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Para começar a semana: Flora de ednardo

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MASSAFEIRA E LANÇAMENTO DO LIVRO DE EDNARDO

Foto retirada do portal IG

Retirado do Blog MÚSICA DO CEARÁ

(por Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura)

“Ednardo saiu do Ceará, mas o Ceará não saiu de Ednardo. Compositor e cantor do célebre cordel musical “Pavão Mysteriozo” (1974), ele mora no Rio e fará show neste sábado (dia 13) em São Paulo, no Sesc Belenzinho. O trabalho atual, no entanto, é uma homenagem emocionada e emocionante ao passado, ao presente e ao futuro da música popular cearense.

O show de sábado (já com ingressos esgotados) marca a reedição em CD do antológico – mas pouco conhecido – disco duplo coletivo “Massafeira”, lançado originalmente em 1980. Marca, também, o advento do luxuoso livro histórico “Massafeira 30 Anos – Som-Imagem-Movimento-Gente”, organizado por Ednardo e publicado por sua própria editora, Aura.

O show coletivo “Massafeira”, apresentado em março de 1979 no Theatro José de Alencar, em Fortaleza, guarda semelhanças com o que foi o Clube da Esquina de 1972 para os mineiros, o movimento tropicalista de 1968 para os baianos, a Semana de Arte Moderna de 1922 para os paulistas ou o movimento poético Padaria Espiritual (convertido em música homônima por Ednardo, em 1976) para os cearenses do final do século 19.

Na Fortaleza de 1979 se reuniram, para um único evento plural, fazedores de música, cinema, artes plásticas, teatro, poesia, fotografia, artesanato etc. O show original foi assistido pela diretoria da então gravadora do artista, a CBS (hoje Sony), que gostou do que viu e decidiu produzir um disco com alguns dos cerca de 300 artistas reunidos no evento gerador. Foi um processo acidentado.

A gravação foi feita, com cerca de cem músicos transferidos para o Rio para as sessoes. Constam entre as 24 canções do disco trabalhos de Ednardo, Belchior, Fagner, do poeta Patativa do Assaré e de dezenas de nomes que o resto do Brasil pouco conhece, como Brandão, Augusto Pontes, Teti, Rodger Rogério, Fausto Nilo, Clodo, Angela Linhares, Ricardo Bezerra, Rogério e Régis, Vicente Lopes, Lúcio Ricardo, Stélio Valle, Chico Pio, Ferreirinha, Graco, Caio Sílvio, Lopes, Wagner Costa, Sérgio Pinheiro, Alano de Freitas, Aninha, Mona Gadelha, Calé, Tania Cabral, Pachelli Jamacaru…

A música cearense era plural, e não era uníssona. Influente na época na CBS, Fagner capitaneou um segundo trabalho coletivo, o belíssimo “Soro” (Orós ao contrário), que foi gravado depois, mas lançado antes do “Massafeira”.

“Soro”, nunca reeditado em CD, saiu no final de 1979, com participações de Fagner, Belchior, Patativa do Assaré, Fausto Nilo, Núbia Lafayette, Geraldo Azevedo, Cirino, Nonato Luís, Abel Silva, Pedro Soler e o poeta Ferreira Gullar. “Massafeira”, por conta de disputas internas dentro da gravadora, ficou engavetado por mais de um ano antes de ir às lojas.

“‘Massafeira’ era mais ousado, e teve respaldo popular gigantesco”, compara hoje Ednardo. “O outro foi de proveta, feito dentro da gravadora.” Ele conta no livro que conseguiu forçar o lançamento ao destinar ao disco coletivo parte da verba que seria destinada ao lançamento de seu disco solo daquele ano.
De certa forma, Ednardo repete hoje a façanha. Diz que o relançamento do álbum duplo, vendido avulso ou encartado no livro, foi viabilizado porque a produção do projeto comemorativo o bancou junto à Sony. “O disco estava esquecido nas gavetas da gravadora. Os caras não encontraram registros discográficos, nem de capa, nada. A gente teve que mandar tudo para eles”, afirma. “O pessoal da direção artística é muito jovem, não tem noção do que aconteceu. Disseram que não sabiam que tinham essa preciosidade.”

Na reedição atual falta uma faixa, “Frio da Serra”, justamente a única de que Fagner participa, cantando ao lado de Ednardo. Não é culpa de Fagner. “É opção da viúva do compositor, Petrúcio Maia, que está movendo uma ação contra o rapaz e contra a gravadora, e desautoriza o lançamento de qualquer coisa de Petrúcio que tenha a voz de Fagner”, explica Ednardo, hoje com 66 anos.

Para o show de sábado, “é impossível trazer todo mundo”, como aponta Ednardo. Ele fará, então, um balanço do próprio trabalho e, por consequência, da alma cearense que sua garganta sempre vocalizou.
Não devem faltar os versos “eu tenho a mão que aperreia, eu tenho sol e areia/ eu sou da América, sul da América, South America/ eu sou a nata do lixo, eu sou o luxo da aldeia, eu sou do Ceará”, de “Terral”, canção-manifesto do que em 1973 se denominou Pessoal do Ceará, grupo e disco centrados nas vozes de Ednardo, Rodger Rogério e Teti.

O show passará por clássicos da MPB, como “Mucuripe” (dele e de Fagner, projetada em 1972 por Elis Regina e em 1975 por Roberto Carlos), “Beira-Mar” e “Ingazeiras” (1973, do Pessoal do Ceará), “Cavalo Ferro” (idem, mas também lançado no mesmo ano por Fagner), “A Palo Seco” (1974, de Belchior), “Artigo 26” e “Berro” (1976) e, claro, “Pavão Mysteriozo”.

Sobre a identidade cearense, ele demarca uma ressalva: “Tenho orgulho da pertença, de ser brasileiro. Quando o pessoal nos coloca o carimbo de compositores cearenses, ou nordestinos, fica parecendo que a gente não é brasileiro, que a gente é de outro planeta”.
Isso talvez diga respeito a tempos como os do Pessoal do Ceará e do “Massafeira”, quando o isolamento de movimentações locais em relação ao eixo Rio-São Paulo era real. Hoje a distância geográfica existe, mas não é impeditiva – que o digam as versões piratas do disco de 1980 espalhadas pela internet, contendo inclusive a faixa interditada pela herdeira de Petrúcio Maia.

“Todos somos cidadãos do mundo, né?”, observa Ednardo, cearense e não-cearense. Somos, e “Massafeira”, graças a um pessoal lá do Ceará, hoje pertence definitivamente ao mundo. “

 

 

HERMETO PASCOAL E A SUBVERSÃO DA LÓGICA DO MERCADO

Aos 75 anos, Hermeto Pascoal diz querer compor “a música livre de adjetivos”

 

Alex Rodrigues e Pedro Peduzzi
Repórteres Agência Brasil

Brasília – Aos 75 anos, o inventivo multi-instrumentista alagoano Hermeto Pascoal diz nunca ter pensado muito no futuro. Certo de que o amanhã chegará, sempre procura viver o presente. Sem pressa ou qualquer outra preocupação, além de cumprir com o que impôs como sua missão: “compor a música livre de adjetivos”. Objetivo que, a julgar pelas homenagens recebidas no seu aniversário, no último dia 22, parece ter atingido.

“Meu desejo é, a cada novo dia, fazer mais músicas. Acho que sempre vão faltar coisas para eu fazer, mas não abro mão da qualidade”, disse o músico à Agência Brasil durante rápida passagem por Brasília, no último dia 25. Embora saiba que “qualidade” não é algo consensual, Hermeto dá pistas do que o levou a receber convites para tocar com artistas como Miles Davis, John Lennon, Tom Jobim, Elis Regina e Roberto Carlos, além de orquestras e músicos de vanguarda mundo afora.

“Na música, o sujeito não pode ter uma balança com defeito [priorizando a quantidade em detrimento da qualidade]. Cada nota tem que ser boa. E eu também não faço nada para agradar o público. O que quero é compor o que me agrade para só então tocar para as pessoas”, comentou o artista, conhecido por fazer música não apenas com qualquer objeto, mas também usando animais como porcos e galinhas.

SUBVERSÃO À LÓGICA – Somados o desprendimento e o desejo de ver sua obra sendo executada, Hermeto acabou por se associar, mesmo que sem muita consciência, ao movimento denominado Cultura Livre, que prega formas de democratizar o acesso à informação e à cultura, furando o bloqueio dos veículos de comunicação de massa a tudo que não seja considerado “rentável” e subvertendo a lógica comercial de gravadoras e rádios.

Em 2009, dez anos após causar polêmica ao declarar em uma entrevista que queria ser “pirateado” para que, assim, sua obra fosse mais bem divulgada no país, Hermeto começou a liberar, para gravações, os direitos sobre 614 músicas já registradas em discos ou CDs. A declaração de licenciamento, hoje disponível no site oficial do artista, é reveladora quanto ao espírito livre do músico: um bilhete escrito a mão e pintado pelo próprio Hermeto, que termina com um “aproveitem bastante”, endereçado aos “músicos do Brasil e do mundo”.

“Minha música é de quem a quer. A ideia é liberar os direitos autorais para dar a quem se interessar a chance de tocar minha obra”, disse o músico, ao ser perguntado sobre o que o levou a tomar tal decisão, estimulado por Aline Morena, a música gaúcha de 32 anos com quem Hermeto vive há dez anos e com quem mantém o duo Chimarrão com Rapadura.

De acordo com Aline, algumas empresas não têm aceitado o singelo documento disponibilizado por Hermeto. “Elas estão exigindo uma autorização burocrática, específica para cada músico. Queríamos desburocratizar as coisas com um modelo geral de autorização disponível no site, mas cada vez que um músico quer gravar algo, temos que enviar uma autorização específica”. Com isso, quem quer regravar uma música e procura a gravadora acaba tendo de pagar pela cessão do direito, enquanto quem recorre diretamente ao artista recebe a permissão de graça.

SEM MEDO DA PIRATARIA – “Se as gravadoras não levam meu trabalho para as rádios, se ele não toca em nenhum lugar, para que eu faço música? Não tive e nem vou ter nenhum retorno financeiro por minha obra, mas meu prazer, minha alegria, continua sendo tocar. Por isso, as minhas músicas eu quero mais é que sejam pirateadas. Quero mais é que as pessoas toquem, ouçam, a conheçam. E, pra mim, quem reclama da pirataria é quem faz música apenas para vender. Meu valor não são as notas [de dinheiro]. São as notas musicais”, assinalou o artista.

Segundo Aline, menos de 300 das mais de 4 mil composições de Hermeto já foram gravadas. Da obra total, 700 já estão à disposição de quem queira. São as 366 cujas partituras foram incluídas no livro Calendário do Som e cerca de outras 300 de sua discografia.

Além dessas, o pianista e arranjador Jovino Santos Neto digitalizou a partitura de 41 obras inéditas e as disponibilizou no site de Hermeto. A proposta era a de que músicos do mundo todo que quisessem homenagear o alagoano tocassem uma música de sua escolha. “Pessoas do mundo inteiro deram retorno. Rádios da Alemanha, gente de todas as partes mandou e-mail“, contou Aline. “E vamos soltar mais coisas. Além do que, continuo compondo”, completou Hermeto.

Edição: João Carlos Rodrigues

Escolas de música precisam estimular a intuição dos alunos, diz músico alagoano

 

PARA COMEÇAR A SEMANA: Werner Herzog e o Brasil

Do Brasil de Fato

Maria do Rosário Caetano

de São Paulo (SP)

Cineastas, quando visitam países “cinematograficamente periféricos” (como o Brasil), costumam citar, sempre que instados pela imprensa, dois ou três filmes da região. E tais citações se fazem acompanhar de pedido de desculpas. Afinal – avisam — “poucos filmes brasileiros circulam pela Europa (ou EUA)”. No caso de Werner Herzog, 68 anos, diretor dos clássicos “Aguirre, a Cólera dos Deuses”, “O Enigma de Kaspar Hauser”, “FitzCarraldo” e “Meu Inimigo Íntimo” tal não acontece. O Brasil, suas paisagens físicas (em especial a Amazônia), seus cineastas e atores e até grandes nomes do futebol fazem parte das vivências herzoguianas.

De passagem por São Paulo, para participar do III Congresso Internacional de Jornalismo Cultural, promovido pela revista Cult e pelo Sesc , Werner Herzog falou com carinho de Glauber Rocha e do Cinema Novo, de Grande Otelo e José Lewgoy (atores que ele dirigiu em seus filmes “FitzCarraldo” e/ou “Cobra Verde”), de Garrincha, “alma alegre na tragédia”, do filme “Macunaíma” e de seu diretor, Joaquim Pedro de Andrade.

Herzog conviveu com Glauber nos EUA, durante um mês, em 1975. A Joaquim Pedro, ele deve o subtítulo de “O Enigma de Kaspar Hauser” (Cada Um Por Si e Deus Contra Todos). Cinco atores brasileiros estiveram com ele em dois de seus mais de 60 filmes. Ruy Guerra interpretou papel importante em “Aguirre” (o aventureiro Dom Pedro Ursua). Ruy Pollanah esteve em “Aguirre” e “FitzCarraldo”. O cantor Milton Nascimento também atuou em “FitzCarraldo”. Este épico teve a Amazônia peruana e brasileira como cenário. Em Manaus, Herzog filmou no centenário Theatro Amazonas, tendo Claudia Cardinale e Klaus Kinski comandando grande figuração. Para completar, em breve assistiremos a belo e comovido depoimento do próprio Herzog ao filme “Eu, Eu, Eu”, documentário que o paulista Cláudio Kahns dedicou ao mais internacional dos gaúchos, José Lewgoy.

Abaixo, trechos da conversa que Werner Herzog manteve, no Sesc Vila Mariana, com centenas de participantes do III Seminário Internacional de Jornalismo Cultural.

É verdade que você deu a “O Enigma de Kaspar Hauser” (1972) o subtítulo de “Cada Um Por Si e Deus Contra Todos” por causa do filme “Macunaíma” (1969), de Joaquim Pedro de Andrade?

Werner Herzog – Sim. Eu escrevi o roteiro do filme em quatro ou cinco dias e não havia um título. Cansado de tanto escrever, resolvi sair para tomar uma cerveja e ver um filme. Acabei vendo “Macunaíma”, do Joaquim Pedro. Fiquei louco pelo Grande Otelo e mais louco ainda por uma frase que ouvi num certo ponto do filme: “Cada um Por Si e Deus Contra Todos”. Congelei na cadeira. Isto que acabei de ouvir é tão lindo que não consigo acreditar. Aí está o título do meu filme. Só que, depois, trocando ideias com várias pessoas, ninguém guardava a frase. Quando eu pedia para que a repetissem, diziam “Cada um Por Deus, Todos pelo Homem”. Ou “Cada Homem por Deus”. Nunca acertavam. Então acabei optando por “O Enigma de Kaspar Hauser – Cada Um Por si e Deus Contra Todos”. Mas, tão importante quanto o subtítulo foi a descoberta de Grande Otelo. Que ator maravilhoso. Nove anos depois eu estava com ele na Amazônia, filmando “FitzCarraldo”. Tomei estas duas riquezas de “Macunaíma”. Não tenho vergonha de assumir, como um pirata, esta troca.

E Glauber Rocha? Você conhece os filmes dele?

Conheço muitos dos filmes dele e tive o prazer de conviver com ele, durante um mês , em Berkeley, na Califórnia . Éramos cineastas-convidados da Pacific Film Archive, uma cinemateca muito importante. Como eu não tinha hotel para me hospedar em San Francisco, a Cinemateca do Pacific me ofereceu um quarto ao lado do de Glauber. Me lembro que, em 1975, quando chegou a hora de Glauber, que era bastante desorganizado, regressar ao Brasil, a saída dele nos impressionou a todos, pois tinha milhares de papéis que não cabiam nas malas e iam se espalhando por todos os lados. Glauber morreu jovem, mas os filmes dele são eternos. Para mim, ele é alma do Brasil, assim como Garrincha. Glauber é a alma intelectual e visionária e Garrincha é a alma alegre na tragédia deste país.

Você, que escalou dois moçambicanos-brasileiros para o elenco de “Aguirre” (Ruy Guerra e Ruy Pollanah) e filmou “FitzCarraldo”, com Lewgoy, Grande Otelo e Milton Nascimento, conhece o cinema brasileiro contemporâneo?

Não costumo mais ver muitos filmes. Só uns dois ou três por ano. Ano passado, vi vinte longas-metragens, porque integrei o juri do Festival de Berlim. Como jurado, fui obrigado a ver todos os concorrentes (risos). De filmes brasileiros recentes, vi um de Walter Salles. Creio que, graças às facilidades das novas tecnologias, uma nova geração está se firmando no Brasil. Quando comecei, filmar era muito complicado. As câmeras eram inacessíveis, o celuloide caro e os laboratórios caríssimos. Hoje, os que querem fazer cinema podem recorrer a ferramentas simples, câmeras digitais muito baratas, pode editar o material no lap-top. É possível fazer um filme com 10 mil dólares. O importante é querer trabalhar e fazê-lo onde há vida pulsando. E há que andar a pé. Andar muito. Este é conselho que lhes dou. Eu abri o cadeado (de uma sala da Universidade de Munique) e roubei a câmera. Com ela fiz meus onze primeiros filmes. Então, só posso lhes ensinar a assaltar e a falsificar documentos. Quando estava na Amazônia peruana e tinha que subir com o navio rio acima, indo atrás num barco a motor, deparei-me várias vezes com acampamentos militares. Eles sempre tentavam me impedir de trabalhar. Um coronel, que guardava a selva com seus soldados, mandou que atirassem em mim. Exigiu que eu apresentasse licenças de filmagem. Sabe o que eu fiz? Regressei a Lima e falsifiquei documentos. Forjei papeis que, em nome da Chancelaria, da Secretaria de Estado e do presidente Belaunde me autorizavam a filmar. Copiei as assinaturas deles com muito zelo e enchi os documentos de carimbos. Nos papeis, havia frase em alemão que dizia mais ou menos assim: “quem quiser comprar uma câmera…”. Os que me paravam, ao me ver de volta, olhavam aquelas assinaturas, aqueles carimbos e aqueles escritos, inclusive em alemão, e diziam “pode passar”.

Sua relação com [o ator alemão] Klaus Kinski (1926-1991) foi muito tumultuada e mesmo assim, você o dirigiu em vários filmes…

Minha relação com Kinski, como mostro no documentário “Meu Inimigo Íntimo” foi intensa, mas fiz mais de 60 filmes, e ele está em apenas cinco deles. Havia vida, para ele e para mim, antes, durante e depois destes cinco filmes. Ele atuou em 210 produções. Portanto, esteve separado profissionalmente de mim em 205 filmes. Mas não posso negar que nossa relação foi muito forte. Eu sempre soube que ele era extraordinário e que trabalhar com ele era como domesticar uma fera selvagem. Era preciso fazer a agressividade dele ser produtiva na tela. Kinski tinha momentos de muita coragem e carinho. Nas sequências do navio rio acima, em “FitzCarraldo”, perigosíssimas, ele quis correr todos os riscos, desde que eu estivesse perto dele. Se o navio afundasse, afundaríamos juntos. Para outras coisas ele era covarde. Tivemos confrontos perigosos. A imprensa chegou a dizer que eu só não atirei nele, porque ele deu um passo atrás. Isto não é verdade. Nunca o ameacei com arma de fogo. Mas brigamos muito. Nossa relação foi para um terreno perigoso. Ele tinha oscilações que iam do amor ao ódio, gritava com os extras. Os índios peruanos que trabalharam conosco em “FitzCarraldo” não tinham medo dele e até me disseram que, se eu quisesse, eles o matavam para mim. Como eu ficava calado, eles me disseram que não tinham medo de Kinski, que era um “gritador”. Temiam mais o meu silêncio.

Mas ele foi o maior ator de seus filmes, não?

Ele foi um grande ator, mas o maior de todos, para mim, foi um “não-ator”, Bruno S., com quem fiz “O Enigma de Kaspar Hauser” e “Stroszek”. Que grande presença em cena tinha Bruno S. Ele me tocou mais que qualquer outro. Morreu há alguns meses, estou de luto pela perda dele. Dirigi, mais recentemente, grandes atores como Christian Bale (“O Sobrevivente”) e Nicolas Cage (“Vício Frenético”). Mas tenho que incluir Kinski e sua insanidade entre os melhores. Tenho consciência de que, sem bons atores, não se faz filme narrativo. Aprendemos com eles e também andando a pé de Boston à Guatemala, sendo encarcerado numa prisão da República Centro-Africana, como eu fui. Há que se aprender a conhecer o coração do ser humano. E há que se ler muito, mas muito mesmo.

Como você vê a relação da crítica cinematográfica com seus filmes?

A crítica em geral decaiu muito. O discurso inteligente sobre os filmes foi abolido em favor das celebridades. Nos EUA quase não há mais críticos. Em compensação, multiplicam-se os repórteres de celebridades. Na França, por outro lado, ainda há muitos críticos, mas eles são muito intelectuais, esotéricos. Tenho estima pelos franceses, mas confesso que falar com eles é muito problemático para mim. Tenho me dedicado muito à escrita. Penso até que meus textos vão viver mais longamente que meus filmes. Ultimamente me exercitei até como ator (risos). Sim, interpretei um cientista-farmacêutico alemão em “0s Simpsons”. Minha função era criar pílulas capazes de curar o mau-humor de Homer Simpson.

Você tem produzido muito, mas nem todos os seus filmes têm chegado ao Brasil. Por quê?

Este ano fiz quatro ou cinco filmes nos EUA, com produtores norte-americanos. Esta realidade tem um lado positivo. Ao invés de me ocupar em levantar fundos ou armar contratos com redes de TV, eu filmo. Estou, neste momento, realizando cinco novos filmes. Por isto passo com tamanha rapidez pelo Brasil. Mas há um lado negativo nesta situação. Meus filmes tornaram-se muito mal distribuídos no mundo. Os produtores americanos se preocupam com o mercado nos EUA e Canadá. Por isto, meu propósito, agora, é ficar com 50% dos meus filmes, ou seja, com a carreira deles nos mercados fora EUA-Canadá. Estou fazendo assim com o novo documentário que finalizo no Texas e na Flórida (“Corredor da Morte”) que tem condenados à pena capital como tema. Sou, como alemão, contra a pena de morte. Não por razões ou argumentos teóricos, mas sim pela experiência de ter nascido num país que, durante o Nazismo, matou milhares de pessoas, um verdadeiro programa de eustanásia. Nenhum país pode ser habilitado a matar pessoas.

Você devotou imensa amizade à grande crítica e historiadora alemã, Lotte Eisner (1896-1983), autora de um clássico sobre o Expressionismo Alemão (“A Tela Demoníaca”). Até dedicou a ela um livro, “Caminhado no Gelo”, diário de sua viagem, a pé, de Munique a Paris. Um sacrifício pela recuperação dela.

Lotte foi muito importante para as novas gerações de cineastas do Pós-Guerra. Ela, que teve que se refugiar na França, quando Hitler assumiu o poder, reconheceu que depois da grande barbárie, novas gerações de músicos, escritores e cineastas alemães se firmavam. Quando eu tinha 22 anos, ela mandou um filme meu para Fritz Lang [cineasta do expressionismo alemão] e me ajudou muito. Por isto, me dispus, sempre, a fazer todo e qualquer sacrifício por ela. Fui a pé de Munique até Paris, ao encontro dela. Quando cheguei, ela, que mentia a idade desde que fizera 70 anos, tinha quase 80. Ela sabia que fora para mim e para as novas gerações uma grande fonte de inspiração. Quando, novamente, fui ao encontro dela em Paris, ela estava cega e se aproximava dos 90 anos. Não podia mais ler, nem ver filmes, duas de suas maiores paixões. Nem podia caminhar. Lotte me disse que não podia “nem morrer”, pois eu a enfeitiçara para que vivesse para sempre. Retirei, então, o feitiço. Dez dias depois, após um golinho de chá, ela morreu.

PARA COMEÇAR A SEMANA: Ella Fitzgerald : One note Samba (scat singing) 1969

PARA COMEÇAR A SEMANA – O JORNAL DA MORTE

Qual a relação entre a morte, a criminalidade e a produção da miséria com a mídia? O samba “O Jornal da Morte”, a belissíma composição sociológica de Roberto Silva e Miguel Gustavo, nos ajuda a problematizar melhor esta questão estritamente política, social e econômica. Com vocês

Vejam só este jornal
Verdadeiro hospital
Porta voz do bangue-bangue
Da polícia central

Treslocada, semi-nua
Jogou-se do oitavo andar
Porque o noivo não comprava
Maconha pra ela fumar

Sangue, sangue, sangue

Um escândalo amoroso
Com retratos do casal
Um bicheiro assassinado
Em decúbito dorsal

Cada página é um grito
Um homem caiu no mangue
Só falta alguém espremer o
jornal
Para sair

Sangue. sangue, sangue


“VAMOS TIRAR JESUS DA CRUZ”