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CURTINHAS DO POLIVOCIDADE

Nesta semana, em uma casa de shows em São Paulo, um grupo de autointitulados humoristas realizou uma apresentação, onde o tema foi, invariavelmente, a discriminação contra as chamadas minorias (mulheres, negros, homossexuais, deficientes, dentre outros). Nada melhor do que aderir ao discurso discriminatório do fascismo para ocultar a própria impotência. Celebrar a dor, cultivar a própria frustração, fazer coro ao buraco negro da incapacidade de criar. Só faltou combinar com as minorias. No meio de comediantes e platéia impotentes, havia um ser humano pleno, potente. Um músico, negro, que se indignou, agiu, e lembrou aos doentes que o seu delírio e o mundo em que vivemos não são uma coisa só.

Depois do episódio, o biliático Rafinha Bastos levantou-se do limbo moral em que foi encerrado, para apoiar seus colegas de infortúnio. Revoltou-se contra o minuto de lucidez de um colega, que ousou duvidar que o doloroso conteúdo produzido pela trupe era humor. Rafinha defende a liberdade de expressão, mas sobretudo o direito de contribuir para que o mundo se torne cada vez pior.

Circula no Facebook uma imagem sugerindo a candidatura de Francisco Everardo Oliveira Silva, o palhaço Tiririca, para a prefeitura de São Paulo. Motivo para a classe média destilar seu ódio de classe e sentimento de inferioridade, já que a peça publicitária traz um resumo da atuação de Everardo como deputado federal. Como já sabíamos, Tiririca eleito estava longe de uma alienação, mas é afirmação da vontade soberana do povo. E sua atuação confirma que a sociologia clássica perdeu o rumo. Entre a seriedade/serialidade de Kassab, Serra e Haddad, por que não o palhaço do povo? O povo já aprendeu Baudrillard: “É melhor perecer pelos extremos do que pelas extremidades“.

Aproximadamente 165 moradores de rua mortos desde abril de 2011, no Brasil. Boa parte, com requintes de crueldade, queimados, por jovens da classe média. O modus operandi, além da covardia, revela algo mais sobre os assassinos. O desejo inconsciente de eliminar, aniquilar o outro. Matá-lo não é suficiente. E mais: por que a existência de quem não tem nada mais a perder (a não ser a própria vida) incomoda tão intensamente a quem procura se enquadrar na ordem normativa do capital? Por isso mesmo. Para vencer, é preciso anular a si mesmo, o que é, em si, uma morte. O morador de rua, ao contrário, fracassou. Eis sua vitória e seu troféu. E o morto odeia o vivo por aquilo que ele tem: a vida.

O soldado estadunidense que abriu fogo em um bairro afegão e matou dezenas de mulheres e crianças comprovou, com seu ato, que o terrorismo tem nacionalidade. Fosse ele afegão, iraquiano, cubano ou venezuelano, seria um terrorista. Como é da pátria do Uncle Sam, é uma vítima do stress.

E o príncipe do novo capitalismo brasileiro, Thor Batista, atingiu com sua Mercedez SLR McLaren, de 2,7 milhões de reais, a bicicleta de pouco mais de 100 reais de Wanderson Pereira da Silva, ajudante de caminhão. Ambos jovens. O primeiro, filho de Eike Batista, o sétimo na lista da Forbes, dos mais ricos do mundo. O segundo, filho adotado de Tia Maria, abandonado pela mãe aos oito anos de idade e que nunca conheceu o pai. Wanderson foi dilacerado, e seu corpo teve de ser reconstituído para o velório. O bólido milionário sofreu arranhões e Thor não foi atingido, nem fisica, nem moralmente. Fica a pergunta: que sistema de produção permite que alguém compre e circule com uma máquina de altíssima periculosidade em um espaço público, cuja circulação obedece (ou deveria) à função social, e isso, em si, não seja crime? Resposta: o capitalismo, que não se reduz à acumulação de capital e exploração da mão-de-obra, mas produz e submete tudo o mais aos seus valores, pincípios, métodos, crenças e modos de existir. Pelos quais Wanderson morreu, sem ter tido a oportunidade de gozar de suas benesses.

A lógica da exploração da fé alheia não se sustenta, ao menos quando se trata das igrejas neopentecostais adoradoras do capital. A relação está longe da exploração: trata-se de um comércio. Porém, o que eles vendem não é a salvação, mas uma espécie de salvo-conduto moral: a permissão para ser quem se é, em toda a sua vileza, sob o manto aparente da pureza e da remissão dos pecados. O direito (quase) social de ser lobo travestido em ovelha. Quem tiver olhos, que veja.

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POLIDIZERES

AMAZONINO MOSTRA QUE NÃO É PREFEITO – A prova inequívoca de que Amazonino não é prefeito de Manaus é o fato de se manter no cargo às custas de ‘facilidades’ obtidas no judiciário, que persiste em ignorar o fato de que ele comprou votos à luz do dia. Fato que, por si só, é um paradoxo, pois quando o juiz deixa de julgar, também deixa de ser juiz. Essa mesma lógica vale para o (não-)prefeito. Primeiro, porque anuncia ônibus novo e tarifa nova. Os ônibus são reciclados de outras cidades. Ou seja, o orgulhoso manauara recebeu como novos aqueles veículos que, nas outras cidades, foi considerado lixo. Segundo porque, mesmo com a justiça anulando o aumento do preço da passagem, a prefeitura age em favor daqueles que o ajudaram a se eleger, e recorre, inclusive desobedecendo ordem judicial. O que Amazonino não será jamais capaz de compreender é que um prefeito que não atua em nome da democracia pela qual foi eleito, corrompe a si mesmo e o cargo que ocupa. Amazonino insiste em não ser prefeito, mesmo quando o judiciário local sacrifica a si mesmo para que ele fique no cargo.

ONDE HÁ FUMAÇA, HÁ FOGO – Ontem, dia das crianças, uma jovem menor de idade foi encontrada na chácara do deputado federal Sabino Castelo Branco (PTB/AM). Ela estava seminua e desorientada, quando o conselho tutelar a encontrou. As primeiras manifestações do deputado foram no sentido de atribuir a um jornalista local a armação para denegrir sua imagem. Outras fontes jornalísticas disseram que Sabino acusou a prefeitura. De qualquer sorte, neste vídeo, o deputado aparece confirmando a versão de seu caseiro, de que encontrou a menina no ramal, já despida e desorientada, e que apenas a acolheu. A defesa exagerada do deputado chamou a atenção do conselheiro tutelar que, no mesmo vídeo, afirma que o deputado não está sendo acusado de nada, pois nada foi apurado ainda, não havendo necessidade de se defender. A defesa exagerada e sem ataque efetivo remete à noção de trauma e culpa. Quando ameaçados com a revelação de algo desabonador  que fizemos, e que críamos, jamais seria descoberto, a reação é sempre exagerada na aparência, a inocência sempre brandida, os inimigos sempre a tramar contra. Tudo para ocultar a culpa. Se o juiz fosse Freud…

MARCHA CONTRA A CORRUPÇÃO, CORROMPIDA – Enquanto as chamadas esquerdas moderada e radical se digladiavam sobre a validade ou não da marcha, os organizadores do evento cuidavam para que nada saísse errado. Isso incluía filmagem seletiva dos cartazes, depoimentos inteligentíssimos e inflação de participantes. A de Brasília, visivelmente decepcionante, foi mostrada como exemplo. Na prática, os cansados e indignados de Facebook preferiram ficar em casa e curtir com um clique de botão. Noutro lugar, a Rede Globo deliberadamente evitou filmar cartazes em que aparecia ela mesma ou algum anunciante amigo sendo acusado de corrupção. Não longe dali, repórteres da emissora foram hostilizados por manifestantes. Um depoente chegou a dizer que, após dez anos, o Brasil estava pior (!). De qualquer forma, de grande manifestação popular, a marcha contra a corrupção foi marcada pela inércia que acompanha fielmente a direita e a esquerda abobalhada.

POLIDIZERES

O QUE OS OLHOS NÃO VÊEM – Dizem que a tevê não mostra porque não pode. Outros não vêem porque não querem. Mas está lá. Em cada morro que deslizou, em cada enxurrada que passou, em cada corpo que ficou, dá para ver, gravadas, as imagens dos rostos dos governantes que, nas últimas décadas, nada fizeram para impedir que a cidade pudesse existir em comunidade com a natureza.

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INTELIGÊNCIA – O que também se pode ver em toda esta situação política é que, embora a natureza tenha sido pródiga com todos, há alguns que se recusam a usar aquilo que ela deu de mais rico: a inteligência. Uns não usam para governar; outros, para escolher.

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CULTURA POPULAR – Boi de Parintins faz apresentação EX-CLU-SI-VA em festa de arromba em condomínio de luxo, em Manaus, neste final de semana, por ocasião do aniversário de um juiz. O levantador de toadas, as cunhãs-porangas e o próprio boi de pano dançaram para deleite de poucos até o sol raiar. É o que nos diz um prestigiado colunista social.

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PERDEU-SE A ORIGEM – Acreditar que o boi de Parintins seja, hoje, cultura popular, por conta do talento inegável e inesgotável de seus artistas plásticos é o mesmo que achar que a FIAT pertence aos operários apenas porque são eles que constróem os carros da empresa. Subitamente, apaga-se a exploração. Mas um dia, o boi foi (expressão) do povo.

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AD ETERNUM? – Perguntamo-nos, inutilmente, se haveria comoção semelhante à da época do terremoto, se hoje fizéssemos campanha pelo Haiti. Atualmente, uma outra hecatombe toma conta daquele país, e muito pior que a trazida pelo movimento das placas tectônicas, pois que esta tem por objetivo a perpetuação da miséria e da dominação político-econômica naquele país. E feita pelo homem.

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AD ETERNUM BRASILIS? – Igualmente, no auge da comoção da classe média (leia-se compaixão) do auxílio aos desabrigados na Serra do Rio de Janeiro e de São Paulo, ignorar-se-á, daqui a alguns meses, que evitar a repetição farsesca destes eventos, no verão de 2012 está a um passo. Basta continuar movimentando a energia, desta vez não pela via da compaixão, mas pela da razão. Infelizmente, Razão e Compaixão são interexcludentes.

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NADA DE NOVO NO FRONT – Amazonino não tem nada a dizer. Tudo está na cara, ao alcance de um passeio por Manaus. O que ele diz é o que ele faz. Daí, nada de novo na entrevista concedida à jornalista Ivânia Vieira e exibida na edição dominical de A Crítica. O que a classe média twítica viu nela de tão revelador? O louvável é, talvez, apenas o fato da jornalista ter suportado estar no mesmo ambiente que o atual prefake (prefeito fake) de Manaus por tanto tempo.

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FRASE DO DIA – Não ha nada mais ficcional do que a realidade.

POLIDIZERES

SOBRE A CENSURA DA CENSURADA FOLHA

O psicanalista Sigmundo Freud entendeu a lógica do censor: é aquele que, censurado, limitado na sua capacidade de intelecção, passa a operar também no sentido de censurar. O princípio do trauma, onde a vítima repete e hospeda o agressor. Assim, a FOLHA DE SÃO PAULO, cumprindo sua sina de redução epistemológica (não é a primeira vez) está processando e exigindo vultosa quantia em dinheiro de dois irmãos, Lino e Mário Bocchini, por estes manterem no ar um blog satírico intitulado FALHA DE SÃO PAULO.

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Lino e Mário, evidentemente, não possuem envergadura econômica para lidar com o rolo compressor da FSP. Mas a maior vitória, eles já conseguiram: expor ao ridículo um dos ícones da mídia domesticada brasileira até no exterior. Talvez, iludida de que fosse a proprietária da inteligentsia brasuca, a Folha jamais imaginasse que houvesse quem entendesse de Freud para além de sua tropa de colunistas. O problema do tirano é que ele é o último a perceber que está nu. E quando o faz, é tarde demais.

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Fazes com os outros aquilo que fizeram contigo, é a lei do censor, que se imagina liberto da dor, tentando contaminar o outro. Só que o que eles não perceberam é que, para além dos irmãos Bocchini, existem milhões de outros, que não caíram na trama fácil e débil do jornalão. Aliás, já fazem alguns anos que  a maior parte da população brasileira faz ouvidos de mercador ao canto das sereias do baronato midiático local. Bonner-Simpson que o diga, há oito anos…

SOBRE O PERIGOSO PROGRESSISMO DA ESQUERDA

Progresso é uma palavra perigosa, assim como Orgulho. Só se tem orgulho quando se perdeu a medida do que se realmente é, quando se precisa acreditar-se maior do que efetivamente é. O mesmo vale para o Progresso. Só deseja progredir aquele que teme o criar. Pois que para fixar uma idéia de progresso e retrocesso, se necessita demarcar o caminho por onde se quer ir. E caminho demarcado é caminho sabido.

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Por trilharem caminhos já sabidos e conhecidos, muitos grupos ditos de esquerda acabaram por cair na mesma armadilha da direita. Fala-se em revolução, mas vive-se os mesmos clichês da moral de classe do capitalismo burguês. Se a classe operária jamais chegará ao paraíso, tampouco a esquerda deveria perseguir um ideal de progresso. Por isso este Poli não se considera progressista, ainda que no seu caminhar, por vezes encontre zonas de vizinhança com alguns blogueiros progressistas.

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Mesmo durante a campanha eleitoral, quando os blogueiros progressistas estavam caminhando numa mesma direção, já se percebiam aqui e alhures, lampejos daquilo que imobiliza os grupos e os caracteriza como grupelhos: o móbil (re-sentimentos e emoções) caminhando quase sempre à frente dos motivos. Criar um movimento convergente é importante e necessário, dependendo da situação. Mas querer uma unidade constante e imóvel é cair nas mesmas armadilhas epistemológicas do “pensamento” ocidental que permeia o conservadorismo. As sociedades mais criativas e desenvolvidas foram erigidas sob os auspícios da diversidade, e não da unidade.

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Igualmente, adotar os mesmos mecanismos de intelecção, a partir dos mesmos clichês, sem afastar as imagens da consciência para permitir o exame crítico de cada situação singular, é armadilha que interessa à conservação das coisas tal como está. Daí não adianta bater na mídia domesticada, alcunhá-la PIG, se na hora de analisar os acontecimentos, utilizar-se dos mesmos expedientes neurocognitivos que eles. Assim, o episódio envolvendo algumas feministas, alguns blogueiros e o jornalista Luis Nassif é apenas um sinal de que falta muito para que a esquerda brasileira, materializada nesta “nova” mídia, produza uma síntese disjuntiva capaz de efetivamente criar o novo.

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Sobre o episódio, trazemos ao leitor duas perspectivas, ao nosso ver, lúcidas e maduras: a do blog Jornalismo B, e da trepidante multiblogueira, Conceição Oliveira, do Blog da Mulher.

SOBRE O ENGÔDO COMPASSIVO DO GLOBETE LUCIANO HUCK

Classe média e passividade são praticamente sinônimos. Explicamos: a classe média é aquela que adora reclamar do governo, da corrupção, mas não perde a oportunidade de “se dar bem”, praticando pequenas corrupções cotidianas, tais como furar a fila do supermercado, pagar a propina para garantir a vaga do filho na escola particular, levar a avó ao banco para utilizar o caixa preferencial, dentre muitos.

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Esta mesma classe média enxerga o governo não como uma instância aglutinadora do interesse e da ação social afirmativa, mas como um ente fantasmático, objeto de deposição das suas frustrações, onde ele exorciza a sua culpa e justifica a sua imobilidade e incapacidade de agir para mudar o estado de coisas. Daí o ressentimento com o governo Lula, apesar deste ter sido um governo particularmente benévolo à classe.

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Assim, cheira a humor decadente as manifestações de apreço e gratidão da classe média amazonense, em particular os globetes, que encheram os olhos de lágrimas (o crocodilo nada tem com isso) ao ver o aproveitador Luciano Huck fazendo filantropia com chapéu alheio, e explorando a miséria social dos governos que a classe média sempre ajudou a eleger. Houve quem dissesse que Huck fez o que os governos não fizeram. Mas que é o governo senão a sociedade organizada? O Estado em si não tem substância, não é um ente exógeno. Se ele é falho ou inepto, é porque existem correlações de força que desejam esta imobilidade e esta inépcia.

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Se há diferença entre Huck e os Irmãos Souza, por exemplo, está apenas na aparência. O modus operandi e o móbil é o mesmo: aproveitar-se do estado de miserabilidade criado pela ausência de políticas locais de desenvolvimento econômico, para capturar e produzir a mais-valia através da compaixão. Huck ganha a audiência e a admiração daqueles que se omitem na hora de defender o papel da sociedade como promotora deste desenvolvimento, reforça o ressentimento desta classe contra o Estado, e ainda mantém o estado de coisas de imobilidade. Huck ainda tem a vantagem de apresentar-se numa roupagem cujos signos compôem com a classe média. Os irmãos Souza, apesar de contarem com a mesma audiência, tinham que se haver com o falso desprezo dos que assistem mas fingem que deploram. Não só os Souza, mas os Sabinos, Conceições Sampaio, Marcos Rottas e outras produções Garcinianas.

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O único que não se enganou nesta história toda foi o caboclo que mostrou a Huck conhecer a história de Veneza. Para o espanto do Globete, que afirmou jamais imaginou encontrar num lugar como aquele alguém tão inteligente.

POLIDIZERES

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O problema não é olhar para a tevê. Afinal, não há nada lá para ver. O problema é acostumar-se a ser olhado por ela, e não achar isso perigoso.

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Não tenho chances em Manaus. Minha única chance é ficar em São Paulo”. Frase de Wallace Souza, ex-deputado estadual em dois mandatos pelo Amazonas, falecido dias atrás num hospital paulista. O parlamento amazonense é responsável por fiscalizar o sistema de saúde, e zelar para que os tratamentos necessários sejam oferecidos sem a necessidade de deslocamento.

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Curtinha sobre o terrorismo que assola o mundo: o único país na história da humanidade que efetivamente utilizou armas nucleares para atacar o homem foi os EUA. Segura, Obama!

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Se a televisão é um veículo onde predomina o signo indicial (Valeu, Cristian!), que anula a operação neuroepistemológica da análise e do exame, substituindo-a pela da simplicidade da similaridade, então, como é possível que alguém ainda acredite ser possível realizar um debate nela?

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O candidato a vice fake de José Serra, Índio, é fake porque quer ser mais real que o real. É Índio sem ter entendido que índio é uma produção da semiologia teratogênica do conquistador europeu, que nada tem a ver com os nativos da terra de Tupã. Mas o pior do Índio fake é acreditar que a sua verdade é mais verdade que a dos outros. Acusa Dilma de gaguejar. É que para ele, a linguagem reta é a que estabelece uma ordenação exógena, que se materializa como palavra de ordem. A voz dominante do Papai. Nada de dúvidas, descaminhos, passeios, viagens, gagueiras. Nada daquilo que pode mostrar um caminho ainda não visto, diferente e melhor. Apenas por gaguejar e cogitar uma outra linguagem, Dilma já seria mais necessária que Serra e Índio. Mas o pior, pra eles, e o melhor, para o Brasil, é que ela é muito mais que isso.

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Assim como se leva a uma fera iracunda e irracional um pedaço de carne, para enganá-la e acalmá-la, também quando se vai ter com um prefeito da direita neoliberal, convém levar uma planilha de custos, pelo mesmo motivo.

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Principalmente quando não houver mais nenhum indício, nenhuma possibilidade, nenhuma expectativa, é que devemos esperar algo que irá acontecer.

CURTINHAS PÓS-BOVINAGEM NA PARINTINS DAS TRADEMARKS

Às vésperas da divulgação do resultado do vencedor da disputa entre os siameses bovinos, ocorreu o de sempre: brigas, acusações, vale tudo em busca do simulacro da vitória.

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O Secretário de Cultura (sic), Robério Braga, sempre muito próximo aos conceitos de cultura reificada pelo capital, acusou um boi de pajear e mimar os jurados, a fim de receber seus favores na hora das notas. Evidência de que os bois, suas diretorias, organizadores e parte das torcidas entraram de cabeça na ordem decadente da moral. Não basta vencer, tem que vencer e aniquilar o inimigo. Daí os bovinopatas afirmarem Sartre, sem o querer: o inferno são os outros. E, nesse caso, o outro é o meu igual. Os bois são siameses no quesito improdutividade e trabalho morto, absorvido pelo capital.

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Ao turista mais atento, já cotidianamente bombardeado pela propagandística de guerra em qualquer lugar, não constitui estranheza que um festival que se diga popular seja tomado pelas marcas patrocinadoras, que só não estão fisicamente no corpo fabricado dos bovinos, mas que estão lá, de qualquer forma. Assim como o boi (o animal), é visto pelo açougueiro a partir da sua divisão comercial (os diversos tipos de carne), o boi folclórico é também multi-fatiado pelas marcas patrocinantes. E quem engorda são elas.

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Muda o trânsito da cidade: no lugar dos raríssimos acidentes motociclísticos, a imprudência e o risco à integridade física dos transeuntes toma conta das ruas. Nesse quesito, uma ilustração, trazida por uma moradora local: o vereador por Manaus, Arlindo Jr, desfilava ontem à tarde pela Avenida Amazonas – uma das principais vias da cidade – em alta velocidade e sem capacete. Talvez na ânsia de recolher os últimos resquícios da fama de cantor do boi azul, ele esquecia que, enquanto vereador e legislador, feria com seu ato o Código Brasileiro de Trânsito.

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Outro observador, um artesão, percebeu que a organização do festival privilegia as grandes empresas na divisão do bolo dos lucros obtidos com a festa. Segundo ele, a concentração das festividades bovinas no bumbódromo constitui duas violências sociais: uma com a população, que fica alijada da sua manifestação cultural, totalmente voltada para o turista estrangeiro. A outra, econômica. Para ele, o investimento no comerciante local, oferecendo-lhe capacitação profissional e estrutura, e ao mesmo tempo a descentralização das atividades festivas, distribuindo-as em várias áreas da cidade, possibilitaria uma maior circulação dos turistas, beneficiando uma fatia maior do comércio, e por sua vez, da população. “Confinar os bois e a estrutura do festival em uma arena, como está sendo feito aqui, é ruim para a cidade. Quem fica com os lucros? A Coca-Cola, a Bandeirantes, empresas que não são daqui e não investem no povo daqui”, afirmou o artesão.

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Independente do olhar predatório do capital, através de seus agentes, o talento para o artifício e para a criação artística do parintinense é visível. Seja nos carros alegóricos, seja no artesanato ofertado nas barraquinhas da feira da Praça dos Bois, a beleza e o rigor técnico das peças é de deixar joalheiro estrangeiro com beicinho e mágoa no coração. É a resistência do povo, que continua a produzir a riqueza, mesmo que o ressentimento do capital insista em devorá-las inutilmente, na sua ordem tanatológica e decadente. O trabalho vivo do artesão parintinense alimenta o trabalho morto das trademarks que circulam pela cidade nos três dias e meio de festival.

POLIDIZERES

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O grande inimigo do capitalista é também o seu maior objetivo: o mercado consumidor. É preciso dar um mínimo de condições de subsistência para que as pessoas possam consumir, e assim, constituir um mercado consumidor para os produtos que o capitalista oferece. O problema é que, tendo este mínimo de condições, as pessoas mostram que não se reduzem a consumidores passivos, e começam a produzir elas mesmas aquilo de que precisam, eliminando a dependência do capitalista.

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Ferver em um único dia em um simulacro de liberdade ou luta diária com expressão homoafetiva? (Sobre a Parada Gay de São Paulo, por @Guttto).

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– Não tem nada que doa mais a um pai do que um filho que o decepcionou.

– Não, velho. Não há nada mais triste que um pai que sofre por ter fracassado em dominar a vida dos filhos.

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Os antigos cultivavam a terra diariamente, na labuta pelo alimento. Mas escolhiam um dia especial para celebrar e conviver, dando vivas à fartura que era fruto do trabalho cotidiano.

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Quem é mais perigoso: um faminto com uma arma na mão, ou um candidato de direita em queda livre nas pesquisas eleitorais?

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Na matemática do transporte coletivo, os fatores eleição e popularidade pesam; daí Amazonino ter, numa jogada eleitoral, ter “baixado” a passagem de 2,25 para 2,10, depois de aumentar de 2,00 para 2,25. Agora, sem pretensões em 2010, colocou a passagem volta a 2,25. Somente o elemento principal da equação, a planilha de custo das empresas, essa continua sendo o X da questão.