PIOR ESCOLA DO BRASIL NO ENEM É TRABALHO DO GOVERNO DO AMAZONAS

Do D24Am.com:

Manaus – O Amazonas tem a escola com a pior nota no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2009, segundo os dados divulgados na madrugada desta segunda-feira pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), do Ministério da Educação (MEC).

Localizada na zona rural do município de Santo Antônio do Içá, no Alto Solimões, a Escola Estadual Indígena Dom Pedro I obteve 249,25 pontos no Enem 2009, bem abaixo da média de 500 pontos definida pelo Inep. Na avaliação de 2008, a Escola Estadual Indígena Cacique Manuel Florentino Mecuracu, de Benjamin Constant, ficou com a terceira pior nota da avaliação.

Foram avaliados no Amazonas 22,6 mil estudantes das 433 escolas que oferecem o Ensino Médio Regular ou Educação de Jovens e Adultos (EJA), em 2009. Destas, 339 tiveram as notas divulgadas, seguindo uma série de critérios adotados pelo Inep, que em 2009 reformulou a metodologia do Enem, criado em 1998 para avaliar o desempenho do estudante ao fim da escolaridade básica. Desde o ano passado, o exame passou a ser utilizado para ingresso em universidades federais e acesso às bolsas do ProUni.

Das 20 escolas com as piores notas no ranking nacional, três são da rede pública estadual do Amazonas, uma localizada em Coari, a Escola Estadual Dom Mário (361,28), e outra em Maués, o Centro de Ensino Médio Mediado por Tecnologia Rural (363,05).

No ranking estadual, a rede particular de ensino mantém a liderança da avaliação. Das 20 escolas do Estado com as melhores notas, 16 são particulares e quatro federais, sendo duas localizadas em municípios do interior do Estado. Em 2008, eram três federais e uma estadual, o Colégio Militar da Polícia Militar, que caiu da 17ª para a 24ª posição.

Os dois primeiros colocados no Enem 2009 são da rede Lato Sensu. Com 692,24 pontos, o Centro Educacional Lato Senso 2 subiu quatro posições em relação a 2008 e obteve a melhor nota do Estado, tirando a liderança do Centro Educacional Lato Sensu, que ficou em segundo, com 675,95 pontos.

Segunda colocada no Enem de 2008, a Fundação Nokia ficou na terceira posição em 2009, com 666,22 pontos. Em quarto, está o Colégio Militar de Manaus, da rede federal, com 658,59 pontos, que também caiu uma posição em relação à avaliação anterior.

O Colégio Nossa Senhora do Rosário, localizado no município de Itacoatiara (a 286 quilômetros de Manaus) alcançou 657,96 pontos, subiu uma posição e agora é a quinta escola particular do Estado com a melhor nota do exame. Além de Itacoatiara, o Instituto Adventista Agro Industrial, em Rio Preto da Eva, ficou na 20ª posição no Enem 2009, com 595,36 pontos.

PEQUENA SEMIOLOGIA DA PROPAGANDA ELEITORAL DE OMAR

 

A foto é do Blog da Floresta:

Quando a imagem nega o texto, é isso que acontece. O Avança Amazonas carrega o ranço desenvolvimentista do tempo da ditadura, onde confundia-se desenvolvimento econômico e social com obreirismo gratuito. Esquecendo que uma obra não significa desenvolvimento em si, mas só funciona nesse sentido quando está engendrada numa práxis de movimento produtivo dos habitantes da cidade. O PAC, no Amazonas, graças ao orgulhoso governo estadual, empacou.

O rosto dos candidatos, no entanto – e aí, Dilma inadvertidamente envolvida, já que claramente apóia outro candidato que não o do governador – mostram a realidade do estado do Amazonas.

Omar, desgastado, desgostado, cansado, triste, desesperado, a imagem do desânimo.

Braga expressa o terror de quem aponta a um inimigo ou uma ameaça terrível, vindo à frente.

No rosto, não a característica psicológica, mas os signos daquilo que eles produziram  para si enquanto realidade: a falseação da política como a negação da vida.

Provavelmente o que os desgosta, sem que eles próprios saibam, é o quadro político-eleitoral que eles mesmos pintaram para o Amazonas.

POLIDIZERES

*** Propaganda Nada Liminar ***

Se a Rede Globo acredita convencer os telespectadores de que a sua campanha veio antes da campanha serrista, apenas confirma que o seu grau de capacidade sintética e de inteligência é rudimentar, e semelhante ao que eles crêem ser o de seus admiradores: o estereótipo Bonner-Simpson. As referências diretas permitiriam perceber o engôdo. Mais ainda, se a memória não cedeu à velocidade do consumo, e recorda que a emissora sempre esteve ao lado da direita, fosse ela a ditadura militar, fosse ela o tucanato travestido de social-democracia. No entanto, o que a emissora não esperava fosse a reação de seus próprios comandados. Segundo o blog do Marco Aurélio Mello (não o ministro!), um ator global, participante da campanha com modestas duas palavras, ameaçou ir à público denunciar a manipulação, caso a peça não fosse retirada. A Globo, mesmo com a empáfia de sempre, teve de engolir a ameaça do ator, que a despeito de sua consciência política, vota no candidato da emissora. Evidência de que até dos recônditos de um buraco-negro, pode-se esperar um rastro de luz que faça linha de fuga à força gravitacional. No entanto, fica o aviso: alguém precisa de evidência maior que essa de que a Globo faz mal à saúde pública?

*** Dos Equívocos da Razão ***

Serra, igualmente global, também crê na revolução do Homer Simpson, que o aclamará presidente do Brazil. Ao falar sobre Dilma, ele teria afirmado que nem sempre o sucessor repete o sucesso do antecessor, e comparou a indicação de Dilma, por Lula, a de Maluf, por Pitta, anos atrás. Equívoco de quem crê na operação cognitiva de reconhecimento da imagem. Nada de novo advém à inteligência porque a consciência é tomada pelas velhas imagens. Operação cada vez mais presente, por exemplo, na estética televisiva, onde o ícone é o signo predominante, com sua relação direta e sem necessidade de trabalho intelectual. Ficar preso a esse equívoco cognitivo, até é compreensível. O que é ruim à democracia é Serra cometê-lo e achar que o povo brasileiro vai segui-lo. Primeiro, porque Lula não é Maluf, e Dilma não é Pitta, como elas mesmo reiterou, respondendo ao candidato PSDBista: “É uma constatação, por assim dizer, óbvia”. Segundo, porque basta colocar a consciência para trabalhar, afastando as imagens-clichê, para perceber que o governo Lula não se reduz ao Lula, e tem participação de quadros competentes do país inteiro, incluindo Dilma, que assumiu em meio a uma tormenta midiática, e soube navegar com eficiência e competência. Daí o povo ver o que Serra (e o Datafolha) não vêem. Dilma não é Lula, mas é governo.

*** Nova Ordem, Velhas Práticas ***

Costurado entra vários governos nacionais, e fomentado pela indústria, o ACTA, Acordo Comercial Anti-Falsificação, foi esboçado enquanto documento no último 25 de março, pelo governo Obama. Ele se constitui como uma iniciativa plurigovernamental para adaptar a ordem tecnológica de transmissão de dados via internet aos velhos códigos da propriedade privada. Assim, transmissões de informações seriam previamente censuradas, e usuários que baixassem ou disponibilizassem conteúdo, mesmo sendo copyleft (sem direitos requeridos de propriedade), seriam criminalizados. Isso porque o sistema não se reduz ao controle de redes de distribuição que visam o lucro, mas qualquer rede significativamente grande de troca de informações. Se aprovado nessas condições, o acordo poderá trazer malefícios como o fim dos medicamentos genéricos, a criminalização da produção de software livre, o enfraquecimento do processo de fortalecimento econômico dos países do eixo Sul-Oriental (incluindo os BRIC’s), e até mesmo ameaçar empresas como o Google. Trata-se de submeter uma ordem tecnológica que atua sob uma semiótica diferente daquela que estabelece a propriedade privada no capitalismo, a este ordenamento. Surpreendente que Obama, por exemplo, eleito graças à rede mundial de computadores e sua circulação livre de informação, participe deste tipo de iniciativa. Mais uma evidência de que os governos não governam para quem os elege, mas para quem os financia. 

*** Contradições entre Homem e Deus ***

Diz-se que a Lei de Deus alcança até onde a Lei dos Homens não vai. Serve de consolo aos desabonados pela lei humana que aqueles que escapam de sua jurisdição, não escaparão ao tribunal divino. Mas e quando a lei humana expõe a contradição entre criador e criatura? No Rio de Janeiro, o pixador do Cristo Redentor entregou-se e revelou-se arrependido. O que é, na lei divina, primeiro passo para a remissão dos pecados, e o perdão. Bastaria ao pixador uma penitência, a ser paga em prestações oracionais, em foma de aves-maria e padres-nossos. No entanto, o delegado que investiga o caso já afirmou que ele não escapará ao tribunal humano. Onde fica, nesse caso, a superioridade de alcance e importância da Lei de Deus sobre a finitude do conhecimento humano?

*** Praciano/Zé Ricardo, e o velho PT ***

Nem de longe se pode afirmar que o deputado federal Francisco Praciano e o vereador José Ricardo Wendling, ambos do PT, fazem parte do segmento “quero mais é se dar bem”. No entanto, parece que eles serão o desequilíbrio da balança, na disputa interna do partido, no apoio a Omar ou Alfredo Nascimento. Praça e Zé, dois que vieram do povo, e jamais se desligaram dele, exatamente como o PT também é movimento social nascido do povo, a despeito da atuação fisiológica de parte de seus membros,  sabem que é uma falsa dualidade. Tanto Omar quanto Alfredo carregam os mesmos códigos, e vem de um mesmo rastro histórico de gestões antidemocráticas na cidade de Manaus e no Estado do Amazonas. Praça e Zé sabem disso, e sabem que só há uma escolha a fazer. Escolher o PT. Para azar do outro PT, o de Omar, e o de Alfredo.

*** De Volta às Botas! ***

Agripino Maia, DEM, e Eduardo ‘Mensalão Mineiro’ Azeredo, PSDB, dizem ser ridícula a política externa brasileira. Criticam a posição brasileira de dialogar com o Irã, enquanto EUA e Rússia defendem sanções a um país que faz o que eles fizeram décadas atrás. Criticam a postura de Lula, em questionar abertamente posições dos países desenvolvidos, o que é absolutamente natural, considerando que política externa, para esses países, é obediência dos outros aos seus interesses, e o interesse do governo Lula é ter independência. Em outras palavras, para Agripino e Azeredo, a língua do Brasil não está mais onde deveria: nas botas dos americanos.

POLIDIZERES

ENUNCIAÇÕES MENORES DE UMA POLÍTICA – QUASE SEMPRE – MAIOR

*** Síntese Imagética ***

Se para a publicidade, uma imagem vale mais que mil palavras, na política, mais que na transpolítica, ela tem o valor de desvelar um óbvio que quase sempre fica embotado na cortina de fumaça da superexposição informativa. Assim, o vídeo que mostra o ex-presidente Bush Jr, limpando as mãos deliberadamente na camisa do também ex-presidente Bill Clinton, depois de apertar a mão de um haitiano, é reveladora. Mostra que a relação promíscua entre Republicanos e Democratas nos States é opositiva apenas na aparência. Histórica e politicamente, os dois se ocupam em tentar manter os ricos e pobres de lados diferentes da barricada. E limpar a sujeira (e o sangue, muito sangue!) das mãos, uns nos outros.

*** Autonomia Comunista ***

Nota de jornal diz que o comunista Eron Bezerra teria afirmado que sua gestão frente à Sepror (Secretaria Estadual de Produção Rural) fora conduzida de forma autônoma. Com isso, quis dizer que seu chefe, o governador Eduardo Braga, popularmente, Dr. B., não teve influência ou culpa sobre a gestão da pasta. Dois entendimentos saltam desta declaração: um, o espírito de subalternidade que caracteriza o secretariado braguiano, ao assumir para si o demérito de, oito anos depois, o Amazonas ainda importar praticamente todos os seus produtos de primeira necessidade, e ainda amargar pagar quase dez reais o quilo da farinha, vinda do Grão-Pará. Outro, o desentendimento acerca do que seja autonomia, ignorando que ela não é concedida por outrem, mas conquistada a partir do uso da razão, donde as produções são efeitos de causa própria, e não exógena. Mais ou menos como uma sociedade comunista de verdade, para ficar didaticamente mais fácil ao entendimento do camarada Eron…

*** Filme não é Cinema ***

E o Dr. B., governador em fim de mandato e futuro candidato ao senado, ouviu um ‘não’ do cineasta e ambientalista James Cameron, ao seu pedido de que a sequência do filme Avatar fosse filmada na Amazônia. Cameron lembrou a nossa versão local de Schwarzenegger que colocar uma estrutura de filmagem dentro da floresta causaria sérios danos ambientais, e que a segunda sequência seguirá a primeira, com os cenários todos criados em computação gráfica. Nada de cinema, portanto. O que Braga não sabe é que nos anos 70 e começo dos 80, o cinegrafista Werner Herzog embrenhou-se na Amazônia para filmar os clássicos Aguirre e Fitzcarraldo. De Herzog a Cameron, seria uma quede vertiginosa na escala cinematográfica para a terrinha…

*** Uma Falsa Questão ***

Um problema só emerge quando as condições materiais para a sua resolução estão maduras o suficiente para que possam aparecer a uma análise crítica. É menos um enigma que a evidenciação de um estado de coisas. Assim, é um equívoco – intencional – acreditar poder-se enredar Lula nos conchavos da direita internacional, envolvendo a blogueira Yoani Sánchez, que quer vir ao Brasil e pede a intervenção do presidente junto ao governo cubano. Primeiro, por se tratar de uma questão de soberania: é da alçada dos governos reativos (c0mo o dos EUA, por exemplo), interferir nas decisões governamentais alheias. Coisa que a política externa do governo Lula não fez até hoje. Segundo porque a questão em si é um falso problema: pelas conexões internéticas que Yoani faz em seu PC, direto de Havana, enredada numa semiótica da imobilidade, liberdade parece ser a mais remota de suas preocupações.

A ‘Magrela’, o Público, e a Moral Heteronômica do Governo do Estado

Quando a gente vê os índices indecorosos da educação no Amazonas, sempre e sempre ocupando heroicamente os últimos lugares do ranking brasileiro, em qualquer modalidade, quase uma espécie de Estados Unidos nas Olimpíadas do Vexame Governamental, pensamos que a falência da educação numa cidade se reduz à má gestão do seu aparelho educacional.

E esquecemos que, na ordem cronológica, o ensino e a educação nasceram primeiro que o controle estatal sobre os saberes.

Existem zil evidências do quanto um governo é especialista em produzir nós invisíveis que fazem com que os microfascismos cotidianos se fortaleçam e se disseminem. Um leitor deste Poli nos relatou um ocorrido nesta tarde que demonstra bem o que queremos mostrar.

Esteve ele na tarde desta segunda-feira nos parques públicos Largo Mestre Chico e Parque Jeferson Peres, com sua bicicleta, para um passeio. Ao chegar pedalando ao primeiro parque, foi literamente “enquadrado” pela segurança do local, que se aproximou aos apitos, segurou a bicicleta pelo guidão, e disse que, pedaladas, somente no “espaço destinado” para tal atividade. O espaço é uma “ciclovia”, de ida e volta, com pouco mais de metro e meio de largura e cento e poucos de comprimento. Intimidado pelo olhar à Lá Siqueira dado pelos seguranças, o leitor foi ao Parque Jeferson Peres onde, segundo o governador, “só não há espaço para violência, tristeza. Há espaço para a liberdade, à  ordem”. Mas lá ele sequer conseguiu entrar. O segurança, de longe, com o mesmo apitar de seus vizinhos de parque, fazia com os braços o movimento negativo.

No caso do Mestre Chico, a proibição é recente. Até pouco antes da inauguração, caminhantes e bicicletas dividiam harmonicamente o espaço do parque. Já o Jeferson Peres, este parece que incorporou a rígida ordem moral transfigurada na retidão de quem lhe deu o nome.

O GUIDÃO DO PIAGET

Quem é que manda no seu guidão, caro leitor? Bom, o psicólogo, pedagogo, cientista, linguista e estudioso do desenvolvimento infantil, Jean Piaget, afirma existirem três fases do desenvolvimento moral do ser humano.

Na primeira fase, chamada de Anomia, a bicicleta simplesmente não tem guidão! Nesta fase, as normas e valores morais ainda não se fazem presentes à consciência da criança. Se sente fome, chora; se se sente contrariada, reage. Trata-se de simples ação-e-reação, sem reflexão.

Na segunda fase, conhecida como Heteronomia, o sistema de normas e valores pintam tal como são. Exógenos. É uma fase conflituosa, onde não há mediação. Há uma relação de supremacia, onde o mais forte – a norma moral social – subjuga a vontade pela força, positiva ou negativa. Seja através de uma recompensa ou de uma punição, a iniciativa continuará sendo uma reação. No entanto, já existe um certo grau de consciência da pré-existência das normas. Fato é que, longe do big stick moral, os fixados nesta fase voltam aos velhos tempos de anomia irracional. Ou seja, a bicicleta tem guidão, mas quem o controla é o outro.

A terceira, última e mais difícil de ser alcançada: a Autonomia. Capacidade de autogoverno. Não há mais reação. A ação parte do próprio sujeito. Mas não pense você que houve “introjeção”, “absorção”, ou coisa que o valha das regras. Ao contrário, houve uma elaboração racional, uma análise e uma produção ético-estética. Ser autônomo não é obedecer à regra social, mas expressar uma conduta ética condizente com os próprios princípios, normas e valores, erigidos a partir da razão e da inteligência. Segura no guidão e guia a bicicleta com segurança e tranquilidade, escolhendo conscientemente para onde se vai.

Neste sentido, é possível que o bicicletante Piaget (sim, ele adorava andar de bicicleta!) encontre nesse passeio educacional outro educador, Baruch de Spinoza. Para este, não tem essa: o aumento da potência de agir, que aproxima o ser humano da perfeição e do desenvolvimento ético/democrático, passa pela autonomia: nos aproximamos da perfeição quanto mais somos agentes de nossas ações, e nos afastamos da perfeição quanto mais simplesmente reagimos ao encontro com outros corpos. Aproximar-se da perfeição não significa seguir as regras exógenas, mas compreendê-las e agir a partir de si, pela razão. Cooperação, respeito mútuo, afetividade se sobreporão como efeitos num ambiente que estimule a autonomia. Orgulho (de ser amazonense, olha só!), Medo, Egoísmo serão a tônica dos que forem criados num ambiente heteronômico.

O GUIDÃO DO GOVERNO ORGULHOSO DO AMAZONAS

Público e particular são produções humanas em coletividade. Não são noções inatas, mas aprendidas. Um ambiente ou objeto é tão público quanto são capazes de compreender-se para além de si mesmos e terem desenvolvido o senso de autonomia seus usuários.

Os recursos públicos não o são apenas pela força da palavra. Fato é que a corrupção é uma das expressões de uma sociedade reativa e fixada no estágio heteronômico. E o que dizer da corrupção do espaço público num parque?

Ora, se um governo acha necessário que haja uma força coercitiva externa para “ordenar” o espaço do parque, a fim de estabelecer pré-definições espaciais normativas (cada qual com seu cada qual), é porque suas produções são ao mesmo tempo definidas e expressas pela heteronomia. Um governo sequelado e fixado a um estágio inferior do desenvolvimento moral e intelectual. E que subestima a capacidade de seus habitantes.

Não por acaso, enquanto os seguranças (que estão apenas cumprindo seu dever – ordem exógena) cuidam de colocar as coisas em ordem entre ciclistas e pedestres, na rua ao lado, motoristas andam na contramão, param na faixa, atravessam sinal fechado, estacionam na calçada, dão retorno onde é proibido, dentre outras irregularidades. Sinal da patologia normativa-paranóide de um governo que não consegue controlar o próprio guidão de seus atos.

Daí este governo, através das suas instâncias constitutivas, reproduzirem uma ambiência heteronormativa, seja dentro da sala de aula, seja na relação com os professores, seja no trato com a res publica, seja na incapacidade de acreditar que o seu povo é capaz de se organizar e usar soberanamente o espaço de uma praça, sem violência e sem necessidade de controle policialesco.

Talvez por isso, tomado nesta ambiência de retardamento intelectual e moral, o governo tenha eleito o Orgulho como mote e lema. Pelo menos nisso, eles estão certos!

MARX, OS COMUNISTAS DO AMAZONAS E A FARINHA DO MEU PIRÃO

Em Manaus, terra do jaraqui com farinha, anda faltando os dois na mesa do trabalhador. O primeiro, por estar no defeso. Já o quilo da farinha do uarini, o tipo preferido dos paladares amazônicos, chegou esta semana, em alguns lugares, a R$ 8,50 o quilo (quase alcançando o sul maravilha!). Não se compra o alimento preferido de 110 em 109 manauenses pro menos de sete reais, nem mesmo na banquinha do seu Valdeci, na Branco e Silva, Santa Luzia. E agora, camarada Eron?

Bem, a secretaria estadual de produção rural, decantada em verso eEssa vale ouro! prosa, e auto-homenageada até com peça de teatro (perdão, Dionísio! perdão, Brecht!) tem afirmado que o problema decorre da pouca oferta, causada pelas cheias em toda a região produtora, tanto no Amazonas como no Pará (que é de onde vem a maioria da farinha que você, xenofóbico, come).

Mas como este Poli come jaraqui no escuro e não se engasga, desconfiado que é, foi procurar razões mais materiais e menos metafísicas do que culpar a natureza.

Como o secretário da Sepror, camarada Eron, se diz comunista, o Poli entrou mais uma vez em contato com o limbo infernal, e desta vez nem precisou de Virgílio para encontrar o Sapo Barbudo original, aquele que, séculos depois, ainda mete medo na burguesia, Karl Marx. Karl estava às gargalhadas com alguns amigos, lembrando que Das Kapital tem vendido como água pelas bandas da Europa. Tranquilo, sarcástico como sempre, deu-nos uma entrevista explicando com se dá a determinação do preço de uma mercadoria. 

PolivoCidade – Companheiro Carlos, explica aí pra gente, como é que pinta o preço de uma mercadoria?

Marx – É a concorrência entre compradores e vendedores, a relação entre a procura e aquilo que se fornece, a oferta e a procura.

Poli – Lei da procura e da oferta? Aquela mesma cantada pelo rival do Nunes Filho, o Abílio Farias? Concorrência? Simples assim?

Marx (Dá um sorriso sarcástico) – A concorrência, que determina o preço de uma mercadoria, apresenta três aspectos. Há uma concorrência entre os vendedores, que faz baixar o preço das mercadorias oferecidas por eles. Mas há também uma concorrência entre os compradores que, por seu lado, faz subir o preço das mercadorias oferecidas. E há, finalmente, uma concorrência entre os compradores e vendedores: uns querem comprar o mais barato possível; outros, vender o mais caro possível. O resultado dessa concorrência entre compradores e vendedores dependerá da relação existente entre os dois lados da concorrência que falamos antes, isto é, dependerá de a concorrência ser mais forte no exército dos compradores ou no exército dos vendedores.

Poli – Sacamos. Mas se é a oscilação entre a oferta e a procura que determina o preço das mercadorias, o que é que determina a relação entre a oferta e a procura? Como funciona?

Marx (Coçando a barriga) – Dirijamo-nos ao primeiro burguês que nos apareça. Ele dirá: ‘se a produção da mercadoria que vendo me custou 100 reais e se faço 110 reais com a venda dessa mercadoria – no prazo de um ano, entenda-se – esse lucro é um lucro correto, honesto e legítimo. Mas, se receber, na troca, 120 ou 130 reais, é um lucro elevado; se eu fizer 200 reais, será então um lucro extraordinário, enorme’. Que é que serve, portanto, ao burguês, para medir seu lucro? Os custos de produção de sua mercadoria.

Poli – Deixa agora a gente citar um exemplo: lá em Manaus, o secretário de produção rural disse que a farinha tá cara porque a cheia não deixou o caboco plantar. Isso em pleno século XXI. Os aspectos estruturais (sol, chuva, estradas, condições de armazenamento, tecnologias envolvidas, etc) fazem parte dessa relação que determina o custo de produção da mercadoria. Está certo então o comunista e agrônomo Eron em culpar a cheia pelo fato do caboco tá comendo farinha como se comesse ouro?

Marx (dando uma risada sagaz) – Os economistas dizem que o preço médio das mercadorias é igual aos custos de produção: que isso é a lei. Consideram como obra do acaso o movimento anárquico em que a alta é compensada pela baixa e a baixa pela alta. Com o mesmo direito, poderíamos considerar as oscilações como a lei e a determinação pelos custos de produção como obra do acaso. Mas são precisamente essas oscilações que, consideradas mais de perto, provocam as mais terríveis devastações e, como um terremoto, abalam a sociedade burguesa nos seus alicerces: são exclusivamente essas oscilações que, no seu curso, determinam o preço pelos custos de produção. O movimento global dessa desordem é a sua ordem.

Poli – Há então uma lógica que determina essa subida de preço, para além das costas largas da cheia, e que o secretário não entendeu. Ao observar mais de perto, como tu dizes, essa oscilação do preço da farinha, bem como de outras produções econômicas do Amazonas, percebemos que o problema não é natural, mas humano. Falta de investimentos e de visão empreendedora dos governos anteriores e do atual, do terceiro ciclo ao fantasioso zona franca verde. A economia, a agricultura não são contrárias à natureza. Ao contrário, as primeiras são uma composição laborativa do homem com a segunda. Mas Manaus continua comendo seu arroz, sua farinha, seu cheiro-verde, seu tomate, sua cebola, pimentão e até muitos peixes, tudo produzido fora daqui. A logística para trazer de outros estados funciona, mas para trazer do interior para a capital, não. Mas a responsabilidade dessa oscilação perversa, que pune tanto um como o outro, nunca é dos governantes. Carlos, nosso camarada, esse pessoal não te leu não? É comunista só na carteirinha do PCdoB?

Marx – Como diz meu amigo Engels, nestes casos, adoro citar uma frase de Hine, se referindo a seus imitadores: “Semeei dragões, e colhi pulgas!”.

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As frases de Marx foram psicografadas do artigo Trabalho Assalariado e Capital, em versão da editora Expressão Popular. Recomendadíssimo!

VITÓRIA-RÉGIA FATURA TÍTULO NO CARNAVAL ONDE O PATRÃO É O GOVERNO DO ESTADO

A Escola de Samba Vitória-Régia, do bairro da Praça XIV de Janeiro, é a campeão do carnaval amazonense de 2010.

A escola, que trouxe o enredo “Cantando o Pensamento na Amazônia, a Verde e Rosa Saúda os Imortais”, faturou o título, ficando à frente da Reino Unido da Liberdade por 1,55 pontos. Em terceiro ficou a Grande Família, do São José Operário. Há cinco anos a escola não levantava o caneco do carnaval amazonense.

NA FOLIA FETICHIZADA, QUEM MANDA É O PATRÃO-GOVERNADOR

“O governador Eduardo Braga determinou que seja feita uma reformulação do carnaval…” (Robério Braga, secretário estadual de cultura).

Que o carnaval, não apenas no Amazonas, mas em todo o país, tem sido vendido a partir da sua despotencialização comunitária, do seu esvaziamento político, não resta dúvidas.

No entanto, no Amazonas, esta manifestação cultural tem, ano após ano, caminhado cada vez mais para uma vertente da exploração, numa ilustração tão óbvia que chega a ser didática daquilo que alguns chamam o capitalismo pós-moderno.

Marx explica que a mais valia é aquilo que o capitalista ganha, em termos de trabalho, como excedente da produção do operário. Descontados do valor de troca da mercadoria os gastos com matéria-prima, equipamentos e salários, o restante é o que lhe cabe como lucro.

No entanto, a exploração pelo capital não se dá pela mais valia. Dá-se na vampirização do trabalho morto pelo trabalho vivo. O capitalista dispõe apenas de trabalho morto, isto é, aquele que está esvaziado da potência física e intelectual, que em si não é capaz de engendrar o novo, de produzir a partir de si mesmo. Ele precisa do trabalho vivo, da ação do trabalhador, de sua força-de-trabalho para fazer com que a matéria prima seja transformada pelas máquinas e produza objetos que tenham, no contexto social, valor de uso e valor de troca.

Em outras palavras, o capital nada mais é do que a produção de uma condição de existência pautada na exploração, onde o verdadeiro produtor dos objetos necessários à essa existência é responsável pela produção daquilo que será usado contra ele, para ampliar a exploração. Assim, é possível que num aumento de produtividade, aumente também o salário, mas na roda do capital, o que aumenta de verdade é o capital morto de detém o explorador, o que faz com que se amplie o seu poder de barganha e exploração.

No capitalismo pós-moderno, coisa semelhante ocorre com o trabalho imaterial. O carnaval é um produto. Não é um objeto material, mas é sensível: vende-se para o folião a ilusão da alegria e do divertimento, a indústria do entrenenimento efêmero. De manifestação cultural, ele passa a mercadoria oferecida ao consumidor.

O que não muda é a exploração do trabalho do artesão, do carnavalesco, da costureita, do empurrador do carro alegórico: aqueles que vendem a sua força física e intelectual e movimentam, com seu trabalho vivo, o trabalho morto do capital do binômio escolas de samba/governo.

São eles que colocam na avenida um produto que só tem em comum com a manifestação cultural um rastro imagético. Nada da potência-povo. Evidência disso é a exacerbação da nudez, dos truques e artimanhas visuais (o chamado luxo), a violência sempre presente, o rancor, a disputa, o ódio ressentido dos vencidos e o desprezo ressentido dos vencedores: sintomas da fascinação pelo fugaz, simulação e auto-engodo. Ledo engano o de quem pensa que as escolas de samba vendem apenas o espaço de seus enredos para homenagear políticos e seus parentes, numa corrente da subserviência, e que a expropriação se reduz aos desvios de verba pelos dirigentes das escolas.

Na roda da exploração, quem produz o carnaval não brinca, ou brinca pouco. Da produção do seu trabalho imaterial (a alegria de um carnaval exacerbadamente falsificado), resta-lhe a ilusão de que aquilo ainda é povo, e os oitenta e poucos minutos na avenida. Mas para onde vai a riqueza desta mercadoria que movimenta milhões, produzida por estes que não podem gozá-la?

Vai para o verdadeiro explorador: os governos decadentes. Daí a frase sintomática do secretário Robério.

O verdadeiro dono da mercadoria é o trabalhador, que a produziu. Mas, no capitalismo, manda quem detém o capital: os meios de produção. Dá-se o mesmo aqui: embora não mova uma palha para costurar uma fantasia ou colar uma pena numa alegoria, o governo do estado detém o controle sobre o carnaval amazonense. Tornando-o dependente dos recursos financeiros que anualmente são despejados sem um controle fiscal, profissionalizou uma manifestação que antes era movida à afectos políticos-existenciais, criando uma cadeia produtiva que expropria o trabalhador do seu objeto (o carnaval não é mais de quem o faz, mas de quem o consome) e colhe os frutos de aparecer como o dono de uma manifestação cultural – ainda que não mais o seja de todo, ainda carrega, pelos operários, esse rastro – e como origem intelectual daquele produto.

Daí o carnaval torna-se o que é, de fato, hoje. Instrumento de escalada eleitoral, de enriquecimento ilícito de alguns, depositório das frustrações sociais (e por isso mesmo, canalizador da violência urbana), e fortalecedor de uma falsa imagem de que o governo detém nas mãos o destino desta manifestação cultural.

Em tempo: há carnavais e carnavais. Por mais que almeje, o capitalismo não é produção hegemônica de subjetividade. Há por aí dionísios, de todas as cores, idades, louvando a loucura como manifestação da sabedoria da natureza. Não é o caso do carnaval oficial do governo Braga…