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FLIP-FLOP: 10 ANOS

Por @Sobrecomum*

As Raves, festas de música eletrônica que duram de 24 horas a uma semana dependendo do fôlego dos patrocinadores, inclusive os ilícitos, elegeram a bota pata de bode como seu calçado oficial. Geralmente feitas de camurça, com solas plataforma de madeira ou de borracha, praticamente sem salto, deixavam os pés a salvo das poças de lama, aliás na grama ou na areia dependendo da proposta do festival lá estavam elas.

Já a Festa Literária Internacional de Paraty, FLIP, aqui também chamada de rave por se estender durante quatro dias consecutivos, elencou a sandália de dedo, também conhecida como flip flop como o calçado mais apropriado para as ruas com calçamento “pé-de-moleque” de seu centro histórico.

A aventura começou logo na partida, um ônibus me levou de Volta Redonda até Mambucaba, no município de Angra dos Reis e de lá um outro ônibus, esse sem o ar condicionado e sem estofamento nas cadeiras completa o trajeto até Paraty. Ônibus direto só de segunda a sexta às cinco e meia da tarde. Precário é pouco pra falar do transporte.

Outro grande evento, Rock in Rio, tinha ônibus próprio espalhado por diversos pontos na cidade do Rio e municípios próximos. Os organizadores não disfarçavam seu interesse comercial e o festival nunca se percebeu como um atrativo turístico para a cidade. Por isso mesmo viajou para Lisboa. E quando voltou foi muito bem recebido.

Já a Flip Flop, está ancorada nessa cidade que é uma vila de pescadores. Muito mal administrada pela prefeitura, com um centro histórico que é uma verdadeira cidade cenográfica e sem um diálogo entre o salão de festa e a cozinha.

Quando chamo a cidade de vila de pescadores, é porque a maior parte dela é banhada pelo mar, inclusive o centro histórico é inundado quando a maré sobe. Portanto a pesca é a fonte de renda principal da população. Mas os quiosques da praia que estão em péssimo estado, poderiam já ter sido reformados pela prefeitura atraindo os turistas e seu dinheiro extra para o lugar mais adequado.

Cheguei de ônibus e encontrei uma rodoviária de cidade do interior, com banheiros imundos e guichês fechados. Nenhuma placa indicava que havia um festival ou que aquela cidade durante quatro dias estava internacionalizada. Do outro lado da rua, um shopping, com banheiro, pensei. Interditado. Provavelmente acharam melhor que dizer que era “exclusivo para clientes”. Até onde eu sei, os estabelecimentos comerciais devem ter banheiros que funcionem para manter as portas abertas e dependendo do caso, dois banheiros, um para cada gênero de pessoa. Algumas escolas de samba fizeram inclusive o terceiro, para as transsexuais. Mais tarde, quando fui almoçar, descobri que faltava água em Paraty.

Voltando ao início da viagem, caminhei pelas ruas em busca de um guia, alguém com uma camiseta e um crachá distribuindo mapas evento. Nada. Achei foi umas lojas de artesanato e moda de ambos os lados da rua estrategicamente colocadas para depenar os turistas. Logo a frente estariam as placas com as bandeiras de cartões de crédito para terminar o açoite. Essas lojas vendiam mesmo tipo de peças rústica, de madeira, palha ou as vezes de tecido encontradas em qualquer outro lugar, vendido como artesanal mas produzido em ritmo industrial.

Um pouco a frente perguntei onde ficava o centro histórico. Depois da corrente, responderam. Ali, no sítio arqueológico não entra carro, moto ou bicicleta. Os pedestres andas com cuidado pisando em pedras enormes e desniveladas. E os cadeirantes, os idosos, os homens e mulheres com deficiência de locomoção? Poderiam fazer como nas cavernas abertas a visitação, construir uma passarela provisória que desmontasse ao final do evento, com rampa de acesso e corrimão de segurança. Não tiraria o charme do tombamento e nem prejudicariam a harmonia arquitetônica a que se refere a UNESCO quando fala sobre o local. Uma rua apenas, com acessibilidade já seria o suficiente. As outras ficariam como estão.

Depois de chegar ao evento, pude perceber que ali se celebrava a cultura oficial, o patrocínio dos bancos foi a pista que segui. O BNDES e o Banco Itaú são patrocinadores da cultura de modo geral e por isso determinam que cara e o conteúdo que ela vai ter.

Cultura popular mesmo, só os índios Caiçaras (eu acho) que se espalhavam em ruas próximas do centro cenográfico vendendo seu artesanato: flautas, anéis e cestos. Os anéis aliás eram de casca de coco e ossos de animais, coisa que só uma máquina consegue fazer. Enquanto eles fingem que são indígenas e nós fingimos que somos turistas.

Índio sim, pelo corpo avermelhado, cabelo preto e liso, mas indígena não. Poderiam ter dançado e cantado incorporados ao festival para alavancar e promover a venda de livros com essa temática, mas nenhum livro vendido lá falava da história desses povos que estavam aqui antes de nós e seus costumes. Aliás, nem eles devem saber sua história e há muito adquiriram outros costumes.

E para quem não sabe, a cidade é cenográfica porque a fachada das casas tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, IPHAN foi pintada em Maio pelos voluntários patrocinados pelas tintas Coral que puderam dar mais cor para a cidade. E depois foram todos assistir o show da cantora Ana Carolina. E não por iniciativa da Prefeitura, que fique sublinhado.

Até os barcos foram recauchutados, ficaram todos laranja, cor escolhida pelo patrocinador maior da festa, o Banco Itaú. Também conhecido como o mais selvagem na cobrança de taxas dos seus correntistas. Esses caso se cadastrassem no site poderiam passear de bicicleta gratuitamente por uma hora, caso o passeio ultrapassasse esse período, era descontado cinco reais a cada hora, direto na conta.

Os escritores, pelo contrário, não recebem cachés para se sentarem às mesas de debates, falam pelo que pude acompanhar apenas dos próprios livros recém-lançados. O festival ainda cobra R$ 40,00 para quem quiser assistir dentro de um teatro com ar refrigerado e cadeiras estofadas e R$ 10,00 para quem preferir assistir o telão com temperatura ambientemas com cadeiras estofadas.

O patrocinador distribuiu bancos feitos de papelão projetados para suportar até 100kg. E os participantes da festa aproveitaram para ocupar as laterais da sala aberta e espiar a conversa dos escritores. Alguns ate tomaram notas.

Havia uma livraria que era pequena, confusa, e com pouca variedade de títulos e editoras. Algumas até alugaram casas tombadas e fizeram um comércio próprio. Bem mais interessante.

Me chamou muito a atenção os meninos que distribuíam livros budistas e diziam que a contribuição para adquiri-los era livre. Olhei bem pros pés deles e não vi nenhuma flip flop, apenas tênis iate das mais caras grifes. Um deles até usava um brinco, coisa que é proibida na religião. Nao por ser atributo feminino, mas por despertar a vaidade.

Haviam árvores com livros pendurados, mas só para as crianças. E mesmo elas não se interessaram muito. Preferiam os bonecos com quem podiam interagir. Por falar nisso, senti falta dos e-books, de ter uma lan house onde se acessasse a internet ou o primeiro capítulo das obras ali vendidas. Não, nada era digita a festa como um todo. O livro era de papel, o banco era de papel, os folhetos, os livretos, os panfletos, jornais e até a sacola da livraria eram deste material. Nada era de pano, reaproveitável, sustentável ou organico.

Senti falta de uma caixa de coleta para doação de livros velhos ou uma roda, onde pudéssemos trocar livros com outros leitores, se bem que não haviam leitores lá. Haviam compradores de livros. Ler mesmo eu não vi ninguém lendo.

Na hora de partir, outra surpresa, ônibus direto só as seis da manhã do outro dia. Restava a baldeação ou as pousadas lotadas. Se fosse mesmo uma rave, haveria música, botas pata de bode e algumas barracas de acampamento espalhadas na praia. Mas era a flip flop, um chinelinho de pedreiro que ganhou umas cores vibrantes e agora paga de madame.

Sem alternativa, voltei pra Mambucaba, peguei o último ônibus para Volta Redonda, que saía as sete da noite e sentei para escrever esta crônica falando de como fui mal tratado na festa que entrei de penetra.

* @Sobrecomum é um olhar na diversidade sobre o mesmidade do Real.

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UM CASO ECOPOLÍTICO EM PARINTINS

Fonte da imagem: http://parintinsemfoco.blogspot.com/2011/01/igreja-de-sao-benetido.html Segundo moradores do São Benedito, em Parintins, Amazonas, foi por ordem expressa do pároco local, Egídio, que duas árvores antigas da praça do bairro, foram arrancadas na tarde desta quinta-feira, dia 30.

As árvores, um buritizeiro e um cajueiro, compunham um agradável espaço de convivência para os moradores das proximidades, que dia sim e outro também, colocavam cadeiras de embalo debaixo, para aproveitar o frescor da praça, à beira do rio Amazonas.

Não se sabe a razão pela qual o padre extrapolou sua autoridade metafísica, cuja jurisdição não ultrapassa o pós-existência, para alterar o espaço vivencial do povo, a praça. Como somos partidários da filosofia nietzscheana, de que se deve lavar muito bem o corpo depois de estar com um sacerdote, e em nossa cidade, é comum a falta d’água nas manhãs de sábado, ficamos impossibilitados de perguntar a ele sobre as (des)razões do ato.

Imaginamos, talvez, que o padre tenha ficado incomodado com a feira hippie que se juntou à sombra das falecidas, na quadra do festival dos bois Coca-Cola. Ou quem sabe vozes do além sussurraram em seus ouvidos que o povo se embalava enquanto cometia pecados, ou pior, que o povo ali conversava e expiava suas faltas, dialogando uns com os outros, sem necessitar da preciosa mediação da igreja, estabelecendo relação direta com Deus. Vade retro!

Porém, são imaginações. O real, não sabemos, e não queremos cometer injustiças com o padre, afinal de contas, injustiça é território da miséria humana, coisa que a igreja conhece melhor que nós.

De qualquer forma, o povo não gostou. Cartazes acusando o padre de ser antiecológico amanheceram junto aos galhos arrancados e amontoados na calçada. Gente que passava tirava fotos (nós não tiramos, por incompetência mesmo) da manifestação, que pedia a cabeça do padre. Ele, por certo, não esperava a revolta do seu rebanho, afinal de contas, quem faz parte de uma instituição que tenta, há dois mil anos, controlar as produções biopolíticas do corpo, não espera que se incomodem com duas árvores.

Mas o fato é que o padre se arvorou, ao desarvorar a praça, que afinal de contas, é do povo, como o céu é dos pássaros, e não de Deus. Interferência política da igreja nas coisas do mundo. De novo e quase sempre, aliás.

(Em tempo: àqueles que crêem na igreja ou na representação ocidental de Deus, saiba que não cometemos pecado algum ao dizer que o céu é dos pássaros, e não de Deus. É que Deus É os pássaros, o céu, as árvores, a própria vida, todos nós. Até o padre, ainda que sua existência o negue).

Quem nos dera a revolta do povo ultrapassasse a rebeldia e a compaixão pelo cajueiro e buritizeiro, e se materializasse numa negação do controle sobre o corpo e sobre o espaço público. Que libertasse o negro Benedito do jugo do Papa, e o permitisse ser quem ele é, o arauto da alegria democrática. Que, em lugar de pedir outro padre, o povo reinvidicasse a autonomia da praça, e a transformasse em espaço de vida. O Reino de Deus na Terra.

Aí sim, a ecopolítica iria surgir novamente na terra dos Parintintins.

CHUVA, VERBO IN-TRANSITIVO vs A INTRANSIGÊNCIA DA MISÉRIA DOS POLÍTICOS

Chove. O chover, na língua do brasileiro, herdada, digerida e transformada dos portugueses, é verbo intransitivo. Não transita? Não varia? Em Manaus, assim como em diversas outras cidades Brasil adentro, o chover não apenas é transitivo, como revolucionário. Trepidação da água, do turbilhão, que traz de volta o lixo jogado displicentemente na rua, pela imagem do pensamento mediatizada pelo infantilismo do capitalismo: jogou, sumiu.

Mas o que ele traz mesmo, a contragosto do sistema de produção linear e finito, que é o capitalismo, é o turbilhão da potência da natureza. Para a natureza, que nada sabe de sintaxe da língua portuguesa, chover é não apenas transitivo, como transitório e transacional. Trans-passar. A água transpassa o solo, e compõe com os corpos. Mas não compõe com o asfalto, com o concreto, com a cidade. Sobretudo se ela for a imagem do fracasso da criação, se ela for o espectro persecutório do fracasso e da impotência de seus governantes, através das décadas. Estes não percebem sequer uma gota de chuva caindo nos narizes; nem mesmo quando o povo, por fina ironia, sorri diante da evidenciação da miséria: quando se precisa sempre e sempre de algo, é porque a falta dele é irremediavelmente irreparável. Imagine que dor mais rasteira e dolorida que ser dependente de dinheiro? Quando ele deixa de ser meio, para ser fim. O povo sabe o tamanho do buraco sem fundo do político corrupto (=corrompido).

Aí a alagação não tem fim, porque o dinheiro não se atualiza em objetos produzidos a partir de uma perspectiva de produção social de modos de existência, de ética e de Bem Comum. Nada de bem-estar; é mal-estar na civilização manauara, mesmo.

Portanto, quando o igarapé alagar, quando a poça d`água surgir, quando a lama brotar, lembre-se que a natureza não faz política, mas o homem, sim. De um jeito, ou de outro.

JOÃO E O SISTEMA DE SAÚDE NO AMAZONAS

João* saiu de sua cidade para a capital do Amazonas em excursão escolar, no último final de semana. Na sua primeira noite em solo manauara, sentia fortes dores de cabeça, náuseas e febre. Tomou remédio, e melhorou.

Na manhã do segundo dia, a dor de cabeça voltou. João não gostou da comida do lugar onde estava hospedado. No mesmo dia, à tarde, teve febre. Mas participou do evento para o qual foi a Manaus. O terceiro dia foi igual; a dor de cabeça só o abandonava quando tomava o remédio. Ao professor que o acompanhava, disse que as dores de cabeça eram comuns, e que a náusea era por conta da comida, muito temperada, a que não estava acostumado.

No quarto dia, João caiu para valer.  Sentia-se mal, vomitou pela manhã, a dor de cabeça era intensa. Foi levado ao hospital 28 de Agosto. Lá, ao contrário das expectativas, foi bem atendido. O médico o ouviu, fez perguntas, explicou, foi atencioso. Ouviu de João que as dores de cabeça eram diárias há pelo menos dois anos. Que as náuseas e a febre eram recentes, de quando chegara à cidade.

O médico orientou-o a procurar auxílio ambulatorial, para descobrir a origem da cefaléia. Por conta dos novos sintomas, sugeriu uma tomografia, e receitou medicamentos para dor e náusea. João e o professor procuraram o setor do hospital responsável pela marcação dos exames. Foram recebidos por uma enfermeira que, gentilíssima, pediu desculpas, e explicou que o tomógrafo daquele hospital era apenas para pacientes internados. O professor indicou que o encaminhamento vinha do médico da própria instituição. A enfermeira mais uma vez se desculpou, e explicou que o médico era novato, e não sabia da regra. Talvez, fossem ele ou ela os gestores do hospital, o tomógrafo servisse a todos os cidadãos que ali chegassem.

João voltou para a hospedagem, sentindo-se melhor, mas sem o exame.

No dia seguinte, retornou à sua cidade. E faltou aula no dia seguinte. O motivo? Dores de cabeça durante toda a madrugada. A febre e as náuseas sumiram, mas a dor, antiga, persistia. O professor foi então visitar a família de João. E descobriu, através da mãe, que João não sente dores de cabeça há dois anos, como disse. Na verdade, ele, que tem hoje quinze anos, sente dores de cabeça diárias desde os sete. A mãe jamais conseguiu marcar, pelo SUS, uma tomografia ou sequer falar com um especialista. O exame, na cidade em que reside, não é feito nos hospitais locais. Apenas uma clínica particular oferece o serviço, a 600 reais. Impossível para a mãe, agente de saúde, separada, seis filhos. Ela conta que João já utilizou óculos durante dois anos, graças a um diagnóstico de um clínico geral. Além de não adiantar de nada, a oculista que examinou João depois deste período, disse que ele não tem nenhuma deficiência ocular que justificasse o uso dos óculos. Ainda assim, quando estuda até mais tarde ou assiste muita tevê, a mãe empresta a ele os seus óculos. “Para descanso”, diz ela.

A mãe tentou durante anos conseguir o encaminhamento para o exame, através da clínica geral dos postos de saúde, mas sempre ouviu que as dores eram “normais”, e não havia necessidade de uma tomografia. Dias antes de começar a sentir as dores, sete anos atrás, João bateu a cabeça numa brincadeira com o irmão. O “galo” que ficou em sua testa era enorme, e custou nada menos que um ano para sumir. Mesmo assim, a mãe nunca conseguiu passar do clínico geral para um especialista. Não há neurologistas na cidade em que João mora.

Com o encaminhamento que o professor trouxe de Manaus, a mãe de João tentará, finalmente, marcar uma tomografia pelo sistema de marcação de exames do governo do estado. Sorriu quando viu que um pedaço de papel, com letras mal traçadas e um carimbo separavam o seu filho de um exame que pode ajudar a descobrir a causa de uma dor que acompanha seu filho há pelo menos metade de sua existência.

Resta saber se, mesmo com o papel e o carimbo do médico de Manaus, ela conseguirá furar o sistema que impede o seu filho de passar um dia inteiro sem analgésicos ou sem dor.

* O nome é fictício. A história de João é real. O professor já planeja uma cota na escola, para conseguir os 600 reais do exame. Desconfia que o sistema não se renderá facilmente.

DA DEMOCRACIA COMO PRÁXIS E DAS TRAPAÇAS DA LINGUAGEM CONSTITUÍDA

Imagine um boi. Certamente, a imagem que veio à sua imaginação foi o animal, com chifres, e cada qual que lê este texto imagina um pequeniníssino boi que cabe na sua imaginação. Agora, imagine a junção das letras B – O – I, e diga em voz alta. O que surgirá? A palavra Boi. Só aí, neste curto exercício, já temos três elementos. A palavra, a imagem, e o animal (objeto) propriamente dito. Cabe aqui a pergunta fatal: qual dos três você pode, devidamente abatido e preparado, comer?

A resposta é clara. O animal. Quem vive de mastigar imagens ou palavras, morre de fome.

O mesmo se dá com a democracia.

Há a palavra-democracia, esta que você facilmente decompõe e que conta com 10 palavras que juntas não dão conta do todo que é a palavra. Há a imagem-democracia. Essa é um pouco mais complicada, porque é mais fácil ver um boi – mesmo para a geração play do twitter e dos condomínios, que dissecam frango de granja nas aulas de ciências – do que ver uma democracia. Principalmente hoje em dia. Afinal, não tem mais nenhum grego, da época da democracia ateniense, vivo.

Esse terceiro item, o objeto, a democracia como corpo “físico”, só se corporifica na práxis. E dela, a gente só vê os efeitos. Um exemplo pode ser visto em Parintins, no Amazonas.

Alguns parintinenses votam em Arthur Neto, porque para ele, o atual senador do PSDB/AM é o grande responsável por empreendimentos que existem na cidade, como a praça digital, e que existirão, como a futura Cidade do Folclore, que será construída – se for – com dinheiro da Eletrobrás, via Lei Rouanet. Argumento inatacável.

Mas se o leitor polifônico disser que as emendas orçamentárias para tais empreendimentos não forem mais que obrigação do parlamentar, atividade inerente a esta função? Bem, o parintinense que defende o tucano dirá, com certa razão: “E os outros, que não fazem nem isso?”. A pergunta cabe, como crítica, a parlamentares honestos, como Praciano. Os outros, não contam.

Mas nada disso tem a ver com democracia. Porque se a democracia é o governo do povo, donde emana o poder soberano, então nem Arthur nem PSDB demonstraram ser democratas quando tiveram a chance.

Arthur, que já foi chefe da casa civil, vivia às boas com um governo nortefóbico, que semana sim, outra também, tentava acabar com a capenga Zona Franca de Manaus. Neste octênio triste, os investimentos no interior foram mirrados, poucos, quase nada mesmo. Isso sendo otimista. Arthur tinha ingerência, ou pelo menos esperava-se ter, já que o partido dele estava na presidência, e ele era o chefe da casa civil. O que ganharam Parintins, Lábrea, Urucará, Boa Vista do Ramos, Nhamundá, São Sebastião do Uatumã, Ipixuna, dentre muitos, nesse tempo?

Veio o governo Lula, que carrega traços da democracia, enquanto corpo, para além da palavra e da imaginação. Aí, Arthur se zanga. Diz que vai bater em Lula, semana sim, outra também, ameaça o sapo barbudo de mil desatinos, passa anos – com a ajuda da direita e da mídia midiocrizada – atacando o governo que trouxe o Bolsa Família, o Luz Para Todos, e mais que isso, abriu as portas do Palácio do Planalto para os prefeitos de todos os mais de cinco mil municípios brasileiros. Incluindo aqueles que governavam sob a bandeira de PSDB e DEM.

Arthur, embora ameaçasse Lula diariamente, com destaque no jornal global, sob as bênçãos do casal Bonner-Simpson, nunca teve dificuldades para aprovar uma emenda orçamentária, incluindo aquelas que beneficiaram a cidade de Parintins, e que agora trazem dividendos eleitorais para o tucano.

Porque, para o governo Lula, PSDB, DEM, Arthur, estão em segundo plano, quando o assunto é investir e governar para o desenvolvimento econômico e social. Mesmo que, ali à frente, esteja uma eleição, e haja um candidato da oposição que colocará seu nome na placa. Lula, que não é otário, sabe o que o povo sabe.

Daí, neste ato simples de colocar acima da questão partidária e eleitoral, a política como promoção do Bem Comum, estar evidente a Democracia enquanto corpo afetivo. Fosse ela o boi de nosso exemplo primeiro, poderíamos assá-la e comê-la, pois que é real. Não sendo o boi, mas sendo a democracia, podemos sentir o quanto ela auxilia na modificação das nossas condições de existência. E até Arthur, que não é democrata, mas que se diz, deve à democracia do governo Lula, a sua eleição. Se ela vir a ocorrer, claro.

E você, eleitor? Seu voto é imagem, palavra ou objeto efetivo?

PEQUENA NOTA DO ‘FOLCLORE’ PARINTINENSE

A lua sorria, crescente, e a música, apesar de eletrônica, dava um clima de festa tradicional junina. Mas não se engane o leitor. A abertura do 45o Festival Folclórico de Parintins, ontem à noite, pouco ou nada lembra as antigas festas, onde o povo era protagonista.

Primeiro, porque ao procurar as tradicionais barracas de comidas típicas, o morador da cidade não encontra. Nada de bolo podre, mungunzá, banana frita, bolo de macaxeira, de milho. Há apenas barracas de churrasquinho, e os lanches da praça dos bois, já velhos conhecidos. Carrinhos com caixas de isopor cheias de bebidas também tomam conta dos arredores.

Mas a população não liga. A sua participação parece se reduzir a dançar no campeonato de quadrilhas e de bois mirins, e consumir.

A organização, como lembra a cada cinco minutos o narrador oficial, é da prefeitura de Parintins. O prefeito, aliás, assiste a tudo do camarote, único local protegido contra a chuva, e de onde se pode avistar toda a área da festa. Bi Garcia (PSDB), além de prefeito, é mestre de cerimônia. O evento não começa sem que ele chegue para dar início. E ele é pontual. Promete um mini-bumbódromo para os bois mirins, e uma reforma completa na Praça dos Bois. E não esquece o seu papel de ponta-de-lança da direita no Amazonas. Embora tenha dito no início que os recursos para a tal reforma virão da Eletrobrás, não cansa de citar o nome do senador Arthur Neto, o “amigo de Parintins”.

O nome de Arthur, junto com o do próprio Bi Garcia, aliás, é dito a cada cinco minutos pelo apresentador oficial. Os levantadores das cirandas também não perdem a chance de tecer loas à dupla tucana. A população assiste a tudo, e compra churrasco, sorvete, tacacá, sanduíches, refrigerante e cerveja. Não sabemos se comprarão o principal produto ofertado na festa.

O que se sabe e fica nítido é que a festa folclórica e junina realizada pode até ser bonita e atrair boa parte da cidade. Mas o povo, nela, é coadjuvante, e não protagonista.

UM OLHAR SOBRE O IRÃ

Por Sonia Bonzi, via Novae:

Depois de ter morado no Irã, minha maneira de ver o mundo mudou bastante. Não acredito em mais nada do que diz a grande mídia.

Quando soube que ia morar em Teerã senti um certo medo, mas aceitei o desafio. Comecei uma busca voraz por informações sobre o país, a cidade, a história, o povo. Depois de tudo que li, decidi que viveria em casa, reclusa, lendo, escrevendo, fazendo crochet, inventando moda…

Parti de Londres pronta para o sacrifício. Teria que conviver com os xiitas radicais, terroristas cruéis, apedrejadores de mulheres, exterminadores de homossexuais, homens-bomba, mulheres oprimidas, cobertas com véus…

Eu estava submetida às leis locais e me seria vedado mostrar cabelos, pernas e braços. Ficar em casa era o que mais me atraia. Vestir um chador para sair me parecia um pouco demais. A caminho de Teerã eu depositava o sucesso da minha estadia nos jardins da casa onde fui morar. Ter aquele espaço me bastaria.

Logo ao sair do aeroporto comecei a ter uma imagem diferente de tudo aquilo que eu tinha lido. Tudo tão bonito, belas estradas, muita luz, viadutos com mosaicos, jardins bem cuidados, gente vendendo flores nos sinais, um engarrafamento sem buzinas, pedestres poderosos cruzando entre os carros, rapaziada de cabelo espetado, mocinhos com camisetas apertadinhas, moças lindas, super produzidas e também muitas mulheres de chador. Parques cheios de gente. Muita criança. Muito pic nic.

Dizem que a primeira impressão é a que vale. Gostei da chegada. Não tive medo. Não vi tanques, cadafalsos, escoltas armadas… Gostei das caras, das montanhas, das casas, das árvores, dos muros, do alfabeto que me tornava analfabeta.

Logo no segundo dia eu já tinha entendido que minha leitura sobre o cotidiano não tinha nada de realidade. Eu não precisava usar chador. Podia sair vestida com uma calça comprida, um camisão de mangas compridas e um lenço na cabeça. Senti-me nos anos 70, quando eu não dispensava um lencinho.

Deixei o jardim de casa e fui conhecer Teerã.

A imprensa e os meios de comunicação do ocidente me deixavam confusa. O que eu lia e ouvia não correspondi ao que eu vivia e via.

Encontro um povo é acolhedor, educado, culto, simpático, que gosta de fazer amigos, que abre as portas de casa para os estrangeiros, gosta de música, de dança, de declamar poesia… Não encontrei os problemas de abastecimento que me informaram haveria. Comprava-se de tudo, inclusive uísque e vodka. Bastava um telefonema.

Os temíveis homens-bomba nunca passaram por lá. Ninguém se explodia. Foi horrível constatar que enforcamentos aconteciam de vez em quando. Apedrejamento de mulher adúltera já não acontecia há 14 anos.

Fiquei amiga de muitos gays, fiz e fui a festas espetaculares, tomei vinho feito em casa, viajei sem escoltas pelo país, visitei amigos em suas casas de campo, de praia, de montanha…

Apaixonei-me pela culinária refinadíssima, morro de saudades das nozes, pistaches, castanhas, avelãs, frutas secas. Não me esqueço dos pães, do iogurte, do suco de romã puro ou com vodka…

Conheci a Pérsia profunda: lagos salgados, desertos salgados, as antigas capitais, segui a "rota da seda", dormi em caravanserais… Sempre assessorada por amigos locais.

Não conheci um iraniano, de nenhuma classe social, que fosse favorável ao regime teocrático instalado no país. Só uma coisa aproxima o povo do governo: o direito à tecnologia nuclear.

A pressão do ocidente fortalece e radicaliza os aiatolás. O povo do Irã não aceita esta interferência mundial. Quem são os ocidentais para dizer a eles o que fazer? Eles não vem o ocidente como um modelo a ser seguido. Eles não acreditam nos governos que já apoiaram Sadam Hussein numa guerra contra eles. Eles não tem razão para acreditar nas grandes potências. Isto incomoda. Melhor demonizá-los. Eles são acusados de não cumprirem acordos. Quem os acusa também não cumpre.

O domínio da tecnologia nuclear é considerado pelo povo do Irã como um direito deles, que sempre tiveram grandes cientistas, que sempre valorizaram o conhecimento, a medicina de ponta, que querem vender energia nuclear..

O povo iraniano não começa uma guerra há mais de 200 anos. Eles não são belicosos. São diferentes de seus vizinhos. A instabilidade no Oriente Médio não é causada pelo Irã. Apesar da força que a imprensa, os governos, as corporações fazem para denegrir a imagem do Irã, eu confesso que o Irã que eu conheci não é o que é descrito pela mídia ocidental.

Não há favelas em Teerã, não há miseráveis pelas ruas. Minorias tem seus representantes no Congresso, judeus tem seus negócios, suas sinagogas, zoroastrianos tem acesa a chama em seus templos. A família é uma instituição valorizada. Refugiados palestinos e iraquianos são mantidos pelo governo e pelo povo iraniano, que lhes oferece abrigo, alimento e escolas…

Não acredito que ameaças e o uso da força possam melhorar a situação na região. Os iranianos não são os iraquianos. Ser mártir para defender a religião ou a pátria é motivo de júbilo até para as mães.

A negociação, o respeito, a falta de arrogância, as informações corretas são as armas para defender a estabilidade no mundo. Pena que muitos interesses financeiros estejam acima dos sonhos de bem-estar e paz.

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A escritora Sonia Bonzi é uma das mais antigas colaboradoras da NovaE, escrevendo do Irã e de vários países do mundo.