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AS VEIAS ABERTAS DO RIO DE JANEIRO

AS VEIAS ABERTAS DO RIO DE JANEIRO

Algumas capitais do mundo contemporâneo foram deslocadas de suas geografias e passaram a integrar uma comunidade internacional, sem língua oficial, nem cultura própria. São locais onde o número de turistas e o de habitantes se aproxima e esses conceitos se confundem. A exemplo disso, temos o Rio de Janeiro que recebeu 1,61 milhão de visitantes estrangeiros no ano passado, contra 1,49 milhão em 2009, um acréscimo de 120 mil pessoas.

Segundo Oskar Metsavaht, um empresário do setor têxtil, o que faz do Rio um polo turístico com média de ocupação hoteleira de 73% durante todo o ano não são suas atrações turísticas ou sua oferta de produtos e serviços, mas a imaterialidade do lifestyle. A descontração do povo, as belas mulheres que já saem de casa com roupa de banho a caminho da praia, aliás, praias públicas, a quantidade de pubs ingleses e cafés parisienses, misturados com shopping centers novaiorquinos e casas noturnas em estilo alemão… Ah, e os fast food de comida japonesa! Sem falar dos nossos hotéis boutique, nossos museus, galerias de arte e as bibliotecas. O mundo todo num só lugar (cinco bairros da zona sul).

REDUZINDO A VELOCIDADE

No entanto, a circulação de pessoas em todo o mundo é facilitada ou reprimida de acordo com interesses político-econômicos como no caso da barreira entre Estados Unidos e México ou socioculturais como os muros construídos em todo o continente europeu. Seguindo essa tendência global, foram erguidas barreiras acústicas ladeando as principais vias expressas que atravessam a cidade para que os moradores das favelas não fossem incomodados pelo ronco dos motores e buzinas. Acompanhe no vídeo abaixo a reação dos moradores.

Nem só de muros são feitas as nossas estradas, há pontes também. E delas pendem paralelepípedos na altura dos para-brisas dos carros. O motorista nessas ocasiões podem parar e esperar pelo assalto ou avançar e estilhaçar o vidro. Quando essas pedras se soltam ou são soltas, os acidentes vão parar nos jornais e só em caso de vítimas fatais é que ganham a primeira página. Afinal, a notícia já não é tão fresca como o asfalto que cobre a pista pedagiada.

AS EMISSÕES DE CARBONO

Essa cidade que sediou o Pan Americano, os Jogos Mundiais Militares e se prepara para a chegada de um maior fluxo de pessoas atraídas pelo festival de música Rock in Rio (o maior do mundo), a Copa das Confederações e a Copa do Mundo além das Olimpíadas está congestionada. O transporte inclusive foi uma das preocupações dos organizadores do evento de música que irão disponibilizar ônibus especiais em locais estratégicos para evitar segundo eles a emissão de monóxido de carbono. Outro motivo é que não haveria local para estacionar um carro por pessoa, como é o costume e seria impossível coibir a ação dos flanelinhas. Para quem não conhece, são pessoas que saem dos bolsões de pobreza e loteiam os espaços públicos para cobrar dos motoristas uma taxa de estacionamento. Quem se recusar a pagar pode ter sua pintura arranhada.

Ainda sobre os veículos particulares automotivos, receberam registro 1.861.198 carros em fevereiro de 2011, contra 1.436.740 no mesmo mês de 2002. São 424 mil automóveis a mais, numa estrutura viária sem melhorias significativas nos transportes coletivos. No período, segundo o IBGE, a população da capital cresceu 7%. Hoje com 6.320.446 habitantes.

MOTORISTAS DE ALUGUEL

Com quase a mesma quantidade de táxis que São Paulo (32 mil motoristas licenciados), e com a metade de seu tamanho, o Rio de Janeiro tem 1 taxista para cada 198 habitantes. Com tantos veículos nas ruas, especialistas dizem que o número deveria ser 30% menor.

Mesmo que a Lei Orgânica do município determine que a capital fluminense deve ter uma frota de 23 mil táxis, ou seja, quase dez mil carros a menos do que existe atualmente, os taxistas continuam tendo suas licenças renovadas e outros ainda circulam sem licença causando protestos entre os legalizados e insegurança entre os clientes.

Decisão da 13ª Vara de Fazenda Pública, de 8 de maio, determina que o município está impedido de conceder novas permissões para taxistas ou auxiliares antes que seja estabelecido o processo administrativo, com critérios rígidos que comprovem a habilidade de dirigir. A Secretaria Municipal de Transportes disse que cumpre a determinação legal.

Porém, manifestantes do movimento “Diárias Nunca Mais” apresentaram documento que comprova a inscrição de novo motorista. A licença foi emitida em 29 de junho — portanto, após a decisão — autorizando Alex Sales Franca a dirigir táxi como auxiliar.

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ESPAÇO OCUPADO X ESPAÇO PERCORRIDO

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As fotos abaixo, feitas na cidade de Munster na Alemanha, mostra um grupo de 54 pessoas e o espaço que elas ocupariam se cada uma estivesse utilizando um carro. Mostra também o espaço que ocuparia um ônibus com todas estas 54 pessoas dentro, e o espaço ocupado por 54 bicicletas.

O ESTADO DE CONSERVAÇÃO DOS ÔNIBUS

Conforme nos informa o Jornal do Brasil “O relatório de Junho de 2011 sobre a verificação de ônibus municipais feito pela Subsecretaria de Fiscalização (SubF) de Transportes apontou que 31,37% dos coletivos fiscalizados no mês foram reprovados. Dos 204 ônibus avaliados, em diferentes pontos da cidade, 64 foram retirados de circulação por não estarem de acordo com as exigências da Prefeitura para a prestação adequada deste serviço de transporte urbano à população.”

O PREÇO DAS VIAGENS NOS ÔNIBUS

Em Janeiro desse ano, a tarifa para o transporte público intermunicipal passou de R$ 2,35 para R$ 2,50, um aumento de 5,63%. Apesar do valor alto, os cariocas possuem o Bilhete Único, um projeto semelhante ao da capital paulista em que o usuário no espaço de duas horas paga apenas a primeira passagem caso precise pegar outra condução até o seu destino.

O sistema implantado pelo governo do estado, aumenta o número de pessoas nas ruas sem aumentar o número de coletivos, haja visto que estes estão em péssimas condições (de acordo com a pesquisa por amostragem).

O COMBUSTÍVEL PARA MOVER OS ÔNIBUS

Com o objetivo de tornar o ar da cidade mais limpo, cerca de 20 ônibus que operam na Zona Sul da cidade circularão com 30% de biodiesel misturado no combustível. Uma parceria feita entre o O governador Sérgio Cabral, a Petrobrás, a Amyris Brasil Ltda., uma subsidiária da Amyris, Inc. Com incentivo do BNDES garante o fornecimento desse material. Os resultados do teste na frota serão apresentados na Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável (Rio+20) que acontece no Rio em Junho de 2012.

Em uma cidade como o Rio de Janeiro que tem mais de 8.000 ônibus que consomem aproximadamente 280 milhões de litros de diesel por ano, parece tímida a iniciativa que é bradada como pioneira no país e a mais ousada já que não há fabricas e menos ainda demanda para isso.

OUTRA SOLUÇÃO SERIA A RBS

A Prefeitura do Rio implantou em Fevereiro deste ano o BRS (Bus Rapid System), um corredor expresso que inicialmente foi testado em Copacabana, mas que até o fim do ano chegarão a Ipanema e Leblon. As linhas de ônibus que passam pelo bairro estão divididas em três grupos com 17 pontos de parada distribuídos pela avenida, priorizando o acesso ao metrô e a pontos de interesse. Segundo a Secretaria Municipal de Transportes, a redução da frota circulante no bairro aumentará a velocidade operacional dos ônibus, que passará dos atuais 13km/h nos horários de pico para 24km/h, ou seja, quase o dobro. A expectativa é que o passageiro possa cruzar o bairro em um tempo até 40% menor.

Esse mesmo local onde os pontos de ônibus estão mais espaçados, concentra a maior concentração de moradores com mais de 60 anos do país. Em 2004 segundo o IBGE, eles são 13,8% da população da região metropolitana. Copacabana é o bairro carioca que mais abriga idosos. Com base nisso é preciso pensar a quem interessa diminuir a quantidade de coletivos circulando no bairro.

A multa para carros comuns que forem flagrados transitando nas faixas seletivas é de R$ 53. O corredor exclusivo para os ônibus funciona de segunda a sexta-feira, de 6h às 21h, e sábado, de 6h até as 14h.

Já na Zona Norte, as ruas Conde de Bonfim e Haddock Lobo, na Tijuca, e Rua Vinte e Quatro de Maio e Avenida Marechal Hermes, no Méier, também serão contempladas. Outro bairro que faz parte do projeto é o Centro, com as avenidas Presidente Vargas e Rio Branco, e Rua Primeiro de Março. No entanto, o sistema deve ser implantado até 2012.

Foram distribuídos folhetos explicativos apenas nos pontos de ônibus. A população de outros bairros acaba ficando confusa na hora de voltar pra casa. Ao tentar se localizar pela publicidade afixada nos terminais de embarque, percebe-se que ela é pouco intuitiva e o material utilizado não resiste ao vandalismo.

BRS

BICICLETA DÁ SAMBA

Bicicletas são veículos para transporte individual que não geram poluentes durante a sua utilização. Há quem diga que o alumínio usado na fabricação desse tipo de transporte é extraído e processado de maneira pouco sustentável e que ele contamina o ar, a terra e o lençol freático. Contudo os ecologistas preferem a bicicleta ao carro e tem boas razões para isso. Considerando o barulho, o custo de manutenção, a quantidade de combustível consumido, o número de vagas para estacionar… e principalmente os materiais alternativos como fibra de carbono e bambu.

A prefeitura do Rio se inspirou no projeto francês e criou o SAMBA, Solução Alternativa para a Mobilidade por Bicicletas de Aluguel. Veja no vídeo abaixo, como funciona:

O sistema de Bicicletas Públicas foi lançado em Janeiro de 2009, após licitação realizada pela prefeitura, com previsão de implantação de até 50 estações e 500 a 1000 bicicletas, nos bairros de: Copacabana, Leblon, Ipanema, Lagoa, Botafogo, Flamengo, Centro e Tijuca. Até o momento foram implantadas 19 estações nos bairros de Copacabana, Leblon, Ipanema e Lagoa.

Na capital francesa, foram instaladas mais de 1,4 mil estações com cerca de 20 mil bicicletas. Paris possui 400km de ciclovias contra 150km no Rio, mesmo assim, é a segunda maior malha cicloviária da América Latina . Só perde para a cidade de Bogotá, na Colômbia (com 240km) .

OS DEVERES E DIREITOS DOS CICLISTAS

O Art. 59 do novo código de trânsito estabelece que: nas vias urbanas e rurais de pista dupla, a circulação de deverá ocorrer, quando não houver ciclovia, ciclofaixa ou acostamento, ou quando não for possível a utilização destes, nos bordos das pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação regulamentado pela via, com preferência sobre os veículos automotores.

Em seguida, no artigo 60, “Desde que autorizado e devidamente sinalizado pelo órgão ou entidade com circunscrição sobre a via, será permitida a circulação de bicicletas em passeios”.

O próprio código de trânsito afirma que a construção de novas ciclofaixas tem pouco valor. Necessária e urgente é a criação de uma campanha campanha permanente que incentive o uso da bicicleta assim como existe aquela que alerta para os acidentes automobilísticos e principalmente um alerta para o respeito aos ciclistas que muito sofrem com a imprudência dos motoristas.

A AMPLIAÇÃO DA CICLOFAIXA

Pelos dados do Instituto Pereira Passos, 2,7% da população carioca usam a bicicleta como meio de transporte, sendo que 18% desse total residem em Santa Cruz, na Zona Oeste da cidade. Lá 75% dos moradores pedalam para se locomover. Visando a melhoria das condições de tráfego dos ciclistas, a Prefeitura anunciou ainda em 2010 que construiria a segunda maior ciclofaixa da cidade. Após a inauguração do traçado, uma reportagem do jornal O Globo chama a atenção para algumas falhas do projeto.

“A Secretaria municipal de Meio Ambiente (Smac) disse na segunda-feira que a prefeitura deu um prazo até o dia 12 de junho de 2011 para que a construtora Andrade Gutierrez corrija todas as falhas identificadas na ciclovia da Zona Oeste . Apesar de a ciclovia ter sido inaugurada no domingo, dia 22, na semana passada o engenheiro do Crea Abílio Borges encontrou rachaduras, obstáculos (orelhões e postes) e pilares de passarelas com problemas estruturais, entre outras falhas. A Andrade Gutierrez confirmou que as correções serão feitas até o dia 12 de junho, sem custos adicionais para a prefeitura, que pagou quase R$ 20 milhões pela obra de implantação de 22 quilômetros de ciclovia e serviços de urbanização. “ – Jornal O Globo 31/05/2011

Apesar dos números, dos protestos e da clara falta de atenção aos interesses da população, a prefeitura e o governo do estado continuam fazendo obras que visam melhorar o caótico trânsito da cidade. As intenções são as melhores, as justificativas são pouco convincentes e os problemas se acumulam.

Em uma próxima oportunidade, voltarei a este assunto, de forma menos fragmentada e abordarei outros aspectos da circulação de pessoas como as motos, as vãns, os trêns, o metrô e as barcas. Todas com seus respetivos defeitos apontados e soluções incompletas visando interesses que não são os nossos.

O ATIRADOR DE REALENGO E O NOSSO HORROR DE CADA DIA

A sociedade da teratogenia não pode produzir senão monstros. De todos os matizes. O atirador no Rio de Janeiro não é um desvio da norma social. Ao contrário, a confirma.

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EUA, junho de 2003: George W. Bush, então presidente estadunidense, disse que Deus teria ordenado que ele comandasse as invasões ao Iraque e Afeganistão. Na época, os EUA temiam o extremismo religioso do oriente…

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Rio de Janeiro, Abril de 2011: durante o percurso macabro, o atirador do Rio encontra um aluno no corredor. O aluno pede para não ser morto. O atirador diz que não o machucará. O aluno ora, e diz: “Deus me salvou”. O atirador deixa uma carta que expõe claramente o enredo religioso do ataque, falando em pureza, castidade, virgindade, com claras referências ao Velho Testamento. Se Deus salvou aquele aluno, por que não o fez com os outros?

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Deus salvou o garoto “gordinho” de morrer pelas mãos do atirador, mas não salvou o próprio atirador de ser vítima do ódio e da discriminação da sociedade de consumo.

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A Assembléia de Deus defende a castidade, a virgindade, a pureza. Seus fiéis elegeram e reelegeram Silas Câmara para a câmara federal. Silas é político ficha-suja na lei dos homens, mas é homem puro, casto, virgem sob as bênçãos do pastor.

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Jair Bolsonaro, deputado federal, defende a segregação racial, sexual e de gênero. É aplaudido por setores da sociedade, eleito e reeleito com mais de um milhão de votos. Bolsonaro defende a pureza, a castidade, a virgindade. Seus filhos dizem que o pai apenas diz “o que a maioria da população pensa”.

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Jovens atacam com golpes de lâmpada fluorescente, na Avenida Paulista, um grupo de rapazes. O motivo? Os jovens não são puros, castos, virgens, por serem, evidentemente, homossexuais. Os pais dos agressores alegaram que os filhos foram provocados. O que os terá incomodado na alegria dos gays?

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A  Igreja Católica Apostólica Romana fecha os olhos para o massacre dos povos egípcio, líbio, iemenista, sírio, palestino, dentre outros. Mas condena aquilo que considera impuro, promíscuo, e que não é virgem. A não ser que sejam padres praticantes da pederastia e pedofilia. Nestes casos, os olhos voltam a se fechar, contritos, a pedir em oração que Deus os salve.

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Nos EUA, onde os massacres em escolas são comuns, o Partido Republicano defende a castidade, a pureza, a virgindade, e disse na campanha eleitoral que Obama era mau porque era negro e filho de muçulmanos. Por que esse Deus misericordioso para o qual Sarah Palin e a família Bush dobram os joelhos todos os domingos permite que existam negros e muçulmanos?

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No Brasil, setores da igreja católica, evangélica e da religião espírita entram na onda de demonização da então candidata Dilma Rousseff, e encorpam campanha onde os dogmas da igreja são mais importantes que a política do Bem Comum.

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O atirador do Rio de Janeiro, em carta, pede que “um servidor fiel de Deus” ore na sua sepultura, esperando que Jesus venha despertá-lo do sono da morte para a vida. Mesmo fazendo referência ao filho do Deus cristão, há quem acredite que o atirador era muçulmano.

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A música gospel é um filão cada vez mais lucrativo da industria fonográfica. Cantores e cantoras disputam entre gemidos e gritos para ver quem canta mais alto seu amor por Deus. Nas letras, muitas referências a vencer, lutar, conquistar, e o entendimento que somente os preferidos alcançarão o Reino dos Céus. Deus parece responder, tornando seus adoradores cada vez mais ricos. Mas, e quem não tem dinheiro para comprar os cedês?

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A mídia lucra com esse Deus, seja no usual, seja no acidental. Quer seja um pastor no horário nobre cobrando pureza, castidade e virgindade dos seus fiéis em troca do dízimo, quer seja um atirador que levou a sério o Antigo Testamento e resolveu puniu os “impuros”, o produto bilioso dessa relação é transformado em cara mercadoria, cuja venda gera altos dividendos.

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A sociedade do consumo, entre espectadores e emissores, horroriza-se com um atirador que mata em nome de Deus, mas acha natural o massacre cotidiano cometido em Seu nome.

POLIDIZERES

O QUE OS OLHOS NÃO VÊEM – Dizem que a tevê não mostra porque não pode. Outros não vêem porque não querem. Mas está lá. Em cada morro que deslizou, em cada enxurrada que passou, em cada corpo que ficou, dá para ver, gravadas, as imagens dos rostos dos governantes que, nas últimas décadas, nada fizeram para impedir que a cidade pudesse existir em comunidade com a natureza.

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INTELIGÊNCIA – O que também se pode ver em toda esta situação política é que, embora a natureza tenha sido pródiga com todos, há alguns que se recusam a usar aquilo que ela deu de mais rico: a inteligência. Uns não usam para governar; outros, para escolher.

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CULTURA POPULAR – Boi de Parintins faz apresentação EX-CLU-SI-VA em festa de arromba em condomínio de luxo, em Manaus, neste final de semana, por ocasião do aniversário de um juiz. O levantador de toadas, as cunhãs-porangas e o próprio boi de pano dançaram para deleite de poucos até o sol raiar. É o que nos diz um prestigiado colunista social.

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PERDEU-SE A ORIGEM – Acreditar que o boi de Parintins seja, hoje, cultura popular, por conta do talento inegável e inesgotável de seus artistas plásticos é o mesmo que achar que a FIAT pertence aos operários apenas porque são eles que constróem os carros da empresa. Subitamente, apaga-se a exploração. Mas um dia, o boi foi (expressão) do povo.

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AD ETERNUM? – Perguntamo-nos, inutilmente, se haveria comoção semelhante à da época do terremoto, se hoje fizéssemos campanha pelo Haiti. Atualmente, uma outra hecatombe toma conta daquele país, e muito pior que a trazida pelo movimento das placas tectônicas, pois que esta tem por objetivo a perpetuação da miséria e da dominação político-econômica naquele país. E feita pelo homem.

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AD ETERNUM BRASILIS? – Igualmente, no auge da comoção da classe média (leia-se compaixão) do auxílio aos desabrigados na Serra do Rio de Janeiro e de São Paulo, ignorar-se-á, daqui a alguns meses, que evitar a repetição farsesca destes eventos, no verão de 2012 está a um passo. Basta continuar movimentando a energia, desta vez não pela via da compaixão, mas pela da razão. Infelizmente, Razão e Compaixão são interexcludentes.

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NADA DE NOVO NO FRONT – Amazonino não tem nada a dizer. Tudo está na cara, ao alcance de um passeio por Manaus. O que ele diz é o que ele faz. Daí, nada de novo na entrevista concedida à jornalista Ivânia Vieira e exibida na edição dominical de A Crítica. O que a classe média twítica viu nela de tão revelador? O louvável é, talvez, apenas o fato da jornalista ter suportado estar no mesmo ambiente que o atual prefake (prefeito fake) de Manaus por tanto tempo.

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FRASE DO DIA – Não ha nada mais ficcional do que a realidade.

MUITO ALÉM DO CARTÃO POSTAL

 

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NÃO USE A POBREZA, USE A GENTILEZA

O circo pega fogo

Era uma tarde de Dezembro no Rio de Janeiro, Niterói era então a capital e havia um circo recém-chegado na cidade. O Gran Circus Norte-Americano fez sua estréia no dia 15. Ficaria ali montado até o Natal com exibição de espetáculos diários. Estamos em 1961 no estado da Guanabara, como foi chamada única a cidade-estado que o país já teve. Dois anos depois, foi realizado um plebiscito em que a população escolheu torná-la apenas um município, um desejo que só foi concretizado durante o governo do general Ernesto Geisel, em 1974.

Danilo Stevanovich, dono do circo, fazia uma grande publicidade em torno do empreendimento que era anunciado como o maior e mais completo circo da América Latina. Contava com 150 animais, sessenta artistas e vinte empregados e uma nova lona de seis toneladas toda de nailon.

Uma semana antes da inauguração, foram contratados mais 50 trabalhadores avulsos para a montagem do circo na Praça Expedicionário, no centro da cidade. Um deles, Adílson Marcelino Alves, o Dequinha, tinha antecedentes por furto e apresentava problemas mentais, trabalhou dois dias e foi demitido. Inconformado, pssou a rondar as imediações do circo.

A procura por ingressos no dia da inauguração acabou deixando muitas pessoas do lado de fora pois já havia esgoado a capacidade. Dequinha tentou entrar sem pagar mas Edmílson Juvêncio, tratador dos elefantes o reconheceu e o expulsou dali. No dia seguinte o ex-funcionário continuava perambulando pelo circo e começou a provocar Maciel Felizardo, outro funcionário, que era constantemente acusado de ser o culpado da demissão de Dequinha. Seguiu-se uma discussão e Felizardo agrediu Dequinha, que reagiu e jurou vingança.

Na tarde de 17 de dezembro de 1961, um domingo de muito sol, aconteceu a primeira matinê da temporada, haviam 3000 pessoas reunidas para ver o espetáculo. Dequinha convidou José do Santos, o “Pardal”, ladrão que cumpria 10 anos de cadeia e que estava nas ruas sob licença especial do diretor do presídio; e Walter Rosa dos Santos, o “Bigode”, um sem-teto e alcóolico para ir até local, segundo ele, saldar uma dívida que tinha com o dono do circo. Além dos três, estavam a companheira de Bigode, Regina Maria da Conceição, e a companheira de Pardal, Dirce Siqueira de Assis.

O grupo se encontrou em um local denominado Ponto de Cem Réis, no bairro Fonseca para decidir o que fazer. No meio do caminho, Bigode comprou um litro de gasolina num posto, por 20 cruzeiros. Bigode e Dequinha entraram sem pagar, removendo uma folha de zinco e passando por baixo da lona. Minutos antes do fim das apresentações, quando os trapesistas executavam seus malabarismos, Maciel Felizardo notou a presença de Dequinha e foi aí que veio a ordem de botar fogo no circo.

Um jogou a gasolina, o outro ateou fogo. A lona não era de nailon, e acabou cedendo. O público era formado 70% por crianças. Em 50 minutos, só haviam cnzas para o rescaldo dos bombeiros. O saldo final foi de 500 mortos, o bando todo preso, as mulheres absolvidas e o restante condenado ao regime fechado. Dequinha foi assassinado um ano depois quando já havia fugido da prisão.

Os feridos foram socorridos no Hospital Universitário Antônio Pedro, que recebeu inúmeros voluntários para doação de sangue, alimentos e medicamentos, arrecadados também em postos de coleta espalhados por vários pontos da cidade.

O profeta que nasceu das cinzas

Entre as pessoas comovidas com a trajédia estava um paulista da cidade de Cafelândia, agricultor e pecuarista que aos 12 anos recebeu uma missão: abandonar tudo e se dedicar ao próximo. Mas receberia um sinal quando esse momento chegasse, dizeiam as “vozes astrais”. Seus pais, muito preocupados, procuraram curandeiros e rezadeiras para tratar do filho que parecia estar sofrendo de alucinações.

Para José Datrino o incêndio do circo que para era uma metáfora do incêndio do mundo. Porque o mundo era redondo e o circo arredondado, como ele mesmo dizia. Era o sinal que ele esperava. Abandonou tudo, mudou de nome, agora se chamava “José Agradecido” e seguiu para Niterói onde ficou conhecido como “Profeta Gentileza”.

Chegou ao local com um de seus caminhões, era já um empresário e tinha 44 anos. No terreno do incêndio ele plantou um jardim e uma horta entre as cinzas e ali morou por quatro anos. Foi um consolador voluntário, que confortou os familiares das vítimas da tragédia com suas palavras de bondade. Quis mostrar para todos o real sentido das palavras Agradecido e Gentileza.

Depois disso, passou a circular por toda a cidade. Era visto em ruas, praças, nas barcas da travessia entre as cidades do Rio de Janeiro e Niterói, em trens e ônibus, fazendo sua pregação e levando palavras de amor, bondade e respeito pelo próximo e pela natureza a todos que cruzassem seu caminho. Aos que o chamavam de louco, ele respondia: – “Sou maluco para te amar e louco para te salvar“.

Alguns se recordam dele com um certo temor, segundo um artigo publicado no Jornal do Brasil, ele atacava mulheres de minissaia, saltos ou maquiagem muito carregada. Versão essa na época muito criticada e desmentida em diversos artigos. Para a maioria ele sempre o autor de um livro urbano, de 56 páginas pintado nos pilares do Elevado da Perimetral, na entrada da cidade. Próximo da rodoviária Novo Rio.

A distância total percorrida é de 1,5 km de inscrições propondo sua crítica do mundo e sua alternativa ao mal-estar de nossa civilização escritas a partir de 1980 e colocados na altura das janelas dos ônibus para que pudessem ser lidos. Foi nesse período também que ganhou uma homenagem feita por Gonzaguinha, a música “Gentileza”.

Gentileza denunciava o mundo, regido “pelo capeta capital que vende tudo e destrói tudo”. Mas anunciava a “gentileza que é o remédio para todos os males”. Não pedia esmola nem aceitava se oferecessem, pelo contrário, dizia que mais vale a alma do que o dinheiro.

A memória é uma ilha de edição

Em 28 de maio de 1996, aos 79 anos, faleceu na cidade de seus familiares, onde se encontra enterrado, no “Cemitério da paz”. Seguiu-se então um processo de degradação da sua memória. Os murais foram vandalizados por meses até que em 1996, no último ano do mandato, o então prefeito César Maia (PMDB) mandou que a Companhia de Limpeza Urbana (COMLURB) apagasse os murais.

A partir deste eposódio surgiu um movimento chamdo http://www.riocomgentileza.com.br que buscava resgatar a história, o universo deste persoagem da crônica urbana e sua obra. Entre as ações de protesto destaca-se a música de Marisa Monte.

Três anos depois, Luiz Paulo Conde, ex-secretário municipal de urbanismo do governo anterior, e eleito prefeito da cidade, começa a restauração dos murais que só foi concluída em 2000.

Sua memória hoje conta com livro, documentario, personagem de novela e até samba-enredo feito pela Acadêmicos do Grande Rio em 2001. Leonardo Caravana Guelman, arquiteto e professor da Universidade Federal Fluminence (UFF) esteve à frente de duas obras de restauro, a segunda iniciada em abril de 2010 diz: “Esta ação é uma forma de humanizar a cidade, as obras do Gentileza precisam ganhar vida,” disse Leonardo.

 

Dois documentários podem ser vistos sem necessidade de baixar ou pagar por ele, como desejava o profeta. O primeiro é de 1994 e foi dirigido por Dado Amaral e Vinícius Reis. Tem 9 minutos e está disponível no site http://www.portacurtas.com

Esse mesmo diretor criou outro documentário em 2009 chamado “Porrr Gentileza” mas ele não foi localizado durante a pesquisa. Quem souber onde ele esá disponível deixe o endereço na área de comentários.

Outro vídeo que chama a atenção foi feito pela Escola de educação audiovisual Nós do cinema 2004 e pode ser visto aqui.

MUITO ALÉM DO CARTÃO POSTAL APRESENTA “ONDE A CORUJA DORME”

ONDE A CORUJA DORME

“Malandro que é malandro não teme a morte. Malandro que é malandro vai pro norte. Enquanto os patos vão pro sul” (Zeca Baleiro).

Foi em Copacabana, nos anos 60, que, junto com a Bossa Nova, nasceu uma loja de discos única na cidade. Ela ficava na Rua Barata Ribeiro e exibia em seu letreiro a pomposa frase “Modern Sound – a música do mundo”. Sinal dos tempos, a loja que contava com shows de música ao vivo e um bistrô acabou fechando no último dia do ano de 2010, acumulando R$ 350.000,00 em dívidas. Os donos resistiram, durante os últimos anos, aos avanços da tecnologia e a distribuição de cedês em bancas de revista e supermercado pelos próprios fabricantes, que alegavam se defender da pirataria de rua e dos mecanismos de compartilhamento na web.

Como já dizia Darwin, o mundo pertence aos mais adaptados, e não aos mais fortes. E com base nesse movimento pendular do capitalismo (ou você achou que ele falava de natureza?) que ora sopra a favor, ora contra, que Marcelo D2 abriu mão de liderar a banda Planet Hemp e passou a misturar hip hop com samba, mantendo sua brasilidade e ampliando seu público ouvinte. Com isso ele passou a ter a simpatia das rádios, que tocam suas músicas com mais frequência. Recentemente, fez um disco onde canta as músicas do repertório de Bezerra da Silva. Por um lado resgatando a memória do sambista e por outro, recontextualizando as letras e mandando um recado para os próprios rappers. O disco está no mercado desde Novembro de 2010.

É o momento adequado para apresentar aos leitores do Polivocidade um documentário inovador, na forma e no conteúdo, chamado “Bezerra da Silva – Onde a Coruja Dorme”. Lançado em forma de curta em 2001, ganhou formato de longa e foi relançado no mercado em 2006. Confira abaixo a opinião da crítica e a seguir, assista o filme.

Luís Alberto Rocha Melo assina o texto publicado no site http://www.contracampo.com.br

Mais do que nas versões em curta e em média-metragem, é no longa Onde a Coruja Dorme que a idéia de um painel toma corpo. Não um painel dos compositores da periferia do Rio de Janeiro ou do samba de morro – universo com o qual lida o documentário –, mas algo talvez mais ambicioso: os diretores Márcia Derraik e Simplício Neto procuram traçar o painel de um país, ou melhor, de um determinado entendimento de país. A palavra é dada a compositores da Baixada Fluminense como Popular P, 1000tinho, Paulinho Alicate, entre outros, em grande parte desconhecidos do grande público, mas autores de alguns dos maiores sucessos gravados por Bezerra da Silva.

Onde a Coruja Dorme não é um retrato de Bezerra da Silva (no estilo “vida e obra”), muito embora o sambista ocupe um lugar privilegiado no conjunto do documentário. Também não procura ser o registro do cotidiano dos compositores em suas diversas outras profissões (bombeiro, carteiro, técnico de refrigeração etc.). O principal personagem de Onde a Coruja Dorme é a palavra, o discurso – e o seu ritmo. Letra e música, prosa e poética: o país é dito e lido pela ótica dos sambistas da Baixada Fluminense. Márcia Derraik e Simplício Neto registram essa leitura e a reelaboram num documentário de extrema fluidez e agilidade.

É Bezerra da Silva quem de certa forma dá corpo e unidade a esse discurso. Em um dado momento, um dos compositores afirma ter em casa uma enorme quantidade de músicas de amor. Nenhuma delas gravadas, pois Bezerra da Silva não canta o amor: “seria hipocrisia”. A conversa é necessariamente outra.

“Você com o revólver na mão é um bicho feroz/ Sem ele anda rebolando e até muda de voz”. Via Bezerra da Silva, é a ética da malandragem a base do discurso que interessa a Márcia Derraik e a Simplício Neto. Bem entendido: malandragem significa inteligência, nas palavras do próprio Bezerra. Longas seqüências do documentário dedicam-se a refletir sobre essa guerra entre malandros e otários, quase uma metáfora política do país. Através das rodas de samba, dos depoimentos e das imagens de arquivo (algumas delas fabulosas), discute-se o tráfico de drogas e de armas, os políticos picaretas e ladrões, os falsos pais-de-santo, os marginais otários e os marginais malandros, a violência generalizada da tortura policial, do racismo, da “deduragem” e de outras manifestações de falta de ética inadmissíveis para quem não vive a realidade da classe média e dos dóceis valores de solidariedade domingueira em torno da Lagoa ou da orla-Zona Sul.

A própria indústria fonográfica é acusada de explorar os anônimos compositores. Bezerra da Silva é o elo que une os dois pólos. Não por acaso, surge caminhando por uma favela e dando um depoimento com o morro em segundo plano, ou em seu escritório, cercado de discos de platina pendurados na parede. Bezerra da Silva tem livre trânsito entre os “homens de negócio” e a “malandragem” e provoca a mistura de uns com os outros, procurando reverter a situação para o lado mais fraco: acusado de fazer apologia à bandidagem, capitaliza sabiamente – malandramente – essa imagem que lhe impingem, como atestam as geniais e cinematográficas capas dos discos em que Bezerra surge como um criminoso, acuado num beco ou sendo levado para o xadrez.

De forma mais sutil, o próprio documentário, em sua inclinação antropológica, coloca-se em xeque, mais uma vez por intermédio do discurso. A gíria, forma de resistência e de afirmação, torna evidente a distância entre as classes sociais, entre os dois mundos contrapostos pelos personagens de Onde a Coruja Dorme. Os intelectuais e universitários falam uma língua ininteligível para a maior parte da população, e é dessa forma que a classe dominante exerce o seu poder; da mesma forma, o povo responde com a gíria, e se ela não consegue transformar o quadro de dominação, ao menos desequilibra a força do opositor. No filme, alguns personagens exemplificam para os entrevistadores determinadas expressões e códigos, e os explicam em seguida. O documentário assume seu “lugar”.

Tendo a honestidade de se colocar distante do universo retratado e, ao mesmo tempo, não cedendo à piedade típica dos documentários que insistem em ver no “povo” um inesgotável armazém de bondade humana, a tônica de Onde a Coruja Dorme é, enfim, a simpatia. Os documentaristas são bastante simpáticos aos compositores e estes, por sua vez, estão muito à vontade diante da câmera, o que evidencia um cuidado exemplar na condução das conversas, editadas com mestria. O que chama a atenção, porém, é que aqui não percebemos a intenção de transformar o documentário numa janela a revelar, por meio dos depoimentos, uma pretensa “realidade” até então não “notada”. O documentário é bastante explícito ao se assumir como recorte: o que interessa é dar voz, substância ao pensamento dos que estão sendo ali entrevistados.

Dar voz ao morro, como naquela clássica canção de Zé Kéti, é exatamente o que faz Bezerra da Silva. Com um gravador, o intérprete instrui os compositores desconhecidos a deixarem gravados os seus sambas; com o acesso que tem nas gravadoras, imortaliza essas criações que, sem essa intermediação, restariam provavelmente perdidas. São extremamente felizes as imagens em que os compositores, às vezes pouco à vontade, estão diante do gravador cantando suas composições acompanhados pelo ritmo das palmas da mão. A atitude que Márcia Derraik e Simplício Neto têm para com Bezerra da Silva parece ser conduzida pela admiração provocada por uma comunhão de propósitos: o grande sambista é antes de mais nada um grande documentarista.

Do nacional-popular ao musical-popular, Márcia Derraik e Simplício Neto sintonizam-se com uma particular sensibilidade contemporânea, isto é, ritmo e letra. Onde a Coruja Dorme pode ser visto como uma homenagem ao “cinema brasileiro possível”, aquele que se encontra não propriamente nas imagens, mas sobretudo na música.

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TRECHOS DO ATO PRÓ-DILMA NO RIO DE JANEIRO

Dilma ao lado de Chico Buarque em ato com centenas de pessoas (Foto: Ivone Perez) Retirada do Portal Rede Brasil Atual

Com informações do Portal Rede Brasil Atual

QUEM COMPARECEU A FESTA

Quem estava presente no ato, entre tantos outros e as mais de mil pessoas que não conseguiram entrar no Teatro Casa Grande, no bairro do Leblon, era: Beth Carvalho e o arquiteto Oscar Niemeyer (ambos de cadeira de rodas),Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Alcione, Chico César, Wagner Tiso, Paulo Betti, Fernando Morais, Sérgio Mamberti, Osmar Prado, Hugo Carvana, Marilena Chauí, João Pedro Stédile, Leci Brandão, Ziraldo, José Celso Martinez Corrêa, Márcio Thomaz Bastos, Saturnino Braga e Jaques Wagner, Margareth Menezes, Elba Ramalho, Rosemary, Antônio Grassi, Naná Vasconcelos, Jorge Salomão, Antônio Pitanga, Yamandú Costa, Renato Borghetti, Luiz Carlos Barreto, Otto, Hildegard Angel, Teresa Cristina, Perfeito Fortuna, Pedro Tierra, Marcelo Serrado e Cristina Pereira. Gilberto Gil, Zeca Pagodinho e Mano Brown, não puderam comparecer ao ato, mas enviaram suas mensagens de apoio a Dilma.

A ABERTURA

Como discurso inicial do ato organizado pelo sociólogo Emir Sader e o teólogo Leonardo Boff, o ator Osmar Prado (mestre de cerimônia do ato) falou:

“Esta casa recebe, como em outros momentos da história, representantes da inteligência, da sensibilidade e da criatividade brasileiras para escrever mais um capítulo da construção da democracia plural, mestiça, multicultural e sustentável que sonhamos com todos os brasileiros e brasileiras para o Brasil do século 21. Reafirmamos o compromisso com a continuidade e o aprofundamento das conquistas alcançadas pelo povo brasileiro ao longo dos oito anos do governo Lula, com liberdade, com democracia, com inclusão social, com respeito ao meio ambiente e com soberania nacional”.

A ALTERNATIVA À DILMA É:

Emir Sader recebeu vigorosos aplausos ao ressaltar que a alternativa à Dilma Rousseff “é o obscurantismo, a intolerância, a repressão, é o caminho do fascismo”.

A FILÓSOFA MARILENA CHAUÍ E A SOLIDARIEDADE RELIGIOSA

A plateia do ato pró-Dilma também reagiu com entusiasmo à participação da filósofa Marilena Chauí, que levou com ela alguns exemplares do panfleto “católico” que traz inúmeras acusações à candidata do PT: “Isso é obsceno. Ele é religiosamente obsceno e politicamente obsceno. Religiosamente obsceno porque é uma violência contra o ecumenismo religioso, a liberdade de crença e a liberdade de religião. É uma violência inenarrável e inadmissível. É também uma obscenidade política porque recusa aquilo que caracteriza o que é o núcleo da democracia republicana moderna, que é o caráter laico do Estado”, disse Marilena, que resumiu a importância da vitória de Dilma: “Nossa batalha é pela consolidação da democracia no Brasil”, disse.

“DEIXA DILMA ME LEVAR, DILMA LEVA EU”

Beth Carvalho, suave como sempre, leu uma carta que fez para Dilma: “Estou me recuperando de uma cirurgia, mas fiz questão de vir aqui hoje pessoalmente para dizer a todo o Brasil e principalmente à essa guerreira chamada Dilma Rousseff o meu apoio. Ela já provou, principalmente nos últimos oito anos de governo, que tem sido a melhor administradora que esse Brasil poderia ter, que sabe governar e que por isso ajudou a conquistar a maior popularidade que um governo já teve na história do nosso país. É por isso que o Brasil vai te eleger”, disse Beth, que levou o Casa Grande novamente ao delírio ao puxar “Deixa a Dilma me levar, Dilma leva eu”, em versão do samba consagrado na voz de Zeca Pagodinho.

O “ANJO GABRIEL” ENCONTRADO POR BOFF

O “anjo Gabriel”, como Chico Buarque é chamado por Leonardo Boff,  também deu o seu recado: “Vim aqui reiterar meu apoio entusiasmado à Dilma, uma mulher de fibra que passou por tudo, que não tem medo de nada e que, sobretudo, vai herdar o senso de justiça social que é a marca do governo Lula. Governo que não corteja os poderosos de sempre e que não tem em sua índole desprezar os sem-terra, os professores, os garis. Temos hoje um país que é ouvido em toda parte porque fala de igual para igual com todo mundo. Não fala fino com Washington nem fala grosso com Bolívia e Paraguai. Por isso mesmo, o Brasil é ouvido e respeitado no mundo inteiro como nunca antes na história deste país”,

DEMARINA A DILMA: LEONARDO BOFF

Leonardo Boff, que votou em Marina Silva no primeiro turno, disse: “Se a esperança com Lula venceu o medo, agora com Dilma a verdade vai vencer a mentira. Acho que essa eleição é mais do que o confronto entre dois candidatos. É o confronto entre duas propostas para o Brasil. O destino brasileiro depende da vitória de Dilma porque se a oposição ganhar nós vamos ter imensos retrocessos”, e continuou, “a primeira coisa que temos de garantir é a revolução extraordinária que Lula fez no sentido definido por Caio Prado Júnior, ou seja, aquelas transformações que atendem às necessidades fundamentais de um povo e definem um rumo novo para um país. Essas necessidades fundamentais foram em grande parte realizadas no governo Lula”.

QUEM JÁ ASSINOU O MANIFESTO PRÓ-DILMA

Aderbal Freire-Filho, Alessandra Negrini, Aldir Blanc, Carlinhos Vergueiro, Chico Diaz, Débora Colker, Diogo Nogueira, Dira Paes, Domingos de Oliveira, Ednardo, Isaac Karabishevsky, Francis Hime, João Bosco, José Padilha, Jorge Furtado, Lucélia Santos, Martinho da Vila, Miúcha, Neguinho da Beija-Flor e Renato Teixeira, todos estes assinam o manifesto Pró-Dilma.

COPA DO MUNDO DE FUTEBOL HOMELESS SERÁ NO BRASIL

Do Portal Vermelho:

Pela primeira vez, o Brasil será sede do Campeonato Mundial de Futebol Social, que reunirá de 19 a 26 de setembro, na praia de Copacabana, cerca de mil jovens em situação de risco social para participarem deste evento. No total, serão 48 seleções mundiais de futebol, nas categorias masculina e feminina.

Realizado desde 2003, o Mundial dos Homeless já passou por cidades como Milão, Melbourne, Copenhague e Cidade do Cabo. A ideia é ajudar a transformar as vidas de moradores de rua e jovens excluídos socialmente, aproveitando a oportunidade para trazer à tona discussões sobre a falta de moradia, problema comum a inúmeros países do mundo.

Com apoio da Riotur, da Nike, e das ONGs Futebol Social e Instituto Illuminatus, o Brasil receberá jogadores e jogadoras de países como França, Inglaterra, Escócia, Holanda, Portugal, Filipinas, Grécia, China e Estados Unidos, além de Palestina, Haiti e Coréia do Sul, que estreiam na competição em 2010.

"O Campeonato Mundial de Futebol Social é uma oportunidade para que pessoas excluídas do mundo inteiro saiam das margens da sociedade e se apresentem num palco global, como verdadeiros embaixadores de seus países. Suas vidas mudam para sempre”, afirma Mel Young, presidente da Homeless World Cup.

Ainda de acordo com Mel, este evento é a chance de "o Brasil e a cidade do Rio de Janeiro mostrarem que podemos ser líderes não só no futebol mundial, mas também na solução de seus problemas sociais", enfatiza.