Arquivo da categoria: História

CONSCIÊNCIA NEGRA

Antes de te ouvir falando aquela tradicional bobagem de “e a consciência branca? Não somos todos iguais?”, deixe-nos relembrar alguns fatos:

Os negros são 77% do total de mortos pela violência policial no Brasil, hoje.

Apesar dos avanços nos últimos doze anos, ainda são minoria nos cargos de chefia, nas universidades e nos cargos públicos.

Ainda são alvo diariamente de manifestações de desapreço APENAS por causa da cor. Em outras palavras, o racismo vive, e é forte no Brasil.

As religiões de matizes africanas continuam a ser perseguidas, inclusive pelo poder público, através principalmente de outras religiões.

Ainda vivem os efeitos da escravidão sim. Tudo o que foi dito acima, aliás, é resultado de séculos de condição humana negada, uso do corpo e da força de trabalho sem nenhum respeito às condições de sobrevivência, desterramento, desculturação, rompimento dos laços de pertencimento, objetificação, em resumo, foram usados como escravos e tiveram essa condição reconhecida e justificada pela política, economia, filosofia, ciências e religião de toda uma época.

Apesar disso, a cultura brasileira não pode falar em “contribuição” da Cultura Negra, simplesmente porque ela não contribuiu. ELA É CONSTITUINTE, MATRIZ da Cultura Brasileira. Essencial, formadora, indiscernível. Faz parte de todos nós.

VIVA ZUMBI!!!

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“Mudanças tectônicas” nas economias emegentes, segtundo estudo alemão

Renata Giraldi* Repórter da Agência Brasil

Brasília – Em poucos anos, as economias do Brasil, da Rússia, da Índia e da China devem superar as dos Estados Unidos e dos 27 países que integram a União Europeia (UE). A conclusão é do Instituto de Negócios Alemão (cuja sigla em alemão é IW). Segundo especialistas, a economia global gerou “mudanças tectônicas” nas economias emergentes.

Para o instituto alemão, a pressão da crise financeira internacional sobre as economias mundiais e os mercados financeiros enfraque os Estados Unidos e fortalece os países em desenvolvimento. O estudo destacou o comércio entre a Alemanha e o Brics (acrônimo que representam os emergentes Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).

De acordo com o relatório, as negociações na Alemanha com os Brics envolvem, em geral, engenharia mecânica, indústria automotiva, indústria de bens eletrônicos e de indústria química. Pela análise do instituto, a economia dos Brics, nos últimos anos, registrou aceleração econômica, enquanto a participação na economia global tem sido claramente superior à dos países da chamada zona do euro.

Pelos dados compilados peli instituto, no período de 2002 a 2010, houve crescimento de 12% para 21% das exportações da Alemanhã para Brasil, Rússia, Índia e China. O relatório informa que há “ um grande futuro para os Brics”. Segundo o texto, o grupo reúne elementos para se tornar um “gigante no futuro”.

O estudo IW indicou ainda que, lentamente, os Estados Unidos perdem espaço no cenário econômico, embora se mantenha como segundo colocado para produtos alemães em 2010, apesar da queda de 5% das importações alemãs em relação a 2005″, disse ele.

O Instituto de Negócios Alemão (cuja sigla em alemão é IW) é uma entidade independente que atua no setor de negócios privados desde 1951. A sede do órgão está localizada na cidade alemã de Colônia.

*Com informações das agências públicas de notícias do México e da Alemanha

Edição: Vinicius Doria

FRASES E FRASES: 50 anos da construção do Muro de Berlim

“O Miraculoso Ano de 1989”

Todas as datas são convencionais, mas a de 1989 é um pouco menos convencional que as outras. A queda do Muro de Berlim simboliza, para todos os contemporâneos, a queda do socialismo. “Triunfo do liberalismo, do capitalismo, das democracias ocidentais sobre as vãs esperanças do marxismo”, este é o comunicado vitorioso daqueles que escaparam por pouco do leninismo. Ao tentar acabar com a exploração do homem pelo homem, o socialismo, o socialismo multiplicou-a indefinidamente. Estranha dialética esta que ressuscita o explorador e enterra o coveiro após haver ensinado ao mundo como fazer uma guerra civil em grande escala. O recalcado retorna e retorna em dobro: o povo explorado, em nome do qual a vanguarda do proletariado reinava, volta a ser um povo; as elites com seus longos dentes, que pareciam ser desnecessários, voltam com toda força para retomar, nos bancos, nos comércios e nas fábricas seu antigo trabalho de exploração. O Ocidente liberal não se contém de tanta alegria. Ele ganhou a guerra fria.

Mas este triunfo dura pouco. Em Paris, Londres e Amsterdã, neste mesmo glorioso ano de 1989, são realizadas as primeiras conferências sobre o estado global do planeta, o que simboliza, para alguns observadores, o fim do capitalismo e de suas vãs esperanças de conquista ilimitada e de dominação total sobre a natureza. Ao tentar desviar a exploração do homem pelo homem para uma exploração da natureza pelo homem, o capitalismo multiplicou indefinidamente as duas . O recalcado retorna e retorna em dobro: as multidões que deveriam ser salvas da morte caem aos milhões na miséria; as naturezas que deveriam ser dominadas de forma global nos dominam igualmente de forma global, ameaçando a todos. Estranha dialética esta que faz do escravo dominado o mestre e dono do homem, e que subitamente nos informa que inventamos ecocídios e ao mesmo tempo as fomes em larga escala

(Bruno Latour em Jamais Fomos Modernos)

DO BRASIL DE FATO: Terrorismo louro de olhos azuis

Frei Betto

Preconceitos, como mentiras, nascem da falta de informação (ignorância) e excesso de repetição. Se pais de uma criança branca se referem em termos pejorativos a negros e indígenas, judeus e homossexuais, dificilmente a criança, quando adulta, escapará do preconceito.

A mídia usamericana incutiu no Ocidente o sofisma de que todo muçulmano é um terrorista em potencial. O que induziu o papa Bento XVI a cometer a gafe de declarar, na Alemanha, que o Islã é originariamente violento e, em sua primeira visita aos EUA, comparecer a uma sinagoga sem o cuidado de repetir o gesto numa mesquita.

Em qualquer aeroporto de países desenvolvidos um passageiro em trajes islâmicos ou cujos traços fisionômicos lembrem um saudita, com certeza será parado e meticulosamente revistado. Ali reside o perigo… alerta o preconceito infundido.

Ora, o terrorismo não foi inventado pelos fundamentalistas islâmicos. Dele foram vítimas os árabes atacados pelas Cruzadas e os 70 milhões de indígenas mortos na América Latina, no decorrer do século 16, em decorrência da colonização ibérica.

O maior atentado terrorista da história não foi a queda, em Nova York, das torres gêmeas, há 10 anos, e que causou a morte de 3 mil pessoas. Foi o praticado pelo governo dos EUA: as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945. Morreram 242.437 mil civis, sem contar as mortes posteriores por efeito da contaminação.

Súbito, a pacata Noruega – tão pacata que, anualmente, concede o Prêmio Nobel da Paz – vê-se palco de dois atentados terroristas que deixam dezenas de mortos e muitos feridos. A imagem bucólica do país escandinavo é apenas aparente. Tropas norueguesas também intervêm no Afeganistão e deram apoio aos EUA na guerra do Iraque.

Tão logo a notícia correu mundo, a suspeita recaiu sobre os islâmicos. O duplo atentado, no gabinete do primeiro-ministro e na ilha de Utoeya, teria sido um revide ao assassinato de Bin Laden e às caricaturas de Maomé publicadas pela imprensa escandinava. O preconceito estava entranhado na lógica ocidental.

A verdade, ao vir à tona, constrangeu os preconceituosos. O autor do hediondo crime foi o jovem norueguês Anders Behring Breivik, 32 anos, branco, louro, de olhos azuis, adepto da fisicultura e dono de uma fazenda de produtos orgânicos. O tipo do sujeito que jamais levantaria suspeitas na alfândega dos EUA. Ele “é dos nossos”, diriam os policiais condicionados a suspeitar de quem não tem a pele suficientemente clara nem olhos azuis ou verdes.

Democracia é diversidade de opiniões. Mas o que o Ocidente sabe do conceito de terrorismo na cabeça de um vietnamita, iraquiano ou afegão? O que pensa um líbio sujeito a ser atingido por um míssil atirado pela OTAN sobre a população civil de seu país, como denunciou o núncio apostólico em Trípoli?

Anders é um típico escandinavo. Tem a aparência de príncipe. E alma de viking. É o que a mídia e a educação deveriam se perguntar: o que estamos incutindo na cabeça das pessoas? Ambições ou valores? Preconceitos ou princípios? Egocentrismo ou ética?

O ser humano é a alma que carrega. Amy Winehouse tinha apenas 27 anos, sucesso mundial como compositora e intérprete, e uma fortuna incalculável. Nada disso a fez uma mulher feliz. O que não encontrou em si ela buscou nas drogas e no álcool. Morreu prematuramente, solitária, em casa.

O que esperar de uma sociedade em que, entre cada 10 filmes, 8 exaltam a violência; o pai abraça o filho em público e os dois são agredidos como homossexuais; o motorista de um Porsche se choca a 150km por hora com uma jovem advogada que perece no acidente e ele continua solto; o político fica indignado com o bandido que assaltou a filha dele e, no entanto, mete a mão no dinheiro público e ainda estranha ao ser demitido?

Enquanto a diferença gerar divergência permaneceremos na pré-história do projeto civilizatório verdadeiramente humano.

Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Marcelo Gleiser e Waldemar Falcão, de “Conversa sobre a fé e a ciência”

NASCE UM NOVO PAÍS: Paz e guerra rondam independência do Sudão do Sul

Do Terra Magazine

Reuters

Menina em catedral católica na capital do Sudão do Sul, Juba. Região vivia em guerra civil com o norte, de maioria muçulmana

Menina em catedral católica na capital do Sudão do Sul, Juba. Região vivia em guerra civil com o norte, de maioria muçulmana

Num discurso que misturou paz e guerra, o primeiro presidente do Sudão do Sul, Salva Kiir, celebrou a independência do novo país, neste sábado (9). Ele prometeu tranquilidade nas regiões fronteiriças, mas não convenceu o vizinho Omar al-Bashir, presidente do Sudão, que disse neste domingo (10) à BBC que não está descartada a possibilidade de conflitos armados.

A incerteza não é novidade no cotidiano desse país, que nasce depois de um plebiscito, em janeiro, no qual 98% dos sul-sudaneses decidiram pela independência. O norte e o sul vivem uma guerra civil desde 1993. Mais de dois milhões de pessoas foram mortas e cinco milhões se tornaram refugiados. Em 2005, um acordo de paz deu origem ao plebiscito.

A 193ª nação do mundo será também uma das mais pobres, apesar de possuir petróleo. Prisões arbitrárias e falta de liberdade de expressão são só alguns dos problemas humanitários apontados pela Anistia Internacional.

A comunidade internacional, porém, demonstra apoio ao enfrentamento de tão grandes desafios. O Sudão do Sul já pediu ingresso do país nas Nações Unidas. “Juntos, afirmamos nosso compromisso de ajudá-los a alcançar suas muitas responsabilidades”, afirmou o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon.

O presidente americano, Barack Obama, falou com otimismo das “esperanças de tantos milhões de pessoas”. O governo brasileiro já anunciou que vai estabelecer relações diplomáticas com o novo país.

FHC ASSUME SEU LUGAR E O DO PSDB NA HISTÓRIA

FHC ASSUME SEU LUGAR NA HISTÓRIA:
“PSDB DEVE ESQUECER AS  MASSAS CARENTES E MAL-INFORMADAS, O POVÃO”

Na frase de abertura do programa do PSDB, lançado em 1988, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso anuncia que o partido nasce sob a proposta de estar “longe das benesses oficiais, mas perto do pulsar das ruas”. Em 2006, em carta aberta aos militantes tucanos, o presidente de honra do PSDB reforça a necessidade de “reatar os fios entre o partido e a sociedade” e recomenda a seus correligionários que busquem o diálogo com os sindicatos e movimentos populares. Neste ano, depois da terceira derrota seguida na disputa presidencial, Fernando Henrique adota um novo discurso e defende que o partido abandone a tentativa de influenciar as bases sociais, a quem chama de “povão” e de “massas carentes e pouco informadas” (Valor, 13-04).

(Carta Maior; 4º feira, 13/04/2011)

1975, um grande ensaio antes do golpe na Argentina

Retirado do Poratal de Esquerda Carta Maior

Em termos sulamericanos, 1975 marcou a superioridade da interpretação internacional realizada pelo bloco que tomaria o poder em 24 de março de 1976. A paz no Vietnã, em janeiro de 1973, não havia inaugurado uma era de decadência dos Estados Unidos na região, como pensava a esquerda, mas justamente o contrário, uma etapa de maior virulência. Essa etapa, claro, supunha o controle de todo o continente. 1975 foi o ano dos grandes ensaios para o golpe na Argentina. As Forças Armadas conseguiram do governo constitucional de Isabel Perón o encargo de articular a repressão e foram se articulando dentro e fora da estrutura do Estado. O artigo é de Martín Granowsky, do Página/12.

Martín Granovsky – Página/12

(*) Esse texto integra um suplemente especial sobre o Golpe Militar de 1976 na Argentina, publicado hoje no jornal Página/12.

O golpe de 1976 veio depois de um ano maldito: o de 1975. 1975 foi o ano dos grandes ensaios. As Forças Armadas conseguiram do governo constitucional de Isabel Perón o encargo de articular a repressão.

Por influência de um de seus homens no governo, Italo Argentino Lúder, conseguiram combater com meios desproporcionalmente militares a pequena guerrilha foquista organizada pelo Exército Revolucionário do Povo, em Tucumán. Assim como em Campo de Maio antes do golpe, o Exército montou em Tucumán um campo de tortura e morte, a pequena Escola de Famaillá.

Em 1975, as Forças Armadas homogeneizaram seus altos comandos. Jorge Rafael Videla assumiu a chefia do Exército, Emilio Massera consolidou seu poder na Marina e, juntos, mudaram o comando maior da Força Aérea para remover os duvidosos e instalar o golpista Orlando Ramón Agosti.

Dentro da hierarquia da Igreja católica ganhou espaço o clero castrense, núcleo do integrismo em expansão.

A afirmação de Massera representou a inserção ainda maior da organização fascista Propaganda Dos, com origem na Itália e ramificações na Argentina e Brasil. Integravam a P-2, por exemplo, o secretário privado de Isabel, José López Rega, o chefe do Primeiro Corpo do Exército, Carlos Suárez Mason, e o diplomata especialista em limpeza interna e operações sujas Federico Barttfeld.

A ponte entre Itália e Argentina foi Licio Gelli, condecorado por Juan Perón em 1973. Designado como funcionário da embaixada argentina na Itália, conservou o posto com a ditadura.

O ministro da Economia, Celestino Rodrigo, ensaiou o capitalismo selvagem, que denominava “sinceramiento”, com um governo peronista. Desvalorizou a moeda em 160%. Ao final de 1975, a inflação chegaria a 183%. Sua mão direita foi Ricardo Zinn, que se tornaria funcionário da ditadura em seguida e, com Carlos Menem, arquiteto das privatizações iniciais.

Entre março e maio de 1975, as Forças Armadas, as forças de segurança e os grupo parapoliciais se exercitaram em um operativo conjunto contra os trabalhadores do pólo metalúrgico assentado em Villa Constitución, ao sul de Santa Fé. Primeiro contra os operários e, logo em seguida, contra o povo que tomou como sua a luta dos trabalhadores.

A entronização de Rodrigo como prolongação de López Rega mudou a natureza do enfrentamento principal. Desde 1973, um pólo era a esquerda peronista da Tendência Revolucionária e outro a ortodoxia sindical aliado ao lopezreguismo. Em 1975, liquidado o primeiro polo inclusive como opção minoritária de poder, foi a ortodoxia sindical de Lorenzo Miguel quem pressionou, com milhares de trabalhadores nas ruas, até que López Rega deixasse o governo e o país. Mas já era tarde. O peronismo, decantado sobre um tapete de sangue e fraturado, não podia derrotar o golpe em marcha. O partido militar havia se rearmado e se dispunha a transformar a Argentina mediante níveis inéditos de concentração econômica e de um plano científico de assassinatos massivos.

O poder militar passou a controlar a chefatura da Polícia Federal com Albano Harguindeguy, futuro do ministro do Interior. Sem precisar mais da Triple A, que havia cumprido seu papel de repressão seletiva e ferramenta para semear o terror e gerar a necessidade de ordem, as Forças Armadas disciplinaram e subordinaram os grupos de choque da extrema direita, com a Concentração Nacional Universitária.

Em termos sulamericanos, 1975 marcou a superioridade da interpretação internacional realizada pelo bloco que tomaria o poder em 24 de março de 1976. A paz no Vietnã, em janeiro de 1973, não havia inaugurado uma era de decadência dos Estados Unidos na região, como pensava a esquerda, mas justamente o contrário, uma etapa de maior virulência. Essa etapa, claro, supunha o controle de todo o continente.

A dúvida é se marcar 1975 como um ano maldito não pode ser uma dispensa para a maldição maior, a que começou em 1976. Alguém poderá perguntar se a regressão sem volta não terá iniciado no enfrentamento de Ezeiza, de 20 de junho de 1973. Deixando de lado as observações desonestas – daqueles que estão armados para desculpar, efetivamente, a ditadura militar ao tirar-lhe seu caráter de novidade -, qualquer hipótese merece ser discutida. Inclusive a que se oferece aqui: o grande ensaio foi – às vezes com intenção manifesta de sê-lo e frequentemente de fato -, como costuma ocorrer na história, aquele tremendo ano de 1975.

martin.granovsky@gmail.com

Tradução: Katarina Peixoto

Fotos: Emilio Massera, comandante da Marinha, e Jorge Videla, do Exército, dois dos principais articuladores do golpe militar na Argentina, em 24 de março de 1976.

Leia também: Esperando o 24 de março, General argentino é condenado à prisão perpétua por crimes contra a humanidade