A PENA RETA DO CHARGISTA ACRÍTICO

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Diz-me com quem andas, e te direi quem és. O ditado popular, no caso do desenhista, pode ser adaptado para ‘mostras o teu desenho e te direi no que crês’.

O movimento cognitivo, de acordo com o filósofo Henri Bergson, se dá na sucessão de imagens que vêm à consciência. Uma espécie de déjà vu. Assim, se não houver emprego volitivo da razão e do desejo, a consciência se reproduzirá como mera reprodução imagética. A mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores, o mesmo jardim… Quando na realidade jamais são os mesmos, e a duração, o passar do tempo, estão aí para evidenciar. Armadilha para a consciência capturada e domesticada. Nada de produção, nada de criação.

É o que aconteceu ao chargista do jornal A Crítica, na edição desta terça-feira, 01. A imagem mostra o presidente Lula segurando o acordo com o Irã, que está em chamas, e dizendo: “Vamos ver. É… Parece que este acordo com o Irã e a Turquia está um pouco quente”.

O chargista, mais que seus colegas de pena, deve ter a capacidade crítica e sintética de transformar o quadro social em uma imagem pictorial que, semiotica e semanticamente, permita ao leitor compreender rapidamente o que se passa. Evidenciar, como um caricaturista, aquilo que está subliminar. Só que no caso do caricaturista, o evidenciado são formas e traços do rosto, enquanto o chargista deve, em nome do humor, evidenciar aquilo que ao olhar escotomizado não é evidente. O riso é a confirmação do gestus social (Brecht), daquilo que é usual, mas que não pode passar como banal. Aí o chargista afirma sua função precípua. Fora disso, o próprio chargista se afirma como escotomizado.

Para piorar, além do desconhecimento demonstrado pelo chargista ‘acrítico’ do que ocorre em relação ao acordo entre o Irã e a AIEA (que se está “em chamas”, como ele pensa, o está por conta dos interesses econômicos de EUA e União Européia, que simplesmente não aparecem na charge), o próprio jornal desqualifica o desenho, ao destacar a frase da diplomacia turco-brasileira, de Lula, e colocar na seção sobe e desce o presidente Obama, que reagiu debilmente as verdadeiras chamas do oriente: o massacre cometido pelos israelenses cotidianamente, contra os palestinos, e desta feita, contra um comboio humanitário. Até a uma leitura mais superficial do jornal, fica evidente que a charge não ‘ornamenta’ o conteúdo, mas está ali apenas para cumprir função espacial: a banalidade do olhar.

Assim, a pena do chargista segue a linha reta da seriedade das imagens clichês, que interessam à manutenção de um estado de coisas onde se vê tudo, e não se enxerga nada. Nada do desvio, da pena torta que destoa e cria a turbulência necessária ao humor. Não há do que rir.

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FRASE DO DIA

“Não vale uma nota de três reais”.

A frase é do candidato do PSDB, José Serra, à presidência do Brasil, e é a tréplica à resposta da chancelaria da Bolívia aos ataques que o tucano tem feito. Ele tem atacado sistematicamente os países sul-americanos, e nesta semana acusou o governo boliviano de ser cúmplice do tráfico internacional de drogas.

Alguém terá dito que o candidato da oposição, que se quer não oposto, mas “pós”, cada vez mais se enreda numa teia de ressentimento e limitação cognitiva. Mesmo que a tática seja fortalecer um discurso duro e reacionário para garantir os votos de parte da população, a nós fica evidente que para os serristas, o estoque de ataques a Dilma se reduz a expor sua falta de experiência, e para os ataques ao governo Lula, não há munição. E não é por escolha, por medo de atacar uma gestão aprovada por mais de 80% da população. É incapacidade cognitiva de compreender como e porque foram feitos os projetos que mudaram os rumos do país, há sete anos.

Serra não critica o governo Lula porque não pode; não critica porque não sabe.

LGBT ‘CAUSANDO’ PELO MUNDO AFORA!

CRM ABRE PROCESSO CONTRA MÉDICOS QUE ATENDERAM O SARGENTO LACI

O CRM do Distrito Federal abriu processo ético investigativo para apurar a participação dos 18 médicos que acompanharam o sargento Laci Marinho de Araújo durante o tempo em que ficou confinado e preso no Hospital Geral de Brasília, entre 2006 e 2008. Acusado de deserção, o sargento foi preso e torturado pelo Exército Brasileiro por ter assumido a sua homossexualidade e o seu relacionamento com o também sargento Fernando Alcântara. Os 18 médicos são acusados de infrigir 09 itens do código de ética da profissão, ao contribuir “em maior ou menor gravame para o clima de tortura psicológica que viveu na época e talvez ainda viva hoje”, além de “autorizar a prisão arbitrária de ser humano doente, em gozo de licença médica concedida por outro médico" e "internar uma pessoa compulsoriamente, a revelia dos seus protestos”. As informações são do Portal R7. Os médicos serão notificados e devem receber um prazo para defender-se das acusações. Vejam, menin@s, não é pouca coisa. Trata-se de cutucar duas instituições do Estado Burguês: as Forças Armadas, e a Medicina, enquanto corpo de saberes que exercem sobre o corpo um controle de ordem biopolítico. Laci e Fernando estão podendo, porque não são poder; são potência ativa e colorida!

PARAGUAI COMBATE HOMOFOBIA NA FORÇA POLICIAL

E o governo Lugo está botando quente no quesito direitos humanos, lá nas bandas do Paraguai. O Ministério do Interior paraguaio firmou parceria com a ONG Somosgay para o combate à homofobia e discriminação LGBT, além de promoção dos Direitos Humanos. A ONG entra com o apoio técnico na criação e implementação de iniciativas de enfraquecimento da homofobia institucional, começando pelo próprio ministério, e pela polícia militar, cujos oficiais na ativa e cadetes devem receber formação em DH e em técnicas de abordagem sem violência, a partir de 2010, até 2012. É arregaçar as mangas e trabalhar. Daí o Paraguai poderá mostrar ao mundo que polícia e policial são duas coisas diferentes, e que segurança pública como política pública não se faz reativamente, mas promovendo as condições mínimas necessárias ao desenvolvimento livre do pensamento e dos modos de existir das pessoas.

O ASSUMIR DE RICKY MARTIN É UM ATO POLÍTICO

Engana-se quem toma como banal a notícia de que o cantor porto-riquenho Ricky Martin assumiu sua homossexualidade. Trata-se de um ato político. E nem adianta vir com papo de identidade. Não é disso que falamos. É que Ricky fez movimentar-se nele afectos e perceptos antes imobilizados pela moral de classe e pelo ressentimento. Freud, que não foi exatamente um defensor da homossexualidade, sabia que a estupidez, a ignorância, a violência, são produtos da interdição: a dificuldade de compôr ativamente outros modos de existir, mais próximos da liberdade. Ricky poderia, assim, tornar-se um reativo, ressentido, e destilar o ódio contra aquilo que, nele, constituir-se-ia como uma ideia inadequada. No entanto, Ricky mostrou-se incapaz de realizar o ato de autoviolentação, de aceitar o encontro a esmo dos acasos, e preferiu ser en causa sui (causa de si). Daí, foi correr pro abraço. Livre, leve e alegre, ele é um corpo a menos para compor com a força reativa da moral de classe. Ricky, além de lindo, é engajado, maninh@! Vai nele!

ESPECIAL: A MÁ CONSCIÊNCIA DO HOMOSSEXUALISMO GLOBBBABACA

Enquanto alguns ramos arborescentes do segmento LGBT se debatem na falsa questão da homofobia de um dos participantes do banal BBB, a real questão é de ordem do transbordamento da má consciência social. Que encontra caixa de ressonância (ou seria de inoculação?) na reacionária Rede Globo.

Não se trata de pessoas, mas de enunciações. A Má Consciência: quando o ressentimento se torna criador de valores, quando a possibilidade de ação é negada, e só resta o sentimento de reparação pela imaginação. Renegar a produção, pelo paradoxo de produzir a improdutividade.

Duas ilustrações:

1) quando o participante do programa diz que a AIDS é uma doença de homossexuais. O Ministério Público exige retratação. A emissora faz de conta que não é concessão pública, e estrila. Mas se retrata. Puro ressentimento, primeiro porque não existe “retratação”. Aquilo que o sistema nervoso recebeu e deglutiu, e que causou uma impressão cognitiva, não pode mais ser desfeito. As desculpas não apagam a dor da bofetada. Segundo porque não se atacou a causa do problema: uma emissora de tevê, concessão pública, usando o que é de todos em detrimento… de todos!

2) Um dos participantes do programa, homossexual – que, sintomaticamente, já teria dito que se pudesse, não o seria – recebe ameaças de morte de partidários do rival, homofóbico, hominista, violento, ressentido. Mas não se pode lutar com as armas do inimigo. Daí o participante ameaçado estar numa inscrição semiótica que não permite a sua mobilidade. Uma falsa homossexualidade, também ressentida. Uma teratogenia homoafetiva. Diríamos um homossexual-ismo, a que acrescentaríamos, a título de referência, o GloBaBaBaca. O enunciado ressentido, a má consciência, que não suporta no outro aquilo que lhe foi negado, pelo seu sistema de valores e de posições hierárquicas, assassina um homossexual a cada dois dias, no Brasil. Diante disso, qual a importância do caso? O que ele acrescenta de novo a um quadro que está estampado todos os dias, no cotidiano das pessoas? Absolutamente, nada. Apenas mais um, nem menos, nem mais importante.

Importante, na realidade, é o que ele evidencia, e que é o óbvio numa sociedade que ignora sutilezas. O sucesso do programa exprime a predominância do instinto do rebanho (Nietzsche): a fantasia da vingança imaginária do Senhor contra o Escravo. Ante a Ditadura do Politicamente Correto, o escravo finge libertar-se agarrando-se aos valores que se lhe opõem. Assim, predomina a violência, a estupidez, a homofobia, a xenofobia, a discriminação, a censura. O grau zero da política e da socialidade.

O falso renegado, ou o falso rebelde – que a sociologia veria personificado no candidato homofóbico gloBaBaBaca – prevalece porque a outra opção apresentada é absolutamente igual. Ressentimento versus Ressentimento. Uma luta de iguais. Patologia empática, onde há apenas uma oposição aparente. Perseguidor e perseguido são iguais.

Enquanto isso, no plano do capitalismo cognitivo, a Globo fatura, fatura, fatura… E dissemina essa má consciência, que é pior que a homofobia.

POLIDIZERES

ENUNCIAÇÕES MENORES DE UMA POLÍTICA – QUASE SEMPRE – MAIOR

Um dos parâmetros de atuação do psicólogo escolar diz respeito à análise das potencialidades neurocognitivas do educando em relação ao contexto social que o rodeia. Assim, é possível verificar se a aprendizagem ocorre num processo normal e sadio de compreensão da realidade. Pois bem, se levarmos em conta tal competência deste profissional, como não analisar a proposta da dep. estadual Therezinha Ruiz (DEM) de colocar psicólogos escolares nas escolas estaduais do Amazonas, justamente no ano em que irá disputar a reeleição para a ALE/AM, ela que foi inúmeras vezes secretária de educação nas últimas décadas (inclusive na atual gestão), senão como uma afronta à inteligência desses profissionais? E aí, psicólogo, vai cair nessa?

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Há amores e amores. O do presidente do IMTT, Rafael Siqueira, por exemplo, parece ser o seu chefe e prefeito sub judice de Manaus, Amazonino Mendes. Amor que custa caro (pouco mais de 8 milhões de reais – veja aqui e aqui). Caro o suficiente para que Siqueirinha, como é conhecido, tenha usado seu olhar calibre .45 para intimidar a repórter Vanessa Brito, do Diário, que fez a pergunta certa numa coletiva de faz-de-conta. Mas Siqueira deve merecer: afinal, amar no ressentimento, como o amor reativo do subalterno pelo patrão (um ódio disfarçado, segundo Freud), causa mesmo danos à saúde e ao caráter. Siqueira vai precisar desse dinheiro, portanto. Na terça-feira, por exemplo, ao atender o telefonema de um jornalista, teria dito: “Me liga amanhã. Hoje é o pior dia da minha vida…

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Quando um objeto deixa de ter valor de uso para ser referenciado apenas pelo seu valor de troca, e entra na ordem semiótica do capitalismo, passa a figurar como mercadoria. Vale para qualquer objeto, inclusive aqueles imateriais, como a palavra. Anos atrás, em Manaus, o atual prefeito e então candidato, Amazonino Mendes, entrou na justiça para proibir um adversário de usar na campanha a palavra “Sistema”. A justiça, injustamente, deu ganho de causa à enunciação fascista de tornar particular um patrimônio público. Recentemente, foi o Comitê Olímpico Brasileiro a “amazoninizar” com a língua: quis proibir a psicóloga, professora de educação física e escritora de usar a palavra “olímpico” no seu livro Esporte, Educação e Valores Olímpicos. O COB alegou que a palavra lhe pertence. Felizmente, nesse caso, a justiça, ao mesmo tempo que que preservou a língua como entidade coletiva e pública, também não se furtou ao seu próprio papel de instância coletiva, e negou o intento ao comitê.

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Belão, presidente da ALE/AM, pediu uma corrente de orações dos colegas deputados para que a proposta de aumentar o número de vagas para deputados federais do Amazonas fosse aprovada pelo TSE. Os deputados oraram, oraram, oraram, e não foram atendidos. Os ministros do tribunal superior não apenas rejeitaram a proposta por unanimidade, como também consideraram risíveis os argumentos dos parlamentares amazônidas. Felizmente, o TSE funciona na imanência, e não recebe influências da transcendência reativa do deus de Belão. Em tempo: pode-se entender um homem que erre uma vez; mas que insista no erro, é sinal de que o problema não está na situação, mas no homem. Belão deve recorrer ao STF, onde o processo encontrará os mesmos ministros que menosprezaram o argumento no TSE.

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O blog Fiscais do IMTT enunciou na tarde de terça, no Twitter, que houve censura à tentativa de obter informações sobre o curso de capacitação de agentes de trânsito que o órgão irá promover. A ordem teria vindo direto do presidente, o milionário infeliz (leia nota acima), Rafael Siqueira. Para o Fiscais, há indícios de que o curso poderá servir apenas como porta de entrada para os “escolhidos” da gestão amazonínica-siqueirínica, sem que haja concurso público para o cargo.

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O prefeito cassado de Barcelos, no interior do Amazonas, Ribamar Beleza (PMDB), foi pego comprando votos de eleitores analfabetos, e ainda por cima com dinheiro falso. Ao ser informado da sentença do TRE que o cassou, teria afirmado que o tribunal caçoa da inteligência do eleitor barcelense, que está acostumado a lidar com dólares e euros, e saberia diferenciar uma nota verdadeira de uma falsa. O que Ribamar nem desconfia é que, num plano das relações econômicas reais, abstrato é apenas o valor-universal, aquele que, por não existir, teve que ser inventado, e por isso mesmo, é invariavelmente uma falsificação: o dinheiro.

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E o DCE da Universidade Federal do Amazonas entrou com um projeto junto à UFAM para proibir trotes violentos e constrangedores. Na referida faculdade, os cursos onde existem trotes violentos são Medicina, Direito, Farmácia e Psicologia. Segundo o Centro Acadêmico de Psicologia, há trote, mas sem violência. Apenas trigo e tinta. De qualquer sorte, parece que o curso ainda não chegou a Baudrillard, que mostra lucidamente a necessidade, na sociedade do excesso, de simular um ritual de passagem ali onde precisamente não se passa nada. Em tempo: nos idos dos anos 2000, havia uma festa, com música e comida. Depois, vinha o trote de verdade: aguentar o resto do curso!

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E Maradona, hein? Continua mostrando que a garganta dos inimigos grita menos por razão que por medo. Bastou um meio campo azeitado e ofensivo, com Jonas Gutiérrez e Verón, um ataque com Messi, Higuaín e Di Maria, e uma defesa razoável, com Otamendi, De Michelis e Heinze (o único pecado de D10S), para enquadrar e dar olé na poderosa Alemanha, em pleno Alianz Arena. Dunga, com a sua arrogância que nada mais é do que ressentimento de quem ficou preso na Copa de 1990, que se cuide. Não seria o primeiro drible que levaria do Pelusa. E por falar nisso, onde anda o Caniggia?

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A prepotência dos EUA teve que parar durante a passagem da secretária de Estado, Hillary Clinton, aqui pelo Brasil. E parou na autonomia democrática que o país vem desenvolvendo cada vez mais forte no governo Lula. Na tentativa de impor a dissuasão norte-americana de domínio, Hillary Clinton, quis pressionar o Brasil a aceitar a opinião dos EUA sobre o programa nuclear do Irã. Em uma resposta convicta, Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores, assegurou que o Brasil “não vai se curvar” a esta pressão. E reiterou: “Nós pensamos com a nossa própria cabeça. Nós queremos um mundo sem armas nucleares, certamente sem proliferação. Não se trata de se curvar simplesmente a uma opinião que possa não concordar [no caso do grupo liderado pelos Estados Unidos]. Nós não podemos ser simplesmente ser levados. Nós temos de pensar com a nossa cabeça”. Talvez tenha sido aí o ponto crucial que fez com que a secretária de Estado norte-america, tenha percebido o quanto o Brasil anda independente destes tipos de imposição e tenha mais tarde declarado que confia na democracia brasileira.

POLIDIZERES: enunciações menores de uma política – quase sempre – maior

ENUNCIAÇÕES MENORES DE UMA POLÍTICA – QUASE SEMPRE – MAIOR

Em entrevista a uma emissora de rádio, depois da partida contra o Universidad Catolica do Chile, o técnico do Flamengo, Andrade, instado pelo repórter a tomar uma atitude contra a expulsão precoce de um jogador e contra outro que lhe dirigira um palavrão após uma bronca, explicou calmamente que, no primeiro caso, iria ver o tape e conversar com o jogador, e no outro caso, não via nada de mais, apenas o normal de uma partida de futebol. Mais que tranquilidade e serenidade, Andrade é uma outra temporalidade no futebol. Uma temporalidade do jogo, imanente, que não surge da fetichização do acontecimento em mercadoria do entretenimento. Sem nenhum tipo de aproximação com o modiótico Luxemburgo ou o truculento e ressentido Muricy. Andrade é técnico com o mesmo refinamento que foi jogador. No Brasil, e talvez no mundo, isso esteja, infelizmente, em vias de extinção no futebol profissional.

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E a Igreja Católica, através da arquidiocese do Rio de Janeiro, está negociando com a Columbia Pictures, para receber indenização pelo uso – a seu ver – indevido da imagem do Cristo Redentor no filme “2012”. Para a igreja, a imagem do Cristo lhe pertence, e embora possa ser usada publicamente e gratuitamente, ela pode vetar o uso em determinadas situações. Depreende-se daí um entendimento: se Cristo é imagem, na sociedade capitalista, entra na ordem do fetiche, ou seja, seu valor de troca é equivalente a outros objetos. Fato pelo qual a igreja não teria o direito de exigir que órgãos públicos ou privados mantivessem crucifixos pendurados, uma vez que nenhum consumidor tem obrigação de aceitar uma mercadoria, ainda que oferecida gratuitamente. Caso que não cabe mais no código civil, mas do consumidor. Prato cheio para os imagofóbicos. E fica uma pergunta: se ao invés de usar a lenda maia, o roteirista tivesse acabado com o mundo conforme o Apocalipse, teria que pagar adicional a Bento XVI? PS: ou como disse o @sobrecomum, no twitter: “A Igreja está com ciúmes porque Cristo caiu nos braços do povo e se divorciou dela”.

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Hipócrates, para quem o exercício da medicina não se separava do de um sacerdócio, numa relação de imanência com os deuses e a natureza, certamente ficaria estupefato ao saber que no Mato Grosso do Sul, dois médicos saíram no tapa pelo direito de realizar um parto. Orozimbo Oliveira Neto acompanhou a paciente durante todo o pré-natal, e quis realizar o procedimento. Mas o plantão era de Sinomar Ricardo, que não gostou e foi tirar satisfação com o adversário. Mas engana-se o leitor que imagina que brigaram pelo direito a trazer o Novo ao mundo. A briga era mesmo pela grana que é paga ao médico, pelo SUS, a cada cirurgia ou procedimento de parto normal. Sinomar não gostou de ver Orozimbo faturando extra no seu plantão. Saldo: a criança não resistiu à demora no procedimento e veio à óbito. Os médicos foram afastados. Mas fica a pergunta: afastaram também o modelo neoliberal da medicina de mercado, que estimula a dissolução do paciente em função do lucro?

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Se vocês soubessem o tamanho da intensidade da vontade de viver de uma criança, se assustariam com o tamanho da força e violência que a estrutura normativa da sociedade usa para domesticá-la e educá-la. (Caboco Nietzsche, baixado em Pai Edemar, ao ver uma mãe batendo na boca de uma criança que chorava para não ir à escola ontem, na Santa Luzia, em Manaus).

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Brechtianamente, da leitora @charmpenellope: “E pq será q nenhuma empresa quer fazer a obra do monotrilho?”. Ela se referia a essa nota, do Agridoce: “O interessantíssimo projeto de construção do Monotrilho em Manaus parece não ser tão interessante assim para as construtoras. Hoje terminou o prazo para que as empresas entregassem os envelopes com as propostas para participarem da licitação, mas nenhum foi entregue. Com isso, a licitação foi considerada “deserta” e o processo de seleção foi finalizado sem resultado satisfatório. Agora a Comissão Geral de Licitação (CGL) lançará um novo edital até o mês de abril, e a ordem no governo é engrossar a torcida por uma empresa caridosa. As construtoras Camargo Corrêa, Odebretch e Delta se mostraram interessadas em participar do processo, e até compareceram à CGL na manhã de hoje, mas na hora de apresentar os documentos, nada feito. Vale lembrar que o projeto tem valor máximo de R$ 1 bilhão.” Comentário nosso: quando respondermos a essa pergunta, saberemos muito sobre para onde vai e para onde não deveria ir o dinheiro público.

POLIDIZERES

ENUNCIAÇÕES MENORES DE UMA POLÍTICA – QUASE SEMPRE – MAIOR

A cidade de São Paulo não irá mais receber o jogo de abertura da Copa do Mundo de 2014. A informação é do blogueiro corintiano Paulinho. No máximo, uma das semifinais. Significa dizer que a FIFA puniu a maior cidade brasileira, e a de maior tradição futebolística, apenas porque o projeto apresentado (a reforma do Morumbi) não agradou aos seus conselheiros. Um aviso para Manaus, que acredita que levará na barriga os jogos da Copa, apenas pelos belos olhos verdes da floresta amazônica.

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É uma situação que compromete também a cidade de São Paulo – uma das maiores do mundo”, diz Paulinho em seu blog. Cheio de enunciações características da direita e do discurso conservador, o jornalista não pode ser chamado de petista ou mesmo de querer prejudicar a candidatura serrista à presidência. Ele apenas enuncia o que apurou: caso se confirme, será um vexame histórico para as sucessivas gestões tucanas na “Locomotiva do Brasil”.

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É nas pequenas obras que a ditadura, a censura e o fascismo se criam. Na cidade de Martins, de 8300 habitantes, não haverá carnaval. Tudo porque a prefeita, Mazé Costa, não por acaso, do DEM-PFL, baixou portaria proibindo o uso das vias públicas e locais abertos para bailes e festas carnavalescas. Folia, só em lugares fechados e sob prévia autorização da prefeitura, com ameaça de multa e prisão para os rebeldes. A razão, paradoxalmente, é teológica: para a prefeita, a sua cidade (dela) deve privilegiar os retiros religiosos. Cabe impeachment na prefeita-obreira: primeiro, por ter baixado portaria municipal que é contrária à lei federal, que considera o carnaval feriado cultural, além de inconstitucional, pois fere o direito de manifestação, de ir e vir, e o direito ao lazer. Igualmente, a justificativa da prefeita demista/pefelista é de cunho religioso, e não se justifica no Estado Laico de Direito. Ainda segundo a prefeita, a proibição é uma resposta a grupos de jovens da cidade que queria que o poder público organizasse uma festa carnavalesca na cidade. Se não houver impeachment, ao menos, se depender dos votos dos mais novos, ano que vem não vai ser igual ao que passou para a beata-prefeita.

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Embora o comunismo tenha com a figura histórica de Jesus algumas aproximações, para além do chamado sistema político, fato que fez Rosa Luxemburgo afirmar que os cristãos primitivos eram comunistas, no entanto, como corpo de saberes, constitui-se como práxis na imanência e rejeita a transcendência patológica da crença no invisível, o que leva a um ateísmo filosófico pautado na razão. Por isso mesmo, é difícil acreditar que a deputada Vanessa Graziottin, do PCdoB do Amazonas, carregue este entendimento ao ir à inauguração do Prosamim com uma camisa com a estampa da imagem de Nossa Senhora da Conceição. Mais fácil ver esse ato ou como evidência de que a comunista não sabe o que é comunismo, ou acredite que o povo não saiba que comunistas cristãos não existem.

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Somente na sociedade do fugaz e do superficial, onde o parecer prevalece sobre o ser, é possivel que um diretor de cinema estadunidense, que faz um filme com uma visão esterotipada e maniqueísta dos conflitos políticos, vira expert em sustentabilidade. Que dizem alguns especialistas, é – também – uma falácia. Elas por elas?

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É irônico que o técnico do Santos – líder do Paulista –, Dorival Júnior, pretenda punir jogadores que fazem o que ele chama de firula em campo na mesma semana em que a FIFA faz marketing de seus filmes oficiais, mostrando por exemplo que, na Copa de 1958, um craque santista dava show, e a platéia européia vibrava, não a cada gol, mas a cada firula genial. Sinal de que o futebol mudou, dirão os atuais experts na área. Ou que morreu.

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A insossa Ivete Sangalo, eterna musa dos cansados e componente do Quarteto do Medo (junto com Ana Maria Braga, Hebe e Regina Duarte), bajulou Dilma no carnaval baiano, colocando seu nome no refrão da música “Dalila”. No mesmo dia, recomendou um energético para José Serra, também em franca campanha pelo nordeste e Rio. Partidários da campanha de Dilma comemoraram, enquanto os serristas consideraram o chiste de Ivete como elogio ao combalido candidato. Da popularidade da empresária baiana, Dilma não precisa. Nem sozinha, nem na Liga das Cansadas, Ivete bate a popularidade de Lula. E esse, só tem afagos para Diliminha…

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O Primeiro Ministro italiano, Silvio Berlusconi, soltou mais uma de suas frases que fazem o deleite da ultraplusdestra mundial: teria dito ao seu colega da Albânia que não deseja mais que a Itália receba barcos cheios de imigrantes ilegais, mas que abre uma exceção para aqueles que levem mulheres bonitas. Infantilidade senil que apenas revela o malogro de uma existência fracassada. O capitalismo de mercado, que não vê cara nem coração, e que precisa do imigrante, seja homem, mulher, feio ou bonito, tem sido condescendente com o bufão italiano. Até quando?

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A exposição do artista espanhol Fernando Bayona, na Universidade de Granada, foi encerrada prematuramente, dizem, por falta de segurança. Intitulada ‘Circus Christi’, a exposição traz imagens que mostram um Cristo modernizado, onde sua mãe, Maria, é prostituta e seu pai, José, é traficante de drogas. Jesus e seus discípulos pregam através de uma banda de rock, Jesus perde a virgindade com Maria Madalena, mas logo se descobre homossexual. Desde 11 de fevereiro, cinco dias, portanto, a exposição só recebeu 38 visitantes. Talvez porque, carregando nos valores que a sociedade do consumo atual renega, ela tenha exposto demais. O verdadeiro Cristo provavelmente ativava nos seus contemporâneos o mesmo tipo de ojeriza que um homossexual, um traficante, uma prostituta.

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A federação italiana de futebol incorporou às regras do jogo o terceiro mandamento: não usarás o nome de Deus em vão. Blasfêmias também não serão permitidas, mas ao contrário da danação eterna, o jogador apenas receberá o cartão vermelho. Diante da nova regra, comentaristas esportivos passaram dias investigando um vídeo com um trecho de uma partida da Juventus, onde o goleiro da seleção, Buffon, teria usado em vão o nome do Altíssimo. Ele nega. Na Itália, chamar palavrão causa eliminação automática do jogador na versão local do Big Brother. São as contradições da Moral num país onde é vergonha blasfemar, e mérito eleger um primeiro-ministro xenófobo e criminoso.

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E o comandante da PM no Amazonas, o pastor da Assembléia de Deus, Dan Câmara, foi advertido mais uma vez pelo MPE. Desta vez, por causa do programa Rede Educativa, que de educativo não tem nada. O programa colocava barracas na rua para “aconselhar” foliões mais afoitos a seguir pelo caminho da retidão (preferencialmente que leve reto até o templo mais próximo da IEADAM). Outras igrejas e denominações religiosas, como o candomblé, curiosamente não foram convidadas para a empreitada. Diante disso, o MPE sugeriu ao pastor que suspendesse o programa. Este, é claro, lamentou não poder fazer uso da corporação militar e trazer mais reforços para a igreja. Mas fica a pergunta: onde estavam os conselheiros da IEADAM quando os irmãos Câmara fraudaram a compra de ambulâncias no esquema dos sanguessugas?