Arquivo da categoria: Psicanálise

SOBRE A CEGUEIRA DOS ESPECIALISTAS PSY NO CASO DO ATIRADOR ESTADUNIDENSE

Por Luis Horácio, no Portal do Nassif:

A Psicologia mais atuante nos EUA é a behaviorista, caindo frequentemente nos exageros do biologismo e da correção comportamental através de drogas, e são extremamente positivistas, nessa tradição empirista. Isso não é totalmente mal, mas limita o conhecimento sobre a mente e o próprio comportamento humano e suas vicissitudes e idiossincrasias. A chave é quase a mesma das Ciências Naturais e Exatas, de procurar padrões, criar classes e categorias e estabelecer perfis de enquadramento dos indivíduos. O que se destaca são os perfis que estão acostumados a fazer em todas as áreas. Isso somado ao alto grau de padronização da cultura americana, mesmo no que diz respeito a atitudes sociais, faz com que o grau de controle que têm sobre a psicologia dos cidadãos seja significativa. Quer dizer, há várias maneiras de procurar estimular ou direcionar o comportamento das pessoas, de maneira direta ou indireta.

Nesse caso, a situação toda está dentro do quadro político. Várias pessoas e especialistas ficam dizendo que não há informações suficientes, que não se sabe, mas isso não está correto. Sabe-se sim. Os videos do youtube são bastante elucidadivos sobre a instabilidade do atirador e sobre a vulnerabilidade dele diante de várias influências. Adotar esse comportamento de atirador infelizmente é uma resposta bastante conhecida nos EUA. Mas a diferença, como já foi dita no Blog, é que os alvos eram precisos, conhecidos e políticos, envolvidos na grande crise americana. E fez isso segundo uma trajetória comportamental da direita radical americana, ninguém sabe disso mais do que os próprios americanos.

O que está ocorrendo, então, com essas “análises” e com essas declarações? De “olha, vamos esperar”, ou “ainda não sabemos”, ou essa então, de que o cara que adotou um comportamento radical de direita é na verdade um terrorista da esquerda. Um absurdo! Mesmo que fosse um esquerdista, então pirou, porque agiu segundo os interesses do extremismo “branco” de direita. O que ocorre é que mais um plano “mirabolante” para agir de modo totalmente impróprio no Estado democrático foi por água abaixo, e da pior maneira possível, para seus artífices. Além de não se encaixar ou dominar o debate político americano, provocou um enorme trauma, uma grande tragédia, já de saída.

Não foi só a deputada, mas e as pessoas comuns, o cidadão americano que foi assassinado em um supermercado, no seu dia-a-dia? E a menininha de 9 anos? A questão é que já há informações suficientes (já havia antes esse clima  de “envenenamento” político, segundo os próprios analistas americanos) para se compreender como o clima político americano interferiu nas atitudes desse jovem atirador instável, independente de ter tido por trás alguma lavagem cerebral. Não muda o sentido das coisas. E estão tentando tirar essa carga enorme das costas de quem são, primariamente, os responsáveis por mais esse desastre, os artífices radicais e extremistas da direita ultraconservadora americana.

O fato de no Brasil ter se tentado importar esse modelo impróprio e desastroso mesmo lá nos EUA (não esqueçamos toda a era W Bush) é outro dado preocupante. No Brasil as desiguladades  sociais muito maiores, a debilidade maior das instituições ainda em formação, as enormes diferenças regionais e a grande diversidade do país, o nível educacional muito menor, são fatores que poderiam produzir aqui um efeito muito mais explosivo e catastrófico do que lá, imaginem só. Inaceitável que pessoas da dimensão política dos que promoveram esses atos  aqui no Brasil não tenham pensado nisso e nas consequências que poderiam (ou podem) ter. Não precisa nem cobrar a responsabilidade e os compromissos de cidadania. Basta a percepção lógica.

Comentário do Poli: o papel de uma psicologia e de uma psiquiatria, há muito tempo, é o de referendar, sob moldes ‘científicos’, aquilo que interessa ao estado burguês para a manutenção do seu modus operandi. É algo que Michel Foucault estudou e desnudou à exaustão, sobretudo n’A História da Loucura, e em um livro intitulado Os Anormais. Franco Rotelli, da vanguarda da desinstitucionalização, perfaz caminho semelhante, e mostra que à ciência psicológica, nos seus fundamentos metódicos, cumpre a função de alinhavar ao discurso do estado capitalista toda a manifestação que escapar à lei e à ordem: em outras palavras, a normatização.

Daí diferenciar desospitalização de desinstitucionalização, e demonstrar que, em vários locais, na Europa e principalmente nos EUA, o fechamento dos hospitais psiquiátricos constituiu uma piora no atendimento aos portadores de distúrbios mentais, e uma economia para os cofres do então incipiente estado neoliberal. Extingue-se a estrutura física de confinamento, sem no entanto modificar as relações sociais e hierárquicas que retiram ao discurso ‘louco’ a sua prerrogativa política e de direitos. O valor político da fala do ‘louco’ é nulo, e seus direitos, ignorados.

Por isso, não faz diferença se a inabilidade dos psicólogos e psiquiatras estadunidenses em compreender a motivação do mais recente atirador é fruto de estreiteza intelectual e aridez epistemológica, ou se se trata do uso ideológico da ‘ciência’ psicológica com fins de justificar o injustificável. No capitalismo, não existem vítimas.

Assim, pouco importa se são comportamentalistas, cognitivistas, psicanalistas ou humanistas. A questão é como o cabedal de conhecimentos de cada uma destas vertentes é utilizado.

Ainda: não se deve, com isso, crer que o fenômeno de acirramento do discurso da ultra-direita tenha chegado ao Brasil somente na eleição de 2010. Tampouco o uso do ‘especialismo’ por parte da mídia, para dar verniz de credibilidade ao seu ponto de vista é novo. Há décadas, especialistas do pavoneamento desfilam pelos estúdios de rádio e tevê, ávidos de concordar e adaptar ao jargão ‘científico’ de sua área, qualquer bobagem dita pela tevê, apenas pelo direito de exposição, por alguns segundos, e – de nossa parte – pelo reconhecimento mútuo da banalidade das duas partes.

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LITERAMUNDO – Entrevista especial com Esther Diaz

“O gênero é uma construção social”

Do Instituto Humanitas Unisinos

Seundo a filósofa argentina, Esther Diaz, “o sexo é poder não somente pela obviedade de que quem exerce fortemente o poder tem muito mais possibilidades de manter encontros sexuais do que aqueles que carecem de poder”. Em entrevista à IHU On-Line, realizada por e-mail, ela falou sobre a forma como a sexualidade foi encarada em diferentes épocas e pensadores, como Foucault, Nietzsche e Platão. Além disso, ela observa a sexualidade e o sexo em si a partir de uma visão biopolítica. “A sexualidade é manejada pelo biopoder para reafirmar as estruturas patriarcais da sociedade”, afirmou.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como a sexualidade foi tratada em diferentes períodos da história da humanidade?

Esther Diaz – A sexualidade, tal como Michel Foucault [1] a estudou, surgiu recém na modernidade e, assim, foi estudada durante o século XX. Pois bem, sem dúvida, os humanos têm genitalidade desde o momento do nascimento, mas a sexualidade é muito mais do que genitais. É uma figura epocal que está relacionada com os genitais, mas os transpassa amplamente. Tem mais a ver com o desejo e, obviamente, com o sexo (sexo é uma determinação biológica, sexualidade é uma determinação conceitual-social). Nesse sentido, ela foi tematizada por Platão [2], e a problemática foi retomada recém no século XIX, com Schopenhauer [3] primeiro, e com Nietzsche [4] mais tarde, no campo filosófico, e com Freud [5] no psicanalítico.

IHU On-Line – Como Michel Foucault aborda a sexualidade em nossa cultura? Em que aspectos a filosofia de Foucault inspira um novo pensar sobre o corpo e a sexualidade?

Esther Diaz – Spinoza [6] dizia que muito se falou sobre o poder da alma, mas que ninguém sabe de quanto o corpo é capaz. Foucault aborda a sexualidade como corpo do poder, como dispositivos de sexualidade que se instauraram no começo da modernidade, quando os burgueses cuidavam de seus costumes sexuais de maneira “higiênica”, controlavam seus desejos para obter uma descendência sadia. Depois, transladaram esse controle para o resto da população e, em seu afã de proibir que se falasse de sexo (época vitoriana), na realidade desataram um aluvião de discursos sobre a sexualidade e incentivaram a mesma coisa que queriam controlar: o desejo. O controle da sexualidade é funcional a uma economia que necessitava seres “domesticados” para suas linhas de montagem industrial.

IHU On-Line – Em que consistem os “dispositivos de sexualidade” denominados por Foucault?

Esther Diaz – Os dispositivos de sexualidade se instauraram no começo da biopolítica, isto é, da administração da vida da população por parte do Estado. Essa administração é impensável antes do modelo burguês. Foucault denomina de “dispositivos de sexualidade” todos os discursos e as práticas que proliferaram ao redor do corpo e de seus prazeres e que foram operativos para a nascente economia capitalista.

IHU On-Line – Quais são as ligações da sexualidade com o poder?

Esther Diaz – O sexo é poder não somente pela obviedade de que quem exerce fortemente o poder tem muito mais possibilidades de manter encontros sexuais do que aqueles que carecem de poder, mas também porque se são estabelecidos controles sobre os desejos da população e são proibidas certas práticas sexuais (digamos, por exemplo, a masturbação), constituem-se seres culposos, já que – principalmente em certa etapa da vida – não é possível cumprir com a abstinência exigida pelos dispositivos de sexualidade.

Isso produz culpa, e não há ninguém mais manejável do que uma pessoa com culpa. O sexo também é poder porque é utilizado para conseguir favores e vantagens. E, dentre outras coisas, é poder porque é um impulso vital avassalador e é a condição de possibilidade para obter descendência, que, no caso dos donos dos meios de produção, devia ser saudável para dar-lhe prestígio aos senhores.

IHU On-Line – A senhora diz que o conceito de sexualidade não está associado apenas à diferença genital. Nesse sentido, o que entende por sexualidade? Ainda é possível associar sexualidade ao gênero masculino e feminino?

Esther Diaz – O gênero é uma construção social. Inclusive, atualmente (em alguns países), mais identidades sexuais do que a feminina e a masculina (transexuais, travestis, pessoas com duas genitalidades assumidas nessa condição) são aceitas legalmente e obtidas mediante tecnologia. Uma pessoa pode ter nascido com genitais de um sexo e sentir que seu corpo se equivocou, já que essa pessoa se sente parte de outro sexo. A genitalidade pode ser um acidente. O gênero, em troca, é a assunção consciente de determinada identidade sexual.

IHU On-Line – Como a sexualidade pode ser entendida como um biopoder? E, nesse sentido, esse biopoder se torna um elemento indispensável para o desenvolvimento do capitalismo?

Esther Diaz – A sexualidade é manejada pelo biopoder para reafirmar as estruturas patriarcais da sociedade. O capitalismo precisou do biopoder para controlar a população e torná-la mais eficiente com relação aos interesses dos poderosos. A ciência experimental moderna, por exemplo, é constituída excluindo a mulher e as outras minorias (sexuais ou sociais). As religiões monoteístas também utilizam o paradigma do homem branco, de idade média, culto e pulcro como modelo do “homem virtuoso”.

As mulheres (e outras minorias sexuais) foram relegadas pelo capitalismo às tarefas que tradicionalmente as reduziam à subordinação. E quanto foram assimiladas ao sistema produtivo econômico, tiveram acesso a postos de trabalho, mas continuaram sendo as responsáveis de levar adiante as tarefas do lar. Esse é um claro exemplo do poder do sexo (nesse caso, obviamente, masculino).

O poder capitalismo, científico, religioso e até familiar continua sendo machista, porque nossas sociedades se assentam sobre poderes patriarcais ancestrais, herdados e reproduzidos pela família, pela escola, pela religião e até pelas figuras midiáticas: mostram-se corpos nus de mulheres, porque se supõe que eles satisfazem o desejo masculino, mas quase não se veem nus masculinos completos, já que isso contribuiria para o prazer da mulher, que, por enquanto, continua sendo minoritário.

Continua Amanhã

PERGUNTAS DE UM ELEITOR QUE LÊ, AO VEREADOR AMAURI COLARES (PSC/MANAUS)

O vereador Amauri Colares (PSC), da Câmara Municipal de Manaus, declarou ontem, na tribunal, durante uma votação de um projeto que regulamenta publicidade pornográfica, que não considera os homossexuais cidadãos. Para ele, o segmento LGBT pertence “à margem” da sociedade, e o beijo gay deveria ser proibido, por ser pornográfico (clique para ler a matéria do jornal Diário do Amazonas, na íntegra – aqui).

Considerando que a fala do vereador enuncia uma moral de classe, de controle dos fluxos ético-estéticos do corpo, e da disseminação da redução epsitemológica, travestida em violência de direitos, este blog formulou cinco perguntas, dentro da mesma temática, para que o vereador possa explanar mais profundamente o discurso da moral cristã (sem Cristo) e se revele na sua totalidade.

Enviamos as perguntas por emeio, agora há pouco, e nos comprometemos a publicar a resposta, na íntegra, conforme ele responder. Eis a mensagem:

Exmo. Sr. Vereador Amauri Colares,

Diante do exposto por vossa senhoria na tribuna da Câmara Municipal de Manaus, no último dia 18, quando afirmou, segundo jornal Diário do Amazonas, que os homossexuais não deveriam ter direitos ou ser expostos socialmente, por se constituírem moral e igrejalmente uma chaga na sociedade, e que o bejio entre pessoas do mesmo sexo é pornográfico, enquanto eleitores, gostaríamos de colocar-lhe as seguintes questões, reiterando que as mesmas serão igualmente divulgadas em meio internético para que todo o país saiba o que lhe perguntamos, e caso o senhor se disponha a responder, igualmente publicadas serão, conforme venham, sem edições, as suas respostas.

1) A cada dois dias um homossexual é assassinado no Brasil, apenas por ser homossexual. A maioria é torturada e abusada sexualmente antes de morrer. Seus corpos são, na maioria das vezes, encontrados deformados, com os genitais ou o ânus retalhados, com introdução de objetos contundentes, e com sinais de que a vítima agonizou antes de morrer. As informações são do GGB (Grupo Gay da Bahia), entidade nacional que atua na defesa dos direitos humanos. Considerando sua ideia, enquanto parlamentar, de que os homossexuais são uma chaga social, existências contrárias a Deus e ao Estado de Direito, o senhor pensa em homenagear esses bravos soldados anônimos que diariamente exterminam, torturam, estupram, mutilam, matam, pessoas que o senhor considera nocivas socialmente?

2) No Rio de Janeiro, Rafael Lima da Silva, 27 anos, na defesa da honra, dos bons costumes e na defesa da família, conforma preconiza a Bíblia Sagrada, matou sua esposa, Iris Bezerra de Freitas, 21 anos, porque a encontrou com o amante em casa, ao chegar do trabalho. Escondeu o corpo em uma mala e jogou no canal do Leblon. A mala foi encontrada por um funcionário da Rio Águas. Infelizmente, pela lei dos homens, ele incorreu em assassinato e será preso. Enquanto parlamentar, defensor da família e inimigo de todas as tentativas de destruição (incluindo aí a odiosa traição feminina), o senhor não fará discurso na tribuna defendendo o jovem Rafael, que apenas defendeu sua honra e a integridade da sua família?

3) Enquanto defensor da moral, da família, da pátria e dos bons costumes, nem passa pela nossa cabeça colocar quaisquer sombra de dúvidas sobre a idoneidade de sua atuação parlamentar. No entanto, o senhor é campeão absoluto de gastos com cartão corporativo. Este assunto tomou conta do noticiário local, e até o Ministério Público pretende extinguir a prática, por considerá-la inconstitucional. Considerando que a maior parte dos gastos com o cartão divulgados pela impresa, mostravam banquetes em churrascarias da cidade e gastos unusuais (4 mil reais por mês em combustível?), não seria de bom tom que vossa senhoria, enquanto o maior gastador do recurso vereático, num ato de probidade, viesse a público mostrar com o que e para quê gastou quase 100 mil reais em 2009 às custas do povo?

4) Considerando que homossexuais, a despeito da discriminação que sofrem, também pagam imposto e são indiretamente responsáveis pelo montante que os senhores vereadores têm para gastar, não seria pecaminoso gastar tanto dinheiro vindo de fonte tão moralmente impura?

5) A Psicanálise, essa odiosa disciplina de estudo do ser humano que considera Deus uma invenção do homem para suportar e transferir a responsabilidade pelos seus atos no mundo, também afirma que os maiores inimigos dos homossexuais são justamente aqueles cuja sexualidade foi mal formada ou cuja energia sexual inconsciente é frontalmente contrária à moral social internalizada. Trata-se de evidente ataque aos homens de bem, cristãos e defensores da família. No entanto, fato é que os maiores inimigos da causa LGBT nos EUA e Europa, cedo ou tarde, têm sido pegos em situações vexatórias, geralmente acompanhados de garotos de programa, ou tendo sexo homossexual em banheiros públicos ou outros locais ermos. Tendo um perfil político muito parecido com esses parlamentares, defensor das mesmas causas anti-LGBT, podemos esperar que, no aspecto comportamental, o senhor seja uma exceção?

Com essas perguntas, cujas respostas certamente o auxiliarão a galgar cargos mais importantes no parlamento nacional, no apoio irrestrito do seu partido, o PSC, à candidatura de José Serra (PSDB), despedimo-nos, no aguardo da sua atenciosa resposta, a qual, como já dissemos, será publicada integralmente e sem cortes.

Atenciosamente,

Equipe Polivocidade.

A SOCIEDADE É PEDÓFILA GRAÇAS, EM GRANDE PARTE, AO VATICANO

Quando o arcebispo de Porto Alegre, Dadeus Grings, afirma que a sociedade é pedófila, não deixa de estar certo. A triste frase (no símile, fisgado do combativo Diário Gauche) foi dita no discurso do sacerdote, na abertura da 48a assembléia geral da CNBB.

A sociedade contemporânea é produtora de um modo de ser grotesco e de uma enunciação ressentida e decadente. A negação dos fluxos naturais do corpo.

Nega-se os fluxos sexuais naturais do corpo, como de resto se nega ao trabalhador o direito ao usufruto livre do seu trabalho. Tudo, no sistema capitalista, é expropriado, em nome da propriedade privada. Se o fruto do trabalho, com o qual especuladores do mercado financeiro enriquecem e quebram de um dia para o outro no cassino das bolsas de valores, é primariamente expropriado do trabalhador, igualmente, os fluxos sexuais naturais do corpo (também uma potência política, como o trabalho), são expropriados.

E pelos mesmos motivos: produção da mais-valia. Lucram as empresas de produtos, e não apenas os infantis – que começam a sofrer pressão da sociedade por uma abordagem menos predatória aos infantes – mas de toda a ordem. Lucra-se com um sexo agrilhado a um discurso que nada tem de repressivo. Ao contrário, a sociedade do consumo induz à sexualidade. À sexualidade, vejam bem. Jornal, tevê, rádio, outdoor, revista, pastor, consultor de beleza, vizinha, loja, shopping, de todas as partes se vomita uma sexualidade que não passa pelo sexo. Uma produção semiótica de simulação, que nada tem a ver com o seu objeto, o sexo. Em uma adaptação à linguagem igrejal, seria algo como “Não gozarás, senão quando e como Nós o permitirmos”.

Nada de produção autônoma e livre de modos de existir, de novas afecções, percepções e sentimentos. Tudo deve ser dosado e rigidamente controlado. Para sua segurança, é claro. Nada de construir um corpo para si, como produto do governo de si, para usufruto de si, num plano da coletividade. Nada de compor com uma ética comunitária, onde um Deus ciumento e vingativo, bem como uma gama de produtos à disposição “para o seu prazer”, sejam desnecessários. Gozar, pra valer, não é intuito desse discurso da sexualidade.

Daí a atrofia. Lei do uso e do desuso. Se não posso eu mesmo descobrir/produzir, a partir da minha volição, quais meus territórios de ação, onde começa e termina meu prazer, o que quero receber e dar, que relações me são possíveis ou não, se tudo isso é “sugerido” por uma sociedade do consumo, então o efeito será uma sexualidade sem sexo, uma atrofia do corpo político, uma teratogenia do (des)prazer.

Ama-se e se deseja sexualmente uma criança porque ela não representa perigo a um sexo atrofiado e imaturo que rege a sexualidade do pedófilo. É possível tomar para si um corpo infantil, indefeso e incapaz de oferecer resistência, a partir de uma sexualidade infantilizada, que também não soube oferecer resistência produtiva a uma sociedade normativa. Causa-e-efeito. Assim como a propaganda encontra um aparelho cognitivo incapaz de resistir à uma linguagem imperativa travestida de fascínio, o abusador encontra um aparelho fisiológico sexual imaturo para o sexo.

Não que a criança não tenha sexo ou não tenha traços de produção sexual. Ao contrário, até Freud percebeu que uma das principais atividades da infância é a busca de um desenvolvimento sexual. O problema é quando essa produção é sufocada por um estado de coisas patogênico, que induz à uma atrofia do sexo.

Neste sentido, o arcebispo gaúcho (mas não gauche) está certo. Mas não tem razão.

Isso porque ele foi incapaz de compreender que a igreja da qual ele faz parte é uma das grandes responsáveis por esta ordem normato-pedofílica que quer predominar no social. Se há um controle dos fluxos políticos do corpo (e o sexo é político), esse começou lá atrás, com a versão distorcida que o império romano criou da religião da alegria e da vida, de Cristo. Há um Cristo palestino, alegre, maduro e livre, mas o império romano insistem em apregoá-lo à cruz, e sustentar uma doutrina do desprezo ao corpo e às suas produções políticas. Menos que reprimir, passou-se a criar um discurso teocrático de classificação, seleção, rotulação do sexo. Culpa, ressentimento, dor. “Não goze, o seu salvador morreu na cruz por você. Você deve pagar esse tributo com dor. Carregue sua cruz…”

Carregado pelas mudanças na ordem social, esse discurso caiu como uma luva para a ordem normativa do estado capitalista. “Goze, mas não muito, que é para não subverter”, parafraseando o plagiador Tom Zé. Revolução sexual. Viva! É permitido gozar. Mas só se for a partir da nossa ordem pedagógica. Goze e compre, sempre. A culpa continua, com outra roupagem.

Os fantasmas, no entanto, não abandonaram esses velhos senhores, de sexo atrofiado, a quem a sabedoria popular diria que o que não usaram na cabeça de baixo, subiu e congestionou a cabeça de cima. Uma psicanálise popular, que mostra que os fantasmas não exorcizados de uma sexualidade natimorta, dão frutos amargos. O sonho da razão da sexualidade controlada produz o monstro da pedofilia. Que existe desde sempre, nos corredores da igreja.

E absolutamente nada disso tem a ver com a homossexualidade.

SERRA ANUNCIA CANDIDATURA CERCADA PELOS VALORES DA DISCRIMINAÇÃO E DA REATIVIDADE – PARTE I

 

“O PSDB está parecendo um partido de massas. Mas massas cheirosas…”

Pobre direita, perdida, atônita. Não sabe fazer oposição, porque acredita que nasceu para ser situação. Posições bem definidas, por Deus, pelo Estado, pela Família, pela Ordem.

Não deixa de estar certa, no entanto. Pelo menos, no plano das relações capitalistas, que não é apenas um modo de produção que explora a força de trabalho de muitos em proveito de poucos, mas também é onde existe toda uma produção de subjetividade, de modos de conceber, agir, apreender e professar dizeres e saberes que referendam, justificam, louvam e disseminam este sistema de produção.

Essa subjetividade é capilar. Está em todos os lugares, mesmo onde não a querem. E ela determina uma ordem, uma hierarquia. O sistema de valores determina uma seriedade/serialidade hierárquica que tem por função estabelecer um estado de coisas onde as coisas não mudem. Mesmo que às vezes se tenha de mudar para que tudo permaneça o mesmo.

Assim, os valores segregados por essa sociedade não são um fim em si, mas têm uma finalidade, muitas vezes obscura. E tem uma função produtiva: determinar modos de existir, em função da manutenção de sua ordem.

DOS VALORES E ODORES

Há uma explicação biológica para o fato de que os animais sabem discernir odores agradáveis e desagradáveis. É uma questão de sobrevivência: saber diferenciar um alimento em boas condições de um apodrecido ou envenenado, saber diferenciar machos de fêmeas, na reprodução, demarcação de territórios, o que daria uma verdadeira etologia dos odores. Ou psicologia dos odores, no caso dos humanos.

No caso dos seres humanos, no entanto, há ainda uma questão de ordem cultural, para além da biologia. É que os humanos determinam os odores também a partir do aspecto social. Fede tudo aquilo que é inferior, cheira tudo aquilo que é superior. O trabalhador, que retorna para casa depois de um dia inteiro de trabalho, de ônibus lotados, de exploração, fede; já a modelo que desfila e se borrifa com Chanel Número 5, cheira. Mais que odores, status social. Tudo ligado ao sistema de valores. Se você fede, é porque fracassou. Se cheira, venceu. Inadmissível um colunável social que não tenha pelo menos uma caixa de perfumes franceses ou americanos na sua necessaire. Igualmente inadmissível que um trabalhador braçal, operário, perca seu tempo se ocupando de ficar perfumado. Ele simplesmente não tem direito a isso. O cheiro abre portas. Ou as fecha. Estabelece divisões na hierarquia dos valores, segmentos sociais. Há o perfume da madame; há o perfume da puta. Há o odor fétido do sovaco do trabalhador, e há o cheiro cálido do colo da princesinha do papai.

O cheiro (ou o valor que damos a ele) é, portanto, uma produção social. Ligada ao aspecto cognitivo do capitalismo, à produção de uma mais-valia imaterial, de pertencimento. Mas de onde vem o cheiro do povo, e de onde vem o cheiro das chamadas elites?

CHEIRO, LOGO SOU

Sigmund Freud, a despeito de todos os equívocos da Psicanálise, numa acertou (também porque foi buscar em Nietzsche e Schopenhauer): o homem decadente tenta se desumanizar criando para si muitas vezes um humanismo despotencializado e desnaturalizado. Busca afastar-se de um certo ‘animalismo’, acreditando-se a espécie escolhida por Deus para dominar o planeta. Não por acaso, Freud escreveu que uma das feridas narcísicas da Humanidade foi quando Darwin mostrou que, diferente do que pensava o Papa, viemos dos macacos, e sequer temos certeza de ter sido uma evolução ou uma involução. Daí querer deixar para trás o cheiro natural. Os fluidos do corpo, naturais, são negados, em função de odores artificiais.

Freud só esqueceu de dizer que esta é uma característica das sociedades decadentes. Há, para o burguês, cujo sistema de valores é um escamoteamento constante (malogro, nos dizeres de Sartre), também para o odor a tentativa de apagar o passado. Dos subúrbios, dos pequenos comércios da era das navegações, o burguês adentrou os palácios, substituindo a nobreza decadente política e economicamente. Destes, herdou o costume de, ao invés de tomar banho, esconder os odores do corpo através de perfumes. Antropofagia cultural, os burgueses até hoje tentam se livrar do cheiro de couro curtido e de cebolas podres que os cercavam, no tempo em que eram subordinados à uma nobreza monárquica.

Assim, torna-se ofensa aos ouvidos saber-se fedorento, como modo de distinção social estar bem apresentado e com os odores naturais do corpo bem controlados, exalando apenas a última moda do circuito Paris/New York. Acreditar-se melhor que o outro a partir de uma fantasia socialmente produzida é má consciência, já dizia Nietzsche. Característica da Besta Loura, o homem fraco e decadente que dominou a Europa (diga-se, o bom burguês). Compassivo, decadente, moralista, judicativo, improdutivo, mas cheiroso.

Renegar o cheiro é também renegar o passado. O fedor das oficinas, curtumes e dos celeiros ficou para trás, e agora a burguesia assume o seu papel de elite, outrora da nobreza, assumindo também seus valores. Natural que todo cheiro ruim acabe remetendo à miséria e pobreza, e estabeleça um divisor de classes. O rico tem como esconder o seu odor, enquanto o pobre não tem tempo ou recursos para tal. Assim é, para quem crê. Principalmente se for como o último presidente da ditadura brasileira, Figueiredo, que disse preferir o cheiro dos seus cavalos ao do povo. Ou se for o PSDB…

O PSDB E O CABOCO DO INTERIOR

Pouco importa se foi a jornalista e tucana Eliane Cantanhêde que formulou, ou se ela ouviu de um “velho assessor”. A frase pronunciada no encontro dos tucanos que anunciou a candidatura de Serra à presidência da república é evidência dos valores professados pelo partido, e pela classe cujos privilégios ele defende.

Trata-se de discriminação, discurso reativo, cujo sentido é estabelecer esse estado de coisas onde as classes sociais são estereotipadas e clivadas numa ordem hierárquica imutável. No discurso e nas ações. Fica claro ao operário “sujo, imundo e fedorento”, que o PSDB não é o partido que o representa. De quebra, o partido espera ganhar a simpatia da parte embrutecida da classe média, igualmente inoculada com a patologia social da discriminação, e sofrendo do mesmo complexo de decadência que o partido professa.

Enquanto o PSDB destila o seu veneno reacionário, através de uma tentativa teratológica de humor, os trabalhadores sujos, imundos e fedorentos aumentaram, graças às políticas sociais do governo Lula, nos últimos anos o consumo de produtos ligados à higiene pessoal: papel higiênico, sabonetes, escovas e pastas de dente, lenços de papel. Aumentou o poder de compra do povo, automaticamente ele vai desfazendo o cheiro da miséria. Mudança de hábito, dirão alguns. Na realidade, tendo a chance, nenhum ser humano quer viver na miséria.

Sinal inequívoco de que, se o povo “fede”, não é por ser uma classe diferente e inferior aos emplumados e cheirosos tucanos – ou qualquer outra manifestação da burguesia reativa, – mas sim porque seu “fedor” é o produto da exploração do capital, de uma ordem reacionária, criada exatamente para manter as coisas em seus devidos lugares.

Daí esse mesmo PSDB, que já foi situação, não saber o que fazer agora, na condição de oposição. Como não soube durante os oito anos em que esteve no governo federal, auxiliar na transformação – pela economia de mercado – das condições de vida do trabalhador.

É por isso que nas eleições, o trabalhador, consciente e de banho tomado, quando apresentado à candidatura de Serra, vai usar uma expressão bem conhecida do caboclo do interior do Amazonas, para demonstrar sua posição política:

“Votar em Serra ou no PSBD? Tá, cherôso!”*

Continua na Parte II

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* Para quem não é das terras dos amazonas, a expressão ‘tá, cherôso’, soa como ‘vai esperando sentado’, ou ‘vai tirando o cavalinho da chuva’. Dá no mesmo.

LULA DEVORA OS LEÕES NA COVA DA IMPRENSA DE DIREITA

 

“Democracia não é um pacto de silêncio pela mesmice. Democracia é ebulição.” (Lula, Presidente do Brasil)

O palco estava armado, e os romanos, bem acomodados em casa. Em tempos de coliseu virtual, basta que mandem seus leões. E nesta noite de domingo, Páscoa, eles foram enviados em massa. E não foi Daniel que desceu à cova, mas os leões que foram levados à casa de Daniel.

A nata do jornalismo da Band, acrescida do Pit-Bulldozer Datena. Talvez os romanos achassem pouco Casoy, Mitre, Joelmir Beting e a turma habitual do Canal Livre. Todos com a faca nos dentes, prontos para devorar Daniel, no caso, o presidente Lula.

Mas eis que, tal como na história bíblica, foi Daniel que “faturou” os leões.

Lula foi derrubando, com seu sorriso e sua fala, um a um. Quando Datena, o gasguita, habituado a falar grosso com os bandidos do conforto dos estúdios da Band, foi convidado por Lula a subir o Morro do Alemão, no Rio, afinou. Quando disse que no Brasil, política e polícia eram a mesma coisa, levou aula de sociologia: segurança pública não é subir o morro com uma arma, mas com as oportunidades que faltaram às pessoas e que geram a violência. Lula, que não leu Spinoza, vai à raiz, toma pela causa. Datena podia dormir sem essa.

Bóris Casoy, do alto do seu microfone, o mais baixo grau da escala da subserviência, repetiu o seu habitual mantra. Atacou a democracia, e defendeu o patrão. De nada adiantou Lula explicar-lhe que controle social não é censura, porque as próprias tevês são uma concessão pública. Casoy é incapaz de decodificar esse discurso. Nem mesmo quando engasgou, depois de acusar o governo de arquitetar uma comissão de controle social, e ter recebido como resposta que em democracia, o silêncio é reacionário, e que a iniciativa da comissão tinha sido da FENAJ. Quase dava pra ver Lula incorporando o caboco Sartre, em pleno gabinete presidencial!

É que Lula, mesmo jamais tendo lido Nietzsche, sabe o que o bigodudo sabia: “Deve-se falar somente quando não se pode calar e falar somente do que se superou: tudo o mais é tagarelice, literatura, falta de disciplina”.

Lula fala sob outros códigos, uma outra linguagem, que a mídia não conhece. Lula é humor, tônus corporificado que contamina e anima, afectivo-afectante. Transmutação dos modos de ser. Daí Lula poder dizer a Bóris Casoy que censura à imprensa, no Brasil, só a dos donos dos jornais, chamados cordialmente de ‘colegas’ pelos subordinados, como diria Mino Carta.

Lula está em outra. Como no conto infantil, ele descobriu o nome de seu inimigo, e essa palavra mágica fez com que o poder do outro se esvaísse. Nietzsche: só se pode falar daquilo que superou. Lula superou a dor, o ressentimento, o rancor. Deixou-os para trás. Condição sine qua non para alcançar a democracia, já dizia Spinoza. Como estão ainda presos ao ressentimento e à dor, os jornalistas da Band ouviam, mas não compreendiam. Aliás, eram esses os leões; outros podiam vir, com a mesma sede de sangue: Bonner-Simpson, Ali Kamel, Mainardi, Reinaldo Azevedo, pode mandar. Enquanto o código for o mesmo, Lula é quem almoça os leões, para desespero dos romanos. E adiantou: Dilma também vai devorar.

Ela, aliás, como o próprio Lula, Lugo, Morales, Mujica, são filhos do rancor, das ditaduras da América Latina. Mas são filhos para além da concepção edípica: o rancor ficou com os pais, Complexo de Cronos. A ditadura os pariu, mostrando a eles que é possível existir sem as ilusões do sistema capitalista. Retirando deles toda a possibilidade de esperança. Tiraram deles tudo o que era possível tirar. Restou o que não era possível: a consciência, a inteligência. Daí os filhotes da ditadura, viúvas ressentidas, serem inócuos a Lula, que ri a cada investida dos leões. Não lhes restando nada, nada têm eles a perder, e tudo a construir, sem falsas certezas. Foi isso que os porões da ditadura ensinaram a Lula, Lugo, Morales, Dilma, Mujica, e muitos outros.

Lula, com o riso do nordestino, de quem sabe roer a rapadura sem quebrar os dentes, nunca leu Nietzsche. Mas deve ter ouvido muito Ednardo, traduzindo o bigodudo para o vocabulário popular:

“Não temas minha donzela / Nossa sorte nesta guerra / Eles são muitos / Mas não podem voar”.

Um Conto, Uma Poesia, Uma História – Parte 3/3

Filosofia e Psicologia

(1965)

"Filosofia e psicologia" (entrevista com A. Badiou), Dossiers pédagogiques de ta radio-télévision scolaire, 27 de fevereiro de 1965, ps. 65-71.

Esta discussão, assim como o debate que figura no número seguinte (ver n° 31, vol. 1 da edição francesa desta obra), provém de emissões produzidas pela radiotelevisão escolar em 1965-1966, concebidas por Diria Dreyfus e realizadas por Jean Fléchet.

Essas emissões foram recentemente reeditadas em videocassete pelo Centro Nacional de Documentação Pedagógica e Edições Nathan, na coleção "Le temps des philosophes", enquanto um número dos Cahiers philosophiques (fora de série, junho de 1993) dá uma transcrição literal de seu conteúdo, bastante afastada da versão aqui publicada e que, só ela, fora revisada pelos autores.

(Essa é a parte 3/3. A parte 1 você confere aqui, e a parte 2, aqui).

AB – A psicologia, em última instância, será a ciência dessas estruturas, ou o conhecimento do texto individual?

MF – A psicologia será o conhecimento das estruturas, e a eventual terapêutica que não pode não estar ligada à psicologia será o conhecimento do texto individual, quer dizer, não acho que a psicologia possa algum dia dissociar-se de um certo programa normativo. A psicologia é talvez, na verdade, assim como a própria filosofia, uma medicina e uma terapêutica, é certamente uma medicina e uma terapêutica. E não é porque, sob suas formas as mais positivas, a psicologia se encontre dissociada em duas sub-ciências, que seriam psicologia e pedagogia por exemplo, ou psicopatologia e psiquiatria, que esta dissociação em dois momentos igualmente isolados seja algo mais do que o sinal de que, de fato, ê necessário reuni-las. Toda psicologia é uma pedagogia, toda decifração é uma terapêutica, não se pode saber sem transformar.

AB – O senhor pareceu dizer, várias vezes seguidas, que a psicologia não se contenta em estabelecer relações, estruturas, por mais complexas e rigorosas que sejam, entre elementos dados, mas que ela comporta sempre interpretações, e que as outras ciências, pelo contrário, quando encontravam dados que eram para interpretar, não podiam ser suficientes para isso; e o senhor pareceu dizer que, no caso, a psicologia devia entrar em cena. Se isso é exato, será que, em expressões como "psicologia humana" e "psicologia animal", a palavra psicologia lhe parece ter o mesmo sentido?

MF – Estou contente que o senhor tenha colocado esta questão, porque, de fato, eu mesmo era responsável por um deslize. Primeiro, eu disse que a articulação geral das ciências humanas fora inteiramente remodelada pela descoberta do inconsciente e que, paradoxalmente, a psicologia tinha exercido uma espécie de imperativo sobre as outras ciências. Depois, comecei a falar da psicologia em uma perspectiva estritamente freudiana, como se toda psicologia só pudesse ser freudiana. Houve um novo recorte geral das ciências humanas a partir de Freud, isso é um fato inegável, penso eu, e que mesmo os psicólogos mais positivistas não podiam negar. Isso não quer dizer que toda psicologia, em seus desenvolvimentos positivos, tenha se tornado uma psicologia do inconsciente ou uma psicologia das relações da consciência com o inconsciente. Permaneceu uma certa psicologia fisiológica, permaneceu uma certa psicologia experimental. Afinal de contas, as leis da memória, tal como foram estabelecidas por meu homônimo há 50, 60 anos, rigorosamente não têm nada a ver inclusive com o fenômeno do esquecimento freudiano. Isso permanece sendo o que é, e eu não acho que, no nível do saber positivo e cotidiano, a presença do freudismo tenha mudado realmente as observações que se podem fazer, seja sobre os animais, seja inclusive sobre certos aspectos do comportamento humano. Trata-se de uma espécie de transformação arqueológica profunda, a do freudismo; isso não é uma metamorfose geral de todo saber psicológico.

AB – Mas, então, se o termo psicologia aceita aspectos tão diferentes, qual é o sentido comum a esses aspectos? Haverá uma unidade da psicologia?

MF – Sim, se admitirmos que, quando um psicólogo estuda o comportamento de um rato em um labirinto, o que ele busca definir é a forma geral de comportamento que poderia valer igualmente para um rato e para um homem; trata-se sempre daquilo que se pode saber do homem.

AB – Então o senhor aceita que se diga: o objeto da psicologia é conhecimento do homem e as diferentes "psicologias" são igualmente tantos meios para esse conhecimento?

MF – Sim, no fundo, eu o admitiria, sem ousar muito dizê-lo, porque isso parece demasiado simples… Mas é muito menos simples se pensarmos que, no início do século XIX, apareceu esse projeto muito curioso de conhecer o homem. Aqui se encontra, provavelmente, um dos fatos mais fundamentais na história da cultura européia porque, se de fato existiram, nos séculos XVII e XVIII, livros que se chamavam Tratado do homem (1) ou Tratado da natureza humana (2), eles não tratavam absolutamente do homem como nós o fazemos quando fazemos) psicologia. Até o final do século XVIII, quer dizer, até Kant, toda reflexão sobre o homem é uma reflexão segunda em relação a um pensamento que, ele, é o primeiro e que é, digamos, pensamento do infinito. Tratava-se sempre de responder a questões tais como esta: dado que a verdade é o que ela é, ou que a matemática ou a física nos ensinaram tal e tal coisa, como acontece de percebermos como percebemos, conhecermos como conhecemos, de nos enganarmos como nos enganamos?

A partir de Kant acontece uma reviravolta, quer dizer: não é a partir do infinito ou da verdade que se vai colocar o problema do homem como uma espécie de problema de sombra projetada; a partir de Kant, o infinito não é mais dado, não há senão a finitude, e é neste sentido que a crítica kantiana levava consigo a possibilidade – ou o perigo – de uma antropologia.

AB – Fez-se muito barulho, em uma certa época em nossas salas de aula, com relação às ciências humanas, sobre a distinção entre "explicar" e "compreender". Isso parece ter um sentido para o senhor?

MF – Não ouso afirmar, mas parece-me que a primeira vez em que "explicar" e "compreender" foram diferenciados e propostos precisamente como formas epistemológicas radicais, absolutas e incompatíveis uma com a outra, foi por Dilthey. Ora, contudo, isso é alguma coisa muito importante, e foi exatamente ele quem fez, pelo que eu saiba, a única história, um pouco aproximativa, mas quão interessante, da hermenêutica na história ocidental. Acho que o que há de profundo nele é o sentimento que ele tinha de que a hermenêutica representava um modo de reflexão muito singular, cujo sentido e valor arriscavam ser ocultos por modos de conhecimentos diferentes, mais ou menos emprestados das ciências da natureza, e o fato de que ele sentia perfeitamente que o modelo epistemológico das ciências da natureza seria imposto como norma de racionalidade às ciências do homem, quando essas mesmas ciências do homem não eram, provavelmente, senão um dos avatares das técnicas hermenêuticas que não cessaram de existir no mundo ocidental desde os primeiros gramáticos gregos, junto aos exegetas de Alexandria, aos exegetas cristãos e modernos. E creio que Dilthey sentiu a qual contexto hermenêutico, historicamente geral em nossa cultura, pertenciam a psicologia e as ciências do homem em geral. Foi isso que ele, de um modo um pouco mítico, definiu como a compreensão oposta à explicação. A explicação seria o mau modelo epistemológico; a compreensão é a figura mítica de uma ciência do homem remetida ao seu sentido radical de exegese.

AB – O senhor considera que se possa dizer da psicologia como ciência e como técnica o que se diz das ciências exatas e rigorosas, a saber: que ela própria faz sua filosofia, ou seja, que ela própria exerce a crítica de seus métodos, de seus conceitos etc.?

MF – Acho que o que se passa atualmente na psicanálise e em um certo número de outras ciências, como a antropologia, é alguma coisa assim: que depois da análise de Freud, alguma coisa como a análise de Lacan foi possível, que depois de Durkheim, alguma coisa como Lévi-Strauss foi possível, tudo isso prova, de fato, que as ciências humanas estão prestes a instaurar com elas próprias e para elas próprias uma certa relação crítica que não deixa de fazer pensar na relação que a física ou as matemáticas exercem quanto a elas próprias; o mesmo para a lingüística.

AB – Mas não para a psicologia experimental?

MF – Pois bem, até o momento, não. Todavia, quando os psicólogos fazem estudos sobre a aprendizagem e experimentam os resultados, em que medida as análises sobre a informação podem permitir formalizar resultados assim obtidos, é igualmente uma espécie de relação reflexiva, generalizadora e fundadora estabelecida pela psicologia para ela própria. Ora, sobre a cibernética ou sobre a teoria da informação, não se pode dizer que ela seja a filosofia da psicologia da aprendizagem, assim como não se pode dizer que o que faz Lacan atualmente, ou o que faz Lévi-Strauss, seja a filosofia da antropologia ou da psicanálise. É mais uma certa relação reflexiva da ciência sobre ela mesma.

AB – Se o senhor estivesse em uma sala de aula de filosofia, tal como ela é atualmente, o que o senhor ensinaria da psicologia?

MF – A primeira precaução que eu tomaria, se eu fosse professor de filosofia e devesse ensinar psicologia, seria a de comprar-me a máscara mais perfeita que eu pudesse imaginar e a mais diferente de minha fisionomia normal, a fim de que meus alunos não me reconhecessem. Eu me esforçaria, como Anthony Perkins em Psicose, em fazer uma voz completamente diferente, de modo que nada da unidade de meu discurso pudesse aparecer. Eis a primeira precaução que eu tomaria. Em seguida, tentaria, na medida do possível, iniciar os alunos nas técnicas que são atualmente utilizadas pelos psicólogos: métodos de laboratório, métodos de psicologia social; tentaria explicar-lhes em que consiste a psicanálise. E depois, no momento seguinte, retiraria minha máscara, retomaria minha voz e faríamos filosofia, com o risco de encontrar a psicologia, neste momento, como essa espécie de impasse absolutamente inevitável e absolutamente fatal no qual se encontrou engajado o pensamento ocidental do século XIX. Mas, ao dizer que é um impasse absolutamente inevitável e fatal, eu não a criticaria como ciência, não diria que é uma ciência não tão positiva, não diria que é alguma que deveria ser mais filosófica ou menos filosófica: eu diria simplesmente que houve uma espécie de sono antropológico no qual a filosofia e as ciências do homem se fascinaram, de algum modo, e se adormeceram umas às outras, e que é preciso acordar desse sono antropológico, como outrora acordou-se do sono dogmático.

Notas:

1 Descartes (R.), Traité de l’homme, Paris, Clerselier, 1664 (in Oeuvres et ettres, Ed. A. Bridoux, Paris, Gallimard, sol. "Bibliothèque de Ia Plêiade", 953, ps. 803-873).

2 Hume (D.), A treatise of human nature. Being an attempt to introduce the experimental method of reasoning finto moral subjects, Londres, J. Noon, 739-1740, 3 vol. (Traité de ia nature humaine. Essai pour introduire ia méthode expérimentale dans les sujets moraux, trad. A. Leroy, Paris, AubierMontaigne, 1973, 2 vol.).

Notas biográficas:

Michel Foucault

Filósofo francês (15/10/1926-25/6/1984). Pensador polêmico, cuja teoria põe em dúvida as teses de, no mínimo, dois pilares da cultura contemporânea: Karl Marx e Sigmund Freud. Michel Paul Foucault nasce em Poitiers e estuda na Escola Normal Superior de Paris, diplomando-se em psicologia e psicopatologia. A partir de 1960 leciona na Universidade de Clermont-Ferrand e em instituições de ensino superior da Alemanha e da Suécia. Professor no Collège de France a partir de 1970, procura mostrar que as verdades sobre a natureza e a sociedade humana, tidas como permanentes, variam ao longo da história. Em História da Loucura na Idade Clássica (1961), observa como o pensamento é moldado pela hegemonia de um discurso e uma prática social determinados. Em Vigiar e Punir (1975), um de seus principais livros, analisa historicamente como o poder e condições políticas específicas afetam a produção do conhecimento. Visita o Brasil várias vezes e exerce grande influência em nossos meios intelectuais. De 1976 a 1984 trabalha na redação de sua História da Sexualidade, da qual publica apenas os três primeiros volumes.

Alain Badiou

Nasceu em 1937 na cidade marroquina de Rabat. Autor de vasta e qualificada produção intelectual, é tido como um dos principais filósofos franceses da atualidade. Leciona filosofia na Universidade de Paris-VII Vincennes e no Collège International de Philosophie, além de ser professor emérito da École Normale Supérieure de Paris. Sua trajetória também está marcada pelo ativismo político. Filho de um professor de matemática que se destacou na Resistência Francesa contra a ocupação nazista – seu pai foi prefeito de Tolouse entre 1944 e 1958 –, Badiou participou da movimentação social que culminou no maio de 1968. Foi membro-fundador do Parti Socialiste Unifié (PSU) e um dos dirigentes da L`Union des Communistes de France Marxiste-Léniniste (UCF-ML), grupo maoísta francês. Desde o fim da década de 1980, tem participado de L’Organisation Politique. Além das reflexões filosóficas, Badiou escreveu ensaios políticos, romances e atuou como dramaturgo, tendo trabalhado com diretores como Antoine Vitez e Christian Schiaretti.

Baixe aqui o documento com a entrevista, na íntegra, em PDF. Assista aqui o vídeo, com legendas em espanhol.