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UM CONTO, UMA HISTÓRIA, UMA POESIA

A REFEIÇÃO DO IMPERADOR

Que prefere o imperador à mesa? Em seu desconjuntado castelo entre as montanhas, o conde Beroquin Prenez se preocupava. Passando pelo vale com o bando dos seus paladinos, Carlos Magno dignar-se-á comer em sua casa. Assim mandou dizer.

O conde Beroquin é pobre, mas faz questão da velha honra. Preparará um banquete digno de Nero. Mas que prefere o imperador?Lá em cima, entre os despenhadeiros, estas coisas não se sabem.

Despacha alguns fiéis à cidade para se informar. Partem, voam à galope, à sua passagem tamanho é o turbilhão, que balançam as lanternas nas portas das hospedarias. Chegam, perguntam, logo estão de volta. Um deles diz ao conde:

– O imperador tem paixão por enguias.

– E você, o que soube?

E o segundo:

– Enguias – diz.

O terceiro, o quarto, o quinto confirmam.

Mas lá em cima nunca alguém viu enguias.O conde, que já é velho, chama o filho:

– Baldovino, você iria a toda velocidade até Chioggia?

O filho se inclina, nunca foram vistas cavalgaduras passar com tamanha rapidez por bosques e barrancos. Os pássaros que querem segui-lo bem cedo estão cansados. Dois dias e Baldovino está de volta. Traz doze enguias adultas, parecem as serpentes de Laocoonte.

Como no fundo do vale vê-se passar a grande nuvem de poeira levantada pelo cortejo de Carlos Magno, o conde chama o padre para que as enguias sejam abençoadas. Contudo, há tempo ainda. O imperador se deterá em outros três castelos situados mais abaixo para comer e descansar, antes de chegar a Prenez.

Até que chega o dia. Carlos Magno acorda contrariado, na noite anterior, à mesa, comera um pouco demais. Agora, senta na cama, com a boca torcida, e dá um arroto:

– Enguias – exclama -, sempre enguias, que vão para o inferno… Se hoje à noite me servirem mais enguias, juro… Fá-los-ei decapitar.

Aproxima-se da janela, escancara os vidros, olha para baixo o imenso vale. Contra o sol, sobre um penhasco, surge o castelo de Prenez. Das chaminés sai uma fumaça branca.

– Enguia – murmura ainda, com desgosto -, maldito bicho. Se me oferecem enguias, mandarei matar a família inteira… Pai, filho e empregados… E antes, um belo suplício.

(Dino Buzzati, em Naquele Exato Momento)

Do Corpo do Animal e Do corpo do Humano

Para Funcho e Lucho. Motores de minha vida em sociedade

Imagem emprestada do livro O Livro dos Abraços

Imagem emprestada do livro O Livro dos Abraços

VIDA: entre o animal e o humano em Dino BuzzatI

A vida persiste no animal e é produzida pelo humano. Mas a vida, efetivamente explode, entre o animal e o humano. Lá onde o animal faz de sua vida um mundo de movimentos sígnicos, recebendo seus sentidos de transmissores de significados  na natureza; o humano inventa uma natureza para traduzir ao seu modo (máquina antropomórfica) o animal para produzir e constituir a vida com seus limites. Dino Buzzati demonstra isso no conto A Barata. enquanto a vida persiste na Barata, a vida humana é atormentada, posto que tomada de uma angústia estranha à sua normatividade. os últimos mexer de pernas das baratas desmonta toda tranquilidade racional da vida humana. Parece-nos que Buzzati radicaliza por completo a necessidade animalesca para que a vida humana seja re-examinada, repetida e transformada em sua potência diferenciadora. Quando o humano se humaniza demais, esquece o animal que é! Entre o animal e o humano há o lindo nascer de uma criança!   

A Barata

Tendo voltado tarde para casa, esmaguei uma barata que, no corredor, me escapava entre os pés (ficou lá, preta, no ladrilho) depois entrei no quarto. Ela dormia. Deitei-me ao seu lado, apaguei a luz, da janela aberta via um pedaço de parede e o céu. Fazia calor, não conseguia dormir, velhas histórias renasciam dentro de mim, dúvidas também, uma genérica desconfiança no amanhã. Ela soltou um pequeno lamento. “Que houve?”, perguntei. Ela abriu um olho, grande, sem me ver e murmurou: “Tenho medo”. “Medo de quê?”, perguntei. “Tenho medo de morrer”. “Medo de morrer? Por quê?” Respondeu: “Tive um sonho…” Aproximou-se um pouco. “Mas que é que você sonhou?” “Sonhei que estava no campo, estava sentada na margem de um rio e ouvi gritos ao longe… E eu devia morrer”. “Na beira de um rio?” “Sim”, respondeu, “Ouvia as rãs… faziam crá, crá”. “E que horas eram?” “Era noite e ouvi gritar”. “Bem, durma, agora são quase duas horas.” “Duas horas?”, mas não conseguia compreender, já tornara a pegar no sono.

Apaguei a luz e ouvi alguém remexendo no pátio. Depois, subiu a voz de um cão, aguda e longa; parecia lamentar-se. Subiu, passando diante da janela, perdeu-se na noite quente. Depois abriu-se uma persiana (ou se fechou?). Longe, muito longe, mas talvez eu me enganasse, uma criança se pôs a chorar. Depois, novamente o ulular do cão, longo como antes. Eu não conseguia dormir.

Vozes de homens vieram de alguma outra janela. Eram baixas, como murmuradas entre o sono. De uma sacada abaixo, ouvi um cip, cip, zitevitt, e algumas batidas de asas. “Flório!”, ouviu-se chamar de repente, devia ser duas ou três casas mais adiante. “Flório!”, parecia uma mulher, mulher angustiada, que tivesse perdido o filho.

Mas por que o canarinho do andar de baixo acordara? Que havia? Com um rangido lamentoso, como se fosse empurrada devagarinho por alguém que não queria fazer-se ouvir, uma porta se abriu em algum lugar da casa. Quanta gente acordada a essa hora, pensei. Estranho, a
essa hora.

“Tenho medo, tenho medo”, queixou-se ela procurando-me com o braço. “Oh, Maria”, perguntei, “Que tem você?” Respondeu com voz tênue: “Tenho medo de morrer.” “Você sonhou de novo?” Fez que sim, devagarinho, com a cabeça. “De novo aqueles gritos?” Fez sinal que sim. “E você ia morrer?” Sim, sim, indicava, procurando olhar-me, com as pálpebras grudadas pelo sono. Há alguma coisa, pensei: ela sonha, o cão uiva, o canarinho acordou, as pessoas se levantam e falam, ela sonha com a morte, como se todos tivessem sentido uma coisa, uma presença. Oh, o sono não vinha e as estrelas passavam. Ouvi distintamente no pátio o ruído de um fósforo aceso. Por que alguém se punha a fumar às três horas da manhã? Então senti sede, levantei-me e saí do quarto para beber água. A triste lâmpada do corredor estava acesa, percebi vagamente a mancha preta no ladrilho e parei, assustado. Olhei: a mancha preta se movia. Ou melhor, movia-se um pedacinho (ela sonha que vai morrer, o cão uiva, o canarinho acorda, pessoas se levantaram, uma mãe chama o filho, as portas rangem, alguém fuma, e há talvez um choro de criança).

Vi, no chão, o bichinho preto que movia uma patinha. Era a do meio, à direita. O resto estava imóvel, uma mancha de tinta que caíra da morte. Mas a perninha remava fracamente como se quisesse subir de novo alguma coisa, o rio das trevas, talvez. Teria ainda esperança?

Durante duas horas e meia, dentro da noite — senti um calafrio —, o imundo inseto grudado no ladrilho pelas suas próprias mucilagens viscerais, durante duas horas e meia continuara a morrer e ainda não acabara. Maravilhosamente continuava a morrer, transmitindo, com a última patinha, a sua mensagem. Mas quem a podia colher às três da manhã, na escuridão do corredor de uma pensão desconhecida? Duas horas e meia, pensei, continuamente para cima e para baixo, a última porção de vida na perninha sobrevivente, para invocar justiça. O pranto de uma criança — lera um dia — basta para envenenar o mundo. Em seu coração, Deus onipotente quisera que certas coisas não acontecessem, mas não pôde impedi-lo porque por ele mesmo foi decidido. Mas uma sombra jaz ainda sobre nós. Esmaguei o inseto com o chinelo e, esfregando no chão, esmigalhei-o num longo rasto cinza.

Então, finalmente, o cão calou-se, ela, no sono, se acalmou e parecia quase sorrir, as vozes se apagaram, calou a mãe, não se percebeu mais nenhum sintoma de inquietude do canarinho, a noite recomeçava a passar sobre a casa cansada, a morte fora inchar sua inquietude em outras partes do mundo.

Dino Buzzati nasceu no dia 16 de outubro de 1906 em San Pellegrino, Itália, próximo a Belluno, na secular vila de propriedade da família. Desde a mocidade os temas e as paixões do futuro escritor se manifestaram e a elas ele permaneceu fiel por toda a vida: a poesia, a música (estuda violino e piano), o desenho e a montanha, verdadeira companheira da infância. “Eu penso”, diz Buzzati numa entrevista concedida em 1959, “que em todo escritor as primeiras memórias da infância são uma base fundamental. As impressões mais fortes que eu tive de criança pertencem à terra onde eu nasci, o vale do Belluno, às montanhas selvagens que o cercam e à vizinha Dolomit. Um mundo completamente nórdico, ao qual se juntou o patrimônio das recordações juvenis e a cidade de Milão, onde minha família sempre viveu no inverno.” Sua temática: a fantasia, a solidão, a magia, a montanha, a música, a poesia, a espera, a morte e a eternidade.

Autor de inúmeros livros, peças de teatro, quadros e roteiros para filmes, tem editado no Brasil, pela Ed. Nova Fronteira, os seguintes trabalhos: “O Deserto dos Tártaros”, “Um Amor”, “Naquele Exato Momento” e “As Noites Difíceis”.

 

 

UM CONTO, UMA HISTÓRIA, UMA POESIA…

ALGUÉM O ESPERA

(Dino Buzzati)

Em alguma cidade remota que você não conhece e aonde talvez nunca terá a oportunidade de ir, há alguém que o espera. Numa velha ruazinha estreita da enorme cidade oriental, onde se escondem os últimos segredos da vida, dia e noite permanece aberta para você a porta do seu palácio encantado; o qual, a quem passa com pressa pela rua, pode parecer uma casa como tantas outras;  ao contrário, ele penetra no emaranhado de mesquitas e dos paços, com uma sucessão sem fim de salas imensas, pátios e jardins. Lá há o silêncio, a sombra, a paz e nobres cães jazem acocorados na beira das fontes, adormecendo ao murmúrio das águas. Nos vestíbulos, os altíssimos escravos negros de rosto benigno estão imóveis como estátuas de basalto; se por acaso ouvissem de longe o rumor de seus passos, voariam ao seu encontro, você nem teria tempo para atravessar a primeira sala que os encontraria todos diante de você, ajoelhados, ansiosos para ouvir suas ordens. (E no jardim mais recôndito, ao redor das fontes das ninfas, as belíssimas concubinas nuas.) Mas o rumor de seu passo não se ouve e os dias, os meses, os anos passam assim inutilmente.

Aqui você vive com dificuldade, veste-se de cinza, já perde os cabelos, as contas, na metade do mês, são penosas. Você é como os outros. A cada ano ambições e esperanças se tornam menores. Quando encontra belas mulheres não tem nem mais a coragem de as olhar. Mas, lá longe, na cidade cujo nome você ignora, um poderoso senhor o espera, para retirar-lhe todas as dificuldades: para livrá-lo dos trabalhos, do ódio, dos sustos da noite. Não seriam necessárias explicações, não teria de pronunciar nem seu nome, você poderia chegar mesmo velho, sujo, infecto. Logo, nos pátios silenciosos, a vida acordaria novamente, as lâmpadas se acenderiam sobre a mesa dos banquetes, ouviria música e o suave canto de jovenzinhas. Aquele dia seria feriado e igualmente o dia seguinte e mais um dia ainda, sempre alegria e festas contínuas até seu último suspiro. Mas você, homem, não sabe. Continua aqui a cavar a vida, fica triste, as primeiras rugas se formaram em seu rosto, deixa-se agora levar pelos anos.

Em longínqua terra do Oriente. Mas poderia acontecer, ao contrário, que esteja muito mais perto. Talvez o senhor poderoso o espere numa de nossas cidades que você conhece. Em Nápoles, por exemplo, se escancaram, nas velhas ruelas, imensos portões brasonados, escuros e taciturnos, além dos quais, evidentemente, repousam segredos. Talvez seja um destes. Você precisaria subir a escadaria sem se impressionar com o pó, a sujeira, os ratos, os muros descascados. No alto, há uma porta entreaberta. Abra-a. Entre. Encantado, verá que aqui desapareceram o abandono, a pobreza, a sujeira, tudo lhe parecerá alegre e cheio de luz. “Chegou! Chegou!”, gritarão das profundezas da morada.

Em Nápoles, por exemplo. Mas talvez poderia ser ainda mais perto e não mais a cem quilômetros, numa cidadezinha do interior. Existem aqui pracinhas afastadas onde os caminhões não passam: e ao lado se erguem certas casas antigas, cheias de dignidade, com ornamentos de plantas trepadeiras. Ao lado da porta, está suspenso o puxador da campainha que se ouve ressoar além da porta, despertando longos ecos no saguão; então, no andar de cima, o piano para de tocar e um cão late. Mas você não precisa puxar a campainha. Logo que tiver apoiado a mão no batente de madeira verde, ele se abrirá rangendo. E aparecerão no fundo do pórtico os canteiros floridos, você ouvirá o zumbido das vespas, uma voz grave em meio à penumbra dará as boas vindas. E o dono lhe explicará que o esperava há muitíssimo tempo: é para você a casa, a moça do piano, o rouxinol noturno, os outros recursos.

Num palacete de província. Mas pode se encontrar também muito mais perto, realmente a alguns passos, entre as paredes da sua própria casa. Na escada, no terceiro andar, você nunca viu, à direita do patamar, aquela porta sem campainha nem nome? Aqui talvez, para facilitar-lhe as coisas ao máximo, espera-o aquele que desejaria fazê-lo feliz: mas não pode avisá-lo. Portanto, tente, da próxima vez que passar por lá, tente abrir a porta sem nome. Verá como cede. Suavemente rodará sobre os gonzos, um impulso irracional o levará a entrar, você ficará atordoado: eis no coração do edifício popular, um depois do outro, em vertiginosa perspectiva, salões principescos. Nas cortinas, nas pratarias, nos tapetes que cobrem os muros você perceberá sinais gravados: as siglas de seu nome obscuro. Mas você não tenta abrir, indiferente, passa em frente, para cima e para baixo, pela manhã e à noite, no verão e no inverno, este ano e ano que vem, negligenciando a ocasião.

Entre as paredes da sua própria casa. Mas como excluir que esteja ainda mais perto aquele que lhe quer bem? Enquanto você lê estas linhas, talvez ele esteja do outro lado da porta, cuidado, na sala ao lado; espera-o em silêncio, não fala, não tosse, não se move, não faz nada para chamar a atenção. Compete a você descobri-lo. Mas você, homem, nem ao menos se levanta, não abre a porta, não acende a luz, não olha. Contudo, se você for, não o verá. Ele está sentado num canto, segurando na mão direita um pequeno cetro de cristal e lhe sorri. Você, porém, não o vê. Desiludido, apaga a luz, bate a porta, volta para a outra sala, sacode a cabeça, aborrecido com estas nossas absurdas insinuações: em breve, terá esquecido tudo. E assim você desperdiça a vida.

ENUNCIAÇÕES DAS PÁGINAS ÍNTIMAS DE FRANZ KAFKA

kafka

1913, 21 de junho.

O mundo prodigioso que tenho na cabeça. Mas como me libertar e libertá-lo sem me dilacerar? E antes ser mil vezes dilacerado do que retê-lo em mim ou enterrá-lo. Estou aqui para isso, dou-me perfeitamente conta.

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FLIP-FLOP: 10 ANOS

Por @Sobrecomum*

As Raves, festas de música eletrônica que duram de 24 horas a uma semana dependendo do fôlego dos patrocinadores, inclusive os ilícitos, elegeram a bota pata de bode como seu calçado oficial. Geralmente feitas de camurça, com solas plataforma de madeira ou de borracha, praticamente sem salto, deixavam os pés a salvo das poças de lama, aliás na grama ou na areia dependendo da proposta do festival lá estavam elas.

Já a Festa Literária Internacional de Paraty, FLIP, aqui também chamada de rave por se estender durante quatro dias consecutivos, elencou a sandália de dedo, também conhecida como flip flop como o calçado mais apropriado para as ruas com calçamento “pé-de-moleque” de seu centro histórico.

A aventura começou logo na partida, um ônibus me levou de Volta Redonda até Mambucaba, no município de Angra dos Reis e de lá um outro ônibus, esse sem o ar condicionado e sem estofamento nas cadeiras completa o trajeto até Paraty. Ônibus direto só de segunda a sexta às cinco e meia da tarde. Precário é pouco pra falar do transporte.

Outro grande evento, Rock in Rio, tinha ônibus próprio espalhado por diversos pontos na cidade do Rio e municípios próximos. Os organizadores não disfarçavam seu interesse comercial e o festival nunca se percebeu como um atrativo turístico para a cidade. Por isso mesmo viajou para Lisboa. E quando voltou foi muito bem recebido.

Já a Flip Flop, está ancorada nessa cidade que é uma vila de pescadores. Muito mal administrada pela prefeitura, com um centro histórico que é uma verdadeira cidade cenográfica e sem um diálogo entre o salão de festa e a cozinha.

Quando chamo a cidade de vila de pescadores, é porque a maior parte dela é banhada pelo mar, inclusive o centro histórico é inundado quando a maré sobe. Portanto a pesca é a fonte de renda principal da população. Mas os quiosques da praia que estão em péssimo estado, poderiam já ter sido reformados pela prefeitura atraindo os turistas e seu dinheiro extra para o lugar mais adequado.

Cheguei de ônibus e encontrei uma rodoviária de cidade do interior, com banheiros imundos e guichês fechados. Nenhuma placa indicava que havia um festival ou que aquela cidade durante quatro dias estava internacionalizada. Do outro lado da rua, um shopping, com banheiro, pensei. Interditado. Provavelmente acharam melhor que dizer que era “exclusivo para clientes”. Até onde eu sei, os estabelecimentos comerciais devem ter banheiros que funcionem para manter as portas abertas e dependendo do caso, dois banheiros, um para cada gênero de pessoa. Algumas escolas de samba fizeram inclusive o terceiro, para as transsexuais. Mais tarde, quando fui almoçar, descobri que faltava água em Paraty.

Voltando ao início da viagem, caminhei pelas ruas em busca de um guia, alguém com uma camiseta e um crachá distribuindo mapas evento. Nada. Achei foi umas lojas de artesanato e moda de ambos os lados da rua estrategicamente colocadas para depenar os turistas. Logo a frente estariam as placas com as bandeiras de cartões de crédito para terminar o açoite. Essas lojas vendiam mesmo tipo de peças rústica, de madeira, palha ou as vezes de tecido encontradas em qualquer outro lugar, vendido como artesanal mas produzido em ritmo industrial.

Um pouco a frente perguntei onde ficava o centro histórico. Depois da corrente, responderam. Ali, no sítio arqueológico não entra carro, moto ou bicicleta. Os pedestres andas com cuidado pisando em pedras enormes e desniveladas. E os cadeirantes, os idosos, os homens e mulheres com deficiência de locomoção? Poderiam fazer como nas cavernas abertas a visitação, construir uma passarela provisória que desmontasse ao final do evento, com rampa de acesso e corrimão de segurança. Não tiraria o charme do tombamento e nem prejudicariam a harmonia arquitetônica a que se refere a UNESCO quando fala sobre o local. Uma rua apenas, com acessibilidade já seria o suficiente. As outras ficariam como estão.

Depois de chegar ao evento, pude perceber que ali se celebrava a cultura oficial, o patrocínio dos bancos foi a pista que segui. O BNDES e o Banco Itaú são patrocinadores da cultura de modo geral e por isso determinam que cara e o conteúdo que ela vai ter.

Cultura popular mesmo, só os índios Caiçaras (eu acho) que se espalhavam em ruas próximas do centro cenográfico vendendo seu artesanato: flautas, anéis e cestos. Os anéis aliás eram de casca de coco e ossos de animais, coisa que só uma máquina consegue fazer. Enquanto eles fingem que são indígenas e nós fingimos que somos turistas.

Índio sim, pelo corpo avermelhado, cabelo preto e liso, mas indígena não. Poderiam ter dançado e cantado incorporados ao festival para alavancar e promover a venda de livros com essa temática, mas nenhum livro vendido lá falava da história desses povos que estavam aqui antes de nós e seus costumes. Aliás, nem eles devem saber sua história e há muito adquiriram outros costumes.

E para quem não sabe, a cidade é cenográfica porque a fachada das casas tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, IPHAN foi pintada em Maio pelos voluntários patrocinados pelas tintas Coral que puderam dar mais cor para a cidade. E depois foram todos assistir o show da cantora Ana Carolina. E não por iniciativa da Prefeitura, que fique sublinhado.

Até os barcos foram recauchutados, ficaram todos laranja, cor escolhida pelo patrocinador maior da festa, o Banco Itaú. Também conhecido como o mais selvagem na cobrança de taxas dos seus correntistas. Esses caso se cadastrassem no site poderiam passear de bicicleta gratuitamente por uma hora, caso o passeio ultrapassasse esse período, era descontado cinco reais a cada hora, direto na conta.

Os escritores, pelo contrário, não recebem cachés para se sentarem às mesas de debates, falam pelo que pude acompanhar apenas dos próprios livros recém-lançados. O festival ainda cobra R$ 40,00 para quem quiser assistir dentro de um teatro com ar refrigerado e cadeiras estofadas e R$ 10,00 para quem preferir assistir o telão com temperatura ambientemas com cadeiras estofadas.

O patrocinador distribuiu bancos feitos de papelão projetados para suportar até 100kg. E os participantes da festa aproveitaram para ocupar as laterais da sala aberta e espiar a conversa dos escritores. Alguns ate tomaram notas.

Havia uma livraria que era pequena, confusa, e com pouca variedade de títulos e editoras. Algumas até alugaram casas tombadas e fizeram um comércio próprio. Bem mais interessante.

Me chamou muito a atenção os meninos que distribuíam livros budistas e diziam que a contribuição para adquiri-los era livre. Olhei bem pros pés deles e não vi nenhuma flip flop, apenas tênis iate das mais caras grifes. Um deles até usava um brinco, coisa que é proibida na religião. Nao por ser atributo feminino, mas por despertar a vaidade.

Haviam árvores com livros pendurados, mas só para as crianças. E mesmo elas não se interessaram muito. Preferiam os bonecos com quem podiam interagir. Por falar nisso, senti falta dos e-books, de ter uma lan house onde se acessasse a internet ou o primeiro capítulo das obras ali vendidas. Não, nada era digita a festa como um todo. O livro era de papel, o banco era de papel, os folhetos, os livretos, os panfletos, jornais e até a sacola da livraria eram deste material. Nada era de pano, reaproveitável, sustentável ou organico.

Senti falta de uma caixa de coleta para doação de livros velhos ou uma roda, onde pudéssemos trocar livros com outros leitores, se bem que não haviam leitores lá. Haviam compradores de livros. Ler mesmo eu não vi ninguém lendo.

Na hora de partir, outra surpresa, ônibus direto só as seis da manhã do outro dia. Restava a baldeação ou as pousadas lotadas. Se fosse mesmo uma rave, haveria música, botas pata de bode e algumas barracas de acampamento espalhadas na praia. Mas era a flip flop, um chinelinho de pedreiro que ganhou umas cores vibrantes e agora paga de madame.

Sem alternativa, voltei pra Mambucaba, peguei o último ônibus para Volta Redonda, que saía as sete da noite e sentei para escrever esta crônica falando de como fui mal tratado na festa que entrei de penetra.

* @Sobrecomum é um olhar na diversidade sobre o mesmidade do Real.

UM CONTO, UMA HISTÓRIA, UMA POESIA…

Via O Conselheiro Acácio.

UM HOMEM CHAMADO ZIEGLER

(Hermann Hesse)

Em tempos idos, viveu na Brauergasse um jovem de nome Ziegler. Pertencia àquele gênero de pessoas que encontramos todos os dias em nossa rua mas cujo rosto nunca conseguimos recordar direito, porque todas têm um rosto idêntico — uma cara coletiva. Ziegler era e fazia tudo o que essas pessoas sempre são e fazem. Não era ignorante mas tampouco era uma inteligência rara, gostava de dinheiro e diversões, gostava de se vestir bem e tinha aquela dose de covardia da maioria das pessoas: sua vida e ações eram menos pautadas por ambições e impulsos do que por proibições, pelo medo de ser punido. Além disso, tinha alguns rasgos de honestidade e era uma pessoa agradável, enfim, um homem normal, para quem a própria vida era a coisa mais importante e cara. Tinha-se na conta, como toda a gente, de uma personalidade, quando em apenas um espécime, e julgava-se o centro do universo, como toda a gente. Dúvidas não existiam em sua mente e se os fatos contradiziam sua concepção do mundo, fechava os olhos em desaprovação. Como pessoa moderna, tinha Ziegler um respeito ilimitado pelo dinheiro e, além deste, por uma outra grande força: a ciência. Não saberia definir exatamente o que era a ciência, imaginava-a alguma coisa assim como a estatística, ou um pouco como a bacteriologia, e estava bem a par de quanto dinheiro e honrarias o Estado outorga aos homens de ciência. Tinha particular respeito pelas pesquisas sobre o câncer, pois seu pai morrera dessa doença e Ziegler esperava que, quanto mais desenvolvida estivesse a ciência, menores seriam as probabilidades dele morrer de câncer. Não, os cientistas não permitiriam que tal coisa acontecesse. Exteriormente, Ziegler distinguia-se pela ambição de trajar sempre acima do que seus recursos o permitiam, nunca deixando de mudar o guarda-roupa de acordo com a moda do ano. Não lhe permitindo os recursos acompanhar a moda do mês e da estação, desprezava os que podiam fazê-lo naturalmente, considerando-os uns mascarados, uns palhaços. Dava muito valor à firmeza de caráter e não temia ofender, entre os seus iguais e desde que estivesse em lugar seguro, seus superiores e o governo. Talvez tenha demorado demais com esta descrição. Mas Ziegler era, realmente, um moço encantador e não é culpa nossa se, sem o querermos, perdemos demasiado tempo com ele.

Pois a verdade é que, contra todos os seus laboriosos planos e merecidas esperanças, Ziegler encontrou um prematuro e estranho fim. Pouco depois de ter chegado à nossa cidade, resolveu ele, certa vez, passar um domingo alegre e distraído. Não fizera ainda relações pessoais e, por falta de decisão, tampouco ingressara em qualquer dos clubes sociais e recreativos da cidade. Talvez tenha sido essa a causa de sua desgraça. Nunca é bom que um homem f i que só. Assim dependia de sua própria iniciativa escolher alguma das atrações oferecidas pela cidade aos forasteiros. Fez minuciosas indagações e, após cuidadoso estudo, decidiu-se por uma visita ao Museu Histórico e ao Jardim Zoológico.

Aos domingos de manhã, a entrada no museu era gratuita e o Jardim Zoológico podia ser visitado de tarde a preços reduzidos. Trajando seu novo terno de passeio com botões forrados, de que ele gostava muito, Ziegler dirigiu-se, no domingo de manhã, ao Museu Histórico. Levava uma fina e elegante bengala de castão quadrado e laqueado de vermelho, que lhe conferia muita pose e elegância; para seu profundo desgosto, porém, o porteiro do museu intimara-o a deixá-la no bengaleiro, antes de entrar nas salas. Nas extensas galerias de tetos altos havia muita coisa digna de ser vista e o curioso visitante exaltava, em seu íntimo, a todapoderosa ciência que também ali exibia fielmente sua grandeza, como Ziegler pôde constatar através da leitura das esclarecedoras inscrições nas vitrinas. Velhas bugigangas imprestáveis e enferrujadas de ferro batido, colheres quebradas e cheias de azinhavre, e muitas coisas semelhantes ganhavam com essas doutas explicações um surpreendente interesse. Era maravilhoso como a ciência se ocupava de tudo, como sabia pôr nomes em tudo… ah, sim! Em breve acabariam também com o câncer e, quem sabe, com a própria morte! Na segunda sala havia um mostruário envidraçado cujos cristais eram tão polidos e reluzentes que, despercebidamente, Ziegler pôde dar um toque de arrumação no terno, pentear os cabelos, ajeitar o colarinho, verificar o vinco das calças e o nó da gravata com o zelo de um sargento passando em revista o pelotão de guardas. Sorriu satisfeito e continuou seu passeio, dedicando a maior atenção a alguns objetos de talha de séculos passados. Rapazes competentes, esses entalhadores, pensou ele, embora muito ingênuos. Observou também, com um sorriso benevolente, um antigo relógio de caixa alta, com figurinhas de marfim que dançavam o minueto quando os carrilhões badalavam as horas. Depois, aquela geringonça toda começou a causar-lhe um certo tédio. Bocejou e, por mais de uma vez, puxou o relógio de bolso que, aliás, tinha o maior prazer em exibir, pois era de ouro maciço — herança do pai. Ainda lhe sobrava muito tempo até à hora do almoço e resolveu passar a uma outra galeria do museu que talvez lhe despertasse mais interesse. Lá se expunham diversos objetos relacionados com as superstições da Idade Média, pergaminhos que explicavam como fazer feitiços, tratados de magia, amuletos, utensílios de bruxaria e, num canto, fora reconstituído um laboratório completo de alquimista, com fogão, retortas, almofarizes, bexigas de porco, foles e uma infinidade de outras coisas. Este recanto estava isolado dos visitantes por um cordão e uma tabuleta advertia ser proibido tocar nos objetos expostos. Porém, essas tabuletas nunca são lidas com muita atenção e, além do mais, Ziegler estava sozinho na sala. Assim, esticou o braço por cima do cordão e tocou, despreocupadamente, em alguns desses extravagantes objetos. Já tinha lido um pouco sobre a Idade Média e suas engraçadas superstições; não lhe entrava na cabeça como as pessoas, nessa época, podiam se ocupar em coisas tão infantis e que, simplesmente, as autoridades não tivessem proibido essa farsa da bruxaria e das artes mágicas. As autoridades, por vezes, têm desses descuidos. A alquimia, porém, era diferente; podia ser perdoada pois dela resultaria a tão útil e prestimosa química. Santo Deus, pensando bem, todos esses potes, e tubos, retortas de alquimista talez tivessem sido indispensáveis, porque sem eles era muito possível que ainda hoje não existissem a aspirina e as bombas de gás asfixiante. Com a displicência do curioso que mata o seu tempo, Ziegler pegou numa bolinha de cor escura, que parecia com uma pílula; era um pedaço de massa leve e seca, virou-o entre os dedos e já se dispunha e repô-lo em seu lugar quando ouviu passos atrás dele. Virou-se e era outro visitante, caminhando na sua direção. Ziegler ficou com vergonha de que o vissem com a bolinha na mão pois, naturalmente, tinha lido o aviso na tabuleta. Por isso, fechou a mão, meteu-a no bolso e saiu. Já estava de novo na rua quando se lembrou da pílula. T i rou-a do bolso e pensou em jogá-la fora mas, antes, levou-a perto do nariz e cheirou. Tinha um -aroma levemente resinoso que lhe agradou e resolveu enfiá-la de novo no bolso. Dirigiu-se então a um restaurante, encomendou o almoço, folheou um jornal, ajeitou o nó da gravata e dirigiu aos outros comensais olhares ora respeitosos, ora petulantes, conforme eles estivessem vestidos. Como a refeição demorasse, o jornal já estivesse lido e os outros comensais inspecionados, Ziegler tirou do bolso a sua, por mero acidente, roubada pílula de alquimista e cheirou-a outra vez. Depois, raspou-a um pouco com a unha do dedo indicador e, finalmente, obedecendo a um impulso pueril, levou-a à ponta da língua para ver que gosto tinha. Assim que a pílula lhe tocou na boca derreteu-se num abrir e fechar de olhos. Não tinha gosto desagradável e Ziegler acabou engolindo-a com um trago de cerveja. Logo depois chegou o almoço. Às duas horas, o jovem saltou do bonde em frente ao Jardim Zoológico e comprou um ingresso a preço reduzido. Sorridente, encaminhou-se para o setor dos macacos e foi postar-se diante da grande jaula do chimpanzé. O símio piscou-lhe o olho, acenou cordialmente e, em voz grave, disse: — Como vai, querido irmão? Enojado e surpreendido, Ziegler afastou-se rapidamente e, na retirada, ainda ouviu o cliimpanzé dizer, irritado: — Não querem ver o orgulhoso? Nem responde a um cumprimento, o ignorante pé-chato! Já assustado, Ziegler dirigiu-se rapidamente ao cercado dos cercopitecos. Pulavam e corriam, em suas costumeiras diabruras, e gritavam: — Dá-me açúcar, companheiro! Como ele não tivesse torrões de açúcar para jogar-lhes, os macacos enfureceram-se, xingaram-no de “pobre-diabo” e mostraram-lhe os dentes arreganhados. Ziegler não suportou mais; consternado e confuso, fugiu do cercado e dirigiu-se para o setor dos cervos e veados, dos quais esperava um comportamento mais natural. Um grande e belo alce estava perto da vedação e olhou para o visitante. Aí é que Ziegler realmente se alarmou. Percebeu que, desde que engohra a velha pílula mágica, entendia a língua dos animais, E o alce falava-lhe com os olhos, dois grandes e expressivos olhos castanhos. E esse olhar tranqüilo, que para os outros significava altivez, resignação e tristeza, para Ziegler traduziu um sentimento de profundo e aviltante desprezo. De acordo com a expressão majestosa do alce, o jovem compreendeu que, apesar do seu terno domingueiro, do chapéu, da bengala de castão iaqueado, do relógio de ouro, o cativo apenas via no visitante um ridículo e repugnante animal. Ziegler viu o alce voltar-lhe as ancas e resmungar “canalha”. Fugiu para a cerca dos bodes, dali para a das camurças, passou pelo Ihama, pelos gnus, os javalis e os ursos. Por nenhum deles foi insultado mas por todos desprezado. Escutava-os falando entre eles e ficou sabendo o que pensavam dos homens. Sobretudo, admiravam-se que a esses feios, fedorentos e cruéis bípedes fosse permitido circularem livremente, metidos em suas espalhafatosas fantasias. Ouviu um puma conversar com seu filhote. Era uma fala cheia de dignidade e objetiva sabedoria, como raras vezes se ouve entre os humanos. Escutou uma pantera manifestar-se, em termos aristocráticos, sobre a gentalha que a visitava aos domingos. Encarou o nobre leão de juba loura e ficou sabendo como era vasto e maravilhoso o mundo selvagem onde não existiam jaulas nem seres humanos. Viu um milhafre, triste mas orgulhoso, pousado num galho seco e que observou Ziegler com uma expressão de confrangedora melancolia. Os gaios e pegas suportavam seu cativeiro com muita decência, indifererntes ao que se passava do lado de fora das gaiolas, ou trocando apenas alguns comentários trocistas e bem-humorados. No auge da perturbação e arrancado às normas do seu raciocínio habitual, Ziegler dirigiu-se, em seu desespero, para um agrupamento de homens, na esperança de encontrar um olhar que compreendesse sua aflição e medo Escutou as conversas para ouvir algo consolador que o sossegasse, observou os gestos dos numerosos visitantes, ansioso por surpreender em algum deles um gesto de dignidade, uma expressão de pobreza e silenciosa superioridade humana. Mas ficou terrivelmente decepcionado. Ouvia as vozes e palavras, via os gestos e olhares mas como observava tudo, agora, através de uma visão animal nada mais encontrou senão uma sociedade degenerada falsa mentirosa, de criaturas ammalescas e feias que pareciam constituir o refugo de todas as outras espécies animais. Ziegler pôs-se a vaguear Pelo jardim, imensamente envergonhado de si mesmo A bengala de castão laqueado já fora há muito jogada para o meio doS arbustos. Seguiram-se-lhe as luvas. Mas quando arrancou o chapéu, descalçou as botas, tirou a gravata, e foi encostar-se soluçando, no tapume do cercado do alce, causou uma enorme admiração entre os visitantes de domingo, e foi internado num manicômio.

SOBRE O SOCIALISMO

“O socialismo não é apenas a questão operária ou do Quarto Estado, mas é sobretudo a questão do ateísmo, de sua encarnação contemporânea, a questão da Torre de Babel, que se construiu sem Deus, não para atingir os céus da terra, mas para abaixar os céus até a terra.” (Dostoiévski)