UM CONTO, UMA HISTÓRIA, UMA POESIA

A REFEIÇÃO DO IMPERADOR

Que prefere o imperador à mesa? Em seu desconjuntado castelo entre as montanhas, o conde Beroquin Prenez se preocupava. Passando pelo vale com o bando dos seus paladinos, Carlos Magno dignar-se-á comer em sua casa. Assim mandou dizer.

O conde Beroquin é pobre, mas faz questão da velha honra. Preparará um banquete digno de Nero. Mas que prefere o imperador?Lá em cima, entre os despenhadeiros, estas coisas não se sabem.

Despacha alguns fiéis à cidade para se informar. Partem, voam à galope, à sua passagem tamanho é o turbilhão, que balançam as lanternas nas portas das hospedarias. Chegam, perguntam, logo estão de volta. Um deles diz ao conde:

– O imperador tem paixão por enguias.

– E você, o que soube?

E o segundo:

– Enguias – diz.

O terceiro, o quarto, o quinto confirmam.

Mas lá em cima nunca alguém viu enguias.O conde, que já é velho, chama o filho:

– Baldovino, você iria a toda velocidade até Chioggia?

O filho se inclina, nunca foram vistas cavalgaduras passar com tamanha rapidez por bosques e barrancos. Os pássaros que querem segui-lo bem cedo estão cansados. Dois dias e Baldovino está de volta. Traz doze enguias adultas, parecem as serpentes de Laocoonte.

Como no fundo do vale vê-se passar a grande nuvem de poeira levantada pelo cortejo de Carlos Magno, o conde chama o padre para que as enguias sejam abençoadas. Contudo, há tempo ainda. O imperador se deterá em outros três castelos situados mais abaixo para comer e descansar, antes de chegar a Prenez.

Até que chega o dia. Carlos Magno acorda contrariado, na noite anterior, à mesa, comera um pouco demais. Agora, senta na cama, com a boca torcida, e dá um arroto:

– Enguias – exclama -, sempre enguias, que vão para o inferno… Se hoje à noite me servirem mais enguias, juro… Fá-los-ei decapitar.

Aproxima-se da janela, escancara os vidros, olha para baixo o imenso vale. Contra o sol, sobre um penhasco, surge o castelo de Prenez. Das chaminés sai uma fumaça branca.

– Enguia – murmura ainda, com desgosto -, maldito bicho. Se me oferecem enguias, mandarei matar a família inteira… Pai, filho e empregados… E antes, um belo suplício.

(Dino Buzzati, em Naquele Exato Momento)

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