Do Abraço Animal

Imagem emprestada do livro O Livro dos Abraços

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Ao sermos arrastados para a vida pela violência afirmativa do acontecimento, percebemos a incapacidade humana de apenas interpretar o que é deixado como efeito. Saímos da potência indelével do acontecimento e somos jogados nas classificações e identificações que pretendem representar e designar as coisas por meio de proposições, substantivos, adjetivos… E como nos diz Deleuze, “atributos lógicos caracterizam o instante infinitivo de uma transformação incorporal.” Mas temos os verbos que expressam o acontecimento (No início era o verbo…).

Aos humanos, tudo ganha sentido quando “ensignado”. Não há informação ou comunicação no ato de “ensignar”. Nele impera a ordem que remete à própria ordem: operar no mundo por meio da redundância planificada por coordenadas semióticas bem estabelecidas e fundadas em dispositivos de dualidade, identificação, ramificações, decalques, limites, pressões que se repetem sem vida, mas de modo servil. Após o acontecimento, a funcionalidade extensiva às modulações biopolíticas que fazem dos corpos hospedeiros do estado de coisas constituído.

Assim se procede na relação homem-animal, segundo a ordem humana. Não precisaríamos apelar para a razão para sabermos que o homem é posterior ao animal. As próprias razões míticas e mistificadas deixam isso claro. O humano nomeia, identifica, divide, compara e limita o animal em um explicito esforço de se tornar humano demasiado humano. Tudo se torna humano porque o homem é um animal racional capaz de controle sobre a natureza. Antropomorfização do mundo, das relações com a natureza e dos instintos convertidos em afetos.

Não se tem dúvida que o abraço é um afeto. O problema colocado aqui é o de que o abraço seria mais animal do que humano. A falta de abraço é tão dura quanto a falta de dignidade para a vida humana. Em um abraço não são apenas corpos fisiológicos que se entrelaçam, mas, sim, todas as experiências compartilhadas nos corpos que se entrelaçam. Os abraços são como os olhares. Olhar o olhar do outro é esquecer-se da cor dos próprios olhos, diz-nos o animal Levinas. Derrida arremata dizendo que “ele fala então do homem, do próximo enquanto homem, do semelhante e do irmão, ele pensa no outro homem (…)”. A ética antes da ontologia. A produção da existência antes de uma definição da existência. Um olhar nu! Um olhar que se desfaz de si mesmo e de seus nomes para olhar o outro em sua inquietude de animal, posto que se olhe o homem ainda por se fazer em uma completa angustia abissal. Um olhar que ultrapassa todos os limites do home que tenta nomear a si mesmo a partir de suas crenças. Um olhar virulento e vil de um homem infame que renega a sua própria natureza humana fabricada.

Abraçar é potência. Como poderia haver abraços em uma ordenação do mundo onde a liberdade é conferida no corpo como propriedade individual? Como o abraço se converteria em valor social por meio de uma vontade livre determinada por limites que pretendem afastar os indivíduos da ditadura do outro? Estes questionamentos servem para problematizarmos as práticas neoliberais.

Soubemos por meio do sitio eletrônico da revista Carta Capital, em uma reportagem intitulada “Os abraços eleitorais à Aécio”, que “O pré-candidato do PSDB à presidência da República, Aécio Neves, fez a sua primeira ação virtual clara na internet com vistas à eleição de outubro”. Usando seu aniversário como mote, o pré-candidato do PSDB à presidência da República, recebeu de diversos esportistas, artistas e de ditos famosos “abraços virtuais”.

Não nos cabe dizer o que os outros pensam ou se suas ações são equivocadas ou não. Cada um fala o que quer e o que pode durante a produção e reprodução de sua existência. Contudo, podemos insistir no caso de que os abraços, bem como a linguagem em Bakhtin, é um carnaval: riso, alegria, paródia com os cultos dogmáticos do misticismo e das religiões convertidas em instituições punitivas, isto é, a própria vida sendo representada na comicidade dos elementos constituintes da festa que encontra sua mobilidade e multiplicidade na animalidade das camadas consideradas mais baixas por estruturas sociais constituídas.

O abraço é animal por ser entrelaçamento de corpos na intensidade, no agenciamento, no desejo; produzido no entrecruzamento de comportamentos sempre por se fazerem: etologia filosófica.

O abraço é como as cidades dos antigos, que eram chamadas de política e, hoje, conhecemos como república. Mas antes de se fazer coisa pública, o abraço é privado somente pela exigência de se aprender a viver uma vida sem privações na publicidade do bem comum. Aprende-se com os animais que a vida privada é uma preparação para a vida pública. Portanto, compreendemos que os abraços são demonstrações nuas, incorporais, que não precisam de demonstrações que exageram o absurdo de uma existência esvaziada por sua exorbitante aparição em meios mediáticos.

Eduardo Galeano, em seu Livro dos Abraços, talvez concorde com estas nossas opiniões meio desajeitadas, pois escreve:

“Um sistema de desvinculo: Boi sozinho se lambe melhor.., O próximo, o outro, não é seu irmão, nem seu amante. O outro é um competidor, um inimigo, um obstáculo a ser vencido ou uma coisa a ser usada. O sistema, que não dá de comer, tampouco dá de amar: condena muitos à fome de pão e muitos mais à fome de abraços”.    

 

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