Palavra de protesto

Muito mais ativa e clara, é a palavra que surge no mundo como ato de protesto. Mas todas as palavras são atos de protesto. Todas. Com uma condição necessária: as palavras devem quebrar a relação que há no ordinário entre seu significado totalitário legítimo e seu efeito redundante no real, rompendo o elo entre palavra e identidade significativa imposta por um consenso que dissimula a vontade de todos. Não se trata de repetir discursos e práticas legitimadas pelo poder do Estado e suas instâncias legais, responsáveis por um totalitarismo linguístico. Efetuar este corte é fazer o que Mallarmé diz referente ao enunciado: “Enunciar significa produzir: ele grita suas demonstrações práticas”.

O enunciado, presente na palavra de protesto, não pode ser reduzido à correspondência entre o consenso da democracia representativa e as legalidades normativas que ditam a verdade jurídica do poder. Se assim for, toda ação de ilegitimidade do protesto irá se concentrar não apenas na confissão necessária arrancada pela tortura, que faz a fala se manifestar em sua impotência fisiológica, psicológica e social; mas, de forma mais contundente e ostensiva, em qualquer prova material capaz de articular a coincidência entre ato e infração da lei. De outro modo: quando a palavra-ato no protesto é analisada sob as estruturas linguísticas do Estado, ela se torna ilegítima toda vez que sua ação crítica é radical e ultrapassa os limites da racionalidade normativa do Estado.   

Os eventos que vem ocorrendo no Brasil, reivindicando melhorias para o transporte público, vem sofrendo uma série de ataques da mídia defensora de uma língua maior (maior, não porque se constitui como maioria numérica, mas porque monopoliza a verdade através da gramática do poder, reproduzindo os significados de opressão e coação reconhecidos pelo Estado). Esta defesa é justamente o elo entre significado totalitário, e seus efeitos redundantes no real, espraiado pelos meios de comunicação. Este elo fica cada vez mais forte quanto mais é negada a história dos protestos, presentes como crítica narrativa, e são reduzidos às imagens e notícias que tendem a pender somente para um lado: o da direita raivosa.

Deste modo, esta mídia maior faz um grande esforço para rotular os protestos como badernas e intromissão direta no direito de ir vir da população. Sendo assim, seria até cômico chegarmos à conclusão de que os protestos, ao contrário do que a mídia maior noticia, são lutas pelo direito à livre circulação urbana. Mas nada de cômico há aí, pois a circulação urbana é a exigência de toda revolução, é ela a própria revolução (Paul Virilio). A revolução luta contra o que foi estacionado historicamente por meio das regras e acordos entre Estados e instituições capitalistas responsáveis por regulamentar a circulação na cidade.

Neste sentido, o poder do Estado é o poder de polícia confundido com o controle e regulamentação da circulação viária, de mercadorias e pessoas, fazendo a revolução (os protestos no Brasil atualmente, por exemplo) ser confundida com o engarrafamento, o estacionamento ilícito desta circulação. Nenhum protesto é bom para o Estado, uma vez que seu controle de regulamentar a circulação é colocado em dúvida.

Os vários casos de violência, praticados pelo poder do Estado que estão ocorrendo durante os recentes protestos, deixam bastante claro o quanto o monopólio da violência exercido pelo Estado é ratificado pela mídia maior e, talvez pior, o quanto esta mídia se esforça para fazer com que os protestos sejam considerados ilícitos por suas lentes e microfones.

Quando esta mídia acéfala age de tal maneira, ela demonstra nada entender de uma linguagem liberta da redundância dos significantes das palavras de ordem – provindas de verdades legitimadas mais pela força dos cassetetes, de balas de borracha em olhos investigadores, lágrimas provocadas por gás lacrimogêneo e capas de revistas pautadas no rancor, no reativo e na impotência – protetores das linguagens totalitárias. (Aliás, será se a mídia tem interesse em agir de outra maneira?) É esta linguagem liberta, gerada por uma razão movimentada na diversidade de atos interpretativos que podem fazer surgir, não apenas acordos ou consensos, mas o bem comum a todos na cidade.

 

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