“Nós Não Éramos Índios”

America. Americen Americus retexit, Semel vocauit inde semper exitam (the astrolabe) PAF7094

Stradanus, Américo Vespúcio descobrindo a América.

Aicué curí uiocó, Paraná-assú sui, peruaiana, quirimbaua pirrí pessuí: “vai aparecer do rio maior, o maior e mais poderoso inimigo de vocês”. Foi com essa mensagem que Poronominaré, o grande mensageiro de Tupana, tentou prevenir todos os povos que dominavam essas terras antes de 1500. Talvez os pajés e os chefes imaginassem que esse poderoso inimigo fosse uma epidemia, ou a ira dos ventos, revolta das matas ou mesmo vingança de Curupira. Mas em nenhum momento eles imaginaram que o inimigo seria o homem branco, vindo do meio do mar, conforme testemunharam os olhares Tupiniquim, Tupinambá, e quem sabe outros povos nativos da costa Atlântica. Muitos anos depois, essa mesma história se repetiria nas terras dos calentes xavante, kaiapó, juruna e kayabi, no Centro-Oeste, entre os tarumã, baré e manao, na confluência dos rios Negro e Solimões, e entre os tukano, baniwa, desana e outros no extremo Norte, no alto Rio Negro.

Possivelmente foram recebidos com grande surpresa e admiração, mostrando-se, por sua vez, com cara de bons amigos, oferecendo presentes, tentando se comunicar através de gestos e sinais. Em seguida, voltaram a seu país de origem, para comunicar ao rei a descoberta de novas terras, habitadas por indianos bugres ou indianos selvagens. Com essa notícia, o rei de Portugal deve ter, naturalmente, enviado para essas terras vários navios com milhares de pessoas, com autorização para ocupar e dominar o maior espaço possível de território então ocupado por seus verdadeiros donos, à custa de qualquer preço.

Enquanto isso, o povo jamais poderia imaginar a tamanha barbaridade de que o homem branco seria capaz. Não sabiam que a partir de então estavam decretados o genocídio, o etnocídio, os massacres e as opressões contra aqueles que passaram a ser chamados de índios.

No rio Negro, habitado ao longo de todo o seu curso pelo povo baré e, em seus afluentes, pelos tukano, desana, arapasso, wanano, tuyuka, baniwa, warekena e outros, ocorreram as mesmas violências. Povos e aldeias inteiras foram dizimados pelos invasores franceses, holandeses e portugueses. Comerciantes brancos, credenciados pelos governadores das províncias, eram portadores de carta-branca para praticar qualquer ato criminoso contra os povos indígenas. Nem mesmo o grande cacique guerreiro Wayury-Kawa (Ajuricaba) conseguiu livrar seu povo dos carrascos invasores, pois a luta era totalmente desigual: enquanto os índios lutavam com suas flechas e zarabatanas, os brancos disparavam poderosos canhões contra homens, mulheres e crianças que tentavam impedi-los de entrar em suas terras. Mas, mesmo dominado, preso e ferido, Ajuricaba preferiu a morte, jogando-se acorrentado ao rio.

Hoje, quinhentos anos depois, ainda lembramo-nos das tristes histórias contadas pelos nossos avós. Eles diziam que os primeiros comerciantes que apareceram no rio Negro traziam consigo mercadorias como fósforo, terçados, machados e tecidos, com que tentavam convencer os índios a produzir borracha, castanha, balata, piaçaba, cipó-titica e outros produtos naturais. Como essas mercadorias despertavam pouco interesse entre os índios, eles passaram a usar a violência, atacando aldeias e aprisionando homens e mulheres para levá-los aos seringais, castanhais, sorvais ou piaçabais localizados nos rios Branco, Uacará, Padauiri e Preto. Muitos nunca mais voltavam desses lugares, uns porque não resistiram aos maus-tratos dos patrões, outros porque foram vítimas de doenças contagiosas, como febre amarela, gripe, varíola ou sarampo. Ainda hoje, há descendentes dos barés, tukano, baniwa e warekena que vivem nesses rios, em uma vida de escravidão. Há pessoas de mais de 60 anos que sequer conhecem o rio Negro, mas apenas a lei do patrão.

Até as primeiras décadas do século XX, era “de praxe” o branco ter a seu serviço homens e mulheres indígenas, fosse para simples trabalhos domésticos ou para trabalhos mais sacrificados, como servir como remadores nas grandes canoas que saíam de Tawa (São Gabriel) até Belém do Pará, levando produto e trazendo mercadoria, numa viagem que demorava de seis a dez meses. Muitos remadores não conseguiam retornar, mortos durante a viagem pelo patrão. Aqueles que iam para extrair borracha ou outros produtos eram obrigados a produzir uma determinada quantidade para entrega e, caso não atingissem sua cota, eram açoitados no terreiro do barracão. Os que eram obrigados a assistir esse espetáculo deviam dar risadas para não ter o mesmo destino.

Nessa mesma época, apareceram os primeiros missionários. Eles tinham o propósito de aldear os índios, com a intenção de livrá-los da garra dos patrões e submetê-los a crer em Deus através da evangelização católica. Essa investida, no entanto, foi pior que qualquer sofrimento físico, pois obrigou os índios a abandonarem várias de suas práticas culturais, como as curas, as festas de Dabukuri, os rituais de preparação dos jovens e suas formas de homenagear e agradecer o grande criador do universo. Tudo isso virou ato diabólico na lei dos missionários. Nos grandes prédios das missões, foram criadas escolas onde os índios eram obrigados a falar a língua portuguesa e a rezar em latim.

Nas primeiras décadas do século também se instalou na região do baixo rio Waupes (Uauapés), na Ilha de Bela Vista, a família Albuquerque. Um desses, que se fez conhecer por Manduca, não por ser bom, mas por ser perverso e bêbado, recebeu o título de diretor de índios pelo antigo Serviço de Proteção aos Índios. Manduca Albuquerque fazia questão de divulgar sua fama pelos rios Waupes, Tiquié e Papuri. Toda a população desses rios tinha de ser seu produtor de borracha e farinha. Nesse tempo, ele comprou um dos primeiros motores, com que transportava sua produção e seus homens, mas índios tinham que remar mesmo quando o motor estava funcionando e só podiam viajar sentados ou deitados. Conta-se que um dia ele viajou com seu motor até Manaus, quando alguns índios decidiram matar um de seus capangas mais perversos. Quando Manduca chegou, ao saber da notícia, mandou seus capangas prenderem todos os homens e mulheres de um determinado lugar para conversar com ele.

Quando esse pessoal chegou, ele já estava em estado de embriaguez e ordenou que todos fossem amarrados a um pé de laranjeira onde havia um enorme formigueiro, até o dia seguinte. Decidiu, então, que todos embarcassem no seu barco motorizado para que ele, pessoalmente, os levasse de volta.

Nessa viagem, em meio a uma grande bebedeira de cachaça, ordenou que três de cada vez caíssem na água. Então começou a disparar com seu rifle 44 na cabeça de cada um, e assim matou todos.

Nas décadas de 1950 e 1960, nos rios Waupes, Tiquié, Içana e Xié, o produto industrializado chegava através dos chamados regatões (comerciantes ambulantes), que também se aproveitavam da mão-de-obra barata dos índios. Na sua mercadoria sempre tinha a cachaça, com a qual embriagavam os homens, para abusar sexualmente das mulheres casadas e solteiras, como forma de pagamento das dívidas contraídas por pais e maridos.

Apesar de todo esse passado de violência e massacre, podemos registrar alguma coisa como vitória: a demarcação das cinco terras indígenas do alto rio Negro, confirmando mais uma vez a profecia do grande mensageiro de Tupana, o Poronominaré. Em uma de suas visitas a seu povo, muito irritado, disse: Puxí curí peçassa amun-itá ruaxara maramên curí pemanduari ixê, aramen curí peiassúca peiaxiú Paraná ribiiuá upê, pemuncamém peruá, pericu-aram maam peiara, tupanaumeém ua peiaram (“vocês agora vão ser dominados por outras pessoas, até quando se lembrarem de mim, aí então irão ao rio tomar banho e chorar mostrando suas caras, para que assim eu vos reconheça e Tupana devolva aquilo que sempre foi de vocês”).

Analisando essa grande profecia, vemos que o povo de Tupana não era unicamente o povo baré. Concluímos que os povos tinham que passar por esse longo período se sofrimento. Mas, depois que se reconhecessem, começariam, então, a reconquistar seus direitos originários, agiriam como índios, brasileiros, amazonenses, são-gabrielenses. A grande conquista do reconhecimento dos mais de dez milhões de hectares de terra demarcadas no rio Negro resultou de uma luta que foi consequência desse passado. Mesmo assim, se alguns dos nossos antepassados nos vissem no estado em que estamos e lhes perguntássemos porque eles há quinhentos anos viviam livres e tranquilos, certamente nos responderiam: “nós não éramos índios”.

Bráz França Baré, “Origem do Povo Baré”, trecho do livro “Baré: povo do rio”.

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Carta Capital entrevista David Harvey: “Zapatismo foi um movimento indígena com características ocidentais”

Pego da Carta Capital

Pesquisador de revoltas recentes ao redor do mundo, o geógrafo britânico David Harvey reconhece a influência dos zapatistas nos novos levantes que têm surgido. Mas ele pondera que algumas das suas características são ignoradas pela esquerda em diversos países.

O geógrafo concedeu uma entrevista à reportagem deCartaCapital, na qual fala sobre o legado do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), que há vinte anos tomou o controle de parte da pobre província mexicana de Chiapas.

Harvey destaca as novidades trazidas pelo levante, como a ênfase no direito das mulheres. Ele, porém, se diz “cansado” das pessoas acharem que a revolução “sairá de Chiapas”. Para o geógrafo, a esquerda deve achar uma forma própria de se organizar na cidade. Leia abaixo as falas do geógrafo sobre o levante:

Movimento indígena com características ocidentais

O zapatismo é retratado às vezes como somente um movimento indígena. Mas ele não é isso. É um movimento indígena com caraterísticas ocidentais. Um movimento horizontal, mas com formas militares hierarquizadas. Ou seja, é uma forma híbrida.

Obviamente o zapatismo teve um impacto muito grande na esquerda. A esquerda mundial ficou muito impressionada com suas formas horizontais de governança, mas falhou em reconhecer que a parte militar dessa organização a modificou muito.

Direitos das mulheres

Os zapatistas abordaram muitas questões importantes para essas sociedades (indígenas), como os direitos das mulheres, de uma maneira muito importante. Foi muito excitante ver a questão de gênero, em toda sua dimensão, ser propriamente abordada e articulada pelos zapatistas. [Diversas das figuras mais proeminentes do movimento eram mulheres e, logo após o levante, os zapatistas fizeram uma serie de reivindicações específicas em relação a elas].

Os direitos das mulheres estavam arraigados muito neste movimento, o que não é necessariamente verdade em outras populações indígenas e na esquerda. Mais uma vez, nessa questão, eles tinham características especiais.

Teologia da libertação

O movimento era uma combinação brilhante de pensamento indígena com perspectivas do iluminismo ocidental. Particularmente, havia uma influência de doutrinas do catolicismo, como dos franciscanos [conjunto de ordens católicas com forte presença na América Latina]. Eu acho que foi a expressão de ideias como respeito e dignidade, vindas de Chiapas, que agarraram a imaginação do mundo.

Foi uma combinação peculiar, onde a posição do subcomandante Marcos foi extremamente crucial. Não só em termos de organizar a parte militar, mas também de apresentar suas ideias ao mundo, que muito dificilmente poderiam ser entendidas. Então, quando ele falava de respeito e dignidade, ele estava em uma longa história da teologia da libertação, por exemplo. E as pessoas responderam a isso.

Ação fora do Estado

Havia também a característica de que aquele não era um partido político, não queria tomar o poder do Estado. Os zapatistas só queriam autonomia, e isso foi atraente para muitas pessoas ao redor do mundo. Eles estavam, desta forma, se protegendo da exploração. Quando se faz isso, você mantém-se fora dos limites, mas isso também gera muitos problemas. Eles precisam de recursos, eles precisam de armas, é uma história muito complicada.

A revolução não sairá de Chiapas

As vezes eu fico um pouco cansado porque em partes da Europa e da América do Norte as pessoas acham que a revolução vai sair de Chiapas e salvar a nós todos. Meu argumento é que a gente não pode simplesmente tirar aquilo do México e trazer para cá, nós temos de inventar nossas próprias maneiras de fazer política, de acordo com as nossas próprias circunstâncias.

Nós não estamos vivendo em Chiapas, nós estamos vivendo em Pittsburgh, em Detroit, em São Paulo. E a gente precisa pensar nas nossas próprias formas de se organizar em grandes cidades como essas.

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Boaventura Santos: “Desculpe, Presidente Evo”

Do Correio Do Brasil

12/7/2013 15:49

Por Boaventura de Sousa Santos – de Lisboa

 

 

Esperei uma semana que o governo do meu país lhe pedisse formalmente desculpas pelo ato de pirataria aérea e de terrorismo de Estado que cometeu, juntamente com a Espanha, a França e a Itália, ao não autorizar a escala técnica do seu avião no regresso à Bolívia depois de uma reunião em Moscou, ofendendo a dignidade e a soberania do seu país e pondo em risco a sua própria vida. Não esperava que o fizesse, pois conheço e sofro o colapso diário da legalidade nacional e internacional em curso no meu país e nos países vizinhos, a mediocridade moral e política das elites que nos governam, e o refúgio precário da dignidade e da esperança nas consciências, nas ruas e nas praças, depois de há muito terem sido expulsas das instituições. Não pediu desculpa. Peço eu, cidadão comum, envergonhado por pertencer a um país e a um continente que são capazes de cometer esta afronta e de o fazer de modo impune, já que nenhuma instância internacional se atreve a enfrentar os autores e os mandantes deste crime internacional.

O meu pedido de desculpas não tem qualquer valor diplomático mas tem um valor talvez ainda superior, na medida em que, longe de ser um ato individual, é a expressão de um sentimento coletivo, muito mais vasto do que pode imaginar, por parte de cidadãos indignados que todos os dias juntam mais razões para não se sentirem representados pelos seus representantes. O crime cometido contra si foi mais uma dessas razões. Alegramo-nos com seu regresso em segurança a casa e vibramos com a calorosa acolhida que lhe deu o seu povo ao aterrar em El Alto. Creia, senhor Presidente, que, a muitos quilômetros de distância, muitos de nós estávamos lá, embebidos no ar mágico dos Andes.

O senhor Presidente sabe melhor do que qualquer de nós que se tratou de mais um ato de arrogância colonial no seguimento de uma longa e dolorosa história de opressão, violência e supremacia racial. Para a Europa, um Presidente índio é sempre mais índio do que Presidente e, por isso, é de esperar que transporte droga ou terroristas no seu avião presidencial. Uma suspeita de um branco contra um índio é mil vezes mais credível que a suspeita de um índio contra um branco. Lembra-se bem que os europeus, na pessoa do Papa Paulo III, só reconheceram que a gente do seu povo tinha alma humana em 1537 (bula Sublimis Deus), e conseguiram ser tão ignominiosos nos termos em que recusaram esse reconhecimento durante décadas como nos termos em que finalmente o aceitaram. Foram precisos 469 anos para que, na sua pessoa, fosse eleito presidente um indígena num país de maioria indígena.

Evo

Evo unificou a Bolívia com o respeito aos ritos e tradições dos índios locais

Mas sei que também está atento às diferenças nas continuidades. A humilhação de que foi vítima foi um ato de arrogância colonial ou de subserviência colonial? Lembremos um outro “incidente” recente entre governantes europeus e latino-americanos. Em 10 de novembro de 2007, durante a XVII Cúpula Iberoamericana, realizada no Chile, o Rei de Espanha, desagradado pelo que ouvia do saudoso Presidente Hugo Chávez, dirigiu-se-lhe intempestivamente e mandou-o calar. A frase “Por qué no te callas” ficará na história das relações internacionais como um símbolo cruelmente revelador das contas por saldar entre as potências ex-colonizadoras e as suas ex-colônias. De facto, não se imagina um chefe de Estado europeu a dirigir-se nesses termos publicamente a um seu congênere europeu, quaisquer que fossem as razões.

O senhor Presidente foi vítima de uma agressão ainda mais humilhante, mas não lhe escapará o fato de que, no seu caso, a Europa não agiu espontaneamente. Fê-lo a mando dos EUA e, ao fazê-lo, submeteu-se à ilegalidade internacional imposta pelo imperialismo norte-americano, tal como, anos antes, o fizera ao autorizar o sobrevoo do seu espaço aéreo para voos clandestinos da CIA, transportando suspeitos a caminho de Guantánamo, em clara violação do direito internacional. Sinais dos tempos, senhor Presidente: a arrogância colonial europeia já não pode ser exercida sem subserviência colonial. Este continente está a ficar demasiado pequeno para poder ser grande sem ser aos ombros de outrem. Nada disto absolve as elites europeias. Apenas aprofunda a distância entre elas e tantos europeus, como eu, que veem na Bolí­via um país amigo e respeitam a dignidade do seu povo e a legitimidade das suas autoridades democráticas.

Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.

Preâmbulo às instruções para dar corda no relógio

Pense nisto: quando dão a você de presente um relógio estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. Não dão somente o relógio, muitas felicidades e esperamos que dure porque é de boa marca, suíço com âncoras de rubi; não dão de presente somente esse miúdo quebra-pedras que você atará ao pulso e levará a passear. Dão a você – eles não sabem, o terrível é que não sabem – dão a você um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser atado a seu corpo com sua correia como um bracinho desesperado pendurado a seu pulso. Dão a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio; dão a obsessão de olhar a hora certa nas vitrines das joalherias, na notícia do rádio, no serviço telefônico. Dão o medo de perde-lo, de que seja roubado, de que possa cair no chão e se quebrar. Dão sua marca e a certeza que é uma marca melhor do que as outras, dão o costume de comparar seu relógio aos outros relógios. Não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do relógio.

(Preâmbulo às instruções para dar corda no relógio. Júlio Cortázar, Histórias de Cronópios e Famas).

Chile tem segundo dia de greve geral por mudanças na economia

Monica Yanakiew*
Correspondente da EBC na Argentina

Buenos Aires – Milhares de chilenos amanheceram hoje (25) nas ruas de Santiago, capital do Chile, e de várias cidades do país exigindo mudanças profundas em uma economia neoliberal, considerada um modelo de estabilidade e crescimento na região. De acordo com as autoridades chilenas, não houve registros de embates entre manifestantes e policiais, nem de violência.

É o segundo dia da greve geral, que começou ontem (24), sob comando da Central Única dos Trabalhadores (CUT). É a primeira vez que o Chile para por 48 horas desde a queda do ditador Augusto Pinochet (1973-1980). Também é a primeira paralisação geral enfrentada pelo presidente Sebastián Piñera.

Porém, nem todo o país parou. A greve geral obteve apoio dos principais partidos da oposição – da Frente Concertación que governou o Chile nos últimos 20 anos. Os sindicatos receberam a adesão do movimento estudantil, que ha três meses faz protestos no país em defesa da reforma da educação.

Os trabalhadores exigem reforma na Constituição, alterando o modelo econômico em vigência, como o Artigo 119 que se refere à proteção absoluta da propriedade privada e põe o Estado em segundo plano. A CUT defende ainda a intervenção estatal e a nacionalização de recursos naturais e da mineração – uma das maiores fontes de riqueza do Chile.

Para os trabalhadores, é fundamental também uma reforma tributária capaz de reduzir os impostos cobrados aos mais pobres e elevando a contribuição dos mais ricos. Ao mesmo tempo, foi intensificada a campanha em favor do ensino superior gratuito e de mais investimentos em educação.

Atualmente os estudantes financiam os estudos, no ensino superior, por meio de empréstimos especiais, mas os juros são considerados elevados. As escolas secundárias públicas e gratuitas representam apenas 25% do total no país.

“A greve não paralisou o país inteiro, nem resultara numa reforma completa do sistema. Mas teve um efeito positivo: manteve a demanda dos estudantes, que conta com apoio popular, na agenda política”, disse à Agência Brasil o analista político e professor universitário, Guillermo Holzmann.

Segundo Holzmann, setembro será um mês de mobilizações porque os protestos estudantis coincidirão com duas datas importantes: 4 de setembro, aniversário da eleição do presidente Salvador Allende (1970-1973), e 11 de setembro, quando houve o golpe de Estado que instituiu a ditadura no país.

A série de manifestações e a greve geral ocorrem no momento em que Piñera enfrenta o menor índice de aprovação da opinião pública desde que assumiu o governo, em março de 2010. A baixa popularidade vem depois de ele ter vivido uma fase de elogios internos e externos devido ao resgate bem-sucedido dos 33 mineiros soterrados em uma mina no Norte do Chile.

“É um paradoxo. No ano passado, o Chile cresceu mais de 6%, apesar do terremoto e este ano deve crescer 7%. No entanto, esse desempenho não foi acompanhado por uma maior adesão popular ao governo – muito pelo contrário”, disse Holzmann.

Em seguida, o especialista acrescentou que a oposição no Chile “está fragmentada, sem liderança, sem proposta e sem apoio social. Mais do que o governo Piñera, que herdou muitos dos problemas, os chilenos estão criticando toda a classe política”.

*Colaborou Renata Giraldi, de Brasília.

Edição: Talita Cavalcante

 

“Mudanças tectônicas” nas economias emegentes, segtundo estudo alemão

Renata Giraldi* Repórter da Agência Brasil

Brasília – Em poucos anos, as economias do Brasil, da Rússia, da Índia e da China devem superar as dos Estados Unidos e dos 27 países que integram a União Europeia (UE). A conclusão é do Instituto de Negócios Alemão (cuja sigla em alemão é IW). Segundo especialistas, a economia global gerou “mudanças tectônicas” nas economias emergentes.

Para o instituto alemão, a pressão da crise financeira internacional sobre as economias mundiais e os mercados financeiros enfraque os Estados Unidos e fortalece os países em desenvolvimento. O estudo destacou o comércio entre a Alemanha e o Brics (acrônimo que representam os emergentes Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).

De acordo com o relatório, as negociações na Alemanha com os Brics envolvem, em geral, engenharia mecânica, indústria automotiva, indústria de bens eletrônicos e de indústria química. Pela análise do instituto, a economia dos Brics, nos últimos anos, registrou aceleração econômica, enquanto a participação na economia global tem sido claramente superior à dos países da chamada zona do euro.

Pelos dados compilados peli instituto, no período de 2002 a 2010, houve crescimento de 12% para 21% das exportações da Alemanhã para Brasil, Rússia, Índia e China. O relatório informa que há “ um grande futuro para os Brics”. Segundo o texto, o grupo reúne elementos para se tornar um “gigante no futuro”.

O estudo IW indicou ainda que, lentamente, os Estados Unidos perdem espaço no cenário econômico, embora se mantenha como segundo colocado para produtos alemães em 2010, apesar da queda de 5% das importações alemãs em relação a 2005″, disse ele.

O Instituto de Negócios Alemão (cuja sigla em alemão é IW) é uma entidade independente que atua no setor de negócios privados desde 1951. A sede do órgão está localizada na cidade alemã de Colônia.

*Com informações das agências públicas de notícias do México e da Alemanha

Edição: Vinicius Doria

Graziano diz que América Latina pode erradicar a fome até 2025

Yara Aquino
Repórter da Agência Brasil

Brasília – Erradicar a fome até 2025 é uma meta viável para os países da América Latina, na avaliação do recém-eleito diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), o brasileiro José Graziano.

“A meta para o milênio [meta proposta pela Organização das Nações Unidas] é reduzir pela metade o número de famintos até 2015. Será muito difícil alcançar essa meta para boa parte dos países, sobretudo os mais pobres. A América Latina tem meta de erradicar a fome em 2025, o que acho perfeitamente viável”, disse hoje (3), ao participar de reunião do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).

Como representante regional da FAO para a América Latina e o Caribe, posto que assumiu em 2006, José Graziano conseguiu que os países da América Latina fossem os primeiros a assumir o compromisso de erradicar a fome até 2025.

Graziano observou que alguns governantes, em especial os de países onde não há um sistema democrático, não têm o interesse de acabar com a fome. Mudar a realidade nesses países é um dos desafios apontado por ele para sua gestão à frente da FAO, que começa em janeiro de 2012. “Alguns países se assentam nessa exclusão social para manter o domínio de uma minoria, por isso que digo que acabar com a fome não interessa a todos, por que ela pode modificar governos. Acho que chegar a um sistema democrático também é uma pré-condição para acabar com a fome”, disse.

A eleição de José Graziano para a diretoria-geral da FAO ocorreu em junho. Com o apoio do governo brasileiro, Graziano foi eleito com 92 dos 180 votos e ocupará o cargo no período de janeiro de 2012 a julho de 2015

Ele atribui a escolha de um brasileiro para o cargo à mudança na imagem que o Brasil adquiriu no exterior. “Acho que essa foi a grande razão da vitória: a expectativa que o Brasil representa hoje no mundo de encontrar um novo caminho de desenvolvimento. O Brasil é visto como um país que pode fazer a ponte para os países que estão em desenvolvimento com uma proposta diferente dos que estão lá, os desenvolvidos.”

Edição: Talita Cavalcante

Comentário do Poli:qualquer esforço para reduzir ou erradicar a fome do mundo não diz respeito a ações humanistas fundamentadas em juízos de valores carregados da moral cristã-judaica tão cara ao Ocidente, onde a fome ,e todos os sofrimentos e tipo de violência artificiais dela extraída, é usada como um mecanismo de exploração política através do rancor de culpa. Trta-se antes de dois tipos de política que podem muito bem convergirem: uma política de governo onde o pobre seja percebido como partipante, produtor e administrador da riqueza do mundo e uma política como produção da existência onde os próprios seres humanos criam a si mesmos como sujeitos morais.