DESABAFO DO ADULTECENTE SOBRE CRIANÇAS, ACIDENTES E O ‘XOPS’

Chegará o dia, cremos, que a criança, esse ser insubmisso, será responsabilizada civil e criminalmente por sua insubordinação e petulância. Onde já se viu, querer ser criança? E no templo maior da religião do consumo, o Shopping? Absurdo!

Os pais, estes sim, pobres vítimas, despreparados para lidar com essa força da natureza, são os que mais padecem. Imaginem que se cobra deles que exerçam o exaustivo papel de cuidadores (logo no momento de lazer, em que suas habilidades cognitivas são atraídas pelo lusco-fusco das vitrines, do ambiente climatizado, pela quase-absoluta padronização dos estímulos sensoriais, tendo como finalidade aguçar a carência afetiva, logo compensada pela operação miraculosa do ato de consumir!). Eles, que trabalham arduamente durante a semana, não terão o direito de trocar o dinheiro suado por um pouco de compensação para suas frustrações e limitações afetivas? E ainda precisam bancar o adulto, se responsabilizar por outra vida? “Ao diabo se foi de mim que nasceste! Eu não pedi para nascer!”

Parece que tampouco são suficientes as iniciativas – louváveis, enérgicas na tentativa de incluir, cada vez mais cedo, os curumins e cunhantãs na ordem do consumo, no reino das aparências – de especialistas em marketing e indústria do entretenimento. Foi-se o tempo em que esse papel era de pedagogos, educadores e psicólogos. Muitos destes, aliás, respiram aliviados em ter seu trabalho facilitado (substituído?) pelos filmes infantis e pelos jogos educativos. Hoje, os especialistas são unânimes: quanto mais rápido se incluem os pequenos na arte de substituir a função social do objeto pela equivalência absoluta da mercadoria, menos problemas ocorrerão. Exemplo claro dessa iniciativa, a revista suprassumo da moda, a Vogue Kids, injustamente censurada pelo MPF pelo seu editorial, que continha fotos sedutoras de cunhantãs. Para a justiça, “as poses são explicitamente sexualizadas. (…) transforma a menina numa mini-adulta, promove sua objetificação, e estimula os valores de consumismo, futilidade, modismo, beleza padronizada, maquiagem como necessidade, adesão a marcas“. Ora, se a sexualidade domesticada, o erotismo castrado, a objetificação e os valores supracitados são justamente os pilares da sociedade de consumo que construímos para nós! Faz-nos rir!

O trabalho dos educadores para o consumo (aquela gente valorosa da indústria do entretenimento e do marketing) é árduo, muitas vezes desprezado ou não reconhecido! Ou acha o leitor que não dá trabalho estudar as leis e princípios da psicologia da percepção, as hierarquias de necessidades, os mecanismos de compensação às frustrações, para criar brinquedos espetaculares, vitrines mais belas que a alvorada, peças publicitárias de encher de lágrimas a criança frustrada que um dia fomos (e ainda somos)? E ainda ter que lidar com crianças resistentes! Que insistem em serem crianças! Essas impertinentes exploradoras do mundo, ávidas pelo novo, numa relação isenta de censuras e limitações, num projetar-se ao mundo de forma oblativa (há coisa mais constrangedora para um adulto emocionalmente censurado que uma criança sendo… criança?!). Felizmente a justiça ainda não se insurgiu contra as coleiras e focinheiras infantis, criadas para aliviar (vejam bem, aliviar!) o sofrimento dos pais, que levam ao shopping seus filhos bem amarrados e contidos. Mas tememos que em breve os promotores resolvam dar atenção a esta prática, já que em tempos não muito distantes proibiram a camisa-de-força. Por que não vão caçar corruptos, ao invés de se meter no nosso soberano modo de educar os filhos como bem entendermos?

Quando todos estes mecanismo falham, e a criança insiste em ser criança, o mundo de segurança vendido pela sociedade de consumo desaba. Aí, é criança despencando dos andares superiores de shoppings, sofrendo ferimentos e mutilações nas escadas-rolantes. Acidentes em um mundo que nos foi vendido como à prova de acidentes. Crianças que insistem em direcionar sua curiosidade e sua propensão natural ao aprender e desbravar o mundo para outros estímulos que não àqueles feitos “sob medida” para elas. Seria preferível até se comportar como o pequeno consumidor que deveriam ser, chorando e guinchando em altos decibéis, enquanto aponta inquisitivamente o dedo para um brinquedo. É menos constrangedor.

E não adianta culpabilizar os pais, ou processar o shopping: essas crianças – causas perdidas! – continuarão a se insurgir contra o reino das emoções padronizadas e da tristeza transformada em impulso consumista.

Mas o dia em que se punirá as verdadeiras culpadas, cremos, não tardará a chegar. Alguns candidatos a presidente já defendem esta ideia em seus programas de governo. Óbvio que se referem aos pobres, que sequer direito a frequentar nossos templos, têm. Mas quem sabe um dia, um juiz, promotor ou ministro do STF se compadece, e um caso de acidente envolvendo uma criança muito hiperativa num shopping, decida encarcerar quem tem a real culpa por tudo: a criança.

Aviso aos incautos: texto contém doses de ironia e sarcasmo. Não leia se tiver mais de 500h/ano em corredor de shopping.

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