EU, O CORONEL EM MIM

Certa vez eu fui duramente criticado quando escrevi que a realidade precisa ser inventada. Me referia na ocasião a todo tipo tipo de invenção que o homem já criou com o propósito de melhorar a vida, aí incluídos os instrumentos, as máquinas e os aparelhos. Mas também posso citar as artes em geral.

José Cristian Góes, jornalista sergipano, baseado nas suas memórias inventadas criou a realidade do ponto de vista da ficção. Um desembargador, de nome Edson Ulisses, vice-presidente do Tribunal de Justiça, achou que aquela invencionice do jornalista era mera cópia da realidade e viu ele próprio retratado pelo texto. Assumiu-se então como personagem fictício e adotando para si o pseudônimo “jagunço das leis” pediu a prisão do narrador do texto por injúria.

Na literatura pós-moderna, autor e personagem confabulam e por vezes o protagonista, rejeitando o destino que o autor lhe concedeu, toma-lhe a pena e passa a se narrar enquanto vive aquela história.

Foi o que ocorreu em Sergipe, reescrito o fim da história, tornou-se autor em réu, processo em sentença e pela assinatura de Luiz Eduardo Araújo Portela, juiz substituto e personagem que não fazia parte da trama até então, deu-se a condenação a sete meses e dezesseis dias de reclusão. Porém convertida em prestação de serviço de entidade assistencial não definida, mesmo porque em se tratando de literatura, os nomes que não fazem sentido na trama são excluídos.

Isto posto, vamos ao texto que gerou toda essa anarquia.

Eu, o coronel em mim*

Mando e desmando. Faço e desfaço

Está cada vez mais difícil manter uma aparência de que sou um homem democrático. Não sou assim, e, no fundo, todos vocês sabem disso. Eu mando e desmando. Faço e desfaço. Tudo de acordo com minha vontade. Não admito ser contrariado no meu querer. Sou inteligente, autoritário e vingativo. E daí?

No entanto, por conta de uma democracia de fachada, sou obrigado a manter também uma fachada do que não sou. Não suporto cheiro de povo, reivindicações e nem com versa de direitos. Por isso, agora, vocês estão sabendo o porquê apareço na mídia, às vezes, com cara meio enfezada: é essa tal obrigação de parecer democrático.

Minha fazenda cresceu demais. Deixou os limites da capital e ganhou o estado. Chegou muita gente e o controle fica mais difícil. Por isso, preciso manter minha autoridade. Sou eu quem tem o dinheiro, apesar de alguns pensarem que o dinheiro é público. Sou eu o patrão maior. Sou eu quem nomeia, quem demite. Sou eu quem contrata bajuladores, capangas, serviçais de todos os níveis e bobos da corte para todos os gostos.

Apesar desse poder divino sou obrigado a me submeter à eleições, um absurdo. Mas é outra fachada. Com tanto poder, com tanto dinheiro, com a mídia em minhas mãos e com meia dúzia de palavras modernas e bem arranjadas sobre democracia, não tem para ninguém. É só esperar o dia e esse povo todo contente e feliz vota em mim. Vota em que eu mando.

Ô povo ignorante! Dia desses fui contrariado porque alguns fizeram greve e invadiram uma parte da cozinha de uma das Casas Grande. Dizem que greve faz parte da democracia e eu teria que aceitar. Aceitar coisa nenhuma. Chamei um jagunço das leis, não por coincidência marido de minha irmã, e dei um pé na bunda desse povo.

Na polícia, mandei os cabras tirar de circulação pobres, pretos e gente que fala demais em direitos. Só quem tem direito sou eu. Então, é para apertar mais. É na chibata. Pode matar que eu garanto. O povo gosta. Na educação, quanto pior melhor. Para quê povo sabido? Na saúde…se morrer “é porque Deus quis”.

Às vezes sinto que alguns poucos escravos livres até pensam em me contrariar. Uma afronta. Ameaçam, fazem meninice, mas o medo é maior. Logo esquecem a raiva e as chibatadas. No fundo, eles sabem que eu tenho o poder e que faço o quero. Tenho nas mãos a lei, a justiça, a polícia e um bando cada vez maior de puxa-sacos.

O coronel de outros tempos ainda mora em mim e está mais vivo que nunca. Esse ser coronel que sou e que sempre fui é alimentado por esse povo contente e feliz que festeja na senzala a minha necessária existência .

*José Cristian Góes – Jornalista profissional, servidor federal INSS, especialista em Gestão Pública (FGV/Esaf) e Gestão de Crise (Gama Filho). Foi secret

ário de Comunicação da Prefeitura de Aracaju e presidente do Sindicato dos Jornalistas.

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