UM CONTO, UMA HISTÓRIA, UMA POESIA…

ENIGMA CANINO 

(Dino Buzatti)

 

Quando eu, cachorro, sou levado para passear, diante daquele grande palácio com estátuas, vidraças, torres e cúpulas, na praça vizinha, vejo frequentemente uma espécie de caminhão preto muito bonito, cheio de ornatos, parado diante do portão. Ao redor há muita gente. E, de repente, do portão saem quatro homens carregando nos ombros uma longa caixa sem nenhuma inscrição. Esta caixa também é muito bonita, ricamente decorada. E as pessoas a olham enquanto os quatro homens, com grandes precauções, a carregam para o belíssimo caminhão. Que haverá lá dentro? A atenção do público, o luxo da apresentação, a solenidade da manobra permitiriam pensar que a caixa contém alguma coisa extraordinariamente boa, comidas raras e apreciadas, de qualquer maneira coisa para comer, do contrário não se explicariam tantas cerimônias. Enquanto a misteriosa caixa é colocada no furgão, muitas vezes notei que alguns dos presentes, especialmente mulheres, explodem em soluços. Isso também leva a acreditar que se trata de comidas excelentes. Vendo que as levam embora, os mais gulosos têm um tal desgosto que não conseguem reter as lágrimas.

 

Eis as conclusões às quais conduziria o simples bom senso. Mas os homens são sujeitos tão estranhos. Procurem adivinhar o que encerram naqueles cofres magníficos e por que permitem que os levem embora assim, embaixo do nariz, sem esboçar nenhuma resistência. Choram como bezerros, mas não movem um dedo para impedir a partida. Que gente estranha!

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