“O Sorriso de Karenin”

Os cães não têm muitas vantagens em relação ao homem, mas uma delas é extremamente importante: para eles, a eutanásia não é proibida por lei; o animal tem direito a uma morte misericordiosa. Karenin andava com apenas três patas, e passava a maior parte do tempo deitada num canto. Gemia. Tereza e Tomas concordavam: não tinham o direito de deixar o animal sofrer inutilmente. Mas o acordo sobre esse princípio não os poupava de uma angustiante incerteza. Como saber em que momento o sofrimento se torna inútil? Como determinar o instante em que não vale mais a pena viver?
Se pelo menos Tomas não tivesse sido médico! Poderia então se esconder atrás de uma terceira pessoa. Poderia procurar um veterinário e pedir que desse uma injeção na cadela.
É tão duro assumir o papel da morte! Há muito tempo, Tomas declarara que não aplicaria a injeção, chamaria o veterinário. Mas afinal compreendeu que poderia conceder a Karenin um privilégio que não está ao alcance dos seres humanos: a morte chegaria para ela sob a máscara daqueles que amava.
Karenin passou a noite inteira gemendo. De manhã, depois de ascultá-la, Tomas disse à Tereza: “Não devemos esperar mais”.
Teriam de sair para o trabalho dentro de pouco tempo. Tereza foi procurar Karenin no quarto. Até então ela estava deitada na mais completa indiferença (mesmo alguns minutos antes, quando era examinada por Tomas, não prestara nenhuma atenção), mas agora, ouvindo a porta abrir, levantou a cabeça e olhou para Tereza.
Ela não pôde suportar esse olhar, fazia-lhe quase medo. Nunca olhava assim para Tomas, só para ela. Mas nunca com a intensidade de agora. Não era um olhar desesperado ou triste – era o olhar de uma terrível, de uma insuportável credulidade. Esse olhar era uma pergunta ansiosa. Durante toda sua vida Karenin havia esperado pela resposta de Tereza, e agora queria dizer a ela (com mais insistência ainda que antes) que continuava a postos para ouvir dela a verdade (já que tudo que vem de Tereza é para ela a verdade: se ela diz “Sentada!” ou “Deitada!”, são verdades com as quais se identificava e que dão sentido à sua vida).
Esse olhar de terrível credulidade foi muito breve. Logo deitou a cabeça sobre as patas. Tereza sabia que nunca mais seria olhada dessa maneira.
Nunca lhe davam doces, mas uns dias antes ela comprara tabletes de chocolate. Desembrulhou-os do papel prateado, partiu em pedacinhos e espalhou-os à volta dela. Colocou também uma vasilha com água para que não sentisse falta de nada enquanto estivessem fora de casa. Mas o olhar que pousara em Tereza parecia tê-la fatigado. Embora cercado de pedaços de chocolate, não levantou a cabeça.
Tereza deitou-se no chão ao lado dela e tomou-a nos braços. Karenin cheirou-a e aparentando cansaço lambeu-a uma ou duas vezes. Tereza recebeu esse carinho de olhos fechados, como se quisesse gravá-lo para sempre na memória. Virou a cabeça para que Karenin lhe lambesse o outro lado do rosto.
Depois teve que sair para cuidar das novilhas. Só voltou depois do almoço. Tomas ainda não tinha chegado. Karenin continuava deitada, cercada de pedaços de chocolate, e não levantou mais a cabeça quando viu Tereza se aproximar. A perna doente estava inchada e o tumor estourara em outro lugar. Uma gotinha vermelho-clara (que não parecia sangue) havia aparecido entre os pêlos.
De novo, deitou-se junto dela. Passara um braço em torno de seu corpo e fechara os olhos quando ouviu baterem na porta. “Doutor, doutor! O porco está aqui, o porco e seu presidente!” Sentia-se incapaz de falar com alguém. Não se moveu e continuou de olhos fechados. Ouviu ainda uma vez: “Doutor, os porcos vieram fazer-lhe uma visita”, depois fez-se silêncio.
Tomas chegou uma meia hora depois, Sem dizer uma palavra, foi à cozinha preparar a injeção. Quando voltou, Tereza estava de pé, e Karenin fazia força para levantar-se. Ao ver Tomas, abanou o rabo fracamente.
— Olhe! – disse Tereza – ainda sorri.
Disse isso em tom de súplica, como se quisesse com essas palavras pedir uma breve prorrogação , mas não insistiu.
Lentamente, estendeu um lençol na cama. Era um lençol branco estampado com pequenas flores violetas. Aliás, já tinha tudo preparado, já tinha pensado em tudo, como se dias antes já tivesse imaginado a morte de Karenin. (Que horror! Imaginamos com antecipação a morte dos seres que amamos!).
Ela não tinha mais força para subir na cama. Pegaram-na nos braços e a levantaram juntos. Tereza deitou-a de lado, e Tomas examinou-lhe a pata. Procurava um lugar onde a veia estivesse saliente e bem visível. Com uma tesoura, cortou os pelos nesse lugar.
Tereza estava ajoelhada ao lado da cama e com as mãos segurava a cabeça de Karenin de encontro ao seu rosto.
Tomas pediu-lhe que apertasse a pata de trás, logo acima da veia onde ia aplicar a injeção. Tereza fez o que ele pedia sem afastar o rosto da cabeça de Karenin. Ela lhe falava com voz doce – só pensava nela, que não mostrava medo. Lambeu-lhe o rosto ainda duas ou três vezes. Tereza sussurrava: “não tenha medo, não tenha medo, lá você não sofrerá, lá você verá esquilos e lebres, lá haverá vacas, e Mefisto também, não tenha medo…”
Tomas enfiou a agulha na veia e empurrou o êmbolo. Um ligeiro tremor percorreu a pata de Karenin, sua respiração acelerou-se, depois parou de repente. Tereza estava ajoelhada ao lado da cama e apertava o rosto contra a cabeça do animal.
Tiveram que voltar ao trabalho e a cadela ficou deitada na cama, sobre o lençol branco enfeitado de flores violetas.
Chegaram em casa à noite. Tomas foi para o jardim. Encontrou, entre duas macieiras, as quatro linhas do retângulo que Tereza tinha marcado com o salto do sapato alguns dias antes. Começou a cavar. Observou rigorosamente as dimensões traçadas. Queria que tudo se passasse como Tereza imaginara.
Ela estava dentro de casa com Karenin. Tinha medo de enterrá-la viva. Encostou o ouvido em seu focinho, achou que sentia um ligeiro sopro.Afastou-se e viu que seu peito se movia um pouco.
(Não, a respiração que ouvia era a sua própria, que imprimia um movimento imperceptível em seu corpo, fazendo-a acreditar que era o peito do animal que se mexia).
Apanhou um espelho na bolsa e colocou-o em frente do focinho da cadela. O espelho estava tão sujo que achou que estava vendo o vapor deixado pela respiração.
— Tomas, ela está viva – gritou, quando Tomas voltou do jardim, os sapatos cobertos de lama.
Ele debruçou-se sobre o animal e sacudiu a cabeça.
Seguraram, cada um de um lado, o lençol onde repousava Karenin. Tereza do lado das patas, Tomas do lado da cabeça. Levantaram-na e carregaram-na para o jardim.
Tereza sentiu nas mãos que o lençol estava úmido. Ela nos molhou na chegada, e nos molha na partida, pensou. Estava contente de sentir nas mãos essa umidade – o último adeus da cadela.
Levaram-na até as duas macieiras e a colocaram no fundo do buraco. Ela debruçou-se para arrumar o lençol de maneira a envolvê-la inteira. Não podia suportar a ideia de que a terra que a cobriria tocasse no seu corpo nu. Depois entrou em casa e voltou com a coleira e o punhado de pedaços de chocolate que desde a manhã haviam ficado intactos, espalhados no chão. Jugou tudo no túmulo.
Ao lado da cova havia um monte de terra fresca. Tomas segurou a pá.
Tereza lembrou-se do sonho: Karenin tinha dado à luz dois croissants e uma abelha. De repente essa frase parecia um epitáfio. Imaginou, entre as macieiras, um monumento com essa inscrição: “Aqui descansa Karenin. Trouxe à luz dois croissants e uma abelha”.
A penumbra se aprofundava no jardim, não era dia nem noite; no céu havia uma lua pálida, como uma lâmpada esquecida no quarto dos mortos.
Os dois estavam com os sapatos cheios de terra, e levaram a enxada e a pá para o lugar onde estavam guardadas as ferramentas: os ancinhos, regadores e mangueiras de água.
(A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera).
Anúncios

ENTENDENDO O BRASIL (I)

“A “Revolução do Bem Estar” é a herdeira, a testamenteira da Revolução Burguesa ou simplesmente de toda a revolução que erige em princípio a igualdade dos homens sem a poder (ou sem a conseguir) realizar a fundo.

O princípio democrático acha-se então transferido de uma igualdade real, das capacidades, responsabilidades e possibilidades sociais, da felicidade (no sentido pleno da palavra) para a igualdade diante do objeto e outros signos evidentes do êxito social e da felicidade. É a democracia do “standing”, a democracia da TV, do automóvel e da instalação estereofônica, democracia aparentemente concreta, mas também inteiramente formal, correspondendo para lá das contradições e desigualdades sociais à democracia formal inscrita na Constituição.

Servindo uma à outra de mútuo álibi, ambas se conjugam numa ideologia democrática global, que mascara a democracia ausente e a igualdade impossível de achar.”

Jean Baudrillard, in A Sociedade do Consumo.


ABONO SALARIAL PIS/PASEP 2015/2016

O Ministério do Trabalho e Emprego começou na quarta-feira (22/07) a fazer o pagamento do Abono Salarial, exercício 2015/2016 aos não correntistas beneficiários nascidos no mês. O cronograma de pagamento do benefício teve inicio em 22 de julho e termina em 17 de março de 2016. Tem direito ao benefício de um salário mínimo quem trabalhou por pelo menos 30 dias, no ano-base 2014, recebendo até dois salários mínimos e que tenha sido cadastrado, até 2010, no PIS, para trabalhadores celetistas, ou no PASEP, para servidores públicos. O Programa de Integração Social (PIS) paga neste mês o abono aos beneficiários da iniciativa privada nascidos em agosto. O saque, no valor de R$ 788,00, pode ser efetuado até 30 de junho de 2016, nas agências da Caixa ou por meio do Cartão do Cidadão, nos canais de autoatendimento do banco, casas lotéricas e correspondentes Caixa Aqui. O direito ao benefício pode ser consultado pelo telefone 0800 726 0207 ou na página da Caixa. Após 30 de junho de 2016, os valores não sacados retornam ao Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). O Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público (PASEP) paga o benefício aos funcionários públicos por meio de saque nas agências do banco, de acordo com o final da inscrição. O crédito em conta será efetuado a partir do terceiro dia útil anterior ao início de cada período de pagamento. Confira o calendário:
Para não correntistas da CAIXA, saque com Cartão Cidadão NASCIDOS EM SAQUE A PARTIR DE:
JULHO                                     22/07/2015
AGOSTO                                  20/08/2015
SETEMBRO                             17/09/2015
OUTUBRO                               15/10/2015
NOVEMBRO                            19/11/2015
DEZEMBRO                             17/12/2015
JANEIRO/ FEVEREIRO        14/01/2016
MARÇO/ ABRIL                     16/02/2016
MAIO/ JUNHO                       17/03/2016
Para não correntistas Banco do Brasil FINAL DA INSCRIÇÃO RECEBEM A PARTIR DE:
0                                      22.07.2015
1                                       20.08.2015
2                                      17.09.2015
3                                      15.10.2015
4                                      19.11.2015
5                                      14.01.2016
6 e 7                                16.02.2016
8 e 9                                17.03.2016

Funk e voto: um relato sobre a arte nas fronteiras da cidadania

Dia de eleição para prefeito e vereadores nas cidades brasileiras. Chego em casa por volta das 22h, ligo a tevê e vejo as notícias sobre a boca de urna, a vitória e a derrota de alguns candidatos no primeiro turno, os erros e os acertos das pesquisas eleitorais, etc. Estava exausta, mas ainda continuava a mil por hora. Tinha presenciado um marco histórico, que talvez passasse despercebido para a maioria dos indivíduos. Mas não para o grupo de pessoas que estava na 52ª Delegacia de Polícia de Nova Iguaçu: tanto para os presos provisórios, delegado e agentes carcerários, quanto para os amigos e profissionais do funk, para militantes do Movimento Sem-Terra, intelectuais e jornalistas de esquerda, aquela data ficaria na memória.

Pela primeira vez na história deste país, presos provisórios exerciam um direito que. Teoricamente, sempre tiveram: o direito ao voto. É cruel pensar que, ao mesmo tempo em que o Estado enuncia a cidadania para todos comete soturnamente um crime eleitoral, impedindo determinados sujeitos que têm direito ao voto de exercê-lo. Acredito que essa contradição mostra os silêncios que os termos “direito universal” e “igual para todos” evocam. É como se o espaço onde se exerce essa “universalidade de direitos” só se construísse pelo contraste com territórios de um “outro” que incorpora tudo aquilo que se opõe a uma pretensa “civilidade”. Territórios que são imaginados como zonas não habitáveis da vida nem sequer possuem status de sujeito.

A universalidade parece silenciar “indivíduos” e “territórios” não incorporáveis à lógica neoliberal, deixando prar eles apenas as caricaturas de seres perigosos que assombram a nação. Não foi, portanto, o pequeno número de votos dos “presos provisórios” daquela delegacia que transformou nossa tarde em marco histórico, mas um evento que, aos poucos, com o voto e com o funk, quebrou, por alguns momentos, essas fronteiras sociais silenciosas com seus inúmeros desdobramentos perversos.

Assim que chegamos à 52ª Delegacia, Orlando Zaccone, delegado e escritor, que coordena o projeto Carceragem Cidadã, explicou que, apesar de as duas celas serem divididas de acordo com a rivalidade entre as facções, não haveria problema para um MC, habitante de uma determinada favela dominada por certa facção, entrar na cela da facção “inimiga”. Aliás, complementou o argumento, dizendo mais ou menos assim: “aqui conseguimos milagre!! Uma facção emprestará o aparelho de som para a outra para que a Roda de Funk aconteça nas duas celas!!!”

Dali, já comecei a sentir um dos efeitos da arte, ou melhor, do funk e sua capacidade de comunicação na carceragem. Primeiro, que ironia: “inimigos” compartilhando algo como se fossem “amigos”! E, depois disso, ainda que com algum temor – ampliado pelo grande barulho que vinha das celas, e também pela expectativa de entrar em território desconhecido – , os Mcs decidiram que contariam em ambas as celas, independente do lugar onde moram. Afinal, como celebram nossos amigos funkeiros, “nós damos a festa só em troca de amizade”.

Nas celas, os Mcs tomaram palavra, mostrando que, para o movimento Funk, “não há neurose, pois a sua maior arma é o microfone”. Aos poucos nosso temor foi desaparecendo, à medida que alguns “presos provisórios”, embalados pelo batidão, entoavam juntamente com os Mcs os maiores sucessos do funk antigo. Fiquei mais uma vez perplexa com o poder das composições de funk produzidas na década de 1990. Atualmente, a política de criminalização do mercado de drogas ilícitas nas favelas chegou a tal ponto que enunciar a pertença a uma delas pode significar uma sentença de morte. Mas, nos raps dos anos de 1990, a palavra favela tem nome próprio, sem ser, no entanto, propriedade de ninguém!! Nas letras desses funks, o nome de cada favela aparece para destacar que todas elas são “morros sangue bom” onde a diversão é “baile funk, paz e amor” povoada por jovens que são, antes de tudo, funkeiros de uma mesma “massa de valor”. Mesmo com resistência e desagrado de algumas pessoas em entoar nomes de certas favelas, foi nesse clima que os Mcs mostravam que sua palavra cantada minava, aos poucos, as fronteiras simbólicas que interditam territórios como “perigosos” e transformam seus sujeitos em “esteriótipos demonizados”. Naquele dia, as pessoas eram muito mais do que o rótulo que elas carregam. Ainda que a condição insalubre do local nos lembrasse a toso o momento onde estávamos, o funk não só proporcionava interação direta entre todos, mas também instaurava outras possibilidades de existência para aquele local e para aqueles sujeitos. A gigantesca “classe de perigosos”, que povoa a grande mídia e, logo nosso imaginário, passava por inúmeras reformulações. Os “presos provisórios” transformaram-se em “plateia” ou até mesmo em mais um MC de funk. Vários sujeitos encarcerados, no momento da roda de funk, transformaram-se em Mcs. Em determinado momento, pensei que, caso não conhecesse cada um dos artistas de funk que foram até a delegacia, seria difícil distinguir quais os Mcs que estariam ali só para aquela visita e aqueles que estavam temporariamente encarcerados. Na verdade, a maioria possuía o mesmo “perfil sociológico”: negros, pobres e, provavelmente, moradores de favela. Isso reforçava não só a identificação entre eles, mas fazia com que aquela celebração também fosse motivada por uma luta, por uma causa.

Salgadinhos e refrigerantes circulando pelas celas reforçavam o clima de festa na carceragem, que foi coroada com a chegada de uma MC. Já de início o nome da artista foi ovacionado por toda plateia e a MC mostrou que sua sensualidade feminina também poderia ser encenada e cantada ali. Respeitosamente, a plateia dançava a MC e delirava. A felicidade transbordava nos sorrisos e na vibração de todos. A MC, que já era nossa Princesa do funk, na carceragem recebeu o título de Rainha e ganhou da plateia um pequeno origami de flores.

Como diz a letra de um funk, na prisão “uma hora é um dia, um dia é um mês e um mês é um ano”. Porém, naquela tarde, a emoção fazia desaparecer o tempo. Já estávamos havia, aproximadamente, quatro horas dentro das celas. Ao fim da festa, um dos amigos Mcs abraçava o outro e cantava o refrão de um funk que ali fazia todo sentido, ampliando a realidade: “Liberdade, meu irmão, paz e amor!! Sem isso naa, nesta vida, tem valor.”

Já era noite quando deixamos as celas. As grades se fecharam, fazemos parar o tempo para aqueles que ficaram do “lado de lá”. Ao chegar em casa, as notícias sobre o “ritual democrático brasileiro em dia de eleição” tornavam-se banais, pois não encontravam mais correspondência com a realidade. Naquela noite, as imagens da carceragem e a força do funk eram de tirar o sono. Lembrava da fala de um outro amigo Mc sobre o funk ser uma das maiores formas de comunicação da favela, pois, na carceragem, o funk transformou todos numa única “galera”, que ao som de um mesmo “bonde”, cantava o amor, as injustiças e, principalmente, o sonho da liberdade.

Trecho extraído do livro Funk-se quem quiser, de Adriana Carvalho Lopes, editora Bom Texto, 2011

GUERRA AO TERROR

Depois da semana passada, vemos a afirmação em coro de que o extremismo muçulmano é um dos maiores problemas da atualidade. Mas nem sempre o coro se dispõe a dar um passo à frente e se perguntar pelas coordenadas sociopolíticas do aparecimento de tal problema.

Ao que parece, alguns acreditam que simplesmente colocar a questão nesses termos já é ser cúmplice e não demonstrar solidariedade pelas vítimas. É querer ser racional com o irracional, relativizar o que seria motivado pelo mal radical, pelo ódio milenar contra nós e nossa liberdade, apoiar a superstição contra as luzes. Em nome de tal visão de combate que nada quer saber sobre causas pois não se interessa em mudá-las, estamos em “guerra contra o terror” há quase 15 anos.

No entanto, depois de 15 anos em guerra, não estamos mais seguros do que em 2001. O que temos são: três países invadidos (Afeganistão, Iraque e Mali), um conjunto impressionante de leis e práticas de controle que cerceiam a liberdade em nome da defesa da liberdade, um Estado Islâmico a controlar áreas de antigos países do Oriente Médio, o aumento exponencial da xenofobia e da islamofobia em países europeus e novas levas de jovens muçulmanos europeus dispostos a serem mártires do jihadismo internacional.

Ou seja, enveredar pela “guerra ao terror” é a melhor maneira de se afundar no problema. Pois qual seria o próximo passo: reforçar as fronteiras, uma nova intervenção militar? Mas para que, se os novos jihadistas são cidadãos europeus, morando nas periferias? Quem sabe então tentar concentrar os muçulmanos europeus em campos nos quais eles poderiam ser melhor controlados?

Insistiria que, se quisermos vencer o extremismo muçulmano, melhor começar por parar de reeditar teorias coloniais sobre o pretenso caráter arcaico da religião dos antigos colonizados, como se nós mesmos não tivéssemos nos acomodado aos nossos próprios arcaísmos. Pois se tem alguém que agradecerá de joelhos aqueles que usam a imprensa para falar que o islã não é compatível com a democracia (como se alguma religião realmente fosse) são os terroristas da Al Qaeda e do Estado Islâmico. É exatamente o que eles sempre falaram. Infelizmente, para propagar esta boa nova, eles tem bastantes aliados entre nós.

Não é vitimizar assassinos dementes tentar sair desta toada surda e entender o sentimento, a assombrar os descendentes de árabes vivendo na Europa, de impotência política, de exclusão econômica brutal, de não ter ninguém que os defenda de ataques racistas vindos de partidos e da vida ordinária. É a melhor maneira de tentar impedir que novos assassinos apareçam.

Vladimir Safatle

* Publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo em 13 de janeiro de 2014.