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UM CASO ECOPOLÍTICO EM PARINTINS

Fonte da imagem: http://parintinsemfoco.blogspot.com/2011/01/igreja-de-sao-benetido.html Segundo moradores do São Benedito, em Parintins, Amazonas, foi por ordem expressa do pároco local, Egídio, que duas árvores antigas da praça do bairro, foram arrancadas na tarde desta quinta-feira, dia 30.

As árvores, um buritizeiro e um cajueiro, compunham um agradável espaço de convivência para os moradores das proximidades, que dia sim e outro também, colocavam cadeiras de embalo debaixo, para aproveitar o frescor da praça, à beira do rio Amazonas.

Não se sabe a razão pela qual o padre extrapolou sua autoridade metafísica, cuja jurisdição não ultrapassa o pós-existência, para alterar o espaço vivencial do povo, a praça. Como somos partidários da filosofia nietzscheana, de que se deve lavar muito bem o corpo depois de estar com um sacerdote, e em nossa cidade, é comum a falta d’água nas manhãs de sábado, ficamos impossibilitados de perguntar a ele sobre as (des)razões do ato.

Imaginamos, talvez, que o padre tenha ficado incomodado com a feira hippie que se juntou à sombra das falecidas, na quadra do festival dos bois Coca-Cola. Ou quem sabe vozes do além sussurraram em seus ouvidos que o povo se embalava enquanto cometia pecados, ou pior, que o povo ali conversava e expiava suas faltas, dialogando uns com os outros, sem necessitar da preciosa mediação da igreja, estabelecendo relação direta com Deus. Vade retro!

Porém, são imaginações. O real, não sabemos, e não queremos cometer injustiças com o padre, afinal de contas, injustiça é território da miséria humana, coisa que a igreja conhece melhor que nós.

De qualquer forma, o povo não gostou. Cartazes acusando o padre de ser antiecológico amanheceram junto aos galhos arrancados e amontoados na calçada. Gente que passava tirava fotos (nós não tiramos, por incompetência mesmo) da manifestação, que pedia a cabeça do padre. Ele, por certo, não esperava a revolta do seu rebanho, afinal de contas, quem faz parte de uma instituição que tenta, há dois mil anos, controlar as produções biopolíticas do corpo, não espera que se incomodem com duas árvores.

Mas o fato é que o padre se arvorou, ao desarvorar a praça, que afinal de contas, é do povo, como o céu é dos pássaros, e não de Deus. Interferência política da igreja nas coisas do mundo. De novo e quase sempre, aliás.

(Em tempo: àqueles que crêem na igreja ou na representação ocidental de Deus, saiba que não cometemos pecado algum ao dizer que o céu é dos pássaros, e não de Deus. É que Deus É os pássaros, o céu, as árvores, a própria vida, todos nós. Até o padre, ainda que sua existência o negue).

Quem nos dera a revolta do povo ultrapassasse a rebeldia e a compaixão pelo cajueiro e buritizeiro, e se materializasse numa negação do controle sobre o corpo e sobre o espaço público. Que libertasse o negro Benedito do jugo do Papa, e o permitisse ser quem ele é, o arauto da alegria democrática. Que, em lugar de pedir outro padre, o povo reinvidicasse a autonomia da praça, e a transformasse em espaço de vida. O Reino de Deus na Terra.

Aí sim, a ecopolítica iria surgir novamente na terra dos Parintintins.