Funk e voto: um relato sobre a arte nas fronteiras da cidadania

Dia de eleição para prefeito e vereadores nas cidades brasileiras. Chego em casa por volta das 22h, ligo a tevê e vejo as notícias sobre a boca de urna, a vitória e a derrota de alguns candidatos no primeiro turno, os erros e os acertos das pesquisas eleitorais, etc. Estava exausta, mas ainda continuava a mil por hora. Tinha presenciado um marco histórico, que talvez passasse despercebido para a maioria dos indivíduos. Mas não para o grupo de pessoas que estava na 52ª Delegacia de Polícia de Nova Iguaçu: tanto para os presos provisórios, delegado e agentes carcerários, quanto para os amigos e profissionais do funk, para militantes do Movimento Sem-Terra, intelectuais e jornalistas de esquerda, aquela data ficaria na memória.

Pela primeira vez na história deste país, presos provisórios exerciam um direito que. Teoricamente, sempre tiveram: o direito ao voto. É cruel pensar que, ao mesmo tempo em que o Estado enuncia a cidadania para todos comete soturnamente um crime eleitoral, impedindo determinados sujeitos que têm direito ao voto de exercê-lo. Acredito que essa contradição mostra os silêncios que os termos “direito universal” e “igual para todos” evocam. É como se o espaço onde se exerce essa “universalidade de direitos” só se construísse pelo contraste com territórios de um “outro” que incorpora tudo aquilo que se opõe a uma pretensa “civilidade”. Territórios que são imaginados como zonas não habitáveis da vida nem sequer possuem status de sujeito.

A universalidade parece silenciar “indivíduos” e “territórios” não incorporáveis à lógica neoliberal, deixando prar eles apenas as caricaturas de seres perigosos que assombram a nação. Não foi, portanto, o pequeno número de votos dos “presos provisórios” daquela delegacia que transformou nossa tarde em marco histórico, mas um evento que, aos poucos, com o voto e com o funk, quebrou, por alguns momentos, essas fronteiras sociais silenciosas com seus inúmeros desdobramentos perversos.

Assim que chegamos à 52ª Delegacia, Orlando Zaccone, delegado e escritor, que coordena o projeto Carceragem Cidadã, explicou que, apesar de as duas celas serem divididas de acordo com a rivalidade entre as facções, não haveria problema para um MC, habitante de uma determinada favela dominada por certa facção, entrar na cela da facção “inimiga”. Aliás, complementou o argumento, dizendo mais ou menos assim: “aqui conseguimos milagre!! Uma facção emprestará o aparelho de som para a outra para que a Roda de Funk aconteça nas duas celas!!!”

Dali, já comecei a sentir um dos efeitos da arte, ou melhor, do funk e sua capacidade de comunicação na carceragem. Primeiro, que ironia: “inimigos” compartilhando algo como se fossem “amigos”! E, depois disso, ainda que com algum temor – ampliado pelo grande barulho que vinha das celas, e também pela expectativa de entrar em território desconhecido – , os Mcs decidiram que contariam em ambas as celas, independente do lugar onde moram. Afinal, como celebram nossos amigos funkeiros, “nós damos a festa só em troca de amizade”.

Nas celas, os Mcs tomaram palavra, mostrando que, para o movimento Funk, “não há neurose, pois a sua maior arma é o microfone”. Aos poucos nosso temor foi desaparecendo, à medida que alguns “presos provisórios”, embalados pelo batidão, entoavam juntamente com os Mcs os maiores sucessos do funk antigo. Fiquei mais uma vez perplexa com o poder das composições de funk produzidas na década de 1990. Atualmente, a política de criminalização do mercado de drogas ilícitas nas favelas chegou a tal ponto que enunciar a pertença a uma delas pode significar uma sentença de morte. Mas, nos raps dos anos de 1990, a palavra favela tem nome próprio, sem ser, no entanto, propriedade de ninguém!! Nas letras desses funks, o nome de cada favela aparece para destacar que todas elas são “morros sangue bom” onde a diversão é “baile funk, paz e amor” povoada por jovens que são, antes de tudo, funkeiros de uma mesma “massa de valor”. Mesmo com resistência e desagrado de algumas pessoas em entoar nomes de certas favelas, foi nesse clima que os Mcs mostravam que sua palavra cantada minava, aos poucos, as fronteiras simbólicas que interditam territórios como “perigosos” e transformam seus sujeitos em “esteriótipos demonizados”. Naquele dia, as pessoas eram muito mais do que o rótulo que elas carregam. Ainda que a condição insalubre do local nos lembrasse a toso o momento onde estávamos, o funk não só proporcionava interação direta entre todos, mas também instaurava outras possibilidades de existência para aquele local e para aqueles sujeitos. A gigantesca “classe de perigosos”, que povoa a grande mídia e, logo nosso imaginário, passava por inúmeras reformulações. Os “presos provisórios” transformaram-se em “plateia” ou até mesmo em mais um MC de funk. Vários sujeitos encarcerados, no momento da roda de funk, transformaram-se em Mcs. Em determinado momento, pensei que, caso não conhecesse cada um dos artistas de funk que foram até a delegacia, seria difícil distinguir quais os Mcs que estariam ali só para aquela visita e aqueles que estavam temporariamente encarcerados. Na verdade, a maioria possuía o mesmo “perfil sociológico”: negros, pobres e, provavelmente, moradores de favela. Isso reforçava não só a identificação entre eles, mas fazia com que aquela celebração também fosse motivada por uma luta, por uma causa.

Salgadinhos e refrigerantes circulando pelas celas reforçavam o clima de festa na carceragem, que foi coroada com a chegada de uma MC. Já de início o nome da artista foi ovacionado por toda plateia e a MC mostrou que sua sensualidade feminina também poderia ser encenada e cantada ali. Respeitosamente, a plateia dançava a MC e delirava. A felicidade transbordava nos sorrisos e na vibração de todos. A MC, que já era nossa Princesa do funk, na carceragem recebeu o título de Rainha e ganhou da plateia um pequeno origami de flores.

Como diz a letra de um funk, na prisão “uma hora é um dia, um dia é um mês e um mês é um ano”. Porém, naquela tarde, a emoção fazia desaparecer o tempo. Já estávamos havia, aproximadamente, quatro horas dentro das celas. Ao fim da festa, um dos amigos Mcs abraçava o outro e cantava o refrão de um funk que ali fazia todo sentido, ampliando a realidade: “Liberdade, meu irmão, paz e amor!! Sem isso naa, nesta vida, tem valor.”

Já era noite quando deixamos as celas. As grades se fecharam, fazemos parar o tempo para aqueles que ficaram do “lado de lá”. Ao chegar em casa, as notícias sobre o “ritual democrático brasileiro em dia de eleição” tornavam-se banais, pois não encontravam mais correspondência com a realidade. Naquela noite, as imagens da carceragem e a força do funk eram de tirar o sono. Lembrava da fala de um outro amigo Mc sobre o funk ser uma das maiores formas de comunicação da favela, pois, na carceragem, o funk transformou todos numa única “galera”, que ao som de um mesmo “bonde”, cantava o amor, as injustiças e, principalmente, o sonho da liberdade.

Trecho extraído do livro Funk-se quem quiser, de Adriana Carvalho Lopes, editora Bom Texto, 2011

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