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FOUCAULT MANDA BEIJINHO PRO RECALQUE

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Michel Foucault, diretamente do Baile Funk-Filosofia, manda um recado para os bem-pensantes recalcados que se acreditam superiores à Valesca Popozuda:

“Parece-me que, tradicionalmente, o intelectual politiza-se a partir de duas coisas:

(i) de sua posição de intelectual na sociedade burguesa, no sistema de produção capitalista, na ideologia que a sociedade capitalista produz ou impõe (ser explorado, reduzido à miséria, rejeitado, ser “maldito”, acusado de subversivo, de imoral etc.); e (ii) o próprio discurso do intelectual, que revela alguma verdade, que descobre relações políticas onde, antes, nada se via. Essas duas formas de politização não eram estranhas uma à outra, mas também não coincidiam necessariamente. Havia o tipo “intelectual maldito” e o “socialista”. Essas duas politizações muito facilmente se confundiram em alguns momentos em que o poder reagiu violentamente – depois de [18]48, depois da Comuna, depois de 1940. O intelectual foi rechaçado, perseguido, no preciso instante em que “as coisas” estariam aparecendo “de verdade”; no momento em que não seria preciso que alguém dissesse que o rei estava nu. O intelectual, nesses momentos, estaria dizendo a verdade a gente que ainda não estaria vendo a verdade; e o intelectual falaria em nome dos que não podiam dizer a verdade: seriam a consciência e a eloquência.

Ora, depois da recente avalanche os intelectuais descobriram que as massas não precisam deles para saber; que as massas sabem claramente, precisamente, muito melhor que os intelectuais. E que sabem afirmar extremamente bem o que sabem. Mas há um sistema de poder que proíbe, que impõe obstáculos, que invalida esse saber e esse discurso. É poder que não está só nas instâncias superiores da censura, mas que também se funde mais profundamente, mas sutilmente, em toda a malha social. Os próprios intelectuais são parte desse sistema de poder. A ideia de que os intelectuais seriam os agentes “da consciência” e do discurso está incluída nesse sistema de poder.

O papel do intelectual não é situar-se “um pouco à frente” ou “um pouco à margem”, para daí dizer a verdade de todos, verdade a qual, sem os intelectuais, permaneceria muda. Trata-se, sobretudo, de lutar contra as formas de poder em todos os pontos nos quais o poder é, ao mesmo tempo, o objeto e o instrumento: na ordem do “saber”, da “verdade”, da “consciência” e do “discurso”.

Nesse sentido, a teoria não expressa, não traduz nem é aplicação de uma prática: a teoria é uma prática. Mas é prática local e regional, como você diz, não é prática totalizadora. Luta-se contra o poder, luta-se para fazê-lo aparecer e golpeá-lo nos pontos em que o poder é mais invisível e insidioso. Não se luta por alguma “tomada de consciência” – já faz muito tempo que as massas tomaram consciência, como saber; e também já faz muito tempo que a burguesia tomou, ocupou, a consciência, como sujeito. Luta-se, isso sim, para nos infiltrarmos no poder e tomar o poder, ao lado de todos os que lutam também por isso. Ao lado. Não afastados, a uma distância da qual os intelectuais iluminariam as massas. Cada sistema regional dessa luta é “uma teoria”.”

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