“Nós Não Éramos Índios”

America. Americen Americus retexit, Semel vocauit inde semper exitam (the astrolabe) PAF7094

Stradanus, Américo Vespúcio descobrindo a América.

Aicué curí uiocó, Paraná-assú sui, peruaiana, quirimbaua pirrí pessuí: “vai aparecer do rio maior, o maior e mais poderoso inimigo de vocês”. Foi com essa mensagem que Poronominaré, o grande mensageiro de Tupana, tentou prevenir todos os povos que dominavam essas terras antes de 1500. Talvez os pajés e os chefes imaginassem que esse poderoso inimigo fosse uma epidemia, ou a ira dos ventos, revolta das matas ou mesmo vingança de Curupira. Mas em nenhum momento eles imaginaram que o inimigo seria o homem branco, vindo do meio do mar, conforme testemunharam os olhares Tupiniquim, Tupinambá, e quem sabe outros povos nativos da costa Atlântica. Muitos anos depois, essa mesma história se repetiria nas terras dos calentes xavante, kaiapó, juruna e kayabi, no Centro-Oeste, entre os tarumã, baré e manao, na confluência dos rios Negro e Solimões, e entre os tukano, baniwa, desana e outros no extremo Norte, no alto Rio Negro.

Possivelmente foram recebidos com grande surpresa e admiração, mostrando-se, por sua vez, com cara de bons amigos, oferecendo presentes, tentando se comunicar através de gestos e sinais. Em seguida, voltaram a seu país de origem, para comunicar ao rei a descoberta de novas terras, habitadas por indianos bugres ou indianos selvagens. Com essa notícia, o rei de Portugal deve ter, naturalmente, enviado para essas terras vários navios com milhares de pessoas, com autorização para ocupar e dominar o maior espaço possível de território então ocupado por seus verdadeiros donos, à custa de qualquer preço.

Enquanto isso, o povo jamais poderia imaginar a tamanha barbaridade de que o homem branco seria capaz. Não sabiam que a partir de então estavam decretados o genocídio, o etnocídio, os massacres e as opressões contra aqueles que passaram a ser chamados de índios.

No rio Negro, habitado ao longo de todo o seu curso pelo povo baré e, em seus afluentes, pelos tukano, desana, arapasso, wanano, tuyuka, baniwa, warekena e outros, ocorreram as mesmas violências. Povos e aldeias inteiras foram dizimados pelos invasores franceses, holandeses e portugueses. Comerciantes brancos, credenciados pelos governadores das províncias, eram portadores de carta-branca para praticar qualquer ato criminoso contra os povos indígenas. Nem mesmo o grande cacique guerreiro Wayury-Kawa (Ajuricaba) conseguiu livrar seu povo dos carrascos invasores, pois a luta era totalmente desigual: enquanto os índios lutavam com suas flechas e zarabatanas, os brancos disparavam poderosos canhões contra homens, mulheres e crianças que tentavam impedi-los de entrar em suas terras. Mas, mesmo dominado, preso e ferido, Ajuricaba preferiu a morte, jogando-se acorrentado ao rio.

Hoje, quinhentos anos depois, ainda lembramo-nos das tristes histórias contadas pelos nossos avós. Eles diziam que os primeiros comerciantes que apareceram no rio Negro traziam consigo mercadorias como fósforo, terçados, machados e tecidos, com que tentavam convencer os índios a produzir borracha, castanha, balata, piaçaba, cipó-titica e outros produtos naturais. Como essas mercadorias despertavam pouco interesse entre os índios, eles passaram a usar a violência, atacando aldeias e aprisionando homens e mulheres para levá-los aos seringais, castanhais, sorvais ou piaçabais localizados nos rios Branco, Uacará, Padauiri e Preto. Muitos nunca mais voltavam desses lugares, uns porque não resistiram aos maus-tratos dos patrões, outros porque foram vítimas de doenças contagiosas, como febre amarela, gripe, varíola ou sarampo. Ainda hoje, há descendentes dos barés, tukano, baniwa e warekena que vivem nesses rios, em uma vida de escravidão. Há pessoas de mais de 60 anos que sequer conhecem o rio Negro, mas apenas a lei do patrão.

Até as primeiras décadas do século XX, era “de praxe” o branco ter a seu serviço homens e mulheres indígenas, fosse para simples trabalhos domésticos ou para trabalhos mais sacrificados, como servir como remadores nas grandes canoas que saíam de Tawa (São Gabriel) até Belém do Pará, levando produto e trazendo mercadoria, numa viagem que demorava de seis a dez meses. Muitos remadores não conseguiam retornar, mortos durante a viagem pelo patrão. Aqueles que iam para extrair borracha ou outros produtos eram obrigados a produzir uma determinada quantidade para entrega e, caso não atingissem sua cota, eram açoitados no terreiro do barracão. Os que eram obrigados a assistir esse espetáculo deviam dar risadas para não ter o mesmo destino.

Nessa mesma época, apareceram os primeiros missionários. Eles tinham o propósito de aldear os índios, com a intenção de livrá-los da garra dos patrões e submetê-los a crer em Deus através da evangelização católica. Essa investida, no entanto, foi pior que qualquer sofrimento físico, pois obrigou os índios a abandonarem várias de suas práticas culturais, como as curas, as festas de Dabukuri, os rituais de preparação dos jovens e suas formas de homenagear e agradecer o grande criador do universo. Tudo isso virou ato diabólico na lei dos missionários. Nos grandes prédios das missões, foram criadas escolas onde os índios eram obrigados a falar a língua portuguesa e a rezar em latim.

Nas primeiras décadas do século também se instalou na região do baixo rio Waupes (Uauapés), na Ilha de Bela Vista, a família Albuquerque. Um desses, que se fez conhecer por Manduca, não por ser bom, mas por ser perverso e bêbado, recebeu o título de diretor de índios pelo antigo Serviço de Proteção aos Índios. Manduca Albuquerque fazia questão de divulgar sua fama pelos rios Waupes, Tiquié e Papuri. Toda a população desses rios tinha de ser seu produtor de borracha e farinha. Nesse tempo, ele comprou um dos primeiros motores, com que transportava sua produção e seus homens, mas índios tinham que remar mesmo quando o motor estava funcionando e só podiam viajar sentados ou deitados. Conta-se que um dia ele viajou com seu motor até Manaus, quando alguns índios decidiram matar um de seus capangas mais perversos. Quando Manduca chegou, ao saber da notícia, mandou seus capangas prenderem todos os homens e mulheres de um determinado lugar para conversar com ele.

Quando esse pessoal chegou, ele já estava em estado de embriaguez e ordenou que todos fossem amarrados a um pé de laranjeira onde havia um enorme formigueiro, até o dia seguinte. Decidiu, então, que todos embarcassem no seu barco motorizado para que ele, pessoalmente, os levasse de volta.

Nessa viagem, em meio a uma grande bebedeira de cachaça, ordenou que três de cada vez caíssem na água. Então começou a disparar com seu rifle 44 na cabeça de cada um, e assim matou todos.

Nas décadas de 1950 e 1960, nos rios Waupes, Tiquié, Içana e Xié, o produto industrializado chegava através dos chamados regatões (comerciantes ambulantes), que também se aproveitavam da mão-de-obra barata dos índios. Na sua mercadoria sempre tinha a cachaça, com a qual embriagavam os homens, para abusar sexualmente das mulheres casadas e solteiras, como forma de pagamento das dívidas contraídas por pais e maridos.

Apesar de todo esse passado de violência e massacre, podemos registrar alguma coisa como vitória: a demarcação das cinco terras indígenas do alto rio Negro, confirmando mais uma vez a profecia do grande mensageiro de Tupana, o Poronominaré. Em uma de suas visitas a seu povo, muito irritado, disse: Puxí curí peçassa amun-itá ruaxara maramên curí pemanduari ixê, aramen curí peiassúca peiaxiú Paraná ribiiuá upê, pemuncamém peruá, pericu-aram maam peiara, tupanaumeém ua peiaram (“vocês agora vão ser dominados por outras pessoas, até quando se lembrarem de mim, aí então irão ao rio tomar banho e chorar mostrando suas caras, para que assim eu vos reconheça e Tupana devolva aquilo que sempre foi de vocês”).

Analisando essa grande profecia, vemos que o povo de Tupana não era unicamente o povo baré. Concluímos que os povos tinham que passar por esse longo período se sofrimento. Mas, depois que se reconhecessem, começariam, então, a reconquistar seus direitos originários, agiriam como índios, brasileiros, amazonenses, são-gabrielenses. A grande conquista do reconhecimento dos mais de dez milhões de hectares de terra demarcadas no rio Negro resultou de uma luta que foi consequência desse passado. Mesmo assim, se alguns dos nossos antepassados nos vissem no estado em que estamos e lhes perguntássemos porque eles há quinhentos anos viviam livres e tranquilos, certamente nos responderiam: “nós não éramos índios”.

Bráz França Baré, “Origem do Povo Baré”, trecho do livro “Baré: povo do rio”.

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Memória Apagada e Reescrita com Sangue

Extraído de “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell.

CAPÍTULO VII

Aquele inverno foi horrível. Às tempestades seguiram-se o granizo e as nevadas, depois o gelo, que somente se desfez em meados de fevereiro. Os bichos fizeram todo o possível na reconstrução do moinho de vento, conscientes de que o mundo tinha os olhos sobre eles e de que os invejosos seres humanos vibrariam de contentamento se o moinho não fosse concluído a tempo.

Apesar de tudo, os humanos recusaram-se a crer que Bola-de-Neve tivesse destruído o moinho de vento: afirmavam que as paredes caíram porque eram finas demais. Os animais sabiam não ser essa a causa. Mesmo assim, deliberaram desta vez construir as paredes com noventa centímetros de largura, ao invés de quarenta e cinco, como inicialmente, o que exigia muito mais pedra. Durante longo tempo a pedreira esteve coberta de neve e foi impossível fazer qualquer coisa. Algum progresso se conseguiu depois, no tempo gelado e seco que se seguiu, mas foi um trabalho cruel, e os animais já não o realizavam com a mesma esperança de antes. Andavam sempre com frio e, normalmente, com fome. Somente Sansão e Quitéria nunca desanimavam. Garganta fazia excelentes discursos sobre a alegria e a dignidade do trabalho, mas os animais encontravam maior inspiração na força de Sansão e no seu indefectível brado “Trabalharei mais ainda!”

Em janeiro, a comida diminuiu. A ração de milho foi drasticamente reduzida e anunciou-se que uma ração extra de batata seria entregue em seu lugar. Descobriu-se então que a maior parte da colheita de batatas estava congelada nas pilhas, não suficientemente protegidas. Moles e descoradas, poucas continuavam comíveis. Durante dias seguidos, os bichos não tiveram senão palha e beterraba pare comer. O espectro da fome surgia à sua frente.

Era imprescindível ocultar esse fato ao restante do mundo. Encorajados pelo colapso do moinho de vento, os humanos andavam renovando mentiras sobre a Granja dos Bichos. Mais uma vez se dizia que os bichos morriam de fome e doenças, que brigavam continuamente entre si e que haviam descambado para o canibalismo e o infanticídio. Napoleão bem sabia dos maus resultados que poderiam advir, caso a verdadeira situação alimentar da granja fosse conhecida, e resolveu utilizar o Sr. Whymper para divulgar uma impressão contrária. Até então, os animais tinham tido muito pouco ou nenhum contato com Whymper, em suas visitas semanais: agora, entretanto, alguns bichos selecionados, principalmente ovelhas, foram instruídos para comentarem, casualmente, mas de forma bem audível, o fato de terem sido aumentadas as rações. Em complemento, Napoleão deu ordens para que as tulhas do depósito, que estavam quase vazias, fossem recheadas de areia quase até a boca, depois completadas com cereais e farinha. A um pretexto qualquer Whymper foi conduzido através do depósito e pôde dar uma olhadela nas tulhas. Foi enganado e continuou a dizer lá fora que, absolutamente, não havia falta de alimento na Granja dos Bichos.

Não obstante, no fim de janeiro, tornou-se positiva a necessidade de conseguir-se mais cereais em algum lugar. Naqueles dias Napoleão raramente apareceu em público, passando o tempo todo no casarão, guardado por um cão mal-encarado em cada porta. Quando surgiu outra vez, foi de maneira cerimoniosa, com uma escolta de seis cachorros que o cercavam de perto e rosnavam caso alguém se achegasse demais. Freqüentemente não aparecia, nem sequer aos domingos de manhã, enviando suas ordens por intermédio de outro porco, de preferência Garganta.

Certa manhã de domingo, Garganta anunciou que as galinhas, que recentemente haviam começado a pôr, deveriam entregar-lhe seus ovos, pois Napoleão assinara, por intermédio de Whymper, um contrato de fornecimento de quatrocentos ovos por semana. O preço destes pagaria, em cereais e farinha, o bastante para manter a granja até que chegasse o verão e as condições do tempo melhorassem.

Ao ouvirem isso, as galinhas responderam com um terrível cacarejo. Já haviam sido alertadas sobre essa possibilidade, mas não pensavam que viesse a tornar-se realidade. Como havia pouco — preparavam suas ninhadas de ovos para a chocagem da primavera, protestaram dizendo que tomar-lhes os ovos, agora, era um crime. Pela primeira vez, desde a expulsão de Jones, aconteceu algo parecido com uma rebelião. Lideradas por três jovens frangas Minorca, as galinhas realizaram uma ação visando a contrariar os desejos de Napoleão. O método usado foi voar para os caibros do telhado é dali por os ovos, que vinham despedaçar-se no chão. Napoleão agiu rápida e implacavelmente. Cortou a ração das galinhas e decretou que o bicho que fosse apanhado dando a elas um grão sequer de alimento seria condenado à morte. Os cachorros fiscalizavam a execução da ordem. As galinhas resistiram por cinco dias, depois capitu1aram e voltaram para os ninhos. Nove haviam morrido. Seus corpos foram enterrados no pomar e, segundo se disse, a causa da morte fora coccidiose. Whynper nada ouviu sobre esse caso, e os ovos foram entregues pontualmente, vindo um caminhão semanalmente buscá-los.

Entrementes, não se falava mais em Bola-de-Neve. Havia rumores de que estaria homiziado em uma das granjas vizinhas, Foxwood ou Pinchfield. Nessa época, Napoleão andava em termos ligeiramente melhores com os outros granjeiros É que havia no pátio várias pilhas de madeira, feitas dez anos antes, por ocasião da derrubada de um bosque de faias. Como a madeira já estava bem seca, Whymper aconselhara Napoleão a vendê-la, e tanto Pilkington como Frederick desejavam comprá-la. Napoleão hesitava entre os dois, sem decidir-se. Notou-se que toda vez que parecia ter chegado a um acordo com Frederick, surgia o boato de que Bola-de-Neve estava escondido em Foxwood, ao passo que, quando se inclinava para Pilkington, Bola-de-Neve deveria andar em Pinchfield.

Subitamente, no início da primavera, descobriu-se um fato alarmante. Bola-de-Neve estava freqüentando a granja à noite, secretamente! Os bichos ficaram tão preocupados que mal podiam dormir em seus estábulos. Todas as noites, dizia-se, ele se esgueirava nas sombras e perpetrava um sem número de maldades Roubava milho, entornava baldes de leite, quebrava ovos, esmagava os viveiros de sementes e roía o córtex das árvores frutíferas. Sempre que algo errado aparecia, o culpado era Bola-de-Neve. Uma janela quebrada, um dreno entupido, e alguém com certeza diria que Bola-de-Neve viera à noite e fizera aquilo; quando se perdeu a chave do depósito, toda a granja se convenceu de que Bola-de-Neve a jogara no fundo do poço. Interessante foi continuarem a acreditar, mesmo depois que a chave perdida foi encontrada sob um saco de farinha. As vacas declararam unanimemente que Bola-de-Neve entrara em suas baias e as havia ordenhado durante o sono. Os ratos, por incomodarem muito durante o inverno, foram taxados de aliados de Bola-de-Neve.

Napoleão decretou uma ampla investigação sobre as atividades de Bola-de-Neve. Com seus cachorros em posição de alerta, saiu e fez uma cuidadosa inspeção nos galpões da fazenda, com os outros animais a segui-lo a uma distância respeitosa. A pequenos intervalos, Napoleão parava e farejava o chão em busca de sinais de Bola-de-Neve que, segundo disse, podia perceber pelo faro. Cheirou cada canto, no celeiro, no estábulo, nos galinheiros, na horta, encontrando vestígios de Bola-de-Neve em quase toda parte. Invariavelmente encostava o focinho no chão, puxava algumas cheiradas profundas e exclamava numa voz terrível: “Bola-de-Neve! Andou por aqui! Sinto perfeitamente o cheiro!”. E, à palavra “Bola-de-Neve”, a cachorrada soltava grunhidos sanguinários, pondo os dentes à mostra.

Os animais andavam aterrorizados. Parecia-lhes que Bola-de-Neve era uma espécie de entidade invisível, impregnando o ar à sua volta e ameaçando-os com todas as espécies de perigos. Certa tarde, Garganta reuniu-os e, com uma expressão alarmada, disse-lhes ter várias notícias para dar.

— Camaradas — gritou, fazendo trejeitos nervosos — descobrimos uma coisa pavorosa. Bola-de-Neve vendeu-se a Frederick, da Granja Pinchfield, que neste mesmo instante está planejando atacar-nos e tomar nossa granja! Bola-de-Neve será o guia, quando o ataque começar. Mas ainda há pior. Nós pensávamos que a rebelião de Bola-de-Neve for a causada por sua vaidade e ambição. Pois estávamos enganados, camaradas. Sabeis qual foi a verdadeira razão? Bola-de-Neve era aliado de Jones desde o início! Foi, o tempo todo, agente de Jones. Tudo isso está comprovado em documentos que deixou e que só agora descobrimos. Para mim isso explica muita coisa, camaradas. Pois não vimos, com os nossos próprios olhos, a maneira como ele tentou — felizmente sem conseguir — fazer que fôssemos derrotados e destruídos na Batalha do Estábulo?

Os bichos ouviam estupefatos. Isto era um crime muitíssimo maior do que ter destruído o moinho de vento. Mas alguns minutos se passaram até eles compreenderem a completa significação de tudo aquilo. Todos se lembravam, ou julgavam lembrar-se, de terem visto Bola-de-Neve carregando à frente, na Batalha do Estábulo, de como ele os encorajava e incitava a cada instante, não titubeando um só segundo quando as balas de Jones rasgaram-lhe o dorso. Inicialmente foi difícil entender de que maneira isso combinava com estar do lado de Jones. Até Sansão, que raras vezes fazia perguntas, ficou confuso. Deitou-se, enfiou as patas dianteiras debaixo do corpanzil, fechou os olhos e, com grande esforço, tentou reunir os pensamentos.

— Não acredito — disse. — Bola-de-Neve lutou bravamente na Batalha do Estábulo. Isso eu vi com meus próprios olhos. Pois nós até não lhe demos uma “Herói Animal, Primeira Classe”, logo depois?

— Esse foi o nosso erro, camaradas. Pois agora sabemos, e está tudo escrito nos documentos encontrados que, na realidade, ele tentava conduzir-nos à desgraça.

— Mas ele foi ferido — insistiu Sansão. — Todos o vimos ensangüentado.

— Isso era parte do trato — gritou Garganta. — O tiro de Jones pegou apenas de raspão. Eu poderia mostrar isso a vocês, escrito com a letra dele mesmo, se vocês soubessem ler. A combinação era Bola-de-Neve dar o sinal de retirada no momento crítico e abandonar o terreno ao inimigo. E ele quase conseguiu isso, posso dizer até que teria conseguido, se não fosse o nosso heróico Líder, o Camarada Napoleão. Lembram-se de que, bem no momento em que Jones e seus homens atingiram o pátio, Bola-de-Neve, de repente, virou-se e fugiu, seguido de muitos animais? E não foi nesse exato momento, quando já nos dominava o pânico e tudo parecia perdido, que o Camarada Napoleão surgiu proferindo o brado de “Morte à Humanidade!” e fincou os dentes na perna de Jones? Por certo vocês se lembram disso, não é, camaradas? — exclamou Garganta, dando pulinhos de um lado para outro.

Bem, agora que Garganta descrevera a cena tão vividamente, parecia aos animais que de fato se lembravam. Pelo menos lembravam-se de, no momento crítico da Batalha, Bola-de-Neve voltar-se para fugir. Sansão, porém, ainda permanecia um tanto contrafeito.

— Não acredito que Bola-de-Neve fosse um traidor desde o começo — disse por fim. — O que fez depois, é outra coisa. Eu ainda acho que na Batalha do Estábulo ele foi um bom camarada.

— Nosso Líder, o Camarada Napoleão — disse — Garganta, falando devagar e com firmeza — declarou categoricamente, categoricamente, camaradas!, que Bola-de-Neve era agente de Jones desde o início…sim, desde o instante mesmo em que imaginamos a Revolução.

— Ah, isso é diferente! — respondeu Sansão — Se o Camarada Napoleão diz, deve ter razão.

— Hum, esse é o verdadeiro espírito, camarada! — exclamou Garganta. Porém, todos notaram a olhadela feia que deu para Sansão, com seus olhos matreiros.

Depois virou-se para ir embora, mas se deteve e acrescentou de maneira impressionante:

— Alerto a todos os animais desta fazenda para que mantenham os olhos bem abertos. Temos motivos para pensar que alguns dos agentes secretos de Bola-de-Neve estão ocultos entre nós neste momento! Quatro dias depois, à tardinha, Napoleão mandou que os bichos se reunissem no pátio. Quando todos haviam comparecido, Napoleão emergiu do Casarão, ostentando ambas as suas medalhas (pois recentemente conferira a si próprio a “Herói Animal — Primeira Classe” e a “Herói Animal, Segunda Classe”), com seus nove cachorros fazendo demonstrações à sua, volta e soltando rosnados que causavam calafrios nas espinhas dos animais. Estes se encolheram silenciosos em seus lugares, parecendo pressentir que algo horrível estava por acontecer.

Napoleão parou e dirigiu um olhar severo à assistência; depois deu um guincho estridente. Imediatamente os cachorros avançaram, pegando quatro porcos pelas orelhas e arrastando-os a guinchar, de dor e terror, até os pés de Napoleão. As orelhas dos porcos sangraram e o gosto do sangue pareceu enlouquecer os cachorros. Para surpresa de todos, três deles lançaram-se sobre Sansão. Este reagiu com um pataço que pegou um dos cachorros ainda no ar, jogando-o ao solo. O cachorro ganiu pedindo compaixão, e os outros dois fugiram, com o rabo entre as pernas. Sansão olhou para Napoleão para saber se devia liquidar o cachorro ou deixá-lo ir. Napoleão pareceu mudar de idéia e rispidamente ordenou a Sansão que o soltasse, e ele ergueu a pata, deixando ir o cachorro ferido, uivando.

O tumulto amainou. Os quatro porcos esperavam trêmulos, com a culpa desenhada em cada linha do semblante. Então Napoleão concitou-os a confessar seus crimes. Eram os mesmos que haviam protestado quando Napoleão abolira as Reuniões dominicais. Sem mais demora, confessaram ter realizado contatos secretos com Bola-de-Neve desde o dia de sua expulsão e haver colaborado com ele na destruição do moinho de vento; confessaram ainda que também haviam-se comprometido com ele a entregar a Granja dos Bichos a Frederick. Acrescentaram que Bola-de-Neve havia admitido, na presença deles, ter sido durante muitos anos agente secreto de Jones. Ao fim da confissão, os cachorros estraçalharam-lhes a garganta e, com voz terrível, Napoleão perguntou se algum outro animal tinha qualquer coisa a confessar.

As três galinhas que haviam liderado a tentativa de reação a respeito dos ovos aproximaram-se e declararam que Bola-de-Neve lhes aparecera em sonho, instigando-as a desobedecerem as ordens de Napoleão. Também foram degoladas. Aí veio um ganso e confessou ter escondido seis espigas de milho durante a colheita do ano anterior, comendo-as depois, à noite. Uma ovelha confessou ter urinado no açude por insistência, disse, de Bola-de-Neve — e duas outras ovelhas confessaram ter assassinado um velho bode, seguidor especialmente devotado de Napoleão, fazendo-o correr em volta de uma fogueira quando ele, coitado, estava com um ataque de asma. Foram mortas ali mesmo. E assim prosseguiu a sessão de confissões e execuções, até haver um montão de cadáveres aos pés de Napoleão e no ar um pesado cheiro da sangue, coisa que não sucedia desde a expulsão de Jones.

Quando tudo acabou, os bichos sobreviventes, com exceção dos porcos e dos cachorros, retiraram-se furtivamente, trêmulos e angustiados. Não sabiam o que era mais chocante, se a traição dos animais que se haviam acumpliciado com Bola-de-Neve, ou se a cruel repressão recém-presenciada. Nos velhos tempos eram freqüentes as cenas sangrentas, igualmente horripilantes, entretanto agora lhes pareciam ainda piores, uma vez que ocorriam entre eles mesmos. Desde o dia em que Jones deixara a fazenda, até aquele dia, nenhum animal matara outro animal. Nem sequer um rato fora morto. Haviam percorrido o caminho até a colina do moinho inacabado e de comum acordo deitaram-se, procurando aquecer uns aos outros — Quitéria, Maricota, Benjamim, as vacas, as ovelhas e todo o bando de gansos e galinhas, todos eles, afinal, exceto o gato, que desaparecera de repente, ao chegar a ordem de Napoleão para a reunião. Durante algum tempo ninguém falou. Somente Sansão permanecia de pé. Andava, impaciente, de um lado para o outro, batendo com a longa cauda negra aos flancos e proferindo, de vez em quando, um gemido de estupefação. Finalmente disse:

— Não entendo. Nunca pensei que coisas assim pudessem acontecer em nossa granja. Deve ser o resultado de alguma falha nossa. A solução que vejo é trabalhar mais ainda. Daqui por diante, vou levantar uma hora mais cedo.

E saiu no seu trote pesadão, rumo à pedreira. Lá chegando, juntou dois grandes montes de pedras e arrastou-os até o moinho de vento, antes de recolher-se para dormir.

Os bichos se amontoaram em volta de Quitéria, em silêncio. O outeiro onde estavam dava-lhes uma ampla vista da região. A maior parte da Granja dos Bichos abria-se ante eles — a grande pastagem que se estendia até a estrada, o campo de feno, o bosque, o açude, os campos arados onde estava o trigo novo, ainda fino e verde, e os telhados vermelhos do casario da granja, onde a fumaça saía das chaminés. Era, uma tarde clara de primavera. A grama e a sebe em brotação douravam-se aos raios horizontais do sol. Jamais a granja lhes parecera — e com uma espécie de surpresa lembraram-se de que tudo era deles, cada centímetro era de sua propriedade — um lugar tão agradável. Olhando pela encosta da colina, Quitéria ficou com os olhos cheios de água. Se pudesse exprimir seus pensamentos, diria que aquilo não era bem o que pretendiam ao se lançarem, anos atrás, ao trabalho de derrubar o gênero humano. Aquelas cenas de terror e sangue não eram as que previra naquela noite em que o velho Major, pela primeira vez, os instigara à rebelião. Se ela própria pudesse imaginar o futuro, veria uma sociedade de animais livres da fome e do chicote, todos iguais, cada qual trabalhando de acordo com sua capacidade, os mais fortes protegendo os mais fracos, como ela protegera aquela ninhada de patinhos na noite do discurso do Major. Em vez disso — não podia compreender por que — haviam chegado a uma época em que ninguém ousava dizer o que pensava, em que os cachorros rosnantes e malignos perambulavam por toda parte e a gente era obrigada a ver camaradas feitos em pedaços após confessarem os crimes mais horríveis. Não tinha em mente idéias de rebelião ou desobediência. Sabia que, por piores que fossem, as coisas estavam muito melhores do que nos tempos de Jones e que antes de mais nada era preciso evitar o retorno dos seres humanos. Acontecesse o que acontecesse, ela permaneceria fiel, trabalharia bastante, cumpriria as ordens recebidas e aceitaria a liderança de Napoleão. Mesmo assim, não fora por aquilo que ela e todos os animais haviam esperado e trabalhado. Não fora para aquilo que haviam construído o moinho de vento e enfrentado as balas da espingarda de Jones. Tais eram seus pensamentos, embora ela não tivesse palavras para expressá-los.

Por fim, sentindo que assim substituiria as palavras que não conseguia encontrar, começou a cantar Bichos da Inglaterra. Os outros animais, sentados à sua volta, foram aderindo e cantaram a canção três vezes — bem na melodia, mas lenta e tristemente como nunca haviam cantado antes.

Mal haviam terminado de cantar a terceira vez, apareceu Garganta, seguido de dois cachorros, com ar de quem tem coisa muito importante a dizer. Anunciou que, por decreto especial do Camarada Napoleão, a canção Bichos da Inglaterra fora abolida. Daquele momento em diante, era proibido cantá-la.

Os animais foram colhidos de surpresa.

— Por quê? — exclamou Maricota.

— Não há necessidade, camaradas — respondeu Garganta inflexivelmente. — Bichos da Inglaterra era a canção da Revolução. Mas a Revolução agora está concluída. A execução dos traidores, hoje à tarde, foi o ato final. Em Bichos da Inglaterra expressávamos nosso anseio por uma sociedade melhor, no porvir. Ora, essa sociedade já foi instituída. Evidentemente, o hino não tem mais valor algum.

Mesmo amedrontados como estavam, alguns animais poderiam ter protestado, se nesse momento as ovelhas não enveredassem pelo “Quatro pernas bom, duas pernas ruim”, que durou vários minutos, pondo fim à discussão.

E, assim, não mais se ouviu Bichos da Inglaterra. Em seu lugar, Mínimo, o poeta, compusera outra canção que começava dizendo:

Granja dos Bichos,

Granja dos Bichos,

Jamais te farão mal!

e isto passou a ser cantado todos os domingos após o hasteamento da bandeira. Mas, de certa maneira, nem a letra nem a música jamais pareceram, aos animais, como as de Bichos da Inglaterra.

As Bençãos Mistas da Liberdade

Numa versão apócrifa da Odisseia (“Odysseus und die Schweine: das Unbehagen an der Kultur”), Lion Feuchtwanger propôs que os marinheiros enfeitiçados por Circe e transformados em porcos gostaram de sua nova condição e resistiram desesperadamente aos esforços de Ulisses para quebrar o encanto e trazê-los de volta à forma humana. Quando informados por Ulisses de que ele tinha encontrado as ervas mágicas capazes de desfazer a maldição e de que logo seriam humanos novamente, fugiram numa velocidade que seu zeloso salvador não pôde acompanhar. Ulisses conseguiu afinal prender um dos suínos: esfregada com a erva maravilhosa, a pele eriçada deu lugar a Elpenoros – um marinheiro, como insiste Feuchtwanger, em todos os sentidos mediano e comum, exatamente “como todos os outros, sem se destacar por sua força ou por sua esperteza”. O “libertado” Elpenoros não ficou nada grato por sua liberdade, e furiosamente atacou seu “libertador”:

Então voltaste, ó tratante, ó intrometido? Queres novamente nos aborrecer e importunar, queres novamente expor nossos corpos ao perigo e forçar nossos corações sempre a novas decisões? Eu estava tão feliz, eu podia chafurdar na lama e aquecer-me ao sol, eu podia comer e beber, grunhir e guinchar, e estava livre de meditações e dúvidas: “O que devo fazer, isto ou aquilo?”. Por que vieste? Para jogar-me outra vez na vida odiosa que eu levava antes?

Zigmunt Bauman, Modernidade Líquida.

Anamnésia e hipomnésia: Platão, primeiro pensador do proletariado

Este texto trata da exteriorização da memória, isto é, da técnica como perda do saber. O processo de exteriorização (mnemotecnologias) se concretiza como história da gramatização, história técnica da memória, onde a memória hipomnésica relança a constituição de uma tensão de memória anamnésica. Como as questões filosóficas são questões de transindividuação, em termos de filosofia política, trata-se de descrever e de criticar os processos concretos de transindividuação e pensar as hypomnémata digitais e as novas formas de otium que podem aparecer e fundar uma nova economia política da memória e do desejo.”

Bernard Stiegler: diretor do Instituto de Pesquisa e Inovação do Centre Georges Pompidou e professor na Université de Technologie de Compiègne, é filósofo e Doutor pela École des Hautes Etudes en Sciences Sociales, Paris. Foi diretor de programa do Collège International de Philosophie, diretor adjunto do Institut National de l’Audiovisuel (INA), diretor do IRCAM, e diretor do departamento de desenvolvimento cultural do Centre Georges Pompidou, Paris.

Tradução de Maria Beatriz de Medeiros. Texto integral aqui.

Nós, Ciborgues – o corpo elétrico e a dissolução do Humano

A subjetividade humana é, hoje, mais do que nunca, uma construção em ruínas. Ela já não tinha mesmo jeito, desde as devastadoras demolições dos “mestres da suspeita”: Marx, Freud, Nietzsche, sem esquecer, é claro, Heidegger. A obra de desconstrução iria prosseguir, incansável, a partir de meados do século XX, com as operações de desalojamento do cogito cartesiano efetuadas pela revisão althusseriana de Marx e pela revisão lacaniana de Freud. Depois, com os pós-estruturalistas, Foucault, Deleuze, Derrida, Lyotard, o estrago se tornaria irremediável e irreversível. Sem volta. A point of no return. A questão não é mais, agora, “quem é o sujeito?”, mas “queremos, ainda, ser sujeitos?”, “quem precisa do sujeito?” (Guzzoni, 1996), “quem tem nostalgia do sujeito?” e, mais radicalmente, talvez, “quem vem depois do sujeito?” (Cadava; Connor; nanCy, 1991). Ou ainda, como Maurice Blanchot (1991), a essa última pergunta podemos, talvez cinicamente, nos limitar a retrucar: “quem mesmo?”.

Mas o sujeito vaza por todos os lados. As feministas não cansam de nos lembrar que o retrato canônico do sujeito que  posa como abstrato, universal, racional, reflexivo evoca – coincidência? – um membro típico de um subconjunto particular do gênero masculino. Os estudos culturais sobre raça e etnia denunciam, de forma insistente, as relações espúrias entre, de um lado, o sujeito que é privilegiado no discurso e nas instituições dominantes e, de outro, o homem branco, de ascendência europeia. A análise pós-colonialista, por sua vez, flagra o sujeito racional e iluminado em suspeitas posições que denunciam as complexas tramas entre desejo, poder, raça, gênero e sexualidade em que ele se vê, inevitável e inequivocamente, envolvido. Reunidas, essas teorias mostram que não existe sujeito ou subjetividade fora da história e da linguagem, fora da cultura e das relações de poder. Sobra alguma coisa?

É, entretanto, na teoria cultural que analisa as radicais transformações culturais pelas quais passamos que podemos ver o desenvolvimento de um pensamento que nos faz questionar radicalmente as concepções dominantes sobre a subjetividade humana. Ironicamente, são os processos que estão transformando, de forma radical, o corpo humano que nos obrigam a repensar a “alma” humana. Quando aquilo que é supostamente animado se vê profunda e radicalmente afetado, é hora de perguntar: qual é mesmo a natureza daquilo que anima o que é animado? É no confronto com clones, ciborgues e outros híbridos tecnonaturais que a “humanidade” de nossa subjetividade se vê colocada em questão.

Pois uma das mais importantes questões de nosso tempo é justamente: onde termina o humano e onde começa a máquina? Ou, dada a ubiquidade das máquinas, a ordem não seria a inversa?: onde termina a máquina e onde começa o humano? Ou ainda, dada a geral promiscuidade entre o humano e a máquina, não seria o caso de se considerar ambas as perguntas simplesmente sem sentido? Mais do que a metáfora, é a realidade do ciborgue, sua inegável presença em nosso meio (“nosso”?), que põe em xeque a ontologia do humano. Ironicamente, a existência do ciborgue não nos intima a perguntar sobre a natureza das máquinas, mas, muito mais perigosamente, sobre a natureza do humano: quem somos nós?

Primeiramente, a ubiquidade do ciborgue. Uma das características mais notáveis desta nossa era (chamem-na pelo nome que quiserem: a mim, “pós-moderna” não me desagrada) é precisamente a indecente interpenetração, o promíscuo acoplamento, a desavergonhada conjunção entre o humano e a máquina. Em um nível mais abstrato, em um nível “mais alto”, essa promiscuidade generalizada traduz-se em uma inextrincável confusão entre ciência e política, entre tecnologia e sociedade, entre natureza e cultura. Não existe nada mais que seja simplesmente “puro” em qualquer dos lados da linha de “divisão”: a ciência, a tecnologia, a natureza puras; o puramente social, o puramente político, o puramente cultural. Total e inevitável embaraço. Uma situação embaraçosa? Mas, cheia de promessas, também: é que o negócio todo é, todo ele, fundamentalmente ambíguo. Vejamos, pois, onde eles (eles?) estão.

Os ciborgues vivem de um lado e do outro da fronteira que separa (ainda) a máquina do organismo. Do lado do organismo: seres humanos que se tornam, em variados graus, “artifciais”. Do lado da máquina: seres artifciais que não apenas simulam características dos humanos, mas que se apresentam melhorados relativamente a esses últimos. De acordo com a taxonomia proposta por Gray, Mentor e Figueroa-Sarriera (1995, p. 3), as tecnologias ciborguianas podem ser: 1. restauradoras: permitem restaurar funções e substituir órgãos e membros perdidos; 2. normalizadoras: retornam as criaturas a uma indiferente normalidade; 3. reconfguradoras: criam criaturas pós-humanas que são iguais aos seres humanos e, ao mesmo tempo, diferentes deles; 4. melhoradoras: criam criaturas melhoradas, relativamente ao ser humano.

A lista apresentada a seguir ilustra as “intervenções” que vêm afetando os dois tipos de “seres”, contribuindo para confundir suas respectivas ontologias. De um lado, a mecanização e a eletrifcação do humano; de outro, a humanização e a subjetivação da máquina. É da combinação desses processos que nasce essa criatura pós-humana a que chamamos “ciborgue”.

Implantes, transplantes, enxertos, próteses. Seres portadores de órgãos “artificiais”. Seres geneticamente modificados. Anabolizantes, vacinas, psicofármacos. Estados “artificialmente” induzidos. Sentidos farmacologicamente intensificados: a percepção, a imaginação, a tesão. Superatletas. Supermodelos. Superguerreiros. Clones. Seres “artificiais” que superam, localizada e parcialmente (por enquanto), as limitadas qualidades e as evidentes fragilidades dos humanos. Máquinas de visão melhorada, de reações mais ágeis, de coordenação mais precisa. Máquinas de guerra melhoradas de um lado e outro da fronteira: soldados e astronautas quase “artificiais”; seres “artificiais” quase humanos. Biotecnologias. Realidades virtuais. Clonagens que embaralham as distinções entre reprodução natural e reprodução artificial. Bits e bytes que circulam, indistintamente, entre corpos humanos e corpos elétricos, tornando-os igualmente indistintos: corpos humano-elétricos.

Depois, a ontologia. Aquilo que caracteriza a máquina nos faz questionar aquilo que caracteriza o humano: a matéria de que somos feitos. A imagem do ciborgue nos estimula a repensar a subjetividade humana; sua realidade nos obriga a deslocá-la. A
imagem da subjetividade humana que tem dominado o nosso pensamento é, como sabemos, aquela que nos foi legada pelo cogito cartesiano: a existência do sujeito é idêntica ao seu pensamento. Embora temperada pelas diversas filosofias hegelianas, kantianas, fenomenológicas e existencialistas, foi a imagem de um sujeito pensante, racional e reflexivo, considerado como a origem e o centro do pensamento e da ação, que esteve subjacente, até recentemente, às principais teorias sociais e políticas ocidentais. Esse “sujeito” é, na verdade, o fundamento da ideia moderna e liberal de democracia. É “ele”, ainda, que está no centro da própria ideia moderna de educação.

Se existe, entretanto, uma criatura tecno-humana que simula o humano, que em tudo parece humana, que age como um humano, que se comporta como um humano, mas cujas ações e comportamentos não podem ser retroagidos a nenhuma interioridade, a nenhuma racionalidade, a nenhuma essencialidade, em suma, a nenhuma das qualidades que utilizamos para caracterizar o humano, porque feita de fluxos e circuitos, de fios e de silício, e não do macio e fofo tecido de que somos ainda feitos, então é a própria singularidade e exclusividade do humano que se dissolve. A heterogeneidade de que é feito o ciborgue – o duro e o mole, a superficialidade e a profundidade – invalida a homogeneidade do humano tal como o imaginamos. A ideia do ciborgue, a realidade do ciborgue, tal como a da possibilidade da clonagem, é aterrorizante, não porque coloca em dúvida a origem divina do humano, mas porque coloca em xeque a originalidade do humano. Kaput. Fim do privilégio.

O ciborgue nos força a pensar não em termos de “sujeitos”, de mônadas, de átomos ou indivíduos, mas em termos de fluxos e intensidades, tal como sugerido, aliás, por uma “ontologia” deleuziana. O mundo não seria constituído, então, de unidades (“sujeitos”), de onde partiriam as ações sobre outras unidades, mas, inversamente, de correntes e circuitos que encontram aquelas unidades em sua passagem. Primários são os fluxos e as intensidades, relativamente aos quais os indivíduos e os sujeitos são secundários, subsidiários.

Integre-se, pois, à corrente. Plugue-se. Ligue-se. A uma tomada. Ou a uma máquina. Ou a outro humano. Ou a um ciborgue. Torne-se um: devir-ciborgue. Eletrifique-se. O humano se dissolve como unidade. É só eletricidade. Tá ligado?

(Tomaz Tadeu, in A Antropologia do Ciborgue: as vertigens do pós-humano. Publicado em 2009, pela Autêntica Editora. Link para o livro nos comentários).

“O Sorriso de Karenin”

Os cães não têm muitas vantagens em relação ao homem, mas uma delas é extremamente importante: para eles, a eutanásia não é proibida por lei; o animal tem direito a uma morte misericordiosa. Karenin andava com apenas três patas, e passava a maior parte do tempo deitada num canto. Gemia. Tereza e Tomas concordavam: não tinham o direito de deixar o animal sofrer inutilmente. Mas o acordo sobre esse princípio não os poupava de uma angustiante incerteza. Como saber em que momento o sofrimento se torna inútil? Como determinar o instante em que não vale mais a pena viver?
Se pelo menos Tomas não tivesse sido médico! Poderia então se esconder atrás de uma terceira pessoa. Poderia procurar um veterinário e pedir que desse uma injeção na cadela.
É tão duro assumir o papel da morte! Há muito tempo, Tomas declarara que não aplicaria a injeção, chamaria o veterinário. Mas afinal compreendeu que poderia conceder a Karenin um privilégio que não está ao alcance dos seres humanos: a morte chegaria para ela sob a máscara daqueles que amava.
Karenin passou a noite inteira gemendo. De manhã, depois de ascultá-la, Tomas disse à Tereza: “Não devemos esperar mais”.
Teriam de sair para o trabalho dentro de pouco tempo. Tereza foi procurar Karenin no quarto. Até então ela estava deitada na mais completa indiferença (mesmo alguns minutos antes, quando era examinada por Tomas, não prestara nenhuma atenção), mas agora, ouvindo a porta abrir, levantou a cabeça e olhou para Tereza.
Ela não pôde suportar esse olhar, fazia-lhe quase medo. Nunca olhava assim para Tomas, só para ela. Mas nunca com a intensidade de agora. Não era um olhar desesperado ou triste – era o olhar de uma terrível, de uma insuportável credulidade. Esse olhar era uma pergunta ansiosa. Durante toda sua vida Karenin havia esperado pela resposta de Tereza, e agora queria dizer a ela (com mais insistência ainda que antes) que continuava a postos para ouvir dela a verdade (já que tudo que vem de Tereza é para ela a verdade: se ela diz “Sentada!” ou “Deitada!”, são verdades com as quais se identificava e que dão sentido à sua vida).
Esse olhar de terrível credulidade foi muito breve. Logo deitou a cabeça sobre as patas. Tereza sabia que nunca mais seria olhada dessa maneira.
Nunca lhe davam doces, mas uns dias antes ela comprara tabletes de chocolate. Desembrulhou-os do papel prateado, partiu em pedacinhos e espalhou-os à volta dela. Colocou também uma vasilha com água para que não sentisse falta de nada enquanto estivessem fora de casa. Mas o olhar que pousara em Tereza parecia tê-la fatigado. Embora cercado de pedaços de chocolate, não levantou a cabeça.
Tereza deitou-se no chão ao lado dela e tomou-a nos braços. Karenin cheirou-a e aparentando cansaço lambeu-a uma ou duas vezes. Tereza recebeu esse carinho de olhos fechados, como se quisesse gravá-lo para sempre na memória. Virou a cabeça para que Karenin lhe lambesse o outro lado do rosto.
Depois teve que sair para cuidar das novilhas. Só voltou depois do almoço. Tomas ainda não tinha chegado. Karenin continuava deitada, cercada de pedaços de chocolate, e não levantou mais a cabeça quando viu Tereza se aproximar. A perna doente estava inchada e o tumor estourara em outro lugar. Uma gotinha vermelho-clara (que não parecia sangue) havia aparecido entre os pêlos.
De novo, deitou-se junto dela. Passara um braço em torno de seu corpo e fechara os olhos quando ouviu baterem na porta. “Doutor, doutor! O porco está aqui, o porco e seu presidente!” Sentia-se incapaz de falar com alguém. Não se moveu e continuou de olhos fechados. Ouviu ainda uma vez: “Doutor, os porcos vieram fazer-lhe uma visita”, depois fez-se silêncio.
Tomas chegou uma meia hora depois, Sem dizer uma palavra, foi à cozinha preparar a injeção. Quando voltou, Tereza estava de pé, e Karenin fazia força para levantar-se. Ao ver Tomas, abanou o rabo fracamente.
— Olhe! – disse Tereza – ainda sorri.
Disse isso em tom de súplica, como se quisesse com essas palavras pedir uma breve prorrogação , mas não insistiu.
Lentamente, estendeu um lençol na cama. Era um lençol branco estampado com pequenas flores violetas. Aliás, já tinha tudo preparado, já tinha pensado em tudo, como se dias antes já tivesse imaginado a morte de Karenin. (Que horror! Imaginamos com antecipação a morte dos seres que amamos!).
Ela não tinha mais força para subir na cama. Pegaram-na nos braços e a levantaram juntos. Tereza deitou-a de lado, e Tomas examinou-lhe a pata. Procurava um lugar onde a veia estivesse saliente e bem visível. Com uma tesoura, cortou os pelos nesse lugar.
Tereza estava ajoelhada ao lado da cama e com as mãos segurava a cabeça de Karenin de encontro ao seu rosto.
Tomas pediu-lhe que apertasse a pata de trás, logo acima da veia onde ia aplicar a injeção. Tereza fez o que ele pedia sem afastar o rosto da cabeça de Karenin. Ela lhe falava com voz doce – só pensava nela, que não mostrava medo. Lambeu-lhe o rosto ainda duas ou três vezes. Tereza sussurrava: “não tenha medo, não tenha medo, lá você não sofrerá, lá você verá esquilos e lebres, lá haverá vacas, e Mefisto também, não tenha medo…”
Tomas enfiou a agulha na veia e empurrou o êmbolo. Um ligeiro tremor percorreu a pata de Karenin, sua respiração acelerou-se, depois parou de repente. Tereza estava ajoelhada ao lado da cama e apertava o rosto contra a cabeça do animal.
Tiveram que voltar ao trabalho e a cadela ficou deitada na cama, sobre o lençol branco enfeitado de flores violetas.
Chegaram em casa à noite. Tomas foi para o jardim. Encontrou, entre duas macieiras, as quatro linhas do retângulo que Tereza tinha marcado com o salto do sapato alguns dias antes. Começou a cavar. Observou rigorosamente as dimensões traçadas. Queria que tudo se passasse como Tereza imaginara.
Ela estava dentro de casa com Karenin. Tinha medo de enterrá-la viva. Encostou o ouvido em seu focinho, achou que sentia um ligeiro sopro.Afastou-se e viu que seu peito se movia um pouco.
(Não, a respiração que ouvia era a sua própria, que imprimia um movimento imperceptível em seu corpo, fazendo-a acreditar que era o peito do animal que se mexia).
Apanhou um espelho na bolsa e colocou-o em frente do focinho da cadela. O espelho estava tão sujo que achou que estava vendo o vapor deixado pela respiração.
— Tomas, ela está viva – gritou, quando Tomas voltou do jardim, os sapatos cobertos de lama.
Ele debruçou-se sobre o animal e sacudiu a cabeça.
Seguraram, cada um de um lado, o lençol onde repousava Karenin. Tereza do lado das patas, Tomas do lado da cabeça. Levantaram-na e carregaram-na para o jardim.
Tereza sentiu nas mãos que o lençol estava úmido. Ela nos molhou na chegada, e nos molha na partida, pensou. Estava contente de sentir nas mãos essa umidade – o último adeus da cadela.
Levaram-na até as duas macieiras e a colocaram no fundo do buraco. Ela debruçou-se para arrumar o lençol de maneira a envolvê-la inteira. Não podia suportar a ideia de que a terra que a cobriria tocasse no seu corpo nu. Depois entrou em casa e voltou com a coleira e o punhado de pedaços de chocolate que desde a manhã haviam ficado intactos, espalhados no chão. Jugou tudo no túmulo.
Ao lado da cova havia um monte de terra fresca. Tomas segurou a pá.
Tereza lembrou-se do sonho: Karenin tinha dado à luz dois croissants e uma abelha. De repente essa frase parecia um epitáfio. Imaginou, entre as macieiras, um monumento com essa inscrição: “Aqui descansa Karenin. Trouxe à luz dois croissants e uma abelha”.
A penumbra se aprofundava no jardim, não era dia nem noite; no céu havia uma lua pálida, como uma lâmpada esquecida no quarto dos mortos.
Os dois estavam com os sapatos cheios de terra, e levaram a enxada e a pá para o lugar onde estavam guardadas as ferramentas: os ancinhos, regadores e mangueiras de água.
(A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera).