O Celular Revisitado

Umberto Eco – publicado originalmente em Carta Capital.

No início dos anos 1990, quando poucas pessoas tinham telefones celulares, mas estas poucas já conseguiam transformar uma viagem de trem numa coisa insuportável, escrevi uma Bustina bastante irritada. Dizia, em síntese, que o celular só devia ser permitido para os transplantadores de órgãos, os bombeiros hidráulicos (em ambos os casos, pessoas que, para o bem social, precisam ser encontradas de imediato onde quer que estejam) e os adúlteros.

Quanto aos demais, era sobretudo um sinal de inferioridade social, especialmente no caso de senhores imperceptíveis em tudo o mais, que vociferam no trem ou no aeroporto a respeito de ações, profiláticos metálicos e empréstimos bancários: os poderosos de verdade não têm celulares, mas 20 secretários que filtram as ligações.

Quem precisa de celular são os quadros médios obrigados a atender o diretor-executivo a qualquer hora ou o pequeno fazendeiro para poder receber do banco a comunicação de que sua conta está no vermelho.

Desde então, a situação dos adúlteros mudou duas vezes: numa primeira fase, tiveram de renunciar a este reservadíssimo instrumento, pois a simples aquisição de um celular já colocava o cônjuge em questão sob suspeita; numa segunda fase, a situação sofreu nova reviravolta porque, visto que agora todo mundo tem celular, ele deixou de ser prova irrefutável de adultério.

Hoje os amantes podem utilizá-lo, desde que não estejam ligados a personagens mais ou menos públicos, pois, em tal caso, a comunicação certamente estará sendo grampeada.

Nada mudou em relação à inferioridade social (ainda não vi fotos de Bush com o celular no ouvido), mas é fato que ele se transformou num instrumento de comunicação (excessiva) entre mães e filhos, de fraude em vestibulares, de fotomania compulsiva; além disso, as jovens gerações estão abandonando o relógio de pulso, pois veem a hora no celular.

Se acrescentarmos a isso o surgimento das mensagens, das informações jornalísticas minuto a minuto e a ligação via celular com a internet, a troca de mensagens eletrônicas wireless e o fato de que, em suas formas mais sofisticadas, ele funciona até como computador de bolso, veremos que estamos diante de um fenômeno social e tecnologicamente fundamental.

Ainda é possível viver sem celular? Uma vez que “viver-pelo-celular” implica uma adesão total ao presente e um furor do contato que nos priva de qualquer momento de reflexão solitária, quem preza a própria liberdade (seja interior, seja exterior) pode desfrutar de muitos serviços oferecidos pelo aparelho, exceto seu uso telefônico. Pode, no máximo, ligá-lo apenas para chamar um táxi ou avisar em casa que o trem atrasou três horas, mas não para ser chamado (basta mantê-lo desligado).

Quando alguém critica este meu hábito, respondo com um triste argumento: quando meu pai morreu, há mais de 40 anos (antes dos celulares, portanto), eu estava viajando e só pude ser contatado muitas horas depois. Pois bem, essas horas de atraso não mudaram nada.

Aliás, a situação não mudaria nem que eu fosse avisado em dez minutos. Isso quer dizer que a comunicação instantânea proporcionada pelo celular tem pouco a ver com os grandes temas da vida e da morte, não serve para quem está fazendo uma pesquisa sobre Aristóteles nem para quem reflete sobre a existência de Deus.

O celular seria então inútil para um filósofo (salvo para levar no bolso uma bibliografia de 3 mil títulos sobre Malebranche)? Muito pelo contrário. Algumas inovações tecnológicas mudaram tanto a vida humana que se transformaram em tema da filosofia – basta pensar na invenção da escrita (de Platão a Derrida) ou no advento dos teares mecânicos (ver Marx).

Curiosamente, não existe muita filosofia a respeito de outras modificações tecnológicas importantes para nós, como o automóvel, por exemplo, ou o avião (embora tenham reflexos na transformação da ideia de velocidade).

Mas é porque só usamos automóvel ou avião em determinados momentos (à exceção dos taxistas, caminhoneiros ou pilotos), enquanto a escrita e a mecanização da maior parte das atividades cotidianas transformaram radicalmente cada momento de nossas vidas.

Mas Maurizio Ferraris acabou de dedicar um livro à filosofia do celular: Dove sei? Ontologia del telefonino, Bompiani, 2011. Talvez o título dê a entender que se trata de um divertimento despretensioso, mas Ferraris extrai do tema uma série de reflexões muito sérias, envolvendo o leitor num jogo filosófico bastante intrigante.

Os celulares estão mudando radicalmente nosso modo de viver e, portanto, transformaram-se num objeto “filosoficamente interessante”. Ao assumir também as funções de agenda portátil e pequeno computador conectado à internet, o celular é cada vez menos um instrumento da oralidade e cada vez mais um instrumento de escrita e leitura. E enquanto tal, tornou-se um instrumento oniabrangente de gravação e veremos como palavras como escrita, registro e “inscrição” são capazes de deixar um companheiro de Derrida de orelha em pé.

São apaixonantes, mesmo para os leitores não especializados, as primeiras cem páginas de “antropologia” do celular. Existe uma diferença substancial entre falar ao telefone e falar ao celular.

No telefone, era possível perguntar se alguém estava em casa, enquanto no celular (a não ser que tenha sido roubado) sempre sabemos quem responde e se este alguém está (o que muda nossa situação de “privacy”). Mas o telefone fixo permitia saber onde a pessoa chamada estava, enquanto agora fica sempre o problema de saber sua localização (aliás, se ele responder “estou nas suas costas”, mas for assinante de uma companhia de um outro país, a resposta inclui meia volta ao mundo).

No entanto, se eu não sei onde está a pessoa que fala comigo, a operadora sabe muito bem onde ambos estão de modo que a capacidade de escapar do controle individual corresponde a uma transparência total dos nossos movimentos no que diz respeito ao Big Brother de Orwell.

São possíveis várias reflexões pessimistas (paradoxais e, portanto, confiáveis) sobre o novo “homo cellularis”. Por exemplo: muda a própria dinâmica da interação face a face entre Fulano e Beltrano, que não é mais uma relação a dois, pois a conversa pode ser interrompida pela inserção celular de Sicrano e, assim, a interação entre Fulano e Beltrano procede aos soluços ou é interrompida.

Logo, o instrumento príncipe da conexão (eu estar sempre presente para os outros, assim como os outros para mim) torna-se ao mesmo tempo o instrumento da desconexão (Fulano está conectado com todo mundo menos Beltrano).

Entre as reflexões otimistas, gosto da remissão à tragédia de Jivago que, depois de anos, revê Lara do bonde, não consegue descer a tempo para encontrá-la e morre. Se os dois tivessem celular, como acabaria a trágica história?

A análise de Ferraris oscila (justamente) entre as possibilidades que o celular abre e as castrações às quais nos submete, principalmente a perda da solidão, da reflexão silenciosa sobre nós mesmos e a condenação à presença constante do presente. Nem sempre a transformação coincide com a emancipação.

Mas quando chegamos a um terço do livro, Ferraris passa do celular para uma discussão sobre os temas que sempre o apaixonaram nos últimos anos, entre os quais a polêmica contra seus mestres de origem, de Heidegger a Gadamer e a Vattimo, contra o pós-modernismo filosófico, contra a ideia de que não existem fatos, mas apenas interpretações, até uma defesa agora plena do conhecimento como adaequatio, ou seja (pobre Rorty), “Espelho da Natureza”.

Naturalmente com muita prudência, mas é uma pena não poder seguir passo a passo a fundamentação de uma espécie de realismo que Ferraris chama de “textualismo fraco”.

Como ele chega do celular ao problema da Verdade? Através de uma distinção entre objetos físicos (como uma cadeira ou o Monte Branco), objetos ideais (como o Teorema de Pitágoras) e objetos sociais (como a Constituição italiana ou a obrigação de pagar seu consumo no bar).

Os dois primeiros tipos de objetos existem também fora das nossas decisões, enquanto o terceiro tipo só se torna, por assim dizer, operativo depois de um registro ou inscrição.Uma vez dito que Ferraris tenta também uma fundamentação de certo modo “natural” desses registros sociais, eis que o celular se apresenta como o instrumento absoluto de cada ato de registro.

Seria interessante discutir muitos pontos do livro. Por exemplo, as páginas dedicadas à diferença entre registro (são registros um extrato bancário, uma lei, qualquer coletânea de dados pessoais) e comunicação.

As ideias de Ferraris sobre o registro são extremamente interessantes, enquanto suas ideias sobre a comunicação sempre foram um pouco genéricas (para usar contra ele a metáfora de um texto seu anterior, parecem compradas na Ikea). Mas no espaço de uma Bustina não se podem fazer discussões filosóficas aprofundadas.

Algum leitor poderá perguntar se era realmente necessário começar pelo celular para chegar a conclusões que podiam partir também dos conceitos de escrita e de “assinatura”.

Claro, o filósofo pode partir até de uma reflexão sobre as minhocas para desenhar toda uma metafísica, mas talvez o aspecto mais interessante do livro não seja o fato de que o celular permitiu que Ferraris desenvolvesse uma ontologia, mas sim, que sua ontologia permitiu que compreendesse e fizesse compreender o celular.

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Nós, Ciborgues – o corpo elétrico e a dissolução do Humano

A subjetividade humana é, hoje, mais do que nunca, uma construção em ruínas. Ela já não tinha mesmo jeito, desde as devastadoras demolições dos “mestres da suspeita”: Marx, Freud, Nietzsche, sem esquecer, é claro, Heidegger. A obra de desconstrução iria prosseguir, incansável, a partir de meados do século XX, com as operações de desalojamento do cogito cartesiano efetuadas pela revisão althusseriana de Marx e pela revisão lacaniana de Freud. Depois, com os pós-estruturalistas, Foucault, Deleuze, Derrida, Lyotard, o estrago se tornaria irremediável e irreversível. Sem volta. A point of no return. A questão não é mais, agora, “quem é o sujeito?”, mas “queremos, ainda, ser sujeitos?”, “quem precisa do sujeito?” (Guzzoni, 1996), “quem tem nostalgia do sujeito?” e, mais radicalmente, talvez, “quem vem depois do sujeito?” (Cadava; Connor; nanCy, 1991). Ou ainda, como Maurice Blanchot (1991), a essa última pergunta podemos, talvez cinicamente, nos limitar a retrucar: “quem mesmo?”.

Mas o sujeito vaza por todos os lados. As feministas não cansam de nos lembrar que o retrato canônico do sujeito que  posa como abstrato, universal, racional, reflexivo evoca – coincidência? – um membro típico de um subconjunto particular do gênero masculino. Os estudos culturais sobre raça e etnia denunciam, de forma insistente, as relações espúrias entre, de um lado, o sujeito que é privilegiado no discurso e nas instituições dominantes e, de outro, o homem branco, de ascendência europeia. A análise pós-colonialista, por sua vez, flagra o sujeito racional e iluminado em suspeitas posições que denunciam as complexas tramas entre desejo, poder, raça, gênero e sexualidade em que ele se vê, inevitável e inequivocamente, envolvido. Reunidas, essas teorias mostram que não existe sujeito ou subjetividade fora da história e da linguagem, fora da cultura e das relações de poder. Sobra alguma coisa?

É, entretanto, na teoria cultural que analisa as radicais transformações culturais pelas quais passamos que podemos ver o desenvolvimento de um pensamento que nos faz questionar radicalmente as concepções dominantes sobre a subjetividade humana. Ironicamente, são os processos que estão transformando, de forma radical, o corpo humano que nos obrigam a repensar a “alma” humana. Quando aquilo que é supostamente animado se vê profunda e radicalmente afetado, é hora de perguntar: qual é mesmo a natureza daquilo que anima o que é animado? É no confronto com clones, ciborgues e outros híbridos tecnonaturais que a “humanidade” de nossa subjetividade se vê colocada em questão.

Pois uma das mais importantes questões de nosso tempo é justamente: onde termina o humano e onde começa a máquina? Ou, dada a ubiquidade das máquinas, a ordem não seria a inversa?: onde termina a máquina e onde começa o humano? Ou ainda, dada a geral promiscuidade entre o humano e a máquina, não seria o caso de se considerar ambas as perguntas simplesmente sem sentido? Mais do que a metáfora, é a realidade do ciborgue, sua inegável presença em nosso meio (“nosso”?), que põe em xeque a ontologia do humano. Ironicamente, a existência do ciborgue não nos intima a perguntar sobre a natureza das máquinas, mas, muito mais perigosamente, sobre a natureza do humano: quem somos nós?

Primeiramente, a ubiquidade do ciborgue. Uma das características mais notáveis desta nossa era (chamem-na pelo nome que quiserem: a mim, “pós-moderna” não me desagrada) é precisamente a indecente interpenetração, o promíscuo acoplamento, a desavergonhada conjunção entre o humano e a máquina. Em um nível mais abstrato, em um nível “mais alto”, essa promiscuidade generalizada traduz-se em uma inextrincável confusão entre ciência e política, entre tecnologia e sociedade, entre natureza e cultura. Não existe nada mais que seja simplesmente “puro” em qualquer dos lados da linha de “divisão”: a ciência, a tecnologia, a natureza puras; o puramente social, o puramente político, o puramente cultural. Total e inevitável embaraço. Uma situação embaraçosa? Mas, cheia de promessas, também: é que o negócio todo é, todo ele, fundamentalmente ambíguo. Vejamos, pois, onde eles (eles?) estão.

Os ciborgues vivem de um lado e do outro da fronteira que separa (ainda) a máquina do organismo. Do lado do organismo: seres humanos que se tornam, em variados graus, “artifciais”. Do lado da máquina: seres artifciais que não apenas simulam características dos humanos, mas que se apresentam melhorados relativamente a esses últimos. De acordo com a taxonomia proposta por Gray, Mentor e Figueroa-Sarriera (1995, p. 3), as tecnologias ciborguianas podem ser: 1. restauradoras: permitem restaurar funções e substituir órgãos e membros perdidos; 2. normalizadoras: retornam as criaturas a uma indiferente normalidade; 3. reconfguradoras: criam criaturas pós-humanas que são iguais aos seres humanos e, ao mesmo tempo, diferentes deles; 4. melhoradoras: criam criaturas melhoradas, relativamente ao ser humano.

A lista apresentada a seguir ilustra as “intervenções” que vêm afetando os dois tipos de “seres”, contribuindo para confundir suas respectivas ontologias. De um lado, a mecanização e a eletrifcação do humano; de outro, a humanização e a subjetivação da máquina. É da combinação desses processos que nasce essa criatura pós-humana a que chamamos “ciborgue”.

Implantes, transplantes, enxertos, próteses. Seres portadores de órgãos “artificiais”. Seres geneticamente modificados. Anabolizantes, vacinas, psicofármacos. Estados “artificialmente” induzidos. Sentidos farmacologicamente intensificados: a percepção, a imaginação, a tesão. Superatletas. Supermodelos. Superguerreiros. Clones. Seres “artificiais” que superam, localizada e parcialmente (por enquanto), as limitadas qualidades e as evidentes fragilidades dos humanos. Máquinas de visão melhorada, de reações mais ágeis, de coordenação mais precisa. Máquinas de guerra melhoradas de um lado e outro da fronteira: soldados e astronautas quase “artificiais”; seres “artificiais” quase humanos. Biotecnologias. Realidades virtuais. Clonagens que embaralham as distinções entre reprodução natural e reprodução artificial. Bits e bytes que circulam, indistintamente, entre corpos humanos e corpos elétricos, tornando-os igualmente indistintos: corpos humano-elétricos.

Depois, a ontologia. Aquilo que caracteriza a máquina nos faz questionar aquilo que caracteriza o humano: a matéria de que somos feitos. A imagem do ciborgue nos estimula a repensar a subjetividade humana; sua realidade nos obriga a deslocá-la. A
imagem da subjetividade humana que tem dominado o nosso pensamento é, como sabemos, aquela que nos foi legada pelo cogito cartesiano: a existência do sujeito é idêntica ao seu pensamento. Embora temperada pelas diversas filosofias hegelianas, kantianas, fenomenológicas e existencialistas, foi a imagem de um sujeito pensante, racional e reflexivo, considerado como a origem e o centro do pensamento e da ação, que esteve subjacente, até recentemente, às principais teorias sociais e políticas ocidentais. Esse “sujeito” é, na verdade, o fundamento da ideia moderna e liberal de democracia. É “ele”, ainda, que está no centro da própria ideia moderna de educação.

Se existe, entretanto, uma criatura tecno-humana que simula o humano, que em tudo parece humana, que age como um humano, que se comporta como um humano, mas cujas ações e comportamentos não podem ser retroagidos a nenhuma interioridade, a nenhuma racionalidade, a nenhuma essencialidade, em suma, a nenhuma das qualidades que utilizamos para caracterizar o humano, porque feita de fluxos e circuitos, de fios e de silício, e não do macio e fofo tecido de que somos ainda feitos, então é a própria singularidade e exclusividade do humano que se dissolve. A heterogeneidade de que é feito o ciborgue – o duro e o mole, a superficialidade e a profundidade – invalida a homogeneidade do humano tal como o imaginamos. A ideia do ciborgue, a realidade do ciborgue, tal como a da possibilidade da clonagem, é aterrorizante, não porque coloca em dúvida a origem divina do humano, mas porque coloca em xeque a originalidade do humano. Kaput. Fim do privilégio.

O ciborgue nos força a pensar não em termos de “sujeitos”, de mônadas, de átomos ou indivíduos, mas em termos de fluxos e intensidades, tal como sugerido, aliás, por uma “ontologia” deleuziana. O mundo não seria constituído, então, de unidades (“sujeitos”), de onde partiriam as ações sobre outras unidades, mas, inversamente, de correntes e circuitos que encontram aquelas unidades em sua passagem. Primários são os fluxos e as intensidades, relativamente aos quais os indivíduos e os sujeitos são secundários, subsidiários.

Integre-se, pois, à corrente. Plugue-se. Ligue-se. A uma tomada. Ou a uma máquina. Ou a outro humano. Ou a um ciborgue. Torne-se um: devir-ciborgue. Eletrifique-se. O humano se dissolve como unidade. É só eletricidade. Tá ligado?

(Tomaz Tadeu, in A Antropologia do Ciborgue: as vertigens do pós-humano. Publicado em 2009, pela Autêntica Editora. Link para o livro nos comentários).

Lula recebe Prêmio Gorbachev ao lado dos criadores da internet e do celular

 

Lula recebe Prêmio Gorbachev ao lado dos criadores da internet e do celular Lula será homenageado por sua “contribuição ao desenvolvimento da civilização global” (Foto: Ricardo Stuckert/PR – Arquivo)

São Paulo – O ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva será um dos nove homenageados na primeira edição do Prêmio “O Homem que Mudou o Mundo”, da Fundação Mikhail Gorbachev, criado em homenagem ao 80º aniversário do último líder da União Soviética. A honraria a Lula será conferida na categoria “Perestroika“, que signfinica “reconstrução”, em russo, e foi o nome de uma das frentes de reformas promovidas por Gorbachev durante seu governo. Nenhuma mulher foi incluída.

Ao lado do ex-presidente brasileiro, os criadores da internet, o britânico Tim Berners-Lee, e do celular, o norte-americano Martin Cooper, serão agraciados na mesma categoria. Eles são exaltados pela “contribuição ao desenvolvimento da civilização global”.

Quando Lula ainda era presidente, foi citado como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo pela revista Time, e o prêmio Félix Houphoët-Boigny, considerado uma espécie de prévia do Nobel. Ele chegou a ser citado como “favorito” para o Nobel, mas a informação não foi confirmada.

“Cada um dos escolhidos trouxe uma grande contribuição ao desenvolvimento e à transformação do mundo em que vivemos”, justificou Gorbachev. “Minhas felicitações a todos. Espero com impaciência o encontro com os ganhadores na cerimônia de entrega do prêmio”, completou.

Gorbachev completou 80 anos na segunda-feira (2). A entrega dos prêmios está prevista para 30 de março, em Londres. As informações são de agências russas de notícias. Há ainda duas outras categorias, que também levam nomes de ações marcantes do líder soviético.

Os premiados na categoria Glasnost (“transparência”) são o vocalista da banca U2, Bono Vox, o cineasta Steven Spielberg e Ted Turner, fundador do canal de notícias CNN. Nesse caso, o mérito diz respeito à “contribuição ao desenvolvimento da cultura em um mundo aberto”.

Na categoria “Uskorenie” (“aceleração”), o objetivo é reconhecer contribuições ao “desenvolvimento da ciência e tecnologia modernas”. Na lista, estão Sergey Brin, norte-americano de origem russa e um dos fundadores do Google, o filósofo alemão Jürgen Habermas e o engenheiro queniano Evans Wadongo, criador de lâmpadas solares voltadas às classes de baixo poder aquisitivo.

A partir de 2012, os ganhadores serão definidos por um conselho comandado pelo ex-líder soviético. Prevê-se que a entrega ocorra, anualmente, em um país diferente. Financiam a homenagem de Gorbachev o Fórum de Ganhadores do Prêmio Nobel, a Cruz Verde Internacional (também criada pelo ex-líder soviético) e o Fórum Nova Política.

DROMONOTÍCIAS

No ministério da Cultura a advogada Márcia Barbosa será nomeada Diretoria de Direitos Intelectuais. A ministra da pasta da Cultura, Ana de Holanda, explicou que a advogada irá chefiar uma equipe encarregada de fazer uma revisão da proposta sobre a questão dos direitos autorais. “Vão ver a lei em vigor e essa lei proposta, que ninguém conhece, e ouvir as demandas todas que existem”. A propriedade intelectual (ou sobre uma produção imaterial), talvez, seja o mais importante desafio para uma nova economia política que aparece, pois este tipo de propriedade problematiza, exatamente, as novas formas de trabalho na sociedade pós-moderna ou pós-fordista. Ainda mais quando atualmente experimentamos uma desdiferenciação entre economia, política e cultura.______________________<<<<<<<<<>>>>>>>>>>>>

De acordo com a Agência Brasil: “Dilma destacou que dos 13 milhões de benefícios distribuídos anualmente, 93% são destinados a mães de família. “Com esse dinheiro, a mãe de família compra alimentos, compra os produtos de higiene e compra todos os produtos de primeira necessidade, inclusive material escolar. E aí gera renda também para o dono do mercadinho, da lojinha, da farmácia, fazendo então a roda da economia girar, gerando emprego e aumentando a riqueza de todos”, explicou.” A presidenta Dilma Rousseff fez a afirmação hoje no seu programa de rádio com o objetivo de antecipar as comemorações pelo dia internacional da mulher. A presidenta garantiu que sem a participação ativa das mulheres no programa de distribuição de renda, Bolsa Família, não haveria diminuição da pobreza. É o trabalho/economia mulher produzindo produção.(((((((((((((((((((((((((((((()))))))))).

Continuando com as comemorações do dia internacional das mulheres, com o objetivo de que mais mulheres tenham acesso a programas do governo como Fome Zero, Bolsa Família e o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), além de facilitar o acesso à inclusão bancária e ao microcrédito, entre os dias 09 e 11 de março, a Caixa Econômica Federal vai oferecer, em todas as suas agências, o serviço de inscrição do Cadastro de Pessoa Física (CPF) gratuitamente. È de grátis maninha!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!.

Ai!! Lula, Dilma, seus governos, mas acima de tudo, o povo, os pobres produtores da riqueza aqui e no mundo. Que foi? Brasil, maninha! Já é a copa do mundo e o Brasil marcou um golaço? Deixa de lezeira mana; não ta vendo que as opiniões positivas sobre a influência do Brasil no mundo tiveram o maior aumento entre as nações pesquisadas, passando de 40% a 49%. Isso é melhor do que um golaço. E não é nosso amor! Então vamos aproveitar que é carnaval e vamos pra folia e alegria dionisíaca. Vamos!!!!!!!_________———————————___________________.

As coisas estão de um jeito neste carnaval que jornal local notícia o óbvio em Manaus sobre as paradas de ônibus e na França a presidente do partido de extrema-direita Frente Nacional, Marine Le Pen, lidera as pesquisas do primeiro turno para a presidência francesa em 2012. Dionísio, onde estás nesse carnaval tua alegria e criação intempestiva, tua inteligência coletiva e monstruosidade de tudo que é considerado natural?

NO TRABALHO AFETIVO ATENDA SORRINDO: VOCÊ ESTÁ SENDO EXPLORADO PELA Mc DONALD’s

Com o título “McDonald´s: Maus tratos e superexploração”, o jornal, impresso, Brasil de fato traz uma “reportagem sobre a superexploração e maus tratos que sofrem os jovens e adolescentes na maior rede fastfood do mundo”.

Em alguns depoimentos de jovens trabalhadores atendentes da rede de fastfood referida, o jornal em sua versão virtual, nos direciona a um fenômeno social contemporâneo que é a exploração do trabalho afetivo. Este faz parte do que podemos chamar de trabalho imaterial.

TRABALHO AFETIVO: UM DOS ASPECTOS DO TRABALHO IMATERIAL

Neste novo tipo de trabalho a produção, a reprodução e distribuição não se limitam mais somente a materialidade de objetos ou mercadorias concretas, mas a produção, reprodução e distribuição de comunicação, linguangens, informações e conhecimento. É óbvio que o trabalho imaterial não significa que a materialidade necessária ao trabalho, como sua contextualização histórica e a atividade conjugada de nossos corpos e nossos cérebros, torne-se obsoletos.

Trata-se antes de compreender qual é o produto deste tipo de trabalho. Seu produto é sua própria imaterialidade, pois, agora nesta nova configuração do mundo do trabalho, não é apenas as mercadorias que refletem as atividades laborais, mas cria novas relações pessoais, produz conhecimento, engendra símbolos, compartilha linguagens, desenvolve novas formas de comunicação e atua sobre a própria produção da vida social em suas múltiplas facetas.

Esta nova concepção do trabalho levanta alguns problemas de ordem econômica. Como sua estrutura se caracteriza pelo aquilo que alguns economistas classificam como pós-fordismo, sua organização se diferencia da disciplina da fábrica tanto no controle das atividades dos operários como nas formas de instalação, permanência e distribuição do espaço-temporal.

Torna-se característico do pós-fordismo atividades flexíveis, pois não há uma única tarefa que domine o mercado pós-fordista, mas várias; móveis, pois os trabalhadores não permanecem por muito tempo no mesmo emprego; precário, pois não há contratos que assegurem a estabilidade do emprego.

Neste sentido, há uma série de discussões a respeito do trabalho imaterial ou pós-fordista que declinam para a opinião de que ele solapa os direitos conquistados dos trabalhadores, bem como aqueles que o defendem, faze-o por motivações políticas. Assim é a critica do sociólogo Ricardo Antunes.

Contudo, algo que, indubitavelmente, surge com as mudanças das atividades laborais no capitalismo é a forma de acumulação do capital e os modos pelos quais o capitalismo continua sua empreitada de guerra em busca de saciar sua sede de lucro. Como diz David Harvey, há uma “acumulação flexível” que

“é marcada por um confronto direto com a rigidez do fordismo. Ela se apóia na flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados de trabalho, dos produtos e padrões de consumo. Caracteriza-se pelo surgimento de setores de produção inteiramente novos, novas maneiras de fornecimento de serviços financeiros, novos mercados e, sobretudo, taxas altamente intensificadas de inovação comercial, tecnológica e organizacional” (Condição Pós-Moderna).

Podemos então compreender duas formas fundamentais deste trabalho, segundo Michel Hardt e Antonio Negri no livro “Multidão: guerra e democracia na era do Império”. De acordo com esses autores o trabalho imaterial tem uma primeira forma que é a intelectual ou lingüística. “Esse tipo de trabalho imaterial produz idéias, símbolos, códigos, textos, formas lingüísticas, imagens e outros produtos do gênero”.

A segunda forma é “o trabalho afetivo”. Este “é o trabalho que produz ou manipula afetos como a sensação de bem-estar, tranqüilidade, satisfação, excitação ou paixão. Podemos identificar o trabalho afetivo, por exemplo, no trabalho de assessores jurídicos, comissários de bordo e atendentes de lanchonete (serviço com sorriso)”.

TRABALHO AFETIVO: A EXPLORAÇÃO COM UM SORRISO ESTAMPADO

O trabalho imaterial é marcado por uma forte produção biopolítica. Isto significa que este tipo de trabalho não apenas tem como efeito um produto que é sua imaterialidade, mas que ele produz, reproduz e distribui a própria vida social, portanto, produz subjetividades. Se o valor em Marx é caracterizado pelo tempo de trabalho presente em cada mercadoria, nas atividades do trabalho imaterial esta mensuração já não determina o valor do trabalho.

Agora que a própria vida é produzida através do trabalho, nos vários cantos do mundo de formas flexíveis, móveis e muitas vezes precárias, o valor é a cooperação, a riqueza social criada, o conhecimento criado pelo conhecimento, as múltiplas singularidades que se movimentam como elementos constitutivos da multidão que preserva as diferenças diferentes.

Contudo, não se trata de entender essas singularidades como individualidades que possuindo uma identidade fixa possam se diferenciar dos outros por oposição, hierarquia, representação ou se assemelhar através de analogias, classificações ou imagens refletidas do senso comum. Ao contrário, estas singularidades são a produção das práticas de si que impedem que o sujeito seja apenas o produto de um todo definido alheio à sua vontade.

Portanto, o valor no trabalho imaterial é o Comum. E o Comum atravessa todas as fases da produção imaterial, pois nossa comunicação, nossas imagens, nossa linguagem, nossos afetos são comungados por todos; a inteligência é coletiva. Deste modo, enquanto no trabalho material, prioritariamente, a exploração se dá pela expropriação do tempo excedente de trabalho do trabalhador que trabalha tempo a mais do que o necessário para somar seu salário, ficando este tempo a mais para o patrão, como forma de lucro (mais-valia), no trabalho imaterial o que é expropriado é a própria produção Comum da vida social.

Mas sabemos que o capital não se apropria de tudo do Comum. Vejamos um exemplo bastante evidente, justamente, nas redes de fastfood, em especial na Mc Donald’s. Tornou-se algo natural nessas empresas investir na personalidade e comportamento “pró-social” de seus funcionários. Eles devem ser educados, práticos, discretos, aceitarem desafios, metas, ter um traquejo social que os aproxime cada vez mais dos clientes, mas sem perderem a compostura e a certeza de que estão ali para servir.

Tudo isso coloca o funcionário, afetivamente, manipulado por seus superiores. Daí compreendermos que o capital mais do que acumulação também se baseia em uma relação entre os que comandam e os que obedecem. Estes funcionários devem ter suas afetividades moduladas para entrarem nessa relação de dominação como comandados. Suas afetividades domesticadas refletem uma consciência do estilo da metafísica cartesiana, ou seja, surgem não a partir de práticas que construam a personalidade, o comportamento e etc., do sujeito a partir de si mesmo, mas sim a partir do cogitan que corresponde a um eu soberano maior do que qualquer outro, individual, pensante, comandante.

Vejamos então o caso do sorriso. Todos os atendentes de lanchonete (mas também de vários outros locais como parques temáticos, entre outros) devem oferecer um serviço com um sorriso estampado no rosto. Este sorriso é treinado, marcado, calculado e determinado. Quando falamos que o capital não captura por completo o comum é porque o sorriso não pode ser por completo capturado pelo capital. Os fluxos de desejo que criam o sorriso, o que me leva a estampar o sorriso para “melhor” servir, não pode ser capturado.

Talvez não aja nada mais Comum que o sorriso. Todos sorrimos. Mas não se trata de quantidade. Mas de intensidade: nossos sorrisos surgem como produção, reprodução, distribuição de afetos, engendramentos, criações, repetições de tudo aquilo que comungamos juntos na vida social. O sorriso é social, tanto que sempre está junto no chamamento da construção do mundo social. O sorriso é biopolítico.

Mas eis que na Mac Donald’s o sorriso surge como um afeto manipulado e como uma forma de exploração, pois, o sorriso deve continuar estampado mesmo que:

“Uma vez eu estava com uma bandeja cheia de lanches prontos para serem entregues e escorreguei. Quando ia caindo no chão, meu coordenador viu, segurou a bandeja, me deixou cair e disse: ‘primeiro o rendimento, depois o funcionário’”, conta Kelly, que trabalhou na rede de restaurantes fast food McDonald´s por cinco meses.

“Lá você não pode ficar parado, se sentar leva bronca”, relata Lúcio, de 16 anos, que há 4 meses trabalha em uma das lojas da rede na cidade de São Paulo. “Você não tem tempo nem para beber água direito”, completa José, de 17 anos. “Uma vez eu queimei a mão, falei para a fiscal e ela disse para eu continuar trabalhando”, lembra o adolescente. Maria, de 16 anos, ainda afirma que, apesar da intensa jornada de trabalho nos restaurantes, recebe apenas R$ 2,38 por hora trabalhada.”

“Os relatos acima retratam o dia-a-dia dos funcionários do McDonald´s. Assédio moral, falta de comunicação de acidentes de trabalho, ausência de condições mínimas de conforto para os trabalhadores, extensão da jornada de trabalho além do permitido por lei e fornecimento de alimentação inadequada são algumas das irregularidades apontadas por trabalhadores da maior rede de fast food do mundo.”.

Nada disso é colocado quando o bom e querido “palhaço” da Mc Donald’s nos sorri na TV mostrando os brinquedos como brindes em cada compra, nem quando a coca-cola nos diz para sermos felizes, nem quando…

Mesmo, sendo mais do que evidente a exploração no trabalho biopolítico, compreendemos que a biopolítica também pode ser a produção de novas subjetividades que podem ser reproduzidas e distribuídas onde a vida social seja inteiramente confiada ao Comum. Mas isso se trata de outro texto.

Governo quer implantar banda larga por menos de R$ 30 em até quatro anos

04/02/2011 17:15 – Portal Brasil

O governo federal quer massificar, em até quatro anos, o acesso da população à internet em alta velocidade, por meio do Plano Nacional de Banda Larga (PNBL). A intenção é oferecer um serviço de qualidade a preços na faixa dos R$ 35 nos estados que cobrarem Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Nos que abrirem mão do imposto, a banda larga poderá custar até menos de R$ 30.

A informação foi dada pelo ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, em entrevista ao programa Bom Dia Ministro, transmitido pela NBR TV nesta sexta-feira (4). De acordo com o ministro, 34% de lares brasileiros estão conectados à Internet, segundo dados divulgados em 2010. O governo que utilizar a infraestrutrua já disponível no País para baratear o acesso e ampliar esse percentual.

Ao mesmo tempo, o governo trabalha para ampliar a rede de cabos de fibra ótica em todo o Brasil, para chegar a um nível próximo da universalização do serviço, como ocorre nos países tecnologicamente mais avançados em internet. “É nisso que estamos trabalhando”, afirmou ele. Bernardo admitiu que, no estágio atual, o Brasil “está meio correndo atrás” uma vez que países como Coreia do Sul, Japão e Estados Unidos, entre outros, possuem infraestrutura que asseguram um serviço mais veloz e a preços mais acessíveis.

Produtos

Além de buscar baratear o serviço, Paulo Bernardo também que facilitar o acesso da população aos produtos eletrônicos conectados à web. Ele já está discutindo com representantes da Associação Brasileira da Indústria Eletroeletrônica (Abinee) a redução dos valores dos chamados tablets – computadores de prancheta de acesso à internet, como o Ipad.

O ministro informou que o governo está revendo sua política industrial, inclusive com relação ao pagamento dos tributos, e poderá dar isenção fiscais aos fabricantes destes equipamentos.

Paulo Bernardo lembrou o exemplo do programa de isenções de impostos dado há poucos anos aos fabricantes de desktops e notebooks – e que resultou na produção e venda de mais 14 milhões de computadores no Brasil apenas em 2010. A idéia agora é incluir os tablets no programa de isenções, para baratear o preço destes produtos.

Ouça a íntegra da entrevista do ministro Paulo Bernardo.

Fonte:
Agência Brasil
Blog do Planalto

HASHTAGS NÃO DERRUBAM GOVERNOS – POR TIAGO DÓRIA

HASHTAGS NÃO DERRUBAM GOVERNOS

Tiago Dória

Acreditar que a internet, por si só, fortalece a democracia é uma ideia tão simplória quanto achar que a queda de um governo autoritário sempre dá lugar a um democrático.

E mais, ao contrário do consenso geral, governos totalitários perceberam que o mundo mudou. Notaram que estão em um mundo de abundância de informação e que bloquear urls é coisa do passado. Hoje, usam formas bem mais sutis de censurar as vozes dissidentes.

Nessa história toda, o governo do Egito é uma exceção. Percebeu muito tarde que é mais eficiente monitorar a internet a bloquear o seu acesso.

A melhor forma de censurar a internet é não a censurar, explica o pesquisador em política e internet Evgeny Morozov, em seu polêmico e recém-lançado livro The Net Delusion (432 páginas/Editora PublicAffairs).

A leitura do livro de Morozov chegou em boa hora para mim. Não apenas por que o autor está presente na mídia, ficando assim mais fácil acompanhar a sua linha de pensamento, mas também por Net Delusion funcionar como um contraponto necessário em meio à certa histeria sobre o papel da internet nos recentes conflitos no Egito.

Segundo Morozov, nossa noção de censura na internet ainda tem como base a ideia de “bloquear/não bloquear”, lógica que, a rigor, não faz mais sentido hoje em dia. Cada vez mais, governos como os da China, Irã e Síria estão respondendo à internet de maneira diferente, utilizando-a em seu favor, para fortalecer os seus governos.

O que é natural acontecer, pois quando a censura à rede se torna impraticável ou politicamente indefensável, governos autoritários passam a usá-la para propaganda ou, em casos mais extremos, como uma ferramenta de monitoramento da população.

Um exemplo dessa mudança de postura é o venezuelano Hugo Chavez, que até abril de 2010 considerava a internet e o Twitter “ferramentas terroristas contra-revolucionárias dos EUA”. Mas, depois, ao perceber o potencial da internet para promoção pessoal e propaganda de seu governo, passou a aceitá-la, chegando a montar um perfil no Twitter.

Do mesmo modo, censurar blogs está virando coisa do passado na China e no Irã. É mais negócio criar um exército de blogueiros pró-governo e contratar pessoas para entupir blogs e redes de microblogs com perfis falsos e comentários a favor do governo (50 Cent Party).

Os efeitos são parecidos. E o objetivo é sufocar a oposição na web por meio de uma avalanche de conteúdo. Combater conteúdo com conteúdo e não com escassez de informações.

Não é sem motivos que os governos da China e do Irã estão por trás de investimentos em diversos sites e blogs de gosto duvidoso, que, claro, apóiam os respectivos governos.

Para os olhos internacionais é uma solução amigável, mantém-se uma aparência de liberalização; mas, na verdade, sufoca as vozes dissidentes no plano interno.

“Terceirizar a censura” também tem se tornado prática comum. Forçar as empresas de internet a se autocensurar ou, aceitando a censura oficial, praticá-la diretamente. Vide a Google forçada a filtrar resultados da busca na China, em 2009.  Empresas internacionais oferecem resistência a essa prática, mas com medo de perderem mercado acabam cedendo. Com empresas locais não há com o que se preocupar. Muitas recebem subsídios estatais e acatam as ordens.

Conforme Morozov, isso é um problema, pois em muitos países totalitários há preferência pela utilização de serviços locais.

Uma das novas formas mais simples de sufocar as vozes dissidentes é justamente se aproveitar das características da web, como a descentralização. Em ambientes descentralizados é bem mais fácil espalhar boatos.

Durante os protestos em Teerã, em 2009, por exemplo, o governo iraniano usou o Twitter para propagar boatos e dessa maneira colocar a população em pânico e passar uma visão de que os protestos não eram tão populares.  Enquanto a imprensa no Ocidente glorificava o papel do Twitter, ativistas no país pediam que não se usasse o serviço de microblogging como fonte de informação, devido à enorme quantidade de boatos.

Ainda durante os mesmos conflitos, o governo iraniano colocou no ar um site com fotos dos protestos e pediu que a população ajudasse a identificar as pessoas nas imagens. Crowdsourcing a favor da repressão.

O que Morozov mais destaca é o quanto os governos estão percebendo o enorme valor das informações publicadas  espontaneamente nas redes sociais. Nisso, o monitoramento desses espaços é constante.

Informações que, antigamente, os serviços secretos do Irã e da China demoravam dias para filtrar, hoje facilmente podem ser encontradas nessas plataformas.

Com a onda do botão “curtir” no Facebook então, a navegação ficou menos anônima. Basta entrar no perfil de uma pessoa para saber por onde ela andou navegando (ou “curtindo”) nos últimos dias. Na Síria, já se fala que o Facebook é um grande banco de dados para o governo.

Em janeiro de 2010, Ahmadi Maghaddam, chefe da polícia iraniana, disse que “as novas tecnologias permitem identificar conspiradores sem a necessidade de controlar individualmente cada pessoa”

E, no próprio Egito, na semana passada, ativistas da oposição orientaram as pessoas a parar de utilizar o Facebook e o Twitter e  priorizar o email, mais difícil de ser monitorado.

O governo da China, por sua vez, já está flertando com técnicas de data mining para analisar tendências em um nível macro nas redes sociais.

Por isso, na visão de Morozov, ao contrário do que os fundadores do Facebook e do Twitter dão a entender, as plataformas de redes sociais são uma faca de dois gumes para quem é dissidente.

Por um lado, dá mais visibilidade internacional. Mas, por outro, deixa mais vulnerável quem as utiliza.

É comum as pessoas serem presas no Irã, Nigéria e China com base em informações publicadas em seus perfis em redes sociais.

Em suma, Morozov mostra o que as “Wireds” e os “Mashables da vida” não costumam revelar – o lado B da internet, o que acontece quando a rede é utilizada para fortalecer a propaganda, censurar e vigiar a população em governos autoritários.

Por tal motivo, o pesquisador acredita que a internet não é inerentemente democrática. Tudo depende em qual contexto a tecnologia é usada. Em um país que tem uma base política e cultural democrática, ela tenderá a ser usada para fortalecer a democracia. Em um país que não possui nada disso,  ela poderá reforçar o autoritarismo.

Enfim, para compreender o raciocínio de Morozov é necessário entender que ele vai contra o chamado “determinismo tecnológico”, linha de pensamento atual muito comum. Para o pesquisador, é a política, e principalmente a cultura e a economia, que moldam como usaremos uma tecnologia, e não o contrário. A internet não é algo autônomo, com vida própria e acima dos indivíduos. Ela, na verdade, está inserida dentro de um contexto que define os seus usos e os seus efeitos na sociedade.

E é exatamente essa visão que dá combustível para Morozov criticar a recente política externa americana, que, segundo ele, assume uma postura errada ao posicionar a internet como solução para todos os males e ao utilizar Facebook, Google e Twitter como ferramentas dessa política (vide a última capa da Foreign Affairs sobre o “poder político das mídias sociais” e os últimos discursos de Barack Obama e Hillary Clinton).

Morozov entende que essa politização da Web 2.0 mais atrapalha do que ajuda. Quanto mais Facebook, Twitter e Google forem vistos como ferramentas da política externa americana, maior o risco de serem censurados em países com governos ditatoriais.

Além disso, para Morozov, esse tipo de política é simplória, pois, no desejo de tornar menos complexo o discurso (internet vs ditaduras), acaba tentando resolver um problema político, cultural e econômico (governos autoritários) com uma solução tecnológica (acesso a Twitter e Facebook).

Ou seja, trata um grande problema como se fosse pequeno.

O pesquisador acredita que, em parte,  isso acontece por que a política externa americana ainda é pautada por padrões da Guerra Fria – quanto mais acesso à informação, pior para governos autoritários. Tipo de leitura que o pesquisador considera imprecisa, mas presente em todas as análises sobre a internet, principalmente nas produzidas pela imprensa ocidental.

Nem sempre acesso à informação torna as pessoas mais politizadas. Na China, a maioria dos usuários usa a rede para baixar filmes pirateados dos EUA e não para acessar informações políticas. Na Rússia, os blogs mais visitados não são os políticos. Pelo contrário, são os de humor e sexo.

Na Alemanha Oriental, as poucas pessoas que tinham acesso a redes de TV ocidentais usavam-nas, principalmente, para assistir seriados como Dallas e Miami Vice. (Até hoje, nos círculos de pensadores americanos, acredita-se que o Muro de Berlim caiu por causa da TV e não em razão de um processo, fruto de anos de descontentamento político e econômico).

Um dos muitos destaques de Net Delusion se dá quando Morozov analisa por que, muitas vezes, o ativismo facilitado pelas redes sociais faz muito barulho, mas resulta em quase nada. Haja vista aqui, no Brasil, o #forasarney (Sarney está mais presente do que nunca na política brasileira).

É interessante essa parte do livro, pois Morozov fala da sua própria experiência. O autor acompanhou de perto o ativismo online na Bielorrússia, sua terra natal.

Segundo ele, existem exceções, mas muitas vezes esse tipo de ciberativismo não apresenta resultados, visto que se preocupa muito com a mobilização (juntar seguidores no Twitter e amigos no Facebook) e pouco com a ação (depois de conseguir 10 mil seguidores e fãs na página do Facebook, o que vai fazer? Enviar spam com conteúdo político para todo mundo?).

A capacidade de mobilizar ainda está encantando os ciberativistas, embora a capacidade de agir seja bem mais importante.

Outra questão exposta é a de que, na maioria das vezes, esse tipo de ativismo acontece por motivos que nada têm a ver com ideais ou causas políticas, mas sobretudo para impressionar os amigos e criar uma identidade online. A rede social favorece isso. Vou participar por que os meus amigos estão participando. Vou participar para mostrar que não sou alienado, e não falo apenas bobagens no Twitter.

Para Morozov (foto acima), o resultado é uma baixa taxa de comprometimento e uma alta quantidade de participantes. Combinação nociva para qualquer movimento.

Quanto maior o grupo, menor a pressão para apresentar resultados (se eu não fizer nada, ninguém vai perceber já que tem tanta gente mesmo). Ou seja, se não existem meios de mensurar a participação de cada em um movimento, os efeitos são mínimos.

Por essa razão,  nas plataformas de redes sociais, é muito fácil você “fazer a sua parte”, basta usar uma hashtag, mudar a cor da foto em seu perfil, e pronto!

De acordo com o pesquisador, revoluções exigem 3 coisas – disciplina, líderes e comprometimento. E isso você não encontra nas redes sociais que nivelam todo mundo na horizontal.

Em questão de segundos e de forma indolor, você pode deixar de apoiar uma causa no Facebook, sem qualquer comprometimento ou remorso. As plataformas de redes sociais são um dos poucos ambientes onde, ao mesmo tempo, você pode apoiar todas ou nenhuma causa, conclui Morozov.

Pelo que tenho percebido, por tratar de temas polêmicos,  Net Delusion caminha para o mesmo fim de Free, de Chris Anderson – tornar-se um livro mal compreendido.

Em nenhum momento, Morozov afirma que a internet não tem capacidade de fortalecer a democracia. Pelo contrário, ele acredita que os dissidentes devem sim utilizar Twitter e Facebook, mas desde que estejam familiarizados com os riscos. A tecnologia de “cloud computing”, por exemplo,  é algo que Morozov acredita estar ajudando os opositores.

Em essência, o livro não vai de encontro a este ou aquele país, mas sim contra o “determinismo tecnológico” (de achar que a internet tem um papel determinante em tudo). Para Morozov, essa linha de pensamento pode ter efeitos nocivos para a democracia, ao tentar resolver problemas que são muito mais sociais, culturais e econômicos com uma mera solução tecnológica.

Esse “determinismo” estaria afastando-nos das questões essenciais, como a de que governos autoritários morrem por causa de problemas políticos e econômicos. Em regra, se a economia está boa, dificilmente um governo cai.

Para quem é da área de tecnologia, Net Delusion tem uma lição sutil e interessante.

Constitui um erro descontextualizar uma tecnologia, quando se analisa seus efeitos e seu poder de gerar mudanças. Em certos contextos, algumas tecnologias podem causar mais efeitos, e outros, não.

Muitas vezes, por acharmos que uma tecnologia é autônoma, com vida própria, não compreendemos por que ela dá resultados em uma empresa e em outras não. Por que os blogs em alguns países servem mais para polarizar do que informar. Por que uma “ação genial” dá certo com um cliente e com outro não. Por que a internet fortalece a democracia em alguns países, ao contrário de outros.

Não é por que uma tecnologia produziu um efeito em um dado ambiente que, necessariamente, ele se reproduzirá em outros. Enfim, o que define os efeitos de uma tecnologia é o contexto no qual ela é utilizada, e não “poderes mágicos”  que supostamente lhe sejam atribuídos.

Compreender isso é importante para utilizar a internet não somente com fins comerciais, mas também como meio efetivo de fortalecimento da democracia.