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MUITO ALÉM DO CARTÃO POSTAL

Alice atravéz do espelho

Aconteceu em 2003 uma inusitada mostra de fotografia na cidade. Era Ernesto Baldan, fotógrafo de moda olhando para a periferia e tentando entender o que era aquele reboliço que viria a ser chamado de “a nova classe média” anos mais tarde. Incompreendida até hoje, essa nova emergência de modos, costumes e códigos propõe uma cultura que nunca foi exibida na TV. Pelo menos até a chegada das UPPs. Depois disso, a relação entre a mídia e a população se tornou menos hierarqueizada, consequência direta da internet 2.0 acessada a partir de lan houses. Estou falando de internet via cabo, não aquele wireless de pub inglês ou do café frances. Falo de um rapaz que pode escolher entre soltar pipa na laje ou pagar para acessar a rede mundial por uma hora, gastando em média R$ 3,00.

O outro aspecto da exposição que é preciso destacar além do objeto retratado foi o local de exposição e o público-alvo. Ao contrário de Sebastião Salgado que lança seus ensaios em edições de luxo, com capa dura e faz tiragens ampliações em número limitado, Ernesto Baldan preferiu expor nos shopping centers da periferia carioca. E vendeu o catálogo com 60 fotos por R$ 5,00 quase o mesmo valor de uma hora de lan house. E sabe qual era o nome da exposição? “Sem Vergonha”.


Texto de abertura do livro

Na bela exposição de fotografias de Thomaz Farkas, organizada recentemente pelo Instituto Moreira Salles, o espectador tinha a oportunidade de observar imagens de brasília em dois períodos históricos bem distintos: na época de sua construção e quase nos dias de hoje. Fiquei me perguntando se quem via as fotos dos anos 50 na época em que foram reveladas, tinha a mesma sensação ao me deparar com as imagens atuais. Thomaz Farkas me mostrava a beleza de objetos prosaicos de nosso cotidiano, aqueles que nunca consideramos belos.

Ficou na minha memória uma foto onde essas mesas de metal, comum nos bares mais populares, pintadas com as marcas de cerveja ou refrigerante, ocupava local de destaque. As mesas dos bares dos anos 50, olhadas com o distanciamento histórico das décadas que se passaram não envergonhasm mais ninguém. Pelo contrário, ganham a nobreza que o tempo dá para qual não existe mais. Mas a mesa de hoje, a que nossas “classes populares” usam todos os dias, parece agredir toda nossa noção de bom gosto, mesmo quando compõe fotos de enquadramento impecável.


Somos ensinados a ter vergonha diante de tudo que aparece e se torna popular, demasiadamente popular, agora, em “nossa” época. Depois tudo muda de figura: a música que é considerada brega, quando vira objeto de nostalgia, passa a ter uma aura de coisa “fina” ou “chique”. Foi isso, por exemplo, que aconteceu com a produção da Motown, que nos anos 60 era tratada como lixo por críticos e policiais do bom gosto, e hoje é item obrigatório em qualquer coleção de discos sofisticada. A passagem do tempo, incluindo o afastamento entre o gosto popular e aquela manifestação cultural, faz com que um trabalho de “descontaminação” nos símbolos, facilitando sua acessibilidade.

Outro exemplo de outra área: a nova arquitetura do Centro do Rio, no início do século XX, dava calafrios em críticos que defendiam o bom gosto contra as cópias cafonas de edifícios franceses, na mesma medida que hoje vemos tanta gente ter vertigens de horror, piedade e vergonha ao passar pela Avenida das Américas, na Barra da Tijuca. Mas hoje o Centro ganhou a pátina da credibilidade daquilo que já passou e todo mundo acha que a Cinelãndia vai ser sempre muito mais bela que ou interessante arquitetônicamente, que aquele encontro entre a Av. Das Américas com a Av. Airton Senna. Daqui a cem anos, quando uma outra Barra cair nas graças do gosto popular e “arrivista”, provavelmente as pessoas passaraão pelas ruínas di GameWorks e suspirarão com saudades de um tempo onde tudo era mais “digno”.
Esses suspiros são fáceis. O difícil é olhar para que é popular agora e afirmá-lo na sua complexidade e – porque não? – beleza, sem nenhuma vergonha. Não estou falando de um olhar irônico, que aceita tudo com um pé atrás, em território defendido por uma postura de quem na verdade acha que a vida toda é uma lástima. Estou falando de outra coisa: de uma aceitação trágica da vida, como ela acontece já não existe mais, ou num mundo perfeitinho (e tão chique e chato como um restaurante de decorador wallpaper), que nunca vai ser nosso mundo ( ainda bem, pois viver nesse mundo do bom gosto oficial seria morrer de tédio). Foi isso que eu aprendi vendo as fotos de Thomaz Farkas: tenho que gostar dessa mesa de ferro agora, antes que ela vire artigo hype e perca todo o seu encanto.

Nada mais fácil do que gostar da Jovem Guarda hoje. É um estilo tão “divertido”, não é? Mas mesmo Caetano Veloso precisou da bronca da Maria Bethânia – que lhe dizia: “vocês ficam com esse papo furado aí e o que interessa mesmo é o Roberto Carlos. Vocês já viram o programa da Jovem Guarda na televisão? É genial, Roberto Carlos é quem tá com tudo. Tem força, não é essa coisa furada aí.” – para prestar atenção naquilo que estava acontecendo, e que o bom-gosto de então classificava como lastimável. Essa atenção para a Jovem Guarda foi um elemento importantíssimo para a explosão do Tropicalismo.

Tente fazer a mesma coisa com as jovens-guardas de hoje. Tente dizer para os amigos que você gosta sinceramente de pagode com sintetizador, de axé music ou do Bonde do Tigrão. Tente colocar essas músicas na trilha sonora de um desfile da Sã Paulo Fashion Week. Pode colocar Abba, pode colocar até Korn, mas tocar o que é realmente popular e o que está perto da gente, sem truques distanciadores (seria fácil pinçar esses elementos e colocá-los numa moldura de editorial de moda, estilo revista “Dutch” – isso é ir no certo para agradar gringo que quer consumir nosso “exotismo”, isso é fazer macumba para turistas pós-modernos), para tocar isso é preciso ter muita coragem, é preciso ser muito sem-vergonha.


Por isso gostei tanto de ver o livro “Meninas do Brasil, de mari Stoker. Dá para perceber que ela gosta das roupas que as meninas do funk inventaram. Gosta, não como um artigo assim… “antropologicamente interessante”. Gosta mesmo! E vê naquele estilo algo tão criativo como uma desconstrução belga ou austríaca assinada por estilistas que a garotada favelada e suburbana brasileira desconhece e nunca vai ter dinheiro para vestir ( o que é uma pena – acho sim, que deveriam conhecer e poder usar roupas dessas grifes –imagine o pessoal dançando no baile funk com toda a coleção da Ann Demeulemeester – tudo bem, sei que ela não frequenta mais a lista das 100 pessoas mais poderosas da moda da “Face”, mas quem se importa com a “Face”?- ou com Dior Homme de Hedi Slimane!). O bom é que mesmo assim essas meninas dão aula de modernidade e independência para as grifes brasileiras que não fazem nada sem folhear as páginas de todas as revistas importadas que chagaram no mês passado na Letras & Expressões.

Por isso também gosto das experiências fotográficas de Ernesto Baldan, que andam sempre na contramão o bom-gostismo clean e correm todos os riscos, sem nenhuma vergonha de olhar de frente para o que acontece agora nas ruas brasileiras, para o que o povo gosta de ter inventado, povo que encara tudo como uma grande brincadeira (uso brincadeira pois ete é o termo que foliões de boi-bumbá, reisado, congada e outros “folclores” usam para se referir às suas festas – festas que eu e Ernesto documentamos no livro “Música do Brasil”), diante da qual só quem tem a cabeça envergonhada pode não achar graça (falo de graça não apenas no sentido de bom humor, mas graça como dádiva elegante, salvação quase divina).

Voltando ao baile funk, meu exmplo-para-tudo preferido desde os anos 80 e território amado pelo Ernesto: o desgoverno da apropriação das marcas de surf, junto com a calça da gang, oc centímetros de lycra deixando a barriga de fora, as microsaias, o descaso para com os mandamentos da indrumentária hip-hop, o físico malhado em academias da favela, a reinterpretação de tudo que é usado na novela ou no show da Sandy, ou de tudo que aparece na capa da “Caras”: essa é uma brincadeira da pesada, feita com ar de quem não quer nada, mas que acaba criando muito daquilo que mais interessante aparece na moda urbana.

Do lado positivo, mas muito próximo: preste atenção numa patricinha emergente da Barra. A ousadia e o descompromisso com as “referências” são completos e geram um barroquismo-fashion-pop de calibre poderoso ( o mesmo calibre que pode ser encontrado numa tarde de compras da Daslu, com aquela exuberante mistura de grifes caras, compradas – felizmente sem nenhum critério – por mulheres também graciosamente desgovernadas).


O mais bacana é que Ernesto não se contenta em registrar o que encontra nas ruas, nem tem a menor intenção de ser fiel à “realidade”. A rua é uma deixa, um impulso, e passa a “funcionar” no regime da imaginação e das obssessões do fotógrafo. Ernesto sabe que a brincadeira das ruas pede mais brincadeira, brincadeira ao quadrado, que possa voltar para a rua e cair na brincadeira novamente, criando outras maneiras de brincar – para quem entra na roda, só brinca bem, com pressão, quem não tem vergonha mesmo de mudar a brincadeira, até mesmo de introduzir elementos novos na brincadeira, gerando novos estilos brincantes para o mundo.


Ernesto sabe também que, no final das contas, não é preciso ter vergonha nenhuma da nova cultura de rua brasileira, e sobretudo não é preciso esperar o tempo ou um gringo qualquer vir nos dizer que essa cutura é cool. Ou – pra dizer logo tudo, de supetão, e no desabafo: não é preciso ter nenhuma vergonha do Brasil; nem da maneira espalhafatosa como usamos – sem nenhuma cerimônia – as informações que nos chegam do resto do mundo; nem de ter um presidente que não sabe falar inglês; nem de não ter a roupa que os ditadores da moda dizem que está na moda; nem de viver num país que tem uma economia popular que nunca se comporta como os “grandes investidores” gostariam que ela se comportasse; nem de inventar novas boas maneiras (que sempre inventamos) para o resto do mundo – mesmo quando o mundo raramente toma consciência de nossas invenções.


E ter asco,  de uma elite que macaqueia as cansadas novas tendências de “láfora” (inclusive as bobagens inventadas em MBAs de segunda, ou em congressos multiculturalistas de terceira, ou na Prada e nas cópias da Pradam ou no clube da ex-última-moda-pop de Williamsburg, ou um seminário anti-moda da aristocracia intelectual européia que sonha com um mundo pré-pop…), imitando tudo, timtim por tim tim, sem nenhum senso crítico, sempre querendo não ter nascido aqui (e querendo transformar isso aqui num simulacro ridículo de um primeiro mundo “fino”) e perpetuando assim a miséria – nunca cultural – da maioria da nossa população, que deveria – na vontade da elite – ter sempre vergonha de ser quem ela é, de se divertir da maneira que se diverte, de usar as roupas que usa, de gostar de comida a quilo (quando tem dinheiro pra tal) – a verdadeira fusion cuisine!, e tantas outras “manias” que irritam tanta gente “bem nascida”. Ainda bem que as palavras pseudo-civilizatórias dessa elite triste não são levada a sério pelo povo brasileiro, que continua não sentindo nada dessa vergonha que tentam lhe impor como condição humana. Pelo contrário: o povo brasileiro produz o tempo todo uma cultura sem vergonha de ser o que é, e de dizer o que quer ser, aqui e agora – inventando assim, cotidianamente, os atalhos para sua libertação.

Hermano Vianna – Antropólogo

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PEQUENA SEMIOLOGIA DA PROPAGANDA ELEITORAL DE OMAR

 

A foto é do Blog da Floresta:

Quando a imagem nega o texto, é isso que acontece. O Avança Amazonas carrega o ranço desenvolvimentista do tempo da ditadura, onde confundia-se desenvolvimento econômico e social com obreirismo gratuito. Esquecendo que uma obra não significa desenvolvimento em si, mas só funciona nesse sentido quando está engendrada numa práxis de movimento produtivo dos habitantes da cidade. O PAC, no Amazonas, graças ao orgulhoso governo estadual, empacou.

O rosto dos candidatos, no entanto – e aí, Dilma inadvertidamente envolvida, já que claramente apóia outro candidato que não o do governador – mostram a realidade do estado do Amazonas.

Omar, desgastado, desgostado, cansado, triste, desesperado, a imagem do desânimo.

Braga expressa o terror de quem aponta a um inimigo ou uma ameaça terrível, vindo à frente.

No rosto, não a característica psicológica, mas os signos daquilo que eles produziram  para si enquanto realidade: a falseação da política como a negação da vida.

Provavelmente o que os desgosta, sem que eles próprios saibam, é o quadro político-eleitoral que eles mesmos pintaram para o Amazonas.

CURTINHAS PÓS-BOVINAGEM NA PARINTINS DAS TRADEMARKS

Às vésperas da divulgação do resultado do vencedor da disputa entre os siameses bovinos, ocorreu o de sempre: brigas, acusações, vale tudo em busca do simulacro da vitória.

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O Secretário de Cultura (sic), Robério Braga, sempre muito próximo aos conceitos de cultura reificada pelo capital, acusou um boi de pajear e mimar os jurados, a fim de receber seus favores na hora das notas. Evidência de que os bois, suas diretorias, organizadores e parte das torcidas entraram de cabeça na ordem decadente da moral. Não basta vencer, tem que vencer e aniquilar o inimigo. Daí os bovinopatas afirmarem Sartre, sem o querer: o inferno são os outros. E, nesse caso, o outro é o meu igual. Os bois são siameses no quesito improdutividade e trabalho morto, absorvido pelo capital.

MUUUUUUUUUUU

Ao turista mais atento, já cotidianamente bombardeado pela propagandística de guerra em qualquer lugar, não constitui estranheza que um festival que se diga popular seja tomado pelas marcas patrocinadoras, que só não estão fisicamente no corpo fabricado dos bovinos, mas que estão lá, de qualquer forma. Assim como o boi (o animal), é visto pelo açougueiro a partir da sua divisão comercial (os diversos tipos de carne), o boi folclórico é também multi-fatiado pelas marcas patrocinantes. E quem engorda são elas.

MUUUUUUUUUUU

Muda o trânsito da cidade: no lugar dos raríssimos acidentes motociclísticos, a imprudência e o risco à integridade física dos transeuntes toma conta das ruas. Nesse quesito, uma ilustração, trazida por uma moradora local: o vereador por Manaus, Arlindo Jr, desfilava ontem à tarde pela Avenida Amazonas – uma das principais vias da cidade – em alta velocidade e sem capacete. Talvez na ânsia de recolher os últimos resquícios da fama de cantor do boi azul, ele esquecia que, enquanto vereador e legislador, feria com seu ato o Código Brasileiro de Trânsito.

MUUUUUUUUUUU

Outro observador, um artesão, percebeu que a organização do festival privilegia as grandes empresas na divisão do bolo dos lucros obtidos com a festa. Segundo ele, a concentração das festividades bovinas no bumbódromo constitui duas violências sociais: uma com a população, que fica alijada da sua manifestação cultural, totalmente voltada para o turista estrangeiro. A outra, econômica. Para ele, o investimento no comerciante local, oferecendo-lhe capacitação profissional e estrutura, e ao mesmo tempo a descentralização das atividades festivas, distribuindo-as em várias áreas da cidade, possibilitaria uma maior circulação dos turistas, beneficiando uma fatia maior do comércio, e por sua vez, da população. “Confinar os bois e a estrutura do festival em uma arena, como está sendo feito aqui, é ruim para a cidade. Quem fica com os lucros? A Coca-Cola, a Bandeirantes, empresas que não são daqui e não investem no povo daqui”, afirmou o artesão.

MUUUUUUUUUUU

Independente do olhar predatório do capital, através de seus agentes, o talento para o artifício e para a criação artística do parintinense é visível. Seja nos carros alegóricos, seja no artesanato ofertado nas barraquinhas da feira da Praça dos Bois, a beleza e o rigor técnico das peças é de deixar joalheiro estrangeiro com beicinho e mágoa no coração. É a resistência do povo, que continua a produzir a riqueza, mesmo que o ressentimento do capital insista em devorá-las inutilmente, na sua ordem tanatológica e decadente. O trabalho vivo do artesão parintinense alimenta o trabalho morto das trademarks que circulam pela cidade nos três dias e meio de festival.

A INFORMÁTICA DE AMAZONINO ESQUECE O REAL

 

Manaus, na prefeitura de Amazonino, é planejada assim

Amazonino não é prefeito. Nem de fato, nem de direito. Mas acredita que ocupa a cadeira da sede da Compensa. Não cumpriu, como de praxe nos últimos 30 anos, as promessas de campanha. Agora, dois anos depois de ocupar a cadeira, simula uma outra Manaus, toda feita em computação gráfica. De real, nada. Sinal de que está, ao menos neste campo, razoavelmente assessorado, já que na campanha de 2004 sequer sabia diferenciar inclusão de impressão digital. Do que sobra de seus projetos mirabolantes, que incluem um aquário, um forte apache para as crianças, um choque de ordem nos camelôs e no trânsito, de ruas asfaltadas, de um transporte eficiente e informaticamente monitorado, é a Manaus real, aquela que não cabe no hiperreal da política simulada do Amazonas, com seus amazoninos, bragas, omares, alfredos, dentre muitos. O problema, para eles, é que o povo sabe que a realidade é outra.

DE OUTRAS INFORMATICIDADES…

Enquanto Amazonino delira em CGI e trilha sonora hollywoodiana uma Manaus impossível, o MPE dorme em berço esplêndido e não vê a inconstitucionalidade na gestão municipal. Faz mais de um mês, Amazonino personalizou o logotipo da prefeitura, com direito a trabalho informático de professor do IFAM, e um slogan que chega a ser involuntariamente sarcástico. Como de praxe, Amazonino incorre (como de resto, praticamente todos os governantes municipais e estaduais, à exceção de Serafim, que usou o brasão da cidade) em personalizar aquilo que, segundo a Constituição Federal, deve ser impessoal. Será que na procuradoria-geral do MPE não tem internet?

A TRANSPARÊNCIA DA PREFEITURA

No transparecer da Manaus CGI de Amazonino, o olhar se dissolve na banalidade da imagem. Na cascata imagética, a hipnose da alta tecnologia não transforma o inexistente em real, mas em crível. Ao menos para aqueles cujo aparelho cognitivo já foi sobrecodificado pela lógica da transparência. No entanto, e frontalmente contrário, é na ausência da imagem, no silêncio comunicacional, que o real aparece em toda a sua opacidade.

É que mesmo com toda a parafernália infotécnica que a prefeitura dispõe, para fazer logotipos publicitários e cidades em realidade virtual, não foi capaz de se adequar a tempo de cumprir a Lei da Transparência. A Lei Complementar 131/2009 prevê a divulgação diária dos gastos da União, Estados, e municípios com mais de 100 mil habitantes, e foi promulgada em maio de 2009. O prazo para adequação encerra-se hoje, e tudo indica que a prefeitura transparente de Amazonino não o fez.

Quando o uso das teletecnologias tem como objetivo atualizar no real elementos de ordem do empoderamento da democracia, a prefeitura de Manaus falha; mas tem se mostrado expert no uso obnubilante dessas tecnologias, a serviço da estupidificação de si mesma.

Muito Além do Cartão Postal – Nova coluna do PolivoCidade!

O Rio é uma cidade de cidades misturadas *

Como diz um grande amigo meu, tudo é política. Desde a hora que você acorda até a hora de dormir. Então quero começar meu diálogo entre as regiões Sudeste-Norte mostrando o ponto de vista que vou adotar ao escrever sobre a minha cidade. O Rio de Janeiro que fica atrás da montanha, que passou pelo túnel, que se afastou da praia, mas continua sendo carioca como o resto da cidade.

Hoje, comemoramos o aniversário de 455 anos. E para essa festa estão planejados muitos shows em palcos espalhados por todos os cantos. Um inclusive na Cidade de Deus, uma favela conhecida internacionalmente. Aí eu pergunto, se até a favela, que ninguém sabe ao certo onde fica é conhecida em todo o país, porque não mostrar a Zona Norte?

O que a Globo não conta no Jornal Nacional sobre o Rio, eu vou falar aqui. E para começo de conversa, vamos logo desmistificando essa falsa impressão de que todo carioca que trabalha na televisão nasceu de frente pro mar. Esse vídeo apesar de ser uma propaganda feita para um shopping center, mostra que há uma cidade que fica na sombra do Cristo e que quase não aparece, mas é de lá que saem os maiores talentos que conhecemos.

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* – Muito Além do Cartão Postal é onde o olhar ultrapassa a imagem para transformar o pensamento em intensidades, criando outras afecções. Diretamente de um Rio que você não vê na teletela, sempre aqui pelo PolivoCidade.

Revista Americana no Brasil, autocensurada, acusa Governo de Censura em Golpe de Marketing

O princípio funcional da censura é o de que a melhor maneira de impedir o acesso a um objeto não é criando barreiras a ele, mas sim fazendo com que as pessoas não saibam de sua existência ou que não possam aprender como usá-lo.

Assim, a censura atinge um patamar cognitivo. Não que não o alcançasse antes, mas na chamada “sociedade da informação”, onde nada mais fica sob o manto da obscuridade, o excesso de luz parece impedir que se possa usufruir livremente destes conhecimentos.

Assim, por exemplo, o próprio uso da palavra censura pode indicar que o censurado é exatamente quem acusa.

Editores da versão norte-americana da revista MAD, que segue a linha do humor besteirol importado dos EUA, e seguido à risca pelo humor decadente Globo, Pânico, CQC, MTV, dentre muitos, divulgaram nessa semana um caso entendido por eles como censura vinda do governo federal a uma capa da revista, que trazia o rosto da candidata à presidente, Dilma Rousseff, numa montagem com personagens da revista e do filme Avatar.

Com forte cheiro de golpe de marketing, o texto no blog da revista fazia alusão a uma censura imposta à capa, porém sem explicitar o caso e sem citar os autores da intromissão editorial.

Caso que fez os também censurados Roger Moreira (Ultraje a Rigor), Ary França (ator) (sic), Rafael Cortez (Humorista) propalarem nas suas respectivas contas de twitter um verdadeiro manifesto contra o governo. Outro humorista, que já havia gritado ser censurado quando fez uma pretensa piada de cunho racista e de preconceito de classe, Danilo Gentili, também defendeu a revista.

QUEM CENSURA OS CENSURADOS?

No entanto, os censurados não contavam com a militância da inteligência que circula pelas redes sociais. Logo as pressões para que se revelassem os verdadeiros censores fizeram com que a editora Panini, que publica, a MAD, se manifestasse oficialmente, através de assessoria de imprensa, informando:

"A Panini esclarece que, com relação à questão da capa da edição 23 da revista MAD, as decisões sobre a publicação das capas fazem parte de processos internos da empresa, não se tratando de qualquer tipo de censura ou veto."

Ou seja, tratou-se de um caso frustrado de marketing viral promovido pelos editores da revista, que pretendiam pegar carona na disputa pré-eleitoral e arrebanhar o côro dos censurados cognitivamente, que sintomaticamente lêem a revista e comungam dos valores, códigos e enunciacões da direita reativa.

CURTAS SOBRE O CASO E SUAS RAMIFICAÇÕES

  • O filósofo e linguísta Mikhail Bakhtin afirma o uso da palavra a partir de um pressuposto ético. Sua significação e aplicação dentro do contexto da pragmática (o uso cotidiano da língua) estão inapelavelmente ligados a uma intencionalidade existencial. Neste sentido, o uso da palavra censura denota a limitação existencial e epistemológica dos editores da revista, que trabalham com os mesmos códigos que tentaram censurar a liberdade de expressão na ditadura militar dos anos 60 e 70. Neste sentido, a MAD não se diferencia de Veja, Istoé, Folha de São Paulo, Estadão, Globo, dentre muitos.
  • Trata-se também de estratégia de guerrilha da informação, no sentido que o filósofo Paul Virilo atribui à palavra decepção, como antônimo de percepção. Há toda uma celeuma fabricada em torno de uma versão fantasiada do fato, que não corresponde proporcionalmente à versão que esclarece a situação. Assim, para o leitor/eleitor cuja percepção segue a lógica e a velocidade da cascata de imagens da propaganda, prevalece o fugaz, o fugidio, e não o aspecto analítico da questão. Ou pelo menos é o que pensam eles.
  • A rigidez do humor decadente que a revista traz, na sua programação normal já evidencia forte conteúdo de autocensura, uma vez que não trabalha com o enfraquecimento de uma subjetividade serialista e normatista, mas apenas reforça estes códigos e valores, através do reforçamento dos clichês e discriminações cotidianas. Na sociedade pós-censura militar, quando aos autocensurados já não encontram o que dizer, resta o desespero de causa. O que o nada censurado, músico e filósofo do humor, Tom Zé, resumiu num verso: “Socorro! A Censura Acabou!”

POLIDIZERES

ENUNCIAÇÕES MENORES DE UMA POLÍTICA – QUASE SEMPRE – MAIOR

Quem acompanha anúncios de emprego em Manaus tem percebido que muitos deles vem com a indicação do bairro onde a empresa funciona, ou por outra, indicando que dá preferência a moradores de bairros ou proximidades tal ou qual (o que é proibido por lei). Um olhar desatento poderia mostrar uma metrópole pujante, que cresce tanto que obriga as empresas a adequarem suas contratações para as proximidades geográficas. Ledo engano: do centro à cidade nova, por exemplo, sem trânsito pesado, leva-se pouco mais de vinte minutos. A situação que tem gerado esse pormenor no mercado de ofertas de emprego é a falta de transporte coletivo eficiente e minimamente funcional.

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O escritor indo-bretão George Orwell, no seu livro 1984 mostra como governos totalitários, independente de como se denominam ideologicamente, usam a linguagem como forma de censura e interdição à inteligência. Lá, o Ministério da Paz cuidava da guerra, o da Verdade, de falsificar a informação e a própria história. O do Amor, de usar a tortura para garantir fidelidade irracional ao Grande Irmão. Assim, no Brasil, o Instituto Millenium, formado pela nata da inteligentsia à direita, que conta com ilustres do naipe de Roberto Civita (Abril), Hélio Costa (Globo), Marcel Granier (RCTV, a tv do golpe na Venezuela), Demétrio Magnoli, Denis Rosenfield (ambos do estadão), Arnaldo Jabor (Globo), Carlos Alberto Di Franco (Opus Dei), Marcelo Madureira (Globo), Reinaldo Azevedo (Veja), Roberto Romano (filósofo – sic!), Fernando Gabeira (DEM/PSDB/PV), Miro Teixeira (PMDB), Roberto Marinho (Globo), Gerdau, Washington Olivetto, Pedro Bial (BBB), além do Instituto Liberal e o Movimento Endireita Brasil (!), promove um fórum cujo título é Democracia e Liberdade de Expressão. Detalhe: nenhum deles participou da I Confecom., e o ingresso para o rega-bofes que se autodenomina “uma noite no primeiro mundo” custa 500 reais. Democracia e Liberdade, é isso aí.

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Riquelme, o craque deprimido, disse que só retorna à seleção albiceleste se Maradona sair. A imprensa, ressentida porque quis o mal de Maradona mais do que o sucesso da seleção, enche a boca do atleta do Boca de microfones, o insta a falar, e ele não decepciona. Decadência de um país que esqueceu que foram os brios da geração de Dieguito que venceram e elevaram a Argentina ao olimpo do futebol, coisa que faltou à geração de Riquelme, que não faturou nem Copa América. Se Maradona perde, rangem os dentes magoados, e cai o mundo. Não o dele, que sabe que a bola não se mancha, e que fútbol é fútbol, e a vida é a vida. Porque Maradona sabe que a vida é uma bola, que se vive na planta dos pés. Agora, o que acontece à desbocada imprensa argentina (e brasileira, também!), e ao craque lorazepam, se os muchachos de Dieguito levantarem o caneco n’África?

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Costume comum na política profissional, a dos partidos, principalmente em tempos de marketologia, o de valorizar obras. O que o povo, na sua sabedoria irônica, traduz com o dizer: “Filho bonito, todo mundo quer ser pai”. O viaduto do Coroado, na zona leste de Manaus, quando foi inaugurado pelo atual prefeito (?) Amazonino, causou celeuma nas hostes serafinistas, que queriam para si parte do mérito pelo empreendimento. Chegaram a propor indiretamente que os louros fossem divididos. No dia seguinte, o infante mostrou a que veio: acidentes, falta de sinalização, engarrafamentos que não acabaram, e uma sensação de que o resultado geral não valeu o investimento e o transtorno. Mais ainda quando um jornal mostrou que os velhos ônibus articulados não estão conseguindo subir a ladeira do viaduto, fazendo com que os passageiros tenham que descer do coletivo para que ele possa, enfim, alcançar o topo. Ou o problema é do viaduto, planejado (e realizado em parte) por Serafim e terminado por Amazonino, ou das empresas de transporte, que detêm a concessão desde Amazonino, referendadas através da Transmanaus por Serafim, que realizou licitação condenada pela justiça, mas que a atual gestão não desfez. Fica a pergunta para os pais: quem vai trocar a fralda do bebê? Oh, mamãe Manaus…