SANTA MARIA DO MATO

Santa Maria do Mato

Eu fiz aquela mata tremer., urrar, ardendo inteira debaixo do meu fogo, aceso na maior fogueira que jamais se viu. O mundo todo queria pegar fogo. A terra arfava, esfumaçando debaixo do calor medonho. Estalos de metralha. Fagulhas. Artilharia de canhões. Fouetes. Bombas de estrondo dos troncos queimados que trincavam e partiam.Aquele mundo verde, entroncado, poderoso, aberto em palmas, esgalhado, lá no alto, debaixo do meu fogo escureceu. Acinzentou. Amarelou. Ficou rubro e azulou para logo perder as cores e só deixar no mundo o preto das tronqueiras queimadas sobre a brancura do manto de cinzas.Completado o rodeio do fogo, meus toucheiros se juntaram comigo. A nado, passamos pro outro lado do Paranã onde eu tinha queimado uma coivara velha. Lá ficamos olhando o fogaréu arder, desfazendo o verdemundo vegetal e com ele as mil raças de bichos e pragas que tinha aquela mata por morada. De repente, o que vimos foi o ar grosso, recheado de fumaça, estremecer animado como se ganhasse vida. Era o turbilhão de abelhas, marimbondos, cigarras, besouros que rodopiavam enlouquecidos. Ouvimos, depois, o estrondo da revoada aloucada de quanta ave e pássaro esbaforido saída de todo lado, batendo asas na busca de outro rumo, longe dos ninhos queimados.Aí eu vi, me lembro como hoje, o chão do outro lado tremer e remexer fervendo de cobras rastejando em desespero no meio de tatus, tamanduás, caxinguelês desnorteados. Onças de todo pelame saltavam n’água esturrando. Atrás delas vieram bichos e bichos atropelados. Vi até com pena, um veado atado no chão, querendo fugir sem poder: tinha os pés queimados. Uma vara de caititus descabeçada se derramou toda no rio, batendo os queixos, urrando desesperados, como só porco sabe urrar. A bicharada apavorada saía d’água, bem na nossa frente, sem nenhum temor, tanto era o medo do fogo saltando em labaredas por todo lado.Dias e dias, semanas e semanas durou o fogaréu queimando. Um mês inteiro precisou o céu para devorar as cinzas levantadas pela ventania. Nuvens tarjadas, pesadas de carvão em pó, de terra calcinada, se moviam pesadas no nevoeiro esfumaçado. O sol nascia e morria, enorme, como uma bola de carne, rubro como brasa, frio e tão apoucado de forças que mal dava para atravessar o nevoeiro e um pouco alumiar o mundo.Até no oceano mais remoto, na mãe dos mares, onde ninguém me viu e jamais saberá de Goiás nem de mim, até mesmo lá, uma grama haverá chegado da cinza da minha floresta queimada. Um grão dela lá estará dissolvido, nas águas grossas de sal virgem, ajudando a mais amargar aqueles mares de sal amargo.Acabada a mataria, o borralho ficou queimado tempos e tempos. Por fim, o fogaréu cessou e o mundo morreu. Lá ficou a terra aberta, exposta como uma ferida, debaixo do céu escaldado, arfante. Só então, caíram, en tufão, as chuvas negras, sujas, lavando o céu e depois a terra sedenta. Enxurradas espumosas de cal escorreram por todos os rumos. Aquela decoada de soda bruta se espraiou matando os peixes das águas doces, os mosquitos dos mangues, as caças e bichos sedentos.Muita água minha, daquelas foi dar no Velho Chico, buscando mais água em que se dissolver, purificar.Outras sujas águas daquelas minhas, descendo o Tocantins, foram ferver na boca do Amazonas, lá por Belém do Pará. Só lá, no maior agual do mundo, repousaram.Mais águas vivas das minhas enxurradas, correndo ligeiro, foram dar no Paraná, Paraguai, Argentina, entoldando um mundo de águas limpas para envenenar vacas, capivaras, jacarés.Aquela queimada minha, dissolvida, foi um purgante que dei ao mundo. Laxante purificador. (Trecho do Livro “O Mulo” de Darcy Ribeiro, publicado em 1981).

Segundo a Wikipédia, entre 1991 e 2000, a área total de floresta amazônica desmatada para a pecuária e estradas aumentou de 415.000 para 587,000 km²; uma área total de mais de seis vezes maior do que Portugal, 64% maior do que a Alemanha, 55% maior do que o Japão, 21% maior do que ou igual a Sichuan e 84% da área do Texas.

Apenas nos últimos cinco meses de 2012, o Imazon detectou a eliminação de 1.288 quilômetros quadrados de matas, mais do que o dobro da área devastada no mesmo período de 2011. De perto, a tragédia nos mostra do que realmente ela é feita.

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