“Nós Não Éramos Índios”

America. Americen Americus retexit, Semel vocauit inde semper exitam (the astrolabe) PAF7094

Stradanus, Américo Vespúcio descobrindo a América.

Aicué curí uiocó, Paraná-assú sui, peruaiana, quirimbaua pirrí pessuí: “vai aparecer do rio maior, o maior e mais poderoso inimigo de vocês”. Foi com essa mensagem que Poronominaré, o grande mensageiro de Tupana, tentou prevenir todos os povos que dominavam essas terras antes de 1500. Talvez os pajés e os chefes imaginassem que esse poderoso inimigo fosse uma epidemia, ou a ira dos ventos, revolta das matas ou mesmo vingança de Curupira. Mas em nenhum momento eles imaginaram que o inimigo seria o homem branco, vindo do meio do mar, conforme testemunharam os olhares Tupiniquim, Tupinambá, e quem sabe outros povos nativos da costa Atlântica. Muitos anos depois, essa mesma história se repetiria nas terras dos calentes xavante, kaiapó, juruna e kayabi, no Centro-Oeste, entre os tarumã, baré e manao, na confluência dos rios Negro e Solimões, e entre os tukano, baniwa, desana e outros no extremo Norte, no alto Rio Negro.

Possivelmente foram recebidos com grande surpresa e admiração, mostrando-se, por sua vez, com cara de bons amigos, oferecendo presentes, tentando se comunicar através de gestos e sinais. Em seguida, voltaram a seu país de origem, para comunicar ao rei a descoberta de novas terras, habitadas por indianos bugres ou indianos selvagens. Com essa notícia, o rei de Portugal deve ter, naturalmente, enviado para essas terras vários navios com milhares de pessoas, com autorização para ocupar e dominar o maior espaço possível de território então ocupado por seus verdadeiros donos, à custa de qualquer preço.

Enquanto isso, o povo jamais poderia imaginar a tamanha barbaridade de que o homem branco seria capaz. Não sabiam que a partir de então estavam decretados o genocídio, o etnocídio, os massacres e as opressões contra aqueles que passaram a ser chamados de índios.

No rio Negro, habitado ao longo de todo o seu curso pelo povo baré e, em seus afluentes, pelos tukano, desana, arapasso, wanano, tuyuka, baniwa, warekena e outros, ocorreram as mesmas violências. Povos e aldeias inteiras foram dizimados pelos invasores franceses, holandeses e portugueses. Comerciantes brancos, credenciados pelos governadores das províncias, eram portadores de carta-branca para praticar qualquer ato criminoso contra os povos indígenas. Nem mesmo o grande cacique guerreiro Wayury-Kawa (Ajuricaba) conseguiu livrar seu povo dos carrascos invasores, pois a luta era totalmente desigual: enquanto os índios lutavam com suas flechas e zarabatanas, os brancos disparavam poderosos canhões contra homens, mulheres e crianças que tentavam impedi-los de entrar em suas terras. Mas, mesmo dominado, preso e ferido, Ajuricaba preferiu a morte, jogando-se acorrentado ao rio.

Hoje, quinhentos anos depois, ainda lembramo-nos das tristes histórias contadas pelos nossos avós. Eles diziam que os primeiros comerciantes que apareceram no rio Negro traziam consigo mercadorias como fósforo, terçados, machados e tecidos, com que tentavam convencer os índios a produzir borracha, castanha, balata, piaçaba, cipó-titica e outros produtos naturais. Como essas mercadorias despertavam pouco interesse entre os índios, eles passaram a usar a violência, atacando aldeias e aprisionando homens e mulheres para levá-los aos seringais, castanhais, sorvais ou piaçabais localizados nos rios Branco, Uacará, Padauiri e Preto. Muitos nunca mais voltavam desses lugares, uns porque não resistiram aos maus-tratos dos patrões, outros porque foram vítimas de doenças contagiosas, como febre amarela, gripe, varíola ou sarampo. Ainda hoje, há descendentes dos barés, tukano, baniwa e warekena que vivem nesses rios, em uma vida de escravidão. Há pessoas de mais de 60 anos que sequer conhecem o rio Negro, mas apenas a lei do patrão.

Até as primeiras décadas do século XX, era “de praxe” o branco ter a seu serviço homens e mulheres indígenas, fosse para simples trabalhos domésticos ou para trabalhos mais sacrificados, como servir como remadores nas grandes canoas que saíam de Tawa (São Gabriel) até Belém do Pará, levando produto e trazendo mercadoria, numa viagem que demorava de seis a dez meses. Muitos remadores não conseguiam retornar, mortos durante a viagem pelo patrão. Aqueles que iam para extrair borracha ou outros produtos eram obrigados a produzir uma determinada quantidade para entrega e, caso não atingissem sua cota, eram açoitados no terreiro do barracão. Os que eram obrigados a assistir esse espetáculo deviam dar risadas para não ter o mesmo destino.

Nessa mesma época, apareceram os primeiros missionários. Eles tinham o propósito de aldear os índios, com a intenção de livrá-los da garra dos patrões e submetê-los a crer em Deus através da evangelização católica. Essa investida, no entanto, foi pior que qualquer sofrimento físico, pois obrigou os índios a abandonarem várias de suas práticas culturais, como as curas, as festas de Dabukuri, os rituais de preparação dos jovens e suas formas de homenagear e agradecer o grande criador do universo. Tudo isso virou ato diabólico na lei dos missionários. Nos grandes prédios das missões, foram criadas escolas onde os índios eram obrigados a falar a língua portuguesa e a rezar em latim.

Nas primeiras décadas do século também se instalou na região do baixo rio Waupes (Uauapés), na Ilha de Bela Vista, a família Albuquerque. Um desses, que se fez conhecer por Manduca, não por ser bom, mas por ser perverso e bêbado, recebeu o título de diretor de índios pelo antigo Serviço de Proteção aos Índios. Manduca Albuquerque fazia questão de divulgar sua fama pelos rios Waupes, Tiquié e Papuri. Toda a população desses rios tinha de ser seu produtor de borracha e farinha. Nesse tempo, ele comprou um dos primeiros motores, com que transportava sua produção e seus homens, mas índios tinham que remar mesmo quando o motor estava funcionando e só podiam viajar sentados ou deitados. Conta-se que um dia ele viajou com seu motor até Manaus, quando alguns índios decidiram matar um de seus capangas mais perversos. Quando Manduca chegou, ao saber da notícia, mandou seus capangas prenderem todos os homens e mulheres de um determinado lugar para conversar com ele.

Quando esse pessoal chegou, ele já estava em estado de embriaguez e ordenou que todos fossem amarrados a um pé de laranjeira onde havia um enorme formigueiro, até o dia seguinte. Decidiu, então, que todos embarcassem no seu barco motorizado para que ele, pessoalmente, os levasse de volta.

Nessa viagem, em meio a uma grande bebedeira de cachaça, ordenou que três de cada vez caíssem na água. Então começou a disparar com seu rifle 44 na cabeça de cada um, e assim matou todos.

Nas décadas de 1950 e 1960, nos rios Waupes, Tiquié, Içana e Xié, o produto industrializado chegava através dos chamados regatões (comerciantes ambulantes), que também se aproveitavam da mão-de-obra barata dos índios. Na sua mercadoria sempre tinha a cachaça, com a qual embriagavam os homens, para abusar sexualmente das mulheres casadas e solteiras, como forma de pagamento das dívidas contraídas por pais e maridos.

Apesar de todo esse passado de violência e massacre, podemos registrar alguma coisa como vitória: a demarcação das cinco terras indígenas do alto rio Negro, confirmando mais uma vez a profecia do grande mensageiro de Tupana, o Poronominaré. Em uma de suas visitas a seu povo, muito irritado, disse: Puxí curí peçassa amun-itá ruaxara maramên curí pemanduari ixê, aramen curí peiassúca peiaxiú Paraná ribiiuá upê, pemuncamém peruá, pericu-aram maam peiara, tupanaumeém ua peiaram (“vocês agora vão ser dominados por outras pessoas, até quando se lembrarem de mim, aí então irão ao rio tomar banho e chorar mostrando suas caras, para que assim eu vos reconheça e Tupana devolva aquilo que sempre foi de vocês”).

Analisando essa grande profecia, vemos que o povo de Tupana não era unicamente o povo baré. Concluímos que os povos tinham que passar por esse longo período se sofrimento. Mas, depois que se reconhecessem, começariam, então, a reconquistar seus direitos originários, agiriam como índios, brasileiros, amazonenses, são-gabrielenses. A grande conquista do reconhecimento dos mais de dez milhões de hectares de terra demarcadas no rio Negro resultou de uma luta que foi consequência desse passado. Mesmo assim, se alguns dos nossos antepassados nos vissem no estado em que estamos e lhes perguntássemos porque eles há quinhentos anos viviam livres e tranquilos, certamente nos responderiam: “nós não éramos índios”.

Bráz França Baré, “Origem do Povo Baré”, trecho do livro “Baré: povo do rio”.

PIOR ESCOLA DO BRASIL NO ENEM É TRABALHO DO GOVERNO DO AMAZONAS

Do D24Am.com:

Manaus – O Amazonas tem a escola com a pior nota no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2009, segundo os dados divulgados na madrugada desta segunda-feira pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), do Ministério da Educação (MEC).

Localizada na zona rural do município de Santo Antônio do Içá, no Alto Solimões, a Escola Estadual Indígena Dom Pedro I obteve 249,25 pontos no Enem 2009, bem abaixo da média de 500 pontos definida pelo Inep. Na avaliação de 2008, a Escola Estadual Indígena Cacique Manuel Florentino Mecuracu, de Benjamin Constant, ficou com a terceira pior nota da avaliação.

Foram avaliados no Amazonas 22,6 mil estudantes das 433 escolas que oferecem o Ensino Médio Regular ou Educação de Jovens e Adultos (EJA), em 2009. Destas, 339 tiveram as notas divulgadas, seguindo uma série de critérios adotados pelo Inep, que em 2009 reformulou a metodologia do Enem, criado em 1998 para avaliar o desempenho do estudante ao fim da escolaridade básica. Desde o ano passado, o exame passou a ser utilizado para ingresso em universidades federais e acesso às bolsas do ProUni.

Das 20 escolas com as piores notas no ranking nacional, três são da rede pública estadual do Amazonas, uma localizada em Coari, a Escola Estadual Dom Mário (361,28), e outra em Maués, o Centro de Ensino Médio Mediado por Tecnologia Rural (363,05).

No ranking estadual, a rede particular de ensino mantém a liderança da avaliação. Das 20 escolas do Estado com as melhores notas, 16 são particulares e quatro federais, sendo duas localizadas em municípios do interior do Estado. Em 2008, eram três federais e uma estadual, o Colégio Militar da Polícia Militar, que caiu da 17ª para a 24ª posição.

Os dois primeiros colocados no Enem 2009 são da rede Lato Sensu. Com 692,24 pontos, o Centro Educacional Lato Senso 2 subiu quatro posições em relação a 2008 e obteve a melhor nota do Estado, tirando a liderança do Centro Educacional Lato Sensu, que ficou em segundo, com 675,95 pontos.

Segunda colocada no Enem de 2008, a Fundação Nokia ficou na terceira posição em 2009, com 666,22 pontos. Em quarto, está o Colégio Militar de Manaus, da rede federal, com 658,59 pontos, que também caiu uma posição em relação à avaliação anterior.

O Colégio Nossa Senhora do Rosário, localizado no município de Itacoatiara (a 286 quilômetros de Manaus) alcançou 657,96 pontos, subiu uma posição e agora é a quinta escola particular do Estado com a melhor nota do exame. Além de Itacoatiara, o Instituto Adventista Agro Industrial, em Rio Preto da Eva, ficou na 20ª posição no Enem 2009, com 595,36 pontos.