SAUDADES DA DITADURA

O pessoal que tem saudades da ditadura militar brasileira devia especificar exatamente do que. Das unhas arrancadas? Dos gritos nas delegacias dos torturados? Dos corpos desaparecidos? Do oceano de dinheiro público roubado nas obras faraônicas? Da inflação galopante? Dos choques eléctricos nos testículos? Da cadeira do dragão? Dos cursos de terrorismo de estado que os americanos vinham ministrar? Da carestia e miséria reinantes? Da exploração quase genocida dos nordestinos na Amazónia?

Tantas coisas…

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DO BRASIL DE FATO: Terrorismo louro de olhos azuis

Frei Betto

Preconceitos, como mentiras, nascem da falta de informação (ignorância) e excesso de repetição. Se pais de uma criança branca se referem em termos pejorativos a negros e indígenas, judeus e homossexuais, dificilmente a criança, quando adulta, escapará do preconceito.

A mídia usamericana incutiu no Ocidente o sofisma de que todo muçulmano é um terrorista em potencial. O que induziu o papa Bento XVI a cometer a gafe de declarar, na Alemanha, que o Islã é originariamente violento e, em sua primeira visita aos EUA, comparecer a uma sinagoga sem o cuidado de repetir o gesto numa mesquita.

Em qualquer aeroporto de países desenvolvidos um passageiro em trajes islâmicos ou cujos traços fisionômicos lembrem um saudita, com certeza será parado e meticulosamente revistado. Ali reside o perigo… alerta o preconceito infundido.

Ora, o terrorismo não foi inventado pelos fundamentalistas islâmicos. Dele foram vítimas os árabes atacados pelas Cruzadas e os 70 milhões de indígenas mortos na América Latina, no decorrer do século 16, em decorrência da colonização ibérica.

O maior atentado terrorista da história não foi a queda, em Nova York, das torres gêmeas, há 10 anos, e que causou a morte de 3 mil pessoas. Foi o praticado pelo governo dos EUA: as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945. Morreram 242.437 mil civis, sem contar as mortes posteriores por efeito da contaminação.

Súbito, a pacata Noruega – tão pacata que, anualmente, concede o Prêmio Nobel da Paz – vê-se palco de dois atentados terroristas que deixam dezenas de mortos e muitos feridos. A imagem bucólica do país escandinavo é apenas aparente. Tropas norueguesas também intervêm no Afeganistão e deram apoio aos EUA na guerra do Iraque.

Tão logo a notícia correu mundo, a suspeita recaiu sobre os islâmicos. O duplo atentado, no gabinete do primeiro-ministro e na ilha de Utoeya, teria sido um revide ao assassinato de Bin Laden e às caricaturas de Maomé publicadas pela imprensa escandinava. O preconceito estava entranhado na lógica ocidental.

A verdade, ao vir à tona, constrangeu os preconceituosos. O autor do hediondo crime foi o jovem norueguês Anders Behring Breivik, 32 anos, branco, louro, de olhos azuis, adepto da fisicultura e dono de uma fazenda de produtos orgânicos. O tipo do sujeito que jamais levantaria suspeitas na alfândega dos EUA. Ele “é dos nossos”, diriam os policiais condicionados a suspeitar de quem não tem a pele suficientemente clara nem olhos azuis ou verdes.

Democracia é diversidade de opiniões. Mas o que o Ocidente sabe do conceito de terrorismo na cabeça de um vietnamita, iraquiano ou afegão? O que pensa um líbio sujeito a ser atingido por um míssil atirado pela OTAN sobre a população civil de seu país, como denunciou o núncio apostólico em Trípoli?

Anders é um típico escandinavo. Tem a aparência de príncipe. E alma de viking. É o que a mídia e a educação deveriam se perguntar: o que estamos incutindo na cabeça das pessoas? Ambições ou valores? Preconceitos ou princípios? Egocentrismo ou ética?

O ser humano é a alma que carrega. Amy Winehouse tinha apenas 27 anos, sucesso mundial como compositora e intérprete, e uma fortuna incalculável. Nada disso a fez uma mulher feliz. O que não encontrou em si ela buscou nas drogas e no álcool. Morreu prematuramente, solitária, em casa.

O que esperar de uma sociedade em que, entre cada 10 filmes, 8 exaltam a violência; o pai abraça o filho em público e os dois são agredidos como homossexuais; o motorista de um Porsche se choca a 150km por hora com uma jovem advogada que perece no acidente e ele continua solto; o político fica indignado com o bandido que assaltou a filha dele e, no entanto, mete a mão no dinheiro público e ainda estranha ao ser demitido?

Enquanto a diferença gerar divergência permaneceremos na pré-história do projeto civilizatório verdadeiramente humano.

Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Marcelo Gleiser e Waldemar Falcão, de “Conversa sobre a fé e a ciência”

Chomsky: “Minha reação diante da morte de Osama”

Artigo retirado da Agência Carta Maior

Poderiamos perguntar a nós mesmo como reagiríamos se um comando iraquiano pousasse de surpresa na mansão de George W. Bush, o assassinasse e, em seguida, atirasse seu corpo no Oceano Atlântico. Sem deixar dúvidas, seus crimes excederam em muito os que Bin Laden cometeu, e não é um “suspeito”, mas sim, indiscutivelmente, o sujeito que “tomou as decisões”, quem deu as ordens de cometer o “supremo crime internacional, que difere só de outros crimes de guerra porque contém em si o mal acumulado do conjunto”.

Noam Chomsky – Guernica Magazine

Fica cada vez mais evidente que a operação foi um assassinato planejado, violando de múltiplas maneiras normas elementares de direito internacional. Aparentemente não fizeram nenhuma tentativa de aprisionar a vítima desarmada, o que presumivelmente 80 soldados poderiam ter feito sem trabalho, já que virtualmente não enfrentaram nenhuma oposição, exceto, como afirmara, a da esposa de Osama bin Laden, que se atirou contra eles.

Em sociedades que professam um certo respeito pela lei, os suspeitos são detidos e passam por um processo justo. Sublinho a palavra “suspeitos”. Em abril de 2002, o chefe do FBI, Robert Mueller, informou à mídia que, depois da investigação mais intensiva da história, o FBI só podia dizer que “acreditava” que a conspiração foi tramada no Afeganistão, embora tenha sido implementada nos Emirados Árabes Unidos e na Alemanha.

O que apenas acreditavam em abril de 2002, obviamente sabiam 8 meses antes, quando Washington desdenhou ofertas tentadoras dos talibãs (não sabemos a que ponto eram sérias, pois foram descartadas instantâneamente) de extraditar a Bin Laden se lhes mostrassem alguma prova, que, como logo soubemos, Washington não tinha. Portanto, Obama simplesmente mentiu quando disse na sua declaração da Casa Branca, que “rapidamente soubemos que os ataques de 11 de setembro de 2001 foram realizados pela al-Qaeda”.

Desde então não revelaram mais nada sério. Falaram muito da “confissão” de Bin Laden, mas isso soa mais como se eu confessasse que venci a Maratona de Boston. Bin Laden alardeou um feito que considerava uma grande vitória.

Também há muita discussão sobre a cólera de Washington contra o Paquistão, por este não ter entregue Bin Laden, embora seguramente elementos das forças militares e de segurança estavam informados de sua presença em Abbottabad. Fala-se menos da cólera do Paquistão por ter tido seu território invadido pelos Estados Unidos para realizarem um assassinato político.

O fervor antiestadunidense já é muito forte no Paquistão, e esse evento certamente o exarcebaria. A decisão de lançar o corpo ao mar já provoca, previsivelmente, cólera e ceticismo em grande parte do mundo muçulmano.

Poderiamos perguntar como reagiriamos se uns comandos iraquianos aterrizassem na mansão de George W. Bush, o assassinassem e lançassem seu corpo no Atlântico. Sem deixar dúvidas, seus crimes excederam em muito os que Bin Laden cometeu, e não é um “suspeito”, mas sim, indiscutivelmente, o sujeito que “tomou as decisões”, quem deu as ordens de cometer o “supremo crime internacional, que difere só de outros crimes de guerra porque contém em si o mal acumulado do conjunto” (citando o Tribunal de Nuremberg), pelo qual foram enforcados os criminosos nazistas: os centenas de milhares de mortos, milhões de refugiados, destruição de grande parte do país, o encarniçado conflito sectário que agora se propagou pelo resto da região.

Há também mais coisas a dizer sobre Bosch (Orlando Bosch, o terrorista que explodiu um avião cubano), que acaba de morrer pacificamente na Flórida, e sobre a “doutrina Bush”, de que as sociedades que recebem e protegem terroristas são tão culpadas como os próprios terroristas, e que é preciso tratá-las da mesma maneira. Parece que ninguém se deu conta de que Bush estava, ao pronunciar aquilo, conclamando a invadirem, destruirem os Estados Unidos e assassinarem seu presidente criminoso.

O mesmo passa com o nome: Operação Gerônimo. A mentalidade imperial está tão arraigada, em toda a sociedade ocidental, que parece que ninguém percebe que estão glorificando Bin Laden, ao identificá-lo com a valorosa resistência frente aos invasores genocidas.

É como batizar nossas armas assassinas com os nomes das vítimas de nossos crimes: Apache, Tomahawk (nomes de tribos indígenas dos Estados Unidos). Seria algo parecido à Luftwaffe dar nomes a seus caças como “Judeu”, ou “Cigano”.

Há muito mais a dizer, mas os fatos mais óbvios e elementares, inclusive, deveriam nos dar mais o que pensar.

(*) Noam Chomsky é professor emérito do Departamento de Linguística e Filosofía del MIT. É autor de numerosas obras políticas. Seus últimos livros são uma nova edição de “Power and Terror”, “The Essential Chomsky” (editado por Anthony Arnove), uma coletânea de seus trabalhos sobre política e linguagem, desde os anos 1950 até hoje, “Gaza in Crisis”, com Ilan Pappé, e “Hopes and Prospects”, também disponível em áudio.

Fonte: Cubadebate

ONU DEVE ACOMPANHAR INVESTIGAÇÃO ISRAELENSE SOBRE O CRIME DA FLOTILHA DA LIBERDADE

Renata Giraldi
Repórter da Agência Brasil

Brasília – A Organização das Nações Unidas (ONU) quer que o governo de Israel investigue de forma isenta, conquistando a confiança da comunidade internacional, o ataque à frota de navios com carregamento de ajuda humanitária, ocorrido no final de maio. O relator especial das Nações Unidas sobre Execuções Extrajudiciais, Philip Alston, disse hoje (11) que o inquérito interno de Israel deve ser independente e seguir as normas internacionais.

“Existem vários requisitos indispensáveis para qualquer comissão de inquérito, como, por exemplo o cumprimento das normas internacionais”, disse Alston. Segundo ele, a ONU acompanhará de perto processo de investigação. “O inquérito deve ser ser conduzido de forma independente do governo e o relatório final deve ser totalmente público. Não se deve deixar a critério do governo”, afirmou. As informações são do site das Nações Unidas.

No último dia 31, uma frota de seis navios, reunindo cerca de 750 pessoas, foi atacada por tropas israelenses no Mar Mediterrâneo. Os navios transportavam carregamentos de ajuda humanitária para os moradores da Faixa de Gaza, que vivem sob bloqueio econômico imposto pelo governo de Israel. O ataque provocou a morte de nove pessoas – a maioria das vítimas era de origem turca.

O governo de Israel justificou a ação informando que os ativistas tentaram atacar os homens do Exército e, por isso, houve a ofensiva. A reação israelense foi duramente criticada pela maior parte da comunidade internacional. Os israelenses rechaçaram a possibilidade de abertura de um inquérito internacional para investigar o episódio.

Na semana passada, o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, conversou, por telefone, com os primeiros-ministros da Turquia, Recep Tayyip Erdoğan, e de Israel, Benjamin Netanyahu, sobre as opções para avançar nas investigações. Os 15 integrantes do Conselho de Segurança da ONU, reunindo permamentes e rotativos, condenaram o ataque à frota de navios.

NOTÍCULA DE UM TERRORISMO DE ESTADO

Lembram aquele vídeo dos americanos “brincando” de tiro ao alvo com civis iraquianos, e que acabou na morte de um jornalista? Pois é, o americano que ‘vazou’ o vídeo foi preso por atentar contra a segurança nacional americana.

Ah, Obama. Assim, nunca serás o cara!

FRASE DO DIA

"Diga a eles para dar o fora da Palestina. (…) Lembre-se que esse povo foi ocupado e que é a terra deles, não a Alemanha ou a Polônia. Eles podem ir para casa, para a Polônia, a Alemanha, os Estados Unidos, qualquer outro lugar."

A frase é da jornalista Helen Thomas, 89 anos, a mais antiga jornalista a fazer a cobertura diária da Casa Branca, gravada numa entrevista ao site RabbiLive.com. O vídeo é campeão de visualizações no youtube.

Hellen viu nascer e crescer o barril de pólvora na Palestina, e sabe muito bem que quem armou a bomba são seus antigos patrões. Enquanto foi jornalista, não sabemos se escrevia criticamente, mas suas últimas palavras desvelaram o óbvio.

Enquanto os soldados israelenses são condecorados pelas mortes dos ativistas da Flotilha da Liberdade, a jornalista americana é aposentada compulsoriamente, apenas porque, no final de sua carreira, ousou pela primeira vez exercer um jornalismo livre. Antes tarde do que nunca!