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A MORAL TRISTE DO PSDB

Neste último sábado (24) o PSDB, por meio de nota, fez público a negação de “uma possível aproximação entre tucanos e petistas para enfrentar a crise política e econômica.” De acordo com notícias divulgadas nos meios de comunicação pela internet, o texto da nota explica que “os tucanos criticam a suposta tentativa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de se reunir com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para frear articulações pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff. Para Cunha Lima e Sampaio, o único propósito dos petistas é dividir o “ônus da crise” com a oposição.”.

Os líderes do PSDB que assinam a nota no Senado, Cássio Cunha Lima (PB), e na Câmara, Carlos Sampaio (SP) destacaram o PT como arrogante e oportunista.

O interessante na nota é o tom moral usado: o PSDB se vale da famosa moral decadente do julgamento, onde os valores não são constituídos historicamente, mas combinados a partir de opiniões fechadas, circunscritas, dominadas pelas inferências que fazem as proposições virem antes das premissas, ou, se preferirmos, fazendo com que os efeitos antecipem as causas.

Esta é a velha moral “do bem que avisei”. Diz uma parte da nota: “Nunca (o PT) deram ouvidos aos seguidos alertas da oposição sobre os erros anunciados e cometidos pelo governo que nos trouxeram para a grave crise em que nos encontramos (…). Não estão preocupados com o país, mas com eles mesmos”. E completa: “Sem nenhuma autocrítica, sem reconhecer o estelionato eleitoral a que submeteram o país, sem nenhum pedido de desculpas pela ganância, pela corrupção e pelo desrespeito aos brasileiros que tomou conta do Estado nacional, acenam à oposição com o único propósito de tentar dividir conosco o ônus da crise que eles mesmos criaram.”

Spinoza, Nietzsche e André de Conte-Sponville nos ensinam que a moral triste – aquela dos homes que se degeneram, dos homens fracos e decadentes – é aquela que denuncia os vícios, que julga, que toma as utopias e quimeras por realidade ao invés de sentir e falar das coisas tal qual elas são e parecem ser.

Nesta moral triste, o denunciador dificilmente percebe a si mesmo, muito menos percebe o orgulho como o amor por si mesmo e pelos outros. O homem triste, fraco e decadente denuncia o outro para esconder suas próprias falhas. Por esta simples razão, não trata das virtudes, mas dos vícios.

O PSDB, talvez, não perceba quanto o orgulho exacerbado da arrogância é a doença que invade, por meio de determinados usos, o corpo das instituições políticas, que com efeito, passam a carecer das suas capacidades generativas e de seus usos que lhe aproximam de suas proveniências, isto é: do interesse comum, público e efetivamente democrático.

Se assim entendermos uma instituição e a as capacidades de seu corpo político, que lhe garantem tanto uma coerência interna, como uma boa relação com o seu meio exterior, perceberemos logo que o perigo não está somente no PT ou parte, exclusivamente, desta instituição partidária política. Ora, parte de todos os partidos que em nada representam os interesses comuns da nação.

E, digamos de passagem, não seria exagero algum dizer que o PSDB sempre se excedeu em seus usos antidemocráticos, bem como, em várias ocasiões não agiu por amor a nação, mas de acordo com suas conveniências.

Quanto ao oportunismo do PT denunciado pela moral triste do PSDB, podemos, em um esforço de mantermos uma concordância com nós mesmos, afirmar que todo oportunismo surge quando as condições que almejamos nos são convenientes. Na maioria das vezes apenas fazemos o “bem” quando este “bem” mais beneficia a nós e nossos pares do que Outrem.

Os homens de moral forte e alegre, de moral prática, encontram a si mesmos nas capacidades dos usos de seus corpos que lhe são reais, porque produzidos pelas suas forças e poderes que entram em conflito com o mundo que lhe é externo. Este é um homem moral, posto que é um homem fisiológico. E porque toda moral superior pressupõe relações de força.

Talvez nossas instituições políticas e nossos homens públicos ainda não tenham se reconhecido desta maneira.

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O ESCÂNDALO NA SOCIEDADE CAPITALISTA

“Watergate. O mesmo cenário que na Disneylândia (efeito de imaginário escondendo que não há mais realidade além como aquém dos limites do perímetro artificial): aqui efeito de escândalo escondendo que não há qualquer diferença entre os factos e sua denúncia (métodos idênticos por parte dos homens da CIA e dos jornalistas do Washington Post). A mesma operação, tendente a regenerar através do escândalo um princípio moral e político, através do imaginário um princípio de realidade em dissipação.

A denúncia do escândalo é sempre uma homenagem que se rende à lei. E Watergate conseguiu sobretudo impor a ideia de que Watergate era um escândalo – neste sentido foi uma operação de intoxicação prodigiosa. Uma boa dose de reinjecção de moral política à escala mundial. Poder-se-ia dizer, como Bordieu: “O que é próprio à toda correlação de forças é dissimular-se enquanto tal e não assumir toda a sua força senão porque se dissimula enquanto tal”, entendendo-o assim: o capital, imoral e sem escrúpulos, só pode exercer-se por detrás de uma superestrutura moral, e quem quer que seja que regenere esta moralidade pública (pela indignação, pela denúncia, etc) trabalha espontaneamente pela ordem do capital. Foi esse o caso dos jornalistas do Washington Post.

Mas isto não seria ainda senão a fórmula da ideologia e, quando Bordieu a enuncia, subentende a “correlação de forças” como verdade da dominação capitalista e denuncia esta mesma correlação de forças como escândalo – está, pois, na mesma posição determinista e moralista dos jornalistas do Washington Post. Faz o mesmo trabalho de resgate e de relançamento de uma ordem moral, de uma ordem de verdade em que se engendra a verdadeira violência simbólica da ordem social, bem para além de todas as correlações de força que não são mais que a sua configuração movente e indiferente na consciência moral e política dos homens. Tudo o que o capital nos pede é que o recebamos como tradicional ou que o combatamos em nome da moralidade. Pois é a mesma coisa, o que pode ver-se sob uma ou outra forma: outrora tentava-se dissimular um escândalo – hoje tenta-se esconder que ele não existe. Watergate não é um escândalo, é o que é preciso dizer a todo custo, pois é o que todos tentam esconder, mascarando esta dissimulação um aprofundamento da moralidade, do pânico moral, à medida que nos aproximamos da en(cena)ção primitiva do capital: a sua crueldade instantânea, a sua ferocidade incompreensível, a sua imoralidade fundamental – é isso que é escandaloso, inaceitável para o sistema de equivalência moral e econômica que constitui o axioma do pensamento de esquerda, desde a teoria das Luzes até o comunismo. Imputa-se esse pensamento do contrato ao capital mas esta está-se absolutamente nas tintas para ele – é uma empresa monstruosa, sem princípios, um ponto, nada mais. É o pensamento “esclarecido” que procura controlá-lo impondo-lhe regras. E toda a recriminação que é considerada como pensamento revolucionário volta hoje a incriminar o capital por não respeitar as regras do jogo. “O poder é injusto, a sua justiçã é uma justiça de classe, o capital explora-nos, etc” – como se o capital estivesse ligado por um contrato à sociedade que rege. É a esquerda que estente ao capital o espelho da equivalência, esperando que ele vá virar-se contra este, agarrar-se a esta fantasmagoria do contrato social e cumprir as suas obrigações para com toda a sociedade (ao mesmo tempo não há necessidade de revolução: basta que o capital se submeta à fórmula tradicional da troca). O capital, esse, nunca esteve ligado por contrato a esta sociedade que domina. É uma feitiçaria da relação social, é um desafio à sociedade e deve ser-lhe dada uma resposta em conformidade. Não é um escândalo a denunciar segundo a racionalidade moral ou econômica, é um desafio a aceitar segundo a regra simbólica.”

(Jean Baudrillard, O Encantamento Político, In: Simulacros e Simulações, 1981).

Do Corpo do Animal e Do corpo do Humano

Para Funcho e Lucho. Motores de minha vida em sociedade

Imagem emprestada do livro O Livro dos Abraços

Imagem emprestada do livro O Livro dos Abraços

VIDA: entre o animal e o humano em Dino BuzzatI

A vida persiste no animal e é produzida pelo humano. Mas a vida, efetivamente explode, entre o animal e o humano. Lá onde o animal faz de sua vida um mundo de movimentos sígnicos, recebendo seus sentidos de transmissores de significados  na natureza; o humano inventa uma natureza para traduzir ao seu modo (máquina antropomórfica) o animal para produzir e constituir a vida com seus limites. Dino Buzzati demonstra isso no conto A Barata. enquanto a vida persiste na Barata, a vida humana é atormentada, posto que tomada de uma angústia estranha à sua normatividade. os últimos mexer de pernas das baratas desmonta toda tranquilidade racional da vida humana. Parece-nos que Buzzati radicaliza por completo a necessidade animalesca para que a vida humana seja re-examinada, repetida e transformada em sua potência diferenciadora. Quando o humano se humaniza demais, esquece o animal que é! Entre o animal e o humano há o lindo nascer de uma criança!   

A Barata

Tendo voltado tarde para casa, esmaguei uma barata que, no corredor, me escapava entre os pés (ficou lá, preta, no ladrilho) depois entrei no quarto. Ela dormia. Deitei-me ao seu lado, apaguei a luz, da janela aberta via um pedaço de parede e o céu. Fazia calor, não conseguia dormir, velhas histórias renasciam dentro de mim, dúvidas também, uma genérica desconfiança no amanhã. Ela soltou um pequeno lamento. “Que houve?”, perguntei. Ela abriu um olho, grande, sem me ver e murmurou: “Tenho medo”. “Medo de quê?”, perguntei. “Tenho medo de morrer”. “Medo de morrer? Por quê?” Respondeu: “Tive um sonho…” Aproximou-se um pouco. “Mas que é que você sonhou?” “Sonhei que estava no campo, estava sentada na margem de um rio e ouvi gritos ao longe… E eu devia morrer”. “Na beira de um rio?” “Sim”, respondeu, “Ouvia as rãs… faziam crá, crá”. “E que horas eram?” “Era noite e ouvi gritar”. “Bem, durma, agora são quase duas horas.” “Duas horas?”, mas não conseguia compreender, já tornara a pegar no sono.

Apaguei a luz e ouvi alguém remexendo no pátio. Depois, subiu a voz de um cão, aguda e longa; parecia lamentar-se. Subiu, passando diante da janela, perdeu-se na noite quente. Depois abriu-se uma persiana (ou se fechou?). Longe, muito longe, mas talvez eu me enganasse, uma criança se pôs a chorar. Depois, novamente o ulular do cão, longo como antes. Eu não conseguia dormir.

Vozes de homens vieram de alguma outra janela. Eram baixas, como murmuradas entre o sono. De uma sacada abaixo, ouvi um cip, cip, zitevitt, e algumas batidas de asas. “Flório!”, ouviu-se chamar de repente, devia ser duas ou três casas mais adiante. “Flório!”, parecia uma mulher, mulher angustiada, que tivesse perdido o filho.

Mas por que o canarinho do andar de baixo acordara? Que havia? Com um rangido lamentoso, como se fosse empurrada devagarinho por alguém que não queria fazer-se ouvir, uma porta se abriu em algum lugar da casa. Quanta gente acordada a essa hora, pensei. Estranho, a
essa hora.

“Tenho medo, tenho medo”, queixou-se ela procurando-me com o braço. “Oh, Maria”, perguntei, “Que tem você?” Respondeu com voz tênue: “Tenho medo de morrer.” “Você sonhou de novo?” Fez que sim, devagarinho, com a cabeça. “De novo aqueles gritos?” Fez sinal que sim. “E você ia morrer?” Sim, sim, indicava, procurando olhar-me, com as pálpebras grudadas pelo sono. Há alguma coisa, pensei: ela sonha, o cão uiva, o canarinho acordou, as pessoas se levantam e falam, ela sonha com a morte, como se todos tivessem sentido uma coisa, uma presença. Oh, o sono não vinha e as estrelas passavam. Ouvi distintamente no pátio o ruído de um fósforo aceso. Por que alguém se punha a fumar às três horas da manhã? Então senti sede, levantei-me e saí do quarto para beber água. A triste lâmpada do corredor estava acesa, percebi vagamente a mancha preta no ladrilho e parei, assustado. Olhei: a mancha preta se movia. Ou melhor, movia-se um pedacinho (ela sonha que vai morrer, o cão uiva, o canarinho acorda, pessoas se levantaram, uma mãe chama o filho, as portas rangem, alguém fuma, e há talvez um choro de criança).

Vi, no chão, o bichinho preto que movia uma patinha. Era a do meio, à direita. O resto estava imóvel, uma mancha de tinta que caíra da morte. Mas a perninha remava fracamente como se quisesse subir de novo alguma coisa, o rio das trevas, talvez. Teria ainda esperança?

Durante duas horas e meia, dentro da noite — senti um calafrio —, o imundo inseto grudado no ladrilho pelas suas próprias mucilagens viscerais, durante duas horas e meia continuara a morrer e ainda não acabara. Maravilhosamente continuava a morrer, transmitindo, com a última patinha, a sua mensagem. Mas quem a podia colher às três da manhã, na escuridão do corredor de uma pensão desconhecida? Duas horas e meia, pensei, continuamente para cima e para baixo, a última porção de vida na perninha sobrevivente, para invocar justiça. O pranto de uma criança — lera um dia — basta para envenenar o mundo. Em seu coração, Deus onipotente quisera que certas coisas não acontecessem, mas não pôde impedi-lo porque por ele mesmo foi decidido. Mas uma sombra jaz ainda sobre nós. Esmaguei o inseto com o chinelo e, esfregando no chão, esmigalhei-o num longo rasto cinza.

Então, finalmente, o cão calou-se, ela, no sono, se acalmou e parecia quase sorrir, as vozes se apagaram, calou a mãe, não se percebeu mais nenhum sintoma de inquietude do canarinho, a noite recomeçava a passar sobre a casa cansada, a morte fora inchar sua inquietude em outras partes do mundo.

Dino Buzzati nasceu no dia 16 de outubro de 1906 em San Pellegrino, Itália, próximo a Belluno, na secular vila de propriedade da família. Desde a mocidade os temas e as paixões do futuro escritor se manifestaram e a elas ele permaneceu fiel por toda a vida: a poesia, a música (estuda violino e piano), o desenho e a montanha, verdadeira companheira da infância. “Eu penso”, diz Buzzati numa entrevista concedida em 1959, “que em todo escritor as primeiras memórias da infância são uma base fundamental. As impressões mais fortes que eu tive de criança pertencem à terra onde eu nasci, o vale do Belluno, às montanhas selvagens que o cercam e à vizinha Dolomit. Um mundo completamente nórdico, ao qual se juntou o patrimônio das recordações juvenis e a cidade de Milão, onde minha família sempre viveu no inverno.” Sua temática: a fantasia, a solidão, a magia, a montanha, a música, a poesia, a espera, a morte e a eternidade.

Autor de inúmeros livros, peças de teatro, quadros e roteiros para filmes, tem editado no Brasil, pela Ed. Nova Fronteira, os seguintes trabalhos: “O Deserto dos Tártaros”, “Um Amor”, “Naquele Exato Momento” e “As Noites Difíceis”.

 

 

Safatle: “Há horas que a correlação de forças é contra você, mas você faz”

Filósofo aborda manifestações e a resposta política para elas, entre outros temas

Antonio David e Artur Scavoni
Especial para o Brasil de Fato

Autor de A esquerda que não teme dizer seu nome, o professor do departamento de filosofia da Universidade de São Paulo, Vladimir Safatle tem sido um dos mais notáveis intelectuais a discutir as questões filosóficas e morais da esquerda mundial.

Na entrevista a seguir, além de avaliar as manifestações de junho do ano passado, o filósofo discorre sobre o esgotamento do modelo de desenvolvimento dos governos Lula e Dilma e as perspectivas da esquerda brasileira.

Brasil de Fato – Em artigo recente, você afirma que as exigências populares de uma “outra política” expressas em junho “pararam na lata de lixo mais próxima”, e argumenta: “Depois de apresentar com uma mão um projeto de Assembleia Constituinte para a reforma política e retirá-lo com a outra, o governo prometera pressionar o Congresso Nacional para debater as propostas. O resultado foi cosmético, se quisermos ter um mínimo de generosidade”. Contudo, o sociólogo Laymert Garcia dos Santos, tratando deste mesmo assunto, apresenta um ponto de vista diferente. Diz ele: “As ruas emitiram um sinal, e Dilma emitiu um outro sinal em resposta num sentido de ampliação da democracia como nunca havia acontecido. Os setores da direita imediatamente souberam ler o que estava em jogo, e os manifestantes não souberam”. Como você encara a resposta das ruas à proposta de Assembleia Constituinte?

Vladimir Safatle – Acho que tem um problema aí, porque é impossível ter resposta para um projeto que foi retirado 48 horas depois de ter sido apresentado. Eu de fato não compartilho dessa análise, porque o governo não deu sequer tempo para que a sociedade pudesse emitir uma resposta. O que aconteceu foi que, num momento de sanidade, ficou claro que nós estávamos numa espécie de crise de representatividade profunda, que exigia o que eu diria caminhar em direção ao grau zero da representação, ou seja, voltar a dar voz ao poder instituinte, para que as condições de organização do jogo político pudessem ser recompostas. Mas, quando se faz uma proposta dessas, tendo em vista que é uma proposta muito séria, da mais alta importância e gravidade, o mínimo que se espera é que se esteja preparado para todas as reações que virão. É óbvio que não viriam apenas reações entusiastas, mas também gritos de golpe e coisas dessa natureza. Ninguém que acompanha a política brasileira poderia imaginar o contrário. Então, isso me deixa muito preocupado. Quem fez isso no governo, ou não conhece o que é a política brasileira, a ponto de esperar que houvesse imediatamente uma reação popular entusiasta que poderia abafar toda a contradição, ou fez de uma maneira completamente irresponsável esse processo. E eu ainda insistiria em outro ponto. Não se resume à questão da Assembleia Constituinte para a reforma política. Nada da reforma política, no sentido forte do termo, de fato apareceu. O projeto de reforma política que está tramitando no Congresso é um projeto medonho em vários pontos. Tem pontos em que até consegue piorar o que é a legislação atual. Então, eu acho que ficou de fato uma resposta a ser dada nesse ponto.

Você tem sustentado a tese de que o modelo de desenvolvimento dos governos Lula e Dilma esgotou-se e, ao mesmo tempo, tem insistido na necessidade de haver um “segundo ciclo de políticas contra a desigualdade baseadas na universalização de serviços públicos de qualidade”. O que isso significa, do ponto de vista da estratégia política?

Acho que significa compreender que não há mais avanços na sociedade brasileira sem uma politização forte a respeito, entre outras coisas, da estrutura tributária do Brasil. Eu sei que esse é ponto sensível do jogo político brasileiro, porque isso significa colocar contra a parede setores hegemônicos, como os interesses do setor financeiro, como os interesses da elite que paga um imposto de renda absolutamente irrelevante e irrisório, e exige uma recomposição da estrutura tributária brasileira, retirando os impostos sobre consumo e direcionando para os impostos sobre renda. Eu tenho consciência de que isso significa um acirramento do conflito.

Mas eu diria que o acirramento é inevitável, vai ocorrer de uma maneira ou de outra. Porque o processo de ascensão social permitido pelo lulismo é um processo que de fato, a meu ver, se esgotou. Ele teve sua importância, não é uma questão de desqualificá-lo, mas se esgotou pelas suas próprias contradições internas. Os processos históricos são assim, funcionam durante certo momento, mas pelas suas próprias contradições, eles também se esgotam. Chegou nesse ponto. Em princípio não seria nada desesperador, se houvesse um outro processo em gestação. O que eu acho desesperador é perceber que não há um outro processo em gestação.

Em que sentido? Vou dar um exemplo, sobre o qual já insisti várias vezes: se você pega a estrutura de gastos de salário de uma família da dita nova classe média, que ganha em torno de R$ 3 mil reais, você percebe que, se essa família resolveu tirar seus filhos da escola pública e colocar na escola privada, se resolveu dar um melhor serviço de saúde para sua família, tirando do SUS e dando plano de saúde, se ela tiver dois filhos, ela gasta quase metade do seu salário com isso.

Não há isenção de imposto para essa família que permita que ela recupere essa quase metade do seu salário. Então é óbvio que há uma corrosão. Se ela não tivesse esses gastos, ela teria condições de gastar na economia, aumentando o potencial de consumo do mercado interno. Mas o acordo político do lulismo engessa, impede que se pague o custo político desse segundo ciclo de políticas contra a desigualdade.

O cientista político André Singer sustenta, com base em pesquisas empíricas, que, entre a parcela mais pobre e vulnerável da classe trabalhadora, predomina a rejeição à radicalização política. Segundo André Singer, o “subproletariado” quer mudanças, mas dentro da ordem. A isso eu acrescento um dado recente: uma pesquisa divulgada mostra que, no Rio de Janeiro, mais da metade da população situada na faixa de renda familiar até 2 salários mínimos é contra os protestos [51% x 44%]. Considerando que o “subproletariado” é base não apenas do governo Dilma, mas de qualquer governo de esquerda, e levando em conta a tese que você sustenta em um de seus livros, de que “o principal problema que acomete a esquerda atual é sua dificuldade em ser uma esquerda popular”(A esquerda que não teme dizer seu nome, Três Estrelas, 2012), como conciliar a necessidade de investir na radicalização política com o desafio de ser “uma esquerda popular”?

Eu tenho certo receio a respeito dessas pesquisas. Não que eu desconsidere a seriedade com que são feitas, mas eu acho que essas pesquisas de opinião têm uma característica muito específica. Não só elas são feitas num determinado momento e retratam bem certos momentos, mas a leitura de que o dito subproletariado é conservador é uma interpretação de dados.

Vou dar um exemplo claro. Durante muito tempo – isso André [Singer] conhece melhor do que eu – as pesquisas sobre a sensibilidade ideológica do eleitorado brasileiro diziam que nós tínhamos um eleitorado majoritariamente conservador, com um núcleo de eleitores de esquerda de 30% e o restante conservador. Num dado momento, acho que depois de muita crítica, resolveram fazer outras perguntas para esse mesmo eleitor, porque normalmente as perguntas eram “você acredita em Deus?”, “você acha que é certo o casamento homossexual?” e coisas dessa natureza. Resolveram então colocar questões econômicas: “você é a favor da intervenção do Estado na economia?”, “você é a favor ou não de serviços públicos?”.

A coisa se inverteu completamente. Então significa o quê? Significa que o eleitorado é conservador? Percebe a sutileza da interpretação? Sob um certo aspecto, ele é conservador. Sob outro, ele guarda bandeiras esquerdistas muito claras. É claro que se você perguntar para alguém – principalmente as pessoas mais vulneráveis – se ela quer ou não uma situação de instabilidade política, onde há rupturas constantes, fora meia dúzia de pessoas que sonham com a revolução permanente, você não vai encontrar ninguém para falar uma coisa dessa natureza.

Mas eu diria que essa talvez nem seja uma questão politicamente relevante, porque a questão é saber com que desejo você trabalha. Você pode querer trabalhar com esse desejo de permanência absoluta. Mas será que ele é o único? Não existiria um outro desejo, não só nas camadas populares, mas na população brasileira, de uma transformação radical das possibilidades de vida? Não seria uma questão política fundamental sua saber politizar esse desejo?

Tal como um indivíduo, camadas da população não têm um desejo só, mas vários desejos, muitos contraditórios entre si, e cabe aqueles que estão diante da experiência política saber dar a certos desejos saber dar a sua potência natural. Nesse sentido eu temo muito essa posição, por mais que ela não seja incorreta, de que, dado o fato de a população mais vulnerável brasileira ter horror ao caos, então é melhor a gente não fazer nada, por perceber o quão difícil é fazer qualquer coisa. Repare que Lula ganhou a eleição em 2002 a despeito disso, dentro de um processo muito forte de demandas de transformação. Os próprios estudos do André [Singer] mostram claramente que esse eleitorado foi para a candidatura Lula em 2006, não em 2002. E a despeito disso se conseguiu impor uma mudança na política brasileira.

Em seu livro A esquerda que não teme dizer seu nome, você critica a esquerda governista pela “incapacidade de sair dos impasses do nosso presidencialismo de coalizão” e, ao mesmo tempo, defende a necessidade de buscar uma nova estratégia “sem ter de apelar para ideias vagas como ‘tudo se resolve por meio da vontade política’”. Se o problema não reside na vontade política, qual é a origem dessa incapacidade?

Um mau raciocínio, uma má avaliação. É um pouco a história da esquerda latino–americana. Eu diria o seguinte: a gente tem o fantasma das transformações que foram fracassadas: o governo Allende, a experiência popular da república brasileira nos anos de 1960, e várias outras.

Por que fracassaram? Por exemplo, o governo Allende. “Ah, fracassou porque ele não conseguiu fazer uma coalizão com a democracia cristã”, “se ele tivesse conquistado o centro, ele teria conseguido se preservar”. E isso ficou durante muito tempo. Eu lembro, por exemplo, quando houve o golpe na Venezuela, diziam na época que Chávez conseguiu voltar porque ele tinha um setor a mais, que normalmente a esquerda não tem, que é o exército.

Então acho que tinha muito essa ideia, de que nós sozinhos não conseguimos, vamos precisar criar coalizões mais amplas. Então, eu diria que esse é um dos fantasmas da esquerda latinoamericana, ou pelo menos de um setor da esquerda. Isso tocou o Brasil. Era um pouco aquela ideia de que é preciso durar, é preciso dar um jeito de durar, pois senão em dois anos vai tudo pro espaço, tudo acaba. Então, criou-se essa noção de que era necessário conseguir construir grandes coalizões.

O PT deveria então ser mais um polo de um consórcio de grandes coalizões. Só tem um preço alto a ser pago. Pode até ser que num dado momento isso possa trazer algum tipo de benefício no que diz respeito à tranquilidade necessária para fazer passar algumas coisas da política. Mas o preço fundamental é o esgarçamento completo do campo político. E quem vai pagar o preço do esgarçamento é quem controla o consórcio. Isso aconteceu em outras circunstâncias. Por exemplo: pega o caso da esquerda italiana. O Partido Comunista Italiano era o maior partido da Europa ocidental. Tinha uma experiência de debates teóricos não negligenciável, é o mínimo que se pode dizer.

O que aconteceu, para que a Itália se transformasse no maior buraco negro da esquerda mundial, com nível zero de qualquer tipo de dinâmica interna no campo da esquerda? Porque quando, enfim, os comunistas chegaram ao poder dentro de uma grande coalizão, e fizeram todos os acordos necessários para colocar a Itália no euro, para fazer todos os pactos que ninguém conseguia fazer com os sindicatos, e então entrar dentro de uma política que, em princípio, seria “responsável”, o preço foi pago por aquele que coordenava o consórcio, porque dele se esperava outra coisa.

Então eu diria que o preço que nós vamos pagar por esse aprisionamento, por essa falta de criatividade política, é alto. E não é só uma questão de falta de vontade, pois não se trata de acreditar que um simples espontaneísmo possa operar grandes transformações, mas eu acho que existe outra coisa chamada criatividade política, que tem a ver com o interesse em experiências distintas que vão forçando a democracia representativa em direção a uma democracia direta, a uma democracia real. São essas experiências que deveriam ser absorvidas, paulatinamente que seja, num projeto de longo prazo, ou localmente que seja, mas que não foram absorvidas em absoluto. Você poderia dizer: “Mas o governo brasileiro é o que tem o maior número de conselhos consultivos do mundo”.

Esse é um belo exemplo. Esses conselhos são exatamente o que são, ou seja, meros conselhos consultivos, não têm nenhum poder deliberativo, que fizesse com que se transferisse poder do Executivo, do Legislativo e do Judiciário em direção aos espaços de democracia direta.

Sobre a violência nas manifestações, você escreveu recentemente: “Melhor seria se procurássemos analisar tal violência como um profundo sintoma social da vida política nacional contemporânea. /…/ a violência aparece como a primeira revolta contra a impotência política./…/ Como todo sintoma, há algo que essa violência nos diz. A resposta a ela não será policial, mas política”. Como você encara o debate sobre a violência na conjuntura atual?

Acho que esse debate está sendo posto de uma maneira muito ruim. Quando eu digo que a violência que aparece hoje nas manifestações é um sintoma social, trata-se de dizer que todo sintoma é uma resposta ruim para um bom problema, uma resposta problemática para um problema concreto. E eu acho que se tende muito a esquecer qual é o problema concreto para o qual essa violência aponta. Essas pessoas que acabaram optando por saídas do tipo Black Blocs, elas não saíram do nada. Se elas começaram a ganhar certa relevância, é porque elas entram dentro de um movimento de surdez da política brasileira em relação à necessidade de ampliação de suas pautas.

Nós podemos falar isso com a maior tranquilidade. No debate presidencial – numa eleição que vai ocorrer daqui meses – você percebe que não há nenhum candidato que seja capaz de vocalizar uma parte que seja de boa parte das demandas que apareceram. Eu acho interessante ver pessoas dizendo haver uma confusão de demandas nas manifestações, mas eu não vejo tanta confusão, na verdade eu vejo coisas muito claras. As pessoas saíram às ruas reclamando que queriam escola pública, que queriam saúde pública, elas falaram que o transporte público no Brasil é medonho. Elas não conseguem entender por que, afinal de contas, esse transporte foi privatizado em várias cidades, com a desculpa de que através da privatização se ganharia em eficácia e eficiência do sistema e, no entanto, graças à privatização, se construiu uma máfia do transporte público, que tem duas funções: a primeira, se autoperpetuar enquanto sistema de rentabilização do capital sem nenhum entrave; a segunda, financiar campanhas políticas.

Não tem nenhuma outra função além dessas duas. Então a gente tem de se perguntar por que isso existe. Por que não é possível quebrar? As pessoas também reclamaram da estrutura do poder político brasileiro, pois elas não se sentem mais ouvidas. Não é à toa que a população foi quebrar o Congresso Nacional e teve que ser desviada para quebrar o Palácio do Itamaraty. Elas reclamam da Copa do Mundo, e reclamam com propriedade, pois foi vendido algo completamente diferente, de que haveria uma grande modificação da estrutura das cidades brasileiras. Várias pessoas acreditaram nisso e o resultado está muito longe disso. Nesse sentido, eu acho que se esse descontentamento e essa insatisfação aparecem de maneira violenta, não é a primeira vez na história que isso acontece.

De maneira violenta e até mesmo de maneira irracional, no sentido de que não se consegue dirigir, não é a primeira vez que isso acontece. A gente já viu isso em várias e várias circunstâncias. Isso indica simplesmente o quê? Que é necessário saber ouvir – essa é a primeira condição – e depois que é necessário oferecer uma resposta, que não é uma resposta policial, mas uma resposta política.

Tratando das manifestações, você escreveu: “/…/ um acontecimento, por mais intensidade que tenha em sua eclosão, é medido por sua capacidade de deixar marcas. /…/ Convém lembrar que um acontecimento político não é medido, necessariamente, pela modificação institucional que ele produz. Esta pode vir apenas décadas depois”. Que marcas os protestos de junho deixaram?

Elas deixaram muito evidente o nível de descontentamento da população brasileira, e o fato de esse descontentamento ser plástico, ou seja, pode ir para qualquer lugar. Isso é uma coisa boa e ruim ao mesmo tempo. Essa plasticidade indica haver um combate ideológico e político a ser feito, tendo em vista a capacidade de dar respostas à altura para esse descontentamento. Não apenas dar um nome para ele, mas mostrar que é possível fazer algo. Esse ponto é o que mais me atemoriza na situação brasileira.

Uma das experiências mais interessantes da esquerda dos últimos anos é o que está ocorrendo no Uruguai. Uma belíssima experiência. Por quê? Porque eles tiveram a seguinte sensibilidade: tão importante quanto mostrar à população que a esquerda, quando ganha, é capaz de lutar contra a desigualdade econômica e a pauperização de grandes camadas da população, é mostrar que, quando a esquerda ganha, a vida muda.

Outra vida que aparece. Outras possibilidades das vidas individuais das pessoas que vão aparecendo. Outro modo de se pensar questões no sentido mais amplo da sociabilidade no interior da vida social. Bater de frente com as pautas do conservadorismo moral: aprovar o casamento homossexual, pensar a questão da maconha, do aborto. Então acho que essa é uma grande sensibilidade. Eu acho que esse é o nível de resposta que as pessoas esperam. Mostrar que a vida pode ser diferente, de verdade, naquilo que realmente toca as pessoas, em vários sentidos, em vários aspectos. Nesse sentido, eu temo pela experiência brasileira. Nós perdemos muitas possibilidades de mostrar isso, por fazer cálculos sobre a conjuntura política, sobre a correlação de forças e coisas dessa natureza. Ocorre que a correlação de forças não é uma questão política. E eu não estou propondo um esquerdismo infantil. Há exemplos históricos muito fortes nesse sentido, e que nem precisam vir da esquerda.

Por exemplo: na França, uma das primeiras coisas que o governo Mitterand fez foi acabar com a pena de morte. Todas as pesquisas demonstravam que a população era majoritariamente a favor da pena de morte. E mesmo assim Mitterand acabou com a pena de morte. Hoje, qualquer pesquisa na França demonstra que a população é majoritariamente contra a pena de morte. Há horas que o governo tem de ir lá onde a sociedade não quer ir. Mas, para isso, é necessário ter muita clareza do porquê você está lá. Há horas que a correlação de forças é contra você, mas você faz. A correlação de forças era contra ele, todo mundo gritou, mas ele fez. E passou. E a lei mudou. E foi muito importante que ele tivesse feito dessa forma.

Do Abraço Animal

Imagem emprestada do livro O Livro dos Abraços

Imagem emprestada do livro O Livro dos Abraços

Ao sermos arrastados para a vida pela violência afirmativa do acontecimento, percebemos a incapacidade humana de apenas interpretar o que é deixado como efeito. Saímos da potência indelével do acontecimento e somos jogados nas classificações e identificações que pretendem representar e designar as coisas por meio de proposições, substantivos, adjetivos… E como nos diz Deleuze, “atributos lógicos caracterizam o instante infinitivo de uma transformação incorporal.” Mas temos os verbos que expressam o acontecimento (No início era o verbo…).

Aos humanos, tudo ganha sentido quando “ensignado”. Não há informação ou comunicação no ato de “ensignar”. Nele impera a ordem que remete à própria ordem: operar no mundo por meio da redundância planificada por coordenadas semióticas bem estabelecidas e fundadas em dispositivos de dualidade, identificação, ramificações, decalques, limites, pressões que se repetem sem vida, mas de modo servil. Após o acontecimento, a funcionalidade extensiva às modulações biopolíticas que fazem dos corpos hospedeiros do estado de coisas constituído.

Assim se procede na relação homem-animal, segundo a ordem humana. Não precisaríamos apelar para a razão para sabermos que o homem é posterior ao animal. As próprias razões míticas e mistificadas deixam isso claro. O humano nomeia, identifica, divide, compara e limita o animal em um explicito esforço de se tornar humano demasiado humano. Tudo se torna humano porque o homem é um animal racional capaz de controle sobre a natureza. Antropomorfização do mundo, das relações com a natureza e dos instintos convertidos em afetos.

Não se tem dúvida que o abraço é um afeto. O problema colocado aqui é o de que o abraço seria mais animal do que humano. A falta de abraço é tão dura quanto a falta de dignidade para a vida humana. Em um abraço não são apenas corpos fisiológicos que se entrelaçam, mas, sim, todas as experiências compartilhadas nos corpos que se entrelaçam. Os abraços são como os olhares. Olhar o olhar do outro é esquecer-se da cor dos próprios olhos, diz-nos o animal Levinas. Derrida arremata dizendo que “ele fala então do homem, do próximo enquanto homem, do semelhante e do irmão, ele pensa no outro homem (…)”. A ética antes da ontologia. A produção da existência antes de uma definição da existência. Um olhar nu! Um olhar que se desfaz de si mesmo e de seus nomes para olhar o outro em sua inquietude de animal, posto que se olhe o homem ainda por se fazer em uma completa angustia abissal. Um olhar que ultrapassa todos os limites do home que tenta nomear a si mesmo a partir de suas crenças. Um olhar virulento e vil de um homem infame que renega a sua própria natureza humana fabricada.

Abraçar é potência. Como poderia haver abraços em uma ordenação do mundo onde a liberdade é conferida no corpo como propriedade individual? Como o abraço se converteria em valor social por meio de uma vontade livre determinada por limites que pretendem afastar os indivíduos da ditadura do outro? Estes questionamentos servem para problematizarmos as práticas neoliberais.

Soubemos por meio do sitio eletrônico da revista Carta Capital, em uma reportagem intitulada “Os abraços eleitorais à Aécio”, que “O pré-candidato do PSDB à presidência da República, Aécio Neves, fez a sua primeira ação virtual clara na internet com vistas à eleição de outubro”. Usando seu aniversário como mote, o pré-candidato do PSDB à presidência da República, recebeu de diversos esportistas, artistas e de ditos famosos “abraços virtuais”.

Não nos cabe dizer o que os outros pensam ou se suas ações são equivocadas ou não. Cada um fala o que quer e o que pode durante a produção e reprodução de sua existência. Contudo, podemos insistir no caso de que os abraços, bem como a linguagem em Bakhtin, é um carnaval: riso, alegria, paródia com os cultos dogmáticos do misticismo e das religiões convertidas em instituições punitivas, isto é, a própria vida sendo representada na comicidade dos elementos constituintes da festa que encontra sua mobilidade e multiplicidade na animalidade das camadas consideradas mais baixas por estruturas sociais constituídas.

O abraço é animal por ser entrelaçamento de corpos na intensidade, no agenciamento, no desejo; produzido no entrecruzamento de comportamentos sempre por se fazerem: etologia filosófica.

O abraço é como as cidades dos antigos, que eram chamadas de política e, hoje, conhecemos como república. Mas antes de se fazer coisa pública, o abraço é privado somente pela exigência de se aprender a viver uma vida sem privações na publicidade do bem comum. Aprende-se com os animais que a vida privada é uma preparação para a vida pública. Portanto, compreendemos que os abraços são demonstrações nuas, incorporais, que não precisam de demonstrações que exageram o absurdo de uma existência esvaziada por sua exorbitante aparição em meios mediáticos.

Eduardo Galeano, em seu Livro dos Abraços, talvez concorde com estas nossas opiniões meio desajeitadas, pois escreve:

“Um sistema de desvinculo: Boi sozinho se lambe melhor.., O próximo, o outro, não é seu irmão, nem seu amante. O outro é um competidor, um inimigo, um obstáculo a ser vencido ou uma coisa a ser usada. O sistema, que não dá de comer, tampouco dá de amar: condena muitos à fome de pão e muitos mais à fome de abraços”.    

 

O Grau Zero da Política

Do sitio eletrônico Cinemagnose.blogspot.com por Wilson Roberto V. Ferreira

 

Por que o PT é tão assertivo nas questões sociais e reticente quando se trata da Lei dos Meios e monopólios midiáticos? O verdadeiro ato falho do ministro da Educação Aloízio Mercadante ao sair em defesa ao “seu” Frias frente às denúncias da Comissão da Verdade representa aquilo que o pensador francês Jean Baudrillard chamava de “grau zero da política”: as esquerdas nunca quiseram chegar ao Poder e, dizia Baudrillard, se um dia chegassem não haveria perigo porque o poder, de fato, não existe. Ele estava sendo profético.

 


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      À primeira vista, talvez o tema dessa postagem (política partidária) cause estranheza ao leitor em um blog especializado na discussão sobre cinema e gnosticismo. As últimas discussões sobre a Lei dos Meios e os monopólios de mídia e a reticência do governo atual em debatê-la lembram um conceito de influência gnóstica do pensador francês Jean Baudrillard: a reversibilidade simbólica, o gênio maligno presente em todos os sistemas – todos os sistemas chegam a um ponto de desenvolvimento e complexidade que acabam inviabilizando sua própria finalidade, voltando-se contra si mesmo. É o caso do sistema político que chegaria ao chamado “grau zero”, onde a finalidade social foi substituída pela simulação e sedução. É a “transparência do Mal”.

 

 

 

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Em carta ao jornal Folha de São Paulo o ministro da educação Aloízio Mercadante saiu em defesa da memória de Octávio Frias de Oliveira, falecido dono da “Folha”, após um delegado dos tempos da ditadura militar dizer, na Comissão da Verdade, que ele colaborou ativamente na repressão e tortura aos “terroristas” e “subversivos”. Esse episódio parece que foi a gota d’água para muitos que ainda, pacientemente, esperavam que após 10 anos de governos de esquerda a questão do monopólio midiático no país já tivesse sido, pelo menos, confrontada.

 

 

A gota d’água: Ministro da Educação
Aloizio Mercadante
sai em defesa do “Seu” Frias

 

Enquanto isso o ministro da Comunicação Paulo Bernardo adota um tom genérico e não dá prazos quando trata sobre a Lei dos Meios – a promulgação do marco regulatório para concessões públicas, TVs abertas, TVs por assinatura e rádios. E para irritar ainda mais os setores de esquerda, a Secom (Secretaria de Comunicação da Presidência da República) continua com sua orientação “técnica” e “republicana” de manter o direcionamento de grossas verbas publicitárias aos monopólios midiáticos, os mesmos veículos de comunicação que diariamente fustigam o Governo com denúncias sobre escândalos e sonham com a judicialização da política e a próxima eleição presidencial sendo decidida pelo Supremo Tribunal federal.

 

 

 

Se no plano sócio-econômico os governos petistas são reconhecidos internacionalmente pelas medidas de inserção social, eliminação da pobreza, aumento do poder aquisitivo da chamada “nova classe média”, e crescimento do mercado de consumo interno, no plano simbólico-midiático mantém-se estático e subjugado aos “barões da mídia”. Mesmo depois de três mandatos presidenciais consecutivos.

 

 

 

Por que? Sadomasoquismo? Covardia? O resultado de um governo de coalização obrigado a encontrar um ponto de equilíbrio entre diferentes grupos de interesses? A sedução pelo holofote que as grandes mídias oferecem?

 

        

 

        E se o problema do PT não for em relação à Política, mas em relação ao imaginário da Política? Ou talvez o “problema” não seja em relação ao partido. O PT hoje faz o jogo parlamentar que no passado era acusado de recusar por ser considerado um partido sectário e formado por radicais. Talvez o “problema” esteja nas nossas expectativas em relação ao que representa ser “de esquerda”, as nossas expectativas em relação ao próprio imaginário da Política.

 

 

 

O Poder não existe

 

 

 

        Em 1977 em seu texto “A Luta Encantada ou a Flauta Final” o pensador francês Jean Baudrillard apresentou uma hipótese irônica e que lhe valeu a pecha de intelectual direitista: a esquerdajamais esteve interessada no poder, e que as sucessivas lutas políticas da esquerda não passam de algo artificial por excelência, marcado pelo simulacro da tensão revolucionária artificial. A ironia, para Baudrillard, está no fato de a esquerda critica o poder sempre, mas não toma a iniciativa de assumi-lo.

 

 

 

Mais tarde em outro texto chamado “Partidos Comunistas: Paraísos Artificiais da Política” Baudrillard apresentava três teses ao criticar o discurso de Enrico Berlinguer (secretário do partido comunista Italiano de 1972 a 1984): (1) os comunistas não mudarão nada se chegarem ao poder; (2) os comunistas não querem chegar ao poder; e (3) a tese totalmente niilista: não há perigo em ganhar o poder, porque o poder, de fato, não existe.

 

 

 

Para Baudrillard a Esquerda
simulava querer o Poder

 

Na ciência política, o Poder sempre foi pensado como uma substância, ou um topos, em torno da qual gravita uma somatória de partidos políticos, interesses de classe, grupos, tudo enfim que se manifesta no campo político e que produz a politização geral da sociedade

 

 

 

Em toda história, essa substância se manifestou em diversos lugares e situações: no corpo do rei (na concepção fisiológica do Poder, quem o detém é porque possui características natas no próprio corpo, o “sangue azul”, por exemplo); na inteligência instrumental do príncipe (a concepção maquiavélica do Poder, onde a política é pensada como um jogo cênico‑teatral de aparências, através do qual a vontade política se esgueira pela mentira); no Leviatã de Hobbes (Estado totalitário e centralizador, necessário para impedir a situação de anomia provocada pelo confronto dos interesses egoístas); no Estado Liberal burguês (onde o Poder é definido como espaço vazio, ocupado periodicamente pelo representante de uma vontade política pública e consensual) ou no Estado da ditadura do proletariado de Lênin e Stálin onde o Poder revolucionário é meio de liberação das forças produtivas e sociais amarradas historicamente pelas classes dominantes.

 

 

 

Em todas essas visões o Poder e a Política são vistos como produção de alguma finalidade social. Mas a tese de Baudrillard é outra: e se a necessidade de reprodução tiver dominado o Poder (reprodução da democracia, da participação, dos direitos humanos, do acesso ao mercado, da manutenção macroeconômica) a tal ponto que alcançamos o grau zero da política? Explicando melhor, e se nesses dez anos os governos de esquerda nada mais foi feito do que modernizar um país marcado pelo anacronismo (exclusão, pobreza etc.) diante das necessidades de reprodução do valor e do capital?

 

 

 

Para Baudrillard, ainda pensamos o Poder como um espaço a ser preenchido por uma classe social e a Política como um campo de forças onde se produzem novas finalidades sociais (revoluções, contra-revoluções, golpes, etc.). Talvez o poder desterritorializante e sem limites do valor de troca tenha legado ao Poder a condição se tornar um mero aparelho reprodutor onde todas as ideologias, crenças ou doutrinas gravitariam em torno dessa necessidade imperiosa de reprodução macroeconômica. Em outras palavras, se Baudrillard estiver certo, o reconhecimento internacional pelos projetos de inclusão social dos governos do PT é o reconhecimento do próprio capital pela normalização das funções de reprodução de força de trabalho e consumo.

 

 

 

Ao chegar no poder o PT encontrou o grau zero da política. A sua reticência em relação à Lei dos Meios e os monopólios midiáticos é o primeiro sintoma disso: ele encontrou o limite estrutural do sistema político – o limite simbólico e midiático. Para entendermos um pouco mais isso, devemos ir mais fundo nessa tese de Baudrillard.

 

 

 

Eventos supracondutores

 

A necessidade do sistema político simular
a existência do Poder através do escândalo
midiático das denúncias de corrupção

 

 

 

A escandalização da Política através das denúncias diárias de corrupção, tráfico de influências ou “mensalões” e a cobertura sensacionalista do terrorismo internacional pelas mídias são eventos que Baudrillard chamava de “supracondutores”.

 

 

 

Para ele, o escândalo das denúncias está para a Política assim como a especulação está para o sistema financeiro. Ambos os sistemas (financeiro e político) já há muito perderam sua finalidade social de produção para serem seduzidos pelo ardil das imagens, da circulação veloz de informação e notícias com um único propósito: simular a existência de algum valor de uso, de alguma finalidade para a existência do Poder, da Política e da Economia.

 

 

 

Para ficar apenas no sistema da Política, a imoralidade, a simulação e a sedução se tornaram componentes determinantes da política, com o propósito de, assim como no sistema financeiro, evitar crises sistêmicas: evitar que a sociedade, afinal, descubra que a inércia dominou a Política, que o Poder perdeu seu poder de atração centrípeda e que ele é apenas mais um dos personagens que gravitam em torno das ondas concêntricas da mídia.

 

 

 

E assim como no sistema financeiro onde a suspeita de que nada exista por trás de papéis, títulos ou compromissos resulta em pânico e corridas para sacar ativos, da mesma forma a Política convive com o fantasma de que um dia o eleitor descubra que por trás da representação democrática nada existe de produção (revoluções, transformações, História, enfim), mas apenas a reprodução da onisciente necessidade de reprodução macroeconômica do valor de troca.

 

 

 

Em termos mais diretos, a incrível tolerância do PT em manter polpudas verbas publicitárias às grandes mídias e a sua omissão em relação à necessidade de um marco regulador para os meios de comunicação representa um ato falho dessa necessidade sistêmica do sistema político manter a espiral de escândalos para manter a miragem referencial de que existe um lugar de Poder a ser disputado. Onde, mesmo na sua indiferença, os eleitores ainda mantenham em seu horizonte a percepção da existência de um lugar chamado Política e Poder.

 

 

 

O sistema político necessita da dose diária dos escândalos das denúncias. Seja quem ocupar o espaço do Poder, terá que fazer parte dessa irônica estratégia de retroalimentação do sistema. Cientistas políticos, críticos e jornalistas parecem ainda partilhar da ilusão de um valor de uso, de uma transparência final das finalidades sociais da Política e do Poder. Mas, como membros que somos de toda a midiosfera (com verbas ou sem verbas publicitárias do Governo), fazemos parte desse irônico jogo de simulação e sedução.

FRASES E FRASES: 50 anos da construção do Muro de Berlim

“O Miraculoso Ano de 1989”

Todas as datas são convencionais, mas a de 1989 é um pouco menos convencional que as outras. A queda do Muro de Berlim simboliza, para todos os contemporâneos, a queda do socialismo. “Triunfo do liberalismo, do capitalismo, das democracias ocidentais sobre as vãs esperanças do marxismo”, este é o comunicado vitorioso daqueles que escaparam por pouco do leninismo. Ao tentar acabar com a exploração do homem pelo homem, o socialismo, o socialismo multiplicou-a indefinidamente. Estranha dialética esta que ressuscita o explorador e enterra o coveiro após haver ensinado ao mundo como fazer uma guerra civil em grande escala. O recalcado retorna e retorna em dobro: o povo explorado, em nome do qual a vanguarda do proletariado reinava, volta a ser um povo; as elites com seus longos dentes, que pareciam ser desnecessários, voltam com toda força para retomar, nos bancos, nos comércios e nas fábricas seu antigo trabalho de exploração. O Ocidente liberal não se contém de tanta alegria. Ele ganhou a guerra fria.

Mas este triunfo dura pouco. Em Paris, Londres e Amsterdã, neste mesmo glorioso ano de 1989, são realizadas as primeiras conferências sobre o estado global do planeta, o que simboliza, para alguns observadores, o fim do capitalismo e de suas vãs esperanças de conquista ilimitada e de dominação total sobre a natureza. Ao tentar desviar a exploração do homem pelo homem para uma exploração da natureza pelo homem, o capitalismo multiplicou indefinidamente as duas . O recalcado retorna e retorna em dobro: as multidões que deveriam ser salvas da morte caem aos milhões na miséria; as naturezas que deveriam ser dominadas de forma global nos dominam igualmente de forma global, ameaçando a todos. Estranha dialética esta que faz do escravo dominado o mestre e dono do homem, e que subitamente nos informa que inventamos ecocídios e ao mesmo tempo as fomes em larga escala

(Bruno Latour em Jamais Fomos Modernos)