JORNAL CATARSE: A MUDEZ E O SILÊNCIO DE MEY-LEE: A BANALIDADE DO MAL

           

JORNALCATARSE

Número 31  – Março de 2014                                                      beneditojfc@hotmail.com.br

 

SOCIOLOGIA NO AMAZONAS:  CONTRADIÇÕES E DESAFIOS

                              Benedito Carvalho Filho  

É incomum (e raro) que uma revista de publicação nacional volte sua atenção para a educação na região Amazônia, particularmente para o Estado do Amazonas. Por isso, foi muito salutar a iniciativa que a revista Sociologia, publicada pela Editora Escala Educacional, tenha aberto espaço para que um sociólogo daqui de Manaus, falasse sobre o estado do ensino da sociologia nessa importante região do país.

O sociólogo entrevistado foi o professor da UFAM, Marcelo Seráfico de Assis Carvalho, doutor nessa área de conhecimento, que levantou questões importantes sobre o passado, o presente e o futuro das ciências sociais nessa imensa região, muitas vezes tão falada, mas pouco conhecida no restante do país.

Não vamos editar a longa entrevista do professor Marcelo, publicada na revista, pois o leitor pode encontrar nas bancas de jornal.  Procuraremos enfatizar somente alguns aspectos que consideramos importantes para o debate tão necessário nesse momento, trazendo contribuições de outros pesquisadores, como Ênio Candotti, do Departamento de Física da Universidade Federal do Amazonas e diretor do Museu da Amazônia, que publicou um longo artigo no jornal A Crítica, no dia 28 de fevereiro de 2014, chamado Ciência ainda que tarde.

 A nossa intenção é contribuir com o debate tão necessário neste momento em que, ao mesmo tempo em que esse campo de conhecimento se institucionaliza, encontra desafios e enormes dificuldades  quando se trata  de compreender as condições de ensino e pesquisa, como nos mostra o Marcelo Seráfico.

O SURGIMENTO TARDIO DA SOCIOLOGIA NO AMAZONAS

Seráfico comenta sobre o surgimento tardio do Curso de Ciências Sociais no Amazonas, criado em 1987 (27 anos atrás), no momento em que o país saía de uma longa ditadura militar que deixou marcas profundas na sociedade brasileira.

As Ciências Sociais no Amazonas surge numa conjuntura em que os principais ícones do pensamento social brasileiro voltavam de um longo e prolongado exílio, em um momento em que esse campo de conhecimento dava os seus primeiros passos rumo à construção de um saber mais sistematizado e científico da sociedade brasileira que se modernizava e institucionalizava.

O que era o Curso de Ciências Sociais criado na UFAM neste período?

 Afirma Seráfico:

“Ele foi constituído por professores vindos de várias áreas de conhecimento, como Literatura, do Serviço Social e da Filosofia. Esses mesmos professores saíram para realizar seus estudos de pós-graduação em outros estados do Brasil, principalmente São Paulo, ainda no final daquela década”.

Ou seja, as Ciências Sociais surgiu aqui tardiamente e isso tem muito a ver com as condições históricas da região, pois como nos mostra o sociólogo Florestan Fernandes a explicação sociológica pressupõe certa intensidade e coordenação dos efeitos produzidos por processos sociais, na esfera da secularização das atitudes e na racionalização dos modos de compreender a existência humana ou o curso dos eventos histórico-sociais, que passam a exigir um complexo institucional e estrutural, que se formou e se desenvolveu, nas sociedades europeias e nos Estados Unidos, em conexão com a formação e o desenvolvimento da ordem capitalista. (Florestan Fernandes. A Sociologia no Brasil. Editora Vozes, 1977).

 Ou seja, seguindo as reflexões de Fernandes, poderíamos dizer que as condições de possibilidades para o aparecimento da sociologia se vinculam a necessidades intelectuais de explicação do comportamento humano e do mundo, que possuem  origem histórico-social e o sentido de uma mudança cultural.

Esse fato nos permite compreender por que o desenvolvimento tardio das Ciências Sociais aqui na Amazônia só se tornou possível devido à expansão do capitalismo e as mudanças que já vinham ocorrendo antes mesmo da ditadura, desde os anos 20.

No entanto, somente na segunda década de 60 ocorreu, com a abertura de estradas, como a Belém-Brasília (inaugurada em 1961, ligando o Pará ao Centro-Sul) que a Amazônia se integrou ao restante do país.

Esse processo se acelerou  na década de 70-80, quando essa imensa região passou a ser, como afirma o sociólogo paulista, José de Sousa Martins, a última fronteira do mundo, o último recanto da terra em que povos desconhecidos estavam na iminência de um contato catastrófico com forças corrosivas e genocidas da chamada civilização, ou mais corretamente, da sociedade moderna ( José de Sousa Martins, A Sociologia como aventura, Editora Contexto, São Paulo, 2013, p.152).

Essa ocupação predatória desarticulou a economia tradicional da região, desenvolvendo políticas autoritárias e concentradoras de renda que excluíam ou ignoravam a vida, a cultura e os interesses das classes pobres rurais e urbanas da Amazônia, pois se tratava de aproveitar as oportunidades para atrair a aplicação do capital internacional, abrindo espaços para a sua reprodução em novas fronteiras de expansão econômica.

Não foi sem razão, por exemplo, que no Pará, onde o capital se fez inicialmente mais presente e de forma mais ostensivo e acelerado, que tenha surgido o curso de Ciências Sociais durante a última década de 1960, no momento em que o Estado criou uma série de instrumentos de atração de capitais através dos incentivos fiscais que possibilitaram a grande transferência do grande capital (nacional e estrangeiro) para a região.

Não foi por acaso, também, que em Belém do Pará foi criado o primeiro curso de pós-graduação em Ciências Sociais, no início dos anos 70, hoje chamado de Núcleo de Altos Estudos Amazônico (NAEA).

 

O curso de Ciências Sociais no Amazonas, como afirma Marcelo Seráfico, foi criado somente em 1987, formando a sua primeira turma em 1988, não somente pela falta de vontade política das elites locais, mas porque essa vasta região do país ainda estava pouco integrada à nova lógica do capital.

 

 Como demonstra Marcelo Seráfico no seu livro sobre a Zona Franca de Manaus (Globalização e Empresariado – Estudo sobre a Zona Franca de Manaus) foi ao longo dos anos 1870 e 1912 que o Amazonas se inseriu nas relações capitalistas, mas isso tomou novo impulso somente com a Operação Amazônia, durante a ditadura militar, quando essa região passou a ser o foco de atenção do Estado.

Quando os primeiros professores da UFAM ligados ao curso de Ciências Sociais saíram para realizar seus estudos de pós-graduação em outros estados do Brasil, principalmente São Paulo, ainda no final daquela década (1980), encontraram centros universitários, como a USP, por exemplo, numa outra fase, depois do longo período ditatorial que exilou os seus principais quadros, que vinham produzindo desde os anos 30 na Escola Livre de Sociologia e Política estudos orientados pela sociologia americana. Posteriormente, foi criada a Faculdade de Filosofia e Ciências e Letras (1934), de influência francesa, fundada por Armando Salles Oliveira, adotando uma postura crítica em relação à realidade brasileira, desenvolvendo a pesquisa de forma original e autônoma voltada para uma maior compreensão crítica da realidade brasileira. 

Foto Universidade de São Paulo

Muito desses professores, que, em ocasiões diversas tiveram contato com os antigos professores na sua volta do exílio, como observa Seráfico na entrevista, estão aposentados, ou estão se aposentando, e, por isso, a universidade tem dificuldades em repor esses quadros, por razões diversas, uma delas é de ordem geográfica. Não é por acaso que é muito pequena a demanda de pessoas com doutorado que decidem vir para Manaus, pois, além da distância, eles levam em conta o alto custo de vida na cidade.   

Devido o déficit de professores, o Departamento de Ciências Sociais, tem, muitas vezes, que contratar em regime de urgência professores substitutos para dar conta das demandas que surgem das várias áreas de humanidade.  

Nas regiões sudeste e sul do país se encontra o mais significativo número de professores qualificados (mestres, doutores). Também as verbas para a pesquisa e a formação de novos profissionais são escassas e dependem principalmente do governo federal e de suas agências financiadoras.

 

AMAZONAS, UM “VASTO LABORATÓRIO” CARENTE DE PESQUISAS

 

 

Marcelo Seráfico afirma na sua entrevista que a Amazônia, e, em especial o Amazonas, “dispõe de um vasto laboratório”, pois, aqui, “concentra-se enorme quantidade de etnias, de unidades de gestão territorial específicas – terras indígenas e unidades de conservação -, bem como experimentos capitalistas sui generis, como a Zona Franca de Manaus”. Mas reconhece, que “defrontamo-nos com os problemas das desigualdades regionais e da necessidade de (…) reconstruir a própria história da produção de conhecimento sobre a região e o Estado amazonense”.

Mas será que o problema é só esse?

No momento em que tivemos contato com  a entrevista do professor  Marcelo Seráfico não pudemos deixar de lembrar do oportuno artigo do professor Ênio Candotti, do Departamento de Física da UFAM e coordenador do Museu da Amazônia, que toca em questões importantes para a nossa reflexão e que, em nossa opinião, têm muito a ver com as reflexões do Marcelo.

 

É verdade, como afirma o professor Marcelo, que o Amazonas “dispõe de um vasto laboratório”, mas, o que  adianta possuirmos tudo isso se não termos as condições objetivas para pesquisa-la e colocar essa riqueza a serviço da população local e contribuir para o desenvolvimento do país?

 

A ausência dessas condições objetivas foi muito bem analisada pelo professor Candotti, quando reconhece que “os cursos de pós-graduação no Amazonas têm sido avaliados pela CAPES MEC e CNPq MCTI em níveis que não correspondem aos alcançados por instituições congêneres de estados com PIB semelhante ao nosso”.

Ou seja: temos o sexto PIB do país. Mas o que isso representa em termos de desenvolvimento da região?

Afirma o professor:

“Considerando que os recursos destinados para P&D, pelas leis que regulam a tributação na Zona Franca, são mais de R$ 1 bilhão por ano, a incômoda avaliação deve nos preocupar. Compromete o futuro do Amazonas e a saúde da indústria instalada”

   Distrito Industrial de Manaus

Em seguida, constata:

“Encontramos, em Manaus, 13 pesquisadores nos três níveis mais elevados do CNPq. Cinco, entre os quarenta e dois cursos de pós-graduação avaliados tem nível 5, um apenas tem nível 7 (o mais elevado). Em estados com PIB semelhante (sem o bilhão da Zona Franca) estes números são pelo menos duas vezes maiores.”

Outra observação que merece uma reflexão mais aprofundada diz respeito à relação da Zona Franca com a pesquisa e o desenvolvimento.

Segundo ele, “estão previstos para a região Norte nos próximos dez anos investimentos da ordem de R$ 200 bilhões em hidrelétricas, linhões, portos, mineração, etc. (destes, 100 bilhões são do BNDES).”

E pergunta:

 

“O que está sendo planejado pelas associações industriais para fixar aqui uma parcela destes investimentos, através de empresas de engenharia de consultorias e projeto (de portos fluviais, por exemplo), para evitar que a nossa contribuição se limite a fornecer mão de obra para as construções?”

 

Candotti, no seu artigo faz três sugestões, que, segundo ele, “podem contribuir para um sereno diagnóstico da política industrial e P&D, muito preocupada com os incentivos fiscais e muito pouco com a formação de quadros técnicos e científicos capazes de liderar o aggiornamento do Polo Industrial e o Sistema de Produção de Conhecimento da Biodiversidade Amazônica”.

Aponta:

  1. “As Universidades e as instituições de pesquisa Científica e Tecnológica do Amazonas deveriam gozar de maior autonomia financeira e de pesquisa;
  2. Seria oportuno submeter projetos financiados com recursos destinados a P&D pela Suframa a uma severa avaliação técnica independente, antes e depois de sua efetiva realização;
  3. A preocupação recorrente em financiar prioritariamente projetos de interesse da indústria deveria ser repensada cum grano salis. Não há notícia na história do sistema produtivo, nacional ou internacional, de desenvolvimento promovido – apenas – pela pesquisa aplicada. O mercado é combustível, não o motor. O caldo científico-cultural, que permite a formação de quadros de elevado nível, tanto científico como tecnológico, exige fomentar, além das pesquisas aplicadas, também as pesquisas básicas (pelo menos em algumas áreas)”.

Candotti cita alguns exemplos:

“Em física da luz, fisiologia de plantas e animais, venenos, história, antropologia. Pesquisas estas que revolucionaram as paixões dos mercados. A Internet e os celulares não foram encomendados pela indústria, nasceram nos laboratórios de física que estudam os segredos da estrutura da matéria.”

Outro exemplo:

“Queremos construir um instituto dedicado ao estudo e aplicação dos produtos naturais da biodiversidade (como, por exemplo, o Centro de Biotecnologia da Amazônia) deveríamos nos preocupar em dar a ele uma liderança científica, com credibilidade nacional e internacional, capaz de orientar as pesquisas básicas (voltadas a ampliar os conhecimentos da biodiversidade), a formação de profissionais especializados (através da pós-graduação de elevado nível) e liderar também as pesquisas aplicadas de interesse de mercado”.

Segundo Candotti, “é isso que ocorre em todos os centros que frequentemente mencionamos como exemplos: o MIT, a UNICAMP, a COPPE etc. (que curiosamente nasceram na mesma época que nossas empresas procuraram responder aos desafios da inovação e da competitividade).”

Para ele, “as avaliações da CAPES e do CNPq apontam inconsistência entre o nosso PIB, os investimentos em P&D e a qualificação do sistema de formação de recursos humanos especializados. As diretrizes políticas da Suframa/MIDIC para P&D que orientam prioritariamente a destinação de mais de um bilhão por ano (!), em projetos de interesse das próprias indústrias, parecem não sinalizar contradições no sistema”.

Diante as contradições apontadas por Candotti,  é evidente que se não houver mudanças substanciais no modelo em vigor na Zona Franca de Manaus, mesmo com o processo de “institucionalização das Ciências Sociais” dificilmente ocorrerá o que Marcelo chamou de “inserção dos profissionais das Ciências Sociais em atividades de pesquisa, ensino, assessoria e consultoria, tanto em entidades públicas quanto privadas”, porque, a Zona Franca, sendo um enclave voltado para fora,  não tem o mínimo de interesse em qualificar a utilizar  os seus recursos humanos.

É evidente que há desafios enormes para que as Ciências Sociais se afirme no Amazonas, tanto no plano da pesquisa (pois sabemos que sem investimento econômico ela não pode existir), como no que diz respeito à capacitação de seus quadros para desenvolver, como diz Marcelo Seráfico, uma “sociologia crítica” voltada para a realidade da região.

E sabemos que, atualmente, enfrentamos, tanto na capital como no interior, problemas graves, como a geração de emprego e renda, o enorme êxodo rural responsável pela explosão urbana da cidade de Manaus e sedes municipais. A violência, o consumo e a venda de drogas, o desemprego e tantos outros problemas que estão aí diante de nossos olhos, e que, muitas vezes, são pouco estudados e debatidos na universidade, tanto por falta de recursos para desenvolver pesquisas, como por falta uma sensibilidade capaz de ampliar o debate com a sociedade e suas elites, que parecem deslumbradas com as transformações operadas pela Zona Franca, sem questionar o modelo existente.

Marcelo Seráfico, na sua entrevista, mostra-se preocupado com “a intensificação da especialização, com os alunos, induzidos, muito cedo, a escolher uma área de atuação, um tema e, o que não é incomum, um orientador com o qual trabalharão o resto da vida”

Para ele “isso é um equívoco que não é aleatório, pois tem a ver com o ritmo industrial que tomou a atividade intelectual”. Ou seja, Marcelo Seráfico, segundo pudemos compreender, está preocupado com o que ele denominou de “teias burocráticas”, que é na atualidade a tragédia das universidades brasileira, principalmente quando ela se fecha sobre si mesma é perde a sua criatividade, seu espírito crítico a torna-se incapaz de pensar a  realidade onde ela está inserida.

Certamente quando se refere ao “ritmo industrial que tomou conta da atividade intelectual” está pensando na fragmentação do conhecimento, nessa concorrência frenética para produzir artigos e teses levando em conta somente os aspectos quantitativos, sem a preocupação de contribuir para o debate crítico de nossa sociedade cheia de dilemas e contradições.

Não é sem razão que muitos críticos da universidade brasileira têm afirmado que o debate crítico atualmente não passa mais pelo ambiente universidade, cada vez mais voltada para si mesmo e para a administração de sua burocracia.

Atualmente, como observa Marcelo, o que vemos são “os grandes projetos de hidrelétricas e seus efeitos sobre enorme contingentes de trabalhadores que habitam as áreas em que serão implantadas e cidades inteiras que nascem ou se desenvolvem a custa da fenomenal, e silenciosa mobilização da força de trabalho

Em boa medida – afirma – os estudos sobre, por exemplo, a construção de gasodutos, como o que vai de Coari a Manaus, no Amazonas, ou obras como a Transamazônica, revelam, às vezes claramente, às vezes não, os dramas e a tragédia humana implicados pela expansão das fronteiras de acumulação do capital na Amazônia.” 

Por isso toda a Amazônia “convive atualmente com fortes conflitos, a acelerada migração interna, a atração de populações desprotegidas e não aculturadas, que vivem como nômades ou errantes e que não conseguem se fixar dentro do enorme espaço amazônico, que lhe é, a um só tempo negado e estranho; a distribalização e morte de índios, a desestruturação da vida social e econômica de seus antigos moradores; o desenraizamento dos grupos, a perda da identidade cultural e a deterioração de relações sociais; o surgimento de bolsões de miséria e favelização crescente de centros urbanos, dos quais os governos municipais e estaduais não conseguem dar conta; os problemas ambientais decorrentes da exploração abusiva e predatória dos recursos naturais; a crise econômica dos grandes projetos; o menosprezo e o desrespeito pela diversidade, complexidade, a fragilidade e a superabundância da natureza amazônica; e o caráter autoritário e lesivo das políticas públicas para  a região, puseram em questão e estabeleceram uma crise no interior e na coerência do modelo de desenvolvimento vigente”. (Violeta Rafkalefsky Loureiro, (Amazônia: Estado-Homem-Natureza, Editora CEJUP, Belém-Pará, 1992, p. 356-357)

 

ZONA FRANCA, PARA QUEM?

 

O PIB (Produto Interno Bruto) de Manaus, segundo o IBGE é apenas 23º entre as 27 capitais, mais o Distrito Federal. Só ficamos à frente de Porto Velho, Macapá, Rio Branco e Maceió, o que significa que a renda geral no Polo Industrial de Manaus não permanece aqui, não gera riqueza, nem sustenta o processo de crescimento econômico.

Nesse momento  a Zona Franca de Manaus completa 47 anos (foi criada desde 1967) e sofre sérios questionamentos por parte da União Europeia  e de setores da burguesia industrial brasileira, percebe-se que o debate fica circunscrito ao meio empresarial, principalmente aqueles interessados pela chamada “perenização” desse modelo econômico, como se isso dependesse somente da decisão do Estado e não das forças econômicas dos grandes grupos das multinacionais aqui instaladas.

 Esse debate é antigo. Não é hoje que a Zona Franca vem sendo questionada. No livro publicado em 1977 pelos sociólogos Fernando Henrique Cardoso e seu colega G. Muller, (Amazônia: Expansão do capitalismo, Editora Cebrap & Brasiliense, 1977, São Paulo) já perguntavam: a que preço se dá esse crescimento? Para quem?

O jornalista paraense, Lúcio Flávio Pinto, num artigo cujo título era Belém x Manaus: rivalidade cega. (In Amazônia Sangrando (de FHC a Lula – Edição Jornal Pessoal, 2009, Belém-Pará, já constatava: .  

 

Na verdade a industrialização da Zona Franca de Manaus vem sendo realizada a alto preço: o esvaziamento da agricultura e a desorganização social e urbana parecem criar efeitos muito mais prejudiciais do que a renda e os empregos que surgiram nos últimos oito anos, incapazes de acompanhar o ritmo de crescimento demográfico

Em seguida afirmava:

A industrialização “fantasma” de Manaus – pois, de fato, trata-se de linhas de montagens de bens de consumo durável (rádio, TV, etc) – responde, antes de tudo, ao perfil de renda do centro-sul do país, extremamente concentrado, do que a situação local e regional para a qual, afinal de contas, a zona Franca foi criada. (p. 105).

E conclui:

A ida desse capital para a Amazônia – por conseguinte, a implantação do ciclo do capital com obediência a volumes e velocidades de reprodução novos – tem em vista atender os problemas suscitados pela acumulação nucleada no sul, os quais aparecem registrados no Balanço de Pagamentos.  

Para concluir, perguntamos:

A Universidade Federal do Amazonas e sua elite intelectual estão enfrentando os debates que estamos vivendo na região?

Se a Sociologia, como afirma Marcelo Seráfico, é “um meio de esclarecimento e de mudança social” ela está, de fato, empenhada nesse debate?

   

A MUDEZ E O  SILÊNCIO DE MEY-LEE:  A BANALIDADE DO MAL

                                Benedito Carvalho Filho

Na sexta-feira do dia 28 de fevereiro de 2014, em pleno carnaval, o jornal A crítica, da cidade de Manaus estampa na primeira página um crime que deve ter chocado muitos cidadãos desse Estado. Três jovens, um de 24, outro de 20 e terceiro de 26 anos, foram acusados dos crimes de estupro, assassinato e vilipêndio ao cadáver de uma adolescente de 17 anos, que foi encontrada morta e um terreno baldio, no centro da cidade.

A moça, que era surda-muda, foi estuprada e assassinada por esganadura por um deles, e, depois de morta, dois deles tiveram relações sexuais com o cadáver de sua vítima.

Segundo o noticiário, um dos assassinos, ao ser pego pulando o muro, narrou friamente o delito: nós tentamos reanima-la, mas ela já estava morta e acabamos tendo relações sexuais com ela, mesmo sabendo que estava morta.

Logo abaixo dessa estarrecedora e chocante notícia, o mesmo jornal informa que em um ano, 24 pessoas foram assassinadas no Centro. O medo das pessoas circularem por esse espaço cada vez mais degradado da cidade aumenta. No ano passado – informa o jornal – a média de roubos aumentou (200 por dia) e é grande o tráfico de drogas.

 

Poderíamos consultar todos os jornais que circulam em Manaus e outras capitais do país e perceberíamos como os crimes, especialmente aqueles mais bárbaros, como os citados acima, vêm se naturalizando e logo são “esquecidos”.

 

Estaríamos vivendo aquilo que a filósofa alemã Hannah Arendt (1906-1975)  chamou de banalidade do mal? O que leva, por exemplo, três jovens drogados assassinarem uma menina surda-muda e, ainda, terem relações sexuais com seu cadáver?

Olho as fotos no jornal desses três jovens vestidos de bermudas, cabelos pintados, vivendo a vida nua a que se refere G.Agamben, no seu livro chamado, Homo sacer.

Penso no funesto destino desses jovens que, certamente, serão transformados, depois de passarem pelas infectas e degradantes prisões brasileiras, em monstros, se conseguirem sobreviver naquele covil, pois não podemos esquecer que a grande maioria dos que morrem vítimas de violência nesse país tem entre 15 a 24 anos, ou 15 a 29 anos. São, em geral, pobres do sexo masculino, moram em bairros menos valorizados, e, frequentemente, são negros. 

Penso na surdez e no silêncio impotente da menina que, por ironia do destino, era apelidada pelo nome estrangeiro: Mey-Lee. Quantas Meys-Lees não circulam pelas cidades de nosso país e outras terras?

 

 Penso, também, na nossa surdez e no nosso silêncio mortal diante de acontecimentos como esses, que, muitas vezes, ocorrem tão perto de nós e silenciamos e permanecemos mudos porque não conseguimos explicar e dar sentido a essa violência, e, por isso, nós tornamos frios e insensíveis, fazendo de conta que eles não existem, pois o mal está sempre nos outros e não em nós mesmos.

É só observarmos o que ocorre ao nosso redor e lermos as manchetes dos jornais, assistirmos as reportagens policiais na TV com seus âncoras histéricos fazendo apologia da pena de morte, como se isso fosse resolver as tragédias de nosso cotidiano. No meio de tudo isso, não enxergamos e escutamos, apesar de ouvirmos e comentarmos em casa, com a mãe,  pai e irmão e irmãs, colegas, vizinhos e professores as frequentes notícias de violência que paira sob as cidades, onde advertem:

 

De dia, ande na rua com cuidado, olhos bem abertos. Evite falar com estranhos. À noite, não saia para caminhar, principalmente se estiver sozinho e seu bairro for deserto. Não estacione, tranque as portas do carro e não se esqueça de levar o som consigo. De madrugada não pare no sinal. Se for assaltado não reaja – entregue tudo.

 

Na sociedade em que vivemos,  (Manaus), que tem o sexto PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil, e, em contrapartida um dos piores Índices de Desenvolvimento Humano (é apenas o 23º entre as 27 capitais do país) não é exagero dizer que todos nós vivemos sob constante riscos, seja de morte violenta, como aconteceu com  Mey-Lee, seja dos assaltos que ocorrem à luz do dia ou à noite.

Estamos todos com medo, sobressaltados. Por isso, os fins de semana, sobretudo nas sextas-feiras e nos sábados, os riscos são maiores,. Mas, curiosamente, nunca achamos que algo vai acontecer conosco, pois usamos, sem perceber, mecanismo de defesa, racionalizando, para nos proteger da enorme ansiedade que nos atormentaria ainda mais se ficássemos 24 horas por dia ligado nos perigos que enfrentamos no nosso cotidiano.

Voltando ao crime cometido pelos rapazes citado acima, tento compreender o que leva uma pessoa a cometer atos tão bárbaros como esse, que já se tornaram comuns nos noticiários policiais. Nesse caso, o que se torna visível nesse crime macabro é o uso de drogas. Os jovens, não só das camadas mais pobres da sociedade, mas também da classe média e alta, estão se drogando desbragadamente.

Os três jovens estavam fora de si. e, nas suas despossessões, passaram diretamente ao ato, assassinando a adolescente e, o que torna esse crime mais macabro, usando o cadáver da menina para o ato sexual. Aí temos diante de nós uma perversidade necrófila que não sabemos explicar.

Antigamente a maioria dos criminosos, jovens e adultos, quando usavam a violência para assaltar,  desejavam o objeto (ou dinheiro) da vitima.  Na atualidade, percebemos que a violência é direcionada para o corpo da vítima, com o desejo instintivo de matar ou fazer sofrer o semelhante, passando diretamente ao ato, sem mediação simbólica. É a pulsão de morte, segundo a terminologia freudiana, marcando a sua presença na vida social.

A crueldade, tal como se manifesta, parece adquirir novos contornos na sociedade contemporânea e ocorre nos vários espaços da vida social, como temos visto nos últimos tempos não só no Brasil mas em todo o mundo.

Qualquer observador que vive nas cidades percebe a espantosa violência: a violência contra a pessoa; a violência no trabalho; a violência no trânsito; a violência da escola e da cultura; a violência das discriminações; violência nos esportes; violência nos serviços de saúde; violência policial; violência contra o patrimônio e assim por diante.  

 Como compreender a violência contemporânea? Será que estamos nos referindo à mesma linguagem quando falamos em violência? Como ela se manifesta hoje?

Sabemos que a violência sempre fez parte da história das sociedades humanas, com seus desfiles de horrores e barbaridades. Guardamos na memória as atrocidades das guerras, os holocaustos que dizimaram (e ainda dizimam) milhões de cidadãos, mesmos em continentes que se diziam civilizados, como a Europa, o berço da razão e do iluminismo que influenciou sociedades e nações de todo o mundo.

É inegável que a agressividade e a violência dominam a trágica cena da atualidade, mas as causas da violência, no entanto, nunca se devem a um único fator, mas sempre a um conjunto de fatores em contextos precisos, seja no presente, seja na história.

Não compreenderemos o seu significado sob uma única perspectiva, por isso, várias hipóteses podem ser formuladas, advinda de diferentes campos do saber, como  a economia, o direito, as ciências sociais, a filosofia e a psicanálise, pois estamos nos confrontando com uma problemática interdisciplinar, dada a complexidade do que está em pauta

Um fato pode-se constatar: a subjetividade nos tempos em que vivemos vem se alterando bruscamente, fazendo com que surjam novos sintomas e novas demandas para compreender o mal-estar em que todos nós estamos envolvidos, de uma forma ou de outra. 

Novas condições de trabalho e os laços sociais existentes no mundo globalizado e neoliberal da atualidade, a agressividade, a violência e a crueldade se disseminam, não havendo qualquer espaço para nos proteger.

Ao mesmo tempo, os laços de solidariedade se enfraquecem o que nos jogam na insegurança ontológica, pois não temos mais a proteção do soberano e somos lançados nas incertezas da condição da vida nua, que nos destina a existir em espaços concentracionários, na inexistência de uma efetiva polis.

 

O silêncio da jovem Mey-Lee e a violência inaudita por ela experimentada, abafada pelos tambores do carnaval dionisíaco do começo do mês de março, talvez tenha sido recalcado. Mas os sintomas dessa monstruosidade violenta retornarão com a pulsão de morte nessa sociedade do espetáculo em que vivemos.

Para se corresponder com o Jornal CATARSE envie email para beneditojfc@hotmail.com.brDivulgue enviando para as pessoas que conhece.
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