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DAS CONTRADIÇÕES DEMOCRÁTICAS DA HOMOFOBIA DO VEREADOR MARCEL ALEXANDRE

Após a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) em legitimar a união homoafetiva, garantido assim direitos civis e sociais aos homoafetivos brasileiros, o vereador da Câmara Municipal de Manaus, Marcel Alexandre, que auto se refere como líder da bancada evangélica da cidade, fez um pronunciamento onde declarou está ocorrendo no Brasil uma “Ditadura Gay”.

Dizendo ser contra qualquer violência contra pessoas que optaram por outros modos de existência sexual, o vereador declarou a um jornal local:

“Eu lamento muito essa decisão, porque a sociedade não foi ouvida. Eu sou parlamentar e represento o movimento evangélico, mas não só essa denominação é contra, os católicos que são maioria, também são contra. Então pra mim democracia é ouvir a maioria, e assim decidir algo. Essa decisão está feriando a Constituição”

Uma primeira contradição surge no pronunciamento do vereador referente ao estado de coisas constituído em uma democracia determinada por um Estado de direito. Em primeiro lugar, se o que define um Estado de direito é o estabelecimento de leis, constituídas por aqueles que integram o corpo político, administrativo e jurídico, de onde advêm as representações que fazem parte da codificação do poder exercido sobre um ser coletivo, o vereador, ao dizer que lamentou a decisão do STF, expressou sua falta de confiança na democracia representativa, desempenhada através de uma decisão jurídica por um poder que compõe o Estado, e do qual o próprio vereador faz parte.

Em segundo lugar, o vereador, ao declarar a causa de seu lamento como sendo o “porque a sociedade não foi ouvida.“, desmereceu os representantes da sociedade, no que diz respeito à ordem jurídica do país, e que foram nomeados segundo critérios determinados por aqueles que foram escolhidos pelo povo, segundo a lógica de que as pessoas alienam suas liberdades, portanto, seu direito de escolha, no momento em que fazem do voto uma ação de onde surge uma medida entre representados e representantes. O vereador, mais uma vez, fez com que o seu próprio cargo público fosse colocado sob suspeita quando não percebeu que em um Estado de direito a sociedade já se faz ouvida, através da legalidade constituída por aqueles em que o povo votou.

Em terceiro lugar, sendo o STF a instância maior do poder jurídico que resguarda a Constituição Federal do país, o vereador pareceu não compreender que a maioria em uma democracia representativa não se traduz somente por uma quantidade numérica de pessoas, mas se determina em função de grupos sociais, constituintes da sociedade civil, que reclamam seus direitos, principalmente o direito a ter direitos, para obter o respeito como cidadão através de leis que os garantam seguridade cívica e social, política e econômica, especialmente que os garantam representatividade frente a Constituição Federal de um país. O vereador, mais uma vez, reduziu a democracia somente a uma balança de interesses e se fez, ao se declarar representante do “movimento evangélico”, um governante (legislador) que usa tal balança não para pesar os benefícios, o bem comum, as coisas necessárias a vida digna na cidade, mas muito pelo contrário, para medir seus próprios interesses e o interesse de uma minoria numérica (mais neoliberal do que essa “arte de governar”, impossível).

Pois bem. Marcel Alexandre demonstra todas estas contradições democráticas através de sua homofobia, a qual pode muito bem evidenciar sua propensão para uma existência negativa, uma vez que não demonstra amor ao seu próximo e faz da vida um poço de ressentimentos, de onde as decisões não são tomadas de modo racional, mas através da verdade dogmática que impõe a interpretação única e verdadeira própria do despotismo dos sacerdotes. O vereador ainda evidencia sua debilidade cognitiva-política, pois suas colocações não se definem como noção democrática, mas, ao contrário, (e talvez o vereador nem sequer desconfie disso) evidencia um forte sintoma de que muitos políticos profissionais não conseguem perceber o momento de crise que a democracia vem passando.

Isto significa dizer o quanto eles não percebem o quanto o trabalho social vem tomando uma nova razão através de modos de produção e reprodução de subjetividades afetivas (Movimentos feministas, raciais e étnicos, da saúde mental, dos sem-casa, dos sem-terra, dos homossexuais, etc.). E o quanto esta nova razão envolve questões administrativas, jurídicas, econômicas e políticas representativas, ao mesmo tempo em que não se confundem com elas. Contudo, nos perguntamos como o vereador poderia perceber isso tudo, ou melhor, tais transformações, ainda recentes, que aos poucos vão fazendo com que a lei ceda lugar a normatização, a uma razão de governo que mais ocorre dos governados para os governantes do que dos governantes para os governados, se ele, contra a Constituição Federal que reza por um Estado Laico, ainda pretende empreender uma gestão parlamentar própria da Idade Média?

Neste sentido, a democracia, assim como o reconhecimento social do sexo pode passar por vários saberes aonde estes vão ser relacionados com seus correlatos de poderes (biologia, psicologia, psicanálise, entre outros) e vai se tornando representação e se ajustando ao cotidiano, ao mundo social, ora constituindo identidades ora subvertendo estas mesmas identidades, a democracia não se reduz somente ao seu modo representativo que a iguala a monarquia e a aristocracia, uma vez que se determina somente por uma parte que representa o todo, apenas uma quantidade numérica. A democracia pode ser mais do que isso quando tornada absoluta, quando se torna a subversão dos preconceitos transcendentes e passa a ser o movimento na história através dos desejos que impulsiona o trabalho livre.

É claro que os governos, seus governantes podem errar, mas o que mais prejudica um governo não é somente o governante ser ruim, mas ele ser ignorante.

O OLHAR MORALMENTE LOBOTOMIZADO DE LUCIANO HUCK

Favela é como o Oriente Médio. Pra ficar médio ainda falta muita coisa.” (Luciano Huck, na premiação ANU, da Central Única das Favelas)

A pergunta óbvia seria essa: o que uma entidade social representativa da favela  faz se metendo com gente do naipe de Luciano Huck, ou Lu, para os íntimos, como José Serra?

Embotado pela moral, o cérebro de Huck produz imagens teratogênicas, contaminadas pelo germe reativo do capitalismo. Embora a capacidade de síntese do lobo occipital esteja intacta, Huck só consegue ver as imagens-clichês que a sociedade do consumo lhe destinou.

Assim, a frase de Lu demonstra a lobotomia moral de um cérebro sem vontade, e entregue à resignação, à apatia. Este que, aliás, consome a reprodução da miséria social, o colírio alucinógeno da compaixão, do qual o próprio Huck é vítima e algoz: a exploração da miséria pela própria miséria. Não por acaso, Huck é o bom moço da Veja e da Globo. Os manauaras que o digam.

Mas numa coisa, inadvertidamente, Lu, o amigo de Serra, tem razão. A favela é mesmo como o Oriente Médio. Ambos são incapturáveis, e sobrevêm a qualquer lobotomia moral, transbordando sentido, riqueza produzida pela estrutura neurocognitiva não reificada pelo consumo e não embotada pela inamobilidade do capitalismo: o habitante da favela é tão necessário ao mundo quando o oriental. E para além de olhares discriminatórios, assim como a flor irradia sua beleza, independente da vontade de Deus.

OBSERVAÇÕES SOBRE O BRINCAR DA CRIANÇA NA SOCIEDADE DO CONSUMO

“Para tornar uma máquina automática é preciso sacrificar muitas possibilidades de funcionamento. Para tornar um objeto prático automático, é preciso estereotipá-lo em sua função e torná-lo frágil” (Jean Baudrillard)

O capitalismo e a chamada sociedade de controle pretendem suplantar a necessidade histórica de repressão às massas, no plano macropolítico, investindo cada vez mais na disseminação de formas de comportamento que não necessitem de supervisão externa para funcionar “tal como devem”.

Agindo um pouco à moda do Admirável Mundo Novo, a sociedade do consumo oferece tudo aquilo que a parte mais primitiva do nosso sistema neurocerebral precisa para se manter ocupada: luzes, cores, sons, odores, sabores, simulacros de sexo e amor, e por aí segue. O que, claramente, leva a um acomodamento das funções mais, digamos, desenvolvidas. Dentre elas, a faculdade do juízo, da análise e da elaboração de um pano de fundo existencial para além do próprio indivíduo.

Assim, temos, por exemplo, a internet, como uma poderosa ferramenta de disseminação de saberes e dizeres, de produção mesmo de outros entendimentos sobre si e sobre o mundo, mas que é subutilizada, simplesmente porque não se sabe produzir conteúdo, ou não se aprendeu a selecionar, dentre o universo de informações que ela traz, quais são ou não relevantes para a produção deste pano-de-fundo existencial. Neste aspecto, fazemos coro a Umberto Eco, quando este diz que precisamos aprender a lidar com a internet.

Igualmente – é onde queremos chegar com este breve comentário – a indústria de brinquedos e entretenimento infantil não é predatória e nociva às crianças apenas por oferecerem um arsenal marketológico e um imaginário “xuxeado”. A forma como se brinca, como se relaciona com os brinquedos enquanto objetos também está contaminada.

Karl Marx e o próprio Hegel já sabiam que o prazer obtido no trabalho está em realizá-lo, e não no objeto produzido. Este, tem valor social. Mas o resultado do trabalho, a produção neurocognitiva, as sinapses, o exercício físico-intelectivo para realizar aquele trabalho, este é um ganho de quem o realizou. A práxis neuro-muscular não apenas reforça e enriquece o corpo como é recurso necessário para o conhecimendo do mundo ao nosso redor.

Antigamente, a criança dizia: “olha o que eu fiz com este brinquedo!”. Hoje em dia, é comum ouvirmos: “olha o que esse brinquedo faz”. O papel da criança em relação ao objeto lúdico deixa de ser o do protagonista, no exercício da práxis neuro-muscular, para ser espectador, numa relação de vigilância cérebro-sensorial.

“Interativo” é a palavra da vez na indústria de brinquedos. Para crianças e para adultos. Mas o problema é que a interação começa e termina com a parte mais importante e desenvolvida da relação apenas observando e admirando o que a outra é capaz de fazer. A parte do brincante, na maioria das vezes, se reduz a apertar um botão e fazer escolhas simples, como nos jogos de RPG (Role-Playing Games), onde só se chega ao final escolhendo as alternativas “certas”. Mais ma vez: estímulos constantes à parte mais “primitiva” da nossa cognição, e embotamento das faculdades do juízo e da crítica.

Prato cheio para quem quer fazer brinquedos que funcionem como vetores subliminares ou sobreliminares de mensagens e conteúdos (a indústria do politicamente correto e as que trabalham com as doutrinas religiosas, por exemplo). A “boa” brincadeira é aquela que conduz às “boas” escolhas (mas boa para quem?). Entretenimento e educação, juntos? Vigilância, embotamento e doutrinação. Como afirma Jean Baudrillard, em citação acima, para tornar um objeto autômato, é preciso estereotipá-lo. Nada de sexo, nada de humor, nada que exija de nossos curumins o uso do córtex cerebral ou das sinapses mais complexas. E um sujeito estereotipado é um sujeito que não precisa ser reprimido ou vigiado. Ele próprio é seu algoz.

Não que os brinquedos de uma época anterior fossem absolutamente melhores, e a piora tenha ocorrido de uns tempos para cá. Nada de saudosismo ou maniqueísmo em nossa análise. Se os brinquedos antigos tinham como aspecto positivo a relação direta e a possibilidade de produções abstrativas (a tal práxis neuro-muscular), carregavam, por outro lado, uma fortíssima ligação com a moral, e com a demarcação de posições e lugares dentro da sociedade. Menino brinca de carrinho, de revólver, de bombeiro, de construtor de casas, enquanto as meninas brincam de casinha, de costureira, de cozinheira. Os papéis sociais muito bem treinados desde cedo.

Se o sentido político dos brinquedos, o de sugerir papéis sociais não mudou, a forma como isto é feito se modificou drasticamente. Podemos comemorar um enfraquecimento do laço moral que unia o sujeito e o objeto, e que permeava a escolha e a forma como se brincava (quantas mulheres apanharam quando meninas, porque queriam jogar bola, ou soltar papagaio/pipa?). Hoje, a relação é “universal”, e não existe mais restrição de ordem identitária. No entanto, o que era uma moral controlada através da repressão, torna-se uma moral subjacente aos fins de uso do próprio produto. Meninos e meninas podem brincar à vontade no joguinho do computador, porque ambos chegarão, dadas as possibilidades, ao mesmo fim, e terão aprendido a mesma lição. Qual seja: apenas vigie e monitore. Nada de criar ou se divertir. Uti et non frui.

A partir daí, a questão não é mais saber o quanto de energia é preciso para esmagar a potência vital de uma criança; é saber como canalizá-la para atividades banais, que levem ao consumo, evitando assim que seja utilizada para o desenvolvimento da autonomia, da ética e da vida comunitária.

A FORMA DE DOMINAÇÃO OPTADA PELA MÍDIA E PELA CAMPANHA DE SERRA NESTAS ELEIÇÕES: O MEDO

 

Potro. Instrumento de tortura usado durante a Idade Média. A Santa Iquisição da igreja usava o medo e a superstição como modo de manter o povo na ignorância e estabelecer, assim, um poder através da força, de práticas irracionais

O candidato José Serra, no claro intuito de desviar a atenção dos eleitores para as políticas públicas do governo Lula que foram produzidas junto a Dilma, exerceu nesta campanha, nos dois turnos, técnicas muito antigas de domínio. Principalmente aquela que diz respeito a produção do medo como forma de injetar a ignorância nas pessoas. Quando Serra faz isto, através das obscenidades e conservadorismo religiosos, acusações exacerbadas, escondendo o que realmente ocorreu durante o governo de FHC, tentativa de uma oratória mistificada e moralmente constituída, ele deixa claro, o quanto não crer na inteligência de um povo, que cada vez mais, torna-se dono de suas decisões e escapa da alienação imposta, por muito tempo, por uma mídia acéfala e candidatos que enxergam no povo apenas cifras.

Serra, inclusive, preso a uma política mistificada, preferiu terminar a sua campanha sem fazer o registro de programa de governo junto a Justiça Eleitoral, fazendo com que suas promessas pronunciadas antes de julho junto com as proferidas em seus programas eleitorais fossem protocoladas como uma compilação para que seu registro de candidatura fosse aceito pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Fazendo isto, Serra, mais uma vez nos deixa claro, que prefere promessas a um programa de governo planejado e analisado sua viabilidade efetiva e possíveis problemas e soluções que venham a enfrentar. Já Dilma, antes do início das eleições já tinha apresentado dois programas de governo prévios e fez o registro da versão final no início do segundo turno. Dilma, ao contrário de Serra, não percebe a realidade como um efeito de promessas vazias, mas parte dos problemas da realidade presente para elaborar discursos e planejamentos efetivos para solucioná-los, bem como dá continuidade ao que já vem dando certo.

É este caráter mistificado que faz com que a campanha de Serra fosse fundamentada em uma forte superstição. Tanto que para trazer pessoas para a sua última atividade de campanha, funcionários do governo e da prefeitura de São Paulo foram obrigados a participar de uma caminhada pelo centro de São Paulo. Segundo o Portal Rede Brasil Atual:

“Durante a caminhada, a reportagem da Rede Brasil Atual viu diversas pessoas de terno e portando crachá funcional do governo do estado de São Paulo. Um funcionário da Secretaria de Saneamento e Energia , que não quis se identificar, confessou que não gostaria de estar lá. Ele estava vestindo uma camiseta verde com escritos em amarelo ” Turma do Bem do Saneamento e Energia”, assim como várias pessoas na manifestação também vestiam camisetas iguais. “A gente só vem porque é obrigado”, disse”.

O medo, a superstição e principalmente um entendimento de política afastado da constituição da realidade, fizeram com que a campanha de Serra coincidisse com a sua imagem, ou seja, o de uma pessoa pública contraditória com si mesmo. E esta campanha ainda conseguiu apoio de meios de comunicação que fazem parte de grupos midiáticos reduzidos à lógica do capital que contribuíram na construção de factóides e da proliferação do medo com objetivo de fazer desta campanha política não uma festa democrática, mas uma tristeza irracional da superstição e do rancor, que como disse Dilma, ontem, na ausência de debate da Rede Globo, não traz leveza a alma.

Leveza esta necessária para que a liberdade seja o esforça de conduzirmos a existência através da Razão e que façamos da política não somente a junção de construções físicas com números estatísticos, mas da produção da alegria que se dá quando percebemos as pessoas e seus problemas e suas existências à frente de qualquer construção ou número e assim decidimos entre sobreviver e viver de modo digno.

Abaixo um trecho que resume a combinação da campanha de Serra com a mídia que lhe apoiou.

“A sociedade do espetáculo governa com uma erma antiqüíssima. Hobbes reconheceu há muito tempo que, para a dominação efetiva, “a Paixão a ser examinada é o Medo”. Para Hobbes, é o medo que une e assegura a ordem social, e ainda hoje o medo é o mecanismo principal de controle que enche a sociedade do espetáculo. Embora o espetáculo pareça funcionar por meio do desejo e do prazer (o desejo de mercadoria e o prazer  do consumo), ele realmente funciona pela comunicação do medo — ou antes, o espetáculo cria formas de desejo e prazer intimamente casadas ao medo. No idioma dos primórdios da filosofia européia, a comunicação do medo era chamada de superstição. E de fato a política do medo sempre foi espalhada por uma espécie de superstição. O que mudou foram as formas e os mecanismos das superstições que comunicam o medo”.

(Michel Hardt e Antonio Negri em Império)

Literamundo – AMOR

AMOR

A definição materialista de amor é uma definição de comunidades, uma construção de relações afetivas que se estendem através da generosidade e que produz agenciamentos sociais. O amor não pode ser algo que se fecha no casal ou na família; deve abrir-se para comunidades mais vastas. Deve construir, caso a caso, comunidades de saber e de desejo; deve tornar-se construtor do outro. O amor é hoje fundamentalmente a destruição de todas as tentativas de fechar-se na defesa de algo que não pertence a si. Creio que o amor é a cheve essencial para transformar o próprio em comum.

(Antonio Negri em Exílio)

“O OBJETO ABSTRAÍDO DE SUA FUNÇÃO”

Se utilizo o refrigerador com o fim de refrigeração, trata-se de uma mediação prática: não se trata de um objeto, mas de um refrigerador. Nesta medida não o possuo. A posse jamais é a de um utensílio, pois este me devolve ao mundo, é sempre a de um objeto abstraído de sua função e relacionado ao indivíduo. Neste nível todos os objetos possuídos participam da mesma abstração e remetem uns aos outros na medida em que somente remetem ao indivíduo. Constituem-se pois em sistema graças ao qual o indivíduo tenta reconstituir um mundo, uma totalidade privada.

Todo objeto tem desta forma duas funções: uma que é a de ser utilizado, a outra a de ser possuído. A primeira depende do campo de totalização prática do mundo pelo indivíduo, a outra um empreendimento de totalização abstrata realizada pelo indivíduo sem a participação do mundo. Estas duas funções acham-se na função inversa uma da outra. Em última instância, o objeto estritamente prático toma um estatuto social: é a máquina. Ao contrário, o objeto puro, privado de função ou abstraído de seu uso, toma um estatuto estritamente subjetivo: torna-se objeto de coleção. Cessa de ser tapete, mesa, bússola ou bibelô para se tornar ‘objeto’. “Um belo objeto” dirá o colecionador e não uma bela estatueta. Quando o objeto não é mais especificado por sua função, é qualificado pelo indivíduo: mas neste caso todos os objetos equivalem-se na posse, esta abstração apaixonada. Um apenas não lhe basta: trata-se sempre de uma sucessão de objetos, num grau extremo, de uma série total que constitui seu projeto realizado. Por isso a posse de um objeto, qualquer que seja, é sempre a um só tempo tão satisfatória e tão decepcionante: toda uma série a prolonga e a perturba. Dá-se mais ou menos a mesma coisa no plano sexual: se a relação amorosa visa o ser na sua singularidade, a posse amorosa enquanto tal satisfaz-se somente em uma sucessão de objetos ou na repetição do mesmo ou ainda na suposição de todos. Só uma organização mais ou menos complexa de objetos que se relacionem uns com os outros constitui cada objeto em uma abstração suficiente para que possa ele ser recuperado pelo indivíduo na relação vivida que é o sentimento da posse.

Essa organização é a coleção. O meio habitual conserva um estatuto ambíguo: nele o funcional desfaz-se continuamente no subjetivo, a posse mistura-se ao uso, em um empreendimento sempre carente de total integração. A coleção, ao contrário, pode nos servir de modelo pois é nela que triunfa este empreendimento apaixonado de posse, nela que a prosa cotidiana dos objetos se torna poesia, discurso inconsciente e triunfal.

(Jean Baudrillard, O Sistema dos Objetos).

PEQUENA SEMIOLOGIA DA PROPAGANDA ELEITORAL DE OMAR

 

A foto é do Blog da Floresta:

Quando a imagem nega o texto, é isso que acontece. O Avança Amazonas carrega o ranço desenvolvimentista do tempo da ditadura, onde confundia-se desenvolvimento econômico e social com obreirismo gratuito. Esquecendo que uma obra não significa desenvolvimento em si, mas só funciona nesse sentido quando está engendrada numa práxis de movimento produtivo dos habitantes da cidade. O PAC, no Amazonas, graças ao orgulhoso governo estadual, empacou.

O rosto dos candidatos, no entanto – e aí, Dilma inadvertidamente envolvida, já que claramente apóia outro candidato que não o do governador – mostram a realidade do estado do Amazonas.

Omar, desgastado, desgostado, cansado, triste, desesperado, a imagem do desânimo.

Braga expressa o terror de quem aponta a um inimigo ou uma ameaça terrível, vindo à frente.

No rosto, não a característica psicológica, mas os signos daquilo que eles produziram  para si enquanto realidade: a falseação da política como a negação da vida.

Provavelmente o que os desgosta, sem que eles próprios saibam, é o quadro político-eleitoral que eles mesmos pintaram para o Amazonas.