DA EDUCAÇÃO DAS ELITES BRASILEIRAS

“Eu fiz um colegial (Santa Cruz) que transava muito o lado intelectual dos alunos. Era uma elite que podia ter aulas de literatura, educação artística, filosofia. E todas essas matérias eram basicamente em cima de grandes obras. Não sei se foi bom pra mim, aos quatorze anos de idade, ler Os Irmãos Karamazov, do Dostoiewski, ou A Náusea, do Sartre. Era uma fase em que eu estava mais preocupado com sexo, drogas e rock. Mas não desprezo esse curriculum pra adolescente. Aliás, é bem interessante o modo como iam sendo dados so livros. No primeiro ano, só literatura brasileira, de preferência a moderna: Mário de Andrade, Oswalde de Andrade, Jorge Amado, Graciliano, Mário Palmério…

No segundo ano, vieram os clássicos da filosofia moderna. Começamos por Sartre e suas náuseas existencialíssimas. Terrível, capaz de desestruturar qualquer adolescente frágil como eu. Percorremos Kafka e seus processos absurdos de vida. Da desestruturação, passamos a ser adolescentes surpresos com a vida sem lógica. Daí fomos para Tostoi e seus dramalhões de coletividade (países e famílias). Bem, não é a vida que não tem lógica, mas as suas instituições. Para terminar, uma cartillha cristã de um tal de Munie sei lá do que, ridícula, exaltando o cristianismo como resposta para nossas dúvidas.

Só aí entendi aonde os padres (em especial o Padre Harboneau) queriam chegar. Uma tremenda doutrinação para ganhar novos adeptos do cristianismo. Primeiro, destrói com Sartre. Depois, vai montando os pedacinhos com doses divinas do Senhor. Alguns otários caíram nessa e, já no terceiro ano, fizeram acampamentos religiosos, encontros, missas. Não sei se algum virou padre ou freira, mas acho que não. Burguesia não entra nessa. A maioria ficou indiferente como toda “maioria”. Eu e alguns colegas entramos em parafuso. Piramos. Crises existenciais típicas. Fazíamos laboratórios experimentais (transar o corpo). Comecei a compor músicas altamente introspectivas que falavam de podridão e do falso sentir de cada um. Da farsa, da vida inútil. Mais tarde, desencanei disso tudo e virei surfista.

Trecho do livro “Feliz Ano Velho” de Marcelo Rubens Paiva, 1982.

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