MIGRAÇÃO, POBREZA, GERAÇÃO E DESEJO: RESSONÂNCIAS DO GOVERNO LULA

Segundo estudo divulgado hoje pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as migrações realizadas entre regiões, principalmente a corrida para o Sudeste, que marcou as décadas de 1960 a 1980, diminuiu. A tendência agora é uma migração dentro dos próprios estados, bem como a permanência ou o retorno aos estados de origem. No mesmo estudo, também foi identificado que na última década ocorreram mudanças nas correntes migratórias, em que Rio de Janeiro e São Paulo deixam de ser “importadores” e passam a “exportadores” de moradores, enquanto o Espírito Santo desponta como foco de atração de novos habitantes.

Para o pesquisador do IBGE Antônio Tadeu Ribeiro de Oliveira, um dos autores do artigo “O panorama dos deslocamentos populacionais no Brasil: Pnads e Censos demográficos, “A principal motivação para a migração é a busca por trabalho. Qualidade de vida e menos violência podem ser complementares. Dos anos 80 para cá, houve desconcentração da atividade econômica. O Nordeste passou a segurar população e atrair a migração de retorno. Pode-se dizer que o País hoje se desenvolve em quase todas as áreas. Com essa mudança no modelo de desenvolvimento, os imigrantes tendem a diminuir”.

O que foi festejado por muitos de modo xenofóbico, destacando um agradecimento possessivo ao metafísico Deus judaico-cristão, não pôde ser compreendido no “reino” da imanência, do desejo produtor e construtor de novas possibilidades de vida, isto é, na afirmação das produções n(d)o mundo social que resistem ao estado de coisas constituído onde o pobre é visto somente como o eterno explorado sem condições de crescimento, amor e desenvolvimento, fadado a um estado de sobrevivência.

Pois bem, a fala do pesquisador do IBGE, assim como os próprios resultados da pesquisa, aponta uma mudança onde o social, o político e o econômico tornam-se hibrido. Justamente no momento em que o governo Lula conseguiu movimentar uma relação recíproca entre desenvolvimento econômico, independência política e distribuição de renda. Não fosse apenas isso, esqueceríamos que no governo Lula o grande transformador da situação no Brasil foram os pobres.

Melhor dizendo, os pobres não foram de todo os responsáveis pelas transformações, mas pela primeira vez na história desse país eles foram percebidos como produtores de riqueza, como aqueles que também devem fazer parte do mundo do consumo. Não apenas do consumo como tara das relações no mercado, mas como consumidores de cultura, de lazer, de moradia, entre outras coisas, engendrando, deste modo, um estado onde a vida se apresenta como possibilidade nova e renovada, afastando o fantasma histórico do estado de sobrevivência perpetuado por muito tempo no Brasil.

Se os principais fatores da diminuição da imigração apontados pela pesquisa versam sobre o aumento de empregos em variados pontos das latitudes e longitudes brasileiras, isso significa dizer que o poder centralizado em algumas unidades federativas, seja ele comercial, industrial ou político, vem perdendo sua força, ao mesmo tempo em que abre, internamente no Brasil, um mercado que carrega consigo a genealogia de sua formação como local de multiplicidades, de sentidos variados, de conversação e negociações racionais, onde a linguagem (logos) torna-se comum a todos.

É claro que este mesmo mercado interno ainda está sujeitado aos ditames de uma política transcendente e representativa, o que acarreta vários problemas de ordem moral, uma vez que os consagrados políticos não efetuam uma análise sobre o mundo social e seus movimentos que se diferem entre sim, mas, ao contrário, executam suas vontades e liberdades individuais e as justificam na ordem do direito concebendo a realidade não como esta é, mas como eles gostariam que fossem, aqui lembrando o célebre Spinosa em sua crítica ácida aos homens que pensam fazer política quando somente agem moralmente.

Deste modo, podemos ainda acreditar materialmente em uma política compreendida como geração, a justaposição de um vinculo de reciprocidade entre as ações coletivas responsáveis pela produção do mundo social. A geração é produção e criação, desejo, construção da existência de modo autônomo e autêntico, isto é, produção de possibilidades materiais e concretas de mudanças intensivas no ser, sempre privilegiando a diferença como movimento de criação. Ontologia critica.

Compreendemos que um dos principais meios para se alcançar a geração é o trabalho. O trabalho é responsável pela produção do mundo social ao mesmo tempo em que é trabalho explorado. Ainda que seja próprio do processo do capital explorar o trabalho, com a finalidade de estabelecer a relação soberana, definidora de quem comanda e quem é sujeitado, o trabalho carrega consigo os desejos, vontades, sonhos e a liberdade dos trabalhadores responsáveis pela construção da história do mundo material e social.

 Como diz Antonio Negri:

 ”Não creio que os migrantes fujam somente da miséria; penso que eles busquem liberdade, saber e riqueza. O desejo é uma potência construtiva, e ela é tanto mais forte quanto mais está implantada na pobreza: a pobreza, de fato, não é simplesmente miséria, mas é a possibilidade de muitíssimas coisas, que o desejo indica e o trabalho produz. O migrante tem a dignidade de quem busca a verdade, a produção, a felicidade. E é essa força que rompe a capacidade inimiga do isolamento e da exploração e que retira, juntamente, ao suposto universalismo de Prometeu, qualquer nuança heróica e/ou teológica do comportamento dos pobres e dos subversivos. Quando muito, o prometeísmo dos pobres e dos migrantes é o sal da Terra, e o mundo é realmente modificado pelo nomadismo e pela mestiçagem”

Em uma imaginação necessária, imanente, pensamos em Lula agora: como o sapo barbudo deve está alegre, dando gargalhadas daqueles que sempre exploraram a miséria do pobre por acreditarem que estes eram somente miseráveis. Tolos! Nunca perceberam a beleza e a riqueza do pobre ser o sal da Terra.

Lula: a multiplicidade do sorriso

A revolta sem limites

Retirado do Blog Catatau

 

Esse sou eu. Nesse momento eu estava realmente furioso, cheio de raiva. Eu fiquei muito impressionado com a maneira que eu saí daquela situação. Isso realmente me impressionou mais. Realmente eu pensava que tinha que falar sobre os meus valores, sobre os quais eu sempre tive a capacidade de não perder. Eu não falava em ‘esperança’ porque realmente não sei o que isso significa, mas sim de nunca perder a inteligência de tentar entender tudo apesar de todas as contradições. Veja a maneira como me trataram. Foi realmente… Em face de tudo isso, acusaram-me de deslealdade e traição. Eu saí daquilo por mim mesmo, com dignidade.

As palavras acima (adaptadas) iniciam o documentário “A Eterna Revolta”, sobre o militante italiano Antonio Negri.

Surpreende como essas palavras coincidem com um outro comentário de Negri a respeito de seu livro sobre Jó, escrito enquanto estava na prisão: em Jó, ele “buscava na análise do sofrimento uma chave para resistir”. Diante de injustiças irrefreáveis, o uso da inteligência, a  constituição de um regime de persistência contra as adversidades. O interesse por Jó não era à toa…

Algum tempo atrás, Hugo Albuquerque postou o documentário, acrescentando alguns comentários. E Murilo Correia agora postou o documentário completo para download, com legenda em português (compilada por um de seus alunos). Bela contribuição sobre um belo trabalho.

 

 

 

Antonio Negri – Carta a um amigo tunisiano

Da Agência Carta Maior

Depois de vinte anos, assinalamos a transformação terrível que o neoliberalismo impôs sobre e através aquelas mudanças da figura do mercado e da natureza da força-trabalho: o fim do sistema salarial clássico, e com isso uma desocupação mortífera da massa e uma insustentável precarização — 35% da população jovem são força-trabalho cognitiva, mas só 10% trabalham; e mais, na Tunísia, se produziram e acumularam a destruição da primazia do estado de bem-estar social, desigualdades regionais ferozes e efeitos desastrosos do processo migratório. O artigo é de Antonio Negri.

Antonio Negri

24 de janeiro de 2011

Caro A.,

Realmente, quando há vinte anos você era meu aluno na Universidade de Paris 8 (Nanterre), não poderíamos imaginar que a revolução tunisiana tivesse características semelhantes e levantado problemas constitucionais
análogos àqueles da conturbação social e política no centro da Europa. À época, estudávamos juntos a expulsão da classe operária das minas de fosfato do sul tunisiano, o início de grandes ondas de migração interna e externa, e o lento processo de transformação que a terceirização da produção de tecidos coloridos europeus determinava em teu país. Tu te extenuavas em mostrar-me a potencialidade produtiva de teu país, além, anoto, da atividade têxtil ou da indústria do turismo ou dos serviços petrolíferos (que só mais tarde atingiram certa expansão). Tudo se encaminhou terrivelmente e com pressa. Vinte anos faz balbuciávamos sobre a globalização e hoje aí está, a ponto que a Tunísia se tornou uma província da Europa e, portanto, do mundo. Vinte anos faz, apenas começávamos a perceber a transformação do trabalho industrial ao imaterial/cognitivo e hoje a Tunísia conhece uma superabundância da última figura da força-trabalho.

E ainda, depois de vinte anos, assinalamos a transformação terrível que o neoliberalismo impôs sobre e através aquelas mudanças da figura do mercado e da natureza da força-trabalho: o fim do sistema salarial clássico, e com isso uma desocupação mortífera da massa e uma insustentável precarização — 35% da população jovem são força-trabalho cognitiva, mas só 10% trabalham; e mais, na Tunísia, se produziram e acumularam a destruição da primazia do Welfare [estado de bem-estar social], desigualdades regionais ferozes, efeitos desastrosos do processo migratório (concluídos ou interrompidos), o bloco dos investimentos externos etc.

No final, esses últimos vinte anos nos deram a consolidação de uma ditadura mafiosa, uma corrupção insustentável e um sistema repressivo cruel e torpe (torpe por secundar e legitimar pelo medo ocidental de uma ameaça islâmica, cruel porque foi pura e simplesmente dominação de classe, exploração e opressão dos poderes corruptos contra os trabalhadores e a gente honesta).

Que fazer, me perguntas, a hora veio em que o conhecimento da exploração é insurgente e o desejo de liberdade se rebela? A insurreição criou novas forças: como usá-la, como movê-la contra os velhos inimigos e contra os novos que rapidamente aparecerão?

Caro professor, me escreves, lembra quando ironizávamos sobre os iluministas que concorriam a prêmios com projetos sobre as novas Constituições da Córsega ou da Polônia ou ainda para a Carolina [estado dos EUA]? Por que então não discutimos (nessa vez sem rir) sobre os conteúdos de uma nova Constituição da Tunísia, não tanto porque aqui não haja quem seja capaz de fazê-lo bem, (embebido de reflexões solitárias sobre a conspiração, a cultura política política global que aqui em todo caso circula, — decerto mais do que na Itália — a angústia do tumulto e a glória da vitória) mas porque falar da Tunísia, dos novos direitos, das garantias a definir, é hoje também falar da Europa, caso algumas de suas regiões também se libertem dos despotismos atuais!

Meu amigo, companheiro A., não me convenceste [em redigir um projeto de constituição] — que ironia teus juízos não mais me vincularem como de hábito, estou convencido que não nos podemos substituir ao que os protagonistas fazem e propõem. É verdade, no entanto, que o teu problema é quase geral, que uma nova constituição da liberdade não é só um problema tunisiano mas de todos os homens livres. Enfio-te goela baixo então algumas reflexões, a fim de abrir uma discussão, um fórum em que muitos possam participar. Para começar, insisto sobre alguns pontos, que me parecem mais importantes do que outros, para qualificar qual coisa possa ser hoje uma democracia verdadeira — ou mesmo uma “democracia absoluta”, que já à época, faz vinte anos, tínhamos predileção.

1) Aos velhos poderes (legislativo, executivo, judiciário), que é necessário purgar e restaurar com vigor, debaixo de um contínuo e acrescido controle do poder legislativo, vamos incluir ao menos outros dois órgãos de governo democrático, um que aja no “setor midiático” e outro que aja sobre “bancos” e as “finanças”.

Em primeiro lugar, portanto, não é mais possível imaginar um regime democrático em que não haja a possibilidade de obrigar a informação, a comunicação e a construção da opinião pública a respeito da verdade, da liberdade, do valor da multidão. A importância extrema que tiveram as iniciativas na internet durante a insurreição será preservada como uma possibilidade contínua de exercício. Essas práticas serão sacadas da excepcionalidade e traduzidas num exercício de contínuo controle democrático. Mas não basta: as velhas mídias serão também pregadas a um controle social que as livrem de blocos impositivos do poder executivo e dos partidos políticos.

Assim, há um só modo de afirmar essa figura democrática: o direito de expressão é libertado do poder do dinheiro. A pluralidade da informação não pode representar o caminho para a sua capitalização, e vai garantida pela soberania popular a fimde multiplicar a discussão, o confronto de opiniões, as decisões. O direito de expressão não se assegura somente ao indivíduo, mas também se direciona ao exercício coletivo, excluindo toda pretensão capitalista de exploração e toda tentativa de assujeitá-lo. O direito de expressão se afirma como potência constituinte, aberta à legitimação do comum.

2) Os “bancos”, as “finanças”, foram transformadas durante o desenvolvimento do capitalismo em um poder à parte, controlado pelas elites industriais e políticas. No neoliberalismo ainda seu controle foi determinado e as finanças se tornaram totalmente independentes, fundando no nível global a legitimidade de sua intervenção. Na Tunísia, como tu diceste, na passagem à democracia está em jogo também uma progressão da forma de controle capitalista sobre a vida civil. O capital financeiro já está aparecendo de maneira mais agressiva. Na comunicação, enquanto a censura está definitivamente desaparecendo, novas formas de controle se apresentam.

O problema é por conseguinte aquele de bloquear esse processo, de transformar os bancos em serviço público, de modo que a alocação de fundos financeiros e a elaboração das políticas de investimento sejam decididas em comum. Os instrumentos das finanças devem colocar-se a serviço da multidão. É claro que isto implica a construção de poderes democráticos para os programas financeiros, coordenados às atividades legislativa e executiva, e logo poderes monetários expurgados daquela independência postiça e hipócrita do Banco central — que serve como instrumento do capital global. Este é um caminho difícil de percorrer.

Achamo-nos não só contra os banqueiros nacionais como também os interesses globais do capital. Mas é um caminho que se deve percorrer com grande determinação — prudentemente, mas com determinação. Assim, de fato, se lança uma pedra primeira para uma sublevação global contra o neoliberalismo e o capitalismo financeiro, uma sublevação mais madura!

O New York Times se deu conta imediatamente: “a small revolution” [uma pequena revolução], como aquela tunisiana, pode inflamar não só o norte da África, mas o mundo árabe como um todo. É preciso, por isso, ter em mente, ao abordá-la, que um autocrata pode fazer concessões (ao povo mas sobretudo aos bancos e às empresas multinacionais) mais facilmente do que poderia fazer um líder democrático porém fraco — como aquele que ao fim os tunisianos elegerão. Eis porque o prognóstico americano. Eis a consequência de nossa hipótese: não é possível hoje imaginar uma revolução democrática que não realize, antes de qualquer outra operação, uma nacionalização dos bancos, uma reapropriação dos lucros, ao que se deve seguir a instauração de um direito comum. Somente assim a potência da multidão pode constituir-se.

Ao fim da qual se faz essa agência financeira, democraticamente gerida, que pode propiciar um Welfare à população tunisiana, contra a precariedade, estabelecendo uma renda garantida, a possibilidade de uma educação completa e de uma assistência de saúde adequada a cada cidadão. Hoje não há liberdade que não passe pelo comum. Expressivamente a ditadura privatizou tudo o que na Tunísia podia fazê-lo — é preciso portanto retomá-lo.

Caro A, só sobre o comum e sobre a gestão comum depende agora o futuro de vossa geração e de vossos filhos. Certo, o desastre que herdaste não se cancela de um golpe só — assim que as nuvens que seguem a insurreição se dissipem, serão [o comum e a gestão comum] a prioridade ao redor da qual se concentrar e decidir. Mas o dispositivo de um governo constituinte não pode senão proteger o comum. Não largar a proposta do comum (esta é também a tua preocupação, companheiro A.) aos islâmicos. É sobre uma falsa propaganda do comum que desenvolve a atividade deles.

3) O terceiro ponto se refere à forma de governo. Como tu dizes, a revolta tunisiana foi social, nasceu da inteira sociedade que trabalha. Ben Ali tinha compreendido bem que não podia, acima de tudo, permitir à revolta social expressar-se politicamente e cada político sabia que nessa desocupação da juventude estava a bomba relógio pronta a explodir. Por quê?

A juventude — força-trabalho cognitiva — é hoje a verdadeira classe trabalhadora do pós-industrial. Porque é força-trabalho cognitiva, esta juventude não é impotente; antes, tem os meios de superar essa frustração que tem paralisado os estamentos mais pobres e antigos da população. A cultura da impotência foi quebrada com a força das ruas da Tunísia.

Então, essa juventude deve manter aberto o processo revolucionário, transformando a insurreição na máquina de governo constituinte. Não pode deixar nas mãos das velhas elites (nem socialistas nem democráticas nem islâmicas) as transformações da constituição do país. De outro lado, os tunisianos tem menos necessidade hoje de uma nova constituição do que de um processo constituinte alargado ao país inteiro — inclusive as forças armadas, os juízes, a universidade. O poder legislativo e a governança necessárias para repor em movimento o país devem ser diretamente exercitados pelos jovens e pelos grupos revolucionários, organizados em todos os lugares e nos quais seja possível e urgente.

Mas tudo isso se pode fazer se puder evitar, pelo maior tempo possível (segundo aqueles projetos iluministas de constituição democrática do qual falávamos, esse tempo não podia ser inferior a uma década), a fixação de formas de representação estável. A agilidade do poder global, de seus bancos, de suas instituições centrais, é verdadeiramente grande: não terão dificuldade, esses senhores, de achar (e pagar) alguns socialistas ou alguns islâmicos para determinar o equilíbrio a favor deles! A insurreição foi ágil e deve achar tanta agilidade quanto ao mover-se contra o poder global e sua emanação mediterrânea, que já estão se concentrando contra o perigo extremo da insurreição tunisiana e sua expansão ao Magreb [norte da África]. Recordamos (não era a propósito a sua preocupação, companheiro A.?): se não construirmos comitês de ação constituinte, serão os islâmicos que, radicais ou moderados, retomarão a política nas mesquitas. Entretanto, mais será a política democrática e constituinte, quanto mais for laica…

Tchau, continuemos a trocar informações. Respiram-se ares novos e, em algum tempo, por todo lugar. Esperando pela Argélia!

Toni Negri.

P.S.: Se abres os jornais econômicos ocidentais, estão aqueles que, à direita, primeiro de tudo conversam sobre a queda dos títulos da dívida soberana tunisiana, da parte das agências de cálculo. A [agência de consultoria financeira] Moody´s já depreciou o título da dívida soberana tunisiana e mudou a avaliação de estável à negativa. Sobre o mesmo argumento, à esquerda, lamenta-se essa decisão porque, ao contrário, insiste-se sobre o fato que também a insurreição é… produtiva. O fim da dominação mafiosa sobre a indústria tunisiana deveria permitir uma retomada do crescimento. Mas de qual crescimento? Da pobreza, da precariedade?

Quanto à etiqueta política, à direita se multiplicam as ameaças. Atenção, cidadãos tunisianos, porque se exagerais, o exército está já a postos para a repressão. Exatamente o mesmo exército que vos ajudou a libertar-se de Ben Ali — continuam os comentadores da direita. Não aumentais o medo do vazio. Mas à esquerda, exaurido um primeiro momento de alegria, que coisa se pede agora? A hora que Ben Alì se foi, o país saberá reconstruir o seu aparato de Estado e conduzir uma transição pacífica para a Democracia? Só isto pede a esquerda?

Na realidade, de um lado e do outro, a preocupação é tão grande quanto a surpresa. Tornar-se-á a transição da Tunísia à democracia um exemplo, um laboratório, para todo o mundo muçulmano? Mas se é só isso que se quer, é realmente pouco novo; antes, é realmente velho: é simplesmente um novo colonialismo.

Caro A., não nos assustamos em pensar uma nova constituição, um novo processo constituinte, novos instrumentos da potência democrática dos cidadãos. No Magreb, na Argélia, na Tunísia e mais ainda no Egito, se está num momento de grande e profundo desenvolvimento de uma democracia construída de baixo. Contrariemos a pequeneza repressiva dos comentadores americanos e europeus.

P.P.S. Releio esta minha carta antes de mandá-la, estamos em 28 de janeiro, o Egito queima.

(*) Antônio Negri, filósofo político e militante da Universidade Nômade, uma das lideranças do Operaísmo italiano e do movimento Autonomista nos anos 1960 e 1970 na Itália, é autor, dentre outros, de Império, Multidão, Poder Constituinte, Anomalia Selvagem e Cinco Lições sobre o Império, todos com tradução em português.

Tradução: Bruno Cava – Outras Palavras

ENTREVISTA SOBRE O CASO BATTIST COM O FILÓSOFO ANTONIO NEGRI

Entrevista realizada no dia 15 de fevereiro de 2009

A Itália adota uma postura “insultante” com o Brasil no conflito em torno do ex-ativista Cesare Battisti, porque não se trata de um país desenvolvido, e mente quando diz que vivia um Estado de Direito nos anos 70. A análise é do filósofo italiano Antonio Negri, que passou mais de dez anos preso por seu envolvimento com a militância de esquerda na Itália.

Negri é co-autor, com Michael Hardt, do livro “Império”, publicado no Brasil em 2001 e umas das obras mais importantes e polêmicas sobre o processo de globalização. Com Giuseppe Cocco, publicou “Global – Biopoder e Luta em uma América Latina Globalizada”, em 2005.

Leia abaixo a entrevista completa, concedida por Negri via telefone desde Veneza.

UOL – Como o senhor vê a posição da Itália no caso Battisti?

Antonio Negri – A posição italiana é uma posição muito complexa. Como se sabe, o governo italiano é um governo de direita e é um governo que, depois de 30 anos, retomou a perseguição das pessoas que se refugiaram no exterior depois do final dos anos 70, depois do final dos anos nos quais na Itália houve um forte movimento de transformação, de rebelião. E, portanto, o governo italiano retoma hoje uma campanha pela recuperação destas pessoas. Em particular, tentou fazê-lo com a França, para conseguir a extradição de Marina Petrella [condenada por subversão pela justiça italiana] e não conseguiu porque o governo francês, a presidência francesa [Nicolas Sarkozy], impediu. Neste ponto, aparece em um momento exemplar o caso Battisti.

UOL – O que o senhor quer dizer com perseguição? É perigoso neste momento para Battisti retornar à Itália?

Negri – Eu não sei se é perigoso. Mas é certo que ele foi condenado à prisão perpétua e seria para ele uma situação muito grave.

UOL – Um dos motivos que o Brasil cita para manter o refúgio político é a ameaça de perseguição política contra Battisti…

Negri – Mas seguramente ele seria alvo de uma perseguição política e midiática.

UOL – Trata-se, portanto, de um temor com fundamento?

Negri – Veja bem, o governo italiano, depois de 30 anos, quer recuperar, para fazer um exemplo, as pessoas que se refugiaram no exterior. E que se refugiaram no exterior porque na Itália havia uma condição de Justiça que era impossível de aguentar.

UOL – O que significa esse “exemplo”? A punição de Battisti resolveria a questão da violência na Itália nos anos 70?

Negri – Precisamente. Resolveria em dois sentidos: por um lado, se recupera aquilo que eles chamam ‘um assassino’; e por outro se esquece aquele que foi um Estado de Exceção, que permitiu a detenção e a prisão preventiva de milhares de pessoas durante estes anos. É necessário recordar que nos anos 70 o limite jurídico da prisão preventiva era fixado em 12 anos. É necessário recordar o uso da tortura e de processos sumários inteiramente construídos sob a palavra de presos aos quais era prometida a liberdade em troca de confissões. Este foi o clima dos anos 70. E não nos esqueçamos que nos anos 70 houve 36 mil detenções, seis mil pessoas foram condenadas e milhares se refugiaram no exterior. E se há quem duvide desses números, e que quer continuar duvidando, basta que deem uma olhada nos relatórios da Anistia Internacional naqueles anos. Portanto, essa é uma questão muito séria. O caso Battisti é, na verdade, um pobre exemplo de uma estrutura, de um sistema no qual a perseguição, insisto na palavra ‘perseguição’, era acompanhada por enormes escândalos na estrutura política e militar italiana. Houve uma construção, principalmente por meio de uma loja maçônica chamada P2, de uma série de atentados dos quais ainda hoje ninguém sabe quem foram os autores, atentados que deixaram milhares de mortos, por parte da direita. E o governo italiano nunca pediu, por exemplo, que o único condenado por estes atentados seja extraditado do Japão, onde se refugiou. Existe uma desigualdade nas relações que o governo italiano mantém com todos os outros condenados e refugiados de direitas que é maluca. O governo italiano é um governo quase fascista.

UOL – Se houvesse um governo de esquerda na Itália o caso seria o mesmo? [O líder da oposição de centro-esquerda] Romano Prodi faria o mesmo?

Negri – Eu não acredito que Prodi faria o mesmo, mas parte da esquerda faria o mesmo, isso é verdade.

UOL – Como o senhor vê hoje o PAC [Proletários Armados pelo Comunismo, grupo do qual Battisti fazia parte]?

Negri – O PAC era um grupo muito marginal, mas isso não significa que não estivesse dentro do grande movimento pela autonomia. Mas ouça, o problema é esse: eu acho que as coisas das quais foi acusado Battisti são coisas muito graves, mas – e isso me parece importante dizer – estas são responsabilidades compartilhadas por toda a esquerda verdadeira. Não se trata de um caso específico. O Supremo Tribunal Federal do Brasil construiu uma jurisprudência pela qual foram acolhidos outros italianos nas mesmas condições que Battisti.

UOL – E como a Itália deve solucionar esta dívida com o passado?

Negri – Isso deveria ser feito por uma anistia, mas o governo italiano nunca quis caminhar por este terreno. Talvez tudo isso tenha determinado tremendas conseqüências no sistema político italiano, porque foi retirada da história da Itália uma geração ou duas, que poderiam ter conseguido determinar uma retomada política. É uma situação muito dramática. E gostaria de acrescentar uma coisa: o a postura da Itália no confronto com o Brasil a respeito deste tema é uma postura muito insultante.

UOL – Por quê?

Negri – Trata-se de uma pressão feita sobre o Brasil, enquanto um país fraco, depois que os franceses não extraditaram à Itália Marina Petrella. Psicologicamente, trata-se de uma operação política e midiática muito pesada contra o Brasil, na tentativa de restituir a dignidade da Itália, no âmbito da busca de restituir os exilados.

UOL – O senhor acha que as autoridades italianas se sentem especialmente ofendidas pelo fato de a decisão em favor de Battisti vir de um país em desenvolvimento, antiga colônia de um país europeu?

Negri – Seguramente, porque se trata de pobres que reagem contra os ricos, contra os capitalistas.

UOL – O senhor também esteve preso?

Negri – Eu fui detido em 1979 e fiquei na cadeia até 1983, em prisão preventiva, sem processo. Em 1983, houve um eleição parlamentar e eu saí da cadeia porque fui eleito deputado, porque não era ainda condenado. Fiquei preso quatro anos e meio – e poderia ter ficado até 12. Ou seja, quando os italianos dizem que nos anos 70 foi mantido o Estado de Direito, eles mentem. E isso eu digo com absoluta precisão, com base no meu próprio exemplo: fiquei quatro anos e meio em uma prisão de alta segurança, prisão especial, fui massacrado e torturado. Pude deixar a prisão apenas porque fui eleito deputado – do contrário, eu poderia ter ficado na prisão por 12 anos, sem processo. Durante os anos que fiquei na França, exilado, eu fui processado e condenado a 17 anos de prisão, mas que foram reduzidos porque havia uma pressão pública forte em meu favor. Quando voltei para a Itália, fiquei outros seis anos presos e encerrei a questão.

UOL – Quais eram as acusações?

Negri – Associação criminosa, gerenciamento de manifestações que eram violentas nos anos 70, em Milão, em Roma, em toda Itália. Mas a primeira acusação que sofri não era de agitador político, por escrever jornais etc., mas de chefiar as Brigadas Vermelhas, o que não é verdadeiro, e de ter assassinado [Aldo] Moro, acusações das quais fui absolvido depois. Entende? Na Itália se busca desesperadamente fazer valer uma mitologia dos anos 70, que é falsa. E a direita no poder hoje busca a qualquer custo restaurar um clima de falsidade e de intimidação para não permitir que a história seja contada como foi.

UOL – Existem aí semelhanças com o governo militar no Brasil?

Negri – Isso eu não sei, porque acho que os governos militares na América Latina foram particularmente violentos. Mas o problema é outro: a questão é que a liberdade, o Estado de Direito e as regras da democracia não podem ser infringidos ou falsificados em nenhuma situação.

Informações sobre Antonio Negri aqui

GREVE NA FRANÇA E A CONSTITUIÇÃO DO COMUM

A França enfrentará hoje a sexta grande paralisação nacional causada por uma greve geral. A greve reúne trabalhadores de diversos setores como do transporte metropolitano, portuário, caminhoneiros, ferroviários, entre outros, e coloca como principal preocupação para o governo do presidente francês Sarkozy a falta de combustível para o país.

Segundo informações do Correio Braziliense:

“O desabastecimento de combustível gerado pela adesão das refinarias à greve contra a reforma da Previdência — que irá à votação amanhã no Senado — obrigou o governo francês a criar uma “célula interministerial de crise”. Pelo menos quase 1,5 mil postos de gasolina dos 12,5 mil existentes no país estavam ontem sem combustível, segundo cálculos da União de Importadores Independentes de Petróleo (UIP), que representa os distribuidores instalados em hipermercados. Para hoje, é prevista um greve geral. Mas o presidente francês, Nicolas Sarkozy, disse que não irá ceder às pressões. “A reforma é essencial, e a França está comprometida em fazê-la e levá-la adiante, assim como fizeram nossos parceiros alemães”, afirmou”.

A greve geral é motivada principalmente pela reforma na Previdência no país que eleva a idade mínima  de 60 para 62 anos para aposentadoria e de 65 para 67 anos, no caso de recebimento do salário integral (maiores informações aqui). Tal reforma é o efeito de políticas neoliberais impostas aos governos que devem seguir medidas de austeridade como, por exemplo, cumprirem em seis meses medidas destinadas a redução dos déficits, sendo que serão penalizados, caso não consigam, pelos órgãos financeiros multinacionais.

Há investimentos diretos sobre a produção e a reprodução da vida nestas medidas de austeridades que são impostas como pílulas neoliberais aos países sob o controle deste tipo de “economia política”. Portanto, há uma dimensão “biopolítica” que tenta a todo custo gerir a vida e controlá-la, a ser combatida; assim, como há também, uma biopolítica que corresponde a produção de subjetividades que não se constituem como produtos do controle do tempo, do espaço, da lógica monetária e outras imposições do neoliberalismo, mas como produções livres.

Em outras ocasiões na França, este tipo de greve, descrita por Antonio Negri como uma nova forma de luta: “greve metropolitana”, onde os principais serviços públicos afetados eram justamente o transporte metropolitano, geraram alguns acontecimentos de interesse deste filósofo.  O filósofo Negri, em Conferência Inaugural do II Seminário Internacional Capitalismo Cognitivo – Economia do Conhecimento e a Constituição do Comum. 24 e 25 de outubro de 2005, Rio de Janeiro, relacionando estes acontecimentos na França com o que é a constituição do comum, disse:

Então, o que é a propriedade comum? A propriedade comum, do ponto de vista jurídico, é facílima de definir: é uma propriedade pública que, em lugar de ter patrões públicos ou donos públicos, é de sujeitos ativos naquele setor ou naquela realidade, é administrada por eles. A propriedade comum é esse ato, é essa atividade através da qual os sujeitos administram ou gerem, por exemplo, a rede de transportes urbanos porque a rede de transporte urbanos é deles, porque o comum se tornou ou é reconhecido como uma condição para a vida, uma condição biopolítica. O que significa, por exemplo, uma metrópole sem transporte? Nada. O transporte urbano, sobretudo nas grandes metrópoles, é o transporte que dá a dignidade, a possibilidade de circular rapidamente nesse espaço. No espaço da comunicação são a informática e a telemática as que possibilitam essa propriedade comum. A propriedade comum não passa simplesmente pelo Estado, passa pelo exercício que as singularidades fazem desse espaço comum, pela maneira de exercer esse espaço comum. Não depende de etapas no sentido de primeiro fazermos isto e depois fazermos aquilo, como durante tanto tempo ensinaram muitas dogmáticas socialistas (primeiro fazemos isso e depois aquilo e aquilo outro será possível depois de fazer aquela outra coisa). Não é verdade. Agora se trata é de pôr em movimento tudo a uma só vez. Portanto, para além da propriedade pública, a definição jurídica do comum é aquela que possibilita fazer atuar dentro do caráter público a

construção de espaços comuns reais, que são estruturas comuns, e fazer atuar nesses espaços de vontade a decisão, o desejo e a capacidade de transformação das singularidades. Isto é uma das coisas que mais me condicionou na vida e que mais condicionou meu pensamento.

Eu fui conquistado por uma greve e Paris no inverno de 1995 para 1996. Era uma greve inicialmente de defesa corporativa do serviço público, dos empregados do metrô e dos transportes de superfície. Em pouquíssimo tempo se transformou em uma enorme luta que durou três meses, uma luta metropolitana para manter o serviço público, para proibir a privatização dos serviços públicos e para defender, de maneira geral, o que esse serviço representava para os cidadãos de Paris. O poder fez de tudo, claro, para intervir, incitando protestos de usuários e outras coisas que estão nos manuais de Ciência Política. Mas não conseguiram nada. Na neve, 8 milhões de parisienses se deslocavam com automóveis particulares, que paravam nos pontos de ônibus ou nas estações de metrô, abriam as portas e levavam quatro ou cinco pessoas até onde necessitavam ir. Isto se prolongou durante três meses e isto é a constituição do comum. É esta participação, esta capacidade de assumir pelas próprias mãos as condições biopolíticas da própria existência, do próprio modo de trabalhar. Esta é uma indicação que tem uma importância em minha experiência. É fundamental tirar as conseqüências disto, uma espécie de pequena filosofia do comum. Esse comum, como já disse, está fundamentalmente articulado, no sentido mais pleno da palavra, com o movimento e a comunicação das singularidades. Não existe um comum que possa ser referido simplesmente a elementos orgânicos ou a elementos identitários. O comum é sempre construído por um reconhecimento do outro, por uma relação com o outro que se desenvolve nessa realidade. Às vezes chamamos essa realidade de multidão porque quando se fala de multidão, de fato, se fala de toda uma série de elementos que objetivamente estão ali e que constituem o comum. Mas o problema é simplesmente ser comuns ou ser multidão, o problema é fazer multidão, construir multidão, construir comum, construir comumente, no comum. Este fato é cada vez mais fundamental.

“A conferência completa em forma de texto poder baixada aqui

 

Literamundo – AMOR

AMOR

A definição materialista de amor é uma definição de comunidades, uma construção de relações afetivas que se estendem através da generosidade e que produz agenciamentos sociais. O amor não pode ser algo que se fecha no casal ou na família; deve abrir-se para comunidades mais vastas. Deve construir, caso a caso, comunidades de saber e de desejo; deve tornar-se construtor do outro. O amor é hoje fundamentalmente a destruição de todas as tentativas de fechar-se na defesa de algo que não pertence a si. Creio que o amor é a cheve essencial para transformar o próprio em comum.

(Antonio Negri em Exílio)

DOIS ACONTECIMENTOS PEQUENOS PARA O AVANÇO DA AMÉRICA DO SUL

Pode até parecer coisa pequena: a Argentina e o Brasil definiram setores para uma política industrial comum; e a Venezuela, através do seu ministro de Relações Exteriores, Nicolas Maduro Moros, confirma a construção de uma “identidade de pontos de vista” com o Brasil para projetos econômicos, políticos e sociais para a América do Sul.

Estes dois acontecimentos podem ser compreendidos como uma aliança entre estes países rumo a uma política contra os projetos imperiais como a ALCA (Área de Livre Comércio das Américas), por exemplo.

Trata-se de compreender que revolução alguma pode vim de um país isolado. O trabalho político revolucionário dos países da América do Sul é de cunho internacional. Isto porque não se trata apenas de projetos de leis em comum ou de acordos políticos profissionais.

É uma questão de resistir a reprodução do capital em sua forma globalizada, bem como da relação entre capital e capitalismo compreendida no comando e na medida da superioridade do patrão sob o trabalhador, do burguês sob o proletário, dos países desenvolvidos sob os emergentes. E participar da ordem interna do neoliberalismo com a sua formula falsa do menos Estado, minando a sua hegemonia e seu controle.

Daí serem realmente pequenos estes acontecimentos. Mas, pequenos porque não passam somente pelas decisões da política profissional e pelas estatísticas parasitárias que estabelecem um espaço anêmico e inerte, mas pelas micromultiplicidades que ocorrem em todos os lugares e agitam os fluxos contínuos de criação e as potências — desmedidas da ordem estabelecida.

Não é pequeno por tamanho ou extensão, mas porque é molecular em relação com um molar que reúne seus conjuntos de segmentaridades duras. É deste modo, que o governo Lula é de suma importância, pois sua ação internacional vai contra a ordem estabelecida e ajuda abrir caminhos para países como a Argentina e a Venezuela e até a China para formarem resistências contra o Império.

Mentes limitadas cognitivamente não compreendem que isto tudo não se trata de Lula, presidente, mas de uma potência em movimento que não confirma o ser somente porque o ser é o que é, como diria um materialismo ingênuo, mas se transforma continuamente em uma realidade que despreza a especulação e as mistificações políticas e financeiras, e trabalha vivamente em prol de uma ética materialista mais ao modo de Espinosa. E isto tudo se faz possível com o governo Lula.