SERRA: NEM OS TUCANOS QUEREM MAIS

Faltam pouco mais de 24 horas para a Convenção do PSDB que decidirá o futuro político de José Serra. A disposição de setores majoritários do tucanato é de sepultar a figura do grande desagregador, hoje  identificado amplamente como responsável pela implosão do partido já durante a campanha de 2010, o que explica em parte a letargia tucana  na longa convalescência pós-eleitoral. Serra frequentemente impôs a sua vontade dentro da sigla transformando adversários em escombros políticos, com a ajuda do rolo compressor de seu dispositivo midiático, sobretudo em São Paulo. Pela primeira vez na história do PSDB o jogo virou. O ex-governador está sem condições de fuzilar concorrentes, mas corre o risco de ser fulminado por eles. Seguidores de Aécio Neves relutam em conceder ao candidato da derrota conservadora em 2002 e 2010   até mesmo o abrigo do Instituto Teotônio Vilela cuja presidência é reivindicada como prêmio-consolação pelo serrismo –um prêmio-consolação que administra quase R$ 7 milhões de orçamento. O temor é de que com esse calibre financeiro, o ITV seja utilizado como quartel-general para a urdidura de um novo ciclo de golpes e punhaladas dentro do partido, uma especialidade de Serra que alguns só enxergam um jeito de erradicar: expurgando o mal pela raiz. E pensar que a mídia fez de tudo para convencer o Brasil que esse personagem seria a melhor opção para suceder a Lula.

(Carta Maior; 6º feira 27/05/ 2011)
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FHC ASSUME SEU LUGAR E O DO PSDB NA HISTÓRIA

FHC ASSUME SEU LUGAR NA HISTÓRIA:
“PSDB DEVE ESQUECER AS  MASSAS CARENTES E MAL-INFORMADAS, O POVÃO”

Na frase de abertura do programa do PSDB, lançado em 1988, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso anuncia que o partido nasce sob a proposta de estar “longe das benesses oficiais, mas perto do pulsar das ruas”. Em 2006, em carta aberta aos militantes tucanos, o presidente de honra do PSDB reforça a necessidade de “reatar os fios entre o partido e a sociedade” e recomenda a seus correligionários que busquem o diálogo com os sindicatos e movimentos populares. Neste ano, depois da terceira derrota seguida na disputa presidencial, Fernando Henrique adota um novo discurso e defende que o partido abandone a tentativa de influenciar as bases sociais, a quem chama de “povão” e de “massas carentes e pouco informadas” (Valor, 13-04).

(Carta Maior; 4º feira, 13/04/2011)

carta aberta endereçada a Diversidade Tucana por Toni Reis

Um grupo denominado de Diversidade Sexual Tucana, criticou o posicionamento do presidente da ABGLT a favor de Dilma, Toni reis. O núcleo de diversidade sexual do PSDB declarou que foi “inconveniente, para dizer o mínimo, o posicionamento público do presidente da ABGLT em favor da candidatura de Dilma Rousseff à Presidência da República”. Abaixo veja a nota do núcleo do PSDB e a resposta em carta aberta de Toni Reis.

Diversidade Tucana

NOTA PÚBLICA

Posicionamento Eleitoral do presidente da ABGLT

O Diversidade Tucana – Núcleo de Diversidade Sexual do PSDB considera inconveniente, para dizer o mínimo, o posicionamento público do presidente da ABGLT – Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais em favor da candidatura de Dilma Rousseff à Presidência da República.

A livre manifestação política é um direito constitucional de cada cidadão e de forma alguma pretenderíamos atentar contra ela. Porém, como presidente da maior associação de entidades de promoção da cidadania LGBT, que representa organizações e cidadãos das mais diferentes cores partidárias e posicionamentos políticos, é bastante inoportuna a declaração do senhor Toni Reis sendo levada a público em meio a um delicado momento para os temas caros à população LGBT na campanha eleitoral, e poucos dias após o mesmo ser signatário de uma carta aberta aos dois candidatos à Presidência da República em nome da ABGLT.

Cabe dizer, também, que esta não é uma eleição que traz de algum dos lados um projeto de país retrógrado e homofóbico – situação em que um posicionamento público como esse seria justificável e importante. Pelo contrário, o oponente da candidata apoiada por Toni Reis é José Serra, sem dúvidas o homem público com mais ações em favor da população LGBT no Brasil, autor de políticas públicas pioneiras no reconhecimento, visibilidade e promoção de cidadania da nossa população.

Após Toni Reis dizer, em nome de todas as entidades que formam a ABGLT, que o governo do qual Dilma Rousseff fez parte foi “o que mais fez pelos LGBTs do Brasil” e, poucos dias depois, declarar seu voto na candidata petista, cabem os seguintes questionamentos:

1- com qual credibilidade o senhor Toni Reis poderá atuar caso a ABGLT precise se manifestar novamente durante o processo eleitoral?

2- com qual independência e posicionamento crítico o senhor Toni Reis poderá se posicionar em nome da ABGLT na audiência pública agendada pela Câmara dos Deputados para discutir os assassinatos homofóbicos no Brasil, que tiveram um aumento vertiginoso exatamente nos anos desse governo que ele tanto elogia?

3- qual a garantia que poderá dar o senhor Toni Reis de que, ao atuar em nome de mais de quatrocentas entidades do movimento LGBT, colocará os interesses de nossa população acima de quaisquer outros no trato com o próximo presidente eleito, seja a sua candidata ou seja o candidato adversário, José Serra?

O Diversidade Tucana, ao defender publicamente em diversas ocasiões um movimento LGBT independente e apartidário, apresentando sua agenda aos partidos políticos e não o contrário, repudia tal manifestação pública, principalmente porque a ABGLT faz parte de uma série infindável de Grupos de Trabalho e Grupos Técnicos, além de ter uma série de projetos aprovados junto ao Governo Federal, como por exemplo o projeto Aliadas. Assim, tal posicionamento soa pouco transparente e meramente político, uma vez que os números apontados nos últimos levantamentos demonstram que o Brasil assistiu à escalada de assassinatos homofóbicos e a paralisação dos direitos civis de LGBTs nos últimos oito anos. Nós que, anos atrás, comemorávamos uma posição de vanguarda nesta questão, hoje estamos ultrapassados até mesmo frente a alguns Estados ditatoriais.

Em nossa opinião, os movimentos sociais só representam de fato os interesses de sua população quando se mantém independentes e a colocam acima de filiações partidárias, simpatias pessoais, transferências de verbas e bajulações inócuas.

Diversidade Tucana

Carta Aberta ao Diversidade Tucana – Núcleo de Diversidade Sexual do PSDB

Recebi a nota pública do Diversidade Tucana – Núcleo de Diversidade Sexual do PSDB, que considerou “inconveniente meu posicionamento público enquanto presidente da ABGLT – Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais” em favor da candidatura de Dilma Rousseff à Presidência da República.

Primeiro, quero dizer que assinei a carta como qualquer outro cidadão brasileiro que tem o direito à livre expressão, e também assinei com todas as representações que tenho, inclusive a presidência da ABGLT.

Para esclarecimento, não sou filiado ao Partido dos Trabalhadores, e tenho a admiração por partidos social-democratas.

Sempre me pautei pelos interesses maiores dos avanços da cidadania da população LGBT, dialogando com governos de todos os matizes políticos. Continuarei assim, seja com Dilma ou com Serra.

Neste momento o que está em jogo é a continuidade dos avanços, sociais, políticos e econômicos. Sou gay e ativista dos direitos humanos, mas sou também um cidadão que quer ver um país mais igual, com distribuição de renda, sem machismo, sem racismo. Com Lula eu tive, e com Dilma continuarei tendo. Não posso pensar num país somente pelo viés LGBT, seria muito estreito e forçado.

Não voto em Dilma simplesmente por ser gay. Além disso sou trabalhador, professor, e comparando os índices de todas as áreas no atual governo, com o que eram na época do governo anterior, é evidente que as coisas melhoraram muito.

Sou arco-íris, defendo a cidadania. Voto Dilma.

Defendo os direitos LGBT de forma plural. Sempre dialoguei com todas as posições políticas. Isso não quer dizer que não tenha posição como cidadão e como militante. Legitimamente, expressei esta opinião, sem usar de termos desrespeitosos ou agressivos.

Nunca gostei de armário em minha vida. Sempre assumo minhas posturas. Por exemplo, aos 14 anos falei para minha mãe que era (sou) gay… desde então nunca mais voltei para o armário.

Numa eleição presidencial, não poderia ficar alienado e ficar mofando num armário. Sou Dilma, sim.

Não desmereço nem um pouco José Serra, por quem tenho admiração. Mas no contexto geral e das alianças estabelecidas pelo Serra… eu li, vi e escutei e ponderei entre os dois projetos políticos, e optei por Dilma.

Afinal, não se pode negar o direito de ninguém de manifestar suas posições políticas. O próprio candidato do PSBD, José Serra, têm afirmado isso em seus pronunciamentos.

Gostaria de citar vários(as) reitores(as) de universidades federais, que defendem Dilma; as centrais sindicais, que estão com Dilma (à exceção da UGT, que apóia o Serra). Também tem a União Brasileira de Mulheres e a Confederação Nacional de Associações de Moradores, apoiando Dilma. Segundo alguns analistas, o Estadão e a Veja estariam apoiando Serra, e Carta Capital e Isto É estariam apoiando Dilma. Esses posicionamentos são todos legítimos, ou não.

Fiquei muito feliz quando o Serra falou no Jornal Nacional que é era favorável à união estável. Porém fiquei muitíssimo triste em ouvir claramente que “José Serra, aumentou ontem a polêmica sobre o projeto de lei que criminaliza a homofobia. Durante a 50ª Convenção Anual das Igrejas Assembleias de Deus do Paraná, em Foz do Iguaçu, o tucano prometeu vetar o texto caso seja aprovado no Senado, se for eleito. Para ele, o projeto, como foi aprovado na Câmara, pode tornar a pregação de pastores evangélicos contra a prática homossexual um crime ‘semelhante ao racismo’.”

Isto infelizmente é falta de informação.

Ao passo que Dilma disse que sancionará o projeto nos artigos que não ferirem o direito de livre expressão religiosa, que, pelo que entendo, não existem no projeto.

As eleições terminam para mim no dia 31 de outubro. Depois é arregaçar as mangas e fazer o trabalho de reivindicação através de uma ação de advocacy, com quem foi eleito. Estamos num país democrático e republicano.

Enquanto dirigente da ABGLT, no Paraná já estamos estabelecendo diálogo com Beto Richa (PSDB), em Santa Catarina com Colombo (DEM), no Rio Grande do Sul com Tarso (PT). Em São Paulo seguiremos o trabalho com Alckmin (PSDB), com Anastasia (PSDB) em MG, no Rio com Sérgio Cabral (PMDB) e assim por diante, para citar exemplos. Diálogo e negociação em política é tudo.

Quero pedir ao Diversidade Tucano para nos ajudar e colaborar com a Frente Parlamentar pela Cidadania LGBT.

Reafirmo meu voto e meu apoio a Dilma presidenta. E peço a todos/as os/as ativistas do movimento LGBT, das paradas LGBT, parentes e amigos de LGBT, que também votem e mobilizem apoio à Dilma.

Vou de Dilma. Com um avalista como o Lula, quem não vai dar crédito para a Dilma?

Toni Reis, presidente da ABGLT – Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (gestão 2010-2012)

VELHA MÍDIA NÃO QUER VER A BRIGA DOS TUCANOS

Do Blog O Escrivinhador

Violação da lógica

por Leandro Fortes, da Carta Capital

A mídia rebola para esconder o fato: a quebra do sigilo da turma de Serra é fruto de uma guerra tucana

Apesar do esforço em atribuir a culpa à campanha de Dilma Rousseff, o escândalo da quebra dos sigilos fiscais de políticos do PSDB e de parentes do candidato José Serra que dominou boa parte do debate no primeiro turno teve mesmo a origem relatada por CartaCapital em junho: uma disputa fratricida no tucanato.

Obrigada a abrir os resultados do inquérito após uma reportagem da Folha de S.Paulo com conclusões distorcidas, a Polícia Federal revelou ter sido o jornalista Amaury Ribeiro Júnior, então a serviço do jornal O Estado de Minas, que encomendou a despachantes de São Paulo a quebra dos sigilos. O serviço ilegal foi pago. E há, como se verá adiante, divergências nos valores desembolsados (o pagamento­ ­teria ­variado, segundo as inúmeras versões, de 8 mil a 13 mil reais).

Ribeiro Júnior prestou três depoimentos à PF. No primeiro, afirmou que todos os documentos em seu poder haviam sido obtidos de forma legal, em processos públicos. Confrontado com as apurações policiais, que indicavam o contrário, foi obrigado nos demais a revelar a verdade. Segundo contou o próprio repórter, a encomenda aos despachantes fazia parte de uma investigação jornalística iniciada a pedido do então governador de Minas Gerais, Aécio Neves, que buscava uma forma de neutralizar a arapongagem contra ele conduzida pelo deputado federal e ex-delegado Marcelo Itagiba, do PSDB. Itagiba, diz Ribeiro Júnior, agiria a mando de Serra. À época, Aécio disputava com o colega paulista a indicação como candidato à Presidência pelo partido.

Ribeiro Júnior disse à PF ter sido escalado para o serviço diretamente pelo diretor de redação do jornal mineiro, Josemar Gimenez, próximo à irmã de Aécio, Andréa Neves. A apuração, que visava levantar escândalos a envolver Serra e seus aliados durante o processo de privatização do governo Fernando Henrique Cardoso, foi apelidada de Operação Caribe. O nome sugestivo teria a ver com supostas remessas ilegais a paraísos fiscais.

Acuado por uma investigação tocada por Itagiba, chefe da arapongagem de Serra desde os tempos do Ministério da Saúde, Aécio temia ter a reputação assassinada nos moldes do sucedido com Roseana Sarney, atual governadora do Maranhão, em 2002. Naquele período, a dupla Itagiba-Serra articulou com a Polícia Federal a Operação Lunus, em São Luís (MA), que flagrou uma montanha de dinheiro sujo na empresa de Jorge Murad, marido de Roseana, então no PFL. Líder nas pesquisas, Roseana acabou fora do páreo após a imagem do dinheiro ter sido exibida diuturnamente nos telejornais. Serra acabou ungido a candidato da aliança à Presidência, mas foi derrotado por Lula. A família Sarney jamais perdoou o tucano pelo golpe.

 

Influente nos dois mandatos do irmão, Andréa Neves foi, por sete anos, presidente do Serviço Voluntário de Assistência Social (Servas) de Minas Gerais, cargo tradicional das primeiras-damas mineiras, ocupado por ela por conta da solteirice de Aécio. Mas nunca foi sopa quente ou agasalho para os pobres a vocação de Andréa. Desde os primeiros dias do primeiro mandato do irmão, ela foi escalada para intermediar as conversas entre o Palácio da Liberdade e a mídia local. Virou coordenadora do Grupo Técnico de Comunicação do governo, formalmente criado para estabelecer as diretrizes e a execução das políticas de prestação de contas à população. Suas relações com Gimenez se estreitaram.

Convenientemente apontado agora como “jornalista ligado ao PT”, Ribeiro Júnior sempre foi um franco-atirador da imprensa brasileira. E reconhecido.­ Aos 47 anos, ganhou três prêmios Esso e quatro vezes o Prêmio Vladimir Herzog, duas das mais prestigiadas premiações do jornalismo nativo. O repórter integra ainda o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos e é um dos fundadores da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). Entre outros veículos, trabalhou no Jornal do Brasil, O Globo e IstoÉ. Sempre se destacou como um farejador de notícia, sem vínculo com políticos e partidos. Também é reconhecido pela coragem pessoal. Nunca, portanto, se enquadrou no figurino de militante.

Em 19 de setembro de 2007, por exemplo, Ribeiro Júnior estava em um bar de Cidade Ocidental, em Goiás, no violento entorno do Distrito Federal, para onde havia ido a fim de fazer uma série de reportagens sobre a guerra dos traficantes locais. Enquanto tomava uma bebida, foi abordado por um garoto de boné, bermuda, casaco azul e chinelo com uma arma em punho. O jornalista pulou em cima do rapaz e, atracado ao agressor, levou um tiro na barriga. Levado consciente ao hospital, conseguiu se recuperar e, em dois meses, estava novamente a postos para trabalhar no Correio Braziliense, do mesmo grupo controlador do Estado de Minas, os Diários Associados. Gimenez acumula a direção de redação dos dois jornais.

Depois de baleado, Ribeiro Júnior, contratado pelos Diários Associados desde 2006, foi transferido para Belo Horizonte, no início de 2008, para sua própria segurança. A partir de então, passou a ficar livre para tocar a principal pauta de interesse de Gimenez: o dossiê de contrainformação encomendado para proteger Aécio do assédio da turma de Serra. O jornalista tinha viagens e despesas pagas pelo jornal mineiro e um lugar cativo na redação do Correio em Brasília, inclusive com um telefone particular. Aos colegas que perguntavam de suas rápidas incursões na capital federal, respondia, brincalhão: “Vim ferrar com o Serra”.

Na quarta-feira 20, por ordem do ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto, a cúpula da PF foi obrigada a se movimentar para colocar nos eixos a história da quebra de sigilos. A intenção inicial era só divulgar os resultados após o término das eleições. O objetivo era evitar que as conclusões fossem interpretadas pelos tucanos como uma forma de tentar ajudar a campanha de Dilma Rousseff. Mas a reportagem da Folha, enviezada, obrigou o governo a mudar seus planos. E precipitou uma série de versões e um disse não disse, que acabou por atingir o tucanato de modo irremediável.

Em entrevista coletiva na quarta-feira 20, o diretor-geral da PF, Luiz Fernando Corrêa, e o delegado Alessandro Moretti, da Divisão de Inteligência Policial (DIP), anunciaram não existir relação entre a quebra de sigilo em unidades paulistas da Receita Federal e a campanha presidencial de 2010. De acordo com Moretti, assim como constou de nota distribuída aos jornalistas, as provas colhidas revelaram que Ribeiro Júnior começou a fazer levantamento de informações de empresas e pessoas físicas ligadas a tucanos desde o fim de 2008, por conta do trabalho no Estado de Minas. A informação não convenceu boa parte da mídia, que tem arrumado maneiras às vezes muito criativas de manter aceso o suposto elo entre a quebra de sigilo e a campanha petista.

Em 120 dias de investigação, disse o delegado Moretti, foram ouvidas 37 testemunhas em mais de 50 depoimentos, que resultaram nos indiciamentos dos despachantes Dirceu Rodrigues Garcia e Antonio Carlos Atella, além do office-boy Ademir Cabral, da funcionária do Serpro cedida à Receita Federal Adeildda dos Santos, e Fernando Araújo Lopes, suspeito de pagar à servidora pela obtenção das declarações de Imposto de Renda. Ribeiro Júnior, embora tenha confessado à PF ter encomendado os do­cumentos, ainda não foi indiciado. Seus advogados acreditam, porém, que ele não escapará. Um novo depoimento do jornalista à polícia já foi agendado.
De acordo com a investigação, a filha e o genro do candidato do PSDB, Verônica Serra e Alexandre Bourgeois, tiveram os sigilos quebrados na delegacia da Receita de Santo André, no ABC Paulista. Outras cinco pessoas, das quais quatro ligadas ao PSDB, tiveram o sigilo violado em 8 de outubro de 2009, numa unidade da Receita em Mauá, também na Grande São Paulo. Entre elas aparecem o ex-ministro das Comunicações do governo Fernando Henrique Cardoso, o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, e Gregório Preciado, ex-sócio de Serra. O mesmo ocorreu em relação a Ricardo Sérgio de Oliveira, ex-diretor do Banco do Brasil e tesoureiro de campanhas de Serra e FHC.

Segundo dados da PF, todas as quebras de sigilo ocorreram entre setembro e outubro de 2009. As informações foram utilizadas para a confecção de relatórios, e todas as despesas da ação do jornalista, segundo o próprio, foram custeadas pelo jornal mineiro. Mas o repórter informou aos policiais ter disposto de 12 mil reais, em dinheiro, para pagar pelos documentos – 8,4 mil reais, segundo Dirceu Garcia – e outras despesas de viagem e hospedagem. Garcia revelou ao Jornal Nacional, da TV Globo, na mesma quarta 20, ter recebido 5 mil reais de Ribeiro Júnior, entre 9 e 19 de setembro passado, como “auxílio”. A PF acredita que o “auxílio” é, na verdade, uma espécie de suborno para o despachante não confessar a quebra ilegal dos sigilos.
A nota da PF sobre a violação fez questão de frisar que “não foi comprovada sua utilização em campanha política”, base de toda a movimentação da mídia em torno de Ribeiro Júnior desde que, em abril, ele apareceu na revista Veja como integrante do tal “grupo de inteligência” da pré-campanha de Dilma Rousseff. Embora seja a tese de interesse da campanha tucana e, por extensão, dos veículos de comunicação engajados na candidatura de Serra, a ligação do jornalista com o PT não chegou a se consumar e é um desdobramento originado da encomenda feita por Aécio.

A vasta apuração da Operação Caribe foi transformada em uma reportagem jamais publicada pelo Estado de Minas. O material, de acordo com Ribeiro Júnior, acabou por render um livro que ele supostamente pretende lançar depois das eleições. Intitulado Os Porões da Privataria, a obra pretende denunciar supostos esquemas ilegais de financiamento, lavagem de dinheiro e transferência de recursos oriundos do processo de privatização de estatais durante o governo FHC para paraísos fiscais no exterior. De olho nessas informações, e preocupado com “espiões” infiltrados no comitê, o então coordenador de comunicação da pré-campanha de Dilma, Luiz Lanzetta, decidiu procurar o jornalista.

Lanzetta conhecia Ribeiro Júnior e também sabia que o jornalista tinha entre suas fontes notórios arapongas de Brasília. Foi o repórter quem intermediou o contato de Lanzetta com o ex-delegado Onézimo Souza e o sargento da Aeronáutica Idalberto Matias de Araújo, o Dadá. O quarteto encontrou-se no restaurante Fritz, localizado na Asa Sul da capital federal, em 20 de abril. Aqui, as versões do conteú­do do convescote divergem. Lanzetta e Ribeiro Júnior garantem que a intenção era contratar Souza para descobrir os supostos espiões. Segundo o delegado, além do monitoramento interno, a dupla queria também uma investigação contra Serra.

O encontro no Fritz acabou por causar uma enorme confusão na pré-campanha de Dilma e, embora não tenha resultado em nada, deu munição para a oposição e fez proliferar, na mídia, o mito do “grupo de inteligência” montado para fabricar dossiês contra Serra. A quebra dos sigilos tornou-se uma obsessão do programa eleitoral tucano, até que, ante a falta de dividendos eleitorais, partiu-se para um alvo mais eficiente: os escândalos de nepotismo a envolver a então ministra da Casa Civil Erenice Guerra.

O tal “grupo de inteligência” que nunca chegou a atuar está na base de outra disputa fratricida, desta vez no PT. De um lado, Fernando Pimentel, ex-prefeito de Belo Horizonte que indicou a empresa de Lanzetta, a Lanza Comunicações, para o trabalho no comitê eleitoral petista. Do outro, o deputado estadual por São Paulo Rui Falcão, interessado em assumir maior protagonismo na campanha de Dilma Rousseff. Essa guerra de poder e dinheiro resultou em um escândalo à moda desejada pelo PSDB.

Em um dos depoimentos à polícia, Ribeiro Júnior acusa Falcão de ter roubado de seu computador as informações dos sigilos fiscais dos tucanos. Segundo o jornalista, o deputado teria mandado invadir o quarto do hotel onde ele esteve hospedado em Brasília. Também atribuiu ao petista o vazamento de informações a Veja. O objetivo de Falcão seria afastar Lanzetta da pré-campanha e assumir maiores poderes. À Veja, Falcão teria se apresentado como o lúcido que impediu que vicejasse uma nova versão dos aloprados, alusão aos petistas presos em 2006 quando iriam comprar um dossiê contra Serra. Em nota oficial, o parlamentar rebateu as acusações. Segundo Falcão, Ribeiro Júnior terá de provar o que diz.

As conclusões do inquérito não satisfizeram a mídia. Na quinta 21, a tese central passou a ser de que Ribeiro Júnior estava de férias – e não a serviço do jornal – quando veio a São Paulo buscar a encomenda feita ao despachante. E que pagou a viagem de Brasília à capital paulista em dinheiro vivo. Mais: na volta das férias, o jornalista teria pedido demissão do Estado de Minas sem “maiores explicações”.

É o velho apego a temas acessórios para esconder o essencial. Por partes: A retirada dos documentos em São Paulo é resultado de uma apuração, conduzida, vê-se agora, por métodos ilegais, iniciada quase um ano antes. Não há dúvidas de que o diá­rio mineiro pagou a maioria das despesas do repórter para o levantamento das informações. Ele não é filiado ao PT ou trabalhou na campanha ou na pré-campanha de Dilma.

Ribeiro Júnior pediu demissão, mas não de forma misteriosa como insinua a imprensa. O pedido ocorreu por causa da morte de seu pai, dono de uma pizzaria e uma fazenda em Mato Grosso. Sem outros parentes que ­pudessem cuidar do negócio, o jornalista decidiu trocar a carreira pela vida de pequeno empresário. Neste ano, decidiu regressar ao jornalismo. Hoje ele trabalha na TV Record.

Quando o resultado do inquérito veio à tona, a primeira reação do jornal mineiro foi soltar uma nota anódina que nem desmentia nem confirmava o teor dos depoimentos de Ribeiro Júnior. “O Estado de Minas é citado por parte da imprensa no episódio de possível violação de dados fiscais de pessoas ligadas à atual campanha eleitoral. Entende que isso é normal e recorrente, principalmente às vésperas da eleição, quando os debates se tornam acalorados”, diz o texto. “O jornalista Amaury Ribeiro Júnior trabalhou por três anos no Estado de Minas e publicou diversas reportagens. Nenhuma, absolutamente nenhuma, se referiu ao fato agora em questão. O Estado de Minas faz jornalismo.”

No momento em que o assunto tomou outra dimensão, a versão mudou bastante. Passou a circular a tese de que Ribeiro Júnior agiu por conta própria, durante suas férias. Procurado por CartaCapital, Gimenez ficou muito irritado com perguntas sobre a Operação Caribe. “Não sei de nada, isso é um absurdo, não estou lhe dando entrevista”, disse, alterado, ao telefone celular. Sobre a origem da pauta, foi ainda mais nervoso. “Você tem de perguntar ao Amaury”, arrematou. Antes de desligar, anunciou que iria divulgar uma nova nota pública, desta vez para provar que Ribeiro Júnior, funcionário com quem manteve uma relação de confiança profissional de quase cinco anos, não trabalhava mais nos Diários Associados quando os sigilos dos tucanos foram quebrados na Receita.

A nota, ao que parece, nem precisou ser redigida. Antes da declaração de Gimenez a CartaCapital, o UOL, portal na internet do Grupo Folha, deu guarida à versão. Em seguida, ela se espalhou pelo noticiário. Convenientemente.

O que Gimenez não pode negar é a adesão do Estado de Minas ao governador Aécio Neves na luta contra a indicação de Serra. Ela se tornou explícita em 3 de fevereiro deste ano, quando um editorial do jornal intitulado Minas a Reboque, Não! soou como um grito de guerra contra o tucanato paulista. No texto, iniciado com a palavra “indignação”, o diário partiu para cima da decisão do PSDB de negar as prévias e impor a candidatura de Serra contra as pretensões de Aécio. Também pareceu uma resposta às insinuações maldosas de um articulista de O Estado de S. Paulo dirigidas ao governador de Minas.

“Os mineiros repelem a arrogância de lideranças políticas que, temerosas do fracasso a que foram levados por seus próprios erros de avaliação, pretendem dispor do sucesso e do reconhecimento nacional construído pelo governador Aécio Neves”, tascou o editorial. Em seguida, desfiam-se as piores previsões possíveis para a candidatura de Serra: “Fazem parecer obrigação do líder mineiro, a quem há pouco negaram espaço e voz, cumprir papel secundário, apenas para injetar ânimo e simpatia à chapa que insistem ser liderada pelo governador de São Paulo, José Serra”. E termina, melancólico: “Perplexos ante mais essa demonstração de arrogância, que esconde amadorismo e inabilidade, os mineiros estão, porém, seguros de que o governador ‘político de alta linhagem de Minas’ vai rejeitar papel subalterno que lhe oferecem. Ele sabe que, a reboque das composições que a mantiveram fora do poder central nos últimos 16 anos, Minas desta vez precisa dizer não”.

Ao longo da semana, Aécio desmentiu mais de uma vez qualquer envolvimento com o episódio. “Repudio com veemência e indignação a tentativa de vinculação do meu nome às graves ações envolvendo o PT e o senhor Amaury Ribeiro Jr., a quem não conheço e com quem jamais mantive qualquer tipo de relação”, afirmou. O senador recém-eleito disse ainda que o Brasil sabe quem tem o DNA dos dossiês, em referência ao PT.

Itagiba, derrotado nas últimas eleições, também refutou as acusações de que teria comandado um grupo de espionagem com o intuito de atingir Aécio Neves, no meio da briga pela realização de prévias no PSDB. “Não sou araponga. Quando fui delegado fazia investigação em inquérito aberto, não espionagem, para pôr na cadeia criminosos do calibre desses sujeitos que formam essa camarilha inscrustada no PT.”

O INTERESSE EXCLUSIVAMENTE ECONÔMICO DO PSDB SOBRE A FLORESTA BRASILEIRA

Ontem, o Partido Verde (PV) se declarou “independente” no segundo turno. Por “independente” muitos entenderam uma posição de neutralidade onde o partido decidiu por não apoiar nenhum dos dois candidatos pra o segundo turno nas eleições para presidente da República. Contudo, se o PV se manteve neutro, políticos profissionais do partido, como Gabeira, desde o primeiro turno já demonstravam apoio àqueles que escolheram como seus pares.

Pela característica “ecológica” atribuída ao PV e pela história de militância da sua candidata a presidência no primeiro turno, Marina Silva, nos parece contraditório que alguém seguindo a linha ecológica do PV possa apoiar Serra, candidato do PSDB e ligado a bancada ruralista, onde o discurso que diz ter “em mente a necessidade de preservar o meio ambiente e de ter também incentivos econômicos para o desenvolvimento do país”, na prática, suprime a preservação a favor dos interesses neoliberais de grandes empresas multinacionais, desta forma, estagnando o desenvolvimento econômico interno do país em prol do grande capital.

A bancada ruralista nos mostra que o discurso PSDBista de preservação e de uso sustentável da floresta não surge como revelação da real prática dos que o pronunciam, mas ao contrário, como um engodo que pretende fazer com que a efetividade surja do discurso misticamente. “Os deputados e senadores que compõe a bancada ruralista representam interesses dos grandes proprietários rurais, do agronegócio e de empresas ligadas a esse setor. Atuam sistematicamente para desregulamentar a legislação ambiental, propondo, inclusive, a revogação do Código Florestal. Eles agem sistematicamente contra os direitos territoriais de indígenas e quilombolas” (texto completo aqui).

Neste sentido, com efeito, o posicionamento de políticos filiados ao PV de apoiar Serra, além de contraditório, também passa a ser uma posição contrária ao que a história de Marina Silva, a respeito do meio ambiente como meio de desenvolvimento econômico interno sustentável, sempre trabalhou. Serra nunca escondeu sua ligação com os ruralistas e estes jamais esconderam suas intenções em fazer mudanças no Código Florestal em prol de interesses próprios. O que inclusive demarca uma “guerra” entre ruralistas e ambientalistas.

Como diz o jornalista Flávio Aguiar, “É bom lembrar também que Serra ganhou nos estados do chamado “espinhaço do agro-business”, que vai de Santa Catarina a Rondônia. Isso permite uma bela previsão do que vai ser o seu governo, muito mais do que frases sem cabeça nem pé”. Assim como é bom sabermos que “Numa ação ilegal, a senadora Kátia Abreu, presidente da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA), enviou ofícios aos latifundiários de todo o país solicitando doações para os candidatos “comprometidos com o setor”. Em anexo, a demo enviou também um boleto bancário para depósito na conta do Diretório Estadual do DEM. A campanha financeira, que visa ajudar José Serra e os candidatos ruralistas, faz parte do movimento batizado de ‘Agricultura Forte’” (texto completo aqui).

Em 2006, em meio à campanha para a reeleição do presidente Lula, foi gerada uma polêmica sobre a Lei de Gestão de Florestas Públicas, onde se afirmava que o governo na gestão Lula, através de Marina Silva, iria privatizar nossas florestas, com claríssimos apelos a campanha de Alkimin. A Lei de Gestão de Florestas Públicas, quando sancionada, foi bem vista por ambientalistas e Marina Silva, na época Ministra do Meio Ambiente, disse que “Esta lei não é uma panacéia, mas mais um instrumento para tentar manter as florestas de pé por meio do casamento entre a exploração econômica sustentável e a conservação”, ressaltando, entre outros fatores da Lei, a importância do novo marco legal para Amazônia em disponibilizar o uso racional e legal dos recursos naturais.

Nesta ocasião, escrevemos um texto onde explicávamos o quanto o PSDB e partidos ligados a ele se esforçaram para uma privatização da Amazônia através de vários atos que se sustentavam no discurso de tirar o Brasil da condição de país subdesenvolvido. Como podemos perceber, o Brasil traçou um caminho independente e hoje se apresenta como um país emergente, mas livre interna e externamente, com desenvolvimento econômico combinado com políticas públicas que geram também desenvolvimento social, durante as duas gestões do governo Lula; projeto que ainda não está terminado, dado o atraso histórico e de dependência que o Brasil por muito tempo enfrentou e que agora produz sua própria saída. Projeto também que teve Dilma sempre ao lado como pessoa efetiva em seu exercício.

Reproduzimos, com algumas alterações, o texto abaixo que na época trazia como título “A privatização da Amazônia”.

Um dos principais interesses da proteção da Amazônia Brasileira, defendido pelas elites abastadas e partidos historicamente de direita, não diz respeito a uma preservação de cunho somente ambientalista e ecológica. Ao contrário, estes interesses sobre a Amazônia obedecem à lógica da economia de mercado global.

Dentro da rica biodiversidade amazônica existem “bancos genéticos” (assim chamados, devido a relação que a diversidade biológica presente na Amazônia Brasileira tem com a economia global em relação ao biomercado) de valores muito altos. Estes valores se encontram nas informações virtuais que podem ser manipuladas, modificadas e transformadas em laboratórios através das novas tecnologias da informação genética, como a biotecnologia.

Neste contexto a floresta não pode mais ser vista como algo puramente natural. A idéia de uma natureza intocada, livre de qualquer intervenção humana, constitui uma espécie de mito moderno, onde a atual expansão do capitalismo neoliberal e da economia de mercado global pode controlar e explorar a natureza a partir de preceitos preservacionistas e conservacionistas como estratégias políticas profissionais.

Além das modificações que a Amazônia sofreu devido ao uso das técnicas de manejo usado pelos nativos para sua subsistência, depois para fins comerciais, como a exploração da borracha entre 1840 e 1910 entre outros, a Amazônia Brasileira é transferida para a democracia representativa como dispositivo de lei.

Carlos Marés afirma que o Patrimônio Nacional só existe enquanto presente na natureza. Após sua retirada da natureza há a transferência de sua titularidade a outrem, as informações virtuais, elementos e componentes poderão ser usados no mercado global.
Esta transferência se dá quando a Amazônia Brasileira se torna passível de ter suas informações virtuais controladas por laboratórios farmacêuticos, transnacionais e pela economia de mercado capitalista global através de direitos de patentes, propriedade intelectual e industrial.

O projeto de privatização da Amazônia Brasileira sempre foi de interesse do capitalismo neoliberal, da lógica do mercado global e no caso do Brasil de uma pseudo-social-democracia defensora de uma modernidade a qualquer custo, mesmo quando tal modernidade coloca em perigo a soberania do país e todo a sua riqueza genética presente na biodiversidade amazônica. Este processo no Brasil esteve ligado, boa parte do tempo, diretamente com políticos do PSDB.

Em 1987, Washington “conclamou” Brasília a rever a legislação de patentes. O interesse dos Estados Unidos era começar a dominação de um mercado na época ainda emergente — o biomercado. Eles queriam a proteção de patentes para produtos e processos químicos e farmacêuticos. Como não houve uma rápida solução por parte do Brasil, os Estados Unidos impuseram sanções comerciais contra produtos tradicionalmente exportados para eles.

Já em 1989, Collor promete aprovar um código de propriedade industrial. Em 1871, a lei brasileira de Propriedade Industrial não concedia direito de patente para medicamentos, alimentos, químicos e ligas. Uma tentativa de lei de patenteamento de variedades vegetais fracassou em 1977, graças a uma campanha de professores e agrônomos desencadeada contra tal lei que ficou conhecida como “O Escândalo das Sementes”.

Após o impeachment de Collor, temendo novas sanções comerciais, foi feito o projeto Ney Lopes que era uma nova versão do Código prometido por Collor. Na verdade este projeto conciliava os interesses das transnacionais com a indústria local. Em contrapartida foi feita a “Emenda da Salvação Nacional”. O projeto Ney Lopes, de certa forma, estaria ligado e, talvez, até escrito, pela Interfarma, uma associação de laboratórios americanos e europeus interessados nas mudanças da legislação de patentes do Brasil. O real objetivo fixava-se na total liberdade das corporações transnacionais em não investir no Brasil se quisessem explorar uma patente.

A “Emenda da Salvação Nacional” repudiava tal objetivo e proibia o patenteamento de medicamentos, químicos e alimentos, se opunha ao patenteamento de seres vivos e reivindicavam lei separada para a biotecnologia. Ao lado do projeto Ney Lopes estavam partidos do centro-direita e alguns industriais; do lado da “Emenda” estava a esquerda (PT, PDT, PSB, PC do B), a conservadora associação de proprietários rurais UDR, ONG´s ambientais, a SBPC e a EMBRAPA. O projeto Ney Lopes tinha principalmente apoio do PFL (hoje DEM), Interfarma, da Câmara Americana do Comércio de São Paulo, Last But Not Least, da Embaixada Americana e grande parte da grande mídia brasileira.

Tudo em nome do progresso, da modernidade. O centro-direita da política profissional faria de tudo para ver o Brasil no exclusivo clube dos países do Primeiro Mundo, aparecendo em ranking de revistas que apóiam o desenvolvimento, desigual socialmente, da economia de mercado. Tanto que Collor e Fernando Henrique Cardoso eram defensores de um Brasil moderno que rompesse com o passado, mesmo se este rompimento colocasse em perigo um Patrimônio Nacional como a Amazônia Brasileira.

Fernando Henrique Cardoso, enquanto Ministro das Relações Exteriores disse: “Não podemos continuar agindo com mentalidade de subdesenvolvidos. Por exemplo, não vejo razão para não aprovarmos no Brasil uma legislação de patentes.” A revista VEJA, na época, vangloriou a oportunidade de adentrar-nos no mundo civilizado e sairmos de nossa condição de subdesenvolvidos que nos faz ser desonestos, irresponsáveis e aproveitadores; mas isto tudo terminaria, pois ataríamos o laço com a modernidade e os países de Primeiro Mundo concedendo as informações virtuais presentes na biodiversidade da floresta que ocupa cerca de 40% dos 8,5 milhões de quilômetros quadrados de florestas tropicais úmidas espalhadas pelo mundo.

Enfim, em 6 de maio de 1993 a nova lei de Propriedade Industrial foi aprovada. Conforme escrito por Laymert Garcia dos Santos: “A pressão de Washington surtiu efeito. A 6 de maio de 1993, um acordo de lideres partidários aprovou a nova lei de Propriedade Industrial. Medicamentos, alimentos, químicos e produtos e processos biotecnológicos agora podem ser patenteados quando relacionados com um processo industrial especifico concebido para um produto especifico; o monopólio de importação foi rejeitado. Na semana seguinte, o Ministro brasileiro das Relações Exteriores (FHC) contou ao responsável pelo comércio exterior da Casa Branca, Mickey Kanton que a nova lei ‘ atende a 85% das exigências da Comunidade Internacional’ e prometeu renegociar os pontos que pudessem ferir os interesses das empresas americanas”.

Como mencionou o presidente e na época candidato a reeleição em 2006, Luiz Inácio Lula da Silva, devemos deixar a posição que nos coloca com uma mentalidade colonizada. As questões a respeito da Amazônia Brasileira estão ligadas ao Mercado global, entretanto, é a forma que o governo brasileiro se relaciona com este mercado que pode determinar uma possível privatização ou não. No atual governo de Lula houve algo de extraordinário, no que respeita a lógica do mercado global: houve crescimento econômico acompanhado de desenvolvimento social. Já sobre o PSDB e seus aliados nada podemos dizer que se aproxime pelo menos um pouco disso, ao contrário, vimos o seu real interesse em constituir as condições necessárias para o processo de privatização da Amazônia Brasileira. Isto estar na memória do Brasil, uma vez que o passado não fica para trás, mas passa e coexiste com o presente.

(A fonte de todas as informações contidas neste texto encontram-se nos ensaios: “ A encruzilhada da política ambiental brasileira” e “Tecnologia, natureza e a ‘redescoberta’  do Brasil” do Doutor em Ciências da Informação(pela Paris VII) Laymert Garcia dos Santos, presentes em seu livro Politizar as novas tecnologias: O impacto sócio-técnico da informação digital e genética. São Paulo : Editora 34, 2003.)

DA DEMOCRACIA COMO PRÁXIS E DAS TRAPAÇAS DA LINGUAGEM CONSTITUÍDA

Imagine um boi. Certamente, a imagem que veio à sua imaginação foi o animal, com chifres, e cada qual que lê este texto imagina um pequeniníssino boi que cabe na sua imaginação. Agora, imagine a junção das letras B – O – I, e diga em voz alta. O que surgirá? A palavra Boi. Só aí, neste curto exercício, já temos três elementos. A palavra, a imagem, e o animal (objeto) propriamente dito. Cabe aqui a pergunta fatal: qual dos três você pode, devidamente abatido e preparado, comer?

A resposta é clara. O animal. Quem vive de mastigar imagens ou palavras, morre de fome.

O mesmo se dá com a democracia.

Há a palavra-democracia, esta que você facilmente decompõe e que conta com 10 palavras que juntas não dão conta do todo que é a palavra. Há a imagem-democracia. Essa é um pouco mais complicada, porque é mais fácil ver um boi – mesmo para a geração play do twitter e dos condomínios, que dissecam frango de granja nas aulas de ciências – do que ver uma democracia. Principalmente hoje em dia. Afinal, não tem mais nenhum grego, da época da democracia ateniense, vivo.

Esse terceiro item, o objeto, a democracia como corpo “físico”, só se corporifica na práxis. E dela, a gente só vê os efeitos. Um exemplo pode ser visto em Parintins, no Amazonas.

Alguns parintinenses votam em Arthur Neto, porque para ele, o atual senador do PSDB/AM é o grande responsável por empreendimentos que existem na cidade, como a praça digital, e que existirão, como a futura Cidade do Folclore, que será construída – se for – com dinheiro da Eletrobrás, via Lei Rouanet. Argumento inatacável.

Mas se o leitor polifônico disser que as emendas orçamentárias para tais empreendimentos não forem mais que obrigação do parlamentar, atividade inerente a esta função? Bem, o parintinense que defende o tucano dirá, com certa razão: “E os outros, que não fazem nem isso?”. A pergunta cabe, como crítica, a parlamentares honestos, como Praciano. Os outros, não contam.

Mas nada disso tem a ver com democracia. Porque se a democracia é o governo do povo, donde emana o poder soberano, então nem Arthur nem PSDB demonstraram ser democratas quando tiveram a chance.

Arthur, que já foi chefe da casa civil, vivia às boas com um governo nortefóbico, que semana sim, outra também, tentava acabar com a capenga Zona Franca de Manaus. Neste octênio triste, os investimentos no interior foram mirrados, poucos, quase nada mesmo. Isso sendo otimista. Arthur tinha ingerência, ou pelo menos esperava-se ter, já que o partido dele estava na presidência, e ele era o chefe da casa civil. O que ganharam Parintins, Lábrea, Urucará, Boa Vista do Ramos, Nhamundá, São Sebastião do Uatumã, Ipixuna, dentre muitos, nesse tempo?

Veio o governo Lula, que carrega traços da democracia, enquanto corpo, para além da palavra e da imaginação. Aí, Arthur se zanga. Diz que vai bater em Lula, semana sim, outra também, ameaça o sapo barbudo de mil desatinos, passa anos – com a ajuda da direita e da mídia midiocrizada – atacando o governo que trouxe o Bolsa Família, o Luz Para Todos, e mais que isso, abriu as portas do Palácio do Planalto para os prefeitos de todos os mais de cinco mil municípios brasileiros. Incluindo aqueles que governavam sob a bandeira de PSDB e DEM.

Arthur, embora ameaçasse Lula diariamente, com destaque no jornal global, sob as bênçãos do casal Bonner-Simpson, nunca teve dificuldades para aprovar uma emenda orçamentária, incluindo aquelas que beneficiaram a cidade de Parintins, e que agora trazem dividendos eleitorais para o tucano.

Porque, para o governo Lula, PSDB, DEM, Arthur, estão em segundo plano, quando o assunto é investir e governar para o desenvolvimento econômico e social. Mesmo que, ali à frente, esteja uma eleição, e haja um candidato da oposição que colocará seu nome na placa. Lula, que não é otário, sabe o que o povo sabe.

Daí, neste ato simples de colocar acima da questão partidária e eleitoral, a política como promoção do Bem Comum, estar evidente a Democracia enquanto corpo afetivo. Fosse ela o boi de nosso exemplo primeiro, poderíamos assá-la e comê-la, pois que é real. Não sendo o boi, mas sendo a democracia, podemos sentir o quanto ela auxilia na modificação das nossas condições de existência. E até Arthur, que não é democrata, mas que se diz, deve à democracia do governo Lula, a sua eleição. Se ela vir a ocorrer, claro.

E você, eleitor? Seu voto é imagem, palavra ou objeto efetivo?

O MEDO FAMILIAL DA VEREADORA DO PSDB (FRASE DO DIA)

“Você confiaria seus filhos para Dilma de Babá?”

A pérola da moral de classe é da vereadora PSDBista, Mara Gabrilli, que demonstrou todo o ressentimento do partido direitista.

Mamãe, papai, filhinho, meu pirão primeiro, para meu vizinho vale tudo, da minha porta para dentro, só o que me é vantajoso, na ordem do se dar bem, que é bem próxima aos partidos que carregam os anseios da auto-alcunhada elite brasileira. Os partidos, aliás – à exceção do PT, embora existam dentro deste segmentos capturados por esta subjetividade – seguem a mesma ordem familial: o culto à uma ordem moral tanática, a filiação como perpetuação dos valores da classe que se pretende dominante. Complexo de Cronos, consumindo como um buraco negro a produção intensiva e odiando tudo aquilo que não é imagem-clichê de suas reificações.

Daí o medo, como linguagem primária. O medo da vereadora em confiar seus rebentos a alguém que não comunga suas crenças e valores, é o mesmo da atriz Regina Duarte, que não encontrou em Lula um simulacro dos valores professados pelos seus patrões globais.

Medo de que seus filhos não sejam apenas apêndices natimortos, fiéis seguidores de um sistema de valores que depende da submissão e da violentação, pais da discriminação, do racismo, da homofobia, da xenofobia, da dor, da fome, e de todos os flagelos sociais.

Medo de que o seu ‘campeão’ ou a sua ‘princesa’ desvie a trajetória prevista pela tradição familiar, que produza um só signo que não esteja de acordo com o contrato familiar.

Medo, ainda, de que a babá, a empregada, ultrapassem a sua condição de acessórios da moral familiar, que deixe de exercer passivamente suas funções pedagógicas como objetos de propagação da discriminação e dos valores da classe decadente (inclusive sexual), e se tornem educadoras para a produção de outros valores, de uma outra moral.

Nada de comum-unidade, nada de produção de afetos e percepções, nada de transbordar outras formas de sentir, nada de liberdade. A frase da vereadora é a expressão de um modo de existir que estabelece um simulacro de relação, do qual o medo é apenas uma expressão. O medo do pai/mãe que ensina ao filho que o outro é sempre o inimigo, que a rua é sempre o território da guerra, e que o mundo é a origem da dor.

O medo que não interessa à democracia.