UM TOQUE A QUEM ESTÁ EM CIMA DO MURO NESSE BRASIL PROTESTANTE

O brasileiro está mostrando que sabe fazer protesto tão bem quando outros países ao longo da história. Mas muita gente, e muito analista político está demonstrando que não sabe fazer a leitura política desses protestos. Protesto não é casamento, não é batizado, não tem roteiro, é caos, é sujo, tem violência, tem quebra-quebra de propriedade, e tem partido de direita e de esquerda querendo se aproveitar e surfar nessa onda. A sociedade não é asséptica, não é robótica, é orgânica, viva, movimenta-se dentro do plano de consistência, e quem protesta não está nem aí para normas, leis, moral – caso contrário, não seria protesto. Não se mudam as coisas sem contestação. Os protestantes quebraram propriedades? Mas a propriedade é o cerne do sistema econômico que os oprime! Desrespeitaram autoridades? Mas há quanto tempo – e pacificamente – estas autoridades deixaram de ouvi-los? Buscam uma utopia impossível? Bem, não há mapa para a utopia. Ela, aliás, não é uma linha de chegada, mas um ponto de partida. Parte-se da utopia para construir outra coisa, quando não cabemos mais naquilo que ainda é. Mais que tentar entender e analisar, neste momento é preciso participar. Tem militante de extrema direita levantando cartaz? Levante o seu, com suas idéias! No mínimo, haverá um espaço para o diálogo entre duas pessoas que caminham na mesma direção, com ideias diferentes. A mudança começa na palavra, no contato, ou como nos dirá melhor o filósofo Spinoza, no encontro. Mas não se faz sozinha. Portanto, não pergunte onde vão dar todos estes protestos, mas qual a sua participação nos rumos que ele vai tomar.

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Mais de 5 mil pessoas participaram, em Brasília, da marcha contra a homofobia

Da Agência Brasil

Brasília – Mais de 5 mil pessoas, segundo os organizadores, participaram hoje (18), na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, da 2º Marcha Nacional Contra a Homofobia e pela aprovação do Projeto de Lei 122, que criminaliza a homofobia. O evento foi organizado pela Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais ( ABGLT). O objetivo da passeata foi chamar atenção das autoridades e da opinião pública para a realidade de opressão, marginalização, discriminação e exclusão social vivida pelos homossexuais em todo o mundo.

” Esperamos que o Congresso aprove essa lei [que criminaliza a homofobia] que o Supremo Tribunal Federal (STF) já aprovou. Essa marcha é importante para a população fazer pressão no governo. Vamos colorir o Congresso e trazer mais paz e amor para essa classe social,” disse o deputado federal Jean Wyllys (P-SOL-RJ).

Segundo o presidente do Grupo Elos LGBT e coordenador da marcha, Evaldo Amorim, os homossexuais querem igualdade de direitos, fim da discriminação, fim da violência, cidadania plena, reconhecimento social e respeito. ” Somos milhões de brasileiras e brasileiros, ainda excluídos da democracia e sem nossos direitos garantidos pelas leis do país. Com essa manifestação queremos chamar atenção da sociedade e do Estado para que não mais permitam esse tipo de preconceito aos homossexuais”, declarou.

Para Jocélio Ferreira, de 27 anos, integrante do Movimento LGBT do Pará, a marcha dá visibilidade para a luta contra todos os tipos de preconceito. “A população é muito preconceituosa. Nós queremos com essa passeata mostrar para a sociedade que nós, homossexuais, somos iguais a todos, só temos opções diferentes e, garanto, somos muito mais felizes do que muitas pessoas heterossexuais,” afirmou.

A concentração começou de manhã em frente à Cadetral Metropolitana de Brasília, um dos principais monumentos do arquiteto Oscar Niemeyer. Depois de um ato no gramado em frente ao Congresso Nacional, os participantes da marcha deram um abraço coletivo na sede do Supremo Tribunal Federal, na Praça dos Três Poderes, para agradecer a decisão da Corte de reconhecer como legal a união estável homossexual.

Edição: Vinicius Doria

Governo da Síria anuncia medidas para acalmar tensão no país

Do Portal RFI
Manifestantes reunidos nas proximidades da mesquita de al-Omari ao sul da cidade de Deraa, no dia 22 de março.  .

Manifestantes reunidos nas proximidades da mesquita de al-Omari ao sul da cidade de Deraa, no dia 22 de março. .

REUTERS/Khaled al-Hariri

Milhares de pessoas desfilaram nesta quinta-feira pelas ruas de Deraa, cidade ao sul da capital Damasco onde uma forte repressão das força-de-ordem contra uma manifestação de jovens provocou a morte de pelo menos 37 pessoas, segundo fontes de um hospital local. Ongs de defesa dos direitos humanos afirmam que número de vítimas pode passar de cem. Conselheira do presidente Bachad al-Assad anunciou a adoção de  medidas para atender revindicações dos opositores ao regime.

“As reivindicações da população de Deraa estão sendo analisadas… elas são justificadas. Decisões importantes em todos os níveis serão tomadas daqui para a frente”, afirmou Bousaïna Chaabane, conselheira do presidente Bachar Al-Assad durante entrevista coletiva à imprensa.

Segundo organizações de defesa dos direitos humanos, pelo menos 100 pessoas foram mortas nesta quarta-feira por tiros de policiais em Deraa, cidade ao sul do país que é o reduto de constestação contra o governo da Síria.

Mais de 20 mil pessoas participaram hoje dos funerais na cidade que tem cerca de 75 mil habitantes e fica a 100 quilômetros ao sul da capital, Damasco.

Os moradores, que se dirigiam à mesquita de al-Omari em direção ao cemitério, gritavam: “pela nossa alma e nosso sangue, nós vamos nos sacrificar por você, mártir”.

Segundo militantes de Ongs de defesa direitos humanos, a cidade vai demorar até uma semana para enterrar todas as vítimas. Nesta quinta-feira as forças-de-ordem continuaram a prender diversos manifestantes em Deraa.

As autoridades sírias disseram que os conflitos foram provocados por um “grupo armado”, acusado também de ter matado 4 pessoas e estocar armas na mesquisa de al-Omari, local de concentração dos protestos. O regime sírio também acusa “grupos estrangeiros” de divulgar mentiras e apelar através de mensagens via telefone celular, enviadas em sua maioria de Israel, para que os sírios promovam distúrbios.

Na rede social Facebook, uma página batizada de “a revolução síria contra Bachar el-Assad 2011”, convoca população para uma manifestação nesta sexta-feira por todo o país.

“Nós fazemos um apelo para que o povo sírio se manifeste e anuncie sua recusa diante da injustiça e da repressão em Deraa e em toda a Síria. Vamos continuar com nossas manifestações pacíficas até que nossos objetivos de liberdade e dignidade sejam atingidos”, indicou um comunicado publicado na página.

Depois da Tunísia, Egito e Líbia, a onda de revolta popular dos cidadãos contra seus governos chegou à Síria, onde desde o dia 15 de março teve início uma mobilização popular para pedir reformas no país, governado com mão de ferro pelo regime baasista há mais de 40 anos.

O governo britânico enviaram mensagem nesta quinta-feira às autoridades da Síria para que respeitem o direito da população de se manifestar. “Pedimos ao governo sírio respeitar o direito de seu povo manifestar pacificamente e a responder às aspirações legítimas (do povo)”, declarou o ministro britânico das Relações Exteriores, Wiliam Hague diante da Câmara dos Comuns, em Londres.

“Pedimos também à grande moderação de todos, incluindo as forças de segurança sírias durante as manifestações que devem acontecer amanhã (sexta-feira)”, acrescentou.

Para o Egito, este é o milagre da Praça Tahrir

Direto do Diário Liberdade

Artigo de Slavoj Zizek [Tradução do Diário Liberdade]

Não há espaço para acordo. Ou o edifício inteiro de Mubarak cai, ou a insurreição é traída.

Não há como alguém deixar de notar a natureza “miraculosa” dos eventos no Egito: aconteceu algo que poucos previram, violando as opiniões dos especialistas – como se a revolta não fosse simplesmente o resultado de causas sociais, mas a intervenção de um agente misterioso que nós poderíamos chamar, de uma forma platônica, de a ideia eterna da liberdade, justiça e dignidade.

A insurreição foi universal: foi imediatamente possível, para todos nós ao redor do mundo, nos identificarmos com ela, reconhecermos sobre o que se tratava, sem a necessidade de nenhuma análise cultural das características da sociedade egípcia. Em contraste com a revolução de Khomeini no Irã (na qual os esquerdistas tiveram que contrabandear sua mensagem para dentro do quadro predominantemente islâmico), aqui o quadro é claramente aquele de um chamado secular e universal por liberdade e justiça, tanto que a Irmandade Muçulmana teve que adotar a linguagem das demandas seculares.

O momento mais sublime ocorreu quando muçulmanos e cristãos cópticos se envolveram numa oração comum na Praça Tahrir do Cairo, cantando “Nós Somos Um!” – providenciando a melhor resposta para a sectária violência religiosa. Aqueles neoconservadores que criticam o multiculturalismo em nome dos valores universais da liberdade e da democracia agora estão enfrentando o seu momento da verdade: você quer liberdade e democracia universais? É isto o que as pessoas estão demandando no Egito, então por que os neoconservadores estão intranquilos? É porque os protestantes no Egito mencionam liberdade e dignidade com o mesmo fôlego que pedem justiça social e econômica?

Desde o início, a violência dos protestantes tem sido puramente simbólica, um ato de desobediência civil radical e coletiva. Eles suspenderam a autoridade do Estado – não foi apenas uma libertação interior, mas um ato social de quebra das correntes da servidão. A violência física foi cometida pelos capangas contratados de Mubarak, que entraram na Praça Tahrir em cavalos e camelos, batendo nas pessoas. O que a maioria dos protestantes fez foi se defender.

Embora combativa, a mensagem dos manifestantes não tem sido de matança. A demanda era para que Mubarak partisse, abrindo assim o espaço para a liberdade no Egito, uma liberdade da qual ninguém esteja excluído – o chamado dos manifestantes para o exército, e mesmo para a odiada polícia, não era “morte para vocês!”, mas “nós somos irmãos! Juntem-se a nós!”. Esta característica claramente distingue uma demonstração emancipatória de uma populista de direita: embora a mobilização de direita proclame a unidade orgânica do povo, é uma unidade sustentada num chamado para a aniquilação dos inimigos designados (judeus, traidores).

Então, onde estamos agora? Quando um regime autoritário se aproxima de sua crise final, sua dissolução tende a seguir dois passos. Antes de seu colapso efetivo, uma ruptura surge: de repente, as pessoas sabem que o jogo acabou, elas simplesmente não têm mais medo. Não é apenas que o regime perde sua legitimidade; seu próprio exercício de poder é percebido como uma reação de pânico impotente. Todos nós conhecemos a clássica cena dos desenhos animados: o gato chega num precipício, mas continua caminhando, ignorando o fato de que não há mais chão debaixo de seus pés; ele começa a cair apenas quando olha para baixo e percebe o abismo. Quando perde sua autoridade, o regime é como um gato sobre o precipício: para que caia, ele só precisa ser lembrado de olhar para baixo…

Em “Shah of Shahs“, um clássico relato sobre a revolução de Khomeini, Ryszard Kapuscinski localizou o momento preciso dessa ruptura: num cruzamento em Teerã, um único manifestante se recusou a obedecer um policial que gritou com ele para que se movesse, e então o constrangido policial retirou-se. Em questão de horas, toda Teerã sabia do incidente, e embora as lutas estivessem acontecendo pelas ruas há semanas, todo mundo de alguma forma soube que o jogo havia acabado.

Algo semelhante estará ocorrendo no Egito? Por alguns dias, no início, parecia que Mubarak já estava na situação do gato proverbial. Então nós vimos uma bem planejada operação de sequestro da revolução. A obscenidade disso foi de tirar o fôlego: o novo vice-presidente, Omar Suleiman, um ex-agente da polícia secreta responsável por torturas em massa, se apresentou como a “face humana” do regime, a pessoa para vigiar a transição para a democracia.

A luta de resistência no Egito não é um conflito de visões, é um conflito entre uma visão de liberdade e um agarramento cego ao poder, que usa todos os meios possíveis – terror, escassez de alimentos, cansaço puro e simples, suborno com aumento de salários – para esmagar o desejo de liberdade.

Quando o Presidente Obama saudou o levante como uma forma legítima de expressão de opinião, que precisava ser reconhecida pelo governo, a confusão foi total: as multidões no Cairo e em Alexandria não queriam que suas demandas fossem reconhecidas pelo governo, elas negavam a própria legitimidade do governo. Elas não queriam o regime de Mubarak como parceiro num diálogo, elas queriam que Mubarak fosse embora. Elas não queriam simplesmente um novo governo que ouvisse suas opiniões, elas queriam reformatar o Estado inteiro. Elas não têm uma opinião, elas são a verdade da situação no Egito. Mubarak entende isso muito melhor do que Obama: não há espaço para acordos aqui, assim como não havia quando os regimes comunistas foram desafiados no final dos anos 1980. Ou todo o edifício de poder de Mubarak vem abaixo, ou a revolta será cooptada e traída.

E quanto ao medo de que, depois da queda de Mubarak, o novo governo será hostil em relação a Israel? Se o novo governo for a expressão genuína de um povo que orgulhosamente desfruta de sua liberdade, então não haverá nada a temer: o antissemitismo só pode crescer em condições de desespero e opressão (uma reportagem da CNN, oriunda de uma província no Egito, mostrou como o governo está espalhando rumores de que os organizadores dos protestos e os jornalistas estrangeiros foram mandados pelos judeus para enfraquecer o Egito – o fim da ideia de que Mubarak seria um amigo dos judeus).

Uma das mais cruéis ironias da situação presente é a preocupação ocidental de que a transição proceda de uma forma “legal” – como se o Egito até agora estivesse sob a égide do Estado de Direito. Já estamos nos esquecendo que, por muitos e longos anos, o Egito esteve sob um permanente estado de emergência? Mubarak suspendeu o Estado de Direito, mantendo a nação inteira num estado de imobilidade política, sufocando a vida política genuína. Faz sentido que tantas pessoas nas ruas do Cairo afirmem, agora, que se sentem vivas pela primeira vez em suas vidas. Independentemente do que venha a acontecer depois, o que é crucial é que essa sensação de “se sentir vivo” não seja enterrada pelo pragmatismo político cínico.

10/02/20

Traduzido por Henrique Abel para Diário Liberdade

Fonte: The Guardian

O ALASTRAMENTO DOS PROTESTOS NO EGITO

Barbas de molho

Redação Carta Capital 7 de fevereiro de 2011 às 11:38h

Governo tenta prevenir maiores protestos com concessões antecipadas

Alguns vizinhos de Hosni Mubarak prestam atenção e procuram fugir ao mesmo destino. Abdelaziz Bouteflika, cujas duas eleições para presidente da Argélia em 1999 e 2004 foram contestadas pela oposição, anunciou em 3 de fevereiro que levantará, em breve, o estado de exceção em vigor desde 1992 e ordenará às tevês e rádios estatais assegurar a cobertura das atividades de organizações e partidos legalmente autorizados.

A última eleição realmente livre na Argélia ocorreu em dezembro de 1991 e o primeiro turno foi vencido pela Frente de Salvação Islâmica. Os militares intervieram, cancelaram o segundo turno, proibiram os partidos islâmicos e seguiram-se dez anos de guerra civil, na qual morreram 160 mil argelinos. Bouteflika, escolhido pelos militares, começa a ser desafiado por manifestações no interior. Na capital, estão proibidas há dez anos, mas uma marcha por reformas democráticas está sendo convocada para 12 de fevereiro por líderes da oposição, grupos de direitos humanos, sindicatos e estudantes.

Como em outros países da África do Norte, a alta dos preços dos alimentos e o elevado desemprego juvenil criam insatisfação, e muito mais do que qualquer outro país da região, a Argélia tem uma tradição de agressiva militância fundamentalista – e também de repressão violenta. O governo pretende dividir o movimento aliviando a pressão sobre a oposição consentida, enquanto ameaça os potenciais manifestantes com sua mão pesada.

Repórteres da EBC são detidos e vendados no Egito e obrigados a voltar para o Brasil

Renata Giraldi
Repórter da Agência Brasil

Brasília – Enviados para o Egito para a cobertura da crise política no país, o repórter Corban Costa, da Rádio Nacional, e o repórter cinematográfico Gilvan Rocha, da TV Brasil, foram detidos, vendados e tiveram passaportes e equipamentos apreendidos. Desde ontem (2) à noite até esta manhã, Corban e Gilvan ficaram sem água, presos em uma sala sem janelas e com apenas duas cadeiras e uma mesa, em uma delegacia do Cairo.

“É uma sensação horrível. Não se sabe o que vai acontecer. Em um primeiro momento, achei que seríamos fuzilados porque nos colocaram de frente para um paredão, mas, graças a Deus, isso não aconteceu”, afirmou Corban, que volta amanhã (4) com Gilvan para o Brasil.

Para serem liberados, os repórteres foram obrigados a assinar um depoimento em árabe, no qual, segundo a tradução do policial, ambos confirmavam a disposição de deixar imediatamente o Egito rumo ao Brasil. “Tivemos que confiar no que ele [o policial] dizia e assinar o documento”, contou Corban.

No caminho da delegacia para o aeroporto do Cairo, Corban disse ter observado a tensão nas ruas e a movimentação intensa de manifestantes e veículos militares nos principais locais da cidade. Segundo ele, todos os automóveis são parados em fiscalizações policiais e os documentos dos passageiros, revistados. Os estrangeiros são obrigados a prestar esclarecimentos. De acordo com o repórter, o taxista sugeriu que ele omitisse a informação de que era jornalista.

Há dez dias, o Egito vive momentos de tensão em decorrência de onda de protestos contra a permanência de Hosni Mubarak na presidência do país. A situação se agravou ontem, depois que manifestantes pró e contra o governo se enfrentaram nas ruas das principais cidades egípcias.

De acordo com as Nações Unidas, até agora, mais de 300 pessoas morreram nos confrontos e cerca de 3 mil ficaram feridas.

Edição: Nádia Franco

Comentário do Poli:

Sem sair da responsabilidade que todos temos sobre os confrontos de resistência que agora se fazem efetivos no Egito e em outros lugares do “Mundo Àrabe” (exatamente um mundo que o Ocidente desconhece enquanto subjetividade em si)/(ao contrário, a responsabilidade é de todos), pergutamos, ou melhor problematizamos, até onde a insurgência da multidão egipcia pode ser em prol de uma nova forma de existência – tratando de lutas contra formas de assujeitamento imperial –  ou pode ser apenas a manutenção, não apenas das formas de controle através da discplina, mas da regulação  através da “arte (razão) de governar ” (Governamentalidade) da população por meio dos Estados Unidos e do mercado mundial ou global (aqui como sinônimo).  ????????????????!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!.

“Isso é obra de Mubarak” por Robert Finsk

“Isso é obra de Mubarak”

A luta ao meu redor na praça Tahrir era tão terrível que podíamos sentir o cheiro do sangue. Os homens e mulheres que estão exigindo o fim da ditadura de 30 anos de Mubarak – vi jovens mulheres arrancando pedras do pavimento enquanto caíam rochas ao seu redor – lutavam com imensa coragem que, mais tarde, se converteu em uma crueldade terrível. Ao final, o governo informou que houve 3 mortos e 637 feridos; segundo a cadeia Al Jazeera os feridos chegavam a 1500. “Isso é obra de Mubarak”, disse-me um atirador de pedras ferido. “Ele conseguiu que os egípcios se voltassem uns contra os outros por apenas nove meses mais de poder. Está louco. Vocês do Ocidente também estão loucos?” O artigo é de Robert Fisk.

Robert Fisk – Página/12

A contra revolução do presidente Hosni Mubarak entrou em choque ontem com seus oponentes em meio a uma chuva de pedras, paus e barras de ferro, em uma batalha que durou todo o dia no centro da capital que ele afirma governar entre dezenas de milhares de jovens que – e aqui está a mais perigosa das armas – brandiam a bandeira do Egito no rosto de seus adversários.

A luta ao meu redor na praça Tahrir era tão terrível que podíamos sentir o cheiro do sangue. Os homens e mulheres que estão exigindo o fim da ditadura de 30 anos de Mubarak – vi jovens mulheres arrancando pedras do pavimento enquanto caíam rochas ao seu redor – lutavam com imensa coragem que, mais tarde, se converteu em uma crueldade terrível. Ao final, o governo informou que houve 3 mortos e 637 feridos; segundo a cadeia Al Jazeera os feridos chegavam a 1500.

Alguns arrastavam homens de segurança de Mubarak pela praça, golpeando-os até que o sangue saído de suas cabeças tingisse sua roupa. O Terceiro Exército egípcio, famoso por cruzar o Canal de Suez em 1973, não pode – ou não quis – sequer cruzar a praça Tahrir para ajudar os feridos. Milhares de egípcios gritavam – e isso é o mais próximo de uma guerra civil –, lançavam-se uns contra os outros como lutadores romanos, e simplesmente empurraram as unidades de paraquedistas que “vigiavam” a praça para cima de seus tanques e veículos blindados que logo acabaram sendo usados como escudo de proteção.

Um comandante de tanque Abrams – e eu estava somente a três metros dele – simplesmente se esquivou das pedras que ricocheteavam no tanque, saltou para dentro do veículo e fechou a escotilha. Os partidários de Mubarak subiram então no tanque para atirar mais pedras contra seus jovens e enlouquecidos antagonistas.

Suponho que é o mesmo em todas as batalhas, ainda que (ainda) não tenham aparecido as armas; o abuso de ambos os lados provocou uma chuva de pedras dos homens de Mubarak – sim, eles começaram – e logo os manifestantes que tomaram a praça para pedir a saída do ancião começaram a quebrar o pavimento e atirar as pedras de volta.

Quando cheguei à “linha de frente”, ambos os bandos estavam gritando e atacando-se entre si, o sangue corria por seus rostos. Em um certo momento, antes que passasse o choque do ataque, os partidários de Mubarak quase cruzaram toda a praça em frente ao monstruoso edifício Mugamma – uma relíquia do esforço nasserista – antes de serem rechaçados.

Agora que os egípcios estão lutando contra os egípcios, como devemos chamar a esta gente perigosamente furiosa? Os mubarakistas? Os “manifestantes” ou, de maneira mais inquietante, a “resistência”? Por que é assim que se chamam a si mesmos os homens e mulheres que estão lutando para derrotar Mubarak. “Isso é obra de Mubarak”, disse-me um atirador de pedras ferido. “Ele conseguiu que os egípcios se voltassem uns contra os outros por apenas nove meses mais de poder. Está louco. Vocês do Ocidente também estão loucos?”

Não recordo como respondi a pergunta. Mas como poderia me esquecer de ter visto, umas poucas horas antes, o “especialista” em Oriente Médio, Mitt Romney, ex-governador de Massachusetts, responder a pergunta “Mubarak é um ditador”, da seguinte forma: “Não, é uma figura de estilo monárquico”.

A imagem do rosto deste monarca era levada em cartazes gigantes, uma provocação impressa, para as barricadas. Distribuídos pelos funcionários do Partido Nacional Democrático (PND), muitos eram levados por homens que portavam distintivos e cassetetes da polícia. Não havia dúvida sobre isso porque eu tinha dirigido desde o deserto até o Cairo, enquanto eles se organizavam em frente ao Ministério do Exterior e do edifício da rádio estatal, na margem oeste do Nilo. Havia alto falantes ligados com canções e chamados de vida eterna para Mubarak (uma presidência muito longa, por certo) e muitos estavam sentados em novas motocicletas, como se estivessem inspirados nos capangas de Mahmud Ahmadinejad depois das eleições iranianas de 2009.

Só quando passei o edifício da rádio é que vi milhares de jovens homens entrando desde os subúrbios do Cairo. Havia mulheres também, a maioria vestia o tradicional traje negro; algumas poucas crianças entre elas, caminhando por trás do Museu Egípcio. Disseram-me eu tinham tanto direito a estar na praça Tahrir como os manifestantes e que tentavam expressar seu amor por seu presidente no lugar onde ele havia sido tão profanado.

E tinham razão, suponho. Os democratas – ou a “resistência”, dependendo do ponto de vista – tinham expulsado os homens das forças de segurança desta mesma praça na semana passada. O problema é que os homens de Mubarak incluem alguns dos mesmos capangas que eu vi então, quando estavam trabalhando com a polícia de segurança armada para atacar os manifestantes. Um deles, um jovem de camisa amarela, cabelo revolto e olhos brilhantes avermelhados, levava a mesma barra de ferro que usava na semana passada. Uma vez mais, os defensores de Mubarak estavam de volta. Até cantavam o mesmo velho refrão: “Com nosso sangue, com nossa alma, a vós nos dedicamos”.

Caminhei ao lado das fileiras de Mubarak e cheguei à frente quando eles começaram outro ataque à praça Tahrir. O céu estava cheio de pedras. Estou falando de pedras de 15 centímetros de diâmetros, que golpeavam o terreno como peças de morteiro. Deste lado da “linha” chegavam os opositores de Mubarak. Eles se dividam e golpeavam as paredes ao nosso redor. Neste ponto, os homens do governo voltaram e correram em estado de pânico enquanto os opositores do presidente os empurravam para frente. Fiquei parado de costas para a janela de uma agência de viagens fechada – lembro um cartaz para um fim de semana romântico em Luxor e no “Vale das Tumbas”. Mas as pedras caíam como chuva, centenas delas ao mesmo tempo, e logo um novo grupo de homens estava ao meu lado, eram os manifestantes egípcios da praça. Mas em sua fúria já não gritavam “Abaixo Mubarak” e “Mubarak Negro”, mas sim “Alá Akbar” – Deus é grande –, grito que escutei seguidamente a medida que o dia avançava.

Um lado gritava Mubarak, o outro Deus. Não tinha sido assim 24 horas antes. Dirige-me para um terreno mais seguro, onde as pedras já não estouravam e fique entre os opositores de Mubarak.

Seria exagerado dizer que as pedras obscureceram o céu, mas por momentos havia centenas de pedras voando pelo céu. Destroçaram totalmente um caminhão do exército, quebrando as janelas e suas laterais. As pedras partiam das ruas paralelas à rua Campollion e de Talaat Harb. Os homens estavam suando, com faixas ensaguentadas na cabeça, gritando seu ódio. Muitos traziam trapos brancos nos ferimentos. Alguns eram levados derramando sangue por toda a rua.

E um incrível número usava o traje islamista, calças curtas, sacolas cinzas, largas barbas e gorros brancos. Gritavam Alá Akbar mais forte e bradavam seu amor a Deus. Sim, Mubarak conseguiu a proeza. Colocou os salafistas contra ele, junto a seus inimigos políticos. Volta e meia agarravam alguns jovens, tinham os rostos inchados de socos e gritavam temendo por suas vidas. A documentação encontrada em suas roupas provava que trabalhavam para o Ministério do Interior de Mubarak.

Muitos dos manifestantes – jovens seculares, abrindo caminho entre os atacantes – tratavam de defender os prisioneiros. Outros – e eu vi um monte de “islamistas” entre eles -, davam socos nas cabeças destes pobres homens, usando grandes anéis em seus dedos para cortar a pele e fazer o sangue escorrer por seus rostos. Um jovem, com uma camiseta vermelha rasgada, e o rosto inchado de dor, foi resgatado por dois homens fortes, um dos quais o colocou, quase sem roupa, sobre seu ombro, abrindo caminho entre a multidão.

Assim se salvou a vida de Mohamed Abdul Azim Mabrouk Eid, policial de segurança número 2.101.074, do governo de Gizé – seu passe de segurança era azul com três pirâmides estampadas. Outro homem foi resgatado da multidão enfurecida, agarrando-se o estômago. E por trás de um esquadrão de mulheres, chovia pedras.

Houve momentos de farsa em meio a tudo isso. Na metade da tarde, quatro cavalos montados por partidários de Mubarak entraram na praça, junto com um camelo – sim, um camelo verdadeiro que deve ter sido trazido das pirâmides. Seus jóqueis, aparentemente drogados, estavam caindo. Três horas mais tarde, encontrei os cavalos pastando ao lado de uma árvore. Perto da estátua de Talaat Harb, um menino vendia Agwa – um delicioso pão egípcio -, enquanto do outro lado da rua estavam paradas duas figuras, uma menina e um menino, segurando bandejas de papelão idênticas. A bandeja da menina estava cheia de pacotes de cigarro. A do menino, estava cheia de pedras.

Houve cenas que devem ter provocado dor pessoal e angústia para aqueles que as experimentaram. Havia um homem alto, musculoso, ferido no rosto por uma pedra, cujas pernas se dobravam ao lado de uma cabine de telefone. E o soldado do veículo blindado que deixou que as pedras voassem ao seu lado até que saltou para a rua junto com os inimigos de Mubarak, abraçando-se a eles, enquanto as lágrimas corriam por seu rosto.

Não sei realmente quem ganhou a batalha da praça Tahrir ontem. Ao entardecer, as pedras ainda golpeavam as ruas e as pessoas. Depois de um tempo, comecei a me agachar quando vi passar dois pássaros.

Tradução: Katarina Peixoto