veja aqui).

Estas ações são exemplos práticos de assepsia social, que ultrapassam o desprezo que instituições, tanto privadas quanto públicas, têm pelo excedente social. Se, antes, a categoria de população era percebida de modo abstrato pelos economistas do séc. XVIII, por exemplo, (como bem demonstrou Karl Marx, no seu esforço de desvendar o mistério da mercadoria), hoje, a população deixa de ser uma abstração e passa a ser um conjunto de dados reais norteadores de ações públicas e privadas para a regulação e o controle social, sendo a assepsia, uma das formas preferidas de tratar o excedente social. Esta assepsia funciona, precisamente, como controle da sociedade sobre os indivíduos. A sociedade, por meio de suas instituições, age diretamente sobre o corpo dos indivíduos com a clara intenção de descartar os corpos, em sua visão, improdutivos e dispendiosos.

É sabido que a grave é um direito histórico conquistado pelos trabalhadores por meio de atos de recusa e resistência, que colocavam em dúvida a organização do mundo do trabalho na sociedade capitalista. Mas também, sabe-se que o direito a greve tornou-se uma espécie de luta de classes legalizada com limites estabelecidos pela ideologia jurídica burguesa. As evidências disso estão nas reivindicações que se concentram nos reajustes salariais, sem demonstrar preocupação com a mudança da relação trabalhador-patrão.

“O direito de greve é um direito burguês. Entendemo-nos: eu não disse que a greve é burguesa, o que não teria sentido, mas o direito de greve é um direito burguês. O que quer dizer, muito precisamente, que a greve só acede à legalidade em certas condições, e que essas condições são as mesmas que permitem a reprodução do capital.” (Bernard Edelman)

Para além desta relação, qual será a ação dos bancários da agência do Parque 10, em especial, quando retornarem ao trabalho?

O direito de greve pode ir muito além de reivindicações salariais; quando ele deixa de ser um mero direito constitucional e torna-se uma produção desejante de transformação da existência.

ENTRE A PROPAGANDA E A REALIDADE: A RUDAY NA UFAM

Do Jornal Catarse

 No site da empresa prestadora de serviços, chamada RUDARY encontramos uma explicação do tipo de serviço que presta aos seus clientes (e a UFAM é um deles).

Afirma a sua “principal característica de serviço oferecido pela empresa é a variabilidade, onde os serviços são altamente variáveis, pois dependem dos que o realizem e quando e onde estão sendo realizados”.

A empresa Rudary Prestadora de Serviços Ltda, afirma que “oferece qualidade e garantia de profissionais altamente qualificados nas atividades profissionais que exerce, e apresenta-se como uma empresa terceirizada, que minimiza os custos”.

  Em seguida faz um elogio ao processo de terceirização, que segundo ela, é nos tempos de hoje uma estratégia das grandes empresas. Terceirização, como explica, “consiste em repassar suas tarefas secundárias a empresas especializadas, para poder realizar melhor sua atividade principal”, pois, segundo ela, “a terceirização tem surgido como forma de melhorar a qualidade dos produtos e serviços a menores custos.”

Para isso – continua – “é preciso uma estrutura moderna (sic) e, ainda qualidade, competitividade, desenvolvimento e senso de parceria e visão de longo prazo.”.

Mas, parece que a modernidade, com todos seus adjetivos, a que se refere o discurso propagandista da empresa, é só para inglês ver, pois a realidade, conforme podemos ver no depoimento de um trabalhador terceirizado que desenvolve suas atividades na Universidade Federal do Amazonas, não saiu do papel, (veja abaixo) como também demonstrou uma reportagem veiculada por uma emissora de televisão local.

A pergunta que fazemos é: a empresa que repassou “suas tarefas secundárias”, conforme a expressão contida na propaganda da empresa, possuí algum controle sobre a qualidade de vida dos trabalhadores que diariamente convivem conosco?

A universidade não é uma empresa qualquer. Aqui se qualifica profissionais das mais diversas áreas que têm – ou deveriam ter – um grande compromisso com a cidade, e com o local onde trabalha e, consequentemente, com os direitos dos trabalhadores.

Esses homens e mulheres que circulam entre nós vestindo macacões cinza, são trabalhadores e trabalhadoras como nós e não “personagens invisíveis”, como mostrou um sociólogo que atuou como pesquisador participante, vivendo como eles, o seu dia a dia de trabalho numa universidade pública de São Paulo (o que foi motivo de publicação de um livro, na verdade a sua tese de doutorado, que ganhou prêmio na academia).

Ouvi-los, apoiá-lo nas suas reivindicações cotidianas, respeitá-los em todos os aspectos não é mera cortesia.

Lembremo-nos que a chamada estratégia da terceirização vem sendo a prática de gestão adotada não só pelas empresas privadas. Esse discurso da terceirização explicitado pela prestadora de serviço da Ruday atinge também as fundações públicas atualmente e é comum escutarmos a mesma linguagem nos corredores da universidade.

Eles se interessam mais pelo ganho rápido do que com as condições salariais e a saúde de seus trabalhadores e trabalhadoras. O discurso da modernidade associada à qualidade dos produtos é mero discurso para encobrir a exploração desumana, como estamos vendo com relação aos trabalhadores da empresa que faz o serviço de limpeza e manutenção no campus, conforme podemos ver no depoimento do trabalhador abaixo.

COMIDA ESTRAGADA, PAGAMENTO ATRASADO: A MODERNIDADE ÀS AVESSAS

 O depoimento

Trabalho na empresa Ruday, que presta serviços de manutenção e limpeza na UFAM e outras empresas de Manaus. Vou fazer alguns comentários sobre a nossa realidade, o que de fato vivemos no nosso dia a dia de trabalho.

Começo pelo nosso café da manhã, a primeira refeição, que não é fornecida pela empresa.  Se quisermos beber temos que trazer o café de casa, ou pagar no refeitório da instituição. Além do mais, a chefia nos pressiona para que a gente tome o café às pressas.

Outro problema muito grave é a condução, pois os nossos vales transportes só caem depois de duas semanas.

Sobre o almoço, podemos dizer, é uma vergonha e, muitas vezes, impossível de comer, porque quando não vem azedo, vem estragado, reduzido. A carne vem crua, o frango vem cru e sem nenhum tempero. Eles alegam que botaram na quentinha azeda. A almondega e insuportável. É melhor comer chumbo, de tão dura.

O vale transportes é depositado de três em três dias e o principal, o salário, atrasa mais de 15 dias…. E ainda são exigentes com a gente. E se faltar é descontado 40 reais por falta. E eles pagam 22 reais, a diária se soma o salário….

E triste… Ainda mais: a gente só recebe os vales depois de três ou quatro dias, o que revela o descaso da empresa com as nossas condições de vida, principalmente a nossa saúde. Como pode um trabalhador ou uma trabalhadora trabalhar nessas condições? E a nossa saúde?

Outro problema grave, e que saiu até na televisão, são os nossos pagamentos mensais. Não tem data certa para sair, pois os pagamentos chegam atrasados, ou seja, depois de três ou quatro dias é chegam os contracheques. Isso e um absurdo.  O último pagamento atrasou, ou seja, não caiu na nossa conta e ninguém sabe por que as razões desse atraso (depoimento de um trabalhador da empresa

A PEC DAS DOMÉSTICAS E A PERSONALIDADE JURÍDICA DO TRABALHADOR

A Proposta de Emenda Constitucional conhecida como PEC das Domésticas exige que, atualmente, possamos alargar nossos conhecimentos sobre as condições destas (es) trabalhadoras (es) no Brasil. Existem mais de sete milhões de trabalhadoras domésticas no país, mas somente 26% delas têm carteira assinada. O caso é mais interessante porque as leis anteriores não eram cumpridas da forma prevista. O que presenciamos agora é uma tentativa de regulação jurídica capaz de alcançar o devido cumprimento dos direitos constitucionais.

É hoje (02/04) que a PEC das Domésticas será sancionada. Com ela, empregados domésticos passam a ter todos os direitos dos demais trabalhadores regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Estes direitos, dentre outros, são: ter recolhido o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) e receber indenização, em caso de demissão sem justa causa. A indenização, no entanto, deverá ser regulamentada, posteriormente, por projeto de lei complementar.

Em reportagem do semanário Carta Capital é explicado que “os empregados que trabalham em domicílios, caso de faxineiras, jardineiros, cozinheiras e babás, por exemplo, também passam a ter a jornada máxima de trabalho estabelecida em oito horas diárias e 44 horas semanais. Em caso de o serviço se prolongar para além desse período, eles também passam a ter direito ao recebimento de horas extras de 50% a mais que o valor da hora normal e adicional noturno de 20%, no caso de o trabalho ocorrer após as 22h.” Maiores explicações sobre o que muda com a PEC das Domésticas podem ser vistas em quadros aqui.

Em outra reportagem da Carta Capital, assinada por Piero Locatteli, é destacado o fato de a PEC alargar os direitos das domésticas, mas de ser omissa em relação às diaristas. Em entrevista ao semanário, a antropóloga Jurema Brites, que “estudou durante anos a relação entre domésticas e seus empregadores, em 2001, apresentou um doutorado sobre o tema na Universidade Federal do Rio Grande do Sul”, enunciando sua opinião sobre os novos instrumentos de regulação jurídica para esta categoria de trabalhadores. Sobre a omissão com as diaristas, ela disse: ““Isso é um problema horroroso, já que as diaristas são cada vez mais comuns nos grandes centros urbanos”.

Comentando sobre a ligação entre trabalho doméstico e colonialismo, a antropóloga disse: “É inegável que nós temos uma história de mulheres que faziam isso sem remuneração, e é um trabalho que estava disponível a partir da escravidão indígena e africana.”

Sobre os custos para empregadores, é citado na reportagem mencionada: “A antropóloga diz rejeitar a ideia de que os novos custos para manter uma trabalhadora causará demissões.  “Para um salário mínimo, será um custo de 96 reais a mais no custo da trabalhadora por mês. Não é uma coisa absurda, se gasta muito mais quando sai para beber cerveja,” diz Brites. Como as trabalhadoras domésticas respondem por 17% da população economicamente ativa, a antropóloga diz que elas não devem desparecer tão logo”.

A antropóloga ainda ressaltou que os empregadores, neste caso, também não são beneficiados por políticas estatais: “Muitas vezes, uma indústria não paga imposto e ganha terreno de graça porque está empregando pessoas. As famílias, quando pagam uma trabalhadora doméstica, também estão fazendo redistribuição social de renda. E às vezes essa família não tem incentivo estatal nenhum, porque ela está pagando esse funcionário. Isso são discussões que vão surgir agora”.

A Personalidade Jurídica do Trabalhador

Esta atual situação da trabalhadora doméstica pode implica no mínimo dois aspectos importantes a ser tratados dentro do chamado mundo do trabalho. O primeiro se refere à construção do trabalhador como pessoa jurídica, ou seja, um trabalhador que passa a ter o direito de vender “livremente” sua força de trabalho, reconhecido por meio de um contrato entre empregador e empregado. Deste modo, a trabalhadora doméstica adentra legalmente no mercado de trocas de valores, isto é, ela passa a ser reconhecida como dona de uma propriedade privada que é a sua força de trabalho, a qual pode ser trocada. Demorou muito tempo para que o liberalismo, por meio da teoria do contrato e da liberdade individual do proprietário de propriedade privada, pudesse fazer parte da regulação da dinâmica do trabalho das domésticas.

Neste sentido, o sociólogo argentino Guilhermo O’Donnel explica: “Já que os capitalistas careciam de recursos de coerção física para obrigar a trabalhar (ao contrário de outros modos de produção que, em outras partes do mundo, ainda os mantêm) e, na medida em que isto se relacionou com a criação de um estado supostamente capaz de apoiar imparcialmente sua legalidade, a construção do trabalhador como pessoa jurídica, que ingressa livremente no contrato de trabalho, foi a contraparte do capitalismo; esse contrato não poderia existir sem a personalidade jurídica de ambas as partes nem, como ocorre com qualquer contrato, sem seu amparo por parte do estado” (Democracia, agência e estado, p. 1566).

O outro aspecto diz respeito às características do trabalho desempenhado pelas empregadas domésticas. O trabalho é afetivo, comunicativo e, acreditamos, cognitivo. Estas características são próprias do trabalho imaterial (Antonio Negri e Michel Hardt) que necessita da criatividade e que tem a responsabilidade de produzir e reproduzir vida. Nem é preciso lembrarmos que se trata de um trabalho, que envolve em suas ações as relações humanas e a construção da habitação como espaço de produção de modos de existência, tanto quanto implica em uma relação de confiança entre empregador e empregado, que vai muito além da confiança enclausurada nos muros das fábricas; este segundo aspecto, portanto, nos remete a uma nova problematização: será o Estado capaz de regulamentar, por meio de instrumentos e mecanismos de regulação jurídica, ações que devem ser criativas, justamente por não se reduzirem a uma associação entre finalidade deontológica e  contrato? Ainda: será o Estado capaz de fazer a judicialização de ações de reprodução e produção de subjetividade, ou seja, do processo de construção histórica da produção social?

Pode-se inferir o quanto é tênue o fio que separa estes dois aspectos ou como eles nem sequer se separam, mas se complementam, à medida que o Estado continua a operar a subsunção das atividades criativas responsáveis pela construção e movimento da produção social. Se as produções sociais se dão como bandos, nômades e por meio de rizomas tendo a criatividade e o desejo como elementos constitutivos (Negri, Hardt, Deleuze e Guattari), os aparelhos de Estado agem centralizando, disciplinando e controlando estes elementos em estruturas coercitivas, asseguradas pela violência legal e por contratos que garantem a legalidade através de imagens reproduzidas dogmaticamente.

O que fica muito claro é o quanto todas as dúvidas e a subsunção da vida pelo Estado foram e são produções da própria produção da vida por meio de conflitos, sublevações exigentes de novos modos de existir e que se tornaram responsáveis por modificar o atual estado de coisas constituído.  É como diz a antropóloga Jurema Brites: “Não é porque existe proteção na Constituição que a prática social muda. Ela muda quando tem o conflito, quando uma empregada pode colocar o patrão na Justiça com mais facilidade.”. Concordamos com Jurema Brites sobre o conflito como máquina de transformação da prática social em vez dos aparelhos de Estado, no entanto, para nós, o conflito vai muito mais além dos litígios jurídicos; para nós, os conflitos são exatamente o que podemos fazer para impedir uma ordenação do tipo normativa jurídica das práticas sociais.

FRASES E FRASES: a apropriação fetichista da ZARA através do trabalho escravo

“Mesmo um produto de qualidade, comprado no shopping center, pode ter sido feito por trabalhadores vítimas de trabalho escravo”.

(Frase de Giuliana Cassiano Orlandi, auditora fiscal que participou de todas as etapas da fiscalização ocorrida na investigação da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de São Paulo (SRTE/SP) na empresa de confecções responsável pela marca internacional Zara, do grupo espanhol Inditex, onde foram encontrados trabalhadores estrangeiros em condições de trabalho análogas à escravidão. Para ler toda a detalhada reportagem realizada pela Repórter Brasil, acesse AQUI)

“Se, de fato, o fetichismo da mercadoria nasce da ocultação do caráter social do trabalho que a produziu, essa ocultação aqui poderá ser estendida a todos os efeitos do mecanismo de produção e de circulação das mercadorias, à produção da “marca”, à escravidão que a exploração em outsourcing global produz. O caráter de fetiche da mercadoria torunou-se “logo”, ou melhor, “logo” já é uma das definições mais pertinentes de O Capital. Fetiche, apropriação fetichista, espaço prasitário na organização do trabalho social. Parecerá o oposto da vida”

(Antonio Negri)

Trabalhadoras rurais pedem terra própria, melhor escoamento da produção, saúde e educação

Paula Laboissière
Repórter da Agência Brasil

Brasília – Enedina Silva, de 46 anos, é uma das cerca de 70 mil trabalhadoras rurais que participam hoje (17) da 4ª Marcha das Margaridas. Dos 11 irmãos, apenas ela e duas irmãs conseguiram permanecer na agricultura familiar. A maior dificuldade, de acordo com a piauiense, é a falta de terra própria para o cultivo.

“Meu pai nunca teve terras, sempre trabalhou em terra de terceiros. São pessoas que trabalham e moram naquela propriedade e recebem uma pequena renda sobre o que produzem para o dono das terras”, explicou.

Outro problema, segundo ela, são as condições precárias das estradas que cortam o interior do país. O acesso para escoamento da produção na lavoura ou mesmo para garantir a chegada de caminhões pipa é difícil e compromete o trabalho no campo.

“Produzir é fácil. O difícil é manusear esse alimento para que ele chegue com qualidade ao destino esperado. O alimento tem que chegar sadio, em bom estado, e a gente não tem transporte adequado. Um carro baú é muito caro”, contou.

Dulcinéia Miranda, de 57 anos, vive na Ilha de Marajó (PA) com os quatro filhos e cinco netos, mas enfrenta situações semelhantes às de Enedina. Durante a marcha, ela cobrou políticas públicas que garantam saúde e educação e que reduzam o preconceito contra os trabalhadores rurais.

“Onde moro, só tem o ensino fundamental. Se nós quisermos que os nossos filhos estudem, eles têm que ir para Belém”, disse. “Moramos em áreas ribeirinhas e não há estrutura de saúde mesmo no próprio município”, completou.

Ela criticou ainda a burocracia enfrentada para conseguir documentação que comprove atuação profissional na pesca e que dê acesso a benefícios como o salário-maternidade.

Crescência Hickman, de 62 anos, confirma a falta de investimentos em áreas. Moradora de Itapiranga, interior de Santa Catarina, ela ajuda no sustento da própria família e da dos três filhos, que não querem permanecer na agricultura familiar.

“Vejo que as mulheres estão sobrecarregadas de trabalho em atividades agrícolas como a produção de leite, frango e porco. Tudo isso agrega valor, mas exige muita mão de obra da pequena agricultura familiar. Nossos filhos não ficam no campo, vão estudar, fazer faculdade e não voltam”, afirmou.

Para a coordenadora da 4ª Marcha das Margaridas, Carmen Foro, é impossível listar uma única reivindicação das trabalhadoras rurais reunidas na capital federal – sobretudo quando a manifestação tem como foco o desenvolvimento do país como um todo.

“Infelizmente, o campo brasileiro ficou muito tempo abandonado pelo Estado. É curto o tempo que estamos conseguindo dar visibilidade à nossa pauta. Ainda é necessário que façamos um esforço desse tamanho para dialogar com a sociedade, com o Congresso Nacional, e falar dos problemas que temos. Se a gente não viver bem lá, vamos ser expulsas para as periferias das cidades, e não é isso que queremos”, concluiu.

A expectativa é que representantes das trabalhadoras rurais sejam recebidas pela presidenta Dilma Rousseff na tarde de hoje.

Veja a galeria de fotos.

Edição: Lílian Beraldo

 

Em junho foram criados mais de 215 mil empregos

 

Roberta Lopes
Repórter da Agência Brasil

Brasília – O mês de junho registrou a criação de 215.393 empregos, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) divulgados hoje (19) pelo ministro do Trabalho, Carlos Lupi. Foram admitidas 1.781.817 pessoas e demitidas 1.566.424. No mesmo período de 2010, o saldo foi 212 mil empregos e, no mês passado, o saldo foi 252 mil empregos.

No semestre, o saldo de empregos é 1.414.660, resultado superior ao do primeiro semestre de 2010 (1,63 milhão) e ao do primeiro semestre de 2008 (1,44 milhão). O saldo dos últimos doze meses, de julho de 2010 a junho deste ano, é 2.249.365 empregos. Os dados sofrem ajustes por causa dos empregos declarados ao ministério depois do prazo.

Edição: Vinicius Doria