UM CONTO, UMA HISTÓRIA, UMA POESIA…

ALGUÉM O ESPERA

(Dino Buzzati)

Em alguma cidade remota que você não conhece e aonde talvez nunca terá a oportunidade de ir, há alguém que o espera. Numa velha ruazinha estreita da enorme cidade oriental, onde se escondem os últimos segredos da vida, dia e noite permanece aberta para você a porta do seu palácio encantado; o qual, a quem passa com pressa pela rua, pode parecer uma casa como tantas outras;  ao contrário, ele penetra no emaranhado de mesquitas e dos paços, com uma sucessão sem fim de salas imensas, pátios e jardins. Lá há o silêncio, a sombra, a paz e nobres cães jazem acocorados na beira das fontes, adormecendo ao murmúrio das águas. Nos vestíbulos, os altíssimos escravos negros de rosto benigno estão imóveis como estátuas de basalto; se por acaso ouvissem de longe o rumor de seus passos, voariam ao seu encontro, você nem teria tempo para atravessar a primeira sala que os encontraria todos diante de você, ajoelhados, ansiosos para ouvir suas ordens. (E no jardim mais recôndito, ao redor das fontes das ninfas, as belíssimas concubinas nuas.) Mas o rumor de seu passo não se ouve e os dias, os meses, os anos passam assim inutilmente.

Aqui você vive com dificuldade, veste-se de cinza, já perde os cabelos, as contas, na metade do mês, são penosas. Você é como os outros. A cada ano ambições e esperanças se tornam menores. Quando encontra belas mulheres não tem nem mais a coragem de as olhar. Mas, lá longe, na cidade cujo nome você ignora, um poderoso senhor o espera, para retirar-lhe todas as dificuldades: para livrá-lo dos trabalhos, do ódio, dos sustos da noite. Não seriam necessárias explicações, não teria de pronunciar nem seu nome, você poderia chegar mesmo velho, sujo, infecto. Logo, nos pátios silenciosos, a vida acordaria novamente, as lâmpadas se acenderiam sobre a mesa dos banquetes, ouviria música e o suave canto de jovenzinhas. Aquele dia seria feriado e igualmente o dia seguinte e mais um dia ainda, sempre alegria e festas contínuas até seu último suspiro. Mas você, homem, não sabe. Continua aqui a cavar a vida, fica triste, as primeiras rugas se formaram em seu rosto, deixa-se agora levar pelos anos.

Em longínqua terra do Oriente. Mas poderia acontecer, ao contrário, que esteja muito mais perto. Talvez o senhor poderoso o espere numa de nossas cidades que você conhece. Em Nápoles, por exemplo, se escancaram, nas velhas ruelas, imensos portões brasonados, escuros e taciturnos, além dos quais, evidentemente, repousam segredos. Talvez seja um destes. Você precisaria subir a escadaria sem se impressionar com o pó, a sujeira, os ratos, os muros descascados. No alto, há uma porta entreaberta. Abra-a. Entre. Encantado, verá que aqui desapareceram o abandono, a pobreza, a sujeira, tudo lhe parecerá alegre e cheio de luz. “Chegou! Chegou!”, gritarão das profundezas da morada.

Em Nápoles, por exemplo. Mas talvez poderia ser ainda mais perto e não mais a cem quilômetros, numa cidadezinha do interior. Existem aqui pracinhas afastadas onde os caminhões não passam: e ao lado se erguem certas casas antigas, cheias de dignidade, com ornamentos de plantas trepadeiras. Ao lado da porta, está suspenso o puxador da campainha que se ouve ressoar além da porta, despertando longos ecos no saguão; então, no andar de cima, o piano para de tocar e um cão late. Mas você não precisa puxar a campainha. Logo que tiver apoiado a mão no batente de madeira verde, ele se abrirá rangendo. E aparecerão no fundo do pórtico os canteiros floridos, você ouvirá o zumbido das vespas, uma voz grave em meio à penumbra dará as boas vindas. E o dono lhe explicará que o esperava há muitíssimo tempo: é para você a casa, a moça do piano, o rouxinol noturno, os outros recursos.

Num palacete de província. Mas pode se encontrar também muito mais perto, realmente a alguns passos, entre as paredes da sua própria casa. Na escada, no terceiro andar, você nunca viu, à direita do patamar, aquela porta sem campainha nem nome? Aqui talvez, para facilitar-lhe as coisas ao máximo, espera-o aquele que desejaria fazê-lo feliz: mas não pode avisá-lo. Portanto, tente, da próxima vez que passar por lá, tente abrir a porta sem nome. Verá como cede. Suavemente rodará sobre os gonzos, um impulso irracional o levará a entrar, você ficará atordoado: eis no coração do edifício popular, um depois do outro, em vertiginosa perspectiva, salões principescos. Nas cortinas, nas pratarias, nos tapetes que cobrem os muros você perceberá sinais gravados: as siglas de seu nome obscuro. Mas você não tenta abrir, indiferente, passa em frente, para cima e para baixo, pela manhã e à noite, no verão e no inverno, este ano e ano que vem, negligenciando a ocasião.

Entre as paredes da sua própria casa. Mas como excluir que esteja ainda mais perto aquele que lhe quer bem? Enquanto você lê estas linhas, talvez ele esteja do outro lado da porta, cuidado, na sala ao lado; espera-o em silêncio, não fala, não tosse, não se move, não faz nada para chamar a atenção. Compete a você descobri-lo. Mas você, homem, nem ao menos se levanta, não abre a porta, não acende a luz, não olha. Contudo, se você for, não o verá. Ele está sentado num canto, segurando na mão direita um pequeno cetro de cristal e lhe sorri. Você, porém, não o vê. Desiludido, apaga a luz, bate a porta, volta para a outra sala, sacode a cabeça, aborrecido com estas nossas absurdas insinuações: em breve, terá esquecido tudo. E assim você desperdiça a vida.

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