SOBRE A CEGUEIRA DOS ESPECIALISTAS PSY NO CASO DO ATIRADOR ESTADUNIDENSE

Por Luis Horácio, no Portal do Nassif:

A Psicologia mais atuante nos EUA é a behaviorista, caindo frequentemente nos exageros do biologismo e da correção comportamental através de drogas, e são extremamente positivistas, nessa tradição empirista. Isso não é totalmente mal, mas limita o conhecimento sobre a mente e o próprio comportamento humano e suas vicissitudes e idiossincrasias. A chave é quase a mesma das Ciências Naturais e Exatas, de procurar padrões, criar classes e categorias e estabelecer perfis de enquadramento dos indivíduos. O que se destaca são os perfis que estão acostumados a fazer em todas as áreas. Isso somado ao alto grau de padronização da cultura americana, mesmo no que diz respeito a atitudes sociais, faz com que o grau de controle que têm sobre a psicologia dos cidadãos seja significativa. Quer dizer, há várias maneiras de procurar estimular ou direcionar o comportamento das pessoas, de maneira direta ou indireta.

Nesse caso, a situação toda está dentro do quadro político. Várias pessoas e especialistas ficam dizendo que não há informações suficientes, que não se sabe, mas isso não está correto. Sabe-se sim. Os videos do youtube são bastante elucidadivos sobre a instabilidade do atirador e sobre a vulnerabilidade dele diante de várias influências. Adotar esse comportamento de atirador infelizmente é uma resposta bastante conhecida nos EUA. Mas a diferença, como já foi dita no Blog, é que os alvos eram precisos, conhecidos e políticos, envolvidos na grande crise americana. E fez isso segundo uma trajetória comportamental da direita radical americana, ninguém sabe disso mais do que os próprios americanos.

O que está ocorrendo, então, com essas “análises” e com essas declarações? De “olha, vamos esperar”, ou “ainda não sabemos”, ou essa então, de que o cara que adotou um comportamento radical de direita é na verdade um terrorista da esquerda. Um absurdo! Mesmo que fosse um esquerdista, então pirou, porque agiu segundo os interesses do extremismo “branco” de direita. O que ocorre é que mais um plano “mirabolante” para agir de modo totalmente impróprio no Estado democrático foi por água abaixo, e da pior maneira possível, para seus artífices. Além de não se encaixar ou dominar o debate político americano, provocou um enorme trauma, uma grande tragédia, já de saída.

Não foi só a deputada, mas e as pessoas comuns, o cidadão americano que foi assassinado em um supermercado, no seu dia-a-dia? E a menininha de 9 anos? A questão é que já há informações suficientes (já havia antes esse clima  de “envenenamento” político, segundo os próprios analistas americanos) para se compreender como o clima político americano interferiu nas atitudes desse jovem atirador instável, independente de ter tido por trás alguma lavagem cerebral. Não muda o sentido das coisas. E estão tentando tirar essa carga enorme das costas de quem são, primariamente, os responsáveis por mais esse desastre, os artífices radicais e extremistas da direita ultraconservadora americana.

O fato de no Brasil ter se tentado importar esse modelo impróprio e desastroso mesmo lá nos EUA (não esqueçamos toda a era W Bush) é outro dado preocupante. No Brasil as desiguladades  sociais muito maiores, a debilidade maior das instituições ainda em formação, as enormes diferenças regionais e a grande diversidade do país, o nível educacional muito menor, são fatores que poderiam produzir aqui um efeito muito mais explosivo e catastrófico do que lá, imaginem só. Inaceitável que pessoas da dimensão política dos que promoveram esses atos  aqui no Brasil não tenham pensado nisso e nas consequências que poderiam (ou podem) ter. Não precisa nem cobrar a responsabilidade e os compromissos de cidadania. Basta a percepção lógica.

Comentário do Poli: o papel de uma psicologia e de uma psiquiatria, há muito tempo, é o de referendar, sob moldes ‘científicos’, aquilo que interessa ao estado burguês para a manutenção do seu modus operandi. É algo que Michel Foucault estudou e desnudou à exaustão, sobretudo n’A História da Loucura, e em um livro intitulado Os Anormais. Franco Rotelli, da vanguarda da desinstitucionalização, perfaz caminho semelhante, e mostra que à ciência psicológica, nos seus fundamentos metódicos, cumpre a função de alinhavar ao discurso do estado capitalista toda a manifestação que escapar à lei e à ordem: em outras palavras, a normatização.

Daí diferenciar desospitalização de desinstitucionalização, e demonstrar que, em vários locais, na Europa e principalmente nos EUA, o fechamento dos hospitais psiquiátricos constituiu uma piora no atendimento aos portadores de distúrbios mentais, e uma economia para os cofres do então incipiente estado neoliberal. Extingue-se a estrutura física de confinamento, sem no entanto modificar as relações sociais e hierárquicas que retiram ao discurso ‘louco’ a sua prerrogativa política e de direitos. O valor político da fala do ‘louco’ é nulo, e seus direitos, ignorados.

Por isso, não faz diferença se a inabilidade dos psicólogos e psiquiatras estadunidenses em compreender a motivação do mais recente atirador é fruto de estreiteza intelectual e aridez epistemológica, ou se se trata do uso ideológico da ‘ciência’ psicológica com fins de justificar o injustificável. No capitalismo, não existem vítimas.

Assim, pouco importa se são comportamentalistas, cognitivistas, psicanalistas ou humanistas. A questão é como o cabedal de conhecimentos de cada uma destas vertentes é utilizado.

Ainda: não se deve, com isso, crer que o fenômeno de acirramento do discurso da ultra-direita tenha chegado ao Brasil somente na eleição de 2010. Tampouco o uso do ‘especialismo’ por parte da mídia, para dar verniz de credibilidade ao seu ponto de vista é novo. Há décadas, especialistas do pavoneamento desfilam pelos estúdios de rádio e tevê, ávidos de concordar e adaptar ao jargão ‘científico’ de sua área, qualquer bobagem dita pela tevê, apenas pelo direito de exposição, por alguns segundos, e – de nossa parte – pelo reconhecimento mútuo da banalidade das duas partes.

OBSERVAÇÕES SOBRE O BRINCAR DA CRIANÇA NA SOCIEDADE DO CONSUMO

“Para tornar uma máquina automática é preciso sacrificar muitas possibilidades de funcionamento. Para tornar um objeto prático automático, é preciso estereotipá-lo em sua função e torná-lo frágil” (Jean Baudrillard)

O capitalismo e a chamada sociedade de controle pretendem suplantar a necessidade histórica de repressão às massas, no plano macropolítico, investindo cada vez mais na disseminação de formas de comportamento que não necessitem de supervisão externa para funcionar “tal como devem”.

Agindo um pouco à moda do Admirável Mundo Novo, a sociedade do consumo oferece tudo aquilo que a parte mais primitiva do nosso sistema neurocerebral precisa para se manter ocupada: luzes, cores, sons, odores, sabores, simulacros de sexo e amor, e por aí segue. O que, claramente, leva a um acomodamento das funções mais, digamos, desenvolvidas. Dentre elas, a faculdade do juízo, da análise e da elaboração de um pano de fundo existencial para além do próprio indivíduo.

Assim, temos, por exemplo, a internet, como uma poderosa ferramenta de disseminação de saberes e dizeres, de produção mesmo de outros entendimentos sobre si e sobre o mundo, mas que é subutilizada, simplesmente porque não se sabe produzir conteúdo, ou não se aprendeu a selecionar, dentre o universo de informações que ela traz, quais são ou não relevantes para a produção deste pano-de-fundo existencial. Neste aspecto, fazemos coro a Umberto Eco, quando este diz que precisamos aprender a lidar com a internet.

Igualmente – é onde queremos chegar com este breve comentário – a indústria de brinquedos e entretenimento infantil não é predatória e nociva às crianças apenas por oferecerem um arsenal marketológico e um imaginário “xuxeado”. A forma como se brinca, como se relaciona com os brinquedos enquanto objetos também está contaminada.

Karl Marx e o próprio Hegel já sabiam que o prazer obtido no trabalho está em realizá-lo, e não no objeto produzido. Este, tem valor social. Mas o resultado do trabalho, a produção neurocognitiva, as sinapses, o exercício físico-intelectivo para realizar aquele trabalho, este é um ganho de quem o realizou. A práxis neuro-muscular não apenas reforça e enriquece o corpo como é recurso necessário para o conhecimendo do mundo ao nosso redor.

Antigamente, a criança dizia: “olha o que eu fiz com este brinquedo!”. Hoje em dia, é comum ouvirmos: “olha o que esse brinquedo faz”. O papel da criança em relação ao objeto lúdico deixa de ser o do protagonista, no exercício da práxis neuro-muscular, para ser espectador, numa relação de vigilância cérebro-sensorial.

“Interativo” é a palavra da vez na indústria de brinquedos. Para crianças e para adultos. Mas o problema é que a interação começa e termina com a parte mais importante e desenvolvida da relação apenas observando e admirando o que a outra é capaz de fazer. A parte do brincante, na maioria das vezes, se reduz a apertar um botão e fazer escolhas simples, como nos jogos de RPG (Role-Playing Games), onde só se chega ao final escolhendo as alternativas “certas”. Mais ma vez: estímulos constantes à parte mais “primitiva” da nossa cognição, e embotamento das faculdades do juízo e da crítica.

Prato cheio para quem quer fazer brinquedos que funcionem como vetores subliminares ou sobreliminares de mensagens e conteúdos (a indústria do politicamente correto e as que trabalham com as doutrinas religiosas, por exemplo). A “boa” brincadeira é aquela que conduz às “boas” escolhas (mas boa para quem?). Entretenimento e educação, juntos? Vigilância, embotamento e doutrinação. Como afirma Jean Baudrillard, em citação acima, para tornar um objeto autômato, é preciso estereotipá-lo. Nada de sexo, nada de humor, nada que exija de nossos curumins o uso do córtex cerebral ou das sinapses mais complexas. E um sujeito estereotipado é um sujeito que não precisa ser reprimido ou vigiado. Ele próprio é seu algoz.

Não que os brinquedos de uma época anterior fossem absolutamente melhores, e a piora tenha ocorrido de uns tempos para cá. Nada de saudosismo ou maniqueísmo em nossa análise. Se os brinquedos antigos tinham como aspecto positivo a relação direta e a possibilidade de produções abstrativas (a tal práxis neuro-muscular), carregavam, por outro lado, uma fortíssima ligação com a moral, e com a demarcação de posições e lugares dentro da sociedade. Menino brinca de carrinho, de revólver, de bombeiro, de construtor de casas, enquanto as meninas brincam de casinha, de costureira, de cozinheira. Os papéis sociais muito bem treinados desde cedo.

Se o sentido político dos brinquedos, o de sugerir papéis sociais não mudou, a forma como isto é feito se modificou drasticamente. Podemos comemorar um enfraquecimento do laço moral que unia o sujeito e o objeto, e que permeava a escolha e a forma como se brincava (quantas mulheres apanharam quando meninas, porque queriam jogar bola, ou soltar papagaio/pipa?). Hoje, a relação é “universal”, e não existe mais restrição de ordem identitária. No entanto, o que era uma moral controlada através da repressão, torna-se uma moral subjacente aos fins de uso do próprio produto. Meninos e meninas podem brincar à vontade no joguinho do computador, porque ambos chegarão, dadas as possibilidades, ao mesmo fim, e terão aprendido a mesma lição. Qual seja: apenas vigie e monitore. Nada de criar ou se divertir. Uti et non frui.

A partir daí, a questão não é mais saber o quanto de energia é preciso para esmagar a potência vital de uma criança; é saber como canalizá-la para atividades banais, que levem ao consumo, evitando assim que seja utilizada para o desenvolvimento da autonomia, da ética e da vida comunitária.

MARX COMENTA A PATOLOGIA SOCIAL DA DIREITA BRASILEIRA

Preâmbulo narrativo:

O cenário é o contexto político-partidário atual, no borbulhar pré-eleitoral. Numa cidade do interior do Brasil (poderia ser qualquer uma, como efetivamente acontece por aí), um prefeito recebe uma equipe de educadores.

Estes educadores apresentam um projeto de educação e inclusão social, voltado para o trabalhador e sua família, buscando oferecer complementação e reconhecimento de seus saberes tradicionais, pelo conhecimento formal da academia, invertendo a ordem lógica e perversa do saber acadêmico, que segrega e discrimina, e que foi responsável pelo fracasso de projetos anteriores.

Todo o projeto é custeado pelo governo federal. À prefeitura, apenas o trabalho de fornecer mão-de-obra qualificada – no caso, professores da rede pública de ensino fundamental – que prestariam o serviço público que normalmente ocorre nas escolas municipais, num outro ambiente, o das comunidades tradicionais. Nenhum aporte de profissionais era requerido. Apenas o rearranjo de horas-aula de profissionais que desejassem participar de um projeto educativo diverso do que normalmente atua. Estes professores ainda seriam capacitados na metodologia pedagógica alternativa, construída a partir do trabalho de Paulo Freire.

A primeira pergunta do emissário do prefeito – que não quis receber a equipe de educadores – foi: “quanto custará aos nossos cofres?”.

Devidamente orientado quanto a natureza do projeto, e da ausência da necessidade de novos investimentos do município, inclusive no tocante à logística do processo, totalmente custeada pelo governo federal, que investe no projeto, em nível nacional, cifras milionárias, o emissário do prefeito vai novamente ao gabinete. Retorna de lá poucos minutos depois, e diz que na rede pública de ensino daquele município não existem professores com horas vagas: a proporção é calculada de forma exata, possivelmente para evitar gastos desnecessários. Portanto, haveria ônus para o município. De onde, então, tirar o dinheiro para contratar os profissionais que atuariam no projeto federal, em parceria com o município?

Mais uma vez, os educadores reiteraram que o investimento do município, se houvesse, seria mínimo, menos de 10% do total, já que os outros 90%, incluindo a estrutura física e logística – novamente! – serão totalmente custeados pelo governo federal, com recursos já previstos no orçamento do projeto.

Ainda assim, o prefeito relutava em assinar o convênio, sem ter antes a resposta à pergunta: “quanto, efetivamente, custará aos nossos cofres?”.

Há o FUNDEB!”, lembrou um dos educadores. “Com o aumento do número de alunos no ensino fundamental, virá certamente o aumento do valor repassado ao município, via FUNDEB”. O emissário prefeitural acenou que era uma possibilidade, mas que não resolvia o problema a curto prazo, pois haveria a necessidade de primeiro contratar os professores, pagá-los, para depois receber o aumento do repasse. Mas que colocaria a sugestão para o prefeito.

Mais uma vez, entrou no gabinete. Tensão no ar. Parece que o prefeito não iria assinar o convênio. Por fim, o emissário aparece, com o projeto devidamente assinado. O prefeito aparentemente “foi convencido” de que os benefícios sociais e educacionais para o município era lucro suficiente para justificar o investimento municipal no projeto.

Análise Psico-Marxista:

Poli (enunciando a interlocução necessária ao diálogo, filosoficamente): Descontando-se o fato de o prefeito ser do partido da alcunhada oposição – alcunhada porque não tem thesis, e portanto não tem posição – o que levou ele, enquanto prefeito, e portanto, representante eleito para materializar as aspirações sociais enquanto Bem Comum, a relutar em assinar um convênio que tem a possibilidade de trazer desenvolvimento social para a cidade que ele gere?

Karl Marx: “Para o capitalista, a aplicação mais útil do capital é aquela que lhe rende, com igual segurança, o maior ganho. Esta aplicação não é sempre a mais útil para a sociedade”.

Poli: Então, o episódio é uma clara ilustração de um governo de direita, que gesta a partir da lógica do capital. A que coloca a exploração da força e da produtividade do trabalho humano no centro da roda que gira o mundo (deles). Mas será que essa direita é tão canhestra, tão corrompida (corrupta), que é incapaz de enxergar o mundo para além da força coerciva do dinheiro?

Karl Marx: “O dinheiro é o alcoviteiro entre a necessidade e o objeto, entre a vida e o meio de vida do homem. Mas o que medeia a minha vida para mim, medeia-me também a existência de outro homem para mim. Isto para mim é o outro homem…”

Poli: Porrada seca! O que Cristo falou, de outro modo: “Amarás ao próximo como a ti mesmo”. E ainda tem gente que não percebeu que tu, ao contrário do o Papa e de todos os pastores, entendeu o que Cristo queria dizer. Mas o problema não é o dinheiro em si. Bem usado, ele é até útil. A partir de quando ele se transforma em veículo da patologia social, que acometeu o prefeito de nossa história, e acomete a direita brasileira?

Karl Marx: “O que é para mim pelo dinheiro, o que eu posso pagar, isto é, o que o dinheiro pode comprar, isso sou eu, o possuidor do próprio dinheiro. Tão grande quanto a força do dinheiro é a minha força. As qualidades do dinheiro são minhas – seu possuidor – qualidades e forças essenciais. O que eu sou e consigo não é determinado de modo algum, portanto, pela minha individualidade.

Se o dinheiro é o vínculo que me liga à vida humana, que liga à sociedade a mim, que me liga à natureza e ao homem, não é o dinheiro o vínculo que me liga a todos os vínculos?

O que eu como homem não consigo, o que, portanto, todas as minhas forças essenciais individuais não conseguem, consigo-o eu por intermédio do dinheiro. O dinheiro faz assim de cada uma dessas forças essenciais algo que em si ela não é, ou seja, o seu contrário.”

Poli: Sacamos! A patologia pinta na relação. Quando o dinheiro é colocado como substituto para as relações, para as produções. Quando isso acontece, qual o destino do indivíduo, e no nosso caso específico, de uma cidade gerida por uma consciência padecida desta patologia social? É possível um prefeito (ou candidato à presidente, ou deputado, ou senador, ou…) capturado por esta patologia social, fazer um governo efetivo e real?

Karl Marx: “Pressupondo o homem enquanto homem e seu comportamento com o mundo enquanto um comportamento humano, tu só podes trocar amor por amor, confiança por confiança, etc. Se tu quiseres fruir da arte, tens de ser uma pessoa artisticamente cultivada; se queres exercer influência sobre outros seres humanos, tu tens de ser um ser humano que atue efetivamente sobre os outros de modo estimulante e encorajador. Cada uma das tuas relações com o homem e com a natureza – tem de ser uma externação (Âusserung) determinada da tua vida individual efetiva correspondente ao objeto da tua vontade. Se tu amas sem despertar amor recíproco, isto é, se teu amar, enquanto amar, não produz o amor recíproco, se mediante tua externação de vida (Lebensâusserung) como homem amante não te tornas homem amado, então teu amor é impotente, é uma infelicidade”.

Nota do Poli: as respostas foram fisgadas da obra “Manuscritos Econômico-Filosóficos”.

CONSELHO DE PSICOLOGIA COMEMORA LEI DO CASAMENTO HOMOSSEXUAL NA ARGENTINA

Do Psicologia Online:

Com 33 votos a favor, 27 contra e três abstenções, a Argentina aprovou, dia 15 de julho de 2010, lei histórica que legaliza o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

O Conselho Federal de Psicologia comemora a iniciativa do país vizinho na aprovação da lei que garante a união civil entre pessoas do mesmo sexo, reconhecendo a família homoafetiva ou homoparental como forma legítima de constituição familiar, bem como o direito à adoção.

A Psicologia tem papel importante na luta contra o preconceito sobre a homossexualidade. Diversas pautas abraçadas pelo CFP estão relacionadas aos direitos humanos e à consolidação das políticas públicas, inclusive no combate à homofobia.

Em 1999, foi aprovada a Resolução nº1/1999 do CFP, que estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação à questão da orientação sexual.

Em 2008, o CFP lançou a cartilha “Adoção, um direito de todos e todas”, na qual são apresentados os argumentos necessários e importantes na luta pelos direitos LGBT não apenas aos psicólogos, mas também a outros profissionais, a respeito do desenvolvimento da criança e adolescente em lares de pessoas homossexuais.

O MEDO FAMILIAL DA VEREADORA DO PSDB (FRASE DO DIA)

“Você confiaria seus filhos para Dilma de Babá?”

A pérola da moral de classe é da vereadora PSDBista, Mara Gabrilli, que demonstrou todo o ressentimento do partido direitista.

Mamãe, papai, filhinho, meu pirão primeiro, para meu vizinho vale tudo, da minha porta para dentro, só o que me é vantajoso, na ordem do se dar bem, que é bem próxima aos partidos que carregam os anseios da auto-alcunhada elite brasileira. Os partidos, aliás – à exceção do PT, embora existam dentro deste segmentos capturados por esta subjetividade – seguem a mesma ordem familial: o culto à uma ordem moral tanática, a filiação como perpetuação dos valores da classe que se pretende dominante. Complexo de Cronos, consumindo como um buraco negro a produção intensiva e odiando tudo aquilo que não é imagem-clichê de suas reificações.

Daí o medo, como linguagem primária. O medo da vereadora em confiar seus rebentos a alguém que não comunga suas crenças e valores, é o mesmo da atriz Regina Duarte, que não encontrou em Lula um simulacro dos valores professados pelos seus patrões globais.

Medo de que seus filhos não sejam apenas apêndices natimortos, fiéis seguidores de um sistema de valores que depende da submissão e da violentação, pais da discriminação, do racismo, da homofobia, da xenofobia, da dor, da fome, e de todos os flagelos sociais.

Medo de que o seu ‘campeão’ ou a sua ‘princesa’ desvie a trajetória prevista pela tradição familiar, que produza um só signo que não esteja de acordo com o contrato familiar.

Medo, ainda, de que a babá, a empregada, ultrapassem a sua condição de acessórios da moral familiar, que deixe de exercer passivamente suas funções pedagógicas como objetos de propagação da discriminação e dos valores da classe decadente (inclusive sexual), e se tornem educadoras para a produção de outros valores, de uma outra moral.

Nada de comum-unidade, nada de produção de afetos e percepções, nada de transbordar outras formas de sentir, nada de liberdade. A frase da vereadora é a expressão de um modo de existir que estabelece um simulacro de relação, do qual o medo é apenas uma expressão. O medo do pai/mãe que ensina ao filho que o outro é sempre o inimigo, que a rua é sempre o território da guerra, e que o mundo é a origem da dor.

O medo que não interessa à democracia.

A COPA AUTÔMATA DA NEURÓTICA FIFA

“Para tornar uma máquina automática é preciso sacrificar muitas possibilidades de funcionamento. Para tornar um objeto prático automático, é preciso estereotipá-lo em sua função e torná-lo frágil” (Jean Baudrillard)

Quando o então presidente da FIFA, o franco-brasileiro João Havelange, assumiu a entidade, no final dos anos 60, cunhou uma frase que serviu de epígrafe para as décadas em que ficou à frente da entidade: “eu vim para vender um produto chamado futebol”. De lá pra cá, a ordem do mercado inundou aquilo que era esporte e jogo, e introduziu a gestão do futebol no regime semiótico da produção do capital, que passa por uma sistematização ideológica que é a do automatismo.

Se hoje a Copa do Mundo é um evento que se organiza sobre um sistema de gestão fechado, onde o dinheiro circula sempre no sentido da acumulação de capital pela Fifa e patrocinadores, a despeito dos países, não se pode reduzir essa influência apenas à sistematização estratégica organizacional do evento em si, mas é preciso compreender que esta automatização, enquanto relação ideológica do homem com os objetos relacionados ao sistema-futebol, também entra em campo. E, uma vez no gramado, transforma essas relações.

ALGUNS RASTROS DA AUTOMAÇÃO NO FUTEBOL

O “Volantismo”

Quando Dunga divulgou os seus selecionados, a grita geral foi a de que o meio-campo canarinho seria excessivamente defensivo, com a predominância de volantes, e que a técnica e o refino foram elementos secundários ou mesmo ausentes dos critérios do técnico. O que a imprensa parece ignorar é que o volantismo é acontecimento internacional. A tendência do futebol dito moderno é a predominância nos elencos de jogadores que saibam ao mesmo tempo exercer funções defensivas e de criação ofensivas. Isso não é de hoje. Mas é, atualmente, no futebol da Inglaterra – não por acaso a Meca do globalitarismo futebolista – pode-se visualizar de forma mais clara a tendência.

Foi o caso, por exemplo, do jogador brasileiro Anderson. Quando surgiu no Grêmio de Futebol Portoalegrense, Anderson era o que se chamava de meia-armador: técnico, driblador, dotado de uma visão de jogo provilegiada, logo foi apontado como um novo Ronaldinho Gaúcho. Porém, ao chegar ao Manchester United, teve de se adaptar ao esquema tático do time inglês, onde todos defendem e atacam da mesma forma, não havendo espaço para jogadores que saibam apenas atuar como defensores ou atacantes. Anderson virou símbolo do futebol adotado por Dunga na seleção, e não fosse uma contusão, certamente estaria entre os convocados para a copa.

O mesmo ocorre com o jogador espanhol Cesc Fabregas, que atua no Arsenal. Fabregas, um meia-armador de raro talento, se ocupa de “preencher os espaços do meio-campo”, tendo de se haver com funções defensivas. O próprio Ronaldinho Gaúcho, e mesmo Messi, encontraram no Barcelona FC uma exceção à regra, onde puderam exibir mais ou menos livremente o seu talento. O que não aconteceu em outros clubes e nas seleções nacionais, onde a necessidade de adaptação a um esquema padronizado limitava as capacidades criativas dos dois.

Mas engana-se quem crê que o problema se reduz a transformar jogadores ofensivos em defensivos ou, na linguagem técnica do futebol autômato, “polivalentes”. Trata-se de transformar o jogador em uma espécie de função-equivalência. O protótipo do time eletrônico ideal é aquele que não altera o seu modo de atuar, quando se modifica um jogador. Em busca do time perfeito (aquele que se aproxima do ideal automatista: a máquina infalível e independente), os jogadores cada vez mais devem se adaptar à funções pré-definidas, e isto cada vez mais cedo. O treinador dos times das categorias inferiores, antes responsáveis por auxiliar o atleta a desenvolver suas habilidades singulares, agora se atêm à atividade de “sanar as deficiências”, o que equivale a dizer transformar o jogador singular em uma peça de reposição.

O Gerencismo

O jogador deixou de ser o elemento predominante na relação objetual futebolística. O gestual aqui pode ser definido como a forma como se joga, interage e se constrói a relação com o objeto; como se “vivencia” tal ou qual objeto.

No futebol, o gestual, que sempre foi predominantemente mecânico-muscular, tem cada vez mais passado a ser neuro-sensorial. O jogador passa a ser um objeto com maior grau de abstração, enquanto o técnico (o DT) vai se tornando o centro magnético das relações.

Se antes os torcedores e fanáticos pelo futebol elegiam jogadores como ídolos, estrelas constituintes de um panteão mítico, e as crianças copiavam os chutes, os trejeitos, as jogadas, hoje as estrelas são os técnicos. Se antes as trocas de treinadores entre os clubes europeus e brasileiros ocupavam notas de rodapé dos noticiários, hoje eles estão nas manchetes, e as cifras para que eles troquem os bancos de um clube por outro são cada vez maiores, ainda que, numa observação mais arguta, a intervenção deles mais atrapalhe que auxilie o desempenho dos times. Se antes o prazer consistia em jogar futebol, sonhando em ser o artilheiro da copa, na rua, hoje o que faz sucesso são os jogos eletrônicos onde o player assume o lugar do técnico, escolhe o time, o esquema tático, e espera pacientemente pela vitória, anotada através de cálculos estatísticos da máquina computacional. As discussões de bar sobre qual jogador é mais talentoso deram lugar a “especialistas” em estatística futebolística, que citam de cor quantos desarmes, quantos passes precisos, quantos quilômetros por jogo faz cada uma das peças da engrenagem maior.

Cada vez mais a atividade produtiva cede espaço a um controle das variáveis e encadeamento optimal do tempo. Assim como nas relações cotidianas o predomínio tem sido de objetos automáticos, que realizam tudo apenas com a pressão de um botão, eliminando a força e a necessidade de elaboração intelectiva, também no futebol essa substituição gestual tem transformado o técnico no elemento principal da relação.

O FIM DO INTEMPESTIVO E DO INATUAL

A que se interessa esse tipo de relação com um objeto, o da posse, na qual a utilidade/funcionalidade do objeto é secundária em relação à capacidade que este objeto tem de refletir não a imagem de quem o manipula, mas aquilo que ele deseja secretamente ver? Onde tempo e espaço não se diluem na relação funcional do objeto, não se derrama sobre o outro como o segundo, mas que o transforma também num objeto, que nada mais faz do que estabelecer coordenadas existenciais a fim de oferecer um frágil substitutivo para o real?

Se se busca a eliminação do singular, do intempestivo e do inatual nas relações objetuais, é porque não se pode suportar a incerteza que advém da realidade. Freud já dizia que o ser humano não suporta um segundo sequer no real, e que precisa estabelecer próteses, suportes espaço-temporais, que lhes garantam coordenadas seguras, a certeza ilusória do que virá: o modelo e a série. O absoluto, a deidade, o alfa e o ômega, nada que escape e possa produzir outros possíveis.

Assim, também no futebol. Garrincha, para o técnico russo, seria fácil de controlar, porque “sempre dribla para o mesmo lado”. Ledo engano. Garrincha no campo eliminava a possibilidade do controle. Era intempestivo e inatual. Nunca driblava para o mesmo lado, porque sabia que o mesmo lado só é o mesmo para quem não suporta vislumbrar um pouco de real. Daí, ao gingar na frente do marcador, fazer vazar a angústia. E agora, José? Para onde? Com Garrincha, a única certeza era não ter certeza, e mesmo essa não era plena certeza. O mesmo ocorre com Maradona. Por isso ele é odiado pela mídia decadente e o seu olhar escotomizado. Não se enganem. Ela também odiava Garrincha. E amava, como ainda ama, Pelé. Porque Pelé foi o ápice do playstation (antes do videojogo, é claro). Não é por acaso que o Rei do Futebol surgiu junto com Havelange, e o ajudou na criação da Fifa tal como é. Pelé, por mais genial que fosse, não fazia vazar a angústia, não fazia esvair o reflexo no espelho. Era espaço-temporalmente bem definido, e por isso deu certo como produto.

Este é o futebol padronizado da globalitária Fifa e sua Copa Playstation. Neste, a relação com o real é falseada, o futebol deixa de ser um jogo para ser um álibi, uma simulação. O outro é sempre o mesmo, a bola é um objeto sob minha posse, o segundo é eliminado, e o terceiro é apenas um reflexo do primeiro. Aí, não há relação, apenas simulação.

Uma ilustração é a frase de Dunga – que não é dele, pois já foi dita por muitos outros – é a de que o gol é resultado de uma falha defensiva. A partida ideal, sem erros, o ápice do automatismo, da eficiência, será sempre um zero a zero. O técnico vence quando tudo é previsível; quando o prazer do jogo é substituído pela satisfação do controle.

DO RESSENTIMENTO E DA FRAGILIDADE DA COPA AUTÔMATA

Ante à frase não tem mais bobo no futebol, sobrepõe-se uma outra, que diz: não há mais grandes times no futebol. Não que eles não existam. Mas é que não há lugar para eles na Copa Autômata, onde as coordenadas espaço-temporais servem a uma ordem relacional neurótica, a da posse, e estabelece a morte do futebol enquanto produção social.

Daí ser apenas peça ficcional falar em zebra numa copa muito bem controlada. A Suiça venceu a Espanha? Nada de novidade, nada de zebra, ou inesperado. Venceu o automatismo, a padronização. A mesma Espanha de sempre foi derrotada pela mesma Suíça de sempre. Só cabem essas duas na Copa. É um sistema fechado e autômato.

Mas não somos pessimista, e nem poderíamos: este estado de coisas, neurótico, de relações de posse e simulação, não resiste a um microssegundo de realidade. Não resiste a um sorriso de Mané, ou la mano de diós, de Dom Dieguito, ou mesmo à alegria das crianças uruguaias que cantam, em algum campinho de bairro, sob o olhar de cumplicidade de Eduardo Galeano: “Vencimos/Perdimos/Igual nos Divertimos!”

A verdadeira zebra, se passeasse pela Copa Fifa, provocaria o seu desmoronamento, o fim do automatismo, através de um drible, de um orgasmo que não fosse confundido com a ejaculação do gol a qualquer preço, com uma explosão de prazer que obnubilaria a mera satisfação de uma vitória, ou a busca inútil de um futebol ao mesmo tempo efetivo e belo. Neste caso, são mesmo incompatíveis. Não cabem no futebol fifático.

Mas essa molecagem, nem Messi é capaz de fazer em campo. Se fosse ainda o Maradona…

LUTA ANTIMANICOMIAL: EM MANAUS, NÃO HÁ O QUE COMEMORAR

No 18 de maio, dia nacional de luta antimanicomial, Manaus não tem o que comemorar.

Apesar de se considerar capital da região norte, de ser o quarto maior PIB do país, de ter sido escolhida como uma das sedes dos jogos da Copa 2014, Manaus não avançou sequer na descentralização operacional das unidades de atendimento aos usuários do sistema de saúde, quanto mais na questão do desaparelhamento institucional dos saberes psy, e mudança de uma linha dura técnica (paradigma médico), para um entendimento cientifico-político (visão geral).

Enquanto o Pólo Industrial de Manaus, o sistema de transporte, o comércio, continuam despejando à margem do social os seus adoecidos pela exploração do corpo e da força produtiva, por seu lado, os governantes criam condições para um estado de coisas onde predomina a insegurança econômica, política, de saúde, de pertencimento, de estabilidade e até mesmo fisiológica.

A ausência de segurança pública é apenas um reflexo de uma sociedade e de uma cidade que cria condições para o adoecimento e o enlouquecimento de seus habitantes.

Políticas públicas para a terapêutica e a profilaxia da chamada saúde mental, ao menos no Amazonas, são quase inexistentes, e as poucas que existem, obedecem a uma lógica da medicina de mercado.

Longe de discutir o equívoco conceitual de reduzir à dimensão “mental” os problemas que são de ordem política, os representantes dos saberes psy no Amazonas tem se mostrado totalmente anulados pelos governos atuais. Para se ter uma ideia, a rede de apoio ao usuário do sistema não é suficiente para dar conta de 5% da demanda. O Hospital Psiquiátrico Eduardo Ribeiro continua sendo o foco dos atendimentos, e ainda trabalha na perspectiva tradicional do confinamento e da doença mental vista isoladamente do contexto político. Trata-se o trabalhador doente como um apêndice, como uma exceção, sem perceber que ele é a regra do jogo, o resultado da exploração do trabalho numa economia falseada e mantida à base de artifícios. As lideranças da chamada reforma psiquiátrica, no Amazonas, longe de compreender os governos como focos de disseminação de elementos psicopatogênicos, partilham das mesmas opiniões e, via de regra, têm o mesmo entendimento reduzido. Longe do entendimento do psiquiatra italiano Franco Rotelli, para quem a dimensão da doença mental ultrapassa os limites da individualidade e transborda sobre a questão social e dos direitos humanos.

Assim, a contribuição da cidade para a Luta Antimanicomial, infelizmente, tem se reduzido à produção em massa de condições para o adoecer e o enlouquecimento.