O ATIRADOR DE REALENGO E O NOSSO HORROR DE CADA DIA

A sociedade da teratogenia não pode produzir senão monstros. De todos os matizes. O atirador no Rio de Janeiro não é um desvio da norma social. Ao contrário, a confirma.

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EUA, junho de 2003: George W. Bush, então presidente estadunidense, disse que Deus teria ordenado que ele comandasse as invasões ao Iraque e Afeganistão. Na época, os EUA temiam o extremismo religioso do oriente…

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Rio de Janeiro, Abril de 2011: durante o percurso macabro, o atirador do Rio encontra um aluno no corredor. O aluno pede para não ser morto. O atirador diz que não o machucará. O aluno ora, e diz: “Deus me salvou”. O atirador deixa uma carta que expõe claramente o enredo religioso do ataque, falando em pureza, castidade, virgindade, com claras referências ao Velho Testamento. Se Deus salvou aquele aluno, por que não o fez com os outros?

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Deus salvou o garoto “gordinho” de morrer pelas mãos do atirador, mas não salvou o próprio atirador de ser vítima do ódio e da discriminação da sociedade de consumo.

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A Assembléia de Deus defende a castidade, a virgindade, a pureza. Seus fiéis elegeram e reelegeram Silas Câmara para a câmara federal. Silas é político ficha-suja na lei dos homens, mas é homem puro, casto, virgem sob as bênçãos do pastor.

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Jair Bolsonaro, deputado federal, defende a segregação racial, sexual e de gênero. É aplaudido por setores da sociedade, eleito e reeleito com mais de um milhão de votos. Bolsonaro defende a pureza, a castidade, a virgindade. Seus filhos dizem que o pai apenas diz “o que a maioria da população pensa”.

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Jovens atacam com golpes de lâmpada fluorescente, na Avenida Paulista, um grupo de rapazes. O motivo? Os jovens não são puros, castos, virgens, por serem, evidentemente, homossexuais. Os pais dos agressores alegaram que os filhos foram provocados. O que os terá incomodado na alegria dos gays?

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A  Igreja Católica Apostólica Romana fecha os olhos para o massacre dos povos egípcio, líbio, iemenista, sírio, palestino, dentre outros. Mas condena aquilo que considera impuro, promíscuo, e que não é virgem. A não ser que sejam padres praticantes da pederastia e pedofilia. Nestes casos, os olhos voltam a se fechar, contritos, a pedir em oração que Deus os salve.

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Nos EUA, onde os massacres em escolas são comuns, o Partido Republicano defende a castidade, a pureza, a virgindade, e disse na campanha eleitoral que Obama era mau porque era negro e filho de muçulmanos. Por que esse Deus misericordioso para o qual Sarah Palin e a família Bush dobram os joelhos todos os domingos permite que existam negros e muçulmanos?

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No Brasil, setores da igreja católica, evangélica e da religião espírita entram na onda de demonização da então candidata Dilma Rousseff, e encorpam campanha onde os dogmas da igreja são mais importantes que a política do Bem Comum.

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O atirador do Rio de Janeiro, em carta, pede que “um servidor fiel de Deus” ore na sua sepultura, esperando que Jesus venha despertá-lo do sono da morte para a vida. Mesmo fazendo referência ao filho do Deus cristão, há quem acredite que o atirador era muçulmano.

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A música gospel é um filão cada vez mais lucrativo da industria fonográfica. Cantores e cantoras disputam entre gemidos e gritos para ver quem canta mais alto seu amor por Deus. Nas letras, muitas referências a vencer, lutar, conquistar, e o entendimento que somente os preferidos alcançarão o Reino dos Céus. Deus parece responder, tornando seus adoradores cada vez mais ricos. Mas, e quem não tem dinheiro para comprar os cedês?

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A mídia lucra com esse Deus, seja no usual, seja no acidental. Quer seja um pastor no horário nobre cobrando pureza, castidade e virgindade dos seus fiéis em troca do dízimo, quer seja um atirador que levou a sério o Antigo Testamento e resolveu puniu os “impuros”, o produto bilioso dessa relação é transformado em cara mercadoria, cuja venda gera altos dividendos.

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A sociedade do consumo, entre espectadores e emissores, horroriza-se com um atirador que mata em nome de Deus, mas acha natural o massacre cotidiano cometido em Seu nome.

MUITO ALÉM DO CARTÃO POSTAL APRESENTA “ONDE A CORUJA DORME”

ONDE A CORUJA DORME

“Malandro que é malandro não teme a morte. Malandro que é malandro vai pro norte. Enquanto os patos vão pro sul” (Zeca Baleiro).

Foi em Copacabana, nos anos 60, que, junto com a Bossa Nova, nasceu uma loja de discos única na cidade. Ela ficava na Rua Barata Ribeiro e exibia em seu letreiro a pomposa frase “Modern Sound – a música do mundo”. Sinal dos tempos, a loja que contava com shows de música ao vivo e um bistrô acabou fechando no último dia do ano de 2010, acumulando R$ 350.000,00 em dívidas. Os donos resistiram, durante os últimos anos, aos avanços da tecnologia e a distribuição de cedês em bancas de revista e supermercado pelos próprios fabricantes, que alegavam se defender da pirataria de rua e dos mecanismos de compartilhamento na web.

Como já dizia Darwin, o mundo pertence aos mais adaptados, e não aos mais fortes. E com base nesse movimento pendular do capitalismo (ou você achou que ele falava de natureza?) que ora sopra a favor, ora contra, que Marcelo D2 abriu mão de liderar a banda Planet Hemp e passou a misturar hip hop com samba, mantendo sua brasilidade e ampliando seu público ouvinte. Com isso ele passou a ter a simpatia das rádios, que tocam suas músicas com mais frequência. Recentemente, fez um disco onde canta as músicas do repertório de Bezerra da Silva. Por um lado resgatando a memória do sambista e por outro, recontextualizando as letras e mandando um recado para os próprios rappers. O disco está no mercado desde Novembro de 2010.

É o momento adequado para apresentar aos leitores do Polivocidade um documentário inovador, na forma e no conteúdo, chamado “Bezerra da Silva – Onde a Coruja Dorme”. Lançado em forma de curta em 2001, ganhou formato de longa e foi relançado no mercado em 2006. Confira abaixo a opinião da crítica e a seguir, assista o filme.

Luís Alberto Rocha Melo assina o texto publicado no site http://www.contracampo.com.br

Mais do que nas versões em curta e em média-metragem, é no longa Onde a Coruja Dorme que a idéia de um painel toma corpo. Não um painel dos compositores da periferia do Rio de Janeiro ou do samba de morro – universo com o qual lida o documentário –, mas algo talvez mais ambicioso: os diretores Márcia Derraik e Simplício Neto procuram traçar o painel de um país, ou melhor, de um determinado entendimento de país. A palavra é dada a compositores da Baixada Fluminense como Popular P, 1000tinho, Paulinho Alicate, entre outros, em grande parte desconhecidos do grande público, mas autores de alguns dos maiores sucessos gravados por Bezerra da Silva.

Onde a Coruja Dorme não é um retrato de Bezerra da Silva (no estilo “vida e obra”), muito embora o sambista ocupe um lugar privilegiado no conjunto do documentário. Também não procura ser o registro do cotidiano dos compositores em suas diversas outras profissões (bombeiro, carteiro, técnico de refrigeração etc.). O principal personagem de Onde a Coruja Dorme é a palavra, o discurso – e o seu ritmo. Letra e música, prosa e poética: o país é dito e lido pela ótica dos sambistas da Baixada Fluminense. Márcia Derraik e Simplício Neto registram essa leitura e a reelaboram num documentário de extrema fluidez e agilidade.

É Bezerra da Silva quem de certa forma dá corpo e unidade a esse discurso. Em um dado momento, um dos compositores afirma ter em casa uma enorme quantidade de músicas de amor. Nenhuma delas gravadas, pois Bezerra da Silva não canta o amor: “seria hipocrisia”. A conversa é necessariamente outra.

“Você com o revólver na mão é um bicho feroz/ Sem ele anda rebolando e até muda de voz”. Via Bezerra da Silva, é a ética da malandragem a base do discurso que interessa a Márcia Derraik e a Simplício Neto. Bem entendido: malandragem significa inteligência, nas palavras do próprio Bezerra. Longas seqüências do documentário dedicam-se a refletir sobre essa guerra entre malandros e otários, quase uma metáfora política do país. Através das rodas de samba, dos depoimentos e das imagens de arquivo (algumas delas fabulosas), discute-se o tráfico de drogas e de armas, os políticos picaretas e ladrões, os falsos pais-de-santo, os marginais otários e os marginais malandros, a violência generalizada da tortura policial, do racismo, da “deduragem” e de outras manifestações de falta de ética inadmissíveis para quem não vive a realidade da classe média e dos dóceis valores de solidariedade domingueira em torno da Lagoa ou da orla-Zona Sul.

A própria indústria fonográfica é acusada de explorar os anônimos compositores. Bezerra da Silva é o elo que une os dois pólos. Não por acaso, surge caminhando por uma favela e dando um depoimento com o morro em segundo plano, ou em seu escritório, cercado de discos de platina pendurados na parede. Bezerra da Silva tem livre trânsito entre os “homens de negócio” e a “malandragem” e provoca a mistura de uns com os outros, procurando reverter a situação para o lado mais fraco: acusado de fazer apologia à bandidagem, capitaliza sabiamente – malandramente – essa imagem que lhe impingem, como atestam as geniais e cinematográficas capas dos discos em que Bezerra surge como um criminoso, acuado num beco ou sendo levado para o xadrez.

De forma mais sutil, o próprio documentário, em sua inclinação antropológica, coloca-se em xeque, mais uma vez por intermédio do discurso. A gíria, forma de resistência e de afirmação, torna evidente a distância entre as classes sociais, entre os dois mundos contrapostos pelos personagens de Onde a Coruja Dorme. Os intelectuais e universitários falam uma língua ininteligível para a maior parte da população, e é dessa forma que a classe dominante exerce o seu poder; da mesma forma, o povo responde com a gíria, e se ela não consegue transformar o quadro de dominação, ao menos desequilibra a força do opositor. No filme, alguns personagens exemplificam para os entrevistadores determinadas expressões e códigos, e os explicam em seguida. O documentário assume seu “lugar”.

Tendo a honestidade de se colocar distante do universo retratado e, ao mesmo tempo, não cedendo à piedade típica dos documentários que insistem em ver no “povo” um inesgotável armazém de bondade humana, a tônica de Onde a Coruja Dorme é, enfim, a simpatia. Os documentaristas são bastante simpáticos aos compositores e estes, por sua vez, estão muito à vontade diante da câmera, o que evidencia um cuidado exemplar na condução das conversas, editadas com mestria. O que chama a atenção, porém, é que aqui não percebemos a intenção de transformar o documentário numa janela a revelar, por meio dos depoimentos, uma pretensa “realidade” até então não “notada”. O documentário é bastante explícito ao se assumir como recorte: o que interessa é dar voz, substância ao pensamento dos que estão sendo ali entrevistados.

Dar voz ao morro, como naquela clássica canção de Zé Kéti, é exatamente o que faz Bezerra da Silva. Com um gravador, o intérprete instrui os compositores desconhecidos a deixarem gravados os seus sambas; com o acesso que tem nas gravadoras, imortaliza essas criações que, sem essa intermediação, restariam provavelmente perdidas. São extremamente felizes as imagens em que os compositores, às vezes pouco à vontade, estão diante do gravador cantando suas composições acompanhados pelo ritmo das palmas da mão. A atitude que Márcia Derraik e Simplício Neto têm para com Bezerra da Silva parece ser conduzida pela admiração provocada por uma comunhão de propósitos: o grande sambista é antes de mais nada um grande documentarista.

Do nacional-popular ao musical-popular, Márcia Derraik e Simplício Neto sintonizam-se com uma particular sensibilidade contemporânea, isto é, ritmo e letra. Onde a Coruja Dorme pode ser visto como uma homenagem ao “cinema brasileiro possível”, aquele que se encontra não propriamente nas imagens, mas sobretudo na música.

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ENTREVISTA COM MARCELO FREIXO NO FAZENDO MÉDIA

Entrevista de Marcelo Freixo (deputado pelo PSOL do RJ) no Fazendo Média.

– Ué, cara, bandido perigoso lendo Jorge Amado?
– Tá me sacaneando? Tá tirando onda com quem é macho?
– Eu não, mas você falava que ler não era coisa para você. Que não se renderia aos estudos.
– É que agora sou mais perigoso do que eu era antes. Larguei a arma para pegar no livro.

Já fora do “momento entrevista”, com gravador desligado e canetas em posição de descanso, Marcelo Freixo, 40 anos, contou esse episódio do bandido que resolveu se tornar ainda mais perigoso para o sistema. E é sobre militância, educação popular, segurança pública e mídia que o deputado estadual (PSOL-RJ) conversou com o Fazendo Media. Entrevista concedida a Gilka Resende, Isabela Calil e Raquel Júnia.

Como começou sua militância política?
Fui criado no Fonseca, bairro da zona norte de Niterói, um lugar que também tem favela. Jogava bola no time Fla-Flu, que misturava asfalto e favela, por isso esse nome. A gente jogava no campo do presídio que tem lá. O presídio não era algo tão distante. Era, pelo contrário, o lugar onde eu mais me divertia. Só que com 14 anos, é lógico, eu não tinha menor idéia do que representa o sistema penitenciário. Como uma área periférica, o bairro é marcado pela violência policial e pela violência do varejo da droga. Vi situações absurdas e tive um monte de amigos mortos.

Já mais velho, depois de fazer Economia, fui fazer História. Estava no segundo período na Universidade Federal Fluminense e recebi um convite de uma socióloga para dar para dar aula de graça, dentro do presídio, maior roubada [risos]. A equipe começou a ler Paulo Freire e montamos uma Escola Popular, um projeto de educação dos mais brilhantes que já participei.

Foi revolucionário, pois os presos se envolveram muito. O Edimar, que está ali na porta [apontando], foi um dos presos do projeto, e o Robson, que também trabalha aqui no mandato, também. São exemplos concretos de que projetos assim funcionam, e não a repressão.

Em que ano começou o projeto? Ele funciona até hoje?
Foi em 88, 89, mas não existe mais. Tivemos muita dificuldade. O diretor da prisão, no início, não deu a menor bola. Depois, os presos estavam todos mobilizados, aprendendo a reivindicar, fazendo até carta para o Ministério Público. Aí o diretor não gostou. Mas é claro, né? O resultado de uma educação popular é a organização do povo, é a conscientização. E esse grupo cresceu muito, aprendi muito com aquelas pessoas.

Também militei no movimento sindical e fui, durante vinte anos, filiado ao PT. Quando o Partido dos Trabalhadores saiu de si, eu saí do PT. Depois entrei para o PSOL. Mas minha militância pelos direitos humanos tem essa raiz, que tem a ver com a minha história de vida e com esse momento na UFF. De lá para cá nunca deixei de trabalhar com presídios.

E como você avalia o sistema prisional hoje?
Qualquer sistema penitenciário reflete a sociedade que o produz. Não existe um sistema penitenciário em crise, existe uma sociedade em crise que, aí sim, produz esse sistema penitenciário. Em um país desigual como o Brasil, em que uma parcela da população sobrou, não está empregada, não é cidadã, não serve e precisa ser anulada socialmente e, por vezes, anulada fisicamente, o sistema penitenciário tem seu papel. Esse papel é o da pena de morte social.

Vivemos em uma sociedade onde a relação de classes é muito perversa. Ela não apenas passa mais por um processo de exploração capital-trabalho, mas é um processo de exploração no qual mais que o desemprego, mais do que o não acesso ao trabalho, você tem a anulação do outro como pessoa. Mais do que a porta da fábrica, a porta da favela é a maior trincheira da luta de classes hoje.

E quantas vezes eu já não escutei que direitos humanos são os direitos de defesa do bandido? Na verdade, o que se nega não é fato de ter direito, é o fato de ser humano. Como você não considera que ele tenha os compromissos éticos que você tem, você o anula. E aí se torna inadmissível que ele tenha um conjunto de direitos.

A mídia ajuda a manter essa situação?
Claro! Ela consolida valores. É instrumento fundamental para uma sociedade como a nossa, com uma ordem tão violenta e desigual. E aí é a ordem que é violenta, não é o que atinge a ordem, entende? É como fala Brecht: “Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violenta às margens que o comprimem”. Essa ordem é tirânica. É só olhar para as condições de vida da população pobre.

Na ditadura, a produção de inimigos tinha a ver com uma lógica política. Era aquele que pensava diferente, era a ameaça ideológica ao regime. É só pegar o texto do AI-5 e ler. Mas isso mudou e o novo inimigo público é aquele que sobrou de uma sociedade de mercado. É aquele que está desorganizado, desassistido. É identificado pela cor de pele e pelo local de moradia. Se o cara é negro e foi morto pela polícia, não precisa de investigação, né? Ele já é considerado bandido.

Normalmente, para o poder judiciário permitir que a polícia entre na sua casa, tem que ter uma especificidade, é preciso ter um motivo que garanta que não existem outros caminhos, é algo muito singular. E o que tem acontecido no Rio de Janeiro? O poder judiciário emite o mandato de busca genérico, isto é, determina que a polícia pode entrar em qualquer casa de certas áreas. Que áreas? Só as favelas. É o judiciário absorvendo na sua prática o processo de criminalização da pobreza. Além de identificar quem faz parte da sociedade e quem não faz, esse processo é acompanhado por políticas públicas pensadas e efetivadas.

O Caveirão é um exemplo?
É sim. Como imaginar um país que diz viver um Estado Democrático de Direito, existir um carro blindado que é de policiamento ostensivo? Ele não é para casos de exceção. O Caveirão não tem lugar para botar preso, não tem a chamada “caçamba”. O Caveirão é feito para matar! É um carro com um alto-falante, usado como instrumento de pânico, de terror. É o medo vindo das mãos de quem deveria garantir a segurança ao conjunto da população. É a inversão completa do papel da polícia. Ele é utilizado para uma política de guerra.

Hoje, a essência da luta de classe passa pela questão dos direitos humanos. Falam que estamos em guerra e na guerra tudo vale. Para haver guerra, é necessário um território. No território do inimigo não existe parâmetro legal. E que território é esse? É a favela. É aí que eu digo que a imprensa tem papel fundamental, porque noticia a “guerra do Rio”. E quando se absorve de forma inquestionável que estamos em guerra, você naturaliza e aceita uma série de coisas que a guerra traz, inclusive a morte. E de preferência a morte de quem não é igual a você. Esse também é o discurso do Bope.

O que você achou do filme Tropa de Elite? Qual é a influência dele nesse tema?
O [José] Padilha é um amigo de muitos anos, gosto muito dele. É o mesmo diretor que fez o filme “Ônibus 174”, um documentário extraordinário que contribuiu muito na luta pelos direitos humanos. Quase ninguém viu! E qual o problema do Tropa de Elite? Quando o Padilha fez “Ônibus 174”, ele fez uma opção política. Ele contou a história do Sandro, mas poderia ter contado a história do policial que atirou na Geísa, podia ter contado a história da Geísa.

Quando ele vai fazer Tropa de Elite e escolhe falar de segurança pública no olhar do policial do Bope, ele também faz uma escolha política. Uma escolha política de classe. Por quê? Porque o olhar do policial do Bope não é o olhar do policial apenas. É o olhar de um dos principais instrumentos de classe para manutenção da ordem e de violência contra um determinado setor da sociedade.

O olhar do policial do Bope não é um olhar individual! Não é o olhar de uma pessoa apenas, por mais que ele tente mostrar o personagem em crise com a família. É importante a sociedade conhecer esse olhar? Claro! O problema é quando esse olhar é apresentado dessa forma para uma sociedade como a nossa, né? É uma sociedade que não tem acesso aos meios de comunicação democratizados. O bom debate não é feito, não de forma democrática.

Por exemplo, esse filme está sendo visto por muitos no exterior como uma denúncia contra a polícia brasileira. É essa a leitura feita pela maioria no Brasil? Não! Você tem que saber com quem está falando, para ter dimensão do resultado da conversa que sua obra vai provocar. O resultado da obra de arte depende também para quem você faz, em que momento faz. Em um momento que a sociedade brasileira vive o medo, vive também a intolerância.

 

Nesse sentido, o filme ajuda a cristalizar determinadas concepções de segurança, ajuda na consolidação da criminalização da pobreza. O filme traz a idéia de que tem duas polícias: uma corrupta e outra que é violenta, mas que resolve. O que não é verdade, pois opõe tortura e corrupção. Na história do Brasil, tortura e corrupção sempre andaram de mãos dadas, desde a escravidão.

O filme traz um grande prejuízo pedagógico na luta por uma visão de segurança pública que deve ser inclusiva, baseada na construção da cultura de direitos. Não baseada na eliminação, no enfrentamento. Legitima-se o fato da gente ter a polícia que mais mata no mundo. De janeiro a outubro, a polícia do Rio de Janeiro matou 1.072 pessoas com título de auto de resistência [resistência à prisão]. Também temos um número de policiais mortos assustador. Mas não em serviço.

No confronto, a proporção é de um policial morto para cada 30 civis, o que descaracteriza a idéia de guerra, né? Mas o número de policiais mortos fora do horário de serviço é também um dos maiores do mundo. Quem ganha com isso? Essa política trouxe a redução da criminalidade? Tem construído uma sociedade mais segura? Não! Além de ser uma política desumana e que serve a apenas uma classe, é ineficaz.

E a questão da redução da maioridade penal?
Essa é a idéia de que é necessário ampliar o sistema penitenciário, o que é um equívoco. A população carcerária do Brasil é uma das que mais crescem, já é quarta população carcerária do mundo. Hoje, são mais de 400 mil presos. De 95 a 2006, ela cresceu 170%. Só São Paulo tem o dobro de presos que tem a Argentina. Presos em condições aviltantes e o pior, o grau de reincidência do preso no crime é de 70%. E na maioria das vezes, o preso comete um crime mais grave do que o levou à cadeia.

A prisão é um instrumento de barbárie, é uma maneira muito cara de tornar as pessoas piores. Só tem que prender aquele que oferece um perigo muito concreto à sociedade. Até para você ter um número razoável de presos para que possamos, evidentemente, cumprir a lei. Hoje, temos é um exército de esfarrapados.

Quem são os traficantes apresentados? São aqueles que vão deixando seus chinelos pelo caminho antes de serem atingidos por tiros vindos de helicópteros. Quer dizer, o tráfico internacional de drogas e armas, que envolve milhões de dólares, tem como seus principais representantes no Brasil pessoas que não têm dentes e escolaridade, que moram em péssimas condições nas favelas. Essa combinação é esquisita, né?

Perfeita para o capitalismo?
Sim. Na verdade, não se combate o crime, se combate um modelo de criminoso. Não é de interesse combater o crime. É um crime que acumula dinheiro, explora mão-de-obra barata, que faz muito dinheiro entrar no banco e circular pelo mercado financeiro, pelo mercado imobiliário. Esse crime é bem adaptado ao modelo capitalista.

O que não é adaptável é o modelo de criminoso. Então, prender mais cedo, reduzir a idade penal é estupidez. Nos países que tiveram crescimento da população carcerária, a violência aumentou. A juventude pobre e negra que iria para prisão com a redução da idade penal é a maior vítima da violência. Isso é pegar quem é vítima e transformar em algoz. A violência aí é de classe, claramente de classe. Em Copacabana e Leme, em 2004, foram 17 homicídios. Em Rocha Miranda e Acari, no mesmo período, foram 617 mortos. Isso atinge todos da mesma maneira?

Qual é o papel da Educação nesse contexto? Você continua em sala de aula?
Continuo, dou aula desde 90. Toda quarta estou numa cooperativa de ensino chamada Associação Educacional de Niterói, que envolve pais e professores. Dou aula de história para o terceiro ano. É um projeto que acredito muito. Não tem dono, não tem lucro. Não tenho tempo para dar aula em outros lugares, mas não queria abandonar a sala de aula, que adoro. Você cria uma relação muito boa com os alunos.

Digo que a sala de aula é um espaço crítico, um espaço de construção que pode ser muito transformador. Mas a educação pública no Rio de Janeiro chegou ao fundo do poço. Recentemente, visitei uma escola em Bangu. O prédio foi esvaziado pela defesa civil, ia cair. 1.400 alunos assistiram aulas em tendas de lona preta! E o salário do professor? Tem professor que ganha 400 reais. Inacreditável!

No orçamento do governo do estado do ano que vem não há acréscimo para educação. Não é prioridade. Também é visível o abandono na UERJ e na UENF. Então, uma educação do jeito que temos é comprometedora de um país que possa ter uma visão crítica. Que venha a ter uma maior mobilização política. E isso tem relação direta com a maneira de encarar Tropa de Elite, por exemplo. O Bope virou uma produção de heróis. O número de policias inscritos para Bope cresceu seis vezes. Então, o Bope é visto como solução quando é uma das piores coisas que a política de segurança já produziu.

A mídia também contribui para isso?
Quando a mídia legitima o discurso da guerra e reafirma que existe um inimigo, ela legitima a eliminação desse inimigo. Li uma reportagem assim: “Madrugada em claro ao som de tiros e explosões”, d’O Globo. Falava que os vizinhos dos morros não conseguiam dormir e que, ao amanhecer, ficaram com medo de sair na rua com seus cachorros. Parece que o morro é o problema. Não é o morro que tem o problema. Está aí a produção de invisibilidade. E nessa operação morreram quatro pessoas.

Tem outra que dizia: “Menores moram em bueiros em Ipanema”. Pensei que era uma reportagem preocupada com a situação dos meninos. Não! Falava que era um absurdo os banhistas de Ipanema levarem grandes sustos quando os garotos resolviam sair do bueiro. Ter uma criança dentro de um bueiro não é o problema, o problema é ele sair do bueiro. A matéria quase diz que se eles não saíssem de lá, não haveria problema. Essa postura alimenta uma ideologia. É um processo pedagógico de poder.

E a sua relação com a mídia? Como é?
Tenho amigos n’O Globo, no Dia. E já fiz boas matérias. Mas foi a partir do momento que também passou a interessar a eles. Um exemplo foi o da Polinter, uma prisão onde ficavam os presos da Polícia Civil. Passei muitos meses investigando a Polinter até que descobri um carimbo institucional assim: “declaro pertencer à facção tal”. Os presos tinham falado que eram obrigados a dizer que pertenciam a facções, mesmo quem não pertencia. Então, o cara que havia roubado um celular na rua, ao entrar na Polinter, passava a ter uma facção. E isso acontece até hoje nas prisões.

É a idéia de organização do que não é tão organizado assim?
Isso. Quem organiza aí é o Estado, que é sócio do crime, é o ministro da barbárie. Se o cara responde que não tem facção, eles perguntam onde o sujeito mora e o enquadram no mapa das facções A, B ou C. O discurso oficial é de que é melhor para o preso, para que ele não caia em áreas de facções rivais. Na verdade, o Estado ingressa o preso numa facção que tem regras, códigos, todas as relações de poder dentro do espaço público. E esses presos disseram que eram obrigados a assinar embaixo desse carimbo.

Eu trabalho há 20 anos com presos. Nunca me pediram nada, nem um real. E também nunca fizeram uma denúncia que não procedesse. Aí averigüei e o carimbo era verdade. Consegui uma cópia e procurei o governo do Estado. Pedi uma reunião para ver se aquilo mudava. Não fui recebido, ainda não era deputado, né? Então, liguei para um amigo jornalista d’O Globo, e aí acho que tinha que ser d’O Globo por uma questão de estratégia. Podia ser o Fazendo Media, mas como eu queria derrubar a Polinter inteira, o Fazendo Media não me ajudaria muito nisso, com todo respeito. Aí negociei.

Queria a primeira página de domingo, caso contrário, marcaria uma coletiva. Ele falou que era quase impossível sair, pois era a época do Severino [Cavalcanti]. Só dava Severino, Severino. Mas acabou saindo. Saiu com a foto dos presos amontoados e o carimbo em cima. No domingo à noite toda a Polinter foi demitida.

Isso muda minha opinião sobre o papel da imprensa? Não, não muda. Já fiquei muito chateado por causa de informações deturpadas também. A gente não pode é criar a ilusão em cima do papel político e ideológico do jornal. Mas se der para cavar um espaço e fortalecer a luta do dia-a-dia, acho que a gente tem que fazer. Seria ingenuidade não fazer.

Duas emendas do Orçamento de 2011 destinam R$ 99 milhões para o combate ao crime

Para o Estado, economicamente, talvez, a melhor forma de combater o tráfico de drogas ilegais, é através da prevenção. Pois se há uma razão ou uma arte de governar, esta está ligada de modo direto ao modo que o Estado se relaciona com a sociedade civil (o que poderíamos também chamar por aproximação de Sociedade e Nação). Esta relação está no cerne das políticas públicas que fazem com que o Estado saia de uma ideia metafísica e passe a existir na imanência a partir da produção dos meios de existência. São esta políticas públicas, as quais funcionam como conceitos de tecnologias de governo indexada aos atos jurídicos, econômicos e políticos das unidades federativas do país, que podem fazer com que as prevenções ao tráfico de drogas ilegais sejam o seu efeito efetivo. Daí o Estado ter um gasto menor com a prevenção do que com medidas pós-efetios do tráfico de drogas ilegais, uma vez que o dinehiro público investido em áreas sociais poderão ser utilizados de modo mais eficaz e sem maiores gastos. Compreendemos que o governo Lula reforçou em muito estas políticas públicas, tanto que os efeitos deste investimento do governo federal atual tem implicado em ações de “desespero” e violência exarcebada por parte dos que agem nesta empresa do tráfico de drogas ilegais. Para isto basta todos os envolvidos respeitarem a especificidade econômica de um governo relativo ao bem comum.

Marcos Chagas
Repórter da Agência Brasil

Brasília – Do total de 10 mil emendas parlamentares à proposta de Orçamento da União para 2011, até o momento, apenas duas reservam recursos para o combate ao crime organizado. As emendas, que foram apresentadas ontem (26), somam R$ 99,6 milhões, segundo informou hoje (27), à Agência Brasil, o relator-geral da Comissão Mista de Orçamento, Gim Argello (PTB-DF).

Ele acrescentou que, hoje, os funcionários da comissão estão separando, por área, todas as emendas apresentadas. Perguntado se haveriam mais emendas nesta área, o parlamentar afirmou que só “se for emenda individual”. Segundo o relator, nenhuma comissão da Câmara dos Deputados ou do Senado, ou bancadas parlamentares, inclusive a do Rio de Janeiro, apresentou emendas ao Orçamento para o combate ao crime organizado.

Diante da situação “de guerra” que se instalou no Rio de Janeiro nessa semana, o relator, que também é vice-líder do governo no Senado, afirmou que as emendas não só serão aprovadas pela comissão como, também, pretende aumentar, na proposta orçamentária, os recursos para o combate ao crime organizado.

Na próxima semana, ele terá uma reunião com a futura ministra do Planejamento, Miriam Belchior, para avaliar a possibilidade de incluir uma nova rubrica no Plano Plurianual de Investimentos (PPA) só para a execução dessas ações. “Essa é a primeira vez que um parlamentar tem a prerrogativa de apresentar alterações ao PPA”, destacou Argello.

O relator trabalha, hoje, para “separar” por área as emendas apresentadas. Quanto ao episódio que se desenrola no Rio, com combates entre traficantes e policiais apoiados pelas Forças Armadas, Gim observou que são “fatos imprevisíveis”.

Nesse caso, acrescentou, caberia ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva encaminhar ao Congresso, se necessário, uma medida provisória (MP) de abertura de crédito ao Orçamento de 2010 reforçando os recursos para combater o crime organizado.

“Tenho certeza que, se uma MP como essa chegar ao Congresso será aprovada. Explodiu essa guerra urbana no Rio de Janeiro e trata-se de uma coisa que não dá para prever [o desfecho]”, acrescentou o parlamentar. Ele disse, no entanto, que, em nenhuma conversa mantida com autoridades da Presidência da República ou do governo de transição, essa possibilidade foi levantada.

Em 2011, a presidenta eleita, Dilma Rousseff, terá aproximadamente R$ 8 bilhões disponíveis para a área de segurança pública em recursos orçamentários a serem aplicados em todo o país. Esse volume de recursos poderá será ainda maior já que a Comissão Mista de Orçamento ainda analisa os recursos relativos às emendas, ao todo 10.040, que definirão as prioridades do Poder Legislativo. O
levantamento feito pela liderança do PT, a pedido da Agência Brasil.

No entanto, dos R$ 8 bilhões propostos pelo Executivo no projeto orçamentário, apenas R$ 1,2 bilhão estão classificados como investimentos. Os técnicos ressaltam, entretanto, que R$ 2,8 bilhões separados para custeio e R$ 3,9 bilhões para pessoal dão suporte aos investimentos.

Além disso, do total de recursos destinados para segurança pública, 99% estão carimbados na rubrica “nacional”, ou seja, ficará a cargo do Executivo definir para que estado ou áreas serão destinados os recursos orçamentários destinados à segurança pública.

Edição: Lana Cristina

TRE DO RIO DE JANEIRO FECHA “CENTROS SOCIAIS” MANTIDOS POR CANDIDATOS

Do Consultor Jurídico:

O Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro já interditou, na capital, 15 centros sociais vinculados a candidatos, desde o início do período eleitoral em 6 de julho. Segundo o coordenador de fiscalização do TRE na cidade, Paulo César Vieira de Carvalho Filho, os centros sociais oferecem, entre outras coisas, atendimento médico e cursos profissionalizantes de forma gratuita e associada ao nome do candidato que sustenta o local. A notícia é da Agência Brasil.

De acordo com o coordenador de fiscalização, o funcionamento de centros sociais é uma das irregularidades eleitorais mais graves. “Isso configura obviamente propaganda ilegal, abuso de poder econômico e, dependendo de alguns outros fatos, captação ilícita de sufrágio. Essa última seria a situação mais grave de todas, porque é uma compra de voto grosseira”, disse Carvalho Filho.

Segundo ele, centros sociais de candidatos comprometem até a própria legitimidade da eleição. Carvalho Filho explicou que os centros sociais fechados são todos de candidatos a deputados estaduais, dos quais a maioria é de parlamentares que buscam a reeleição.

Após o fechamento desses locais, a Procuradoria Regional Eleitoral abre uma investigação que pode levar a punições como multas, cassação do registro de candidatura e, até mesmo, a responsabilização criminal. De acordo com Carvalho Filho, em um dos centros sociais foram encontrados 50 sacos cheios de medicamentos vencidos.

Outra ilegalidade comum na campanha do Rio de Janeiro é o uso de placas de forma irregular. Apenas em duas operações nos últimos dois dias, na Avenida das Américas (Barra da Tijuca) e na comunidade da Cidade de Deus (Jacarepaguá), foi recolhida pelo menos 1,5 tonelada de placas.

Carvalho Filho disse que, até o momento, sua equipe de fiscalização não recebeu qualquer denúncia formal sobre a existência de currais eleitorais em comunidades carentes na cidade. Na última eleição, em 2008, denúncias de currais eleitorais em favelas controladas por quadrilhas de traficantes e por milícias levaram o Exército a ocupar várias comunidades do Rio.

MUITO ALÉM DO CARTÃO POSTAL

TODO PONTO DE LUZ

CRIA UMA ZONA DE SOMBRA 

A Constituição Federal de 1988 enumera cinco princípios pelos quais administração pública deve ser orientada, alicerçando o os três poderes e preservando o cidadão comum dos abusos cometidos outrora pela ditadura militar e seus atos institucionais. Os parâmetros desde então seriam os da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência.

O trauma causado por vinte anos sob o regime militar deixou sequelas: o uso abusivo dos meios de comunicação, numa simulada liberdade de imprensa que, apoiado no princípio da publicidade (sob o ponto de vista deles), filma e veicula qualquer fato ocorrido na esfera pública do poder ou na esfera particular de quem exerce esse poder.

Por outro lado, a justiça, tentando equilibrar os excessos, dá o direito de resposta na mesma proporção da ofensa. Ou nos casos de vazamento de informações confidenciais, abre-se uma sindicância, uma investigação interna, que pune os responsáveis, mas não evita o uso excessivo do princípio da publicidade.

Podemos resumir esse exemplo com três verbos, da primeira, segunda e terceira conjugação: aliciar, corromper e punir.

Quando é o administrador público que comete o excesso ou fere um princípio, dependendo da gravidade, pode figurar na capa do jornal ou no rodapé da página. Então, vamos aos destaques do noticiário local:

Seconserva – O patrimônio público e a emissora de televisão

Em Fevereiro deste ano, o Rio de Janeiro ganhou uma nova secretaria, a Seconserva (Secretaria Municipal de Conservação e Serviços Públicos) que segundo o decreto publicado no Diário Oficial, se dedicará exclusivamente a cuidar da manutenção da cidade. Essa nova célula irá englobar a Companhia de Limpeza Urbana (Comlurb), a Companhia Municipal de Energia e Iluminação (Rio Luz), a Coordenadoria Geral de Conservação (CGC) além da Comissão Coordenadora de Obras e Reparos em Vias Públicas e a Coordenadoria de Controle de Cemitérios e Serviços Funerários, que eram ligadas anteriormente à Secretaria de Municipal de Obras.

O trabalho de fiscalização na capital fluminense, passou a ser feito por 91 zeladores nas ruas das Zonas Norte e Sul a partir do dia 8 de março, comandados por de Carlos Roberto Osório, que deixou o cargo de secretário-geral do Comitê Organizador dos Jogos Rio 2016 para assumir a nova função.

Cada zelador vai percorrer, em média, sete quilômetros por dia para anotar os problemas cotidianos como iluminação, buracos, falta de sinalização adequada e outros. Inicialmente, eles vão trabalhar usando fichas de anotação, mas em pouco tempo vão receber palmtops (computadores portáteis) para fotografar, por exemplo, postes acesos durante o dia, e imediatamente enviar o flagra para o setor competente resolver.

O programa está nos bairros da Tijuca, Maracanã, Copacabana, Leblon, Irajá, Vista Alegre, Vila da Penha, Centro, Ilha do Governador, Campo Grande, Méier, São Cristóvão, Madureira, Santa Cruz, Bangu, Botafogo, Flamengo e Laranjeiras.

Desde o começo do trabalho, em Março, abrangendo inicialmente sete bairros da cidade, 78.341 não conformidades foram identificadas. Das ações em andamento ou que já foram solucionadas pelos órgãos, 68,38% são referentes à Zona Norte, 76,21% à Zona Sul e 75,46% à Zona Oeste.

Vemos então o princípio da eficiência, o da publicidade e da moralidade sendo cumpridos, já que a proporção percentual é a mesma para as três regiões da cidade. Porém, o papel da imprensa foi fundamental para a criação da nova pasta. Emissoras pequenas como a Bandeirantes, o SBT e a CNT há anos denunciavam a falta de conservação do patrimônio público, as obras inacabadas, a falta de sinalização e os buracos em via pública.

Ao contrário do que se poderia pensar, conforme indica pesquisa divulgada pelo instituto Datafolha, apenas 35% dos cariocas aprovam com ótimo ou bom a atuação de Paes. Enquanto 41% dizem ser regular e 21% disseram ser ruim ou péssimo.

Neste caso, cabe a pergunta: porque o prefeito decidiu criar essa sinergia ao contrário das antigas lideranças? Porque a Globo passou a usar o horário do jornal do meio-dia para fazer as mesmas denuncias que as outras emissoras e com isso, tentar recuperar a audiência perdida para a Record que vinha ganhando destaque por abrir espaço por explorar esse nicho de forma exaustiva. Isso nos leva a crer que o conforto e a segurança da população é uma mera consequência e não o objetivo dessa administração. Diriam alguns que o prefeito empossado em janeiro de 2009 teve pouco tempo para organizar uma equipe e dela extrair resultados, mas atentos aos noticiários, podemos citar outro caso onde a administração pública foi bastante eficaz embora dessa vez o conforto proporcionado só tenha beneficiado a própria prefeitura.

Cosip – Todo teatro tem uma coxia

No mesmo mês de Fevereiro, entre as comemorações do carnaval e a lista de material escolar, outro decreto foi publicado e dessa vez para regulamentar a nova taxa de iluminação pública com a finalidade de financiar a manutenção e ampliação da iluminação pública. A prefeitura do Rio espera arrecadar com a cobrança mais de R$ 150 milhões por ano.

O decreto só foi publicado no dia 26 de fevereiro, uma sexta-feira. Em 1º de março, segunda-feira, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, por meio do Promotor de Justiça Rodrigo Terra, titular da 2ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva do Direito do Consumidor e do Contribuinte da Capital, ajuizou na 3ª Vara Empresarial, ação civil pública com pedido de liminar conta a Light Serviços de Eletricidade S.A. O objetivo era impedir que a Contribuição Social de Iluminação Pública (COSIP) fosse cobrada na conta de luz dos moradores do Município do Rio.

Orla de Copacabana as escuras

Em dois parágrafos, rasgamos a Constituição Federal, vejam porque: o princípio da publicidade dias depois do carnaval não é razoável, a moralidade de se cobrar tanto pela iluminação pública que sempre esteve prevista no orçamento sem contar a eficiência que como veremos abaixo, é nula. Por último, a impessoalidade que é um princípio que diz que o benefício dos atos dos governantes deve ser partilhado por todos e não por ele e pelo grupo que ele determinar. Dito isso, segue-se em leitura.

A cobrança da COSIP, argumenta o MP, fere o direito dos consumidores de poderem contestar o valor da medição. “Caso o cidadão questione o valor de sua conta de luz, não poderá deixar de pagá-la sem que incorra no crime de sonegação fiscal, (com pena de 2 a cinco anos de prisão acrescido de multa) uma vez que, concomitantemente, deixará de pagar o tributo cobrado”, explicou Rodrigo Terra. Além disso, ele afirmou, a cobrança é inconstitucional porque condiciona o pagamento de um tributo ao fornecimento de um serviço.

O Promotor também questiona a Emenda Constitucional nº 39, de 19 de dezembro de 2002, que autorizou os Municípios e o Distrito Federal a cobrarem a Contribuição na fatura, mediante acordo com as concessionárias de energia elétrica. “A Emenda vai de encontro ao direito constitucional de exercício de ação e ainda precisa de uma manifestação do Supremo Tribunal Federal sobre sua aplicabilidade”, comentou.

Apesar de em Dezembro ter sido dado aos Municípios o direito de cobrar a Cossip, e muitos deles o fizeram, o Rio de Janeiro esqueceu-se da moralidade, apoiando-se apenas no princípio da legalidade, e segundo reportagem transcrita do jornal carioca O Dia, do dia 03 de Março de 2010, passou a cobrar a segunda maior taxa de iluminação do país.

Rio – A taxa de iluminação pública que o carioca começará a pagar em maio é uma das mais altas do País. Entre as 10 maiores capitais do Brasil, apenas Salvador pratica tarifas maiores do que as do Rio. Enquanto aqui a prefeitura estipulou em R$ 90 o valor mais alto para quem consome acima de 10 mil kw/h por mês, em cidades como São Paulo e Porto Alegre a taxa mais cara não chega a R$ 12, para comerciantes.

Ainda segundo a reportagem, a ação irritou o prefeito Eduardo Paes: “Se o promotor tivesse entrado com ação contra todos os municípios que cobram a taxa no estado, eu acreditaria na seriedade do promotor. Como ele entrou só contra o Rio, eu duvido da seriedade dele”. Terra rebateu: “O promotor da capital não tem poder de questionar a taxa de outros municípios. Mas meus colegas em outras cidades estão questionando-a”.

O prefeito perdeu a chance de ficar calado. Além de não respeitar a Constituição, ainda demonstra publicamente desconhecer as leis que regem o município e a atuação dele próprio e da justiça na defesa do interesse coletivo. E ainda vai ficar pior, acompanhe o raciocínio.

Mesmo com a intervenção do MP, a manchete que apareceu nos jornais cariocas em Julho era desoladora “Justiça derruba Cosip, mas taxa ainda vale”- Jornal Destak. Isso aconteceu porque a justiça entendeu que o princípio da publicidade não havia sido respeitado pela Câmara Municipal ao criar a taxa de luz em duas sessões nulas, no entanto o presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Luiz Zveiter, entrou com um recurso. E a Cosip permanecerá valendo até que receba sentença definitiva do STJ (Superior Tribunal de Justiça) o que deve levar pelo menos 3 anos.

O que permitirá que o prefeito atual cobre, receba e gaste todo o dinheiro arrecadado com a taxa de iluminação pública e deixe a sentença para ser cumprida pelo próximo a ocupar o cargo. Segundo as previsões, todo dinheiro arrecadado, no caso de uma condenação, terá que ser devolvido corrigido monetariamente e acrescido de juros, ou seja, até lá a dívida terá dobrado. Essa bomba irá estourar em 2013, um ano antes da Copa do Mundo.

O Assunto chegou no Twitter, que por meio da conta @cosip_ não nos mantém informados das notícias que comentam o assunto e amplifica a opinião dos descontentes, repassando para toda lista de seguidores qualquer manifestação contrária a essa taxa. Continuem por lá essa leitura crítica do noticiário local.

Mas antes, veja quem foram os vereadores que ajudaram a aprovar a Cossip.

CINE-DOCUMENTÁRIO: “FAIXA DE AREIA”

Sinopse

Ela já foi tema de músicas e livros, fotos e poesias. Já serviu de cenário para filmes românticos, mas também abrigou imagens assustadoras da violência urbana. Quase sempre, serve de ponto turístico. No início do século XX, era local para tratamento das mazelas do corpo. Depois, virou cultura, modo de vida. No Rio de Janeiro, é praticamente a essência da cidade. Por conta de toda essa importância, o filme Faixa de Areia, documentário dirigido por Daniela Kallmann e Flávia Lins e Silva, finca as estacas de sua câmera nas areias do Rio de Janeiro e elege a praia como personagem principal de sua história. Ao longo de 95 minutos, as imagens revelam belezas e muitas realidades que convivem neste pequeno espaço entre o mar e o continente. http://www.faixadeareia.com.br/

Crítica do site http://www.cineweb.com.br em 03 de Maio de 2007 e assinada por Alysson Oliveira

Parece ser um consenso entre os cariocas que o rico e o pobre, o branco e o preto, a Vieira Souto e a Rocinha se encontram na orla da cidade do Rio de Janeiro. É sobre esse conceito que se apóia o documentário Faixa de Areia, de Flávia Lins e Silva e Daniela Kallman. É pouco mais de uma hora e meia batendo no mesmo assunto, sem acrescentar ou provar nada.

Falta ao filme um certo conteúdo, algo em que se embasar, ao invés de dezenas de banhistas comentando o quanto o Rio de Janeiro é lindo, o quanto as praias são maravilhosas, e como a luta de classes não existe nas areias de Copacabana – o que, como todos sabem, é mera ilusão, dados os altos índices de violência na cidade nos últimos meses.

Até há assunto em Faixa de Areia, mas suficiente apenas para um curta. Para se fazer um longa do nada é preciso algo mais do que corpos esculturais – alguns nem tanto – sol, areia e mar. Há também no filme problemas que são discutidos por documentaristas desde quando o documentário é documentário. As diretoras intervêm demais nas entrevistas, conduzem demais seus entrevistados, dando pouca liberdade para eles se familiarizarem com a câmera a ponto de esquecê-la e se abrirem de verdade, e não apenas dizer aquilo que é bonito. Ou, então com perguntas desnecessárias, como aquelas feitas a um grupo de catadores de latinhas.

Assim, desperdiçam boas figuras que poderiam gerar mais do que o mero comentário de que na praia do Rio todos são iguais. Entre os entrevistados estão travestis, garotas de programa, rapazes da comunidade e a famosa jogadora de vôlei Isabel – autora de um dos comentários mais infelizes do documentário. Ela diz que o Rio de Janeiro é um “paradise”, em inglês, mesmo – só corroborando com a idéia de que esse tal paraíso tropical só existe na mente dos turistas ou dos muito ingênuos.

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Crítica do blog http://refugiodocinefilo.blogspot.com/ em 6 de Abril de 2010

Dia desses zapeando os canais da NET paro no canal Brasil, e vejo que passa um documentário sobre praias. Com sorte, observo que acompanho os créditos iniciais. Comemoro. Vou assistir ao programa inteiro, era o que eu mais queria naquele momento. O documentário em questão se chama Faixa de areia.

O filme das diretoras Flávia Lins e Silva e Daniela Kallman extrai diferentes pontos de vista dos entrevistados sobre a ida a esse espaço entre o asfalto e o oceano. E os tipos são muitos. Casais que se conheceram e estão juntos até hoje, vendedor de quitutes que comprou casa e paga o estudo dos filhos com o lucro dos dias de sol, patricinhas que vão paquerar e ser paqueradas, playboys ,gays. Do leme ao pontal a idéia é interagir e se divertir.

Na fala dos entrevistados uma idéia persiste. A praia é um espaço democrático. É lá onde ricos e pobre se misturam com o mesmo propósito. Bebem, comem, riem, tomam banho de mar, pegam jacaré. A entrada é franca, não existe muro de concreto para separar os granfinos da Avenida Atlântica e Vieira Souto da ”massa” que vem do subúrbio ou da baixada. Mesmo sem a presença de uma barreira física, no entanto, é evidente a divisão entre os vários tipos que freqüentam o lugar. Cada tribo tem o seu espaço, os gays no posto 9 de Ipanema, os mauricinhos e patricinhas no posto 10, os suburbanos no outro lado, de preferência longe.

Na praia do Flamengo, uma mulher elogia o local por ser tranqüilo e ter muitas famílias; quando questionada se a incomodaria se ônibus vindo do subúrbio parassem naquele ponto, ela foi enfática: " incomodaria sim”. A moça reclamou que seria ruim dividir o espaço com pessoas sem educação e crianças que correm jogando areia para todo lado. Ela com uma sinceridade assustadora ainda levantou uma questão. ” não tem o piscinão de Ramos? Por que eles não vão para lá?”.

De maneira sutil, sem esbarrar no clichê hipócrita e politicamente correto do ”rico opressor x massa trabalhadora oprimida e discriminada”, ‘Faixa de Areia’ convida o espectador para uma reflexão. Afinal, até que ponto a praia é um ambiente democrático? Pode ser considerado democrático um lugar cuja população rica, instruída se divide daquela com renda (status quo ) inferior por não compreender e (ou) não aceitar seus hábitos?

Não existe maniqueísmo em ‘ Faixa de Areia’ ; antes de mais nada ele faz uma ode às belas praias do Rio de Janeiro desde as famosas e badaladas Copacabana, Ipanema,Arpoador e Barra até a belíssima e quase deserta Grumari. Em um espaço heterogêno, as diferenças sociais e ideológicas existem e são evidenciadas com a proximidade e o contato humano, quando os conflitos vem à tona. As documentaristas filmam, e observam esta interrelação com sábio distanciamento. Belo documentário esse Faixa de Areia.

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