Breve nota sobre o Amor Sublime

Ele já estava exatamente há cinco horas sentado a minha frente. Nestas cinco horas, nada torturantes, mas incrivelmente exaustivas para ambos, nossos olhos se entrecruzavam sem cessar. A obra dos olhos se confundia com a obra do amor perfeito, um dia sonhado. Disse que me amava com uma calma avassaladora. Fiquei quieta. Disse que o amor é algo singular, nunca antes descoberto e que não podemos falar nada sobre ele. Inefável. Disse-lhe que o amor não é nada. Retrucou: o amor é a maior coisa do mundo, pena não sabermos o que fazer com ele. Continuou divagando. Suas ideias me doíam. Nada mais dolorido que a corrupção da alma que se dá pela angustia de se saber malogrado intelectualmente por um tema emocional. Insistiu em dizer que o amor era sublime, singular, nada poderia decifrá-lo; inefável. Disse-lhe que não. A mesa no centro. A garrafa na mesa. Os copos a serem preenchidos. Pegou a garrafa. Quebrou na cadeira onde sentava. Escorregou em seu pescoço o pedaço quebrado em sua mão. Deitou-se. Pensei em fazer como em muitas literaturas a morte conjunta. O suicídio compartilhado. Mas não! Não acredito no amor sublime. O amor é exatamente o que não se diz. Contudo, se entende sentido não com o coração, mas com os sentidos.

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