Rádio e TV Senado fazem especiais sobre Glauber Rocha

Reprodução

O Leão de Sete Cabeças, de Glauber Rocha, fará parte da programação especial do Senado, em homenagem aos 30 anos da morte do cineasta

“O Leão de Sete Cabeças”, de Glauber Rocha, fará parte da programação especial do Senado, em homenagem aos 30 anos da morte do cineasta

Provocador, vanguardista, revolucionário, o baiano Glauber Rocha reiventou a forma de fazer cinema no País, ganhando projeção internacional. O cineasta, morto em 22 de agosto de 1981, terá sua memória celebrada nesta terça-feira (23), em sessão especial no plenário do Senado.

O autor do memorável Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) – apontado por críticos como um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos – tem recebido uma série de homenagens na Casa durante o mês, com direito a programações especiais exibidas pelas TV e Rádio Senado.

– A ideia era de fazer uma homenagem a Glauber Rocha, da forma como se fez para o centenário de Carybé (artista plástico). Que marcasse a importância dele para a nossa cultura. Como senadora da Bahia, procuro usar o mandato para promover os artistas baianos que tiveram destaque nacional – afirma Lídice da Matta, responsável pela iniciativa.

O presidente da Casa, José Sarney (PMDB) – perfilado pelo cineasta no documentário “Maranhão 66” -, resolveu se incorporar à celebração. Acertou-se que, todos os domingos, a TV Senado exibiria um filme de Glauber. E, no dia 24, “O Leão de Sete Cabeças” será apresentado, em cópia restaurada, no auditório do Senado, às 19h. Foi a primeira produção do baiano no exílio.

Um dos mais importantes nomes do Cinema Novo, Glauber é autor de obras como “Barravento” (1962); “Terra em transe (1967) – que recebeu o Prêmio da Crítica Internacional em Cannes – e “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969)”. A crítica social, feita sempre com ferocidade e contundência, era das principais marcas do homem que popularizou a frase “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”.

Terra Magazine

 

HERMETO PASCOAL E A SUBVERSÃO DA LÓGICA DO MERCADO

Aos 75 anos, Hermeto Pascoal diz querer compor “a música livre de adjetivos”

 

Alex Rodrigues e Pedro Peduzzi
Repórteres Agência Brasil

Brasília – Aos 75 anos, o inventivo multi-instrumentista alagoano Hermeto Pascoal diz nunca ter pensado muito no futuro. Certo de que o amanhã chegará, sempre procura viver o presente. Sem pressa ou qualquer outra preocupação, além de cumprir com o que impôs como sua missão: “compor a música livre de adjetivos”. Objetivo que, a julgar pelas homenagens recebidas no seu aniversário, no último dia 22, parece ter atingido.

“Meu desejo é, a cada novo dia, fazer mais músicas. Acho que sempre vão faltar coisas para eu fazer, mas não abro mão da qualidade”, disse o músico à Agência Brasil durante rápida passagem por Brasília, no último dia 25. Embora saiba que “qualidade” não é algo consensual, Hermeto dá pistas do que o levou a receber convites para tocar com artistas como Miles Davis, John Lennon, Tom Jobim, Elis Regina e Roberto Carlos, além de orquestras e músicos de vanguarda mundo afora.

“Na música, o sujeito não pode ter uma balança com defeito [priorizando a quantidade em detrimento da qualidade]. Cada nota tem que ser boa. E eu também não faço nada para agradar o público. O que quero é compor o que me agrade para só então tocar para as pessoas”, comentou o artista, conhecido por fazer música não apenas com qualquer objeto, mas também usando animais como porcos e galinhas.

SUBVERSÃO À LÓGICA – Somados o desprendimento e o desejo de ver sua obra sendo executada, Hermeto acabou por se associar, mesmo que sem muita consciência, ao movimento denominado Cultura Livre, que prega formas de democratizar o acesso à informação e à cultura, furando o bloqueio dos veículos de comunicação de massa a tudo que não seja considerado “rentável” e subvertendo a lógica comercial de gravadoras e rádios.

Em 2009, dez anos após causar polêmica ao declarar em uma entrevista que queria ser “pirateado” para que, assim, sua obra fosse mais bem divulgada no país, Hermeto começou a liberar, para gravações, os direitos sobre 614 músicas já registradas em discos ou CDs. A declaração de licenciamento, hoje disponível no site oficial do artista, é reveladora quanto ao espírito livre do músico: um bilhete escrito a mão e pintado pelo próprio Hermeto, que termina com um “aproveitem bastante”, endereçado aos “músicos do Brasil e do mundo”.

“Minha música é de quem a quer. A ideia é liberar os direitos autorais para dar a quem se interessar a chance de tocar minha obra”, disse o músico, ao ser perguntado sobre o que o levou a tomar tal decisão, estimulado por Aline Morena, a música gaúcha de 32 anos com quem Hermeto vive há dez anos e com quem mantém o duo Chimarrão com Rapadura.

De acordo com Aline, algumas empresas não têm aceitado o singelo documento disponibilizado por Hermeto. “Elas estão exigindo uma autorização burocrática, específica para cada músico. Queríamos desburocratizar as coisas com um modelo geral de autorização disponível no site, mas cada vez que um músico quer gravar algo, temos que enviar uma autorização específica”. Com isso, quem quer regravar uma música e procura a gravadora acaba tendo de pagar pela cessão do direito, enquanto quem recorre diretamente ao artista recebe a permissão de graça.

SEM MEDO DA PIRATARIA – “Se as gravadoras não levam meu trabalho para as rádios, se ele não toca em nenhum lugar, para que eu faço música? Não tive e nem vou ter nenhum retorno financeiro por minha obra, mas meu prazer, minha alegria, continua sendo tocar. Por isso, as minhas músicas eu quero mais é que sejam pirateadas. Quero mais é que as pessoas toquem, ouçam, a conheçam. E, pra mim, quem reclama da pirataria é quem faz música apenas para vender. Meu valor não são as notas [de dinheiro]. São as notas musicais”, assinalou o artista.

Segundo Aline, menos de 300 das mais de 4 mil composições de Hermeto já foram gravadas. Da obra total, 700 já estão à disposição de quem queira. São as 366 cujas partituras foram incluídas no livro Calendário do Som e cerca de outras 300 de sua discografia.

Além dessas, o pianista e arranjador Jovino Santos Neto digitalizou a partitura de 41 obras inéditas e as disponibilizou no site de Hermeto. A proposta era a de que músicos do mundo todo que quisessem homenagear o alagoano tocassem uma música de sua escolha. “Pessoas do mundo inteiro deram retorno. Rádios da Alemanha, gente de todas as partes mandou e-mail“, contou Aline. “E vamos soltar mais coisas. Além do que, continuo compondo”, completou Hermeto.

Edição: João Carlos Rodrigues

Escolas de música precisam estimular a intuição dos alunos, diz músico alagoano

 

Konstantinus Kavafis: A atenção às palavras

Reproduzido do Blog Catatau

Tenho observado com frequencia a pouca atenção que as pessoas dão às palavras. Explico-me. Um homem simples (com simples não quero dizer parvo, e sim não-eminente) tem uma opinião, critica uma instituição ou crença geral; sabendo que a maioria das pessoas não pensa assim, cala-se, na suposição de que não vale a pena falar, pois o que pudesse dizer não mudaria coisa alguma. Trata-se de um erro grave. Eu ajo de outro modo. Por exemplo, sou contra a pena de morte. Sempre que me aparece uma oportunidade, manifesto-me a respeito, não porque ache que, com isso, o Estado a vá abolir, mas porque estou convencido de que assim contribuo para o triunfo das minhas idéias. Pouco me importa que ninguém concorde comigo. O que eu disse não foi em pura perda. Talvez alguém repita minhas palavras e elas cheguem a ouvidos que as ouçam e as perfilhem. Quem sabe se futuramente algum daqueles que ora discordam de mim não se vai lembrar, numa ocasião propícia, daquilo que eu disse e convencer-se ou pelo menos sentir abalada sua opinião em contrário. – O mesmo vale para diversas outras questões sociais, das que exigem ação. Reconheço que sou tímido e não sei agir. Por isso limito-me a falar. Não acho, porém, que minhas palavras sejam em vão. Outro agirá, mas essas palavras – de mim, o tímido, –  terão facilitado a ação e limpado o terreno.

KAVAFIS, K. Reflexões sobre Poesia e Ética. SP: Ática, 1998

LITERAMUNDO ESPECIAL DE NATAL: O PROBLEMA DO MENINO JESUS POR DINO BUZZATI

Encontraram-se no café o professor Giovanni Imperativo, o senhor Giacinto Sala, geômetra, e o doutor Nicola Maggio, dentista. Conversavam, sentados em torno da mesinha. Era véspera de Natal.

O professor Imperativo disse: — Sabem o que descobri? As crianças não acreditam mais no Menino Jesus.

— Que quer dizer com “não acreditam mais”? — disse Sala, que era um homem ingênuo.

— Simplesmente não acreditam… Num certo momento, aos seis, sete ou oito anos, parece que se tornam imbecis; exatamente quando pensam terem se tornado inteligentes… O meu Carlo, por exemplo, que tem sete anos e meio: ouvi-o ontem, quando falava com um colega de escola. Este colega lhe perguntava: “Você escreveu de novo ao Menino Jesus?” E o meu Carlo: “Que é que você quer? Tenho de dar satisfação à minha família. Eles gostam que eu acredite. E eu finjo, isso me convém. Do contrário, quem sabe adeus presentes… “ E como zombavam, aqueles dois capetinhas!

— De certo ponto de vista, é melhor assim — observou o dentista Maggio. — Assim pensam que somos nós que gastamos, assim nos são gratos e nós não gastamos um níquel.

— Mas é preciso convir — disse o professor — que a culpa também é dele…

— Dele quem? — perguntou o geômetra.

— Do Menino Jesus, ora! Até parece que faz tudo para que se pense que é somente um truque nosso, dos adultos… Por exemplo, a idéia de empacotar os presentes no papel das lojas que todos conhecem, como nome e o endereço. Ou de amarrá-los com o barbante que, na noite anterior, estava sobre o bufê e que as crianças reconhecem.

— Muito bem! — disse o dentista, que fazia questão de agir como pessoa culta. — Faz de propósito! A finalidade é fazer nascer a dúvida, assim as crianças começam a suspeitar. Se tudo fosse evidente, se tudo fosse matematicamente demonstrado, que mérito haveria em acreditar?

— Não, não — disse Sala. — Quer que o Menino Jesus seja tão tolo? Seria dar a mão à palmatória… Tudo é pura fantasia, maldade… Que quer que lhe diga? Para mim são blasfêmias.

— Blasfêmias? — replicou o dentista. — Vê-se realmente que o senhor é ingênuo, meu caro Sala. Abra os olhos, abra os olhos… Hoje à noite mesmo. Verá se não é como eu lhe digo.

— Algumas vezes,. Porém, ele exagera — disse o professor, — No ano passado, por exemplo, trouxe para meu filho um ursinho idêntico, mas exatamente idêntico a um que estava exposto na vitrina do bazar aqui da esquina. E que, naturalmente, o meu Carletto vira… E não é só isso… Às vezes coloca os presentes algumas horas antes sobre um móvel da casa, de maneira que, se as crianças os descobrem, se convencem de nós os compramos… Acontece também comigo… E, desta maneira, admitirão, os meninos acabam por se tornar forçosamente céticos.

— Bem — disse o doutor Maggio —, a única coisa a fazer é deixar o tempo correr. Um dia, já crescido, nossos filhos perceberão a verdade —olhou o relógio. — Puxa! são quase oito e quinze… Saudações. Até à vista… e feliz Natal!

Levantaram-se, cada um seguiu seu caminho. Mas as palavras dos amigos ficaram gravadas na mente do geômetra, que agora ruminava o assunto, perplexo.

Sala tinha quatro filhos, dos cincos aos dez anos, que, naturalmente, esperavam um presente de Natal. Vendo-o voltar para casa de mãos vazias, naquela noite, ficaram desiludidos.

— Como, papai, você não trouxe nada?

— E que é que devia ter trazido?

— Mas, papai… O Menino Jesus não vai chegar esta noite?

— E que tenho eu a ver com o Menino Jesus?

— Oh, papai — disse Anna, a mais velha, roçando-se nele como uma gatinha e sorrindo maliciosa. — Você tem muito a ver, como te… Você tem boas relações com o Menino… Ele lhe diz tudo. Não é mesmo assim?

Coisa nenhuma — replicou quase irritado. — Quantas vezes devo dizer-lhe que eu não tenho mesmo nada com isso. E mamãe também não tem nada a ver com isso!

— Papai — disse a menina —, você é um amor! — E os quatro irmãozinhos deram uma gargalhada irreverente.

Mais tarde, lá pelas nove, quando já era hora de ir para a cama, as crianças não opuseram nenhuma resistência. Alguns anos antes, ou então fingiam deitar-se, apagavam a luz, mas ficavam alerta e, à meia noite, no escuro, saíam devagarzinho do quarto para assistir à chegada de Jesus. E o Menino, então, para enganá-los, depositava os presentes nos lugares mais inesperados, onde as crianças menos esperavam.

Mas agora, que não acreditavam mais, as crianças desempenhavam docilmente seu papel. De qualquer modo — pensavam — os presentes já estão em casa, fechados à chave num armário qualquer. Quanto mais cedo fossem dormir — era este o raciocínio —, tanto mais cedo os pais se sentiriam livres e tirariam os presentes do esconderijo para dispô-los bem à vista, aos pés da arvorezinha de Natal.

Quanto aos pais, geralmente, na véspera de Natal, iam também iam dormir logo que os filhos estivessem quietos. E ao acordá-los era uma explosão de gritos, quando os meninos, após muitas buscas descobriam o montinho de presentes.

Desta vez, ao contrário, Sala ficou de pé. As palavras dos amigos continuavam a redemoinhar em sua cabeça, tanto assim que falou com a mulher.

A princípio, a mulher protestou, como se fossem mentiras ignóbeis. Pouco a pouco, porém, rememorando certos detalhes do passado, ela também começou a ter dúvidas.

— E se fizéssemos um teste? — propôs ele. — Se olhássemos dentro dos móveis?

A casa não era grande. Nem eram os muitos os móveis onde poderiam ser recolhidos os brinquedos. Procurara, com o cuidado de não fazer barulho, para que as crianças, ao lado, não acordassem.

Abriram o armário da roupa branca. Nada. O dos vestidos. Nada. O garda-louça da cozinha. Nada. Mas, na última gaveta da cômoda do quarto, viram um pacote que não estava ali antes.

— Quem sabe se aqueles dois têm razão? Quer ver que o Menino Jesus nos enganou? — Colocaram o pacote na cama, cortaram os barbantes.

— Virgem Maria! — murmurou a senhora Sala. No pacote havia uma cozinha de boneca para Anna, uma pistola de western para Rodolfo, um trenzinho de molas para Enrico, uma magnífica bola para Mauricio, o menor, a quem chamavam Mao.

— Por Deus, se aqueles dois têm razão! — imprecou Sala baixinho e por pouco não blasfemou. — mas qual é a graça destas brincadeiras? — de fato, em cada presente despontava a etiqueta com o preço. Mais: os cartõezinhos com a dedicatória: “Para Anna”, para Rodolfo” etc., estavam escritos com uma letra quase idêntica à sua.

Com as unhas, então, Sala apressou-se em retirar as etiquetas com os preços, depois pegou a caneta estilográfica com a intenção de alterar um pouco a escrita, para que não se parecesse mais com a sua.

Mas naquele momento a porta escancarou-se. E na soleira, de pijama ou de camisola, apareceram de repente os quatro filhos que, vendo os brinquedos, lançaram gritos selvagens, dando pulos e rindo como loucos.

— Pegamos vocês… Pegamos vocês! — gritaram, pulando como fúrias sobre os pais. — Que fiasco! que fiasco! vocês são o Menino Jesus. Vocês são o Menino… Oh! como foram bons!

Felizes arrastaram pelo quarto o pai e a mãe, numa frenética dança selvagem. Depois, de repente, os deixaram, para se atirar sobre os presentes com novas explosões de alegria.

E os pais ficaram parados com cara de cretinos.


Dino Buzzati
nasceu no dia 16 de outubro de 1906 em San Pellegrino, Itália, próximo a Belluno, na secular vila de propriedade da família. Desde a mocidade os temas e as paixões do futuro escritor se manifestaram e a elas ele permaneceu fiel por toda a vida: a poesia, a música (estuda violino e piano), o desenho e a montanha, verdadeira companheira da infância. “Eu penso”, diz Buzzati numa entrevista concedida em 1959, “que em todo escritor as primeiras memórias da infância são uma base fundamental. As impressões mais fortes que eu tive de criança pertencem à terra onde eu nasci, o vale do Belluno, às montanhas selvagens que o cercam e à vizinha Dolomit. Um mundo completamente nórdico, ao qual se juntou o patrimônio das recordações juvenis e a cidade de Milão, onde minha família sempre viveu no inverno.”

FRASES E FRASES

Não foram poucos os que tombaram. Para cada um que caía, outros se levantavam. Até que a democracia avançou, conquistou espaços e desaguou nas ruas deste país para, finalmente, se tornar direito, com o pleno restabelecimento das liberdades.

Porque viver é mais que sobreviver – é ter oportunidade de conquistar uma existência digna. Sem dignidade, a própria existência deixa de ter valor.

(Presidente Lula na cerimônia de entrega do Prêmio Nacional de Direitos Humanos)

“O coronel disse que posso trabalhar sem ânfora (…) Ele (o coronel) trabalha de graça? Ele tem conta para pagar, nós também temos”.

“Agora, esse governo do (prefeito Gilberto) Kassab (DEM) proíbe (apresentações artísticas). Literalmente proíbe” (…) Fui perguntar, saber se havia alguma autorização para poder me apresentar e não há uma autorização. É negado. Não é só música, qualquer tipo de manifestação artística é negada pelo município de São Paulo”.

“Eu me transportei para a década de 70, quando o artista era espancado, torturado. Me parece que a gente tá vivendo aquela época num governo municipal.”

(Frases de artistas de rua de São Paulo que foram proibidos pela prefeitura da capital de receberem doações pelos seus trabalhos)

MUITO ALÉM DO CARTÃO POSTAL

Alice atravéz do espelho

Aconteceu em 2003 uma inusitada mostra de fotografia na cidade. Era Ernesto Baldan, fotógrafo de moda olhando para a periferia e tentando entender o que era aquele reboliço que viria a ser chamado de “a nova classe média” anos mais tarde. Incompreendida até hoje, essa nova emergência de modos, costumes e códigos propõe uma cultura que nunca foi exibida na TV. Pelo menos até a chegada das UPPs. Depois disso, a relação entre a mídia e a população se tornou menos hierarqueizada, consequência direta da internet 2.0 acessada a partir de lan houses. Estou falando de internet via cabo, não aquele wireless de pub inglês ou do café frances. Falo de um rapaz que pode escolher entre soltar pipa na laje ou pagar para acessar a rede mundial por uma hora, gastando em média R$ 3,00.

O outro aspecto da exposição que é preciso destacar além do objeto retratado foi o local de exposição e o público-alvo. Ao contrário de Sebastião Salgado que lança seus ensaios em edições de luxo, com capa dura e faz tiragens ampliações em número limitado, Ernesto Baldan preferiu expor nos shopping centers da periferia carioca. E vendeu o catálogo com 60 fotos por R$ 5,00 quase o mesmo valor de uma hora de lan house. E sabe qual era o nome da exposição? “Sem Vergonha”.


Texto de abertura do livro

Na bela exposição de fotografias de Thomaz Farkas, organizada recentemente pelo Instituto Moreira Salles, o espectador tinha a oportunidade de observar imagens de brasília em dois períodos históricos bem distintos: na época de sua construção e quase nos dias de hoje. Fiquei me perguntando se quem via as fotos dos anos 50 na época em que foram reveladas, tinha a mesma sensação ao me deparar com as imagens atuais. Thomaz Farkas me mostrava a beleza de objetos prosaicos de nosso cotidiano, aqueles que nunca consideramos belos.

Ficou na minha memória uma foto onde essas mesas de metal, comum nos bares mais populares, pintadas com as marcas de cerveja ou refrigerante, ocupava local de destaque. As mesas dos bares dos anos 50, olhadas com o distanciamento histórico das décadas que se passaram não envergonhasm mais ninguém. Pelo contrário, ganham a nobreza que o tempo dá para qual não existe mais. Mas a mesa de hoje, a que nossas “classes populares” usam todos os dias, parece agredir toda nossa noção de bom gosto, mesmo quando compõe fotos de enquadramento impecável.


Somos ensinados a ter vergonha diante de tudo que aparece e se torna popular, demasiadamente popular, agora, em “nossa” época. Depois tudo muda de figura: a música que é considerada brega, quando vira objeto de nostalgia, passa a ter uma aura de coisa “fina” ou “chique”. Foi isso, por exemplo, que aconteceu com a produção da Motown, que nos anos 60 era tratada como lixo por críticos e policiais do bom gosto, e hoje é item obrigatório em qualquer coleção de discos sofisticada. A passagem do tempo, incluindo o afastamento entre o gosto popular e aquela manifestação cultural, faz com que um trabalho de “descontaminação” nos símbolos, facilitando sua acessibilidade.

Outro exemplo de outra área: a nova arquitetura do Centro do Rio, no início do século XX, dava calafrios em críticos que defendiam o bom gosto contra as cópias cafonas de edifícios franceses, na mesma medida que hoje vemos tanta gente ter vertigens de horror, piedade e vergonha ao passar pela Avenida das Américas, na Barra da Tijuca. Mas hoje o Centro ganhou a pátina da credibilidade daquilo que já passou e todo mundo acha que a Cinelãndia vai ser sempre muito mais bela que ou interessante arquitetônicamente, que aquele encontro entre a Av. Das Américas com a Av. Airton Senna. Daqui a cem anos, quando uma outra Barra cair nas graças do gosto popular e “arrivista”, provavelmente as pessoas passaraão pelas ruínas di GameWorks e suspirarão com saudades de um tempo onde tudo era mais “digno”.
Esses suspiros são fáceis. O difícil é olhar para que é popular agora e afirmá-lo na sua complexidade e – porque não? – beleza, sem nenhuma vergonha. Não estou falando de um olhar irônico, que aceita tudo com um pé atrás, em território defendido por uma postura de quem na verdade acha que a vida toda é uma lástima. Estou falando de outra coisa: de uma aceitação trágica da vida, como ela acontece já não existe mais, ou num mundo perfeitinho (e tão chique e chato como um restaurante de decorador wallpaper), que nunca vai ser nosso mundo ( ainda bem, pois viver nesse mundo do bom gosto oficial seria morrer de tédio). Foi isso que eu aprendi vendo as fotos de Thomaz Farkas: tenho que gostar dessa mesa de ferro agora, antes que ela vire artigo hype e perca todo o seu encanto.

Nada mais fácil do que gostar da Jovem Guarda hoje. É um estilo tão “divertido”, não é? Mas mesmo Caetano Veloso precisou da bronca da Maria Bethânia – que lhe dizia: “vocês ficam com esse papo furado aí e o que interessa mesmo é o Roberto Carlos. Vocês já viram o programa da Jovem Guarda na televisão? É genial, Roberto Carlos é quem tá com tudo. Tem força, não é essa coisa furada aí.” – para prestar atenção naquilo que estava acontecendo, e que o bom-gosto de então classificava como lastimável. Essa atenção para a Jovem Guarda foi um elemento importantíssimo para a explosão do Tropicalismo.

Tente fazer a mesma coisa com as jovens-guardas de hoje. Tente dizer para os amigos que você gosta sinceramente de pagode com sintetizador, de axé music ou do Bonde do Tigrão. Tente colocar essas músicas na trilha sonora de um desfile da Sã Paulo Fashion Week. Pode colocar Abba, pode colocar até Korn, mas tocar o que é realmente popular e o que está perto da gente, sem truques distanciadores (seria fácil pinçar esses elementos e colocá-los numa moldura de editorial de moda, estilo revista “Dutch” – isso é ir no certo para agradar gringo que quer consumir nosso “exotismo”, isso é fazer macumba para turistas pós-modernos), para tocar isso é preciso ter muita coragem, é preciso ser muito sem-vergonha.


Por isso gostei tanto de ver o livro “Meninas do Brasil, de mari Stoker. Dá para perceber que ela gosta das roupas que as meninas do funk inventaram. Gosta, não como um artigo assim… “antropologicamente interessante”. Gosta mesmo! E vê naquele estilo algo tão criativo como uma desconstrução belga ou austríaca assinada por estilistas que a garotada favelada e suburbana brasileira desconhece e nunca vai ter dinheiro para vestir ( o que é uma pena – acho sim, que deveriam conhecer e poder usar roupas dessas grifes –imagine o pessoal dançando no baile funk com toda a coleção da Ann Demeulemeester – tudo bem, sei que ela não frequenta mais a lista das 100 pessoas mais poderosas da moda da “Face”, mas quem se importa com a “Face”?- ou com Dior Homme de Hedi Slimane!). O bom é que mesmo assim essas meninas dão aula de modernidade e independência para as grifes brasileiras que não fazem nada sem folhear as páginas de todas as revistas importadas que chagaram no mês passado na Letras & Expressões.

Por isso também gosto das experiências fotográficas de Ernesto Baldan, que andam sempre na contramão o bom-gostismo clean e correm todos os riscos, sem nenhuma vergonha de olhar de frente para o que acontece agora nas ruas brasileiras, para o que o povo gosta de ter inventado, povo que encara tudo como uma grande brincadeira (uso brincadeira pois ete é o termo que foliões de boi-bumbá, reisado, congada e outros “folclores” usam para se referir às suas festas – festas que eu e Ernesto documentamos no livro “Música do Brasil”), diante da qual só quem tem a cabeça envergonhada pode não achar graça (falo de graça não apenas no sentido de bom humor, mas graça como dádiva elegante, salvação quase divina).

Voltando ao baile funk, meu exmplo-para-tudo preferido desde os anos 80 e território amado pelo Ernesto: o desgoverno da apropriação das marcas de surf, junto com a calça da gang, oc centímetros de lycra deixando a barriga de fora, as microsaias, o descaso para com os mandamentos da indrumentária hip-hop, o físico malhado em academias da favela, a reinterpretação de tudo que é usado na novela ou no show da Sandy, ou de tudo que aparece na capa da “Caras”: essa é uma brincadeira da pesada, feita com ar de quem não quer nada, mas que acaba criando muito daquilo que mais interessante aparece na moda urbana.

Do lado positivo, mas muito próximo: preste atenção numa patricinha emergente da Barra. A ousadia e o descompromisso com as “referências” são completos e geram um barroquismo-fashion-pop de calibre poderoso ( o mesmo calibre que pode ser encontrado numa tarde de compras da Daslu, com aquela exuberante mistura de grifes caras, compradas – felizmente sem nenhum critério – por mulheres também graciosamente desgovernadas).


O mais bacana é que Ernesto não se contenta em registrar o que encontra nas ruas, nem tem a menor intenção de ser fiel à “realidade”. A rua é uma deixa, um impulso, e passa a “funcionar” no regime da imaginação e das obssessões do fotógrafo. Ernesto sabe que a brincadeira das ruas pede mais brincadeira, brincadeira ao quadrado, que possa voltar para a rua e cair na brincadeira novamente, criando outras maneiras de brincar – para quem entra na roda, só brinca bem, com pressão, quem não tem vergonha mesmo de mudar a brincadeira, até mesmo de introduzir elementos novos na brincadeira, gerando novos estilos brincantes para o mundo.


Ernesto sabe também que, no final das contas, não é preciso ter vergonha nenhuma da nova cultura de rua brasileira, e sobretudo não é preciso esperar o tempo ou um gringo qualquer vir nos dizer que essa cutura é cool. Ou – pra dizer logo tudo, de supetão, e no desabafo: não é preciso ter nenhuma vergonha do Brasil; nem da maneira espalhafatosa como usamos – sem nenhuma cerimônia – as informações que nos chegam do resto do mundo; nem de ter um presidente que não sabe falar inglês; nem de não ter a roupa que os ditadores da moda dizem que está na moda; nem de viver num país que tem uma economia popular que nunca se comporta como os “grandes investidores” gostariam que ela se comportasse; nem de inventar novas boas maneiras (que sempre inventamos) para o resto do mundo – mesmo quando o mundo raramente toma consciência de nossas invenções.


E ter asco,  de uma elite que macaqueia as cansadas novas tendências de “láfora” (inclusive as bobagens inventadas em MBAs de segunda, ou em congressos multiculturalistas de terceira, ou na Prada e nas cópias da Pradam ou no clube da ex-última-moda-pop de Williamsburg, ou um seminário anti-moda da aristocracia intelectual européia que sonha com um mundo pré-pop…), imitando tudo, timtim por tim tim, sem nenhum senso crítico, sempre querendo não ter nascido aqui (e querendo transformar isso aqui num simulacro ridículo de um primeiro mundo “fino”) e perpetuando assim a miséria – nunca cultural – da maioria da nossa população, que deveria – na vontade da elite – ter sempre vergonha de ser quem ela é, de se divertir da maneira que se diverte, de usar as roupas que usa, de gostar de comida a quilo (quando tem dinheiro pra tal) – a verdadeira fusion cuisine!, e tantas outras “manias” que irritam tanta gente “bem nascida”. Ainda bem que as palavras pseudo-civilizatórias dessa elite triste não são levada a sério pelo povo brasileiro, que continua não sentindo nada dessa vergonha que tentam lhe impor como condição humana. Pelo contrário: o povo brasileiro produz o tempo todo uma cultura sem vergonha de ser o que é, e de dizer o que quer ser, aqui e agora – inventando assim, cotidianamente, os atalhos para sua libertação.

Hermano Vianna – Antropólogo