CONSCIÊNCIA NEGRA

Antes de te ouvir falando aquela tradicional bobagem de “e a consciência branca? Não somos todos iguais?”, deixe-nos relembrar alguns fatos:

Os negros são 77% do total de mortos pela violência policial no Brasil, hoje.

Apesar dos avanços nos últimos doze anos, ainda são minoria nos cargos de chefia, nas universidades e nos cargos públicos.

Ainda são alvo diariamente de manifestações de desapreço APENAS por causa da cor. Em outras palavras, o racismo vive, e é forte no Brasil.

As religiões de matizes africanas continuam a ser perseguidas, inclusive pelo poder público, através principalmente de outras religiões.

Ainda vivem os efeitos da escravidão sim. Tudo o que foi dito acima, aliás, é resultado de séculos de condição humana negada, uso do corpo e da força de trabalho sem nenhum respeito às condições de sobrevivência, desterramento, desculturação, rompimento dos laços de pertencimento, objetificação, em resumo, foram usados como escravos e tiveram essa condição reconhecida e justificada pela política, economia, filosofia, ciências e religião de toda uma época.

Apesar disso, a cultura brasileira não pode falar em “contribuição” da Cultura Negra, simplesmente porque ela não contribuiu. ELA É CONSTITUINTE, MATRIZ da Cultura Brasileira. Essencial, formadora, indiscernível. Faz parte de todos nós.

VIVA ZUMBI!!!

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O CALVÁRIO DE UMA PRESA POLÍTICA NO BRASIL DO SÉCULO XXI

Da Caros Amigos

Presa no dia 11 de junho, Stephanie foi indiciada por danos ao patrimônio e formação de quadrilha
Por Amanda Cotrim
Especial para Caros Amigos

Em entrevista exclusiva, a única mulher presa no ato do dia 11 de junho, fala com à Caros Amigos sobre o percurso entre algemas, celas, assédios morais e camburão. Foram três dias em quatro cadeias: duas delegacias, uma detenção provisória e até uma penitenciária de segurança máxima. Seu crime? Ter ido às ruas se manifestar.
“Eu achei que seria levada até a delegacia para prestar esclarecimentos. Quando fui transferida para a Detenção Provisória de Franco da Rocha, tive muito medo”, revela Stephanie Fenselau, 25, estudante do quarto ano de geografia da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Pacata, como é chamada, foi presa após participar da manifestação contra o aumento da tarifa no transporte público de São Paulo, no dia 11 de junho, uma terça-feira. Especulou-se nas redes sociais que a polícia estaria usando os manifestantes detidos como moeda de troca, para evitar novos atos.

Liberdade Provisória
Atualmente, Pacata está em liberdade provisória e responde por formação de quadrilha e dano ao patrimônio público. Está impedida de sair na rua das 20h às 6h da manhã. “Isso é um problema, porque minha faculdade é à noite”. Mesmo não sendo mais ré primária, ela garante que isso não a tirará dos protestos. “Minha revolta ficou ainda maior”. Não havia sido a primeira vez que Pacata tinha participado de manifestações populares. Militante, a jovem, já em 2006, em São Paulo, participava de atos contra o aumento da tarifa e, por isso, conhecia o Movimento Passe Livre (MPL).
Quanto aos novos rumos que as manifestações tomaram a partir de meados de junho, o que fez o próprio MPL suspender novos atos, por causa do caráter conservador de algumas reivindicações – impeachment de Dilma ou pela redução da maioridade penal -, a estudante é enfática: “Acredito que a esquerda deve unir forças nesse momento e levantar as bandeiras históricas da classe trabalhadora, mobilizando a periferia e os trabalhadores em geral. Disputando as manifestações”.Confira a entrevista na íntegra.

Caros Amigos – Aonde você estava no dia 11 de junho?
Stephanie Fenselau – Naquela terça-feira, eu estava em São Paulo e decidi ficar na cidade para poder participar da manifestação. Eu participei durante todo o ato, desde a concentração até a mobilização na Avenida Paulista. Durante a manifestação, presenciei diversos conflitos por parte da Polícia Militar. Eles reprimiram duramente. Jogavam bombas e as pessoas saíam correndo. Mesmo assim, conseguimos manter o ato na Paulista. Quando os manifestantes avançavam, a polícia foi pra cima e fechou linhas do metrô com o apoio da Tropa de Choque, que começou a reprimir violentamente. Nesse momento, por volta das dez horas da noite, diante da intensa repressão, muitos manifestantes dispersaram. Eu deixei a Paulista com um amigo. Descemos a Avenida Brigadeiro Luis Antônio para esperar outros colegas. Nesse momento, dez motos da Rocam (Ronda Ostentiva com Apoio de Motocicletas) nos cercaram. A gente estava conversando e perto da gente tinha um grupo que participava da manifestação, do qual não tínhamos nenhuma ligação. Os policiais desceram das motos e nos deram um enquadro. Não fui revistada porque não havia nenhuma policial, mas minha bolsa foi revirada. Comigo, mais sete pessoas foram presas. Naquela noite, 20 manifestantes foram detidos.

CA – Como foi a abordagem dos policiais da Rocam?
SF – Extremamente truculenta. Sofri violência psicológica. Me xingaram de burra; disseram que iam levar a gente pra delegacia. Fui levada para o 78º DP, no bairro Jardins, região da Paulista.

CA – Por que que você acha que foi presa?
SF – Porque eu estava participando de um ato. Estava me manifestando.

CA – Você resistiu à prisão em algum momento?
SF – Como eu não tinha feito nada, achei que iam me levar até o DP, mas para averiguação.

CA – O que aconteceu quando você chegou no 78º DP?
SF – Me deixaram esperando por cerca de quatro horas. Fiquei numa cela sozinha. Não pude avisar minha mãe, nem mesmo um advogado. Não me deixaram. Só fui depor durante a madrugada, por volta das duas horas. Aí, então, eu descobri sobre o que eu estava sendo acusada. Na verdade eu assinei um boletim de ocorrência aonde constava, apenas, o artigo, mas não explica o motivo da prisão. Eu fiquei na 78º DP até a tarde de quarta-feira, 12. Passei a madrugada na cela, sem conseguir dormir, não me deram nada pra comer, não tinha colchão e me mantiveram incomunicável: novamente não me deixaram ligar pra minha família e nem para um advogado. Foi uma noite horrível, de muita humilhação. Me diziam “Fica quieta”. Mesmo depois de eu ter prestado depoimento, não me deixaram avisar a minha família. E não havia nenhum argumento. Simplesmente não te respondem nada. Um clima de terror.

CA – Do que você é acusada?
SF – Formação de quadrilha e danos ao patrimônio público.

CA – Quais são as provas de dano ao patrimônio público? Há imagens?
SF – Não tem nenhuma prova porque eu não participei de nenhum dano ao patrimônio. Eles estão lidando com testemunho de policias. E a formação de quadrilha é uma forma deles criminalizarem os movimentos sociais. Isso é muito grave.

CA – Ninguém te informou absolutamente nada, se seria solta, se ficaria lá?
SF – Não. Na tarde de quarta-feira, 12, eu fui transferida para a 89º DP, que fica no Morumbi. Trata-se de um DP feminino, onde as presas ficam até serem transferidas para algum presídio. Eu fiquei na cela com outras mulheres. Por incrível que pareça, me senti muito mais confortável, porque eu tinha com quem conversar. Não estava mais isolada.

CA – Você sofreu alguma agressão física?
SF – Não. A pior agressão foi a psicológica. Principalmente por parte da PM. A abordagem da Rocam foi a mais violenta. Te xingam o tempo inteiro. E você não pode responder, senão te prendem por desacato. Você tem que abaixar a cabeça, mesmo ouvindo todas aquelas atrocidades. Isso foi o mais revoltante.

CA – 
Qual foi o pior momento?
SF – Quando eu soube que seria transferida do 89º DP para a detenção de Franco da Rocha. Eu estava jantando, dei duas colheradas na marmita e o carcereiro disse pra eu parar de comer, que eu iria ser transferida. Foi angustiante. Porque não me diziam nada, nem meus advogados sabiam. E eu não podia perguntar. Tem sempre que abaixar a cabeça quando passa perto de algum funcionário. É um ambiente extremamente autoritário. Mesmo assim eu não me contive e perguntei. Mas disseram que não podiam me falar, foi aí que eu achei que iam desaparecer comigo.


CA – Por quê?
SF – Pediram para eu tomar um remédio. “Toma isso”. Mas eu disse, “mas o que é isso?”. Disseram que era para evitar que eu tivesse enjôo. Eu resisti. Imaginei tudo de ruim, porque eu estava à mercê deles.

CA – E você tomou?
SF – Tomei. Mas só arrisquei porque me garantiram que o remédio era o Plasil, realmente para evitar enjôos.

CA – Conte sobre sua transferência para Franco da Rocha.
SF – Eu fui pra lá na quinta-feira de manhã cedinho, dia 13. E aí tem toda a questão de como é o transporte. Foi uma das piores experiências que eu tive. O camburão é todo fechado. As mulheres vão presas uma ao lado da outra e você precisa ficar agachado. Quanto mais você mexe a mão, mais a algema aperta. No camburão tem uma espécie de tábua no meio, que divide as presas. E ainda tem uma grade. Não circula ar. É tudo escuro. Ligam a sirene e fazem um clima de terror. Uma das presas teve ataque de epilepsia. A gente gritava lá dentro pedindo pra parar e socorrê-la. Mas eles não atenderam. Quando chegamos no IML (Instituto Médico Legal), já havia passado a convulsão, mas ela ainda estava passando mal e não teve socorro.A gente passou por tudo isso, sem ter sido sentenciado. Somos suspeitos. Mas fomos tratados como se já tivéssemos sido condenados por um crime hediondo.

CA – O que aconteceu quando você chegou na Detenção de Franco da Rocha?
SF – Eu passei por uma revista. Por algum motivo eles me separaram das outras presas, mas até hoje eu não sei o porquê. Me colocaram de frente para parede e gritavam para eu não olhar pra trás. Lá, eu conheci de perto o horror que é a revista policial. As mulheres ficam nuas na frente das funcionárias e precisam agachar na frente de um espelho, para mostrar que não trazem nada dentro da vagina. É uma situação muito humilhante.

CA – A essa altura, sua família já sabia da prisão. A sua mãe conseguiu te visitar?
SF – Não. Não pude ver ninguém a não ser os advogados do MPL.

CA – Você pretende processar o Estado?
SF – Pretendo. Mas isso está nas mãos dos advogados. O processo está correndo.

CA – Qual é a sua situação na Justiça, agora?
SF – Eu fui solta pelo juiz Eduardo Pereira Santos Jr., do Departamento de Inquéritos Policiais de São Paulo (Dipo 4). Mas estou em liberdade provisória porque os advogados conseguiram um afrouxamento na acusação de formação de quadrilha (crime inafiançável, artigo 288 do Código Penal), o que foi possível para eu sair da prisão. Foi pago o valor de dois salários mínimos, mas eu ainda respondo por formação de quadrilha e por dano ao patrimônio público. Ainda serei julgada.

CA – E como está sua rotina?
SF – Está complicado, porque eu estudo à noite e como estou em liberdade provisória, eu não posso ficar na rua das 20h às 6h.

CA – Como está seu lado psicológico e emocional? Você conseguiu entender o que aconteceu e o que está acontecendo?
SF – Eu estou digerindo. Mas tudo isso só me deixou com mais raiva e mais vontade de lutar. O que ficou claro pra mim é que quando é um preso que tem carinha de classe média a polícia trata de um jeito, quando é da periferia é de outro.

CA – Você não viveu a ditadura militar, mas foi chamada de presa política. O que você pensa sobre isso?
SF – Sou presa política no momento em que fui presa por participar de uma manifestação. Porém, acho que todos os presos têm um viés político, por conta do recorte de classe da nossa sociedade. Onde a polícia age com mais truculência? É na periferia, nas favelas, nos morros, com os movimentos sociais.

CA – O que mais te marcou durante essa jornada de prisão em prisão?
SF – Eu vi pessoas sendo presas porque roubaram um agasalho. E talvez essa pessoa nunca consiga sair da cadeia, porque não tem advogado. Eu conheci uma jovem, da periferia que tinha apanhado muito da polícia antes de chegar no 89º DP. Isso eles não fazem com um preso “que tem cara de classe média”.

CA – O tratamento da polícia muda?
SF – Totalmente.

CA – E por que ele é diferente?
SF – Porque a polícia faz um recorte social. No imaginário do PM, a classe média pode pagar um advogado e qualquer denúncia de maus tratos seria apurada. Diferente de alguém que mora na favela.

CA – Você está acompanhando as manifestações? Qual sua opinião sobre as proporções que elas tomaram? Elas não pertencem mais ao MPL. Tem muita gente indo pra rua, inclusive levantando bandeiras conservadoras.
SF – Estou acompanhando. Acho importante as manifestações estarem acontecendo e a luta não deve parar depois da redução da tarifa. Tenho a preocupação com relação às bandeiras conservadoras, existe um setor reacionário tentando mudar o foco das manifestações (utilizando-se inclusive da mídia para isso). Acredito que a esquerda deve unir forças e levantar as bandeiras históricas da classe trabalhadora, mobilizando a periferia e os trabalhadores em geral. Disputando as manifestações.

Você voltaria às ruas para participar de uma nova manifestação?
Sim, voltaria. Porque acredito que é somente organizado e em luta que nós conseguiremos avançar para transformar a sociedade. Apesar dos protestos estarem sendo disputados pela direita, existe espaços para discussão com viés de esquerda e podemos pressionar os governantes para se atentarem às demandas dos trabalhadores, como a necessidade de moradia e redução da jornada de trabalho.

UM TOQUE A QUEM ESTÁ EM CIMA DO MURO NESSE BRASIL PROTESTANTE

O brasileiro está mostrando que sabe fazer protesto tão bem quando outros países ao longo da história. Mas muita gente, e muito analista político está demonstrando que não sabe fazer a leitura política desses protestos. Protesto não é casamento, não é batizado, não tem roteiro, é caos, é sujo, tem violência, tem quebra-quebra de propriedade, e tem partido de direita e de esquerda querendo se aproveitar e surfar nessa onda. A sociedade não é asséptica, não é robótica, é orgânica, viva, movimenta-se dentro do plano de consistência, e quem protesta não está nem aí para normas, leis, moral – caso contrário, não seria protesto. Não se mudam as coisas sem contestação. Os protestantes quebraram propriedades? Mas a propriedade é o cerne do sistema econômico que os oprime! Desrespeitaram autoridades? Mas há quanto tempo – e pacificamente – estas autoridades deixaram de ouvi-los? Buscam uma utopia impossível? Bem, não há mapa para a utopia. Ela, aliás, não é uma linha de chegada, mas um ponto de partida. Parte-se da utopia para construir outra coisa, quando não cabemos mais naquilo que ainda é. Mais que tentar entender e analisar, neste momento é preciso participar. Tem militante de extrema direita levantando cartaz? Levante o seu, com suas idéias! No mínimo, haverá um espaço para o diálogo entre duas pessoas que caminham na mesma direção, com ideias diferentes. A mudança começa na palavra, no contato, ou como nos dirá melhor o filósofo Spinoza, no encontro. Mas não se faz sozinha. Portanto, não pergunte onde vão dar todos estes protestos, mas qual a sua participação nos rumos que ele vai tomar.

SAUDADES DA DITADURA

O pessoal que tem saudades da ditadura militar brasileira devia especificar exatamente do que. Das unhas arrancadas? Dos gritos nas delegacias dos torturados? Dos corpos desaparecidos? Do oceano de dinheiro público roubado nas obras faraônicas? Da inflação galopante? Dos choques eléctricos nos testículos? Da cadeira do dragão? Dos cursos de terrorismo de estado que os americanos vinham ministrar? Da carestia e miséria reinantes? Da exploração quase genocida dos nordestinos na Amazónia?

Tantas coisas…

Rádio e TV Senado fazem especiais sobre Glauber Rocha

Reprodução

O Leão de Sete Cabeças, de Glauber Rocha, fará parte da programação especial do Senado, em homenagem aos 30 anos da morte do cineasta

“O Leão de Sete Cabeças”, de Glauber Rocha, fará parte da programação especial do Senado, em homenagem aos 30 anos da morte do cineasta

Provocador, vanguardista, revolucionário, o baiano Glauber Rocha reiventou a forma de fazer cinema no País, ganhando projeção internacional. O cineasta, morto em 22 de agosto de 1981, terá sua memória celebrada nesta terça-feira (23), em sessão especial no plenário do Senado.

O autor do memorável Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) – apontado por críticos como um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos – tem recebido uma série de homenagens na Casa durante o mês, com direito a programações especiais exibidas pelas TV e Rádio Senado.

– A ideia era de fazer uma homenagem a Glauber Rocha, da forma como se fez para o centenário de Carybé (artista plástico). Que marcasse a importância dele para a nossa cultura. Como senadora da Bahia, procuro usar o mandato para promover os artistas baianos que tiveram destaque nacional – afirma Lídice da Matta, responsável pela iniciativa.

O presidente da Casa, José Sarney (PMDB) – perfilado pelo cineasta no documentário “Maranhão 66” -, resolveu se incorporar à celebração. Acertou-se que, todos os domingos, a TV Senado exibiria um filme de Glauber. E, no dia 24, “O Leão de Sete Cabeças” será apresentado, em cópia restaurada, no auditório do Senado, às 19h. Foi a primeira produção do baiano no exílio.

Um dos mais importantes nomes do Cinema Novo, Glauber é autor de obras como “Barravento” (1962); “Terra em transe (1967) – que recebeu o Prêmio da Crítica Internacional em Cannes – e “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969)”. A crítica social, feita sempre com ferocidade e contundência, era das principais marcas do homem que popularizou a frase “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”.

Terra Magazine

 

Jornada Nacional de Lutas tem ações em todo o país

Do Brasil de Fato

Atividades começaram nesta quarta-feira (17) e culminarão em um grande ato em Brasília, no dia 24

17/08/2011

da Redação

Entidades sindicais e organizações sociais iniciaram nesta quarta-feira (17) a Jornada Nacional de Lutas. Trabalhadores, estudantes e militantes de movimentos populares realizarão atos, passeatas, paralizações, assembleias e diversas manifestações em todo o país.

As atividades culminarão em um grande ato de encerramento em Brasília (DF) na próxima quarta-feira (24). De acordo com a organização da jornada, “o objetivo da iniciativa é protestar contra os ataques promovidos pelo governo de Dilma Rousseff aos trabalhadores e ao conjunto da população como, por exemplo, o corte de R$ 50 bilhões do orçamento nas áreas sociais”.

Segundo nota da Central Sindical e Popular (CSP-Conlutas), que encabeça a organização da jornada, as entidades também se posicionarão contra o projeto “Brasil Maior”, que concede incentivos fiscais às grandes empresas, principalmente, multinacionais.

Além disso, denunciarão a entrega de R$40 bilhões às empreiteiras para as obras da Copa do Mundo e da Olimpíadas. “São bilhões de reais entregues aos empresários, mas são negados reajustes salariais para as categorias que estão em campanha salarial sob o argumento de que ‘é preciso manter a economia estável’ e é vetado o aumento real dos aposentados”, protesta o dirigente da Executiva da CSP-Conlutas, Atnágoras Lopes.

Com a jornada, as entidades visam ainda fortalecer e unificar as mobilizações e as campanhas salariais que já vêm ocorrendo no país.

Marcha das Margaridas

Também em Brasília começou, nesta terça-feira (16), a 4ª edição da Marcha das Margaridas, que reúne cerca de 100 mil trabalhadoras rurais em torno da reivindicação de um novo modelo de desenvolvimento para o país.

Segundo a Central Única dos Trabalhadores (CUT), que organiza a marcha, estão na capital federal militantes ligadas a 27 estados para tratar de temas como combate à violência, igualdade salarial, acesso à creche, regulamentação do trabalho doméstico, atualização dos índices de produtividade e o limite da propriedade da terra. Estão previstas ainda manifestações diante dos ministérios e o lançamento de campanhas contra os agrotóxicos e pela reforma política.

Na terça-feira, as trabalhadoras participaram de sessão solene no Congresso Nacional, onde foram homenageadas por parlamentares. Nesta quarta-feira (17), marcharão do Parque da Cidade até a Esplanada dos Ministérios, onde realizam um ato. Elas também receberão a presidenta Dilma Rousseff no Parque da Cidade, para o encerramento da atividade.

Confira as ações da Jornada Nacional de Lutas nos estados:

Região Sudeste

MINAS GERAIS – Em Belo Horizonte haverá, também na quinta-feira (18), paralisação dos educadores municipais, com assembléia na Praça Afonso Arinos, às 8h, e, ao meio-dia, atos na prefeitura e na Praça Sete.

RIO DE JANEIRO – Na cidade do Rio de Janeiro, a atividade ocorrerá na quinta-feira (18), às 17h, com ato e passeata pela avenida Rio Branco, com concentração na Candelária.

SÃO PAULO – Na sexta-feira (19), às 15h, haverá um ato nas escadarias do Teatro Municipal, no centro da capital paulista.

Em São José dos Campos, os metalúrgicos estão programando uma série de atividades também para a sexta-feira (19). Haverá assembleias e paralisações em fábricas e participação na Grande Marcha pela Dignidade da Moradia, em defesa da legalização de bairros clandestinos.

Região Sul

RIO GRANDE DO SUL – Educadores da rede estadual paralisarão as atividades na próxima sexta-feira (19) em defesa da implementação do piso nacional e dos planos de carreira. Passeatas, atos públicos, visitas a órgãos públicos e outras formas de manifestação deverão ser realizadas em todas as regiões do estado.

Também na sexta-feira, no Gigantinho, em Porto Alegre, será feito o lançamento de um movimento em defesa da educação pública. A atividade acontece a partir das 17h. Após o lançamento do movimento, serão empossadas a nova direção central e as direções de núcleos do CPERS/Sindicato.

Os comerciários de Santa Cruz realizarão manifestações nas redes atacadistas da cidade nesta quarta-feira (17) e na quinta-feira (18)

Região Nordeste

BAHIA – Manifestações estão previstas em Salvador na quinta-feira (18). No sábado (20), ocorre um seminário com a presença da professora Amanda Gurgel, que ficou nacionalmente conhecida após declarações veiculadas no Youtube sobre o desmonte na Educação Publica.

CEARÁ – Em Fortaleza, está prevista uma manifestação das trabalhadoras da confecção feminina para esta quarta-feira (17). Já na sexta-feira (19), estão previstas paralisações no setor da construção civil e manifestações dos rodoviários, além de ato unificado dos trabalhadores da saúde e educadores do estado.

MARANHÃO – Em São Luis, estudantes darão prosseguimento à campanha “Chega de Sufoco – Nenhum passageiro em pé”. Na quinta-feira (18), haverá um ato unificado de trabalhadores, estudantes e diversas entidades.

PARAÍBA – Trabalhadores municipais da cidade de Bayex paralisam as atividades na quinta-feira (18). No dia 19, atos públicos lançarão a campanha pela aplicação dos 10% do PIB para educação pública no estado e os decentes da UFCG (Universidade Federal de Campina Grande-PB) farão paralisação.

PIAUÍ – Em Teresina, haverá um ato com os servidores federais na quinta-feira (18).

RIO GRANDE DO NORTE – Em Natal, bancários realizam uma manifestação na região central nesta quarta-feira (17).

Região Norte

PARÁ – Em Belém, trabalhadores da construção civil realizam uma grande mobilização, chamada pelos operários de “arrastão nas obras”. A Atividade acontece nesta quarta-feira (17). Na quinta-feira (18), haverá também paralisação nas obras realizadas na região central da cidade.

Região Centro-Oeste

DISTRITO FEDERAL – Todas essas manifestações culminarão em uma grande marcha em Brasília na quarta-feira (24). Trabalhadores de diversas regiões país organizam caravanas para participar da atividade.

A Jornada Nacional de Lutas é convocada pela CSP-Conlutas e entidades como Andes-SN (Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior), Condsef (Confederação dos Trabalhadores no Serviço Público Federal), CNESF (Coordenação Nacional de Entidades de Servidores Federais), Sinafese (Sindicato Nacional dos Servidores da Educação Básica, Profissional e Tecnológica), MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra), MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), Anel (Assembleia Nacional dos Estudantes – Livre), Cobap (Confederação dos Aposentados e Pensionistas do Brasil), Fenasps (Federação Nacional dos Trabalhadores em Saúde, Trabalho, Previdência e Assistência Social) Assibge-SN (Sindicato dos Trabalhadores do IBGE), CPERS (Sindicato dos Trabalhadores da Educação do Rio Grande do Sul), MTL (Movimento Terra Trabalho e Liberdade), UST ( União Sindical dos Trabalhadores) e Intersindical.

(Com informações da Radioagência NP)

 

Trabalhadoras rurais pedem terra própria, melhor escoamento da produção, saúde e educação

Paula Laboissière
Repórter da Agência Brasil

Brasília – Enedina Silva, de 46 anos, é uma das cerca de 70 mil trabalhadoras rurais que participam hoje (17) da 4ª Marcha das Margaridas. Dos 11 irmãos, apenas ela e duas irmãs conseguiram permanecer na agricultura familiar. A maior dificuldade, de acordo com a piauiense, é a falta de terra própria para o cultivo.

“Meu pai nunca teve terras, sempre trabalhou em terra de terceiros. São pessoas que trabalham e moram naquela propriedade e recebem uma pequena renda sobre o que produzem para o dono das terras”, explicou.

Outro problema, segundo ela, são as condições precárias das estradas que cortam o interior do país. O acesso para escoamento da produção na lavoura ou mesmo para garantir a chegada de caminhões pipa é difícil e compromete o trabalho no campo.

“Produzir é fácil. O difícil é manusear esse alimento para que ele chegue com qualidade ao destino esperado. O alimento tem que chegar sadio, em bom estado, e a gente não tem transporte adequado. Um carro baú é muito caro”, contou.

Dulcinéia Miranda, de 57 anos, vive na Ilha de Marajó (PA) com os quatro filhos e cinco netos, mas enfrenta situações semelhantes às de Enedina. Durante a marcha, ela cobrou políticas públicas que garantam saúde e educação e que reduzam o preconceito contra os trabalhadores rurais.

“Onde moro, só tem o ensino fundamental. Se nós quisermos que os nossos filhos estudem, eles têm que ir para Belém”, disse. “Moramos em áreas ribeirinhas e não há estrutura de saúde mesmo no próprio município”, completou.

Ela criticou ainda a burocracia enfrentada para conseguir documentação que comprove atuação profissional na pesca e que dê acesso a benefícios como o salário-maternidade.

Crescência Hickman, de 62 anos, confirma a falta de investimentos em áreas. Moradora de Itapiranga, interior de Santa Catarina, ela ajuda no sustento da própria família e da dos três filhos, que não querem permanecer na agricultura familiar.

“Vejo que as mulheres estão sobrecarregadas de trabalho em atividades agrícolas como a produção de leite, frango e porco. Tudo isso agrega valor, mas exige muita mão de obra da pequena agricultura familiar. Nossos filhos não ficam no campo, vão estudar, fazer faculdade e não voltam”, afirmou.

Para a coordenadora da 4ª Marcha das Margaridas, Carmen Foro, é impossível listar uma única reivindicação das trabalhadoras rurais reunidas na capital federal – sobretudo quando a manifestação tem como foco o desenvolvimento do país como um todo.

“Infelizmente, o campo brasileiro ficou muito tempo abandonado pelo Estado. É curto o tempo que estamos conseguindo dar visibilidade à nossa pauta. Ainda é necessário que façamos um esforço desse tamanho para dialogar com a sociedade, com o Congresso Nacional, e falar dos problemas que temos. Se a gente não viver bem lá, vamos ser expulsas para as periferias das cidades, e não é isso que queremos”, concluiu.

A expectativa é que representantes das trabalhadoras rurais sejam recebidas pela presidenta Dilma Rousseff na tarde de hoje.

Veja a galeria de fotos.

Edição: Lílian Beraldo