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A MORAL TRISTE DO PSDB

Neste último sábado (24) o PSDB, por meio de nota, fez público a negação de “uma possível aproximação entre tucanos e petistas para enfrentar a crise política e econômica.” De acordo com notícias divulgadas nos meios de comunicação pela internet, o texto da nota explica que “os tucanos criticam a suposta tentativa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de se reunir com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para frear articulações pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff. Para Cunha Lima e Sampaio, o único propósito dos petistas é dividir o “ônus da crise” com a oposição.”.

Os líderes do PSDB que assinam a nota no Senado, Cássio Cunha Lima (PB), e na Câmara, Carlos Sampaio (SP) destacaram o PT como arrogante e oportunista.

O interessante na nota é o tom moral usado: o PSDB se vale da famosa moral decadente do julgamento, onde os valores não são constituídos historicamente, mas combinados a partir de opiniões fechadas, circunscritas, dominadas pelas inferências que fazem as proposições virem antes das premissas, ou, se preferirmos, fazendo com que os efeitos antecipem as causas.

Esta é a velha moral “do bem que avisei”. Diz uma parte da nota: “Nunca (o PT) deram ouvidos aos seguidos alertas da oposição sobre os erros anunciados e cometidos pelo governo que nos trouxeram para a grave crise em que nos encontramos (…). Não estão preocupados com o país, mas com eles mesmos”. E completa: “Sem nenhuma autocrítica, sem reconhecer o estelionato eleitoral a que submeteram o país, sem nenhum pedido de desculpas pela ganância, pela corrupção e pelo desrespeito aos brasileiros que tomou conta do Estado nacional, acenam à oposição com o único propósito de tentar dividir conosco o ônus da crise que eles mesmos criaram.”

Spinoza, Nietzsche e André de Conte-Sponville nos ensinam que a moral triste – aquela dos homes que se degeneram, dos homens fracos e decadentes – é aquela que denuncia os vícios, que julga, que toma as utopias e quimeras por realidade ao invés de sentir e falar das coisas tal qual elas são e parecem ser.

Nesta moral triste, o denunciador dificilmente percebe a si mesmo, muito menos percebe o orgulho como o amor por si mesmo e pelos outros. O homem triste, fraco e decadente denuncia o outro para esconder suas próprias falhas. Por esta simples razão, não trata das virtudes, mas dos vícios.

O PSDB, talvez, não perceba quanto o orgulho exacerbado da arrogância é a doença que invade, por meio de determinados usos, o corpo das instituições políticas, que com efeito, passam a carecer das suas capacidades generativas e de seus usos que lhe aproximam de suas proveniências, isto é: do interesse comum, público e efetivamente democrático.

Se assim entendermos uma instituição e a as capacidades de seu corpo político, que lhe garantem tanto uma coerência interna, como uma boa relação com o seu meio exterior, perceberemos logo que o perigo não está somente no PT ou parte, exclusivamente, desta instituição partidária política. Ora, parte de todos os partidos que em nada representam os interesses comuns da nação.

E, digamos de passagem, não seria exagero algum dizer que o PSDB sempre se excedeu em seus usos antidemocráticos, bem como, em várias ocasiões não agiu por amor a nação, mas de acordo com suas conveniências.

Quanto ao oportunismo do PT denunciado pela moral triste do PSDB, podemos, em um esforço de mantermos uma concordância com nós mesmos, afirmar que todo oportunismo surge quando as condições que almejamos nos são convenientes. Na maioria das vezes apenas fazemos o “bem” quando este “bem” mais beneficia a nós e nossos pares do que Outrem.

Os homens de moral forte e alegre, de moral prática, encontram a si mesmos nas capacidades dos usos de seus corpos que lhe são reais, porque produzidos pelas suas forças e poderes que entram em conflito com o mundo que lhe é externo. Este é um homem moral, posto que é um homem fisiológico. E porque toda moral superior pressupõe relações de força.

Talvez nossas instituições políticas e nossos homens públicos ainda não tenham se reconhecido desta maneira.

Graziano diz que América Latina pode erradicar a fome até 2025

Yara Aquino
Repórter da Agência Brasil

Brasília – Erradicar a fome até 2025 é uma meta viável para os países da América Latina, na avaliação do recém-eleito diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), o brasileiro José Graziano.

“A meta para o milênio [meta proposta pela Organização das Nações Unidas] é reduzir pela metade o número de famintos até 2015. Será muito difícil alcançar essa meta para boa parte dos países, sobretudo os mais pobres. A América Latina tem meta de erradicar a fome em 2025, o que acho perfeitamente viável”, disse hoje (3), ao participar de reunião do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).

Como representante regional da FAO para a América Latina e o Caribe, posto que assumiu em 2006, José Graziano conseguiu que os países da América Latina fossem os primeiros a assumir o compromisso de erradicar a fome até 2025.

Graziano observou que alguns governantes, em especial os de países onde não há um sistema democrático, não têm o interesse de acabar com a fome. Mudar a realidade nesses países é um dos desafios apontado por ele para sua gestão à frente da FAO, que começa em janeiro de 2012. “Alguns países se assentam nessa exclusão social para manter o domínio de uma minoria, por isso que digo que acabar com a fome não interessa a todos, por que ela pode modificar governos. Acho que chegar a um sistema democrático também é uma pré-condição para acabar com a fome”, disse.

A eleição de José Graziano para a diretoria-geral da FAO ocorreu em junho. Com o apoio do governo brasileiro, Graziano foi eleito com 92 dos 180 votos e ocupará o cargo no período de janeiro de 2012 a julho de 2015

Ele atribui a escolha de um brasileiro para o cargo à mudança na imagem que o Brasil adquiriu no exterior. “Acho que essa foi a grande razão da vitória: a expectativa que o Brasil representa hoje no mundo de encontrar um novo caminho de desenvolvimento. O Brasil é visto como um país que pode fazer a ponte para os países que estão em desenvolvimento com uma proposta diferente dos que estão lá, os desenvolvidos.”

Edição: Talita Cavalcante

Comentário do Poli:qualquer esforço para reduzir ou erradicar a fome do mundo não diz respeito a ações humanistas fundamentadas em juízos de valores carregados da moral cristã-judaica tão cara ao Ocidente, onde a fome ,e todos os sofrimentos e tipo de violência artificiais dela extraída, é usada como um mecanismo de exploração política através do rancor de culpa. Trta-se antes de dois tipos de política que podem muito bem convergirem: uma política de governo onde o pobre seja percebido como partipante, produtor e administrador da riqueza do mundo e uma política como produção da existência onde os próprios seres humanos criam a si mesmos como sujeitos morais.

O MEDO FAMILIAL DA VEREADORA DO PSDB (FRASE DO DIA)

“Você confiaria seus filhos para Dilma de Babá?”

A pérola da moral de classe é da vereadora PSDBista, Mara Gabrilli, que demonstrou todo o ressentimento do partido direitista.

Mamãe, papai, filhinho, meu pirão primeiro, para meu vizinho vale tudo, da minha porta para dentro, só o que me é vantajoso, na ordem do se dar bem, que é bem próxima aos partidos que carregam os anseios da auto-alcunhada elite brasileira. Os partidos, aliás – à exceção do PT, embora existam dentro deste segmentos capturados por esta subjetividade – seguem a mesma ordem familial: o culto à uma ordem moral tanática, a filiação como perpetuação dos valores da classe que se pretende dominante. Complexo de Cronos, consumindo como um buraco negro a produção intensiva e odiando tudo aquilo que não é imagem-clichê de suas reificações.

Daí o medo, como linguagem primária. O medo da vereadora em confiar seus rebentos a alguém que não comunga suas crenças e valores, é o mesmo da atriz Regina Duarte, que não encontrou em Lula um simulacro dos valores professados pelos seus patrões globais.

Medo de que seus filhos não sejam apenas apêndices natimortos, fiéis seguidores de um sistema de valores que depende da submissão e da violentação, pais da discriminação, do racismo, da homofobia, da xenofobia, da dor, da fome, e de todos os flagelos sociais.

Medo de que o seu ‘campeão’ ou a sua ‘princesa’ desvie a trajetória prevista pela tradição familiar, que produza um só signo que não esteja de acordo com o contrato familiar.

Medo, ainda, de que a babá, a empregada, ultrapassem a sua condição de acessórios da moral familiar, que deixe de exercer passivamente suas funções pedagógicas como objetos de propagação da discriminação e dos valores da classe decadente (inclusive sexual), e se tornem educadoras para a produção de outros valores, de uma outra moral.

Nada de comum-unidade, nada de produção de afetos e percepções, nada de transbordar outras formas de sentir, nada de liberdade. A frase da vereadora é a expressão de um modo de existir que estabelece um simulacro de relação, do qual o medo é apenas uma expressão. O medo do pai/mãe que ensina ao filho que o outro é sempre o inimigo, que a rua é sempre o território da guerra, e que o mundo é a origem da dor.

O medo que não interessa à democracia.

PERGUNTAS DE UM ELEITOR QUE LÊ, AO VEREADOR AMAURI COLARES (PSC/MANAUS)

O vereador Amauri Colares (PSC), da Câmara Municipal de Manaus, declarou ontem, na tribunal, durante uma votação de um projeto que regulamenta publicidade pornográfica, que não considera os homossexuais cidadãos. Para ele, o segmento LGBT pertence “à margem” da sociedade, e o beijo gay deveria ser proibido, por ser pornográfico (clique para ler a matéria do jornal Diário do Amazonas, na íntegra – aqui).

Considerando que a fala do vereador enuncia uma moral de classe, de controle dos fluxos ético-estéticos do corpo, e da disseminação da redução epsitemológica, travestida em violência de direitos, este blog formulou cinco perguntas, dentro da mesma temática, para que o vereador possa explanar mais profundamente o discurso da moral cristã (sem Cristo) e se revele na sua totalidade.

Enviamos as perguntas por emeio, agora há pouco, e nos comprometemos a publicar a resposta, na íntegra, conforme ele responder. Eis a mensagem:

Exmo. Sr. Vereador Amauri Colares,

Diante do exposto por vossa senhoria na tribuna da Câmara Municipal de Manaus, no último dia 18, quando afirmou, segundo jornal Diário do Amazonas, que os homossexuais não deveriam ter direitos ou ser expostos socialmente, por se constituírem moral e igrejalmente uma chaga na sociedade, e que o bejio entre pessoas do mesmo sexo é pornográfico, enquanto eleitores, gostaríamos de colocar-lhe as seguintes questões, reiterando que as mesmas serão igualmente divulgadas em meio internético para que todo o país saiba o que lhe perguntamos, e caso o senhor se disponha a responder, igualmente publicadas serão, conforme venham, sem edições, as suas respostas.

1) A cada dois dias um homossexual é assassinado no Brasil, apenas por ser homossexual. A maioria é torturada e abusada sexualmente antes de morrer. Seus corpos são, na maioria das vezes, encontrados deformados, com os genitais ou o ânus retalhados, com introdução de objetos contundentes, e com sinais de que a vítima agonizou antes de morrer. As informações são do GGB (Grupo Gay da Bahia), entidade nacional que atua na defesa dos direitos humanos. Considerando sua ideia, enquanto parlamentar, de que os homossexuais são uma chaga social, existências contrárias a Deus e ao Estado de Direito, o senhor pensa em homenagear esses bravos soldados anônimos que diariamente exterminam, torturam, estupram, mutilam, matam, pessoas que o senhor considera nocivas socialmente?

2) No Rio de Janeiro, Rafael Lima da Silva, 27 anos, na defesa da honra, dos bons costumes e na defesa da família, conforma preconiza a Bíblia Sagrada, matou sua esposa, Iris Bezerra de Freitas, 21 anos, porque a encontrou com o amante em casa, ao chegar do trabalho. Escondeu o corpo em uma mala e jogou no canal do Leblon. A mala foi encontrada por um funcionário da Rio Águas. Infelizmente, pela lei dos homens, ele incorreu em assassinato e será preso. Enquanto parlamentar, defensor da família e inimigo de todas as tentativas de destruição (incluindo aí a odiosa traição feminina), o senhor não fará discurso na tribuna defendendo o jovem Rafael, que apenas defendeu sua honra e a integridade da sua família?

3) Enquanto defensor da moral, da família, da pátria e dos bons costumes, nem passa pela nossa cabeça colocar quaisquer sombra de dúvidas sobre a idoneidade de sua atuação parlamentar. No entanto, o senhor é campeão absoluto de gastos com cartão corporativo. Este assunto tomou conta do noticiário local, e até o Ministério Público pretende extinguir a prática, por considerá-la inconstitucional. Considerando que a maior parte dos gastos com o cartão divulgados pela impresa, mostravam banquetes em churrascarias da cidade e gastos unusuais (4 mil reais por mês em combustível?), não seria de bom tom que vossa senhoria, enquanto o maior gastador do recurso vereático, num ato de probidade, viesse a público mostrar com o que e para quê gastou quase 100 mil reais em 2009 às custas do povo?

4) Considerando que homossexuais, a despeito da discriminação que sofrem, também pagam imposto e são indiretamente responsáveis pelo montante que os senhores vereadores têm para gastar, não seria pecaminoso gastar tanto dinheiro vindo de fonte tão moralmente impura?

5) A Psicanálise, essa odiosa disciplina de estudo do ser humano que considera Deus uma invenção do homem para suportar e transferir a responsabilidade pelos seus atos no mundo, também afirma que os maiores inimigos dos homossexuais são justamente aqueles cuja sexualidade foi mal formada ou cuja energia sexual inconsciente é frontalmente contrária à moral social internalizada. Trata-se de evidente ataque aos homens de bem, cristãos e defensores da família. No entanto, fato é que os maiores inimigos da causa LGBT nos EUA e Europa, cedo ou tarde, têm sido pegos em situações vexatórias, geralmente acompanhados de garotos de programa, ou tendo sexo homossexual em banheiros públicos ou outros locais ermos. Tendo um perfil político muito parecido com esses parlamentares, defensor das mesmas causas anti-LGBT, podemos esperar que, no aspecto comportamental, o senhor seja uma exceção?

Com essas perguntas, cujas respostas certamente o auxiliarão a galgar cargos mais importantes no parlamento nacional, no apoio irrestrito do seu partido, o PSC, à candidatura de José Serra (PSDB), despedimo-nos, no aguardo da sua atenciosa resposta, a qual, como já dissemos, será publicada integralmente e sem cortes.

Atenciosamente,

Equipe Polivocidade.

A MORAL COMO VIOLENTAÇÃO DA CRIANÇA NA NEUROSE FAMILIAR – Parte 3/3

Parte 1

Parte 2

Vivemos, no entanto, em uma sociedade que transformou a sexualidade em discurso universalizado e fetichizado. Há sexualidade em tudo, menos no sexo. Quando a tevê fala abertamente sobre sexualidade, com mil programas, fala a partir de uma enunciação esvaziada. Não há mais desejo, não há mais sexo. Apenas simulação. Daí existir uma falsa dicotomia e o equívoco de acreditar que a banalização da sexualidade é o mesmo que libertação do corpo da sobrecodificação moral.

Daí, uma sociedade insegura ser uma sociedade de extremos. Enquanto se vivencia uma banalidade da nudez e do culto ao simulacro do corpo (no carnaval, na pornografia liberada, nos programas que discutem o sexo em horário nobre), tem-se um patrulhamento do carinho e do afeto como socialmente perigosos.

Nos EUA, os pedagogos recomendam um tratamento curioso para crianças que têm o desagradável hábito de tocar e/ou abraçar outras crianças: os pais devem comprar uma luva, cuja parte externa é recoberta por uma espécie de lixa. Eles devem usar diariamente para “esfoliar” as crianças, explicando que tocar no coleguinha não é educado. A sensação desagradável da lixa mais a fala dos pais incutirá na criança que tocar o outro, acariciá-lo ou beijá-lo é ruim.

Pais e filhos são estimulados cada vez mais no discurso a assumirem uma afetividade, e cada vez mais na prática a não se tocarem. Uma afetividade parental asséptica, que é prejudicial à criança. Confunde-se carinho com abuso, e são coisas totalmente diferentes.

O abuso se configura como o uso do corpo a partir de uma erotização patologizada, que submete o outro à objetização e à uma sujeitação a uma força exógena. Uma violência daquilo que se tem de mais íntimo: o próprio corpo e a autonomia.

Já o carinho é parte integrante de qualquer relação humana, e essencial ao desenvolvimento da criança. Ela precisa ser tocada, estimulada, precisa tocar-se, descobrir o próprio corpo, sentir-se amada para ser capaz de amar, deixar transbordar esse amor, sentir o prazer do calor do corpo da mamãe, do papai, dos adultos e outras crianças, para não ser um adulto enciumado, inseguro, com medo de olhar as pessoas nos olhos e de tocá-las. É preciso descobrir o próprio corpo para ser capaz de determinar suas fronteiras, aquilo que se pode ou não pode, o que é bom ou não é. E isso nada tem a ver com abuso ou pedofilia.

A criança pode não ser capaz de diferenciar num plano intelectual, mas é plenamente capaz de diferenciar afetivamente um abuso de um carinho. Abusar de uma criança – como de resto, de qualquer pessoa – é impor uma limitação à sua capacidade de autonomia e produção ético-estética; fazer-lhe um carinho é um convite a conhecer o mundo e a si mesmo como uma experiência agradável e bela.

E muitas vezes, por questões que lhe são alheias, a criança acaba sofrendo pelo fato dos adultos não serem capazes de o diferenciar. Hoje em dia, são muitos os casos em que pais em processo litigioso de separação ou que brigam pela guarda dos filhos usam do artifício de denunciar por abuso sexual o carinho que o outro faz à criança. Nada mais prejudicial à criança, que tem sua rede de afetos emaranhada pelo ódio e pelo ressentimento que não são dela. Um erro muitas vezes irreparável.

5. Amores e ‘amores’

O amor é distributivo, não cumulativo. Ele transborda na família e inunda o social. Não é impositivo, mas intuitivo. Aquilo que diminui a capacidade de produção autônoma e livre, não é amor. Cristo não amava mais a sua família que ao próximo: sabia que o amor não se reduz às ligações familiares, mas que engloba a todos como irmãos.

Amor não combina com interdição, com repressão, com dor, com ressentimento, com posse, com sentimento de inferioridade, com violência, com medo, com insegurança.

Sem ele, não se constrói o ser humano pleno, e sem ele não há democracia.

Esta, começa em casa, e pode ser num gesto simples, como um abraço ou um beijo.

A MORAL COMO VIOLENTAÇÃO DA CRIANÇA NA NEUROSE FAMILIAR – Parte 2/3

(Parte 1)

Uma moral familiar, carregada por estes códigos, e que cria uma expectativa, por vezes tão maciça e opressora que não resta à criança outra alternativa. A morte da família, como mostra o anti-psiquiatra David Cooper, é exatamente o culto tanático aos valores familiares: a família funciona como catalisador de uma sociedade exploradora e controladora das produções existenciais. Em outras palavras, intercessão. Viva o velho! Morte ao novo! Não por acaso, famílias de políticos que vão do avô ao bisneto, carregando o mesmo sobrenome, carregam também a mesma moral decadente. Sufocamento, interdição das possibilidades de ampliação da consciência da criança, pela imposição positiva de uma ordem pré-estabelecida. “Serás isso!”, parece afirmar a ordem familiar. Um sintoma dessa ordem tanática: na família, o lado mais fraco é sempre aquele que obedece cegamente à ordem familiar. O maior índice de suicídios é sempre o dos filhos-exemplo, bem mais que os ‘ovelhas negras’.

Toda interdição à possibilidade de crescimento e desenvolvimento afetivo, intelectual, existencial, sexual, físico, político da criança, é uma violência tão brutal quanto a pedofilia, o abuso sexual, a violência física (a palmada), a tortura. Estas, aliás, são rebentos monstruosos daquelas.

3. Infantilismo sem Infância: a criança como expressão da neurose familiar

Carl Jung, psicólogo, médico e criador da teoria psicanalítica do Inconsciente Coletivo, afirma que a criança é como uma espécie de antena, para a qual convergem todos os conflitos familiares não elaborados. Não se faz, portanto, psicologia infantil; trata-se a família para que a criança não sofra.

O filósofo Gilles Deleuze aponta um infantilismo sem infância: “As crianças vivem uma infância que não é a delas”.

Se criadas em um ambiente familiar e social no qual as suas demandas e produções não são acolhidas, e ela não percebe a sua vontade natural de existir e conhecer como bem aceita, então só lhe resta, como recurso de sobrevivência, aceitar passivamente aquilo que lhe apresentam como sendo o correto modo de viver. Impossibilitada de exercitar a sua faculdade intelectiva com liberdade, a criança sofre uma interdição. O que não significa dizer uma imposição, mas tão somente um corte na capacidade produtiva: não se trata de dizer não, mas de dizer ‘sim’ a um modo de existir que não é produto da ação dela própria no mundo. E eliminar todas as outras possibilidades. Daí, Sigmund Freud afirmar que toda estupidez é produto da repressão. Só aceita como natural a tortura aquele que foi torturado; só aceita como natural a violência aquele que foi violentado; só é intolerante com a diversidade aquele que teve a sua própria capacidade de produção do diverso, interditada.

Em outras palavras: só se pode ser pai, se antes se tiver sido filho. A criança é o pai do homem, Freud novamente. Ou como diz outro psicólogo: “Amarás ao próximo como a ti mesmo”. Se quando criança foi submetido a um amor castrado, interdito, de conflito, de concorrência, amarás na castração, na interdição, no conflito, na concorrência.

Assim, muitos pais – de fato ou de direito, ou os dois – amam seus filhos através da mesma fórmula que herdaram dos seus pais. Se foi um amor democrático, distributivo, constitutivo de outras relações, que transbordam na coletividade, então são seguros de si, não temem o invisível nem o fantasmático, e auxiliam a criança no seu próprio caminhar, sem interpor-lhes obstáculos e auxiliando-os a superar aqueles que estão arraigados numa sociedade de exploração. Se ao contrário, foram vitimados por um ‘amor’ possessivo, inseguro, segregador, xenofóbico e de interdição, então quererão para seus filhos exatamente o que tiveram. E ai dos filhos que pensem o contrário. Como bons pais consumidores, acreditarão saber sempre o que é melhor para os filhos, e tentarão sufocar a capacidade crítica e de formação de juízo da criança. Que ela seja também contaminada com a mesma fórmula virótica da decadência, da imobilidade, da insegurança, da dor que os vitimou. Assim, os pais vingam-se nos filhos daquilo que não puderam escapar quando eles próprios os eram. Não há amor, mas simplesmente sentimento de posse, objetizando o outro e perpetuando a neurose familiar. Não por acaso, a direita política brasileira e mundial está cheia de Fulanos Filhos, Cicranos Netos, Beltranos Bisnetos.

4. Abuso e Carinho são opostos, menos para a paranóia social

Uma criança imobilizada e vitimizada pela neurose familiar será um adulto que se desenvolveu apenas no plano biofisiológico. Ele será como o morador da casa do exemplo, no início deste texto: mora em um lugar que foi feito para ele, mas que não foi feito por ele. Sentir-se-á inseguro, indefeso. E agirá de acordo como tal.

A pedofilia e o abuso sexual são resultado disso. Adultos no plano fisiológico, mas atrofiados no desenvolvimento da sexualidade por uma moral castradora, eles são incapazes de entabular uma relação em pé de igualdade com outros adultos. Haverá sempre a insegurança, que resulta na atração por crianças, que não representam perigo imediato. Daí o pedófilo não se sentir intimidado pela norma social ou pela lei. E o fato nada tem a ver com orientação sexual. Ao contrário, sendo homo, hétero, bi, trans, ou qualquer outra denominação, se é bem resolvido, se a descoberta do sexo se deu num plano de liberdade, não há insegurança.

(Continua…)

A MORAL COMO VIOLENTAÇÃO DA CRIANÇA NA NEUROSE FAMILIAR – Parte 1/3

1. A Construção do Corpo e As Afecções

Imagine-se em uma casa que você acabou de comprar. Uma casa grande, com vários cômodos. Na hora da mudança, você deixa com que a transportadora ordene os móveis e escolha o que estará em cada cômodo. Não se ocupa de conhecer a casa, de olhar as condições de cada lugar, de escolher por si mesmo onde será o seu quarto, ou a cozinha, ou a sala de jantar. Ao entrar nessa casa para morar, você se sentirá à vontade? Sentirá como se a casa fosse sua?

Algo semelhante ocorre com o corpo. Diz o ditado popular, ele é nossa casa. Mas o quanto de cada corpo é efetivamente “nosso”, o quanto conhecemos e temos domínio deste corpo, e o quanto dele está tomado por outras ordens, outros regimes de saberes, estrangeiros a nós, e que no entanto, estão colados como se fora uma tatuagem?

O corpo é uma idéia. Como tal, é produto de um encontro. A consciência que temos de nosso corpo é uma produção afeccional, ideática (não idealizada, não metafísica, mas física, material), produção do nosso inteligir. Nosso corpo está no mundo, inescapavelmente. E o construímos conforme entramos em contato com este mesmo mundo.

É de se compreender, portanto, que este corpo é produzido de acordo com os códigos sociais com os quais se toma ciência. Uma criança, diz o filósofo dos afetos Spinoza, ainda não tem desenvolvida a capacidade de exame, necessária à diferenciação de saberes produzidos de acordo com a razão, daqueles que são produzidos a partir de equívocos do inteligir. Por exemplo, uma criança, que tem a curiosidade de perceber que o sol nasce todos os dias de um lado, para se pôr do outro, pode depreender daí que o sol gira em torno da Terra. Um equívoco dos sentidos que foi durante séculos dogma para parte da ciência e até bem pouco tempo, crença incontestável da igreja. Educativamente é preciso que esta criança encontre um ambiente favorável ao desenvolvimento do seu modo de conhecer, a fim de que este estágio do conhecimento possa ser superado.

2. Os Afectos, a Moral, a Interdição

O que é um afecto? É exatamente essa idéia, esse modo de ser, esse “ser-no-mundo”, como diriam os existencialistas. Mas esse corpo-idéia que é cada um, ao mesmo tempo em que é único, está em movimento. Nunca é; persevera no ser. Está sendo. Neste momento, sente frio, e é uma afecção. Logo depois, vem o encontro com outros corpos, e muda-se este modo de ser: já se está com calor. O mesmo se dá para todos os outros encontros. E tudo é corpo. Mais uma vez, Spinoza nos diz que o corpo se modifica a cada novo encontro, e que esses encontros, dados ao acaso, determinam o modo de ser. Se tem encontros bons, sua potência de agir (a sua vontade de perseverar no ser, a sua energia vital) aumenta. Temos então um corpo mais próximo da perfeição, mais ativo e eficiente do ponto de vista ético. Se tem encontros ruins, sua potência de agir diminui, temos um modo de ser mais enfraquecido, mais vulnerável, mais aberto ao sofrimento e à dor.

Se tudo é corpo, a história que já existe antes da criança nascer também é corpo. Igualmente, as expectativas dos pais sobre a criança que vai nascer são também corpo. Dos quais a criança dificilmente escapará ao encontro. Serão bons ou maus estes encontros com os corpos da história, da família, das expectativas?

Ora, invariavelmente, na sociedade em que vivemos, a moral tem por objetivo menos a educação através da circulação e produção de conhecimento que à obediência a uma ordem hierárquica pela força. Interessa à moral (conjunto de valores e comportamentos já existentes e disseminados numa sociedade) de nossa sociedade muito mais a obediência e a manutenção da imobilidade – quando não mudam os estados de coisas – que a circulação e disseminação do conhecimento, em busca do aumento da potência de agir. E isso não se dá por uma imposição, mas pelo adesivamento de valores e de uma ordem hierárquica.

Uma moral que transforma o corpo em território alienígena, que esquadrinha as partes corporais e determina interdições. Não coincidentemente, numa ordem inversa ao prazer. Sabe-se que o filósofo Michel Foucault, pouco antes de morrer, preparava um estudo sobre a atuação da igreja católica apostólica romana, durante a história, na produção social de um enunciado sobre o corpo. Enunciado este que aliena o corpo à sua ordem natural, e tenta retirar a sua potência estética e política. A vergonha de estar nu surgiu bem depois de Adão e Eva…

(continua…)