A ENERGIA ELETRICA ESTÁ QUASE CHEGANDO EM MANAUS

Direto do Jornal Catarse

No JORNAL PESSOAL nº 535 o jornalista paraense publicou uma matéria que interessa aos Amazonenses. Esse jornal  publica na íntegra a matéria. Leia baixo:

GRANDES PROJETOS: ELEFANTES BRANCOS?

Lúcio Flávio Pinto

Com seus 1.800 quilômetros de extensão, a linha de transmissão de energia de Tucuruí a Macapá e Manaus não é a mais extensa do Brasil. Mas é a de maior complexidade atualmente em construção. Ela possibilitará que a capital do Estado do Amazonas, a cidade de maior população da Amazônia (com dois milhões de habitantes), já superior a Belém, saia do seu atual isolamento e passe a fazer parte do Sistema Interligado Nacional.

O SIN une o Brasil quase por inteiro, sob um controle centralizado (do Operador Nacional do Sistema). O ONS compatibiliza cada uma das bacias hidrográficas do país, despachando energias de uma área com excesso de geração para outra, com escassez. É sistema único no mundo, em tais dimensões.

Mas para que chegue ao Amazonas, ao Amapá e à margem norte do Pará, a linha terá que atravessar o rio Amazonas, que pode atingir 40 quilômetros de largura em alguns trechos. Uma alternativa era o lançamento de cabos subaquáticos. A hipótese foi descartada. A solução foi fazer a travessia aérea.

Duas torres possibilitarão a passagem por sobre o mais extenso e volumoso rio do planeta, cuja bacia drena 8% da água doce superficial da Terra. Em cada margem do rio, as duas torres serão as maiores já erguidas em qualquer parte do mundo. Sua altura, de 295 metros, é só um pouco inferior à Torre Eiffel, o cartão postal de Paris.

Essa dimensão é necessária para dar segurança aos cabos, que percorrem 2,5 quilômetros sobre as águas turbulentas de cada lado do rio. Nesse ponto, ele tem intensa e franca navegação, como se fosse um braço de mar. No seu todo, a linha terá 3.351 torres, com alturas variando de 45 a 180 metros.

O circuito será duplo. Superado o Amazonas, uma linha, de menor tensão, seguirá no rumo leste por 350 quilômetros, até Macapá, a capital do Amapá, virada para o Oceano Atlântico. A outra linha, com mais do dobro de potência, infletirá no rumo oeste, por quase mil quilômetros, para atingir Manaus, no centro da selva amazônica.

Com o acesso à energia extraída do rio Tocantins, na barragem de Tucuruí, em operação desde 1984 (é a quarta maior do mundo, respondendo, sozinha, por 9% de toda geração nacional), o Brasil terá uma economia de dois bilhões de reais por ano, por deixar de usar derivados de petróleo nas usinas térmicas que atualmente suprem essas áreas.

Por esse cálculo, o investimento na linha, de R$ 3 bilhões, seria pago em pouco mais de um ano. Além dessa economia, o fornecimento predominante de energia renovável, reduzindo drasticamente o uso de combustível fóssil, evitaria a emissão na atmosfera de quase três milhões de toneladas de carbono.

Uma das vencedoras da licitação da linha, em março de 2008, foi a Manaus Transmissora de Energia S/A, uma SPE (Sociedade de Propósito Específico, o arranjo jurídico pelo qual as grandes empresas passaram a optar) formada pelas estatais Eletronorte, Chesf, e pela espanhola Abengoa. Essa empresa ficou com 586 quilômetros do “linhão”, no Amazonas e Pará. A Isolux , que também é espanhola, venceu sozinha os outros dois lotes, As obras deverão estar totalmente concluídos até julho deste ano, segundo o cronograma das empresas. A energização começou a ser testada neste mês.

Ainda há alguns pontos em aberto no processo de licenciamento ambiental pelo Ibama . O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis é criticado por demorar na emissão das licenças de operação, que precisam estar com as concessionárias a partir deste mês, quando podem começar os testes de energização.

A pressão é forte. Os moradores de Manaus são obrigados a conviver com cortes constantes no fornecimento de energia e água, atormentando a vida dos indivíduos e causando prejuízos às empresas. Na capital amazonense está instalado o maior parque industrial de montagem de matérias primas e insumos importados, que resultam em bens manufaturados (como aparelhos eletroeletrônicos e motocicletas), vendidos em todo país com isenção dos direitos federais sobre a importação. Um modelo de desenvolvimento polêmico, mas que continua a ser o fundamento da atividade produtiva na maior unidade federativa do Brasil (e a mais distante do Brasil).

O Ibama costuma ser excessivamente burocrático na apreciação de empreendimentos de grande porte e impacto, como o “linhão”. Mas é pouco provável que dê causa a atraso, mesmo que persistam dúvidas e suspeitas sobre os efeitos dessa obra. Atravessando extensas áreas de floresta densa, com árvores de mais de 40 metros de altura, essa nova linha certamente atrairá ainda mais raios do que a linha de Tucuruí a Belém.

Foi justamente por causa da suspensão no fornecimento da energia por essa linha que, 20 anos atrás, ocorreu o maior blecaute (de 12 horas seguidas) já sofrido por uma indústria de alumínio em todos os tempos. Na ponta desse circuito está a Albrás, a 8ª maior usina de alumínio primário do mundo, responsável por mais de 1% do consumo de energia de todo Brasil. Por pouco a fábrica não teve que ser demolida em função da demorada interrupção da energia. O acidente foi atribuído a um raio.

Na Amazônia, essas intervenções humanas costumam só ser percebidas e discutidas quando já estão realizadas e apenas se podem remediar seus eventuais fatores negativos, que não foram devidamente avaliados. As obras do “linhão” começaram há três anos. Sempre há pressa, com sua liturgia de justificações. Pressa que fez o governo militar gastar valor semelhante ao do “linhão” na hidrelétrica de Balbina.

Menos de três décadas depois, essa hidrelétrica pouco contribui para minorar a carência energética de Manaus, mercado ao qual se destinava. Talvez quando o “linhão” de Tucuruí passar por Balbina, a 200 quilômetros de Manaus, contribua para se realizar o que devia ter sido feito há tempos: arquivar essa usina – já que o açodamento não permitiu impedir que ela fosse construída, dando-lhe a condição de autêntico elefante branco. Dos inventados pelo homem, a Amazônia está cheia.

Para atingir sua capacidade nominal, de 250 megawatts, Balbina inundou uma área de 2,7 mil quilômetros quadrados, enquanto Tucuruí, que formou seu reservatório em três mil quilômetros quadrados represados no Tocantins, gera 8,4 mil MW. Em tese, 30 vezes mais. Na prática, mais ainda. Balbina jamais atingiu os 250 MW de projeto. Gera atualmente uma fração dessa potência.

O “linhão” também passará ao lado da futura hidrelétrica de Cachoeira Porteira, em Oriximiná. O projeto esteve dormindo em sono pesado nos últimos anos, mas o governo federal o está reativando. Quando, na década de 1980, parecia que a usina logo se tornaria realidade, a Construtora Andrade Gutierrez foi autorizada a desmatar a área do futuro reservatório. A madeira foi usada como lenha para secar a bauxita, produzida pela Mineração Rio do Norte. O minério não podia seguir úmido nos porões dos navios que o transportavam para o Canadá no inverno, para não congelar. Como a hidrelétrica não saiu, milhares de metros cúbicos de madeira nobre queimaram no forno da mineradora para satisfazer as exigências da multinacional canadense Alcan, que era sócia da MRN e, na época, a principal compradora do minério.

Histórias absurdas, mas verdadeiras, do caos que tem caracterizado a história recente da Amazônia.

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