PEQUENA SEMIOLOGIA DA PROPAGANDA ELEITORAL DE OMAR

 

A foto é do Blog da Floresta:

Quando a imagem nega o texto, é isso que acontece. O Avança Amazonas carrega o ranço desenvolvimentista do tempo da ditadura, onde confundia-se desenvolvimento econômico e social com obreirismo gratuito. Esquecendo que uma obra não significa desenvolvimento em si, mas só funciona nesse sentido quando está engendrada numa práxis de movimento produtivo dos habitantes da cidade. O PAC, no Amazonas, graças ao orgulhoso governo estadual, empacou.

O rosto dos candidatos, no entanto – e aí, Dilma inadvertidamente envolvida, já que claramente apóia outro candidato que não o do governador – mostram a realidade do estado do Amazonas.

Omar, desgastado, desgostado, cansado, triste, desesperado, a imagem do desânimo.

Braga expressa o terror de quem aponta a um inimigo ou uma ameaça terrível, vindo à frente.

No rosto, não a característica psicológica, mas os signos daquilo que eles produziram  para si enquanto realidade: a falseação da política como a negação da vida.

Provavelmente o que os desgosta, sem que eles próprios saibam, é o quadro político-eleitoral que eles mesmos pintaram para o Amazonas.

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CURTINHAS PÓS-BOVINAGEM NA PARINTINS DAS TRADEMARKS

Às vésperas da divulgação do resultado do vencedor da disputa entre os siameses bovinos, ocorreu o de sempre: brigas, acusações, vale tudo em busca do simulacro da vitória.

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O Secretário de Cultura (sic), Robério Braga, sempre muito próximo aos conceitos de cultura reificada pelo capital, acusou um boi de pajear e mimar os jurados, a fim de receber seus favores na hora das notas. Evidência de que os bois, suas diretorias, organizadores e parte das torcidas entraram de cabeça na ordem decadente da moral. Não basta vencer, tem que vencer e aniquilar o inimigo. Daí os bovinopatas afirmarem Sartre, sem o querer: o inferno são os outros. E, nesse caso, o outro é o meu igual. Os bois são siameses no quesito improdutividade e trabalho morto, absorvido pelo capital.

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Ao turista mais atento, já cotidianamente bombardeado pela propagandística de guerra em qualquer lugar, não constitui estranheza que um festival que se diga popular seja tomado pelas marcas patrocinadoras, que só não estão fisicamente no corpo fabricado dos bovinos, mas que estão lá, de qualquer forma. Assim como o boi (o animal), é visto pelo açougueiro a partir da sua divisão comercial (os diversos tipos de carne), o boi folclórico é também multi-fatiado pelas marcas patrocinantes. E quem engorda são elas.

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Muda o trânsito da cidade: no lugar dos raríssimos acidentes motociclísticos, a imprudência e o risco à integridade física dos transeuntes toma conta das ruas. Nesse quesito, uma ilustração, trazida por uma moradora local: o vereador por Manaus, Arlindo Jr, desfilava ontem à tarde pela Avenida Amazonas – uma das principais vias da cidade – em alta velocidade e sem capacete. Talvez na ânsia de recolher os últimos resquícios da fama de cantor do boi azul, ele esquecia que, enquanto vereador e legislador, feria com seu ato o Código Brasileiro de Trânsito.

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Outro observador, um artesão, percebeu que a organização do festival privilegia as grandes empresas na divisão do bolo dos lucros obtidos com a festa. Segundo ele, a concentração das festividades bovinas no bumbódromo constitui duas violências sociais: uma com a população, que fica alijada da sua manifestação cultural, totalmente voltada para o turista estrangeiro. A outra, econômica. Para ele, o investimento no comerciante local, oferecendo-lhe capacitação profissional e estrutura, e ao mesmo tempo a descentralização das atividades festivas, distribuindo-as em várias áreas da cidade, possibilitaria uma maior circulação dos turistas, beneficiando uma fatia maior do comércio, e por sua vez, da população. “Confinar os bois e a estrutura do festival em uma arena, como está sendo feito aqui, é ruim para a cidade. Quem fica com os lucros? A Coca-Cola, a Bandeirantes, empresas que não são daqui e não investem no povo daqui”, afirmou o artesão.

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Independente do olhar predatório do capital, através de seus agentes, o talento para o artifício e para a criação artística do parintinense é visível. Seja nos carros alegóricos, seja no artesanato ofertado nas barraquinhas da feira da Praça dos Bois, a beleza e o rigor técnico das peças é de deixar joalheiro estrangeiro com beicinho e mágoa no coração. É a resistência do povo, que continua a produzir a riqueza, mesmo que o ressentimento do capital insista em devorá-las inutilmente, na sua ordem tanatológica e decadente. O trabalho vivo do artesão parintinense alimenta o trabalho morto das trademarks que circulam pela cidade nos três dias e meio de festival.

POLIDIZERES

*** Propaganda Nada Liminar ***

Se a Rede Globo acredita convencer os telespectadores de que a sua campanha veio antes da campanha serrista, apenas confirma que o seu grau de capacidade sintética e de inteligência é rudimentar, e semelhante ao que eles crêem ser o de seus admiradores: o estereótipo Bonner-Simpson. As referências diretas permitiriam perceber o engôdo. Mais ainda, se a memória não cedeu à velocidade do consumo, e recorda que a emissora sempre esteve ao lado da direita, fosse ela a ditadura militar, fosse ela o tucanato travestido de social-democracia. No entanto, o que a emissora não esperava fosse a reação de seus próprios comandados. Segundo o blog do Marco Aurélio Mello (não o ministro!), um ator global, participante da campanha com modestas duas palavras, ameaçou ir à público denunciar a manipulação, caso a peça não fosse retirada. A Globo, mesmo com a empáfia de sempre, teve de engolir a ameaça do ator, que a despeito de sua consciência política, vota no candidato da emissora. Evidência de que até dos recônditos de um buraco-negro, pode-se esperar um rastro de luz que faça linha de fuga à força gravitacional. No entanto, fica o aviso: alguém precisa de evidência maior que essa de que a Globo faz mal à saúde pública?

*** Dos Equívocos da Razão ***

Serra, igualmente global, também crê na revolução do Homer Simpson, que o aclamará presidente do Brazil. Ao falar sobre Dilma, ele teria afirmado que nem sempre o sucessor repete o sucesso do antecessor, e comparou a indicação de Dilma, por Lula, a de Maluf, por Pitta, anos atrás. Equívoco de quem crê na operação cognitiva de reconhecimento da imagem. Nada de novo advém à inteligência porque a consciência é tomada pelas velhas imagens. Operação cada vez mais presente, por exemplo, na estética televisiva, onde o ícone é o signo predominante, com sua relação direta e sem necessidade de trabalho intelectual. Ficar preso a esse equívoco cognitivo, até é compreensível. O que é ruim à democracia é Serra cometê-lo e achar que o povo brasileiro vai segui-lo. Primeiro, porque Lula não é Maluf, e Dilma não é Pitta, como elas mesmo reiterou, respondendo ao candidato PSDBista: “É uma constatação, por assim dizer, óbvia”. Segundo, porque basta colocar a consciência para trabalhar, afastando as imagens-clichê, para perceber que o governo Lula não se reduz ao Lula, e tem participação de quadros competentes do país inteiro, incluindo Dilma, que assumiu em meio a uma tormenta midiática, e soube navegar com eficiência e competência. Daí o povo ver o que Serra (e o Datafolha) não vêem. Dilma não é Lula, mas é governo.

*** Nova Ordem, Velhas Práticas ***

Costurado entra vários governos nacionais, e fomentado pela indústria, o ACTA, Acordo Comercial Anti-Falsificação, foi esboçado enquanto documento no último 25 de março, pelo governo Obama. Ele se constitui como uma iniciativa plurigovernamental para adaptar a ordem tecnológica de transmissão de dados via internet aos velhos códigos da propriedade privada. Assim, transmissões de informações seriam previamente censuradas, e usuários que baixassem ou disponibilizassem conteúdo, mesmo sendo copyleft (sem direitos requeridos de propriedade), seriam criminalizados. Isso porque o sistema não se reduz ao controle de redes de distribuição que visam o lucro, mas qualquer rede significativamente grande de troca de informações. Se aprovado nessas condições, o acordo poderá trazer malefícios como o fim dos medicamentos genéricos, a criminalização da produção de software livre, o enfraquecimento do processo de fortalecimento econômico dos países do eixo Sul-Oriental (incluindo os BRIC’s), e até mesmo ameaçar empresas como o Google. Trata-se de submeter uma ordem tecnológica que atua sob uma semiótica diferente daquela que estabelece a propriedade privada no capitalismo, a este ordenamento. Surpreendente que Obama, por exemplo, eleito graças à rede mundial de computadores e sua circulação livre de informação, participe deste tipo de iniciativa. Mais uma evidência de que os governos não governam para quem os elege, mas para quem os financia. 

*** Contradições entre Homem e Deus ***

Diz-se que a Lei de Deus alcança até onde a Lei dos Homens não vai. Serve de consolo aos desabonados pela lei humana que aqueles que escapam de sua jurisdição, não escaparão ao tribunal divino. Mas e quando a lei humana expõe a contradição entre criador e criatura? No Rio de Janeiro, o pixador do Cristo Redentor entregou-se e revelou-se arrependido. O que é, na lei divina, primeiro passo para a remissão dos pecados, e o perdão. Bastaria ao pixador uma penitência, a ser paga em prestações oracionais, em foma de aves-maria e padres-nossos. No entanto, o delegado que investiga o caso já afirmou que ele não escapará ao tribunal humano. Onde fica, nesse caso, a superioridade de alcance e importância da Lei de Deus sobre a finitude do conhecimento humano?

*** Praciano/Zé Ricardo, e o velho PT ***

Nem de longe se pode afirmar que o deputado federal Francisco Praciano e o vereador José Ricardo Wendling, ambos do PT, fazem parte do segmento “quero mais é se dar bem”. No entanto, parece que eles serão o desequilíbrio da balança, na disputa interna do partido, no apoio a Omar ou Alfredo Nascimento. Praça e Zé, dois que vieram do povo, e jamais se desligaram dele, exatamente como o PT também é movimento social nascido do povo, a despeito da atuação fisiológica de parte de seus membros,  sabem que é uma falsa dualidade. Tanto Omar quanto Alfredo carregam os mesmos códigos, e vem de um mesmo rastro histórico de gestões antidemocráticas na cidade de Manaus e no Estado do Amazonas. Praça e Zé sabem disso, e sabem que só há uma escolha a fazer. Escolher o PT. Para azar do outro PT, o de Omar, e o de Alfredo.

*** De Volta às Botas! ***

Agripino Maia, DEM, e Eduardo ‘Mensalão Mineiro’ Azeredo, PSDB, dizem ser ridícula a política externa brasileira. Criticam a posição brasileira de dialogar com o Irã, enquanto EUA e Rússia defendem sanções a um país que faz o que eles fizeram décadas atrás. Criticam a postura de Lula, em questionar abertamente posições dos países desenvolvidos, o que é absolutamente natural, considerando que política externa, para esses países, é obediência dos outros aos seus interesses, e o interesse do governo Lula é ter independência. Em outras palavras, para Agripino e Azeredo, a língua do Brasil não está mais onde deveria: nas botas dos americanos.

À ESPERA DOS BÁRBAROS: A XENOFOBIA COMO EFEITO DA APATIA SOCIAL DAS INSTITUIÇÕES

* E que vem a ser esta repentina inquietação, esta desordem?
(Que caras tão sérias tem hoje o povo.)
Porque é que as ruas e as praças vão ficando vazias
e regressam todos, tão pensativos, a suas casas?
É porque anoiteceu e os bárbaros não vieram.
E da fronteira chegou gente
dizendo que os bárbaros já não vêm.
E agora que será de nós sem bárbaros?
De certo modo, essa gente era uma solução.

O preconceito e a discriminação são fruto da privação. Interdição na produção ético-estética, dos modos de existir e se expressar. Interrupção, corte no fluxo produtivo, tem como resultado uma força que não é ativa, mas reativa, cuja tendência na correlação de forças é a imobilidade.

A crise econômica do início do século XX, aliada à forte presença de imigrantes criou na Alemanha as condições necessárias à forças reativas, que emergiram no plano político com a chegada da extrema direita ao poder. Daí ao extermínio de tudo o que carrega o signo da diferença, foi um pulo.

No Amazonas, cuja economia é mantida por força de um truque de prestidigitação – o Pólo Industrial de Manaus – que simula uma produção, quando na realidade o fluxo de capitais passa longe da cidade, a estagnação política e econômica também cria condições para que forças reacionárias possam aparecer.

Fato é que, diante da imigração, principalmente de paraenses e maranhenses, a xenofobia tem crescido. Os imigrantes, ao mesmo tempo em que carregam rastros da semiótica cultural de sua origem, também encontram na cidade em que chegam outras territorialidades, outros possíveis. E em Manaus, essa migração norte-nortista tem se mostrado economicamente frutífera. Um exemplo é a Avenida Grande Circular, na chamada Zona Leste. Enquanto essa zona da cidade povoa o imaginário da classe média xenofóbica como sendo o depositário da chamada ralé, pelas mãos do comércio desta avenida passam, diariamente, milhões de reais. Uma economia pujante que não é totalmente dependente das indústrias do PIM. Igualmente, esses imigrantes carregam uma força cultural, trazida da sua experiência de vida, que não coaduna com a passividade que aqui encontram. Há mais belezas entre o São José e a Cidade de Deus do que sonha a vã classe média manauense.

PIADA DE PARAENSE

Um dos sintomas da reatividade é o humor decadente. Em Manaus, virou senso comum em alguns nichos sociais ridicularizar o paraense através de chistes, atribuindo-lhes valores sociais vexatórios.

O fato, reproduzido largamente inclusive na imprensa – que se arvora formadora de opinião – já criou um estado de coisas socialmente perigoso, no qual agressões, discriminação no trabalho e até mortes já ocorreram.

UFAM VAI VIRAR NICHO DE XENOFOBIA?

Em 2008, o Amazonas já havia ficado na lanterninha entre as médias nacionais de aprovação no ENEM. Embora os dados referentes ao ano de 2009 ainda não tenham sido divulgados, é de se esperar que a educação do orgulhoso governo do estado e do secretário filósofo-e-candidato não tenha tido melhor sorte.

Primeiro porque nada ocorreu de 2008 para 2009 que mostrasse algum tipo de mudança na estrutura ou na fórmula de condução da educação formal. Ela continua anódina, com conteúdo programático desligado da realidade social dos estudantes, com gestão voltada para interesses particulares e corporativos, e com o predomínio de um ensino sem compromisso com a educação.

Segundo porque, das vagas oferecidas pela Universidade Federal do Amazonas para o ano de 2010, e disponibilizadas através do Sisu (Sistema de Seleção Unificada), que representam 50% do total da instituição, a grande maioria foi preenchida por alunos de outros estados do país.

A UFAM foi a quarta universidade mais procurada pelos estudantes que recorreram ao SISU por uma vaga no ensino superior. A turma de 2010 de medicina da UFAM será 100% de outros estados. A de odontologia, 70% de fora. Engenharia mecânica e agronomia, 50%. Sem ter ainda encerrado o compilamento dos dados, o pro-reitor da PROEG, Adilson Hara, prevê que 45% das vagas totais da UFAM sejam preenchidas por estudantes que não residem ou cursaram o ensino regular no Amazonas.

Em tempo: o ingresso dos novos alunos está suspenso, graças à liminar solicitada pelo MPF, devido a irregularidades no estabelecimento do peso da nota da redação, mudada pela universidade após o certame ter sido realizado.

De qualquer sorte, é intenção da UFAM sair do sistema unificado e deixar de adotar o ENEM como critério para ingresso em 2011. Quanto a questionar o resultado dos estudantes do Amazonas, a entidade que encorpa o saber institucional do estado, a manifestação da inteligência, não se pronunciou.

XENOFOBIA E MISÉRIA SOCIAL

Um dos sintomas de que há a predominância de um estado de coisas propício à violência xenofóbica em uma sociedade é o comportamento de avestruz das instituições. Enquanto a maioria dos professores da UFAM reclamam do quadro educacional, seus filhos frequentam as melhores escolas particulares a peso de ouro. Enquanto intelectuais defendem a meritocracia e atacam as cotas nas universidades, esquecem que mérito não é apenas fruto de esforço, mas de condições materiais e imateriais, que são ofertadas ou não pelos governos e sociedade. Enquanto a frase: “universidade não é para qualquer um…” expressa a adesão a uma estrutura de ensino estatal que privilegia a manutenção das desigualdades sociais e da exploração do trabalho, essa pretensa inteligência social não se manifesta quanto às reais causas da violentação social que leva à miséria e à xenofobia, à violência e à existência de um governo de marketing.

Não é isso também uma forma de discriminação?

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* Trecho de À Espera dos Bárbaros, de Konstantin Kavafis.

OS “COMUNISTAS” ERON E VANESSA, A MATEMÁTICA E MARX

Outdoor do casal comunista Eron e Vanessa, alusivo às festas de fim de ano, traz o seguinte lema: Duas Vidas de Lutas e Conquistas”.

Apesar de terem, durante muito tempo, na cidade de Manaus, construído uma imagem de oposição aos governos que se sucedem nos cargos executivos municipal e estadual há pelo menos 30 anos, o casal Eron e Vanessa (PCdoB), há algum tempo, aproximaram-se do governo Braga, onde Eron é secretário de produção rural, e Vanessa deve ser candidata à vaga no Senado nas próximas eleições, alavancada pelo apoio de Braga, no quadro pré-eleitoral pintado até o momento.

Eron, agrônomo, comunista convicto, ao menos nas palavras, dentre outras atitudes, e enquanto secretário estadual de produção rural, já assinou termo de convênio sem licitação com o famoso IDPT (Instituto Dignidade Para Todos), além de patrocinar uma peça teatral onde faz propaganda do governo do qual faz parte. Foi ele também que demonstrou todo o seu conhecimento da filosofia comunista, ao afirmar que “cultura não se come”, e desejar, em outro outdoor, no ano passado, o ideal da moral burguesa: mesa farta para todos.

A Sepror é a secretaria do Zona Franca Verde, programa de fomento à agricultura no estado, que patrocina peça teatral e que existe há anos, mas que não impede Manaus de importar até mesmo os ingredientes da sua culinária turisticamente típica, além de insumos básicos.

DA MATEMÁTICA BURGUESA DO CASAL ERON/VANESSA

Eron e Vanessa, comunistas de um partido que apóia um governo marketista como o de Braga, ignoram a matemática enquanto disciplina ligada às relações concretas, e tomam-na pelo conceito pseudo-abstrato do capitalismo. Acreditam no 1 + 1 = 2. Ao se afirmarem duas vidas de lutas e conquistas, não apenas evidenciam sua crença epistemológica na divisão do trabalho segundo a ordem do capital (a mesma que individualiza o trabalho para melhor explorá-lo), como recaem na fetichização do objeto a partir do seu valor como mercadoria.

Ora, se o objetivo é a revolução comunista, não se pode perder de vista a palavra comum. Aí, já não se pode falar em duas vidas, duas lutas, duas conquistas. Há que se eliminar o artigo definido, que só interessa à uma semiótica que reifica o objeto dentro dos códigos do mercado burguês. Há uma luta: a dos trabalhadores. Não há, nesse contexto, individualização, nem mesmo aquela do totalitarismo socialista encontrado num Stalin, ou na obra 1984, de Orwell, que aliás, não elimina a clivagem individualizante.

Em outras palavras, o trabalho não se quantifica, ele é transformador, é intensivo e afetivo. Assim como um pão não surge da somatória da farinha de trigo, água, ovos e sal, também os produtos, para o comunismo, não são frutos de uma ordem somatória dos meios de produção. Ele é o resultado-efeito de um trabalho-causa: uma modificação dos modos de ser. Daí a matemática comunista, a da intensividade, de que nos fala o filósofo Deleuze, afirmar que 1 + 1 = 1. Sempre um.

O que, evidentemente, não coaduna com o mote do casal comunista, que não se compõe como corpo intensivo produtor de outros modos de existir. Estão na ordem do marketing, da palavra esvaziada, do parecer em detrimento do ser.

Assim, Eron e Vanessa passam longe do comunismo de Marx, que entendia que somente ao capitalista, ao patrão, interessa a quantificação, a rotulação, a dominação semiótica dentro de uma ordem universal: o têrmo de equivalência geral, que não por acaso, é o dinheiro. Ele é o ente que, na ordem do capital, substitui os objetos. No entanto, a um comunista como Cristo, por exemplo, basta uma ilustração e tudo cai: “a César o que é de César, a Deus o que é de Deus”.

Ou, citando o próprio Marx, se referindo a alguns “comunistas”: semeei dragões e colhi pulgas.

UMA FOTO, UM FATO

Enquanto o marketing do governo do estado, somado ao da prefeitura, mais a imprensa domesticada e as instituições anuladas acreditam que o povo crê naquilo que eles professam, o povo, com muito humor e ironia, vai mostrando que samba noutro compasso…

GUERREIROS OU BRAMEIROS, POR UGO GIORGETTI

GUERREIROS OU BRAMEIROS

* Ugo Giorgetti, no Estadão de 17/12/2009

Não sei por que ando pensando muito num comercial da Brahma que andou, ou anda, pelas televisões. De fato ele não me sai da cabeça. Fiquei tão intrigado que recorri até ao site do Clube de Criação de S.Paulo, onde não só o encontrei na íntegra, como tive a surpresa de encontrar também declarações do diretor de marketing da Brahma que, por sua vez, vieram aumentar meu assombro. Queria, logo de início, pedir licença ao diretor da empresa para refutar uma de suas declarações. Diz ele: “Com a campanha não queremos impor nada a ninguém. Queremos apenas ser porta-vozes do povo brasileiro.”

Bem, meu porta-voz esse comercial não é, isso eu posso garantir. E, espero, também não seja de boa parte do povo brasileiro. Para quem não sabe, o comercial descreve a atitude ideal do torcedor brasileiro em relação à Copa do Mundo que se aproxima. Consta de uma sucessão de imagens bélicas e melodramáticas, onde supostos torcedores carrancudos, gritam, choram e batem no peito. Para deixar ainda mais claro a observadores menos atentos que o que se espera realmente são guerras e batalhas, mistura essas cenas com outras, fictícias, devidamente produzidas e filmadas, de um grande exército medieval em ação. Se as imagens falam por si, o pior é o som. Vozes jovens alucinadas urrando palavras de ordem num tom ameaçador, histérico, a lembrar manifestações das mais radicais e intolerantes agrupamentos que, infelizmente, existem no interior de qualquer sociedade.

Eu me permito transcrever algumas das frases vociferadas: “Eu queria que a seleção fosse para a Copa, como quem vai para uma batalha!” “Eu quero guerreiros!”, “Vamos para a guerra juntos! 180 milhões de guerreiros!” “Sou guerreiro!” No final do filme, num golpe de surrealismo que faria as delícias de Luis Buñuel, o locutor, contrariando o tom anterior de toda a mensagem, recomenda sabiamente: “Beba com moderação.”

O diretor de marketing da Brahma, no mesmo site do Clube de Criação continua: “A mensagem que queremos passar ao torcedor é que, além de ser a primeira marca brasileira a patrocinar oficialmente uma Copa do Mundo, o desejo da Brahma é despertar a atitude guerreira da seleção em todos os 190 milhões de brasileiros.”

Com todo o respeito que tenho pela Brahma, cuja publicidade acompanho, até por dever de ofício, há mais de quarenta anos, e que me pareceu sempre celebrar a alegria e a irreverência popular, essas declarações inspiram alguns comentários.

O que eu espero da seleção é que jogue bola. Acho que o que nos derrotou em 2006 não foi a falta de guerreiros, mas foi o Zidane, que não era exatamente um guerreiro.

Quanto aos 190 milhões, espero que honrem nossa tradição de saber perder, como fizemos em 1950 em pleno Maracanã, ou como fizemos em 1982, encantando o mundo. O resto é apenas apelar para o que há de pior na sociedade brasileira.

Que é o que faz esse equivocado comercial dessa grande empresa.

E de repente, a razão pela qual penso nele com tanta freqüência me aparece claramente: é que, de certo modo, o confundo com as cenas reais que aconteceram no estádio de Curitiba domingo passado. Ao revê-las me ocorre uma pergunta: os torcedores que, ensandecidos, fizeram o que fizeram no Paraná seriam “guerreiros” ou “brameiros”?

Ou os dois?

Infelizmente não foi possível alertá-los para invadirem e quebrarem tudo “com moderação”.

* Ugo Giorgetti é roteirista e diretor de filmes como Boleiros, Jogo Duro e Quebrando a Cara.