LITERAMUNDO ESPECIAL DE NATAL: O PROBLEMA DO MENINO JESUS POR DINO BUZZATI

Encontraram-se no café o professor Giovanni Imperativo, o senhor Giacinto Sala, geômetra, e o doutor Nicola Maggio, dentista. Conversavam, sentados em torno da mesinha. Era véspera de Natal.

O professor Imperativo disse: — Sabem o que descobri? As crianças não acreditam mais no Menino Jesus.

— Que quer dizer com “não acreditam mais”? — disse Sala, que era um homem ingênuo.

— Simplesmente não acreditam… Num certo momento, aos seis, sete ou oito anos, parece que se tornam imbecis; exatamente quando pensam terem se tornado inteligentes… O meu Carlo, por exemplo, que tem sete anos e meio: ouvi-o ontem, quando falava com um colega de escola. Este colega lhe perguntava: “Você escreveu de novo ao Menino Jesus?” E o meu Carlo: “Que é que você quer? Tenho de dar satisfação à minha família. Eles gostam que eu acredite. E eu finjo, isso me convém. Do contrário, quem sabe adeus presentes… “ E como zombavam, aqueles dois capetinhas!

— De certo ponto de vista, é melhor assim — observou o dentista Maggio. — Assim pensam que somos nós que gastamos, assim nos são gratos e nós não gastamos um níquel.

— Mas é preciso convir — disse o professor — que a culpa também é dele…

— Dele quem? — perguntou o geômetra.

— Do Menino Jesus, ora! Até parece que faz tudo para que se pense que é somente um truque nosso, dos adultos… Por exemplo, a idéia de empacotar os presentes no papel das lojas que todos conhecem, como nome e o endereço. Ou de amarrá-los com o barbante que, na noite anterior, estava sobre o bufê e que as crianças reconhecem.

— Muito bem! — disse o dentista, que fazia questão de agir como pessoa culta. — Faz de propósito! A finalidade é fazer nascer a dúvida, assim as crianças começam a suspeitar. Se tudo fosse evidente, se tudo fosse matematicamente demonstrado, que mérito haveria em acreditar?

— Não, não — disse Sala. — Quer que o Menino Jesus seja tão tolo? Seria dar a mão à palmatória… Tudo é pura fantasia, maldade… Que quer que lhe diga? Para mim são blasfêmias.

— Blasfêmias? — replicou o dentista. — Vê-se realmente que o senhor é ingênuo, meu caro Sala. Abra os olhos, abra os olhos… Hoje à noite mesmo. Verá se não é como eu lhe digo.

— Algumas vezes,. Porém, ele exagera — disse o professor, — No ano passado, por exemplo, trouxe para meu filho um ursinho idêntico, mas exatamente idêntico a um que estava exposto na vitrina do bazar aqui da esquina. E que, naturalmente, o meu Carletto vira… E não é só isso… Às vezes coloca os presentes algumas horas antes sobre um móvel da casa, de maneira que, se as crianças os descobrem, se convencem de nós os compramos… Acontece também comigo… E, desta maneira, admitirão, os meninos acabam por se tornar forçosamente céticos.

— Bem — disse o doutor Maggio —, a única coisa a fazer é deixar o tempo correr. Um dia, já crescido, nossos filhos perceberão a verdade —olhou o relógio. — Puxa! são quase oito e quinze… Saudações. Até à vista… e feliz Natal!

Levantaram-se, cada um seguiu seu caminho. Mas as palavras dos amigos ficaram gravadas na mente do geômetra, que agora ruminava o assunto, perplexo.

Sala tinha quatro filhos, dos cincos aos dez anos, que, naturalmente, esperavam um presente de Natal. Vendo-o voltar para casa de mãos vazias, naquela noite, ficaram desiludidos.

— Como, papai, você não trouxe nada?

— E que é que devia ter trazido?

— Mas, papai… O Menino Jesus não vai chegar esta noite?

— E que tenho eu a ver com o Menino Jesus?

— Oh, papai — disse Anna, a mais velha, roçando-se nele como uma gatinha e sorrindo maliciosa. — Você tem muito a ver, como te… Você tem boas relações com o Menino… Ele lhe diz tudo. Não é mesmo assim?

Coisa nenhuma — replicou quase irritado. — Quantas vezes devo dizer-lhe que eu não tenho mesmo nada com isso. E mamãe também não tem nada a ver com isso!

— Papai — disse a menina —, você é um amor! — E os quatro irmãozinhos deram uma gargalhada irreverente.

Mais tarde, lá pelas nove, quando já era hora de ir para a cama, as crianças não opuseram nenhuma resistência. Alguns anos antes, ou então fingiam deitar-se, apagavam a luz, mas ficavam alerta e, à meia noite, no escuro, saíam devagarzinho do quarto para assistir à chegada de Jesus. E o Menino, então, para enganá-los, depositava os presentes nos lugares mais inesperados, onde as crianças menos esperavam.

Mas agora, que não acreditavam mais, as crianças desempenhavam docilmente seu papel. De qualquer modo — pensavam — os presentes já estão em casa, fechados à chave num armário qualquer. Quanto mais cedo fossem dormir — era este o raciocínio —, tanto mais cedo os pais se sentiriam livres e tirariam os presentes do esconderijo para dispô-los bem à vista, aos pés da arvorezinha de Natal.

Quanto aos pais, geralmente, na véspera de Natal, iam também iam dormir logo que os filhos estivessem quietos. E ao acordá-los era uma explosão de gritos, quando os meninos, após muitas buscas descobriam o montinho de presentes.

Desta vez, ao contrário, Sala ficou de pé. As palavras dos amigos continuavam a redemoinhar em sua cabeça, tanto assim que falou com a mulher.

A princípio, a mulher protestou, como se fossem mentiras ignóbeis. Pouco a pouco, porém, rememorando certos detalhes do passado, ela também começou a ter dúvidas.

— E se fizéssemos um teste? — propôs ele. — Se olhássemos dentro dos móveis?

A casa não era grande. Nem eram os muitos os móveis onde poderiam ser recolhidos os brinquedos. Procurara, com o cuidado de não fazer barulho, para que as crianças, ao lado, não acordassem.

Abriram o armário da roupa branca. Nada. O dos vestidos. Nada. O garda-louça da cozinha. Nada. Mas, na última gaveta da cômoda do quarto, viram um pacote que não estava ali antes.

— Quem sabe se aqueles dois têm razão? Quer ver que o Menino Jesus nos enganou? — Colocaram o pacote na cama, cortaram os barbantes.

— Virgem Maria! — murmurou a senhora Sala. No pacote havia uma cozinha de boneca para Anna, uma pistola de western para Rodolfo, um trenzinho de molas para Enrico, uma magnífica bola para Mauricio, o menor, a quem chamavam Mao.

— Por Deus, se aqueles dois têm razão! — imprecou Sala baixinho e por pouco não blasfemou. — mas qual é a graça destas brincadeiras? — de fato, em cada presente despontava a etiqueta com o preço. Mais: os cartõezinhos com a dedicatória: “Para Anna”, para Rodolfo” etc., estavam escritos com uma letra quase idêntica à sua.

Com as unhas, então, Sala apressou-se em retirar as etiquetas com os preços, depois pegou a caneta estilográfica com a intenção de alterar um pouco a escrita, para que não se parecesse mais com a sua.

Mas naquele momento a porta escancarou-se. E na soleira, de pijama ou de camisola, apareceram de repente os quatro filhos que, vendo os brinquedos, lançaram gritos selvagens, dando pulos e rindo como loucos.

— Pegamos vocês… Pegamos vocês! — gritaram, pulando como fúrias sobre os pais. — Que fiasco! que fiasco! vocês são o Menino Jesus. Vocês são o Menino… Oh! como foram bons!

Felizes arrastaram pelo quarto o pai e a mãe, numa frenética dança selvagem. Depois, de repente, os deixaram, para se atirar sobre os presentes com novas explosões de alegria.

E os pais ficaram parados com cara de cretinos.


Dino Buzzati
nasceu no dia 16 de outubro de 1906 em San Pellegrino, Itália, próximo a Belluno, na secular vila de propriedade da família. Desde a mocidade os temas e as paixões do futuro escritor se manifestaram e a elas ele permaneceu fiel por toda a vida: a poesia, a música (estuda violino e piano), o desenho e a montanha, verdadeira companheira da infância. “Eu penso”, diz Buzzati numa entrevista concedida em 1959, “que em todo escritor as primeiras memórias da infância são uma base fundamental. As impressões mais fortes que eu tive de criança pertencem à terra onde eu nasci, o vale do Belluno, às montanhas selvagens que o cercam e à vizinha Dolomit. Um mundo completamente nórdico, ao qual se juntou o patrimônio das recordações juvenis e a cidade de Milão, onde minha família sempre viveu no inverno.”

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Literamundo – AMOR

AMOR

A definição materialista de amor é uma definição de comunidades, uma construção de relações afetivas que se estendem através da generosidade e que produz agenciamentos sociais. O amor não pode ser algo que se fecha no casal ou na família; deve abrir-se para comunidades mais vastas. Deve construir, caso a caso, comunidades de saber e de desejo; deve tornar-se construtor do outro. O amor é hoje fundamentalmente a destruição de todas as tentativas de fechar-se na defesa de algo que não pertence a si. Creio que o amor é a cheve essencial para transformar o próprio em comum.

(Antonio Negri em Exílio)

LITERAMUNDO – ENTREVISTA ESPECIAL COM ESTHER DIAZ

“O gênero é uma construção social”.

Entrevista especial com Esther Diaz (segunda parte – 1ª parte da entrevista aqui)

Segundo a filósofa argentina, Esther Diaz, “o sexo é poder não somente pela obviedade de que quem exerce fortemente o poder tem muito mais possibilidades de manter encontros sexuais do que aqueles que carecem de poder”. Em entrevista à IHU On-Line, realizada por e-mail, ela falou sobre a forma como a sexualidade foi encarada em diferentes épocas e pensadores, como Foucault, Nietzsche e Platão. Além disso, ela observa a sexualidade e o sexo em si a partir de uma visão biopolítica. “A sexualidade é manejada pelo biopoder para reafirmar as estruturas patriarcais da sociedade”, afirmou.

Esther Diaz é doutora em filosofia pela Facultad de Filosofía y Letras da Universidad de Buenos Aires. Atualmente, é professora do Departamento de Humanidades y Artes de la Universidad Nacional de Lanús.


IHU On-Line – Em um de seus textos, a senhora diz que estamos testemunhando uma nova fase de criação do nosso desejo. Em que sentido isso está relacionado com o fato da pós-modernidade estimular o desejo sexual? Pode nos explicar essa teoria?

Esther Diaz – Se a sexualidade surgiu do segredo sobre os meandros do desejo e de proibições que estimulavam o desejo (inclusive, em alguns casos, as chamadas “perversões”), em nossa época, em que os meios em geral e a Internet em particular mostram absolutamente tudo o que é relacionado ao sexo (e que antes não podia ser mostrado), é natural que se registre uma depressão do desejo (já que nada é tão desejado quando o proibido). Dessa forma, nossos desejos hoje continuam relacionados com o sexo (dentre outros apetites), mas já não com a intensidade do enigma e do mistério. É por isso que considero que estamos atravessando uma época de pós-sexualidade. Isso não quer dizer que não continuaremos mantendo relações sexuais, mas sim que o estímulo para elas apresenta características diferentes com relação à sexualidade moderna.

Essas questões são de sumo interesse para a militância social, já que de nada serve atender somente o problema da mulher agredida (digamos como exemplo), se os dispositivos sociais continuam sendo machistas. Além disso, ser submissa não garante lucidez. As próprias mulheres, muitas vezes sem nos darmos conta, contribuem com o esquema patriarcal, ao estimular os meninos a brincar com armas de guerra, ou jogos violentos como o futebol, e as meninas a brincar com bonecas ou a cozinhar. Desse modo, continuamos reproduzindo homens que vão à frente e são ganhadores, e mulheres sensíveis que se submetem e, em geral, são perdedoras. É inconcebível que, no terceiro milênio, ainda continuamos dizendo que as mulheres são frágeis por expressar seus sentimentos, e que “os homens não choram”. Isso não é assim “naturalmente”. É uma construção social a serviço do poder sexual do macho.

Notas:
[1] Michel Foucault foi filósofo e professor  da cátedra de História dos Sistemas de Pensamento no Collège de France desde 1970 a 1984. Todo o seu trabalho foi desenvolvido em uma arqueologia do saber filosófico, da experiência literária e da análise do discurso. Seu trabalho também se concentrou sobre a relação entre poder e governamentalidade, e das práticas de subjetivação. Sobre ele, a IHU On-Line dedicou a edição 335, intitulada Corpo e sexualidade. A contribuição de Michel Foucault; 203, cujo título é Michel Foucault, 80 anos; e 119, chamada Michael Foucault e as urgências da atualidade. 20 anos depois.

[2] Platão foi um filósofo e matemático do período clássico da Grécia Antiga, autor de diversos diálogos filosóficos e fundador da Academia em Atenas, a primeira instituição de educação superior do mundo ocidental. A edição 294 da Revista IHU On-Line, cujo títutlo é Platão, a totalidade em movimento, dedicou-se ao pensador.

[3] Schopenhauer foi um filósofo alemão  do século XIX.Seu pensamento é caracterizado por não se encaixar em nenhum dos grandes sistemas de sua época. Sua obra principal é O mundo como vontade e representação (1819), embora o seu livro Parerga e Paralipomena (1851) seja o mais conhecido. Schopenhauer foi o filósofo que introduziu o Budismo e o pensamento indiano na metafísica alemã.

[4] Nietzsche foi um influente filósofo alemão  do século XIX. Crítico da cultura ocidental e suas religiões  e, consequentemente, da moral judaico-cristã. Nietzsche é, juntamente com Marx e Freud, um dos autores mais controversos na história da filosofia moderna, isto porque, primariamente, há certa complexidade na forma de apresentação das figuras e/ou categorias ao leitor ou estudioso, causando confusões devido principalmente aos paradoxos e desconstruções dos conceitos de realidade ou verdade como nós ainda hoje os entendemos. A IHU On-Line dedicou o número 127, cujo título é Nietzsche Filósofo do martelo e do crepúsculo.

[5] Freud foi um médico neurologista austríaco e judeu, fundador da psicanálise. Iniciou seus estudos pela utilização da hipnose como método de tratamento para pacientes com histeria. Ao observar a melhoria de pacientes de Charcot, elaborou a hipótese  de que a causa da doença era psicológica, não orgânica. Essa hipótese serviu de base para seus outros conceitos, como o do inconsciente. também é conhecido por suas teorias dos mecanismos de defesa, repressão psicológica e por criar a utilização clínica da psicanálise como tratamento da psicopatologia, através do diálogo entre o paciente e o psicanalista. Freud acreditava que o desejo sexual  era a energia motivacional primária da vida humana, assim como suas técnicas terapêuticas. Ele abandonou o uso de hipnose em paciente com histeria, em favor da interpretação de sonhos e da livre associação, como fontes dos desejos do inconsciente. A IHU On-Line dedicou as edições 207, Freud e a religião; e 179, Sigmund Freud – Mestre da suspeita.

[6] Spinoza foi um dos grandes racionalistas do século XVII dentro da chamada Filosofia Moderna, juntamente com René Descartes e Gottfried Leibniz. Nasceu em Amsterdão, nos Países Baixos, no seio de uma família judaica portuguesa e é considerado o fundador do criticismo  bíblico moderno.

LITERAMUNDO enuncia: A Filósofa Judith Revel, desnudando o capitalismo (Parte 2/2)

O Instituto Humanitas Unisinos entrevista a filósofa francesa Judith Revel, que fala sobre as transformações do capitalismo, o mundo do trabalho e a transformação da representação política. Parte 2 de 2. A primeira parte você confere aqui.

A passagem do capitalismo material ao imaterial cognitivo e a crise da representação política. Entrevista especial com Judith Revel

PARTE II

IHU On-Line – Segundo Foucault, nossa subjetividade nunca cessa de se inventar. Que limitações nossa subjetividade e autonomia encontram quando confrontadas com a alteridade, o Outro?

Judith Revel – Penso que a questão do Outro é uma questão errada. Ela foi importante na questão filosófica francesa nos anos 50 e, provavelmente, já antes da guerra. O Outro é pensado, ao mesmo tempo, como meu próprio vis-à-vis, como o objetivo que é preciso que eu alcance.

Tenho tendência a pensar que para Foucault, a relação consigo mesmo, a relação com o Outro, é pensada de maneira diferente e, ao mesmo tempo, não é uma ciência de natureza. Pois, finalmente, quem sou eu?

Sou sempre o Outro de mim mesmo. Não sou alguém, no sentido a quem se poderia se dizer algo. Poderia descrever meu estado estável de processo. Eu sou o processo, o porvir. Então, sou algo hoje que não serei mais amanhã, quando serei diferente. Terei vontade de ser diferente. A relação comigo mesma é uma relação não de alteridade, pois para dizer Outro é preciso sempre a estrutura do mesmo e do Outro; o Outro como o outro do mesmo. A expressão do círculo elíptico. Penso que a relação consigo mesmo, para Foucault, é sempre de diferencial. Não se trata de falar do Outro, de alteridade, mas sim de ser diferente. Sobre isto, penso que Jacques Derrida tinha uma grande definição desde os anos 60. Como se faz para não se definir como uma identidade, uma substância, uma entidade, sabendo-se mesmo que se vai tornar um diferencial? Que se vai ficar diferente de si mesmo? Quer dizer, na subvenção do movimento de uma evolução.

Então, se digo isso de mim mesma, sou obrigada a dizer que a relação que tenho com o Outro é diferente disto. O Outro é aquele que não sou eu. E eu quem sou? O Outro é aquele que não sou eu e, ao mesmo tempo, posso descobrir, em função das circunstâncias, de situações, de comprometimento, extremamente fortes. Dou-lhe um exemplo: em novembro de 2005, ocorreu na França a revolta dos subúrbios. Logo em seguida, houve um movimento de estudantes em março ou abril de 2006. Alunos de subúrbios se uniram a estudantes da Universidade Sorbonne de Paris. O que eles tinham em comum? Nada. Os estudantes da Sorbonne de Paris são, na maioria, não todos, alunos loiros de famílias da pequena, média e grande economia parisiense. Os alunos de subúrbio têm muito pouco acesso à universidade. Entretanto, ambos diziam: “Nossa vida é roubada”. Claro que há uma diferença entre ambos, mas isso não separava as pessoas. Ela os unia na busca de um comum pelo qual era preciso lutar. Penso que isso é algo que representa o pensamento da relação com o Outro. É finalmente isso a subjetivação da qual fala Foucault.

IHU On-Line – Como podemos compreender a dinâmica da subjetividade que construímos constantemente, ao lado dos condicionantes aos quais somos forçados a aceitar?

Judith Revel – É preciso sair da lógica do “tudo ou nada”. Somos forçados a aceitar as obrigações somente porque não há exterioridade. O poder se dá através das relações afetivas, entre familiares, entre pais e filhos, de sentimento de afeto, de amor entre um homem e uma mulher, de saberes entre um aluno e seu mestre. Há relações de poder em tudo, com vários rostos. Então, dizendo isto, não é mais possível pensar na resistência ao poder, ou seja, na subjetivação. É impossível pensar na subjetivação que está externa ao poder. Se estamos sempre “no interior das redes do poder”, para usar uma expressão de Foucault, somos obrigados a aceitar que esta relação de poder passa através do Outro.

Mas não somos sempre submetidos a isso, pois somos simultaneamente atores ou submissos ao poder. A única coisa que se pode fazer é – aí que a resistência e a subjetivação tomam força – torcer, no próprio interior desta relação de poder, a maneira na qual ele se exprime. Devemos dobrar, contornar, afastar, trabalhar internamente todos os dispositivos que nos atravessam e que nos fazem também ser o que somos. A única possibilidade de subjetivação está no próprio interior das relações que nos atravessam para chegar a impor um distanciamento. Mas o que é este distanciamento? Aí está toda a questão. Foucault responde simplesmente que o distanciamento é que a subjetivação é capaz de fazer algo que o poder não é capaz de fazer. O poder age sobre a ação dos homens, e lembro uma frase também de Foucault: “O poder é um modo de ação sobre a ação dos homens”. Enquanto isso, a resistência não faz nada além de agir. Ela não é somente reativa. A resistência produz, cria, inventa. Quando se fala de subjetivação, se fala de uma produção de subjetividade. Ou seja, de uma invenção de subjetividade. Construo-me de maneira inédita. E isto o poder não é capaz de fazer. O próprio sentido do poder é reativo, gestor, mas não criativo. É nesse descompasso, finalmente, que o problema do comprometimento ou o problema da obrigação desaparece. Certamente existe obrigação.

IHU On-Line – De que forma a urgência de liberdade que animava as manifestações de Maio de 68 continua uma demanda atual?

Judith Revel – Dizer que maio de 68 ainda é atual não quer dizer que o que acontece hoje é maio de 68. Nesse período, aconteceu uma revolução, que interveio em um contexto no qual a economia era frutífera. A França vivia os trinta anos gloriosos. O desemprego praticamente não existia, era de 4%. A vontade de revolta era política e cultural radical. Era a vontade de “tomar a palavra”.

Limitações pós-68

Hoje, o que acontece em relação a maio de 68, é ignorado. É ignorado que, na França, o desemprego está em 10%; para os jovens de subúrbio, ele é de 30%. O contexto econômico e social é totalmente diferente. Mas há também pontos em comum que, apesar de não permitirem dizer que 2008 e 68 são a mesma coisa, ajudam a entender que 2008 é um tipo de eco, a distância, do que 68 permitiu. Os pontos em comum entre os períodos são uma definição aberta da história, ontológica e não dialética na qual o homem pode intervir e construir a história, fazê-la e construí-la. Uma nova definição da subjetividade ou da subjetividade coletiva que emerge é fundamentalmente nova em relação a uma gramática biopolítica que foi a da modernidade. Há também a questão dos modos de ação, que são totalmente diferentes e não passam necessariamente pelos critérios da representação política, tais como o pensamento político moderno nos havia ensinado. Neste sentido sim, 2008 é o filho de 68.

IHU On-Line – Em entrevista à nossa revista, em 2006, a senhora disse acreditar no poder ontológico dos seres humanos. Que aspectos destacaria nesse sentido, como conquistas/progressos que o ser humano realizou para "se melhorar"?

Judith Revel – A ideia de melhora é complexa, pois foi muito tempo associada ao progresso científico e tecnológico. Não faço parte do grupo de pessoas que demonizam esse progresso.

Existe hoje um discurso importante de “decrescimento” usado na esquerda, na extrema esquerda, no qual seria o caso de sair deste ciclo econômico para voltar a algo que seria anterior. Não se volta nunca atrás, e também não se pode dizer a alguém que não tem nada que está tudo bem assim e que o consumo é algo horrível. As pessoas que não têm nada têm vontade de conseguir as coisas que possuímos. Por isso, é extremamente difícil construir um modelo ou de sair do consumo mesmo se a grande maioria da humanidade não tem acesso a esse consumo.

A contradição está na desigualdade e não no consumo. Então, o que se entende por melhora da condição humana? Entende-se, é claro, um acesso geral, generalizado de todos a esse bem-estar. Quando digo bem-estar, não quero dizer acumular roupas em um armário, e sim saúde, educação, cultura, gosto, felicidade.

Direitos à vida e não à sobrevivência

Penso que o conceito de felicidade é algo que não se deve considerar levianamente. Concretamente, quer dizer o quê? Quando conversamos com pessoas que não têm documentos, com imigrantes, com sujeitos que estão abaixo do limite da pobreza, elas dizem: “Gostaríamos de comer, de beber, pois não temos o que comer nem o que beber. Gostaríamos de ter tratamentos, de ter escolas.” Elas dizem também: “Gostaríamos de ver coisas belas, de ir a cidades, de ver o mar, de ver quadros, escutar músicas, de poder nos reunir, de nos apaixonar etc.”. Para mim, a melhora da vida humana, hoje, traz esses elementos. Ou seja, dizer o que é um direito inalienável para os homens e para as mulheres. Quando me refiro a direito inalienável, lembro que seria preciso reescrever hoje a Declaração Universal dos Direitos Humanos, da qual acabamos de festejar o aniversário. Penso que é preciso começar na ordem das coisas, ou seja, eliminar as desigualdades mais explícitas e reivindicar estes diretos inalienáveis. Quando obtivermos isso, poderemos dizer que a resistência é possível. Tornar possível a resistência é um direito.

IHU On-Line – Considerando a dinâmica da internet e as novas formas de produção e reprodução dos conteúdos, qual a relevância de discutir o direito autoral?

Judith Revel – Os direitos autorais são fundamentais, pois permitem reafirmar um setor novo, extremamente valorizado do ponto de vista econômico, ou seja, produzem enormemente valores econômicos. Permitem impor, neste novo setor, uma ideia muito antiga, a da propriedade. Se refletirmos sobre a ideia da propriedade, seja um bem intelectual ou material, pouco importa. O que é surpreendente, e extremamente banal, mas sobre o que se pensa muito pouco, é que não sou proprietária de algo.
Minha propriedade é a expropriação de todos os outros. Uma coisa é minha porque não é de outra pessoa. Esta é a ideia da propriedade. Então, não se pode pensar nisso sem uma ideia de expropriação. Penso que é também uma maneira de limitar os homens e “para bem vir é preciso dividir”, como diz o velho adágio. Então, o que se pode fazer diante desta ideia de propriedade? Pode-se, é claro suprimi-la totalmente. Mas pode-se fazer algo mais interessante, pois, historicamente, o contexto tentou suprimir a propriedade privada. Penso, por exemplo, no modelo soviético. Independentemente do julgamento moral, o regime soviético não funcionou porque se transferiu a propriedade privada para a propriedade do Estado.

Ora, a propriedade do Estado é o quê? É tudo o que pertence a ele, pois não pertence a mais ninguém. É exatamente como a propriedade privada. Salvo que o proprietário é um só: o Estado. Da propriedade classicamente privada, somente um era o proprietário; os outros não tinham nada. Da propriedade do Estado, ninguém é proprietário, pois ela é do Estado. Você me dirá: “Sim, mas o Estado somos nós”. Mas, infelizmente, não é assim que funciona. É daí que nasce o problema. Antonio Negri e Michael Hardt tentam pensar uma outra categoria que não seja nem privada nem pública, mas intermediária, que poderia ser interessante para repensar a propriedade. É a categoria do comum, sendo este aquilo que é de todos.

É uma categoria difícil, pois não pertence à modernidade e é, me parece, o que a dimensão imaterial do conhecimento e a internet começaram a experimentar. Penso em toda esta troca, este compartilhar de conhecimentos que acontece através da internet. Tudo isso configura um grande desafio, pois nos permitirá, para além do imaterial, repensar também a propriedade material, ou seja, repensar o bem comum. O bem comum é literalmente o “common good”. “Common good” é o titulo do livro de Antonio Negri e de Michael Hardt que será lançado no ano que vem e, que espero, nos ensinará muitas coisas.

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Judith Revel é filósofa e leciona na Universidade de Paris, Panteon-Sorbonne. Especialista no pensamento francês contemporâneo e particularmente em Michael Foucault, sobre o qual dirigiu a edição italiana dos Ditos e Escritos (Feltrinelli, 1996-1998), prepara um livro sobre a genealogia do conceito de diferença na França após 1945. Sua última obra publicada é Michel Foucault: Expériences de la pensée [Experiências do pensamento]. Paris: Bordas, 2005. É membro da redação da revista italiana Posse, e participa também da revista Multitudes. A filósofa esteve recentemente no Brasil palestrando no III Colóquio Franco-Brasileiro de Filosofia da Educação: "Foucault, 80 anos", ocorrido de 9 a 11-10-2006 no Rio de Janeiro.

A íntegra da entrevista pode ser lida aqui.

LITERAMUNDO enuncia: A Filósofa Judith Revel, desnudando o capitalismo

O Instituto Humanitas Unisinos entrevista a filósofa francesa Judith Revel, que fala sobre as transformações do capitalismo, o mundo do trabalho e a transformação da representação política. Parte 1 de 2.

A passagem do capitalismo material ao imaterial cognitivo e a crise da representação política. Entrevista especial com Judith Revel

Relembrando os acontecimentos de maio de 68, a filósofa francesa Judith Revel  lamenta a atual conjuntura de seu país e diz que o mundo não carrega mais as heranças revolucionárias daquele período. Com a crise internacional, aponta, “vemos uma França que não tem mais as certezas que podia ter, mesmo quando se pensava que nela havia, apesar de tudo, algo como welfare, como um Estado de providência”. “Hoje, assiste-se na Europa, mas não somente nela, a uma verdadeira crise da representação política”, diz Judith Revel à IHU On-Line. Ela ainda acrescenta: “O conceito de representação política, fundamental na constituição do pensamento político moderno, não funciona mais enquanto tal”.

Visto como um país cumpridor de suas obrigações perante os cidadãos, a França vive um novo momento, mais sombrio, onde mais da metade da população teme ficar desabrigada. “A França foi, por muito tempo, o país do direito do trabalho, da proteção social, foi, por muito tempo, o país onde os seguros-desemprego, os seguros familiares, os seguros de saúde, a previdência social, os hospitais, as escolas, as universidades funcionavam gratuitamente e para todos. Hoje, isto está se tornando cada vez menos verdade”, compara.

Para aqueles que não acreditam na democracia ou perderam as esperanças de viver em um mundo melhor, igualitário e justo, a filósofa tem um recado: a democracia não é “algo que se deva rejeitar”, e continua: “é preciso sem dúvida rearticular, ou em todo caso, repensar, redefinir uma maneira de organizar a democracia que seja diferente”.

Na ampla entrevista concedida por telefone à IHU On-Line, quando esteve no Brasil participando do “Fórum Livre do Direito Autoral – O Domínio do Comum”, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Judith Revel também analisa as mudanças da subjetividade humana e as relações de poder existentes entre os indivíduos. “Não sentimos mais as coisas da mesma maneira, não vivemos mais o tempo do mesmo jeito, não pensamos mais a história do mesmo modo. Mas também não pensamos o poder, a luta e o conflito da mesma maneira. Isto é uma abertura de visão que considero surpreendente”, considera.

Judith Revel é filósofa e leciona na Universidade de Paris, Panteon-Sorbonne. É especialista no pensamento francês contemporâneo, particularmente em Michel Foucault. Entre suas obras, citamos Michel Foucault: Expériences de la pensée (Paris: Bordas, 2005). É membro da redação da revista italiana Posse, e participa também da revista Multitudes.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como a senhora descreve e qual sua avaliação sobre a atual conjuntura política e econômica francesa?

Judith Revel – A chegada de Nicolas Sarkozy ao poder representou uma ruptura. Finalmente, ele utilizou-se e rompeu com um modelo que era o de De Gaulle. Quando se pensa no gaulismo na França, fala-se de uma direita bem pouco liberal que continua, apesar de tudo, relativamente social.

Com Sarkozy, o que impressionou muito os franceses foi a negação em relação às suas posições que construíram a direita francesa, a vontade de se alinhar com uma posição americana, e também de construir ou de reconstruir um discurso de direita sobre um discurso hiperliberal. Este é um primeiro ponto.

O segundo aspecto importante – importante porque se veem os efeitos que há na crise atual na França –, é que o atual presidente francês procurou manter um discurso muito pró-europeu. E, ao mesmo tempo, ele se referiu permanentemente à grandeza da nação no bom momento em que a globalização torna difícil, senão impossível, o retorno a diferenças nacionais, independentes. Então, se trataria de preservar a autonomia ou de proteger a integridade? O protecionismo francês de Sarkozy funciona sem nenhuma contradição, enquanto é contraditório como um discurso pró-europeu. Ele ganhou há um ano e meio, recuperando claramente uma parte pequena, mas importante, do discurso de extrema direita, referindo-se ao discurso da imigração.

Medo assombra franceses

Hoje, no próprio momento em que a crise explodiu, penso que vemos uma França que não tem mais as certezas que podia ter, mesmo quando se pensava que nela havia, apesar de tudo, algo como welfare, como um Estado de providência. A França foi, por muito tempo, o país do direito do trabalho, da proteção social, o país onde os seguros-desemprego, os seguros familiares, os seguros de saúde, a previdência social, os hospitais, as escolas, as universidades funcionavam gratuitamente e para todos. Hoje, isto está se tornando cada vez menos verdade. Por vezes, já é completamente falso. E esta regressão, este tipo de reverso do antigo welfare francês, é acompanhada por uma violência nas intervenções sociais. O desemprego técnico, a diminuição de cargos, a redução das garantias dos direitos do trabalho, as dificuldades de acesso aos hospitais e a não gratuidade de certos medicamentos formam uma paisagem nova para os franceses.

Todos os anos, o Jornal de Domingo, um telejornal nacional, realiza uma pesquisa com os franceses. Ele pergunta: “Qual é o seu maior medo?”. Este ano, como no ano passado, mais de 50% dos franceses responderam: “Nosso maior medo é de nos encontrarmos na rua”. Ou seja, sem casa. O que quer dizer que, para a maioria dos franceses, a possibilidade de encontrar-se sem teto não é inverossímil. Inversamente, se analisarmos todos os Sem Domicílio Fixo (SDF) que vivem na rua em Paris, 29%, ou seja, um terço, dessas pessoas não têm casa, apenas um contrato regular. Então, reduziu-se a vida na França. Há condições de sobrevivência e não mais de vida. Não falo dos franceses que têm, apesar de tudo, direitos, nem dos imigrantes ou de imigrantes clandestinos, para os quais a vida não é nem mesmo da ordem da sobrevivência. Falo, isto sim, do pesadelo.

IHU On-Line – Pode traçar um panorama do pensamento filosófico e social da França das últimas décadas?

Judith Revel – Não, um panorama é extremamente difícil. O que posso dizer é 1968 correspondeu, para a França como para inúmeros países da Europa e fora dela, uma ruptura muito forte. Esta ruptura na França consistiu em três coisas. A primeira é a hipótese de que não havia fatalidade histórica, que não havia concepção dialética da história que nos fechasse em algo que já estava determinado e escrito antes mesmo de nossa ação. Havia, sim, para os homens, a possibilidade de construir sua história, e esta possibilidade incluía escolhas que se podia assumir e gerir de maneira voluntária e também cheia de esperança.

A segunda é que os sujeitos desta história não eram os que se esperavam. Se pensarmos do ponto de vista social e político, não francês, mas mundial, a defesa dos oprimidos, desde o século XIX, se faz seguidamente, não sempre, com referências a Marx. Lembro, por exemplo, de um certo pensamento francês, pós-estruturalista, de Foucault, Deleuze, Guattari, Derrida, ou, mais próximo de mim, de Jacques Rancière. Todo este pensamento francês que gira em torno de 68, ou um pouco antes de 68, e continua bem além, fez a hipótese dos sujeitos da mudança, da transição, da revolução, da ruptura. Estes sujeitos, que foram pensados pelo marxismo ortodoxo como já constituídos como os proletários, podiam ter rostos diferentes. Operários e imigrantes estavam juntos no mesmo combate, e formaram um sujeito unitário de mudança. O fato de que a subjetividade política, coletiva, emerge, de maneira nova, na segunda metade do século XIX, não corresponde mais às estruturas de ação coletiva que se conheceu no século XIX. No entanto, outra coisa que emerge e cuja criatividade, a capacidade de inventar uma modalidade de ação, é absolutamente inovadora. Esta ideia, fundamental, ainda hoje nos habita, se pensarmos, por exemplo, no que está acontecendo na Grécia. Lá não existem “quebradores”, mas sim anarquistas e não-anarquistas, estudantes e alunos, pesquisadores e pais de alunos. São pessoas que em protesto saem às ruas e dizem palavras como: “Também sou proletário, também faço parte da geração que ganha 600 euros por mês”. O que nos países europeus, e também na Grécia, é absolutamente insuficiente para viver, quando se pensa no custo de vida na Europa. Esta subjetividade é grande, forte e poderosa, e age.

A terceira ideia herdada de 68, ainda muito forte hoje – em todo o caso, seria preciso recomeçar a pensar nela –, é que as modalidades de ação política não tomam sempre o formato constituído pelo pensamento político e da filosofia política da modernidade. Hoje, assiste-se na Europa, mas não somente nela, a uma verdadeira crise da representação política. O conceito de representação política foi fundamental no pensamento político moderno, pois permitiu pensar no funcionamento da democracia a partir do século XVIII. Hoje, cada vez mais existem situações nas quais se tem a impressão de que a representação política não funciona mais enquanto tal. O que não quer dizer que a democracia é algo que se deva rejeitar, ou que é uma coisa ruim. Mas, sim, de que é preciso sem dúvida rearticular, ou, em todo caso, repensar, redefinir uma maneira de organizar a democracia que seja diferente. Um exemplo: em 2002, nas eleições presidenciais francesas, entre um candidato de extrema direita racista, Jean-Marie Le Pen e o candidato de direita, Jacques Chirac, todo o país votou em Chirac, contra a extrema direita. O que quer dizer que ele foi eleito com 82% dos votos. Quando se pensa nesse total, trata-se de um voto mascarado, e não em um voto democrático. 82% não representa a vontade política das pessoas. É simplesmente a vontade de colocar um obstáculo para algo que é um perigo. Ninguém queria essa popularidade para Chirac, mas muitas pessoas – das quais faço parte – votaram nele, e não queriam que ele fosse eleito presidente. Mas fomos obrigados a fazê-lo. Este é um exemplo clássico de que a representação tem limites. Há também as pessoas que não podem votar. Todos os estrangeiros que contribuem para a economia francesa, que trabalham no país, que pagam impostos, não têm direito ao voto. Então, o que é reinventar a democracia neste contexto? Penso que é provavelmente a questão que está no cruzamento da herança do pensamento filosófico e político francês desde 1968. É uma questão a qual é preciso absolutamente começar a refletir, e tentar responder hoje.

IHU On-Line – Que transformações a senhora percebe no homem pós-moderno, ao assumir sua subjetividade? O que nos tornamos hoje, a partir do momento em que assumimos a nossa subjetividade?

Judith Revel – A situação é complexa, pois é, ao mesmo tempo, mais difícil e aberta. É evidente que a passagem a um paradigma de trabalho, de luta em prol da produção de bens materiais em série ou a produção do valor econômico, no sistema capitalista se faz a partir da economia material, e os partidos trabalhadores não têm muito que fazer a respeito. Pensa-se mesmo em afastá-los.

A passagem do capitalismo material ao imaterial cognitivo permitiu às pessoas que trabalham hoje, inclusive nas estruturas de trabalho imaterial, fazerem valer ou reintegrar a subjetividade no processo de valorização. Quando se recruta alguém para um trabalho, inclusive em países de economia desenvolvida, avançada, pede-se para ter conhecimentos ou uma experiência, de ter uma história e de colocar em sua produção toda esta vida que é a sua. A produção tornou-se biopolítica. Ela é obrigada a interagir com a subjetividade dos homens e das mulheres. Então, isso é uma abertura. Pode-se ver também o contrário. Quer dizer, finalmente, neste tipo de integração à subjetividade ao processo de valorização, ao processo de produção do valor, insiste-se em um tipo de extorsão que é extremamente forte, do poder da economia capitalista sobre os homens. Quer dizer que o poder, desde então, “comeu” a vida dos homens de tal forma que o tempo de trabalho é o tempo de toda a sua vida. Mesmo quando não trabalham, estão em casa, sonham, leem, assistem televisão, e quando amam. Então, as duas percepções são, ao mesmo tempo, uma extorsão do poder e uma sorte formidável.

Economia material x imaterial

No passado, quando estávamos em um tipo de economia material, a única coisa que o trabalhador podia fazer, quando explorado e roubado em sua própria produção, era quebrar os instrumentos de trabalho, pois as ferramentas e as máquinas não pertenciam a ele. Era preciso, então, interromper a cadeia de montagem, fazendo uma greve. Hoje, é bem mais simples. Não temos mais somente máquinas diante de nós. A máquina principal na produção econômica é o cérebro. Se quero denunciar um tipo de exploração do qual sou objeto, posso partir com meu cérebro. A máquina não pertence mais ao patrão. A máquina produtiva é meu cérebro: ele é meu, e isso é minha subjetividade. Então, penso que a relação de força está extraordinariamente reequilibrada por esta integração da subjetividade no processo econômico. Ela é minha, e o capital precisa dela.

Ao mesmo tempo, o capital investe em minha vida, o que é um problema. Penso que as duas coisas marcam ou definem uma condição que é nova. Não sei se é a condição do pós-moderno, mas é evidente que produz mudanças extremamente finas, inclusive no que se refere ao modo de vida. Penso que são realmente mudanças antropológicas que compõem a nova antropologia do homem pós-moderno a ser definido. Não sentimos mais as coisas da mesma maneira, não vivemos mais o tempo do mesmo jeito e não pensamos mais a história do mesmo modo. Mas também não pensamos o poder, a luta e o conflito da mesma maneira. Isto é uma abertura de visão que considero surpreendente.

(Continua…)

LITERAMUNDO: “O Gigante Egoísta” – Oscar Wilde

enuncia

O GIGANTE EGOÍSTA

*Oscar Wilde

Todas as tardes, ao regressar da escola, costumavam as crianças ir brincar no jardim do Gigante.

Era um jardim amplo e belo, com um macio e verde gramado. Aqui e ali, por sobre a relva erguiam-se lindas flores como estrelas e havia doze pessegueiros que na primavera floresciam em delicados botões cor-de-rosa e pérola, e no outono davam saborosos frutos. Os pássaros pousavam nas árvores e cantavam tão suavemente que as crianças costumavam parar seus brinquedos, a fim de ouvi-los.

"Como somos felizes aqui!", gritavam uns para os outros.

Um dia o Gigante voltou. Tinha ido visitar seu amigo o Ogre de Cornualha e ali vivera com ele durante sete anos. Passados os sete anos, dissera tudo quanto tinha a dizer, pois sua conversa era limitada, e decidiu voltar para seu castelo. Ao chegar, viu as crianças brincando no jardim.

– Que estão vocês fazendo aqui? – gritou ele, com voz bastante ríspida e as crianças puseram-se em fuga.

– Meu jardim é meu jardim – disse o Gigante -. Todos devem entender isto e não consentirei que nenhuma outra pessoa, senão eu, brinque nele.

Construiu um alto muro cercando-o e pôs nele um cartaz:

É PROIBIDA A ENTRADA – OS TRANSGRESSORES SERÃO PROCESSADOS.

Era um Gigante muito egoísta.

As pobres crianças não tinham agora lugar onde brincar. Tentaram brincar na estrada, mas a estrada tinha muita poeira e estava cheia de pedras duras, e isto não lhes agradou. Tomaram o costume de vaguear, terminadas as lições, em redor dos altos muros, conversando a respeito do belo jardim por eles cercados. "Como éramos felizes ali!" diziam uns aos outros.

Depois chegou a primavera e por todo o país havia passarinhos e florinhas. Somente no jardim do Gigante Egoísta reinava ainda o inverno. Os pássaros, uma vez que não havia meninos, não cuidavam de cantar nele e as árvores esqueciam-se de florescer. Somente uma bela flor apontou a cabeça dentre a relva, mas quando viu o cartaz, ficou tão triste por causa das crianças que se deixou cair de novo no chão, voltando a dormir. Os únicos que se alegraram foram a Neve e a Geada.

– A primavera esqueceu-se deste jardim – exclamaram -. de modo que viveremos aqui durante o ano inteiro.

A Neve cobriu a relva com seu grande manto branco e o Gelo pintou todas as árvores de prata. Então convidaram o Vento Norte para ficar com eles e o vento veio. Estava envolto em peles e bramava o dia inteiro no jardim, derrubando chaminés.

– Este lugar é delicioso – dizia ele -. Devemos convidar o Granizo a fazer-nos uma visita.

De modo que o Granizo veio. Todos os dias, durante três horas, rufava no telhado do castelo, até que quebrou a maior parte das ardósias, e depois punha-se a dar voltas loucas no jardim, o mais depressa que podia. Trajava de cinzento e seu hálito era frio como gelo.

– Não posso compreender por que a Primavera está demorando tanto a chegar – disse o Gigante Egoísta, ao sentar-se à janela e olhar para fora, para seu jardim frio e branco -. Espero que haja uma mudança de tempo.

Mas a Primavera nunca chegou, nem tampouco o Verão. O Outono deu frutos áureos a todos os jardins, mas ao jardim do Gigante não deu nenhum.

– É demasiado egoísta – disse ele.

De modo que havia sempre Inverno ali e o Vento Norte, e o Granizo, e a Geada e a Neve dançavam por entre as árvores.

Uma manhã jazia o Gigante acordado em sua casa, quando ouviu uma música deliciosa. Soava tão docemente a seus ouvidos que pensou que deviam ser os músicos do Rei que iam passando. Era na realidade apenas um pequeno pintarroxo que cantava do lado de fora de sua janela, mas já fazia tanto tempo que não ouvia ele um pássaro cantar em seu jardim que lhe pareceu aquela a mais bela música do mundo. Então o Granizo parou de bailar por cima da cabeça dele, o Vento Norte cessou seu rugido e delicioso perfume chegou até ele pela janela aberta.

– Creio que chegou por fim a Primavera – disse o Gigante, saltando da cama e olhando para fora.

Que viu ele?

Viu um espetáculo maravilhoso. Por um buraco feito no muro, as crianças tinham-se introduzido no jardim, encarapitando-se nas árvores. Em todas as árvores que conseguia ver achava-se uma criancinha. E as árvores sentiam-se tão contentes por ver as crianças de volta que se haviam coberto de botões e agitavam seus galhos gentilmente por cima das cabeças das crianças. Os pássaros revoluteavam e chilreavam, com deleite, e as flores riam, apontando as cabeças por entre a relva.

Era um belo quadro. Apenas em um canto ainda havia inverno. Era o canto mais afastado do jardim e nele se encontrava um menininho. Era tão pequeno que não podia alcançar os galhos da árvore e vagava em redor, chorando amargamente. A pobre árvore estava ainda coberta de geada e neve e o Vento Norte soprava e rugia por cima dela.

– Sobe, menino! – dizia a Árvore, inclinando seus ramos o mais baixo que podia.

Mas o menino era demasiado pequenino.

E ao contemplar o Gigante aquela cena seu coração enterneceu-se.

– Como tenho sido egoísta – disse -. Agora estou sabendo por que a Primavera não vinha cá. Vou colocar aquele pobre menininho no alto da árvore e depois derrubarei o muro e meu jardim será para todo o sempre o lugar de brinquedo para es meninos.

Sentia-se deveras muito triste pelo que tinha feito. De modo que desceu as escadas e abriu a porta de entrada bem devagarinho, saindo para o jardim. Mas quando as crianças o viram, ficaram tão atemorizadas que saíram todas a correr e o jardim voltou a ser como no inverno. Somente o menininho não correu, pois seus olhos estavam tão cheios de lágrimas que não viram o Gigante chegar. E o Gigante deslizou por trás dele, apanhou-o delicadamente com a mão e colocou-o no alto da árvore. E a árvore imediatamente abriu-se em flor e os pássaros chegaram e cantaram nela pousados e o menininho estendeu seus dois braços, cercou com eles o pescoço do Gigante e beijou-o. E as outras crianças, quando viram que o Gigante já não era mau, voltaram correndo e com eles veio também a Primavera.

– O jardim agora é de vocês, criancinhas – disse o Gigante, que pegou um grande machado e derrubou o muro. E quando as pessoas iam passando para a feira ao meio-dia, encontraram o Gigante a brincar com as crianças no mais belo jardim que jamais haviam visto.

Brincaram o dia inteiro e à noitinha dirigiram-se ao Gigante para despedir-se.

– Mas onde está o companheirinho de vocês? – perguntou -. O menino que eu pus na árvore?

O Gigante gostava mais dele porque o havia beijado.

– Não sabemos – responderam as crianças -. Foi-se embora.

– Devem dizer-lhe que não deixe de vir amanhã – disse o Gigante. Mas as crianças responderam-lhe que não sabiam onde ele morava e nunca o tinham visto antes.

E o Gigante sentiu-se muito triste.

Todas as tardes, quando as aulas terminavam, as crianças chegavam para brincar com o Gigante.

Mas o menininho de quem o Gigante gostava nunca mais foi visto de novo. O Gigante mostrava-se muito bondoso para com todas as crianças, contudo tinha saudades do seu primeiro amiguinho e muitas vezes a ele se referia.

– Como gostaria de vê-lo! – costumava dizer.

Os anos se passaram e o Gigante foi ficando muito velho e fraco. Não podia mais tomar parte nos brinquedos, de modo que se sentava numa grande cadeira de braços e contemplava o brinquedo das crianças e admirava seu jardim.

– Tenho belas flores em quantidade – dizia ele , mas as crianças são as mais belas flores de todas.

Numa manhã de inverno, olhou de sua janela, enquanto se vestia. Não odiava o Inverno agora, pois sabia que era apenas a Primavera adormecida e que as flores estavam descansando.

  De repente, esfregou os olhos, maravilhado, e olhou e tornou a olhar. Era realmente uma visão maravilhosa. No canto mais afastado do jardim via-se uma arvore toda coberta de alvas e belas flores. Seus ramos eram cor de ouro e frutos prateados pendiam deles e por baixo estava o menininho que ele amara.

O Gigante desceu as escadas a correr, com grande alegria, e saiu para o jardim. Atravessou correndo o gramado e aproximou-se da criança. E quando chegou bem perto dela, seu rosto ficou vermelho de cólera e perguntou.

– Quem ousou ferir-te?

Pois nas palmas das mãos da criança viam-se as marcas de dois cravos e as marcas de dois cravos nos pequeninos pés.

– Quem ousou ferir-te? – gritou o Gigante -. Dize-me, para que eu possa tirar minha grande espada e matá-lo.

– Não – respondeu o menino -. São estas as feridas do Amor.

– Quem és? – perguntou o Gigante, sentindo-se tomado dum grande respeito e ajoelhando-se diante do menininho.

E o menino sorriu para o Gigante e disse:

– Tu me deixaste brincar uma vez em teu jardim, hoje virás comigo para o meu jardim, que é o Paraíso.

E quando as crianças chegaram correndo naquela tarde, encontraram o Gigante morto sob a árvore toda coberta de alvas flores.

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Oscar Fingall O’Flahertie Wills Wilde, um dos maiores escritores de língua inglesa do século 19, tornou-se célebre pela sua obra e pela sua personalidade. Sofisticado, inteligente, dândi, adepto do esteticismo (da "arte pela arte"), escreveu contos ("O Crime de Lord Arthur Saville"), teatro ("O Leque de Lady Windermere"), ensaios ("A alma do homem sob o socialismo"), e romances ("O Retrato de Dorian Gray").
Oscar Wilde era filho de um médico, Sir William Wilde e de uma escritora, Jane Francesca Elgee, defensora do movimento da Independência Irlandesa. Desde criança Oscar Wilde esteve sempre rodeado por grandes intelectuais. Criado no protestantismo, destacou-se nos estudos das obras clássicas gregas e no conhecimento dos idiomas.
Em 1882, foi convidado para ir aos Estados Unidos para falar sobre o seu recém criado Movimento Estético, com as idéias de renovação moral. Defendia o "belo" como única solução contra tudo o que considerava denegrir a sociedade. Esse movimento visava transformar o tradicionalismo na época Vitoriana, dando um tom de vanguarda às artes.
No ano seguinte foi para Paris, e, n contato com o mundo literário francês, seu movimento acabou por enfraquecer-se. Em seguida, retornou para a Inglaterra, onde se casou com Constance Lloyd e foi morar em Chelsea, um bairro de artistas. O casal teve dois filhos, mas mesmo após o casamento, Oscar continuou freqüentando todas as rodas literárias, espalhando glamour e comentários nos eventos sociais em que comparecia, sempre elegante e extravagante.
Em 1880 lançou "Vera", um texto teatral bem sucedido. Chegou a ter três peças em cartaz simultaneamente nos teatros ingleses.Em seguida publicou uma coletânea de poemas. Em 1887 e 1888, seu período mais produtivo, lançou vários contos e novelas, como "O Príncipe Feliz", "O Fantasma de Canterville" e outras histórias.
Em 1891, lançou sua obra prima, "O Retrato de Dorian Gray", que retrata a decadência moral humana. No entanto, no seu apogeu literário, começaram a surgir os problemas pessoais. O que antes eram boatos quanto a uma suposta vida irregular, passaram a se concretizar, dando início á decadência pessoal do escritor. Apareceram rumores sobre seu homossexualismo, (severamente condenado por lei na Inglaterra), que não puderam mais serem negados. Oscar se envolveu com Lord Alfred Douglas (ou Bosie), filho do Marquês de Queensberry, que sabendo do relacionamento, enviou uma carta a Oscar Wilde, no Albermale Club, onde o ofendia e recriminava já no sobrescrito: "A Oscar Wilde, conhecido Sodomita".
O escritor decidiu processar o Marquês por difamação. Depois tentou desistir do processo, mas era tarde demais e as provas da sua vida sexual desregrada começam a aparecer. Um novo processo contra ele foi instaurado. Sua fama começou a desmoronar. Suas obras e livros foram recolhidos e suas comédias retiradas de cartaz. O que lhe restava foi leiloado para as despesas do processo judicial. Acabou passando dois anos na prisão, que lhe renderam obras comoventes como "A Balada do Cárcere de Reading" (1898) e "De Profundis", uma longa carta ao Lord Douglas.
Ao sair da prisão, retirou-se para Paris, onde adotou o pseudônimo de Sebastian Melmouth e onde passou o resto dos seus dias, em hotéis baratos, embriagando-se com absinto. (Fonte: UOL Educação).

LITERAMUNDO – Big Brother: Telemorfose e Criação de Poeira (Parte 5/5)

BIG BROTHER: Telemorfose e Criação de Poeira

Jean Baudrillard

(Parte 5/5)

Francis Picabia, Autorretrato O século XX viu todos os tipos de crime – Auschwitz, Hiroshima, genocídios –, mas o único verdadeiro crime perfeito é, conforme os termos de Heidegger, “a segunda queda do homem, a queda na banalidade”.

Violência assassina da banalidade que, justamente na sua indiferença e na sua monotonia, é a forma mais sutil de exterminação. Um verdadeiro teatro da crueldade, da nossa crueldade, completamente desdramatiza da e sem rastro de sangue. Crime perfeito por abolir qualquer móbil e apagar todos os indícios – mas sobretudo por, nesse crime, sermos, ao mesmo tempo, assassinos e vítimas. Enquanto essa distinção existe, o crime não é perfeito. Ora, em todos os crimes históricos que conhecemos a distinção é clara. Só no suicídio o matador e a vítima se confundem. Nesse sentido, a imersão na banalidade é bem o equivalente de um suicídio da espécie.

O outro aspecto dessa banalidade assassina é que ela apaga o teatro de operação do crime – ele está agora por toda a parte na vida, em todas as telas, na falta de distinção entre a vida e a tela. Aí também estamos, ao mesmo tempo, dos dois lados. Enquanto dos outros crimes nos é mostrada uma imagem (“Shoah”, “Apocalypse now”), ao menos ela diferenciada, esta exterminação suave nos é mostrada sob a forma de um tipo de espetáculo: Big Brother e outros, dos quais fazemos parte.

Trata-se de uma verdadeira síndrome de Estocolmo em escala coletiva – quando o refém se torna cúmplice do seqüestrador –; logo, de uma revolução do conceito de servidão voluntária e da relação senhor/escravo. A sociedade inteira torna-se cúmplice dos que a tomaram como refém, mas também cada indivíduo se divide, por si mesmo, em refém e seqüestrador.

Há uma longa história dessa promiscuida de crescente, desde a mitificação da vida cotidiana e de sua irrupção na dimensão histórica – até o processo implacável de imersão no real demasiado real, no humano demasiado humano, no banal e no residual. Mas a última década viu uma aceleração extraordinária dessa banalização do mundo, através da informação e da comunicação universal – e sobretudo pelo fato de que essa banalidade se tornou experimental. O campo da banalidade não é mais somente residual, mas se tornou um teatro de operações. Levada à tela, como em Big Brother, torna-se um objeto experimental de lazer e de desejo. Verificação do que McLuhan dizia da televisão: ela é um eterno teste e nós somos tratados como cobaias, numa interação mental automática.

Big Brother não é apenas um detalhe. É toda a “realidade” que passou de armas e bagagens para o outro lado, como no filme Truman Show, em que não apenas o protagonista é telemorfoseado, mas todos os outros também – cúmplices e prisioneiros em plena luz da mesma fraude. Houve um tempo – como no filme A Rosa Púrpura do Cairo – em que os personagens saíam da tela e encarnavam-se na vida real, numa inversão poética da situação. Hoje, é a realidade que se desencarna na tela. Nada mais as separa. A osmose – a telemorfose – é total.

Pleasantville, em sentido inverso, dava o exemplo heróico de um casal de jovens telespectadores que entra no programa e altera-lhe a continuidade injetando-lhe paixões humanas (curiosamente, de resto, não é o sexo que ressuscita a vida real e devolve a cor ao mundo em preto-e-branco – o segredo está noutro lugar). Mas tudo isso faz parte de um vaivém entre a tela e a realidade ultrapassado. A tela, hoje, não é mais a da televisão, mas a da própria realidade – disso que se chama de realidade integral. Catherine Millet faz parte da sexualidade integral. A imanência da banalidade, o mais real que o real, a realidade integral. A realidade é um processo em via de extinção, por absorção, no noticiário e no virtual, de toda dimensão fatal, pelo assassínio subjacente à pacificação da vida e ao consumo entusiástico dessa banalidade alucinógena. Retorno aos limbos, a essa zona crepuscular onde tudo chega ao fim pela própria realização.

Em alguma parte, estamos de luto por essa realidade nua, essa existência residual, essa desilusão total. Há, nessa história do Big Brother, alguma coisa de um luto coletivo, mas que faz parte da solidariedade que une os criminosos que somos todos – os assassinos desse crime perpetrado contra a vida real e de cuja confissão nos esvaziamos na tela, que, de qualquer forma, nos serve de confessionário (o confessionário é um dos lugares do Big Brother). Aí reside a nossa verdadeira corrupção, a corrupção mental, no consumo desse luto e dessa decepção, fonte de gozo contrariado. De qualquer maneira, entretanto, a desautorização dessa palhaçada experimental transparecia no tédio mortal que disseminava.

Francis Picabia Dito isso, não há razão para o homem não reivindicar com força o seu direito à banalidade, ao insignificante e à mediocridade – tanto quanto ao oposto. O direito, de qual quer maneira, também faz parte da banalização da existência.

Socialidade integral – sexualidade integral – realidade integral: todo esse processo seria catastrófico se houvesse uma verdade do social, uma verdade do sexual, uma verdade do real. Felizmente só existem hipóteses. Mesmo se, hoje, elas assumem a forma de uma realidade monstruosa, continuam a ser apenas hipóteses. Para sempre inverificáveis – o segredo nunca será revelado. A verdade, se existisse, estaria no sexo. O sexo seria a palavra final desta história… Mas não há… Por isso, a sexualidade nunca passará de uma hipótese.

Significa que o perigo absoluto de uma ação sistemática do social, de uma prática sistemática do sexual e de uma operação sistemática do real não é mais que… virtual.

Daí a outra pergunta, como interrogação final: quem ria no Big Brother? Nesse mundo imaterial, sem um rastro de humor, que monstro poderia rir nos bastidores? Que divindade sarcástica poderia rir disso na intimidade? O humano demasiado humano deve ter-se revirado na tumba. Mas, como se sabe, as convulsões humanas servem para a distração dos deuses, que só podem rir .

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Breve Biografia

Considerado um dos principais teóricos da pós-modernidade e um dos autores que melhor diagnosticaram o mal-estar contemporâneo, Jean Baudrillard foi um dos fundadores da revista "Utopie", além de ter publicado mais de 50 livros ao longo de sua vida, tais como “O Sistema dos Objetos” (1968), "A Sociedade de Consumo" (1970) e "Por uma Crítica da Política Econômica do Signo" (1972). Outras de suas obras que merecem destaque são: "À Sombra das Maiorias Silenciosas" (1978), "Simulacros e Simulações" (1981), "América" (1986), "A Troca Impossível" (1999) e "O Lúdico e o Policial" (2000).

Pensador polêmico, Baudrillard desenvolveu uma série de teorias sobre os impactos da comunicação e das mídias na sociedade e na cultura contemporâneas. Baseou sua filosofia no conceito de virtualidade do mundo aparente, refutando o pensamento científico tradicional. Criticava a sociedade de consumo e os meios de comunicação e considerava as massas como cúmplices dessa situação. Baudrillard lembrava que os objetos não possuem apenas um valor de uso e um valor de troca, mas também um valor de signo, determinante nas práticas de consumo que ele considerava danosas.

Segundo ele, o sistema tecnológico desenvolvido e a quantidade de informações influenciam na definição da massa crítica. A máquina representa o homem que se torna um elemento virtual deste sistema. O seu ensaio sobre como os meios de comunicação de massa produzem a realidade virtual inspirou os diretores da trilogia de "Matrix" – o que não agradou a Baudrillard.

O pensador provocou polêmica em 1991, com "A Guerra do Golfo Não Aconteceu", argumentando que nenhum lado poderia se sentir vitorioso, uma vez que o conflito não alterou nada no Iraque. Dez anos depois, no ensaio "O Espírito do Terrorismo", voltou a causar controvérsia, ao descrever os ataques de 11 de Setembro de 2001 nos EUA. No ano seguinte escreveu "Réquiem para as Torres Gêmeas". (Fonte: UOL Educação).

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