O CINEASTA LUIS BUÑUEL E OS REIS NUS DA MPB

Roberto Carlos, Chico, Caetano, pérolas da música popular brasileira, querem controlar o incontrolável. Sartrianamente falando, da mesma forma que estamos condenados à liberdade, também somos prisioneiros de nossas escolhas. Chico, por exemplo, jamais poderá apagar que foi poderosa pena contra a opressão e a estupidez da ditadura civil-militar brasileira. Roberto Carlos parece não se importar em ser um empregado de luxo da Globo.

Mas ambos são contra as biografias não autorizadas. Alguém precisa avisá-los que já autorizaram o registro histórico, que é escrito nas páginas da existência. Esse não dá pra apagar. O homem não é dono daquilo que ele deixa como legado ao mundo (citando novamente ele, Sartre). Está aí o palestino Jesus, que não nos deixa mentir. Soubesse ele que sua doutrina não escrita e suas biografias não autorizadas transformar-se-iam em matéria para a exploração e degradação dos homens por pa$tores e igreja$, teria ele permitido? Acreditamos que isso sequer passou pela cabeça do homem que mudou o mundo com sua mensagem de amor e justiça social, o comunismo verdadeiro.

Desta maneira, os chicos da MPB – cheia deles, aliás – agarram-se ao intangível. Mancham a biografia de maneira mais irrevogável que qualquer biógrafo do jornalismo marrom poderia fazê-lo. Querem censurar o imensurável, e neste sentido são piores que os censores que outrora cortaram seus versos. Não aprenderam com os erros do passado? Não perceberam que a liberdade venceu?

Em caso negativo, aprendam, pois, com um artista autêntico, que tinha a vantagem de perceber um mundo onde o real era o menos interessante, e a verdade, uma frágil ilusão.

A memória é permanentemente invadida pela imaginação e pelo devaneio, e como existe uma tentação de acreditar no imaginário, acabamos por transformar nossa mentira em verdade. O que aliás só tem importância relativa, já que ambas são igualmente vividas e pessoais.

Neste livro, semibiográfico, no qual ocorrerá que me desvie como num romance picaresco, que me abandone ao charme irresistível do relato inesperado, talvez ainda subsistam algumas lembranças enganosas, apesar de minha vigilância. Torno a repetir, isso tem pouca importância. Sou feito de meus erros e de minhas dúvidas, bem como de minhas certezas. Não sendo historiador, não utilizei nenhuma anotação, nenhum livro, e o retrato que ofereço, de toda maneira, é o meu, com minhas afirmações, minhas hesitações, minhas repetições, minhas lacunas, com minhas verdades e minhas mentiras, em uma palavra: minha memória.

In Meu Ultimo Suspiro, deliciosa autobiografia do cineasta espanhol, mestre do surrealismo.

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