O CALVÁRIO DE UMA PRESA POLÍTICA NO BRASIL DO SÉCULO XXI

Da Caros Amigos

Presa no dia 11 de junho, Stephanie foi indiciada por danos ao patrimônio e formação de quadrilha
Por Amanda Cotrim
Especial para Caros Amigos

Em entrevista exclusiva, a única mulher presa no ato do dia 11 de junho, fala com à Caros Amigos sobre o percurso entre algemas, celas, assédios morais e camburão. Foram três dias em quatro cadeias: duas delegacias, uma detenção provisória e até uma penitenciária de segurança máxima. Seu crime? Ter ido às ruas se manifestar.
“Eu achei que seria levada até a delegacia para prestar esclarecimentos. Quando fui transferida para a Detenção Provisória de Franco da Rocha, tive muito medo”, revela Stephanie Fenselau, 25, estudante do quarto ano de geografia da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Pacata, como é chamada, foi presa após participar da manifestação contra o aumento da tarifa no transporte público de São Paulo, no dia 11 de junho, uma terça-feira. Especulou-se nas redes sociais que a polícia estaria usando os manifestantes detidos como moeda de troca, para evitar novos atos.

Liberdade Provisória
Atualmente, Pacata está em liberdade provisória e responde por formação de quadrilha e dano ao patrimônio público. Está impedida de sair na rua das 20h às 6h da manhã. “Isso é um problema, porque minha faculdade é à noite”. Mesmo não sendo mais ré primária, ela garante que isso não a tirará dos protestos. “Minha revolta ficou ainda maior”. Não havia sido a primeira vez que Pacata tinha participado de manifestações populares. Militante, a jovem, já em 2006, em São Paulo, participava de atos contra o aumento da tarifa e, por isso, conhecia o Movimento Passe Livre (MPL).
Quanto aos novos rumos que as manifestações tomaram a partir de meados de junho, o que fez o próprio MPL suspender novos atos, por causa do caráter conservador de algumas reivindicações – impeachment de Dilma ou pela redução da maioridade penal -, a estudante é enfática: “Acredito que a esquerda deve unir forças nesse momento e levantar as bandeiras históricas da classe trabalhadora, mobilizando a periferia e os trabalhadores em geral. Disputando as manifestações”.Confira a entrevista na íntegra.

Caros Amigos – Aonde você estava no dia 11 de junho?
Stephanie Fenselau – Naquela terça-feira, eu estava em São Paulo e decidi ficar na cidade para poder participar da manifestação. Eu participei durante todo o ato, desde a concentração até a mobilização na Avenida Paulista. Durante a manifestação, presenciei diversos conflitos por parte da Polícia Militar. Eles reprimiram duramente. Jogavam bombas e as pessoas saíam correndo. Mesmo assim, conseguimos manter o ato na Paulista. Quando os manifestantes avançavam, a polícia foi pra cima e fechou linhas do metrô com o apoio da Tropa de Choque, que começou a reprimir violentamente. Nesse momento, por volta das dez horas da noite, diante da intensa repressão, muitos manifestantes dispersaram. Eu deixei a Paulista com um amigo. Descemos a Avenida Brigadeiro Luis Antônio para esperar outros colegas. Nesse momento, dez motos da Rocam (Ronda Ostentiva com Apoio de Motocicletas) nos cercaram. A gente estava conversando e perto da gente tinha um grupo que participava da manifestação, do qual não tínhamos nenhuma ligação. Os policiais desceram das motos e nos deram um enquadro. Não fui revistada porque não havia nenhuma policial, mas minha bolsa foi revirada. Comigo, mais sete pessoas foram presas. Naquela noite, 20 manifestantes foram detidos.

CA – Como foi a abordagem dos policiais da Rocam?
SF – Extremamente truculenta. Sofri violência psicológica. Me xingaram de burra; disseram que iam levar a gente pra delegacia. Fui levada para o 78º DP, no bairro Jardins, região da Paulista.

CA – Por que que você acha que foi presa?
SF – Porque eu estava participando de um ato. Estava me manifestando.

CA – Você resistiu à prisão em algum momento?
SF – Como eu não tinha feito nada, achei que iam me levar até o DP, mas para averiguação.

CA – O que aconteceu quando você chegou no 78º DP?
SF – Me deixaram esperando por cerca de quatro horas. Fiquei numa cela sozinha. Não pude avisar minha mãe, nem mesmo um advogado. Não me deixaram. Só fui depor durante a madrugada, por volta das duas horas. Aí, então, eu descobri sobre o que eu estava sendo acusada. Na verdade eu assinei um boletim de ocorrência aonde constava, apenas, o artigo, mas não explica o motivo da prisão. Eu fiquei na 78º DP até a tarde de quarta-feira, 12. Passei a madrugada na cela, sem conseguir dormir, não me deram nada pra comer, não tinha colchão e me mantiveram incomunicável: novamente não me deixaram ligar pra minha família e nem para um advogado. Foi uma noite horrível, de muita humilhação. Me diziam “Fica quieta”. Mesmo depois de eu ter prestado depoimento, não me deixaram avisar a minha família. E não havia nenhum argumento. Simplesmente não te respondem nada. Um clima de terror.

CA – Do que você é acusada?
SF – Formação de quadrilha e danos ao patrimônio público.

CA – Quais são as provas de dano ao patrimônio público? Há imagens?
SF – Não tem nenhuma prova porque eu não participei de nenhum dano ao patrimônio. Eles estão lidando com testemunho de policias. E a formação de quadrilha é uma forma deles criminalizarem os movimentos sociais. Isso é muito grave.

CA – Ninguém te informou absolutamente nada, se seria solta, se ficaria lá?
SF – Não. Na tarde de quarta-feira, 12, eu fui transferida para a 89º DP, que fica no Morumbi. Trata-se de um DP feminino, onde as presas ficam até serem transferidas para algum presídio. Eu fiquei na cela com outras mulheres. Por incrível que pareça, me senti muito mais confortável, porque eu tinha com quem conversar. Não estava mais isolada.

CA – Você sofreu alguma agressão física?
SF – Não. A pior agressão foi a psicológica. Principalmente por parte da PM. A abordagem da Rocam foi a mais violenta. Te xingam o tempo inteiro. E você não pode responder, senão te prendem por desacato. Você tem que abaixar a cabeça, mesmo ouvindo todas aquelas atrocidades. Isso foi o mais revoltante.

CA – 
Qual foi o pior momento?
SF – Quando eu soube que seria transferida do 89º DP para a detenção de Franco da Rocha. Eu estava jantando, dei duas colheradas na marmita e o carcereiro disse pra eu parar de comer, que eu iria ser transferida. Foi angustiante. Porque não me diziam nada, nem meus advogados sabiam. E eu não podia perguntar. Tem sempre que abaixar a cabeça quando passa perto de algum funcionário. É um ambiente extremamente autoritário. Mesmo assim eu não me contive e perguntei. Mas disseram que não podiam me falar, foi aí que eu achei que iam desaparecer comigo.


CA – Por quê?
SF – Pediram para eu tomar um remédio. “Toma isso”. Mas eu disse, “mas o que é isso?”. Disseram que era para evitar que eu tivesse enjôo. Eu resisti. Imaginei tudo de ruim, porque eu estava à mercê deles.

CA – E você tomou?
SF – Tomei. Mas só arrisquei porque me garantiram que o remédio era o Plasil, realmente para evitar enjôos.

CA – Conte sobre sua transferência para Franco da Rocha.
SF – Eu fui pra lá na quinta-feira de manhã cedinho, dia 13. E aí tem toda a questão de como é o transporte. Foi uma das piores experiências que eu tive. O camburão é todo fechado. As mulheres vão presas uma ao lado da outra e você precisa ficar agachado. Quanto mais você mexe a mão, mais a algema aperta. No camburão tem uma espécie de tábua no meio, que divide as presas. E ainda tem uma grade. Não circula ar. É tudo escuro. Ligam a sirene e fazem um clima de terror. Uma das presas teve ataque de epilepsia. A gente gritava lá dentro pedindo pra parar e socorrê-la. Mas eles não atenderam. Quando chegamos no IML (Instituto Médico Legal), já havia passado a convulsão, mas ela ainda estava passando mal e não teve socorro.A gente passou por tudo isso, sem ter sido sentenciado. Somos suspeitos. Mas fomos tratados como se já tivéssemos sido condenados por um crime hediondo.

CA – O que aconteceu quando você chegou na Detenção de Franco da Rocha?
SF – Eu passei por uma revista. Por algum motivo eles me separaram das outras presas, mas até hoje eu não sei o porquê. Me colocaram de frente para parede e gritavam para eu não olhar pra trás. Lá, eu conheci de perto o horror que é a revista policial. As mulheres ficam nuas na frente das funcionárias e precisam agachar na frente de um espelho, para mostrar que não trazem nada dentro da vagina. É uma situação muito humilhante.

CA – A essa altura, sua família já sabia da prisão. A sua mãe conseguiu te visitar?
SF – Não. Não pude ver ninguém a não ser os advogados do MPL.

CA – Você pretende processar o Estado?
SF – Pretendo. Mas isso está nas mãos dos advogados. O processo está correndo.

CA – Qual é a sua situação na Justiça, agora?
SF – Eu fui solta pelo juiz Eduardo Pereira Santos Jr., do Departamento de Inquéritos Policiais de São Paulo (Dipo 4). Mas estou em liberdade provisória porque os advogados conseguiram um afrouxamento na acusação de formação de quadrilha (crime inafiançável, artigo 288 do Código Penal), o que foi possível para eu sair da prisão. Foi pago o valor de dois salários mínimos, mas eu ainda respondo por formação de quadrilha e por dano ao patrimônio público. Ainda serei julgada.

CA – E como está sua rotina?
SF – Está complicado, porque eu estudo à noite e como estou em liberdade provisória, eu não posso ficar na rua das 20h às 6h.

CA – Como está seu lado psicológico e emocional? Você conseguiu entender o que aconteceu e o que está acontecendo?
SF – Eu estou digerindo. Mas tudo isso só me deixou com mais raiva e mais vontade de lutar. O que ficou claro pra mim é que quando é um preso que tem carinha de classe média a polícia trata de um jeito, quando é da periferia é de outro.

CA – Você não viveu a ditadura militar, mas foi chamada de presa política. O que você pensa sobre isso?
SF – Sou presa política no momento em que fui presa por participar de uma manifestação. Porém, acho que todos os presos têm um viés político, por conta do recorte de classe da nossa sociedade. Onde a polícia age com mais truculência? É na periferia, nas favelas, nos morros, com os movimentos sociais.

CA – O que mais te marcou durante essa jornada de prisão em prisão?
SF – Eu vi pessoas sendo presas porque roubaram um agasalho. E talvez essa pessoa nunca consiga sair da cadeia, porque não tem advogado. Eu conheci uma jovem, da periferia que tinha apanhado muito da polícia antes de chegar no 89º DP. Isso eles não fazem com um preso “que tem cara de classe média”.

CA – O tratamento da polícia muda?
SF – Totalmente.

CA – E por que ele é diferente?
SF – Porque a polícia faz um recorte social. No imaginário do PM, a classe média pode pagar um advogado e qualquer denúncia de maus tratos seria apurada. Diferente de alguém que mora na favela.

CA – Você está acompanhando as manifestações? Qual sua opinião sobre as proporções que elas tomaram? Elas não pertencem mais ao MPL. Tem muita gente indo pra rua, inclusive levantando bandeiras conservadoras.
SF – Estou acompanhando. Acho importante as manifestações estarem acontecendo e a luta não deve parar depois da redução da tarifa. Tenho a preocupação com relação às bandeiras conservadoras, existe um setor reacionário tentando mudar o foco das manifestações (utilizando-se inclusive da mídia para isso). Acredito que a esquerda deve unir forças e levantar as bandeiras históricas da classe trabalhadora, mobilizando a periferia e os trabalhadores em geral. Disputando as manifestações.

Você voltaria às ruas para participar de uma nova manifestação?
Sim, voltaria. Porque acredito que é somente organizado e em luta que nós conseguiremos avançar para transformar a sociedade. Apesar dos protestos estarem sendo disputados pela direita, existe espaços para discussão com viés de esquerda e podemos pressionar os governantes para se atentarem às demandas dos trabalhadores, como a necessidade de moradia e redução da jornada de trabalho.

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